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2enebio 11EN BERNARDO, SANTOS e MAGALHÃES

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Academic year: 2019

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O QUE TRAZEM OS MANUAIS DIDÁTICOS DO ENSINO FUNDAMENTAL E  MÉDIO SOBRE A TEORIA DA EVOLUÇÃO. 

Márcia Regina Bernardo (Instituto de Biologia, UFRuralRJ, Bolsista CNPq),  Ana Cristina S. dos Santos (Instituto de Educação, UFRuralRJ) 

Luís Mauro S. Magalhães (Instituto de Floresta, UFRuralRJ)  Introdução: 

A teoria da evolução de Darwin foi objeto de estudo durante décadas e até hoje é um  tema que suscita muita discussão no meio acadêmico e social. Destacam­se também inúmeros  estudos voltados para o ensino de Ciências e Biologia. Dentre eles estão os manuais didáticos,  onde se reconhece a influência de obras de divulgação científica, relacionadas com o trabalho  realizado pelo naturalista inglês (Bizzo & Molina, 20004). 

Por  mais  que  se  reconheça  a  contribuição  do  pensamento  darwinista,  não  se  pode  negar o caráter ideológico que incorporou. Desta forma, o ensino deste tópico também deve  trazer a relação destes conhecimentos e suas implicações sociais. Um debate como este não  poderia  prescindir  da  apresentação  e  discussão  de  idéias  antagônicas  sobre  as  teorias,  e  o  reconhecimento de que a adesão a uma delas deve ser realizada por convencimento, após livre  exame das argumentações apresentadas. Dentre as idéias e conceitos que marcaram as noções  de evolucionismo interessa inserir as leituras de Lamarck e de Kropotkin. 

Em um primeiro momento investigaram­se as concepções de evolucionismo por parte  de professores do ensino fundamental e ensino médio de escolas de municípios fluminenses  (Bernardo, 2006). 

No presente trabalho analisaram­se os conceitos sobre a teoria da evolução, descritos  nos  livros  didáticos  e  utilizados  por  professores  e  alunos,  nas  suas  respectivas  escolas.  A  análise envolveu a comparação com as idéias abordadas por Kropotkin e  Lamarck sobre as  relações na natureza. 

O material utilizado para investigação compreendeu os livros didáticos utilizados por  professores e alunos das escolas públicas de ensino fundamental e ensino médio do município  de Seropédica e Petrópolis. 

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1­  Amabis,  José  Mariano;  Martho,  Gilberto  Rodrigues.  Biologia  das  populações  –  genética, evolução e ecologia – Vol.3. São Paulo: Ed. Moderna, 

2­  Barros Carlos; Paulino, Wilson Robert. Os Seres Vivos. 6º série. São Paulo: Ed. Ática  3­  Cruz, Daniel. Ciências e Educação Ambiental 6º série. São Paulo: Ed. Ática 

4­  Gewandsznajder, Fernando. Ciências e a vida na Terra 

5­  Gowdak Demétrio; Martins, Eduardo. Ciências: Novo Pensar. 6º série  6­  Linhares, Sérgio. Vol. Único e Vol.3.  São Paulo: Ed. Ática 

7­  Lopes, Sônia. Biologia. Vol. Único e Vol. 3. São Paulo:Ed. Saraiva.  8­  Paulino, Wilson Roberto. Biologia. Vol. Único. São Paulo: Ed. Ática.  9­  Silva Júnior, César; Sasson, Sezar. Biologia. Vol.3. São Paulo: Ed. Saraiva.  10­ Soares, José Luís. Biologia. Vol. Único e Vol.3.São Paulo: Ed. Scipione.  11­  Valle, Cecília. Terra e Universo. 5º série. São Paulo: Editora Positiva. 

Resultados e Discussões 

Livros mais utilizados pelo ensino fundamental. 

Observando  o  livro  da  6ª  série  de  Fernando  Gewandsznajder,  Ciências  e  a  vida  na  Terra, fala­se sobre evolucionismo utilizando os animais para explicar os mais bem adaptados  e como esses se mantêm vivos numa seleção natural. 

