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INSPETORIA NOSSA SENHORA AUXILIADORA

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INSPETORIA NOSSA SENHORA AUXILIADORA

CL. BENEDITO ANTONIO DE ALMEIDA

*11 /06/ 1920 †02 /12/ 1946

São Paulo, 2 de janeiro de 1947.

Caríssimos Irmãos, A mão do Senhor, sempre boa mesmo quando nos bate, se dirigiu a este jardim do Estudantado Teológico para colher uma flor de esperança e de bondade na pessoa do irmão, professo perpétuo

Cl. BENEDITO ANTONIO DE ALMEIDA

com 26 anos

chamado para a eternidade às 11h45 do dia 2 de dezembro passado.

Falar da dor profunda que oprimiu o coração naquela manhã não é tarefa fácil. Mas cada um pode compreender o que significa o apagar de uma vida tão jovem no meio de uma multidão de jovens que nesta casa se preparam para o sacerdócio. Havia apenas terminados os exames e estávamos no segundo dia do retiro em preparação para as ordenações! Também ele era candidato às ordens menores do Exorcizado e do Acolitado. Havia feito regularmente o seu pedido e havia sido admitido, encontrando-se o seu nome da lista dos ordenandos. E eis que eram outros os desígnios do céu. As exclamações de alegria que costumam acompanhar a notícia do sucesso nos exames foram amortecidas nos lábios. Um alegre passeio planejado para coroar os exames, foi cancelado. O retiro começou sob o pesadelo de uma agonia que era dolorosa para toda a casa. O sermão sobre a morte foi

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eloquentíssimo, feito não pelo pregador, mas por um clérigo imóvel estendido e frio no caixão rodeado de quatro velas fúnebres e flores. Ficou vazio um lugar na capela, um nome foi tirado da lista das ordenações e uma grande dor pesou sobre todos.

Sit nomen Domini benedictum! Sim, seja bendito o nome do Senhor. E ele nos

havia preparado para este golpe. Uma enfermidade de 75 dias nos vinha pouco a pouco tornando familiar para todos nós a idéia da morte. E em igual tempo, aquela doença nos fez testemunhas das riquezas de virtudes do caro irmão, mostrando-o fruto maduro para o paraíso.

O seminarista Almeida foi para a cama dia 19 de setembro. Uma febre intermitente que no começo não inspirava nenhum temor, tornou-se insistente e rebelde aos remédios que normalmente são usados nestes casos. Os médicos, depois de várias consultas diagnosticaram uma “mononucleose celular”. As análises de laboratório confirmaram o diagnóstico. E já estávamos resignados ver o doente suportar o lento decorrer da enfermidade, não grave em si, mas de longa duração.

Depois de alguns dias se acreditou necessário levá-lo para um hospital da cidade sob os cuidados de um bom médico. Deste hospital o levaram para outro, um mais perto do Instituto Teológico, para poder melhor atendê-lo e proporcionar-lhe também os confortos religiosos e da atenção dos irmãos. Nos últimos dias de outubro parece ter diminuída a doença e nutríamos, então, a esperança de que o querido irmão estivesse fora de perigo, tanto assim que o médico Dr. Dias de Andrade, ótimo cooperador salesiano, nos havia aconselhado levá-lo para sua casa.

Aqui, os cuidados e as atenções dos irmãos se multiplicaram. Eram edificantes de uma parte a resignação, a piedade e exemplaridade do doente, e de outra parte a caridade e o espírito de sacrifício do irmão enfermeiro, as orações e de todos os outros companheiros. Na igreja, já há muitos dias, as orações eram dirigidas para obter do Senhor a desejada cura. Novenas a Dom Bosco se sucediam ininterruptamente.

A febre, no entanto, reaparecia mais alta e insistente. Na segunda quinzena de novembro os sintomas se tornaram alarmantes. Multiplicaram-se os cuidados e as orações. Mas lamentavelmente uma consulta médica e análises de laboratório vieram nos dizer no dia 26 uma trágica palavra: “meningite tuberculosa”! Doença incurável – disseram os médicos consultados. Poder-se-ia talvez tentar a “estreptomicina”, única probabilidade humana para algum resultado. Mas, nem mesmo esta frágil esperança pode subsistir. O remédio não foi encontrado não obstante fossem interessados S. Em. o Cardeal Arcebispo, o Chefe do Governo do estado de São Paulo e várias outras personalidades.

