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Estratégias de sobrevivência das mulheres proprietárias de escravos em Desterro

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Academic year: 2021

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Daniela Fernanda Sbravati∗ UFSC

Mulheres; escravidão; propriedade

ST 13 - Gênero e o trabalho de mulheres em grupos formais e informais

O crescimento de uma classe média que utilizava a posse de escravos como um dos caminhos para o acúmulo de riquezas é uma importante característica que atravessou o século XIX. Porém as transformações ocorridas ao longo do tempo interferiram no acesso a esse tipo de propriedade. Até a cessão do tráfico externo de 1850, a escravidão e a oferta de escravos de certa forma baratos desempenharam papel fundamental na acumulação de riqueza de comerciantes, profissionais liberais e dos que viviam de renda1. Após esse período a diminuição da oferta de mão-de-obra escrava no mercado torna mais difícil a aquisição, já que os preços também aumentaram.

Sem dúvida a posse escrava não foi utilizada somente como um caminho para o enriquecimento, mas em muitos momentos como estratégia de sobrevivência dos que possuíam poucos recursos financeiros, sem no entanto serem reconhecidos como pobres. Esse texto, que é parte da minha dissertação de mestrado em andamento, tem o objetivo de tratar da difícil situação vivida por mulheres proprietárias de escravos sozinhas, abandonadas por seus maridos ou viúvas. Essa situação possivelmente as aproximava de seus cativos. A relação existente não deixava de ser vertical, mas a precarização da existência dessas pessoas evidenciava laços fortes de dependência. A posse de escravos configurava-se em importante estratégia de sobrevivência.

O espaço de estudo é Desterro, principal freguesia urbana da Ilha de Santa Catarina, na segunda metade do século XIX. Segundo o recenseamento geral do ano de 1872 a população livre de Desterro era de 7486 habitantes, sendo 3826 homens e 3660 mulheres. Os escravos totalizavam 1122, sendo 512 homens e 610 mulheres. A cidade concentrava quase totalidade das profissões liberais e seus funcionários: 4 juizes, 9 advogados, 7 notários e escrivãos, 1 procurador, 1 oficial de justiça, 7 médicos, 3 cirurgiões, 14 farmacêuticos, todos do sexo masculino, 1 parteira , 29 professores e homens de letras, divididos entre 19 homens e 10 mulheres, 106 empregados púbicos, 164 artistas, sendo destes 15 mulheres. Entre a população livre havia um total de 620 estrangeiros, sendo que os alemães eram a maioria, com 231 habitantes. As mulheres eram reconhecidas como capitalistas e proprietárias,

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pois num total de 92 pessoas enquadradas nessa categoria, 33 eram homens e 59 mulheres – dentre as brasileiras, 18 eram solteiras, 8 casadas e 24 viúvas. Dentre as estrangeiras, 6 eram solteiras, 1 casada e 2 viúvas.2 Estes dados só comprovam o que já é de conhecimentos de todos, as mulheres atuavam no mundo dos negócios.

Havia uma grande quantidade de escravos na região. Os trabalhos que exigiam maior força física eram destinados aos homens, mas as que mais transitavam pelas ruas desempenhando trabalhos próprios das áreas urbanas eram as mulheres (quitandeiras, lavadeiras, amas de leite). Muitas mulheres optavam com mais freqüência pela escravaria feminina, não porque eram mais baratas que homens e sim pelas atividades realizadas por cativas nas áreas urbanas. Os serviços domésticos fora da casa das senhoras e atividades de comércio próprio dos centros urbanos, possibilitavam aos escravos o contato com o mundo da rua, a acumulação de pecúlio e a extensão de relações horizontais.

Eram sobretudo as mulheres de origem africana que transitavam pelas ruas de Desterro. Não se pode dizer, entretanto que todas as damas brancas e de classe média podiam dar-se ao luxo de trancafiar-se em casa, esperando que todas as tarefas fossem executadas pelos escravos e criados. Para muitas viúvas e solteiras que negociavam propriedades, emprestar ou tomar emprestado dinheiro garantindo a sobrevivência de suas famílias, fazia parte de suas rotinas e sair de casa tornava-se inevitável. Tanto que dos documentos das mulheres, pesquisados no 2º ofício de notas dos cartórios de Desterro na segunda metade do século XIX, além das cartas de alforria e contratos de locação de serviços, havia os contratos de compra e venda de casas, terras, doações, procurações, hipotecas, escritura de contrato antenupcial e declarações de toda ordem.

As ruas de Desterro eram tomadas principalmente por mulheres, “criadas, lavadeiras, quitandeiras, amas de leite, mulheres astutas e barulhentas, algumas turbulentas e desordeiras, com vidas radicalmente distintas de uma certa visão idealizada das mulheres que reinava absoluta nas cabeças de letrados masculinos”3. As quitandeiras eram mais presentes, sendo esta atividade de escravas e de libertas. Podemos perceber a presença dessas mulheres nos registros da Câmara Municipal, pagando impostos sobre seu comércio. A legislação do século XIX dizia que deveriam as quitandeiras do mercado pagar ao fisco em prestações mensais, 12$000 ao ano. Aquelas que saíam pelas ruas a vender frutas, doces, verduras e outros objetos em tabuleiros, cestos ou caixas, deveriam ao fisco municipal a importância de 3$000 anuais.4 Muitas vezes as senhoras pediam isenção da licença necessária para que suas escravas pudessem desempenhar atividades no comércio.

