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O ISLÃ E A CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL:

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Revista da Escola Superior de Guerra, v. 32, n. 65, p. 13-36, maio/ago. 2017

O ISLÃ E A CIVILIZAÇÃO OCIDENtAL: REFLEXÕES DE INtERESSE PRELIMINAR AO EStUDO DO FENÔMENO DO tERRORISMO

Luiz Adolfo Sodré de Castro Júnior* Anselmo de Oliveira Rodrigues** Eduardo Xavier Ferreira Glaser Migon*** RESUMO

Este artigo se propõe a analisar a relação existente entre o islamismo e o terrorismo. Adota-se perspectiva diferente da comumente praticada pela civilização ocidental. Com o intuito de propor uma sistematização para o estudo elencado tem-se, inicialmente, a apresentação do objetivo e da técnica de pesquisa utilizada. A seguir, define-se a taxonomia empregada, assim como aspectos associados à limitação metodológica. À continuação, são apresentados o referencial teórico e a base conceitual da pesquisa. Expõem-se aspectos históricos e culturais associados ao surgimento e à expansão do Islã ao longo do tempo. Na sequência, aborda-se a percepção da civilização ocidental acerca do islamismo. Posteriormente, é realizada uma análise voltada para se identificar a relação existente entre o terrorismo e o islamismo. Na última seção, é realizada uma síntese da imagem do Islã no mundo ocidental e sua relação com a atividade terrorista.

Palavras-Chave: Estudos de Defesa, Conjuntura Internacional, Islamismo, Terrorismo.

THE ISLAM AND THE WESTERN CIVILIZATION: REFLECTIONS OF PRELIMINARY INTEREST TO THE STUDY OF THE PHENOMENON OF TERRORISM

ABStRACt

This article aims to analyze the relation between the Islamism and the terrorism. The perspective adopted is different than the one commonly practiced by Western civilization. Therefore, in order to propose a systematization for the chosen study, this article is structured in the following configuration: initially, this work’s objective and used research technique are presented. Then the taxonomy employed is ____________________

* Major de Cavalaria. Exército Brasileiro. Curso de Comando e Estado-Maior do Exército. Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Contato: [email protected]

** Major de Infantaria. Exército Brasileiro. Doutorando em Ciências Militares (Programa de Pós-graduação em Ciências Militares). Docente do Instituto Meira Mattos (ECEME). Pesquisador do Laboratório de Estudos de Defesa (LED/ECEME). Contato: [email protected]

***Coronel de Cavalaria. Exército Brasileiro. Doutor em Ciências Militares. Doutor em Administração. Docente do Programa de Pós-graduação em Ciências Militares (ECEME). Pesquisador do

Laboratório de Estudos de Defesa (LED/ECEME) e do Centro de Investigação e Desenvolvimento do Instituto Universitário Militar (CIDIUM). Contato: [email protected]

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defined, avoiding missing the methodological limitations. In the sequence, the theoretical reference and the main concept in which this study is based are both presented. After it, the rising of Islam and its expansion over the time are also presented. Then, the Western civilization’s perception about Islam is exposed. Next, an analysis aimed to identify the relation between terrorism and Islamism is made. At the end, it is carried out a synthesis of Islam image in the Western world and its relationship with the terrorist activity.

Keywords: Defense Studies, International conjuncture, Islamism, Terrorism.

EL ISLAM Y LA CIVILIZACIÓN OCCIDENTAL: REFLEXIONES DE INTERÉS PRELIMINAR AL ESTUDIO DEL FENÓMENO DEL TERRORISMO

RESUMEN

Este artículo se propone a analizar la correlación existente entre el islamismo y el terrorismo. La perspectiva adoptada por él és distinta de aquella comúnmente practicada por la civilización occidental. Así, con el intento de proponer una sistematización para el estudio considerado, este artículo se estructura de la siguiente manera: en primero se presentan el objetivo y la técnica de pesquisa empleada en este trabajo. Para esto, se muestran inicialmente la técnica de propósito y de investigación utilizados en este trabajo; a continuación, la dama se define la taxonomía, centrándose en citar las limitaciones metodológicas; siguiente se presentan el marco teórico y el principal concepto que sirve de base para esta pesquisa; sin interrupción, el surgimiento de la religión islámica, su expansión mientras el tiempo y la percepción de la civilización occidental del Islam son todas abordadas; a la continuación, se hace un análisis en que se busca identificar la relación existente entre el terrorismo y el islamismo. Al final, se hace una síntesis de la imagen del Islam en el mundo occidental y se busca aclarar la relación entre Islamismo y terrorismo.

Palabras Clave: Estudios de Defensa, Coyuntura internacional, Islamismo, Terrorismo.

1 INtRODUÇÃO1, 2

O presente artigo tem por finalidade analisar a imagem que a civilização ocidental tem sobre o Islã, com foco na investigação acerca da (eventual) relação 1 O texto é consequência de pesquisa, reportando a reflexão individual dos autores,

particularmente do 1º autor, não constituindo, exceto quando referido e citado, o entendimento ou posicionamento de qualquer Instituição ou Organização.

2 Conforme orientação recente da The Scientific Electronic Library Online (SCIELO/FAPESP), particulariza-se a participação autoral, como segue. O primeiro autor participou da concepção da pesquisa, da pesquisa bibliográfica e da redação inicial e final do artigo. O segundo autor participou da discussão dos resultados e da redação final do artigo. O terceiro autor orientou, supervisionou e revisou a redação final do artigo.

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que essa religião possui com o terrorismo. Para realizar essa análise, essa pesquisa adota a concepção do terrorismo como referencial teórico, bem como assume três pressupostos que serão os norteadores desse estudo e que servirão para atingir o objetivo anteriormente proposto, quais sejam: 1) comportamentos e costumes do islamismo, 2) papel da mulher no islamismo e 3) relação do islamismo com o terrorismo.

Assim sendo, verifica-se que o homem busca, desde tempos imemoriais, explicações para a sua existência e seu papel no planeta e no universo. Mesmo a evolução do pensamento e do conhecimento científico, o progresso tecnológico e a expansão da capacidade de pesquisa e percepção da Humanidade não conseguiram todas as respostas para as perguntas que sempre norteiam a preocupação humana: quem efetivamente é o homem? De onde surgiu a espécie humana? Como surgiu o universo conhecido?

Por conta disso, o ser humano desenvolveu uma característica peculiar, um sentimento, um fenômeno, de difícil definição, que é uma das expressões máximas da complexidade de seu intelecto: a fé, inexplicável, mas, assim mesmo, presente até mesmo naqueles que não a possuem.

Em diferentes tempos, com diferentes referências e bases, e em distintas dimensões, homens e mulheres desenvolveram a crença em um, ou mais, ser(es) superior(es) que desempenha(m) o(s) papel(eis) de mestre(s) de tudo, e a cada um destes arcabouços de crenças se chamou religião.

Por conta do papel que a fé e a religião desempenham em sua vida, é natural que, a sua maneira, cada fiel demande o respeito que julga pertinente ao seu Deus. Esta é também uma das razões pela qual, muitas vezes, é difícil que se estabeleça um diálogo isento e produtivo em torno desta questão, envolvida em toda a sorte de paixões. Muitas vezes, ainda, desta dificuldade de diálogo e convivência, surgiram conflitos e violência, desencadeados entre seguidores de diferentes religiões ou entre diferentes vertentes de uma mesma religião.