Perguntas  deste  livro  sobre  evolução:  O  que  são  fósseis  e  qual a  sua  importância para  o  estudo  da  evolução?  Explique  com  suas  palavras  o  conceito  de  seleção  natural?  Defina  mutação? De que forma a seleção natural e as mutações atuam sobre a evolução? 

Mais  na  frente,  no  mesmo  livro,  um  texto  propondo  atividades  em  grupo.  “Leia o texto a  seguir e depois, em grupo, faça a pesquisa que se pede. Darwin e evolução”. 

No livro de Cecília Valle, Terra e Universo. 5º série. Editora Positiva, na pág. 78 – livro de 5º  série aparece a seguinte questão: 

“Harmonia ou desarmonia? 

A relação entre dois indivíduos, sendo um predador e o outro a presa é, sem dúvida,  uma relação hostil desarmônica. 

No  entanto,  o  predatismo  deve  ser  considerado  uma  relação  desarmônica  quando  consideramos seu significado para o equilíbrio do ecossistema. 

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A leitura destes livros leva a algumas interrogações e os seus conteúdos apresentam  pontos  em  comum,  que  devem  ser  refletidos.  A  discussão  acerca  do  evolucionismo  tem  profundas conseqüências, não só no ensino de ciências, como em muitos outros aspectos da  educação e da própria sociedade. 

Ao abordar este tema sem qualquer contextualização, sem mencionar os cientistas que  se debruçaram sobre o assunto e o cenário em que se deu o desenvolvimento de suas teorias, a  mensagem  assume  formas  dogmáticas  e  fechadas.  Sem  a  ajuda  da  História  da  Ciência,  de  descrições mesmo que resumidas da época em que os cientistas viveram, o porquê das suas  perguntas e as buscas pelas respostas, estas viram “pacotes”. Os estudantes não tratam sobre  as dúvidas  desses teóricos,  as idéias predominantes na  época na qual  viviam,  as limitações  dessas  teorias  e  o  fato  de  que  estas  não  são  as  únicas  “verdades”  e  nem  imutáveis.  Essa  abordagem  será  importante  para  que  os  estudantes  possam  elaborar  seus  próprios  conhecimentos. 

Com  a  mudança  recente  da  matriz  curricular,  onde  esta  passa  a  ser  integrada  e  interdisciplinar, de 5ª a 8ª, é de extrema importância, a História da Ciência, os seus cientistas  e  a  época  na  qual  está  inserido,  serem  abordados  nos  livros  didáticos,  pois  senão  continuaremos ensinando Ciência como um dogma a ser seguido pelos nossos estudantes. 

No livro do ensino fundamental, da coleção Ciências de Cecília do Valle, também não  são  abordadas as diferentes teorias  da  evolução  e  seus teóricos;  apenas se  fala  em  relações  harmônicas, desarmônicas e predatismo. Desta forma, a noção de harmônico e desarmônico  fica  associada,  para  os  alunos,  às  idéias que  trazem  de  suas  experiências  de  vida,  ou  seja,  harmonia com algo bom e desarmonia como algo ruim. Esse assunto deve ser abordado no  momento  em  que  se  estiver  tratando  de  evolução,  pois  essas relações ocorrem  na  natureza  entre  os  indivíduos,  sendo  elas  intraespecíficas  e/ou  interespecíficas,  e  os  adaptados  continuarão vivos. Dessa forma se dá a seleção natural para a evolução das espécies. 

A seleção natural não pode ser vista da forma generalista com a qual deparamos nos  livros  didáticos  e  até  mesmo  no  meio  acadêmico.  Ao  relatar  as  relações  entre  abelhas  Kropotkin  descreve  que  elas:  “... não  se  distinguem  pelas  influências  sanguinárias  e  pelo  amor aos combates inúteis com que muitos escritores adotam tão agradavelmente a todos os  animais”. 

Carlos  Barros  e  Wilson  Robert  Paulino  no  livro  Os  Seres  Vivos  descrevem  na  Pág  37  a  seguinte definição: 

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de  sobreviver  e  deixar  descendentes  férteis,  enquanto  os  portadores  de  características  “desfavoráveis”  tendem a  ser  eliminado, pois  terão  menores  chances.”  (Barros e  Paulino,  2004). 

