ENTREGA DO ESTANDARTE NACIONAL
DISCURSO DO COMANDANTE DA EUTM RCA 2018
A presença de Vossas Excelências nesta cerimónia é motivo de enorme honra e satisfação.
Honra-nos institucionalmente o Senhor Ministro da Defesa Nacional ao presidir ao ato de entrega do Estandarte Nacional ao Contingente que durante o próximo ano liderará a European Union Training Mission no Teatro de Operações da República Centro Africana.
Honra-nos a presença do General CEMGFA, Chefe Militar de mais elevada autoridade na hierarquia das Forças Armadas e responsável pela capacidade de resposta militar do nosso país, que desde a primeira hora tem dedicado a maior atenção a esta missão conjunta.
Honra-nos a presença dos Chefes dos três Ramos das Forças Armadas. Coube ao Exército a tarefa de aprontar este contingente, assumindo também a responsabilidade pela sua futura sustentação, pelo que a presença do Comandante do Exército é um sinal de estímulo e de confiança quanto à continuidade das condições para o cumprimento da Missão. A natureza conjunta do Contingente Nacional na EUTM RCA só foi possível com o valioso contributo da Marinha e da Força Aérea. Estou certo que muito beneficiaremos com a diversidade e a qualidade dos militares da nossa Marinha e da nossa Força Aérea que integram a Missão.
Portugal tem hoje um registo assinalável no contributo para a paz e estabilidade mundiais. Este é um momento de continuidade para as Forças Armadas Portuguesas, cujo historial recente de participação em missões de paz e de resposta a crises fora do Território Nacional teve
Portugal Junto das Estruturas do Processo de Paz em Angola, na sequência dos acordos de Bicesse.
O cumprimento destas missões proporcionou condições para a melhoria das nossas capacidades e processos de atuação em ambiente multinacional, em missões e Teatros de Operações exigentes.
Hoje somos nós os continuadores da obra extraordinária dos militares que nos antecederam na procura da paz fora do Território Nacional, fosse no âmbito das Nações Unidas, da NATO ou da União Europeia.
Entendemos a nossa participação na Missão da União Europeia na RCA nesta linha de continuidade que muito tem prestigiado Portugal no contexto das Organizações Internacionais de que fazemos parte.
Portugal assumirá o Comando da Missão durante um ano, com início no próximo dia 11 de Janeiro, rendendo o Eurocorpo nesta função.
O facto de Portugal comandar esta Missão constitui uma exigência suplementar. É um encargo que assumimos com a honra e o orgulho natural que advém do privilégio do exercício do comando de uma missão multinacional conjunta da União Europeia. Mas é também uma missão que assumimos com o adequado sentido de responsabilidade, resultante do conhecimento que já temos da situação, dos recursos disponíveis, dos desafios que se nos deparam e da perceção das dificuldades que necessariamente teremos que ultrapassar.
A EUTM tem por missão a preparação e implementação da Reforma do Setor de Defesa da RCA através de três linhas de ação principais:
Estado-a conceção e implementEstado-ação dEstado-a novEstado-a estruturEstado-a superior dEstado-a DefesEstado-a Nacional e das Forças Armadas;
(ii) A Formação de Oficiais e Sargentos destinados às Forças Armadas da República Centro Africana;
(iii) A execução de Treino Operacional de Unidades das Forças Armadas da República Centro Africana.
A ação da EUTM RCA desenvolve-se no contexto mais abrangente da Reforma do Sector de Segurança em estreita coordenação com a Missão das Nações Unidas para a República Centro Africana (MINUSCA).
Nesta missão convergem, portanto, várias dimensões que exigem a nossa atenção.
A dimensão das Nações Unidas, efeito das várias Resoluções do Conselho de Segurança relativas à RCA (em particular a 2387(2017)), da inerente relação com a MINUSCA e com as diferentes agências no terreno.
A dimensão da União Europeia, resultante da Decisão do Conselho Europeu que estabelece a missão (CFSP 2016/610) e da consequente tutela política e estratégica a partir do Comité Político e de Segurança e do Estado-Maior da União Europeia em Bruxelas.
A dimensão da União Africana e de outras Organizações Regionais com uma participação ativa no processo em curso como é o caso da Comunidade Económica dos Estados da Africa Central.
A dimensão nacional resultante das decisões de política de Defesa Nacional e das Forças Armadas.
A dimensão da própria EUTM RCA, a sua natureza multinacional e conjunta com os seus 170 militares, de 12 nacionalidades, que é necessário liderar em proveito dos objetivos da missão.
Finalmente, a dimensão Centrafricana com a sua realidade sanitária e de segurança, o relacionamento com o poder político, em particular o Ministério da Defesa e as Forças Armadas.