Modernamente, o Ocidente, conjunto civilizacional herdeiro da tradição greco-romana, que, da Europa, espalhou seu legado para diversas partes do mundo, sofre mais influências do ramo de religiões denominadas abraâmicas: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. De uma forma geral, todas elas têm sua fé baseada na crença que um único ser superior: Javé, Deus ou Alá, respectivamente.

Cada uma delas tem um registro escrito desta mensagem divina, reunida na Torá pelos judeus, na Bíblia pelos cristãos e no Alcorão pelos muçulmanos. A Bíblia e o Alcorão guardam semelhança em parte de sua narrativa tanto entre si quanto com a Torá, mais antigo dos três registros. Estes registros serviram de fonte para construir nações e países, organizando a vida das sociedades.

Ademais, cumpre acrescentar outro fenômeno histórico, social e filosófico que moldou a cultura ocidental de forma decisiva: o Iluminismo. Os iluministas foram pensadores de diversas áreas científicas que lograram colocar na base do

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pensamento ocidental, a partir do século XVII, o método científico como base da comprovação do conhecimento a ser aceito universalmente. Com isso, a religião perdeu, no Ocidente, sua supremacia junto ao Estado como ator a organizar e legitimar o poder dos governantes e a relação entre as pessoas.

Diante disso, esse artigo se propôs a analisar a correlação existente entre o islamismo e o terrorismo sob outra perspectiva diferente da comumente praticada pela civilização ocidental. Assim, com o intuito de propor uma sistematização para o estudo elencado, esse artigo está estruturado da seguinte forma: inicialmente são apresentados o objetivo e a técnica de pesquisa utilizada nesse trabalho. Na seção seguinte é definida a taxionomia empregada, não deixando de citar as limitações metodológicas. Logo a seguir, são apresentados o referencial teórico e o principal conceito que serve de base conceitual dessa pesquisa. Em seguida, é apresentado o surgimento do Islã, bem como a sua expansão ao longo dos tempos. Na sequência, aborda-se a percepção da civilização ocidental acerca do islamismo. Posteriormente, é realizada uma análise voltada para se identificar a relação existente entre o terrorismo e o islamismo. Na última seção, é realizada uma síntese da imagem do Islã no mundo ocidental e sua relação com a atividade terrorista.

2 CONSIDERAÇÕES MEtODOLÓGICAS

Numa pesquisa científica, o método é a garantia de que o papel social da ciência prevalecerá sobre os interesses ou visões dos pesquisadores. Um método coerente e claro é condição fundamental para que se possa atribuir valor científico a qualquer estudo ou observação da realidade.

Esse artigo optou por uma metodologia do tipo ideal, pois a mesma é a que melhor permite realizar com mais exatidão a comparação da realidade preconizada nos fundamentos do islamismo com a imagem que é propagada no mundo ocidental (WEBER, 2001). Dessa forma, ao se adotar esse tipo metodológico com a finalidade de atingir o objetivo proposto pela pesquisa, este artigo entende que essa abordagem permite diminuir as influências das literaturas utilizadas no mundo ocidental que tratam sobre esse assunto e que podem conduzir essa pesquisa a uma visão ocidentalizada.

Além dessa abordagem, esse artigo inseriu dados de atentados terroristas ocorridos entre 2001 e 2016 no mundo. Tal recorte histórico foi concebido, pois entende-se que os atentados ocorridos no dia 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos da América (EUA) marcaram uma mudança na postura da política externa estadunidense e a ascensão do terrorismo no cenário mundial a outro patamar. Para tanto, buscou-se esses números na Base de Dados Global Terrorism Database (GTD), da Universidade de Maryland, nos EUA. Este banco de dados registra e classifica os dados de todos os atentados terroristas, disponibilizando-os para

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consulta pública mediante cadastro em seu endereço eletrônico na rede mundial de computadores.

Com base no período elencado anteriormente (2001-2016), a pesquisa no site foi concebida adotando três variáveis que norteiam a temática desse artigo, quais sejam: 1) local dos atentados, 2) atentados que possuem alguma ligação com o islamismo e 3) atentados que possuem alguma ligação religiosa. Com o intuito de esclarecer a metodologia adotada, o Quadro nº 1 esclarece a proposta dessa pesquisa:

Quadro nº 1 - Concepção da Pesquisa

Período de análise 2001 – 2016

Nível de agregação Análise global, por países, particularizando a inserção continental Varáveis analíticas Distribuição

geográfica (Quadro nº 2) Vinculação religiosa específica (com o Islamismo) (Quadro nº 3) Vinculação religiosa (Quadro nº 4) Fonte: Os Autores, 2017.

Para fins metodológicos, considera-se o mundo ocidental composto pela América do Norte, América Central, América do Sul e a Europa. E o mundo não ocidental composto pela Ásia, Oceania e África. Para verificar os atentados de autoria islâmica, bem como os atentados de cunho religioso, foram adicionadas as seguintes palavras-chave na Base de dados no GTD: 1) Islam, e 2) Religious. Esses dados possuem o propósito de contribuir para a ratificação ou retificação da percepção ocidental sobre o islamismo e sua ligação com o terrorismo.

Em vista disso, este estudo pretende se descolar de correntes teóricas de pensamento, ao mesmo tempo em que buscará ser fiel à História e seus fatos. Ademais, esse artigo reconhece as limitações do método pela dificuldade da transliteração de nomes e outros vocábulos trazidos de outros idiomas, principalmente do Árabe, para o Português. Mas entende que essa metodologia é suficientemente capaz para atingir o objetivo proposto, na medida em que o esforço principal desse esforço é verificar a relação entre o islamismo e o terrorismo.

3 REFERENCIAL tEÓRICO

Esta seção promove um debate sobre o principal termo que serve de lente conceitual para a consecução da presente pesquisa, qual seja: terrorismo. Em vista disso, esse conceito será debatido sob múltiplos enfoques com o intuito de evidenciar distintas percepções, bem como destacar a complexidade da definição

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desse termo atualmente no meio científico e possibilitar realizar uma correlação cientificamente adequada no final desse estudo com o islamismo.

3.1 O FENÔMENO DO tERRORISMO

Falar sobre terrorismo é algo complexo, pois não há consenso na literatura mundial sobre o conceito desse fenômeno. Essa problemática não é nova, há muito tempo estudiosos do assunto emitem seus comentários e suas opiniões sobre o que entendem acerca dessa manifestação. Como exemplo disso, Laqueur defende uma análise sobre terrorismo com enfoque voltado para o contexto atual em que o mesmo se manifesta. (LAQUEUR, 1998).

Alimentando essa discussão, Crenshaw afirma que o terrorismo pode ser explicado através de seu entorno político. (CRENSHAW, 1995). Convergindo com Crenshaw, Whittaker declara que o terrorismo pode ser definido como um movimento com fins políticos, não deixando de salientar a dificuldade em se definir terrorismo (WHITTAKER, 1994). Assim, nessa perspectiva, esse fenômeno estaria correlacionado a objetivos políticos, vertente que encontra bastante consentimento na atualidade.

