ENSINO DE LÍNGUAS E CULTURAS ESTRANGEIRAS E
INTERDISCIPLINARIDADE
ROCHA, Nildicéia Aparecida1
SILVA, Silvana Vieira da2
INTRODUÇÃO
Os subprojetos Letras-Alemão, Espanhol, Francês, Inglês e Italiano, da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) do Campus de Araraquara-Unesp, intitulado “Ensino de língua/cultura e interdisciplinaridade” realizam distintas ações para inserção dos bolsistas em duas escolas: 1) na Escola Estadual Bento de Abreu e 2) na ETEC Profa. Anna de Oliveira Ferraz – Centro Paula Souza, atendendo, assim, alunos de Ensino Fundamental, Ensino Médio e Cursos Técnicos de Araraquara e microrregião.
Traçamos como objetivo geral: criar um ponto de articulação entre a Educação Superior e a Educação Básica por meio de cursos de línguas estrangeiras a serem oferecidos em escolas públicas, ministrados por alunos licenciandos. Deste modo, os objetivos específicos são:
I. Para os licenciandos:
1. Oferecer a possibilidade de conhecer a realidade das escolas públicas, com suas potencialidades e dificuldades.
2. Possibilitar a aquisição de experiência concreta com o cotidiano escolar e com a prática de sala de aula, sob supervisão dos coordenadores do projeto, estimulando sua capacidade reflexiva, preparando-os para o trabalho colaborativo e para a solução de problemas cotidianos.
3. Propiciar um maior desenvolvimento das competências (ALMEIDA FILHO, 1993, 2005) necessárias para o exercício da função didático-pedagógica por meio da prática docente.
II. Para docentes e para a universidade/faculdade:
1. Criar novas oportunidades de pesquisa científica nas diferentes áreas de abrangência do projeto, como, por exemplo: linguística, linguística
aplicada, sociologia da educação, formação de professores de LE, didática e metodologia de ensino de LE, supervisão de práticas de sala de aula, uso de novas tecnologias no ensino/aprendizagem de LE.
2. Promover a reflexão sobre as próprias práticas pedagógicas, na medida em que esses docentes atuam na orientação dos licenciandos inseridos no contexto real de exercício da profissão. Assim, os professores formadores poderão rever suas práticas, elaborar novos planos de ação docente, incluindo uma possível ampliação metodológica por meio do uso de novas tecnologias com fins didáticos.
III. Para os alunos da escola pública:
1. Oferecer-lhes a oportunidade de aprofundar os conhecimentos de línguas e de culturas estrangeiras, tendo em vista que vivemos em uma sociedade marcada por intensos processos de internacionalização, possibilitando que, além de ampliar seus horizontes culturais pessoais, tenham mais alternativas quanto à escolha de uma profissão.
2. Promover o contato desses alunos com membros da comunidade acadêmica, para que possam ter acesso aos conhecimentos produzidos na universidade e também possam vir a vislumbrar uma formação acadêmica como realidade possível e desejável, percebendo-a como um instrumento que os auxiliará a transformar, de maneira positiva, a realidade em que se encontram.
IV. Para professores da escola pública:
1. Possibilitar seu contato com membros da comunidade acadêmica e com os conhecimentos produzidos na universidade.
2. Procurar despertar seu interesse por programas de formação continuada, por meio da convivência e da troca de experiências com licenciandos e docentes.
V. Para a escola pública:
1. Promover sua valorização na opinião de professores, alunos e da comunidade em geral, para que ela possa ser considerada local de aprendizagem de conteúdos extracurriculares, de encontro e de troca de experiências.
Deste modo, apresentaremos a seguir o desenvolvimento dos referidos subprojetos da FCLAr/UNESP.
Cada subprojeto proposto realiza distintas ações para inserção dos bolsistas na ETEC Profa Anna de Oliveira Ferraz – Centro Paula Souza, que conta com o Ensino Médio (12 turmas) e Cursos Técnicos (15 habilitações) e no EEBA, atendendo alunos de Araraquara e microrregião. Buscamos desenvolver diferentes características e dimensões da iniciação à docência, como um diagnóstico da realidade escolar por meio de observação de aulas, análise dos currículos e necessidades dos alunos, além da possibilidade de articulação dos conteúdos de cada língua envolvida no projeto (alemão, espanhol, francês, inglês e italiano) com outras disciplinas e ações didático-pedagógicas que envolvam a comunidade escolar. Partindo, portanto de um diagnóstico da realidade escolar, desenvolvemos diferentes ações para a iniciação à docência, as quais pretendem promover a articulação dos conteúdos de língua estrangeira com outras disciplinas e atividades didático-pedagógicas que envolvem a comunidade escolar e por outro lado, a teoria aprendida na universidade com a práxis promovida na articulação do projeto Pibid.