Como se dava à relação de senhoras proprietárias com seus cativos num momento em que a história brasileira caminhava gradualmente para a abolição da esravatura? Uma grande quantidade de cartas de alforria e contratos de trabalho marcou a vida dos moradores de Desterro na segunda metade

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do século XIX. São documentos que nos permitem a partir de informações pontuais, lançar luz sobre situações específicas acerca do local e período de estudo. Segundo Henrique Espada Lima, as negociações e acordos marcaram as relações escravistas, tendo a carta de alforria o significado de um rearranjo de relações sociais e de trabalho, “onde os significados da liberdade conquistada tornavam-se de muitos modos igualmente objeto de negociação”. A alforria poderia ser uma tentativa, às vezes desesperada, de manter os cativos no trabalho.

Embora não estejamos tratando de grandes propriedades ou grandes riquezas, a presença do trabalho escravo era bastante comum em Desterro. Por ser um espaço com características urbanas, oferecia maiores possibilidades para a compra da liberdade ao mesmo tempo em que aumentava a dependência existente entre senhoras e cativos. A desigualdade social típica dos centros urbanos, colocava às margens da sociedade muitas mulheres, que ao se verem sozinhas, improvisavam meios de sobrevivência. Muitas solteiras, viúvas ou abandonadas conseguiram com seu próprio trabalho comprar propriedades e um investimento certo era a compra de escravos. A escravidão urbana possibilitava que essas mulheres alugassem os cativos ou os empregasse no comércio, vivendo de suas rendas. O transito livre pelas ruas de Desterro possibilitava aos escravos estreitarem seus laços de solidariedade, aumentando suas possibilidades de liberdade.

A grande quantidade de cartas de liberdade e contratos feitos por mulheres evidencia sua participação efetiva no processo de transformação pelo qual passou a sociedade brasileira na segunda metade do século XIX: a abolição da escravatura. A situação vivida no período determinou em muitos lares patriarcais ou matriarcais a relação existente entre senhores e escravos. Num plano mais geral tratava-se de um momento de discussão acerca da validade da instituição escravista. O poder de propriedade dos senhores se enfraquecia ao passo que o espaço de luta pela liberdade dos escravos aumentava. Essa situação refletiu de forma diferente nas diversas regiões do país.

Das mulheres proprietárias de Desterro, a maior parte eram viúvas, embora as solteiras e solitárias também o fossem. Na maioria dos casos, devido ao poder aquisitivo dos senhores, os escravos habitavam com eles no mesmo espaço, o que por vezes poderia significar uma proximidade maior. O estilo de vida modesto aproximava proprietário(a) e propriedade ao mesmo tempo em que evidenciava a necessidade de manter um bem tão “caro”. Contradições marcaram esse período e quase sempre o afeto não foi suficiente para libertar, embora esse sentimento seja mencionado em grande parte dos documentos pesquisados.

As cartas de alforria e contratos nos limitam a um momento curto da vida das senhoras e seus escravos. Por essa razão a análise solitária desta fonte nos diz pouco sobre trajetórias de vida. Se

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utilizarmos também testamentos e inventários é possível em algumas situações, fazer uma análise mais aprofundada.

Dentre as várias mulheres que surgiram no cartório Kotzias e Arquivo Central do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, Rita de Cassia Luiza da Silva Poyção chamou a atenção por estar presente em diferentes tipos de documentos. No livro de Receitas e Despesas da Câmara Municipal, Dona Rita de Cássia aparece, no ano de 1850-51 pagando impostos atrasados. Não especifica o tipo de imposto: “Que recebeo de D. Rita de Cassia Luiza da Silva Poyção, importância de foros que devia a Comarca desde dezembro de 1850 ($660)”5. Há no Tribunal de Justiça o testamento com que faleceu esta senhora No documento dizia que era solteira e sua disposição testamentária era a seguinte:

(...) deixo a minha primeira testamenteira Dona Luisa Clara da Conceição a casa em que resido tendo quatro portas na frente da rua do Ouvidor e faz canto a do Senado e por sua morte usará a Ana parda e seus filhos Virgilino, João Evangelista e Maria José, bem como a Justina crioula, casada com Francisco José da Costa, a Constança, casada com João Francisco da Silva e Ignez para nela morarem em comum e só o que sobreviver destes legatários ou de seus herdeiros é que poderá vender a casa referida. Declara que os escravos Antonio, José, João, Joaquim, Acácio e Lydia poderão conjuntamente com aqueles legatários morar na casa declarada sem que por isso adquirão qualquer posse e domínio (...)6

Rita pagou impostos no ano de 1850, fez aditamento de escrito de liberdade em 1859 a João crioulo: “condição de prestar seus serviços pela forma já estipulada neste escripto a Dona Luisa Clara da Conceição, isto no caso délla me sobreviver”7 e seu testamento é do ano de 1864. Senhora solteira e proprietária de escravos, deixa a casa que residia a uma outra mulher, a mesma a quem deixa João Crioulo caso não sobrevivesse. Após a morte de Luisa, a casa passaria a pertencer a seus ex-escravos, mas o direito a propriedade seria somente de alguns, talvez dos mais dedicados. Rita de Cassia só permite a venda da residência para o último que sobreviver, portanto a única maneira de todos usufruírem a herança é morando juntos sempre. Rita tenta resguardar o futuro de mulheres com quem possivelmente passou sua vida, inclusive das cativas. Possivelmente sua família constituía-se dos citados em seu testamento.