Já Pape propõe um estudo que visa entender o terrorismo baseado em seus resultados ou sob uma ótica de que os fins justificam os meios. (PAPE, 2003). Nessa concepção, a prática do terrorismo suicida, no qual a pessoa morre diante de um objetivo estratégico maior é um exemplo da perspectiva proposta por Pape.

Noutra direção, Kaldor analisa o terrorismo sob o prisma da modernidade, mais precisamente como uma manifestação que se utiliza da internet para expressar sua insatisfação com a sociedade atual, bem como a utiliza para potencializar seu alcance e resultado. (KALDOR, 2003).

O cientista político David Rapoport fez uma análise bastante interessante do desenvolvimento do terrorismo nos últimos cento e quarenta anos. Seu estudo, denominado “The Four Waves of Modern Terrorism”, estabelece uma metodologia possivelmente capaz de analisar o terrorismo moderno através da concepção de ondas sucessivas. Nessa vertente, cumpre destacar que outros autores e estudiosos no assunto também compartilham com essa tipologia de terrorismo. Um exemplo desses autores é Gofas, o qual estabelece como sendo fundamental que estudiosos ampliem o seu foco de análise e sejam capazes de observar as distintas ondas que compõem o terror assim como seu ciclo geracional (GOFAS, 2012).

Para Rapoport, uma onda é um ciclo de atividades em um determinado período ca racterizado por fases de expansão e contenção. Sua característica fundamental, porém não exclusiva, é aquela que atribui nome à onda, pois revela a ocorrência de atividades semelhantes em diferentes países devido a uma mesma energia que impulsiona. Quando essa energia se esgota, a onda também desaparece. (RAPOPORT, 2004).

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Até hoje, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas não conseguiu chegar a um consenso sobre a definição do termo, e o Brasil somente o fez em seu ordenamento jurídico interno, em 2015, por conta da pressão internacional feita em consequência dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, ocorridos em 2016.

Procurando buscar aspectos comuns no terrorismo, Schimd e Jongman realizaram uma pesquisa na qual analisaram 109 definições sobre o fenômeno do terrorismo. Nesse estudo, os mesmos puderam chegar a algumas conclusões, tais como: 1) 83,5% dessas definições enfatizaram a força e a violência como aspectos inerentes ao terrorismo; 2) 65% dessas definições relacionaram esse fenômeno com a política, 3) 51% dessas definições destacaram a presença do medo no terrorismo; e 4) 47% dessas definições relacionaram o terrorismo com imposição da ameaça às pessoas. (SCHIMD e JONGMAN, 2005).

Em vista desses resultados, a pesquisa realizada por Schimd e Jongman apresenta dois aspectos interessantes, quais sejam: 1) a enorme quantidade de definições sobre terrorismo, totalizando 109 conceitos distintos; e 2) mesmo com essa quantidade, características como violência, força, política e medo estiveram presentes, pelo menos, em mais de 50% dessas definições.

Com essas definições e distintos pontos de vista, pode ser verificada a grande variedade conceitual que existe na literatura mundial acerca desse assunto. Com isso, ficou claro o quão difuso é o conceito, pois se trata de um fenômeno que possui múltiplas finalidades, distintos pontos de vista, os quais tornam a compreensão complexa. Ademais, destaca-se que aspectos como violência, força, política e medo são comuns na atividade terrorista.

4 O NASCIMENtO DO ISLÃ E SUA EXPANSÃO

O tempo é o século VII, o lugar é a península Arábica, uma extensa faixa de terra coberta de deserto arenoso e habitada por pastores e comerciantes nômades, que se deslocavam pelo deserto em trilhas conhecidas, ligando oásis onde se estabeleceram núcleos populacionais. Era uma sociedade patriarcal, o nome dos indivíduos fazia referência ao de seu pai, e extremamente segregada, onde o instituto da escravidão era aceito com normalidade e as mulheres consideradas propriedade de seus pais, maridos, ou outros homens, conforme cada caso. A família, e sua versão mais ampla, o clã, definidos pelo laço de sangue, e a tribo, por outras afinidades mais distantes, como a localização geográfica e as alianças militares, eram as duas organizações básicas da sociedade (ALLEN, 2007).

Estas famílias, clãs e tribos viviam à sombra de duas grandes potências da época: o Império Bizantino e o Império Persa. A influência de cada uma destas superpotências e das disputas surgidas entre elas e dentro delas moldou e modificou a realidade dos chamados árabes, que, naquele tempo, não possuíam um sentimento claro de povo. Mesmo que, hoje em dia, se tenha uma imagem um tanto o quanto

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homogênea dos árabes, os clãs do Norte se julgam descendentes de Ismail, filho de Agar, a escrava que teve um filho com Abraão e que ele expulsou depois que sua esposa Sara teve um filho, já os clãs do Sul possuem, além da ascendência semítica, muita aproximação e ligação com os povos africanos (DEMANT, 2015).

O Império Bizantino nasceu da divisão do Império Romano em Ocidental e Oriental, sendo o nome dado ao do Oriente, cuja capital era Bizâncio, atual Istambul. Este império adotou o Cristianismo como religião oficial do Estado, numa mistura entre igreja e governo que ficou conhecida como cesaropapismo. O Império Bizantino durou mais de mil anos, do cisma de 330 d.C. até 1453 d.C., quando entrou em colapso e Constantinopla, novo nome de Bizâncio, foi conquistada pelos turcos-otomanos. O Império Romano Ocidental caiu perante os bárbaros em 476 d.C., tendo mergulhado a Europa na Idade Média (ARMSTRONG, 2016).

O Império Persa, por sua vez, havia herdado a complexa tradição da civilização do zoroastrismo, nascida no século VI a.C., tendo permanecido, à época, como o principal poder opositor ao Império Bizantino (HOURANI, 1994). Por conta deste antagonismo, uma das principais rotas comerciais do mundo conhecido havia sido interrompida, a Rota da Seda, que vinha desde Bizâncio, passava pela Pérsia, chegando à China, onde eram produzidos artigos refinados dos quais o maior destaque era o tecido pelo qual a rota passou a ser conhecida.

Sem a Rota da Seda, os comerciantes passaram a buscar outras alternativas e a principal delas passou a ser usar os portos a oeste do Monte Líbano, como Tiro, ou cruzar a península Arábica em sua região setentrional, o Hijaz, seguir pelo deserto até o Iêmen, e, de lá, navegar até a China. Aproveitou-se, ainda, que as caravanas de camelos passaram a carregar mais peso, tornando-se mais rentáveis. Com isso, a circulação econômica na Arábia aumentou, surgindo entrepostos comerciais que davam suporte às caravanas de beduínos, sendo um dos principais, a cidade de Meca (ARMSTRONG, 2016).

Do ponto de vista religioso, o Cristianismo havia migrado da condição de seita dissidente do Judaísmo, típica das classes baixas e pobres, para a religião oficial do Império Romano e, daí, para, entre outras coisas, o cesaropapismo. A influência dos cinco patriarcados, de Roma, Constantinopla, Antioquia, Jerusalém e Alexandria, como eram chamados os principais centros cristãos e onde estavam os principais líderes, crescia progressivamente (DEMANT, 2015).