Na noite de 27, o doente foi avisado da gravidade do mal, quis receber os últimos sacramentos, ainda com plena consciência, respondendo a todas as orações do ritual. No dia seguinte, lhe foi administrado de novo o Santo Viático de forma

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solene pelo senhor padre Inspetor com a participação de toda a comunidade. Deste dia em diante o doente caiu numa profunda sonolência, da qual saia umas poucas vezes. Nestes intervalos de consciência repetia as jaculatórias que lhe eram sugeridas, recebia várias vezes a absolvição sacramental e beijava piedosamente o Crucifixo e as imagens sacras e relíquias que lhe apresentavam. Todos estavam edificados pelo se comportamento sempre angelicamente delicado e da sua serenidade e piedade. Dois pequenos fatos demonstram a serena bondade de seu espírito: na manhã do dia 28, interrogado por mim se queria que os companheiros passassem para cumprimentá-lo, respondeu com a docilidade de sempre: “Seja feito como acham os superiores”. No dia seguinte, num breve momento de lucidez, o enfermeiro aproximou de seus lábios o Crucifixo. “A chave, - disse o doente. Sim, a chave do paraíso é justamente esta”, sugeriu o enfermeiro. – “A Santa Regra”, disse o doente, ouvindo a expressão “chave do paraíso”. Era eco dos seus pensamentos habituais que revivia no fundo da alma. No livrinho das Regras estava escrito em grego e em latim: “Faça isso e viverás”. E eis que se encontrava às portas da verdadeira vida.

No dia 1º de dezembro começaram em casa o retiro espiritual. Rezava-se e se sofria. Todos. Próximo do leito estava sempre o diretor ou outro sacerdote, um irmão do doente e o grupo de irmãos que se sucediam. Pelas 10 do dia 2 o enfermo chegava ao fim. A imobilidade e a insensibilidade dominavam os pobres membros. A comunidade se reuniu ao redor do leito: eu recitei as orações dos agonizantes, repeti várias vezes a absolvição e muitas vezes falei jaculatórias nos ouvidos do agonizante.

Ainda no dia anterior, o caro S. Benedito havia recebido a Santa Comunhão, como nos outros dias da sua longa enfermidade. Em todo lugar se rezava para ele. Em casa todos rezava ao seu redor. Como é belo morrer assim!

A morte veio docilmente. A respiração característica na meningite parava periodicamente para recomeçar sempre mais penosamente; num determinado momento, às 11h45 parou... para não mais recomeçar. Em poucos segundo, a palidez da morte envolveu a fisionomia do nosso irmão. Com as mais sentidas lágrimas de sincera dor, recitamos o De Profundis e demos os primeiros procedimentos para o cuidado do corpo. Transmitiu-se logo a notícia para o senhor Inspetor ausente, às casas salesianas mais próximas e aos benfeitores que haviam acompanhado o decorrer da doença.

Às 19h o caixão foi levado para a câmara mortuária e se recitou devotamente as Matinas dos defuntos. Durante a noite toda os restos mortais foram velados pelos irmãos. Na manhã seguinte a missa da comunidade foi celebrada em sufrágio do falecido. O Ex.mo Sr. Dom João Batista Costa, novo bispo salesiano, que num gesto de muita delicadeza estava disposto a celebrar para o piedoso irmão o seu primeiro pontifical. Não consentimos, mas lhe demonstramos sentido reconhecimento por tanta bondade. Na câmara mortuária, no entanto, se sucederam pias santas missas dos mortos. Às 9h se transportou o caixão para a igreja e se cantou missa solene oficiada por mim. Depois da missa foi dada a absolvição.

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Às 13h chegava o senhor padre Inspetor para os funerais, enquanto quase todos os clérigos caminhavam em direção ao cemitério que era um pouco longe. Cooperadores e amigos, salesianos e alunos de outras casas quiseram acompanhar até a última morada o caro extinto. Tomaram parte do cortejo fúnebre S. Ex.cia o Bispo Salesiano e representantes de várias obras salesianas da cidade. Na capela do cemitério foram cantadas as últimas orações. Junto do túmulo, um companheiro de curso leu um comovente discurso de adeus... e as lágrimas de todo regaram a terra onde agora dorme o sono da paz aquela flor de bondades salesiana.

O S. Bendito de Almeida nasceu em Sertãozinho (Lorena – Estado de São Paulo). Seus pais eram Antero Antonio e Francisca Rodrigues Pimentel, piedosos e virtuosos camponeses. Assim, a casa paterna foi para o pequeno Bendito também a primeira escola de bondade e de religião, escola suave e eficaz que deu seus frutos, não só no nosso irmão, mas também em outros irmãos que cresceram piedosos e religiosos e uma das irmãs que hoje é Filha de Maria Auxiliadora. Benedito fez os seus estudos elementares em Lorena e começou logo a frequentar o Oratório Festivo local, anexo ao Colégio São Joaquim. Aí fez a primeira comunhão juntamente com seus dois irmãos, José e João. Desde aquela tenra idade manifestava a vocação sacerdotal. Quis logo aprender a ajudar a missa. E era maravilhosa a sua pontualidade com que chegava toda tarde no Colégio Salesiano para passar a noite e ajudar, no dia seguinte bem cedinho a missa do nosso mestre salesiano padre João Renaudin. Amadurecendo a sua vocação, entrou no aspirantado de Lavrinhas, onde terminou os estudos do ginásio e progrediu sempre na piedade e nas virtudes. Pequeno e de compleição delicada, era muito dócil, amável, quase tímido. Distinguiu-se sempre pela seriedade no cumprimento dos deveres.