Ao  descrever  seleção  natural  o  autor  traz  em  seu  livro  a  seguinte  descrição  “...  os  indivíduos  portadores  de  características  “favoráveis”  têm  maior  chance  de  sobreviver  e  deixar  descendentes  férteis,  enquanto  os  portadores  de  características  “desfavoráveis”  tendem  a  ser  eliminado,  pois  terão  menores  chances”.  A  noção  de  “características  favoráveis” é tratada de forma muito generalista e necessita ser melhor discutida. 

É  possível  perceber  no  trecho  em  negrito,  destacado  abaixo,  que  indivíduos  com  características compreendidas como “desfavoráveis” conseguem sobreviver no meio no qual  vivem sem serem eliminados. E o mais interessante é que podem ser encontrados em vários  lugares  no mundo, deixando  grande  quantidade de  descendentes férteis,  como é o  caso das  formigas. 

“ ...Se não conhecermos nenhum outro caso da vida dos animais, a parte daqueles  conhecidos  das  formigas  e  cupins  poderemos  concluir  com  segurança  que a  ajuda  mútua  (que  conduz  à  confiança  mútua,  primeira  condição  da  bravura)  e  a  iniciativa  pessoal  (primeira  condição do  progresso  intelectual)  são  duas  condições  incomparavelmente  mais  importantes no desenvolvimento do mundo dos animais que a luta mútua. Na realidade as  formigas prosperam, apesar de  que não possuem nenhum  dos  traços “defensivos” sem  os  quais não pode passar animal algum que leve vida solitária. Sua cor as faz muito visíveis  para seus inimigos, e nos bosques e nos prado, os grandes formigueiros de muitas espécies  chamam  a  atenção  logo.  A  formiga  não  tem  carapaça  dura;  seu  ferrão,  por  mais  que  resulte  perigoso  quando  centenas  se  afundem  no  corpo de  um  animal,  não  tem  grande  valor  para  a  defesa  individual.  Ao  mesmo  tempo,  as  larvas  e  os  ovos  das  formigas  constituem um apetitoso alimento para muitos dos habitantes dos bosques. 

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confiança mútua. E se a formiga ­ sem falar em outros cupins mais desenvolvidos ­ ocupa  acima de uma classe inteira de insetos por sua capacidade mental, se por sua bravura se  pode equiparar aos mais valentes dos vertebrados, e seu cérebro – usando as palavras de  Darwin ­ “constitui um dos mais maravilhosos átomos de matéria do mundo, talvez ainda  mais assombroso que o cérebro do homem” _ Não deve a formiga tudo isto a que a ajuda  mútua  substitui  completamente  a  luta  mútua  em  sua  comunidade?”  (T.N) 1 (Kropotkin, 

1947) 

Em  um  questionário,  aplicado  aos  professores  de  escolas  públicas  do  Ensino  Fundamental  e  Ensinos  Médios,  referentes  à  noção  de  “luta  pela  vida”,  foi  destacada  a  seguinte  frase  contida  em  um  manual  didático:  “os  mais  fortes,  certamente,  terão  mais  possibilidades  de  sobreviver”  (CETEB,  1993).  Procurou­se  identificar  de  que  forma  os  professores  explicavam  para  os  alunos  o  exemplo  da  formiga,  que  apesar  de  pequena  e  aparentemente  mais  frágil,  conseguiam  sobreviver  superando  outras  espécies.  Dos  trinta  e  cinco  (35)  professores  entrevistados,  17  afirmaram,  neste  item,  que  a  questão  estava  relacionada  à  adaptação  das  espécies  e  não  a  “lei  dos  mais  fortes”.  Dez  (10)  professores  deram ênfase à organização social. No entanto, seis (6) professores manifestaram adesão à lei  dos mais  fortes, colocando o exemplo como exceção. Os resultados desta pesquisa revelam  uma  forte  relação  entre  as  concepções  dos  professores  e  a  idéia  de  evolução  dos  alunos,  percebida  nos  espaços  escolares  e  universitários,  os  alunos que  ingressam  na  universidade  associarem  a  idéia  de  evolução  à  competição,  ao  sucesso  dos  “mais  fortes”  e  outros.(Bernardo, 2006) 

Livro utilizado no Ensino Médio. 