Entretanto, divergências doutrinárias começaram a surgir. Uma delas dizia respeito à natureza de Jesus Cristo. Havia uma corrente que defendia que Cristo foi tanto humano quanto divino, chamados diofisistas, e que prevaleceu no conselho ecumênico da Calcedônia, em 451 d.C. Os derrotados, chamados monofisistas, pregavam que Cristo era unicamente divino, mas, com a derrota no conselho, passaram a ser proibidos de pregar em público sob pena de serem acusados de heresia (HOURANI, 1994).

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outros tantos politeístas, estes últimos mais comuns nas tribos do deserto. Neste ambiente, em Meca, nasceu Maomé, em 570 d.C., filho de uma família de menor importância do clã dos Coraixitas, um dos mais poderosos da cidade. Criado em uma família de comerciantes, Maomé seguiu a tradição da família, levando uma vida cheia de viagens. Aos vinte e cinco anos, casou-se com uma viúva rica, para quem estava trabalhando, mais velha que ele, Khadija, e passou a tocar os negócios dela e de seu associado, e mais tarde melhor amigo, Abu-Bakr. (DEMANT, 2015).

Quando tinha mais ou menos quarenta anos, ele voltou do deserto descrevendo uma visão que havia tido sobre uma mensagem divina, trazida pelo Arcanjo Gabriel. Maomé não entendeu totalmente o que estava acontecendo, mas Abu-Bakr, e, principalmente, Khadija, foram as duas primeiras pessoas a acreditar na autenticidade do que Maomé falava, instigando-o a perseverar em suas visões. Eles se tornaram, assim, os dois primeiros convertidos à nova fé, o Islamismo ou, simplesmente, o Islã, palavra que, em Árabe, quer dizer submissão (HOURANI, 1994).

Nesse sentido, o Alcorão sentencia que os primeiros versos que o Arcanjo Gabriel mandou Maomé recitar foram os seguintes: 1) Lê em nome de teu Senhor que tudo criou; 2) Criou o homem de um coágulo de sangue; 3) Lê que teu Senhor é generoso; 4) Que ensinou o uso do cálamo; e 5) Ensinou ao homem o que este não sabia (ALCORÃO, SURA 96).

Diante desse cenário, Maomé aceitou seu papel de profeta e passou a pregar a nova fé, incomodando aqueles que, em Meca, lucravam com as caravanas de peregrinos que vinham visitar as imagens de diversas divindades e que estavam reunidas ao redor da Caaba3. Temendo por sua vida, Maomé fugiu para a cidade

de Iatreb, que passou a ser conhecida como al-Medina4. Este evento passou a ser

conhecido como Hégira5, marcando o ano zero do calendário muçulmano (KAMEL,

2007).

Assim, Medina passou a ser a primeira comunidade organizada sob as leis do Islã, os convertidos passaram a ser conhecidos como muslimin6. Aqueles cidadãos

que se recusaram foram expulsos ou exterminados.

No ano cinco da Hégira, os clãs de Meca, inclusive o Coraixita, cercaram Medina com tropas mais numerosas que as de Maomé, eram cerca de dez mil adversários contra três mil seguidores. Entretanto, seguindo o conselho de um persa que vivia em Medina, Maomé mandou construir uma trincheira em torno da cidade (estratagema desconhecido pelos árabes daquele tempo) (DEMANT, 2015). 3 Meteorito de trinta centímetros de diâmetro considerado, ainda hoje, sagrado, por se acreditar

que ele veio do próprio paraíso (DEMANT, 2015). 4 Expressão que significa a cidade em árabe.

5 Palavra em árabe que quer dizer migração (DEMANT, 2015).

6 Palavra em árabe que é o plural do caso oblíquo muslim, derivado de mussulmen e mussulman. Disponível em: https://en.oxforddicctionaries,com/definition/muslimin Acesso em; 29 de junho de 2017.

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As tropas de Meca ficaram detidas em torno da trincheira e não atacaram a cidade, mantendo o cerco por aproximadamente um mês, até que uma tempestade de areia muito forte os fez abandonar a posição. Este mês é relembrado todos os anos pelos muçulmanos no Ramadan7, e é a origem de algumas fortes tradições como o

traje típico feminino: o Hijab (KAMEL, 2007).

Tendo saído invicto de um embate amplamente desfavorável, Maomé se fortaleceu e expandiu sua influência, estabelecendo alianças com outras tribos. Com isso, Maomé reuniu forças suficientes para, no décimo ano da Hégira, entrar em Meca como o profeta e destruir todos os ídolos em torno da Caaba. Meca havia se submetido ao Deus único, Alá, sob os cinco pilares do Islã, os quais são descritos no Alcorão da seguinte forma: 1) O primeiro, Shahada, ou testemunho, é comumente pronunciado na ocasião da conversão religiosa; 2) O segundo, Salat, consiste nas cinco rezas diárias a que o muçulmano deve se submeter voltado na direção da Caaba, de Meca; 3) O terceiro, Zakat, ou esmola, assemelha-se ao dízimo cristão e deve ser pago como exercício de compaixão e solidariedade com a Ummah, a coletividade islâmica que reúne todos os fiéis em todos os cantos do planeta; 4) O quarto, o Ramadan, é o mês do jejum, do sacrifício em que o muçulmano deve se abster de levar qualquer coisa à boca durante o tempo em que o Sol nasceu até ele se pôr. Deve, ainda, se abster de prazeres sexuais neste período; e o 5) O quinto, a Hajj, é a peregrinação que todo muçulmano deve fazer até a Grande Mesquita de Meca, onde está guardada a Caaba. O fiel estará dispensado desta obrigação se, por alguma condição alheia à sua vontade, estiver impossibilitado (DEMANT, 2015).

Assim sendo, o Islã se considera uma reformulação do Judaísmo e do Cristianismo, cujos fiéis não compreenderam corretamente a mensagem enviada por Alá a eles por meio dos profetas. Maomé é considerado o último profeta, aquele que veio trazer a versão definitiva da palavra de Deus. Um trecho interessante da revelação é o que Alá diz que falará em Árabe para que seja entendido.

Convém ressaltar que Maomé morreu alguns anos após a sua entrada em Meca e que após a conquista de Meca, o Islamismo se expandiu pelo mundo, tanto pela guerra como pela obra de missionários, religiosos e fiéis que pregavam a nova fé onde quer que chegassem. O território dominado pelos islamitas se estendeu da península até a Espanha, que, por quase mil anos, foi conhecida como al-Andalus e teve Córdova como capital; chegou ao rio Danúbio, sendo repelido pelo exército austríaco aquartelado em Viena; e dominou os Bálcãs. Houve conversões de comunidades no continente africano, em países como Sudão, Nigéria e Mauritânia, na Índia, na China e na Oceania, onde, hoje, está localizado o maior país muçulmano da atualidade, a Indonésia, convertida por obra de comerciantes e árabes.

7 Nono mês do calendário muçulmano. Disponível em: https://www.icarabe.org/artigos/ramadan-o-mes-de-jejum-dos-muculmanos. Acesso em; 29 de junho de 2017.