Aos 17 de fevereiro de 1869, na carta de alforria de Joanna crioula e Maria parda, sua filha, Cândida Maria Soares de Almeida diz o seguinte: “pela amizade que lhes tenho e em recompensa do zelo com que me tem tratado na minha enfermidade concedo a ambos sua plena liberdade desde o dia do meu falecimento, para que então gozem como se de ventre livre nascessem, e por não poder assignar por me achar cega (...)”8. Este trecho de um escrito de liberdade registrado no livro de notas do Cartório de Desterro, evidencia não só a dependência da senhora para com os cativos – situação que se agravava

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devido a seu estado de cegueira, mas também a gratidão decorrente da amizade e zelo com que vinha sendo tratada. O reconhecimento destes sentimentos poderia ser uma das razões que mantiveram os cativos junto a essa senhora até o momento de seu falecimento. A Cândida restava confiar no cumprimento da condição estabelecida.

No ano de 1861 é aberto o testamento de Dona Maria Rita da Conceição, que declarava ser solteira e deixava uma casa de sua propriedade para seus escravos:

Declaro que sou solteira natural desta cidade de Desterro filha legitima de Bartolomeu Rodrigues Pereira e de Dona Victoria Maria de Jesus, ambos já fallecidos e por isso não tenho ascendentes nem descendentes (...). Declaro que os únicos bens que possuo uma morada de casas térreas que faz frente ao lado da igreja Matriz dessa cidade, contestanto pelo sul com cazas do Tenente Coronel Luiz Ferreira do Nascimento e pelo norte com cazas de Mariano Roza. Declaro que instituo por herdeiros das ditas minhas cazas acima mencionadas as minhas crias libertas Leocadia e Maria da Conceição e suas duas filhas Francisca e Carlota, a Cândida Maria do Sacramento, Jacintha Maria da Trindade e todos os seus filhos e igualmente as minhas crias Francisco de Paula Bertho e Guilherme crioulo os quais são meus herdeiros instithuidos. Declaro que meus herdeiros instithuidos não poderão vender em tempo algum as ditas moradas de cazas que lhes deixo devendo morar sempre juntos enquanto existirem9

O documento citado, revela um dos principais aspectos da pesquisa: a relação existente entre uma senhora e seus cativos. Maria Rita da Conceição era uma mulher solteira e proprietária de escravos, como muitas outras que existiram em Desterro na segunda metade do século XIX. Mas o que mais chama a atenção em sua história é que, mesmo após sua morte, tenta controlar a vida de seus cativos. Querer que vivessem sempre juntos sem se desfazer da casa pode indicar uma preocupação com o futuro dos cativos, mas mais do que isso, um sentimento de posse que ultrapassava até os limites de sua presença física.

Os documentos brevemente expostos são uma pequena parte da vida de mulheres que, ao contrário do que se pensa, não são exceções e além de lutar por sua sobrevivência, enfrentavam o preconceito de uma sociedade essencialmente patriarcal. A luta cotidiana tornava-se, dessa forma, duplamente difícil. Senhoras solitárias tinham tendência a aproximar-se de seus cativos, que embora fossem, muitas vezes, sua única fonte de renda, eram também a companhia com quem compartilhavam as lamentações e alegrias do dia-a-dia. A gratidão portanto não era somente uma artimanha para manter os escravos em cativeiro, mas em alguns momentos configuravam-se em demonstrações reais de afeto.

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1

FRANK, Zephyr L. Dutra’s World: Wealth and Family in Nineteenth-Century Rio de Janeiro. Albuquerque: University of New Mexico Press, 2004.

2

Recenseamento Geral de 1872.

3

PEDRO, Joana Maria. Mulheres honestas e mulheres faladas: uma questão de classe. Florianópolis: Ed. Da UFSC, 1998, p. 20.

4

IDEM, p. 167

5

Livro de Receitas e Despesas da Câmara Municipal, 1850, 51/ 327.

6

ACTJSC, Testamento de Rita de Cássia Luiza da Silva Poyção, 1864.

7

“Lançamento de escrito de Liberdade” do escravo João. Livro 22 de notas 2º ofício do cartório de Desterro, 1859, fls 47 e 47v.Cartório Kotzias,

8

“Lançamento de escrito de Liberdade” das escravas Joanna e Maria. Livro 31 de notas 2º ofício do cartório de Desterro 1869, fls 58 e 58v.

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Referências

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