Os seis bolsistas são agrupados em duplas para atuarem juntos em três frentes: 1) foco no ensino da língua em questão e em aspectos interculturais por meio de oficinas semanais para um grupo fechado de alunos (os interessados deverão realizar inscrições, que são abertas a todos os alunos da escola); 2) foco em conteúdos da literatura, da história, do cinema, relacionados à língua estrangeira, por meio de oficinas sobre tópicos específicos, que são abertas a toda a comunidade da escola e 3) foco em questões de interdisciplinaridade, nas quais os bolsistas devem, inicialmente, realizar um estudo do currículo escolar e analisar em que disciplinas e momentos eles podem auxiliar o professor das disciplinas, com conteúdos complementares sobre a cultura dos países falantes da língua estrangeira. Buscamos fomentar um trabalho colaborativo que incentive a interdependência positiva entre os aprendizes, assim como fazemos com que as duplas se revezem ao longo do ano, de forma que possam vivenciar os três tipos de atividade e tenham a oportunidade de compartilhar suas experiências nos encontros do grupo. Também procuramos contemplar a socialização e divulgação das experiências e resultados das ações didático-pedagógicas nas escolas por meio da participação em eventos científicos. Temos ainda promovido a participação de palestrantes convidados e/ou outros colaboradores que possam contribuir com a formação teórico-prática dos alunos bolsistas, assim como participantes egressos do
PIBID, que possam compartilhar suas experiências e falar sobre seu direcionamento profissional após a participação em tal projeto.
Os trabalhos dos bolsistas são acompanhados e supervisionados por meio de: 1) reuniões semanais com os professores responsáveis (coordenador e colaboradores); 2) postagem de planejamentos atividades e diários reflexivos na plataforma Moodle; 3) acompanhamento e supervisão na escola (pela supervisora e professores responsáveis); 4) relatório final de atividades (semestrais) e 5) elaboração de portfólios individuais dos bolsistas (semestrais). Todas essas ações visam à articulação do subprojeto com as diferentes áreas do conhecimento e com o Projeto Político Pedagógico do curso de graduação em Letras na FCL, no que tange ao objetivo de levar o aluno da modalidade Licenciatura a conhecer a realidade da escola e formar "um professor capaz de abordar a escola criticamente, como instituição de todos, inserida em seu contexto histórico, político e social", assim como levá-lo a "entender os direitos e compromissos que a profissão docente coloca", entendendo a unidade escolar como parte de uma macro-realidade, que é ao mesmo tempo uma totalidade mutável, em constante movimento.
É importante ressaltar ainda que mantemos grupos em rede social que envolvem os bolsistas mas também coordenadores, supervisores e estudantes das escolas parceiras; grupos no Moodle com todos os participantes de cada subprojeto (incluindo participantes egressos), de forma a podermos acompanhar sua vida profissional após inserção no mercado de trabalho e poder promover a troca de experiência entre os pibidianos.
Para o desenvolvimento da escrita, além de ser exigido o constante relato de atividades via ambiente virtual da plataforma Moodle, os bolsistas devem elaborar resumos e trabalhos científicos para apresentação em eventos e publicação. A elaboração de tais resumos e trabalhos tem sempre a supervisão dos professores responsáveis, os quais adequam possíveis deslizes textuais à linguagem científica.
No que se refere à fala e à escrita, por meio das reuniões semanais, nas quais são discutidos textos da área do ensino e aprendizagem de LE, (vide Formas de acompanhamento), os bolsistas devem compreender textos teóricos e ser capazes de interpretá-los e de expressar suas opiniões sobre eles. Além disso, eles
devem submeter trabalhos sobre o programa a eventos científicos e, quando aceitos, ser capazes de discorrer sobre eles.
Podemos citar ainda o desenvolvimento da expressão oral durante as próprias atividades realizadas do Programa na escola parceira.