A situação na RCA é reveladora de uma crise muito complexa, com origens antigas, com muitos atores internos e externos, muitos interesses e muitos jogos de poder.
Num território equivalente ao de Portugal e Espanha juntos, a autoridade do Estado é quase inexistente para lá da capital Bangui.
A população está sujeita aos maiores abusos dos Grupos Armados que proliferam, revelando fadiga extrema, perda de referências de conduta e, paradoxalmente, desconfiança e até animosidade face alguns atores da Comunidade Internacional, em particular relativamente à ação de algumas forças da MINUSCA, exceção feita à QRF Portuguesa, cuja prontidão, imparcialidade e eficácia na ação, são reconhecidas em Nova Yorque, Bruxelas e Bangui. Fruto do desempenho excecional da nossa tropa, o capital de prestígio dos portugueses é enorme. É um prestígio de que todos beneficiaremos. Importa preservá-lo sabendo, no entanto, da frágil situação que caracteriza a República Centro Africana.
Tratando-se de uma missão com características particularmente exigentes, e seguindo os bons princípios do planeamento militar, desenvolvemos o nosso plano de aprontamento no passado mês de outubro. A 02 de novembro iniciámos o treino operacional orientado para a missão.
Estados Membros e Estados Parceiros os efetivos que integrarão o quartel-general conjunto e multinacional. Reunimos com as autoridades militares francesas no Centre de Planification et Conduite des Opérations em Paris.
Considerando os requisitos operacionais no quadro do treino orientado para a missão, desenvolvemos e validámos diversas competências, tais como a preparação médico-sanitária, a área administrativo-logística, o pre-deployment training, o mecanismo athena da UE para a gestão financeira, a proficiência em língua francesa e inglesa, a emergência médica, a aptidão física, o tiro de combate estático e dinâmico de armamento ligeiro, a análise das normas de execução permanente afetas ao trabalho de estado-maior e de procedimentos táticos padrão, e a realização do reconhecimento de Comandantes em Bruxelas e em BANGUI.
No passado dia 19 de dezembro recebemos a visita do Director General do Military Planning and Conduct Capability e Comandante das missões militares da UE em África. Em 20 de dezembro último, realizou-se uma realizou-sessão de trabalho com a Inspeção Geral do Exército com a finalidade de se validar o processo de certificação em áreas específicas.
Senhor Ministro da Defesa Nacional, Meus Generais, Senhores Almirantes,
Estamos prontos para prosseguir a missão, contribuindo para a Estratégia Global da União Europeia, no quadro da Política Externa e de Segurança Comum e também dos nossos interesses nacionais.
Sabemos que ganhar a paz é mais difícil do que fazer a guerra. Construir e manter a paz em África é um desígnio de longa data para a Sociedade Internacional, para a União Europeia e, em particular, para
Atuaremos com a legitimidade decorrente das decisões assumidas pela União Europeia no âmbito da solicitação efetuada pelas autoridades da República Centro Africana e de acordo com as superiores orientações recebidas de Portugal.
Procuraremos uma coordenação permanente com as outras Organizações Internacionais e uma ligação estreita às autoridades políticas e militares da RCA.
A imparcialidade constituirá um elemento essencial da nossa postura, de modo a assegurar-se a evolução do processo de reconciliação nacional que viabilize a obtenção de melhores condições para o desenvolvimento da RCA, cujo valor se reconhece como intangível para a segurança dos seus cidadãos e também para nós, cidadãos da União Europeia.
Procuraremos honrar a nossa relação secular com África e valorizar a experiência de mais de três décadas de nossa Cooperação Técnico-Militar com os Países de Língua Oficial Portuguesa.
Militares do Contingente Nacional na EUTM RCA 2018
Ao terminar, dirijo-me em particular a vós aqui presentes nesta parada e aos catorze camaradas já em missão no Teatro de Operações, que diariamente ireis partilhar comigo o exigente, mas também estimulante cumprimento desta missão.
Constitui para mim uma honra e um privilégio Comandar os Soldados de Portugal e da União Europeia nesta missão nobre que nos deve a todos orgulhar.
Guiam-nos os superiores interesses nacionais e os valores das Forças Armadas, ao serviço de Portugal e dos portugueses.
Por isso, neste dia muito especial, receberemos e saudaremos respeitosamente o nosso Estandarte Nacional, símbolo mais alto da Nação e memória dos feitos dos nossos antecessores ao serviço de Portugal e que nos responsabiliza quanto ao cumprimento da nossa missão.
Uma palavra muito especial para a Família Militar e para as nossas famílias em particular. Muito obrigado pelo vosso apoio incondicional.
Juntos seremos mais fortes.
Stronger together.
Plus fort ensemble.
Boa Sorte EUTM RCA 2018.
Queluz, 22 de Dezembro de 2017
Hermínio Teodoro Maio Brigadeiro-General