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5 A PERCEPÇÃO DO ISLÃ JUNtO À CIVILIZAÇÃO OCIDENtAL

A imagem do Islã junto à civilização ocidental foi sendo formada ao longo dos anos em que as duas civilizações, ocidental e islâmica, confrontaram-se ou se aliaram, principalmente no entorno no mar Mediterrâneo. Se, por um lado, estiveram em lados opostos nas Cruzadas e na Reconquista Espanhola, por outro, lutaram lado a lado na Primeira Guerra Mundial uns contra os outros (não se pode esquecer da Tríplice Aliança, formada por Alemanha, Império Austro-Húngaro e Império Turco-Otomano, derrotados pela Tríplice Entente, com a colaboração dos árabes recrutados pelo coronel inglês Thomas Edward Lawrence, conhecido como Lawrence da Arábia).

Outra força a moldar a imagem que os ocidentais têm dos muçulmanos foi a disputa entre as duas religiões, Cristianismo e Islamismo, por fiéis. Esta disputa ocorria tanto com o uso do convencimento quanto com a intimidação baseada na força ou na influência sobre os diversos governantes, sendo esta ainda muito presente. No Marrocos, por exemplo, um país de maioria muçulmana, considerado tolerante, é tipificado como crime, punível até com prisão, a posse e a distribuição de livros sagrados, distintos do Alcorão, que estejam escritos em Árabe. Missas e outros cultos religiosos devem ser conduzidos de forma privada e em outros idiomas. Pelo lado cristão, por exemplo, pode-se mencionar a lei sancionada na Áustria em que o financiamento internacional às mesquitas foi proibido, mas continuou permitido para as igrejas cristãs.

As zonas de fricção entre as duas civilizações são sempre mais críticas e locais tais como os Bálcãs, o estreito de Gibraltar e o golfo da Guiné ilustram esta ideia. Nessas regiões, ainda está presente a tensão acumulada nos anos em que seguidores das duas religiões se enfrentaram buscando manter ou expandir sua zona de influência. Salienta-se que em áreas onde a religião da camada dominante mudou também costumam ser foco de tensão, uma vez que as minorias da antiga religião podem permanecer no território, agora sob outro mando e outras condições.

Esta relação tensa, e muitas vezes antagônica, favoreceu que, ao longo dos tempos, estereótipos pouco lisonjeiros se formassem em ambos os lados. Se hoje, existe a impressão de que os muçulmanos consideram os ocidentais ligados às coisas terrenas, gananciosos e lascivos, dentre outras coisas, já houve uma época que este era o juízo que os cristãos disseminavam sobre os islamitas.

Sobre estes estereótipos, pode-se dar como exemplo a descrição dada por Sayd Qutb, ideólogo islâmico nascido no Egito e que estudou nos Estados Unidos da América, sobre o povo norte-americano, em meados do século XX: “Um rebanho impulsivo e iludido que só conhece a luxúria e o dinheiro” (WRIGHT, 2007).

Esta, por sua vez, não é muito diferente da feita por Álvaro de Córdoba, cristão que viveu na província de al-Andaluz, durante o domínio muçulmano, no século IX d.C.:

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Os muçulmanos são inchados de orgulho, lânguidos no gozo de atos carnais, extravagantes no comer, usurpadores cobiçosos da aquisição de posses (…) desprovidos de honra e de verdade, pouco familiarizados com a bondade ou a compaixão (…) volúveis, astutos, ardilosos, e, na verdade, não estão meio mas completamente emporcalhados nos resíduos de toda impureza, desdenhando a humildade como insanidade, rejeitando a castidade como se fosse imundície, depreciando a virgindade como se fosse a impureza da devassidão, pondo os vícios do corpo na frente das virtudes da alma. (WHEATCROFT, 2004). Uma outra percepção que a sociedade ocidental tem do Islamismo é que, em sua essência, não se separa a política da religião, uma vez que o Alcorão possui orientações e regras rígidas quanto à vida em sociedade. A face mais conhecida deste aspecto diz respeito à Sharia, palavra árabe que define a lei de Alá, ou, simplesmente, a lei islâmica. Este conjunto de normas é adotado em sua integralidade em alguns países, como, por exemplo, a Arábia Saudita, sendo a base legal do Estado, e estendendo seus preceitos, em alguns casos, inclusive para os estrangeiros, como é o caso das regras de vestimentas femininas.

O que se deixa de mencionar é que este é um traço comum em diversas religiões. Até o fim do século XVIII d.C., início do século XIX d.C., ou seja, até o declínio do absolutismo europeu, a autoridade do soberano, do rei, provinha de Deus. Este ciclo tem como atestado de ocaso mais emblemático a coroação de Napoleão Bonaparte, em 1804, como imperador da França, em que a coroa foi posta sobre a cabeça de Napoleão pelo próprio e não pelo representante da Igreja Católica, o Papa Pio VII, como mandava a tradição monárquica europeia - o próprio uso do termo coroação rompia a tradição de se usar o termo consagração, mais afeito a ritos religiosos. Em se tratando de Brasil, vale recordar que apenas em 1889, com a proclamação da República, o Estado deixou de ter uma religião oficial, no caso a Católica, tornando-se laico.

Esta percepção é de tal forma consolidada em alguns meios que, muitas vezes, faz-se uso das palavras islâmico e muçulmano com significados distintos, colocando-se islâmico para fazer referência a algo em que a religião expandiu sua influência além do plano espiritual e muçulmano para aqueles pontos em que se quer mencionar apenas aspectos religiosos. Frequentemente, ainda, observa-se, principalmente na mídia, o emprego de islâmico para fazer referência à vertente mais radical, extremista ou fundamentalista dos fiéis.

A posição da mulher, seus direitos e suas obrigações na sociedade e nos países de maioria muçulmana é outro ponto controverso. Convergindo com tal assertiva o Alcorão sentencia, dentre outras coisas, que os homens são superiores às mulheres porque Alá os fez assim e que se eles temem a desobediência de suas mulheres, os

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mesmos estão autorizados a bater nelas (ALCORÃO, SURA 4). Nota-se que, conforme a interpretação oficial, encontra-se de forma explícita a superioridade do homem sobre a mulher com o predomínio do uso da força física e pelos encargos de que está investido, e não em matéria de honra. Está também colocado que, no caso da punição física, deve-se ter o cuidado de bater suavemente, não se atingindo a face ou as partes mais sensíveis da mulher.

Por mais retrógrada que possa parecer tal visão, há que se levar em conta o tempo em que houve a Revelação8. Antes dela, como mencionado anteriormente

neste mesmo artigo, a sociedade árabe era patriarcal ao extremo e, na verdade, ao colocar que o homem deve bater na mulher, a lei divina restringiu-lhe um direito já que, provavelmente, àquela época, lhe era autorizado tirar a vida de sua mulher sem que lhe fosse imputada punição alguma.

Outros trechos da mesma sura demonstram claramente a ideia progressista do Alcorão como, por exemplo, as regras de amparo e proteção a órfãos e órfãs, que, sem uma figura forte que guardassem seus direitos, eram presas fáceis para aproveitadores, não só na Arábia, mas também na Europa (onde a proteção aos órfãos era um dos deveres principais das ordens de Cavalaria).

Para o Islã, a mulher é a fonte da sexualidade, sendo a responsável por seduzir os homens e desviá-los do caminho do bem (semelhante ao pecado original, em que Eva influenciou Adão). Guardar a virtude delas, isto é, sua virgindade quando solteira e sua fidelidade quando casada, é questão de honra para os homens da família, numa acepção muito parecida com a do sexto mandamento - “Não pecar contra a castidade”.