Como mencionado anteriormente, cada grupo A, B e C compõem-se de dez (10) bolsistas, sendo dois (2) de cada língua estrangeira: alemão, espanhol, francês, inglês e italiano, realizando as seguintes atividades: A) ensino da língua estrangeira e de aspectos interculturais, promovendo oficinas com encontros semanais para grupos específicos de alunos; B) questões relacionadas à cultura de cada língua estrangeira, especificada anteriormente, por meio de oficinas abertas a toda a comunidade escolar, e C) trabalho sobre aspectos de interdisciplinaridade, com estudo anterior do currículo escolar dos alunos, verificando o conteúdo e o momento mais propício à intervenção dos bolsistas, assim auxiliando o professor da escola e articulando com conteúdos complementares sobre a(s) cultura(s) das línguas focalizadas.
No grupo A, que conta com duas coordenadoras, duas supervisoras e 10 bolsistas, detalhadamente as seguintes ações têm sido realizadas:
Organização das turmas para as oficinas nos diferentes idiomas (francês, espanhol, inglês, italiano, alemão) e tudo o que envolve: divulgação, remanejamento, captação de novos alunos, disciplina, etc.
Planejamento das atividades a serem trabalhadas nas aulas, proporcionado um contato direto com a prática didática de ensino de línguas estrangeiras. Reflexão sobre a prática por meio de diários reflexivos postados no Moodle e
apresentação de aulas nas reuniões com as coordenadoras (semanalmente na Unesp).
Discussão teórica com os coordenadores.
Feedback e adequação dos planos e redirecionamentos conforme a necessidade.
No grupo B, que conta com duas coordenadoras, uma supervisora e 10 bolsistas, as seguintes ações mais especificamente têm sido realizadas:
Concepção e desenvolvimento de atividades culturais e pedagógicas oferecidas a todos os alunos do Ensino Médio da Etec.
Workshops de cinema, música e literatura.
Participação nas festividades da escola (Festa Junina e Mostra de Cinema e Dança, Sarau literário e artístico).
Participação nos projetos interdisciplinares “ Vídeo minuto” e “ Luz... Câmera, Action!” - análise de filmes com os alunos da ETEC (contextualizando com cada idioma).
Produção de texto (roteiro) bolsistas e alunos Etec. Observação de ensaios.
Participação na apresentação dos vídeos à comunidade escolar.
No grupo C, que conta com uma coordenadora, dois supervisores e 10 bolsistas, especificamente as seguintes ações têm sido realizadas:
Acesso às reuniões internas da escola para conhecimento da realidade escolar a partir de uma visão global.
Acesso às aulas de disciplinas de diferentes áreas com a preparação e execução de pequenas intervenções interdisciplinares.
Intervenções temáticas com viés transversal nos ensinos Fundamental e Médio (a partir das necessidades levantadas: rolezinho, violência verbal e racismo) nas quais se busca relacionar às temáticas à linguagem e proporcionar rodas de debates.
Participação nos intervalos e na Feira de Ciências da escola. Apoio aos alunos com necessidades especiais.
No desenvolvimento das atividades, buscamos fomentar um trabalho colaborativo que incentive a interdependência positiva entre os aprendizes. Para tanto, foram formadas duplas, que desenvolver/vivenciar atividades inseridas no âmbito das três frentes referidas anteriormente e compartilhar suas experiências nos encontros do grupo todo. Buscamos ainda divulgar as experiências e os resultados das ações didático-pedagógicas nas escolas por meio da participação em eventos científicos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Podemos observar que as ações do Pidib Letras Alemão, Espanhol, Francês, Inglês e Italiano na Faculdade de Ciências de Letras, Câmpus de Araraquara, tem se desenvolvido com diversificadas atividades, as quais tem sido bem recebidas na escola assim como na comunidade acadêmica que participa do projeto, ou seja, 30 bolsistas, e promovido uma outa percepção sobre a escola pública no âmbito universitário. Deste modo, apresentamos a seguir alguns resultados observados até o momento sobre as ações desenvolvidas pelos Subprojetos Letras da FCL/Unesp: - Para os bolsistas licenciandos: A experiência na rede pública em várias frentes possibilitou a vivência da escola em diferentes momentos, não só na sala de aula, como também nos intervalos e nas horas de lazer do público-alvo. A visão que os licenciandos tinham da escola pública mudou consideravelmente. Esse processo revela maturidade ao futuro profissional e uma maior consciência da profissão.
