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Educação Ambiental: Sobre Princípios, Metodologias e Atitudes

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Academic year: 2020

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EDUCAÇÃO AMBIENTAL: SOBRE PRINCÍPIOS, METODOLOGIAS E ATITUDES

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Ivete Souza da Silva2

Chega De linha reta, de direção conhecida, viva o caminho, feito e refeito, salve o a torto e a direito. (Valdo Barcelos)3

A

n d a r p o r c a m i n h o s o u t r o s e d e i x a r - s e g u i a r p o r d i r e ç õ e s i n c e r t a s . F a z e r, d e s f a z e r, r e f a z e r. C r i a r. E s s a s s ã o , a m e u v e r, a s p r i n c i p a i s provocações deixadas por Barcelos, a todos e todas, educadores e educadoras, em seu livro Educação Ambiental: sobre princípios, metodologias e atitudes. Com essa proposição/pro-vocação o autor nos convida e, ao mesmo tempo, nos desafi a a pensar metodologias de trabalho em Educação ambiental.

A ênfase defendida no livro é para o trabalho com Educação Ambiental a partir dos espaços educativos escolares, porém, não se restringe a eles. Suas

1 BARCELOS, V. H. L. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

2 Pedagoga e Mestranda em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de

Santa Maria (UFSM/PPGE). Bolsista CAPES.

End.: Rua Dário Prates Rodrigues, 995 Apto. 101 – Tancredo Neves. CEP: 97032-120 Santa Maria – RS. Email: [email protected]

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refl exões partem de três perguntas básicas, as quais tenta responder durante o percurso criado na construção da obra. As perguntas são:

• Como nós, como civilização, chegamos a uma crise ambiental de tamanhas proporções e, em função da mesma, como faremos para vivermos juntos neste planeta?

• De que maneira o sistema educativo escolar poderá contribuir para entender e diminuir esta crise ambiental?

• Considerando-se que o repertório de conhecimentos e de saberes, sobre as questões ambientais e a educação ambiental já é relativamente vasto, como então transformar esses princípios e pressupostos em atitudes?

Para Barcelos, chegamos a essa crise ambiental escolhendo caminhos e seguindo-os através de nossas ações e atitudes. Construímos hábitos, costumes, valores. Criamos normas e conceitos de certo e errado para nos “guiar”. O que vivemos hoje é resultado das escolhas que fi zemos, no entanto, como bem lembra o ecologista aqui referenciado, o fato de termos seguido este caminho não signifi ca que não podemos escolher outros (BARCELOS, 2008, p. 17). Ou seja, as escolhas foram estas, contudo, poderiam ter sido outras e, nesse caso, os seus desdobramentos ecológicos seriam, também, diferentes.

Tal pensamento está em acordo com que afi rmou Hannah Arend (1954, p. 19) ainda na déca-da de 1950, nos lembrando de que “todéca-da sequência de fatos poderia ter sido diferente porque o campo do possível é sempre maior que o campo do real”. Mas, aprenderemos a viver juntos? Como diria Barcelos “nós já estamos todos juntos”, o que vamos fazer com isso, é o que temos que pensar. E são os nossos princípios e atitudes que traçarão este percurso. Mas, é importante lembrar: “dos princípios às atitudes existe uma imensa distância, temos um longo percurso a percorrer”

A contribuição do sistema educativo escolar para entender e buscar maneiras de lidar com a crise ambiental que estamos vivendo pode ser o de pensar suas metodologias de trabalho com Educação Ambiental a partir da realidade existente em cada espaço – no caso aqui o bairro, a escola ou sala de aula. Dirigir o olhar para o local, mas, também, sem nunca esquecer da di-mensão global. Um olhar para as pequenas coisas que juntas se fazem grandes. Nesse sentido, o autor, ao trazer a discussão sobre as questões ambientais que estão a nos desafi ar, sugere uma aproximação entre os princípios ecologistas e as nossas atitudes cotidianas, propondo a criação de metodologias a partir da “leitura”, da realidade de cada espaço, feita pelas pessoas que o constitui.