Em muitos países islâmicos, a mulher adulta só sai do harém de sua casa (harém deriva de harrama, palavra árabe que deu origem a haram, que quer dizer proibido), região onde somente entram os homens que com ela não podem se casar, em duas ocasiões: para seu casamento e para o seu enterro. Evidentemente, a vida moderna e suas dificuldades vêm tornando cada vez mais raro que este dispositivo seja integralmente seguido, uma vez que somente famílias abastadas podem se dar ao luxo de dispensar as mulheres de trabalhar. Assim, mesmo as mulheres das cidades (as do campo sempre tiveram que colaborar com o trabalho e desfrutaram de maior liberdade) estão tendo que flexibilizar a tradição, mais ou menos como ocorreu no esforço de trabalho para a II Guerra Mundial.

Ainda sobre as mulheres e seu tratamento, verifica-se uma grande dificuldade em se separar o que é um traço religioso daquilo que é um traço cultural e comum nas sociedades de todo o planeta. Não faz sentido colocar a ocorrência de atos violentos contra mulheres em países islâmicos (dos quais não estão disponíveis estatísticas confiáveis) inteiramente como um comportamento originado na religião professada. Deve-se levar em conta, por exemplo, a própria realidade 8 Como os muçulmanos chamam a visão de Maomé acerca dos desígnios de Alá (DEMANT, 2015).

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brasileira, onde, até a segunda metade do século XX d.C., a manutenção da honra era considerada um fator que possibilitava a absolvição de um marido acusado de matar uma esposa adúltera, e que, somente no início do século XXI d.C., foi aprovada uma lei, a lei Maria da Penha, regulando especificamente os crimes de violência contra as mulheres.

A favor da lei islâmica pode-se ainda acrescentar que o divórcio é um direito garantido tanto a elas quanto aos homens desde a Revelação, inclusive àquelas que se casaram com Maomé após a morte de Khadija. Basta que se anuncie em praça pública o desejo de se divorciar por quatro vezes, conforme a Sura 65, do Alcorão. É, ainda, proibido ao ex-marido sustar o direito da ex-mulher de casar-se novamente ou de abandoná-la, devendo garantir seu sustento até que morram ou tomem outro caminho conforme a vontade de Alá, numa espécie de sistema de proteção social. Colocando-se em contraposição ao ordenamento jurídico brasileiro, o divórcio somente foi incluído na legislação brasileira na segunda metade do século XX d.C., mais de mil anos depois.

É certo ainda que, para o Ocidente, a poligamia é um instituto que não está alinhado com os costumes consolidados ao longo do tempo, sendo considerado um ato de dominação ou diminuição do valor da mulher. Deve-se considerar, entretanto, que o Alcorão é claro que todas as quatro mulheres a que o homem muçulmano tem direito de desposar, no máximo, devem receber um tratamento equânime, não podendo uma prevalecer ou ser privilegiada em detrimento da outra. Coloque-se ainda nesta direção o fato de estarmos falando de uma sociedade criada num ambiente hostil e inóspito como o deserto da península arábica em que, por um outro ângulo, ser monogâmico e abandonar o sustento de uma mulher adulta à própria sorte pode ser considerado um ato de extremo egoísmo e até gerar uma massa de pessoas desassistidas.

Existe também um choque quanto ao código de vestuário. Foi muito difundida pelo mundo a imagem de mulheres vestindo um traje conhecido como Bourka, em que se cobrem todas as partes do corpo, inclusive os olhos, sendo possível que se veja por uma tela de tecido colocada à frente do rosto que, no entanto, impossibilita que se reconheça a pessoa a trajar a vestimenta. Este traje não é o que a tradição muçulmana prega como adequado às mulheres virtuosas. O Hijab é o descrito na tradição islâmica, consistindo em uma roupa que cobre os cabelos e atenua os contornos do quadril das mulheres (lembrando que as mais virtuosas mulheres do Cristianismo, as freiras, usam um traje semelhante, o hábito). Por uma tradição da península, normalmente, as mulheres não permitem que homens que não sejam de sua família vejam mais que os seus olhos, utilizando um véu para auxiliar o Hijab a cobrir nariz, boca queixo e pescoço (KAMEL, 2007).

As normas de vestuário variam conforme os costumes locais e o ramo do islamismo que é seguido. Enquanto na Arábia Saudita é comum que as mulheres utilizem o Hijab e cubram o rosto e, na Jordânia, a própria rainha Rania seja vista

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trajando roupas ocidentalizadas, no Marrocos, por exemplo, as duas situações são encontradas, inclusive minissaias. Não se pode omitir que existem casos de mulheres agredidas, verbal e fisicamente, muçulmanas ou não, por não estarem vestidas conforme manda a tradição, o que, de certa forma, traz à mente a lembrança do quanto a sociedade brasileira ficou escandalizada com a ida de Leila Diniz à praia no Rio de Janeiro, grávida, trajando um biquíni e com sua barriga à mostra.

É ainda controverso que se atribua ao Islã a maior parte do ônus pelo comportamento discriminatório das sociedades islâmicas em relação às mulheres. Considerando-se que o texto foi revelado no século VII d.C., e fazendo-se a ressalva que, normalmente, textos considerados sagrados são contraditórios, o Alcorão está permeado de personagens femininas com papel relevante e cujo comportamento, mesmo nos tempos atuais, poderia ser classificado como de valorização da mulher. Podemos citar dois exemplos: Khadija, a primeira mulher de Maomé, uma viúva, rica, de quem Maomé foi empregado, ou seja, de quem, muito provavelmente, recebia ordens, e aquela a quem coube aconselhar Maomé a perseverar em suas visões (KAMEL, 2007); o outro exemplo é Hafsa, uma outra esposa de Maomé, que o flagrou com uma escrava (o que não era considerado adultério à época) e, para seu agrado, Maomé prometeu não mais se relacionar com as escravas (renunciando a um direito garantido a ele pelos costumes da época), como está escrito na Sura 66 do Alcorão.

6 O ISLÃ E SUA RELAÇÃO COM OS MOVIMENtOS tERRORIStAS

Os atentados de 11 de setembro de 2001 mudaram o mundo de uma forma significativa. Foi o primeiro ataque sofrido pelos Estados Unidos da América (EUA) a seu território continental desde o início do século XIX d.C. e, principalmente, desde que os EUA se consolidaram como superpotência mundial. De uma hora para outra, diversos especialistas no assunto começaram a surgir e exarar opiniões de toda a sorte. Em muitos lugares e veículos de comunicação, se discutiu-se a influência que a religião muçulmana havia tido na geração do comportamento suicida dos terroristas (ALLEN, 2007).

O fato é que o Terrorismo não é uma exclusividade dos muçulmanos e nem foi inventado por eles. É uma prática bélica que remonta à Antiguidade e utilizada por povos tão distintos quanto mongóis e assírios. Na Idade Contemporânea, pode-se dizer que os primeiros atos terroristas de relevo a alcançarem resultados significativos foram os que envolveram o processo de independência da Irlanda, nos anos de 1920, que levaram à independência do sul da ilha, à formação do Ulster e deram origem à organização terrorista irlandesa IRA (sigla, em Inglês, para Exército Republicano Irlandês). Neste caso, opunham-se católicos e protestantes.