Os alunos do ensino médio não utilizavam um livro didático específico até o ano de  2006.  No  entanto,  dentre  os  livros  mais  utilizados  pelos  professores  deste  nível  de  ensino  destaca­se o de Sônia Lopes. 

Segundo Lopes “O ponto fraco em toda a Teoria de Lamarck, consistia na atribuição  ao ambiente da faculdade de provocar determinadas modificações na “soma”, e em admitir,  sobretudo que tais modificações fossem transmitidas aos descendentes da espécie. Quanto à  atribuição das  causas, da  evolução, ocasionava aos naturalistas  mais amplas perspectivas  para desvendar o mistério desse importante problema biológico. 

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A teoria evolutiva adotada pela ciência moderna é fundamentada nos princípios básicos das  idéias de Darwin que podem ser resumidos do seguinte modo:

·  Os indivíduos de uma mesma espécie apresentam variações em todos os caracteres, 

não sendo, portanto, idênticos entre si;

·  Todo  organismo  tem  grande  capacidade  de  reprodução,  produzindo  muitos 

descendentes. Entretanto, apenas alguns dos descendentes chegam à idade adulta;

·  O número de indivíduos de uma espécie é mantido, mais ou menos constante ao longo 

das gerações;

·  Assim, há grande “luta” pela vida entre os descendentes, pois apesar de nascerem 

muitos indivíduos poucos atingem a maturidade, o que mantém constante o numero de  indivíduos na espécie;

·  Na “luta” pela vida, organismos com variações favoráveis às condições do ambiente 

onde vivem tem maiores chances de sobreviver, quando comparados aos organismos  com variações menos favoráveis;

·  Os  organismos  com  essas  variações  vantajosas  têm  maiores  chances  de  deixar 

descendentes.  Como  há  transmissão  de  caracteres  de  pais  para  filhos,  estes  apresentam essas variações vantajosas. 

Assim, ao longo das gerações, a atuação da seleção natural sobre os indivíduos mantém ou  melhora o grau de adaptação destes ao meio”. (Lopes, 1997:145). Apesar  da  autora dizer  que  o  ponto  fraco  de  Lamarck  consistia  na  atribuição  ao  ambiente  da  faculdade  de  provocar  determinadas modificações na “soma”, a mesma acaba por cair no mesmo “erro” ao citar as  idéias  de  Darwin.  Como  dizia  Margulis  “Darwin  era  Lamarckista”.(Entrevista  com  Lynn  Margulis,  2001),  logo  se  percebe  que  essa  é  uma  questão  a  ser  discutida  para  que  talvez  retornem a  citar Lamarck  nos  livros didáticos do  ensino  fundamental,  mas de  forma  a  não  ridicularizá­lo. 

(7)

(1989, p.291), “o ensino há de basear­se na  curiosidade e não em exigências, e o professor  deveria estimular essa curiosidade, sem recorrer a qualquer método consagrado”.  Há que se  concordar  com  Nadir  Delizoicov  ­  dizendo  que  ­  “Existe  a  necessidade  de  aproximação  efetiva da universidade com a escola pública de modo a fazer com que os frutos da pesquisa  cheguem  à  escola.  Enfatizando  também  a  necessidade  de  investimentos  na  formação  continuada  do  professor,  na  perspectiva  de  seu  aperfeiçoamento  profissional,  de  forma  a  desenvolver autonomia na analise do livro didático que ele utiliza”.(Bizzo, 1996) E o que se  observa é que esses pontos precisam novamente ser ressaltado, já que não foram considerados  no passado. 

Bibliografia: 

BIZZO, Nélio e Molina Adela,.El mito darwinista en el aula de clase: un análisis de fuentes  de información al gran público. Educação e Ciência, V. 10, n. 3, p. 401­416, 2004. 

BIZZO,  Nélio.  Graves  erros  de  conceitos  em  livros  didáticos  de  ciência.  Revista  Ciência  Hoje, V. 21, n 12, pág 27, Junho 1996. 

FEYERABEND, P. Contra o Método. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 3ª ed, 1989. 

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