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Para Barcelos as respostas, ou melhor, as alternativas de trabalho que podem contribuir para as discussões, refl exões e possíveis soluções para os problemas ambientais, não estão fora de nós. Não é através da busca e implementação de projetos e propostas, vindas de fora do espaço que vivemos que encontraremos possíveis “soluções” para as questões que estão a nos desafi ar. Os projetos, propostas e princípios ecologistas podem até ajudar, mas de nada valerão se não vierem acompanhados de mudanças em nossas atitudes. São elas, as nossas atitudes cotidianas, que fazem com que o mundo, e o espaço que vivemos, seja o que ele é.

A aproximação entre os princípios ecologistas e nossas atitudes cotidianas possibilita a des-mistifi cação, ou como diria Oswald de Andrade (1924), “a transformação do tabu em totem”, de algumas “mentiras” da educação ambiental que parecem “verdades”. O autor aponta qua-tro “mentiras” que acabaram virando “verdades”, as quais, em suas refl exões, podem ser as “possíveis origens da ausência de iniciativas de educação ambiental” na prática cotidiana dos professores(as) em sala de aula. São elas:

• Educação Ambiental é coisa para os professores(as) de ciência, de biologia ou de geo-grafi a;

• Educação Ambiental é coisa prática para ser feita fora da sala de aula; • A Educação Ambiental pode substituir as diferentes disciplinas;

• Educação Ambiental é “conscientização” das pessoas.

O cultivo de tais “verdades” tem contribuído para a não realização do trabalho com edu-cação ambiental no espaço escolar. As propostas de trabalho com eduedu-cação ambiental podem até constar nos currículos escolares, porém, muitas vezes, não chegam a serem realizadas. Esta realidade deve-se ao fato de que todas as “mentiras contadas como verdades”, apresentadas anteriormente, reforçam a representação de que as possíveis respostas e soluções para os pro-blemas ambientais vêm de fora. Entretanto, Barcelos nos alerta para o fato de que:

As mudanças de hábitos, valores, representações, conceitos e pré-conceitos e atitudes estão, muito fortemente, relacionados a questões, que não se limitam apenas ao campo da razão, do raciocínio do intelecto. Enfi m, da produção do conhecimento científi co. Nossas representações de mundo, bem como seus desdobramentos em ações cotidianas, são, em última instância, um processo de construção complexa que envolve as

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dimensões humanas na sua totalidade e complexidade. Passando, portanto, pelo nosso devir estéticos, ludens, demens, ético, fi losófi co, histórico, cultural. (p. 53)

Logo, se a (re)desconstrução de tudo aquilo que somos não passa, somente, pelo campo da produção do conhecimento científi co, de nada adianta a criação de princípios ecologistas se eles se perdem no vazio das palavras e dos discursos descolados das nossas atitudes e ações. Ficando, com isto, apenas no campo de conceitos e metas a serem alcançados, e que estão distantes da realidade vivida. A possibilidade de lidarmos com as questões ambientais que nos desafi am estão, como bem nos lembra Barcelos, na aproximação entre princípios e atitudes. Está na leitura do mundo que vivemos, como diria o menestrel da educação4, Paulo Freire.

Olhar e sentir “o mundo como um texto” é o que sugere Barcelos como alternativa de meto-dologias no trabalho com Educação Ambiental em sala de aula. Tal conceito parte de seus estudos de doutoramento na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em que pesquisou a obra literária do poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz (1914-1998), tomado dela emprestada a idéia de que o mundo pode ser visto como um texto (p. 85). A idéia de mundo como um texto é devo-rada por Barcelos que ao mastigá-la e degluti-la, como diriam os antropófagos5, (re)elaborou-a

criando, assim, a sua alternativa parangológica de trabalho com as questões ambientais. A origem da metodologia parangológica sugerida por Barcelos parte da obra Parangolé do artista plástico Helio Oiticica (1937-1980). O Parangolé era uma obra de arte feita para ser usada como roupa. Uma espécie de capa que para ser completa deveria ser vestida por alguém. O Parangolé moldava o corpo de quem o usava, adaptando-se ao seu movimento. Essa caracte-rística fazia com que nenhum parangolé fosse igual ao outro, pois quem o vestia eram corpos diferentes que os acomodavam de acordo com seus desejos. A invenção de Oiticica propunha um olhar para as particularidades de cada um, valorizando, como bem coloca Barcelos, as vivências e experiências como ponto de partida para a criação e a invenção.