Outros exemplos da diversidade deste fenômeno poderiam ser citados em locais tão distintos quanto a Espanha e o Sri Lanka, passando pela América Latina.

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De certa forma, o século XX d.C. viu o Terrorismo crescer e se desenvolver numa onda sem precedentes, agravada pelos processos de independência das antigas colônias europeias, pela Guerra Fria e pelo reordenamento promovido no Sistema Internacional em consequência do conflito não declarado entre os EUA e a União Soviética, e, mais tarde, de seu fim.

O Oriente Médio, e os muçulmanos, não ficaram imunes a esta onda. Em torno primeiramente da questão palestina e, depois, da influência dos EUA na península Arábica, várias organizações se estruturaram e buscaram fazer valer sua vontade pela força. Como forma de mobilização, estas organizações basearam-se em pensadores fundamentalistas, os principais são Sayd Qutb e Abu al-Ala Mawdudi, membros da Irmandade Muçulmana egípcia, e interpretações típicas de ramos mais radicais do Islã, como os Hanbalitas, Wahabitas e Salafistas, que justificam o emprego da violência como forma de conversão e reparação das injustiças feitas aos muçulmanos (DEMANT, 2015).

Estas são interpretações minoritárias. Para que se tenha ideia, Sayd Qutb considera que o próprio mundo muçulmano está, em sua maior parte, corrompido, acreditando que, de certa forma, o mundo retornou a era da Jahiliyya (era da ignorância, anterior à Revelação do Alcorão) e considera justo ataques a “falsos” muçulmanos, os hipócritas. Mawdudi é o pensador por trás dos conceitos que, hoje, regem a organização conhecida como Daesh (sigla, em Árabe, para o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, outro nome do ISIS), com um governo regulado apenas pelo Alcorão, baseado na Sharia, exercido pela Shura (um conselho composto apenas por muçulmanos), dentre outras coisas.

Os argumentos de ambos são reforçados por um conceito contido no Islã: a Jihad. Esta é uma obrigação de todo o muçulmano - proteger e fortalecer a sua fé, tanto internamente quanto externamente. O alcance deste ato de proteção gera debates e polêmicas entre os grandes teólogos islâmicos. Para os radicais, a Jihad levaria a atos de purificação, como o martírio, e à caça aos infiéis, que devem ser mortos tanto para purificar o mundo quanto para reparar agressões a outros muçulmanos. É recorrente no Alcorão a menção ao fato de que o poder de punir é exclusivo de Alá, a quem pertence tudo o que existe para perdoar ou castigar conforme sua vontade, sendo também misericordioso.

O Alcorão também contém passagens de extrema tolerância. Ele garante aos não crentes o direito de professar sua religião privadamente, desde que paguem o Zakat e não procurem converter os crentes (este dispositivo nem mesmo Mawdudi conseguiu contestar, garantindo participação política limitada aos não muçulmanos em conselhos municipais). O texto sagrado dos muçulmanos também prega que se um sofrimento tocar um crente, este deve se pacientar e aguardar, pois dias de sofrimento e dias de júbilo se alternam conforme a vontade de Alá (num conceito muito parecido com o contido no Evangelho cristão).

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no texto corânico como o povo do Livro, presente na Sura 03. Eles são descritos como pessoas a quem se pode confiar, mas de quem se deve guardar cuidado, uma vez que podem trair os preceitos de Alá por não crerem na Revelação sendo considerados em sua maioria perversos. Os judeus, inclusive, são descritos como os descaminhados. Mas, na mesma Sura 03, no verso 113, o Alcorão diz que não são todos iguais, havendo uma parte dos judeus e cristãos que constitui uma comunidade reta e são íntegros.

Mas, mesmo assim, o Terrorismo parece prosperar com mais força entre os muçulmanos, com atentados a bomba e fuzilamentos de civis em locais públicos. Diversas pessoas no Ocidente consideram esta onda terrorista do século XXI uma ameaça às conquistas da civilização Ocidental, como a Democracia, os Direitos Humanos e as Liberdades Civis. Para estas pessoas, o principal alvo é a civilização ocidental e seus cidadãos. Esta é uma premissa difícil de se justificar porque alguns argumentos contestam sua validade, enfraquecendo-a.

Em 2015, dois atentados na França chocaram o mundo: o assassinato de integrantes do jornal satírico francês Charlie Hebdo e o massacre a tiros na boate Bataclan. Somando-se os dois, o total de mortos fica em torno de 150 (cento e cinquenta) pessoas. Por mais que não se queira quantificar uma vida humana, em novembro de 2015, houve um atentado suicida com três homens-bomba em um subúrbio xiita de Beirute, na hora em que os fieis saíam da oração da tarde, onde morreram mais de 250 (duzentas e cinquenta) pessoas, não houve cobertura significativa da mídia, mobilizações em mídias sociais ou algo semelhante.

Com efeito, são os próprios muçulmanos as principais vítimas dos ataques perpetrados pelos radicais. Em 2015, os cinco países com maior número de ataques terroristas foram o Paquistão, o Afeganistão, o Iraque, a Síria e a Nigéria, tendo concentrado mais de 70% de todos os ataques terroristas de acordo com estudo conduzido pelo Departamento de Estado dos EUA. Destes cinco, em apenas um, na Nigéria, os alvos foram em sua maioria cristãos, nos outros quatro a parte da população que não professa a fé muçulmana é pouco significativa, e a maior parte das vítimas dos extremistas são outros muçulmanos. Reforçando esse aspecto, o Quadro nº 2 apresenta a quantidade de atentados terroristas nos países ocidentais e nos países não ocidentais entre 2001 e 2016:

Quadro nº 2 - Atentados terroristas nos países ocidentais

MUNDO OCIDENTAL MUNDO NÃO OCIDENTAL TOTAL

Nº de atentados 9.032 89.741 98.773

Percentual 9,14% 90, 86% 100%

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De acordo com o GTD, de 2001 a 2016, ocorreram 9.032 (nove mil e trinta e dois) atentados terroristas em algum país do Ocidente, dos quais 3.667 (três mil seiscentas e sessenta e sete) foram realizados na Europa Oriental, que foi a região com o maior número de ocorrências no âmbito dos países ocidentais. O Gráfico nº 1 apresenta a ocorrência de atentados terroristas nos países ocidentais e nos países considerados não ocidentais sob outra perspectiva:

Gráfico nº 1 - Atentados terroristas: Países Ocidentais X Ásia, África e Oceania

Fonte: Global Terrorism Database (GTD), 2017.

O gráfico anterior indica que a localização dos ataques não pode ser usada como dado a consubstanciar o argumento de que o alvo é a civilização ocidental. Os números mostram que a participação dos países ocidentais no que diz respeito à territorialidade, como alvo de atentados terroristas é pequena, em torno de 9% do número total de ataques. Dando sequência a investigação de atentados terroristas e sua ligação com o islamismo, serão apresentados os números de atentados terroristas e sua ligação com a religião islâmica.