Terminado o ginásio, foi aceito no noviciado que fez em São Paulo (Ipiranga) em 1938, fazendo a sua primeira profissão no dia 31 de janeiro de 1939. Do seu noviciado devemos colocar em relevo com que consciência se aplicava à própria formação, anotando num caderno sejam as conferências do Mestre como as observações mensais, as quais o ajudavam da diminuir o mal e fazer o bem. Fez o primeiro ano de filosofia em Lavrinhas, e para os dois outros anos em São Paulo para poder frequentar simultaneamente as aulas da Faculdade de São Bento e conseguir a licença universitária em Geografia e História. Renovados os votos trienais em janeiro de 1942 em Lorena, começou o seu tirocínio prático. Os dois primeiros anos os passou em São Paulo (Santa Teresinha) completando ao mesmo tempo o curso universitário. O último ano o fez no Liceu Nossa Senhora Auxiliador em Campinas. As inevitáveis dificuldades do triênio prático serviram para consolidar ainda melhor na virtude e aperfeiçoá-lo no apostolado pedagógico próprio da nossa Congregação.

Em 1945 fez a profissão perpétua e começou o estudo da Sagrada Teologia nesta casa. Aqui o pudemos seguir de perto e acompanhar o trabalho que fazia sobre si mesmo para formar o verdadeiro sacerdote salesiano. Do seu diário, que escrevia todo dia, pode-se conhecer a impressão que lhe causavam os acontecimentos ora alegres ora tristes. Mais de uma vez podemos ler estas belas palavras: “Sinto grande

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vontade de ser bom”! Todas as conferências por ele ouvidas nestes dois anos de Teologia encontram-se cuidadosamente anotadas. É edificante ler o seu caderninho de propósitos, no qual transparece a sua constância nas pequenas lutas, e os triunfos e os consequentes progressos. Nele era bem forte a diligência em conhecer as nossas coisas, as nossas tradições, o nosso método de educação. Amava a boa leitura formativa e a conversa com os salesianos de ciência e experiência. Deixou-nos também vários cadernos nos quais recolhia, como abelha industriosa, tudo o que encontrava de interessante nas suas leituras. Inteligente e sério dedicava-se ainda em fazer traduções. Assim traduziu e publicou nas Leituras Católicas, a vida de Gustavo M. Bruni e o opúsculo “Dom Bosco, apóstolo da confissão”; e tinha prontos os manuscritos da “Pedagogia de um Santo” do padre Auffray. Alegrava-se em ouvir belas notícias sobre os progressos da nossa amada Congregação, especialmente no campo da educação da juventude, entristecendo-se quando chegava ao seu conhecimento alguma infidelidade nas nossas diretrizes pedagógicas. Amável, de uma bondade simples, não barulhenta, de uma piedade sincera e cheia de convicção, gozava da simpatia de todos. Parece-me que dele se pode dizer o que se fala do pão: quanto tem ninguém dá grande importância; quando vem a faltar todos entendem quanto era bom. Em suma, deixou em todos a impressão de um clérigo bom, nada leviano, todo dedicado em cultivar a própria vocação.

Quanto entristece tê-lo perdido! Os companheiros recordam ainda alguma expressão ouvida durante o ano de seus lábios, como se fosse presságio de seu fim próximo. Tinha presente e vivo o pensamento da morte e dizia que não chegaria ao sacerdócio. Eram infelizmente verdadeiras as suas previsões. Não chegou ao sacerdócio! Mas o bem espiritual que fez para os companheiros com a vida exemplar e especialmente com uma morte serena vale um longo apostolado sacerdotal. Tudo é um perfume de virtude quer permeava o nosso ambiente e dura ainda com a dor que punge o nosso ânimo.

Caríssimos Irmãos, se ainda o nosso caro clérigo Benedito precisasse das nossas orações, estou seguro que estas não lhe faltarão: todos sereis generosos em apressar-lhe o eterno repouso. E queiram também recomendar ao Senhor as necessidades desta casa de formação sacerdotal, para que daqui saiam sempre novas legiões de verdadeiros e santos sacerdotes salesianos.

Rezem ainda pelo vosso afeiçoadíssimo em Dom Bosco Santo.

Pe. João Resende Costa Diretor

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6 DADOS PARA O NECROLÓGIO

BENEDITO ANTONIO DE ALMEIDA

* Lorena, 11 de junho de 1920,

† São Paulo, 02 de dezembro de 1946 com 26 anos de idade e

08 anos de profissão religiosa salesiana.

INSPETORIA NOSSA SENHORA AUXILIADORA INSTITUTO TEOLÓGICO PIO XI – SÃO PAULO - BRASIL

Referências

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