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É baseada, também, nessa obra que Barcelos utiliza o termo Metodologias, no plural, e não metodologia – singular. Para o autor há que se criar metodologias de acordo com cada reali-dade sentida e vivida pelas pessoas que ali habitam. Seria o que Barcelos chama de Parangolé Metodológico, a criação de uma metodologia de trabalho que considere as particularidades dos espaços envolvidos, bem como das subjetividades das pessoas em permanente metamorfose. Uma alternativa, ou alternativas, metodológica(s) que valorizem os saberes, os fazeres, enfi m, as experiências de cada cultura e indivíduo que ali o representa sem deixar de lado, a complexidade decorrente diversidade e das múltiplas dimensões e da infl uência, dessas ações no planeta.

Considerando a diversidade de cada espaço, é que Barcelos propõe uma “busca criativa” em torno das alternativas e metodologias de trabalho em educação ambiental, e também, para pensar as questões que desafi am a educação de maneira geral. Tal busca é considerada, pelo autor, como criativa na medida em que permite que tanto educador como educando possam ser ouvidos, tendo a possibilidade de falar da sua interpretação do mundo como um texto. É justa-mente a possibilidade de diferentes leituras, e o diálogo devorativo entre elas que permitirá a criação.

A criação a partir da devoração recíproca. A devoração antropofágica (ibid, 2008, p. 109). Foi a devoração antropofágica, que permitiu a criação de Helio Oiticica: O Parangolé. Criação essa que Helio denominou de “programa ambiental”, a qual buscou, “não uma ‘nova moral’, ou coisa semelhante, mas ‘derrubar todas as morais’, [...] uma espécie de antimoral, baseada na experiência de cada um [...]”. (OITICICA, 1986). Nesse sentido,Valdo Barcelos vê na idéia de criação e invenção de Oiticica “uma forte possibilidade de ligação com o trabalho com as questões ambientais numa perspectiva metodológica que vise contemplar a complexidade dos fenômenos que a envolvem” (p. 106). Nesta metodologia parangológica tem-se, segundo o au-tor, a valorização tanto daquilo que é “infi nitamente pequeno” como do que é “imensamente grande”.

Portanto, arrisco a dizer que é possível pensar o local a partir de um olhar devorativo e criador, proposto pelos antropófagos, sem deixar de lado a repercussão global que nossas atitu-des podem provocar. Assim, nos permitiremos criar nossas metodologias de trabalho não só em Educação Ambiental, mas, nas atividades pedagógicas de maneira geral.

Cada espaço educativo, cada profi ssional da educação, pode construir a sua metodologia de trabalho usando como matéria-prima os saberes, vivências e experiências dos sujeitos envolvidos no processo de aprendizagem. Não é

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possível uma metodologia ou a metodologia para dar conta dos problemas ambientais do planeta, pois cada espaço é diferente um do outro, e possui suas ou outras diferenças nele próprio.

O parangolé, “costurado” por Barcelos na tessitura de sua obra, sugere olhar as questões ambientais como se um texto o fossem. Como um texto a ser lido e interpretado segundo o olhar de cada leitor(a), de acordo com a mente criativa e criadora de todos os envolvidos nesse processo desafi ador e criativo que é o de ensinar e aprender/aprender e ensinar.

Logo, cada mente criadora e criativa que comece a ruminar o seu parangolé. Cada espaço educativo que crie a sua metodologia. Que crie o seu parangolé metodológico, pois, como afi rma o professor e escritor Valdo Barcelos, cada menestrel com seu parangolé!

O parangolé metodológico do autor já está feito: devemos aproximar os nossos princípios ecologistas de nossas atitudes cotidianas. Como? Para o autor pode ser olhando o mundo como um texto. E para você qual seria? Já pensou no seu parangolé?

REFERÊNCIAS

ANDRADE, O. Manifesto Poesia Pau-Brasil. Correio da Manhã, São Paulo, mar. 1924. ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 1954.

BARCELOS, V. H. L. Educação ambiental: sobre princípios, metodologias e atitudes. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

BARCELOS, V. H. L.; SILVA. I. S. Saberes, sabores e devorações – para uma educação ambiental antropofágica e pós-moderna. In: CORREA. G.; PREVE. A. M. Ambientes da ecologia: perspec-tivas em política e educação. Santa Maria: UFSM, 2007. p. 139-167.

FREIRE, P. A importância do ato de ler. 9. ed. São Paulo: Cortez, 1985. OITICICA, H. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

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