Quadro nº 3 - Ligação do terrorismo com o islamismo LIGAÇÃO COM O

ISLAMISMO

NÃO POSSUEM LIGAÇÃO

COM O ISLAMISMO TOTAL

Nº de atentados 10.271 88.502 98.773

Percentual 10,4% 89,6% 100%

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O Quadro nº 3 nos informa que no período compreendido entre 2001 e 2016, dos 98.773 atentados terroristas que ocorreram no mundo, 10,4% possuíram ligação com o islamismo. Procurando obter esses números sob outra perspectiva, o Gráfico nº 2 apresenta esses dados:

Gráfico nº 2 - Atentados terroristas: Ligação com o islamismo X Não tem ligação com o islamismo

Fonte: Global Terrorism Database (GTD), 2017.

O Gráfico nº 2 descortina a razão de proporcionalidade existente entre os atentados terroristas que possuem ligação com o islamismo e os que não possuem essa ligação, de tal forma que entre o período de 2001 e 2016, a ligação do islamismo com o terrorismo é pequena. Prosseguindo na investigação de atentados terroristas e sua ligação com o islamismo, essa pesquisa analisará essa relação tomando por base a terceira variável desse estudo: ligação do terrorismo com a religião. O Quadro nº 4 apresenta esses dados:

Quadro nº 4 - Ligação do terrorismo com a religião LIGAÇÃO RELIGIOSA NÃO POSSUEM

LIGAÇÃO RELIGIOSA

TOTAL

Nº de atentados 3.203 95.570 98.773

Percentual 3,24% 96,76% 100%

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O Quadro nº 4 revela que entre 2001 e 2016, dos 98.773 atentados terroristas que ocorreram no mundo, apenas 3,24% possuíram alguma ligação religiosa, tornando-se mais insignificante essa correlação. A seguir, o Gráfico nº 3 apresenta esses mesmos dados sob outra ótica:

Gráfico nº 3 - Atentados terroristas: ligação religiosa x não possui ligação religiosa

Fonte: Global Terrorism Database (GTD), 2017.

O Gráfico nº 3 deixa claro que a ligação existente entre o terrorismo e a religião entre 2001 e 2016 é pequena e que a argumentação dos que defendem essa relação é abstrata. Na verdade, esse gráfico complementa os gráficos anteriores na medida em que nenhuma das três variáveis escolhidas (localização dos atentados, ligação com o islamismo e ligação com a religião) proporcionaram resultados que pudessem estabelecer de forma concreta a ligação do terrorismo com o islamismo.

Reforçando o aspecto anterior, essa pesquisa chegou a uma conclusão de que ao se tentar mensurar e verificar a ligação do islamismo com a atividade terrorista a partir do ano de 2001, tomando por base as três variáveis escolhidas anteriormente, percebeu-se que nenhuma das variáveis escolhidas apresentou índices superiores a 10% na relação com a atividade terrorista, diminuindo ainda mais a corrente teórica que entende que o islamismo se relaciona com a atividade terrorista.

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse estudo teve a finalidade de analisar a imagem que a civilização ocidental possui sobre o Islã, com foco voltado na relação que essa religião detém com o terrorismo. Para tanto, foi utilizado o terrorismo como referencial teórico desse

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esforço e que permitiu realizar as correlações necessárias entre religião e atividade terrorista no cenário contemporâneo, mais precisamente o islamismo.

Conforme verificado neste artigo, conclui-se que o Islã é uma das religiões do ramo Abraâmico a influir sobre a civilização ocidental. Nasceu na Península Arábica e dela se espalhou pelo mundo, arrebanhando fiéis em locais tão diferentes quanto a Oceania e a África. Ademais, esse estudo infere que a imagem que o Islã tem hoje junto à civilização Ocidental é negativa. Isto se dá por diversas razões, dentre as quais se destacam três.

A primeira é a complexidade do tema, em que a percepção pela civilização ocidental da diferença entre traço cultural e dogma religioso é muito difícil. Esta percepção se torna ainda mais nebulosa por conta do legado iluminista que transformou a religião em um assunto privado no Ocidente, que se busca excluir da vida pública, política e social.

A segunda é o antagonismo protagonizado entre as duas civilizações ao longo dos séculos: Islâmica e Ocidental, desde o surgimento da primeira. Este antagonismo moldou mitos e estereótipos em ambos os lados, dificultando a aproximação. Além desse aspecto, a prática terrorista com toda a sua complexidade e dificuldade em sua definição conceitual afastou ainda mais esses dois atores, pois a civilização ocidental imputa grande parte de atividades terroristas ao islamismo.

A terceira é o desconhecimento, muito relacionado com o antagonismo. A verdade é que muitos cidadãos ocidentais não conhecem e não pretendem conhecer o Islã a fim de entendê-lo, ou dele fazerem um juízo apurado, mesmo que negativo. Mais uma vez, a prática terrorista contribui para isso na medida em que ela se encontra atrelada a segmentos de fiéis à religião Islã, gerando preconceitos perante boa parcela da civilização ocidental.

E, possivelmente, é esta imagem que contribui para que persista no Ocidente a ideia que o terrorismo e a religião islâmica têm relação cerrada, uma vez que os números encontrados na pesquisa não indicam este grau de proximidade. Tanto a territorialidade, quanto a pesquisa ontológica realizada no banco de dados do GTD retornaram dados que claramente refutam este argumento. Por conta do exposto, atesta-se sua fragilidade e inconsistência.

Se, por um lado, para que a hipótese de que a religião islâmica está intimamente ligada ao terrorismo fosse de todo descartada, seriam necessários estudos mais aprofundados, que não são objetivo deste trabalho, por outro, pelo que se viu no corpo deste artigo, existem argumentos para que ela também não seja considerada irrefutável e tenha, pelo menos, sua validade questionada e reexaminada com maior profundidade. Isto é importante porque se viu que, ao longo da História, o Ocidente e a civilização islâmica entraram em confronto diversas vezes e, por conta disso, a percepção pode estar distorcida e exagerada.

Por fim, destarte as considerações elencadas, o que se verifica, sob o ponto de vista religioso, é que o Islã, o Cristianismo e o Judaísmo tem muito mais semelhanças

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do que propriamente diferenças. Os conceitos expressos em cada um dos três livros sagrados foram, em certa medida, absorvidos pelos que depois deles vieram com modificações pontuais. Esta semelhança é ainda maior quando se considera o Islã e o Cristianismo, onde se pode dizer que, até certo ponto, o Islã é essencialmente monofisista e o Cristianismo diofisista.

O verdadeiro embate que hoje se trava no mundo não é religioso, ele é terreno, se manifestando nas esferas política e sócio-cultural, devendo ser este o foco das estratégias a se adotar para se conter o terrorismo: enfrentar sem comprometer a convivência e tolerância cultural. Isto é bom, uma vez que conduzir o debate para diferenças majoritariamente religiosas inviabilizaria uma solução já que, em matérias que envolvem questões de fé, soluções racionais são extremamente difíceis de adotar devido ao grau de abstração e envolvimento emocional que elas envolvem.

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Recebido em: 15 abr. 2017 Aprovado em: 30 set. 2017

Imagem

Gráfico nº 1 - Atentados terroristas: Países Ocidentais X Ásia, África e Oceania
Gráfico nº 2 - Atentados terroristas: Ligação com o islamismo X Não tem ligação  com o islamismo
Gráfico nº 3 - Atentados terroristas: ligação religiosa x não possui ligação  religiosa

Referências

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