- Para os bolsistas supervisores: A integração Universidade-Escola Pública fica mais evidente diante do trabalho conjunto entre coordenadores, supervisores e licenciandos. Os supervisores são os facilitadores para a entrada da Universidade na escola pública.
- Para as escolas parceiras: As escolas parceiras têm seu cotidiano enriquecido pelas ações dos bolsistas. A troca de experiência é enriquecedora em todos os níveis do processo.
- Para a Universidade: A distância entre a Universidade e a escola pública diminui e essa aproximação é reveladora de novos caminhos para que o encontro das licenciaturas + escola pública seja cada vez mais ágil e realista.
- Para as coordenadoras dos subprojetos: promoção sobre o processo de ensino e aprendizagem de língua estrangeira e reflexão constante sobre sua prática docente e pesquisa acadêmica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que podemos perceber ao longo desses quase dois anos de trabalho prático nos subprojetos Letras-Alemão, Espanhol, Francês, Inglês e Italiano é uma grande integração entre as três frentes, ou seja, o ensino das línguas, agregado à divulgação da cultura e da civilização de cada universo linguístico, juntamente com a interdisciplinaridade complementam a formação do aluno das escolas públicas nas quais se atua.
Nota-se que os alunos desenvolvem habilidades que antes não eram exploradas, como falar e escrever em uma língua estrangeira, descobrir novos horizontes que a aprendizagem dessas línguas pode proporcionar, produção de vídeos curtos, integração e sociabilização graças aos eventos culturais e lúdicos organizados na escola com o auxílio dos projetos (festa junina, das nações, etc.), ampliação da capacidade de leitura com a exploração dos contos em várias línguas. Estes exemplos mostram apenas uma parte dos resultados que se vem obtendo desde o início do projeto. Importante também é ressaltar a recuperação do laço escola pública-universidade, realidades antes afastadas durante um longo período. Por outro lado, a comunidade acadêmica, professores e bolsistas, envolvida no processo de desenvolvimento destes projetos Pibid vêm sendo ponto de referência dentro do contexto universitário, pois a partir da participação neste Projeto a idiossincrasia desses sujeitos têm se destacado em qualidade e excelência nas ações acadêmicas e profissionais reconhecidas em suas avaliações institucionais.
Ademais, ressaltamos que ações governamentais que promovam a articulação entre universidade e escola devem ser incentivadas e consolidadas como atividades permanentes, pois são realidades escolares que tradicionalmente estiveram separadas e isoladas, portanto o Projeto Pibid vem promover pela primeira vez na história da educação brasileira a necessária ponte universidade e escola.
REFERÊNCIAS
LEFFA, Vilson J. Metodologia do ensino de línguas. In BOHN, H. I.; VANDRESEN, P. Tópicos em lingüística aplicada: O ensino de línguas estrangeiras.
Florianópolis: Ed. da UFSC, 1988. p. 211-236.
MATTOS, A. M. A., VALÉRIO, K.M. Letramento crítico e ensino comunicativo: lacunas e interseções. RBLA, Belo Horizonte, v. 10, n° 1 , 2010. p. 135-156.
PAIVA, V.L.M.O. Como se aprende uma língua estrangeira?: ANASTÁCIO, E.B.A.; MALHEIROS, M.R.T.L.; FIGLIOLINI, M.C.R. (Orgs). Tendências contemporâneas em Letras. Campo Grande: Editora da UNIDERP, 2005. p. 127-140.
ROCHA, C.H., FRANCO MACIEL, R. (org.) Língua estrangeira e formação cidadã: por entre discursos e práticas. Campinas. Ed. Pontes, 2013.
ROCHA, N. A.; GALELLI, C. Y. “A presença da interculturalidade em livros didáticos de língua espanhola: reflexões sobre tema alimentação”. Revista Desempenho. V12, no 14, p. 01-14, 2013.
ROZENFELD, C. C. F.; Viana, N. O desestranhamento em relação ao alemão na aprendizagem do idioma: um processo de aproximação ao "outro" sob a perspectiva da competência intercultural. Pandaemonium germanicum. (Online) no.17, São Paulo, 2011