O QUE TRAZEM OS MANUAIS DIDÁTICOS DO ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO SOBRE A TEORIA DA EVOLUÇÃO.
Márcia Regina Bernardo (Instituto de Biologia, UFRuralRJ, Bolsista CNPq), Ana Cristina S. dos Santos (Instituto de Educação, UFRuralRJ)
Luís Mauro S. Magalhães (Instituto de Floresta, UFRuralRJ) Introdução:
A teoria da evolução de Darwin foi objeto de estudo durante décadas e até hoje é um tema que suscita muita discussão no meio acadêmico e social. Destacamse também inúmeros estudos voltados para o ensino de Ciências e Biologia. Dentre eles estão os manuais didáticos, onde se reconhece a influência de obras de divulgação científica, relacionadas com o trabalho realizado pelo naturalista inglês (Bizzo & Molina, 20004).
Por mais que se reconheça a contribuição do pensamento darwinista, não se pode negar o caráter ideológico que incorporou. Desta forma, o ensino deste tópico também deve trazer a relação destes conhecimentos e suas implicações sociais. Um debate como este não poderia prescindir da apresentação e discussão de idéias antagônicas sobre as teorias, e o reconhecimento de que a adesão a uma delas deve ser realizada por convencimento, após livre exame das argumentações apresentadas. Dentre as idéias e conceitos que marcaram as noções de evolucionismo interessa inserir as leituras de Lamarck e de Kropotkin.
Em um primeiro momento investigaramse as concepções de evolucionismo por parte de professores do ensino fundamental e ensino médio de escolas de municípios fluminenses (Bernardo, 2006).
No presente trabalho analisaramse os conceitos sobre a teoria da evolução, descritos nos livros didáticos e utilizados por professores e alunos, nas suas respectivas escolas. A análise envolveu a comparação com as idéias abordadas por Kropotkin e Lamarck sobre as relações na natureza.
O material utilizado para investigação compreendeu os livros didáticos utilizados por professores e alunos das escolas públicas de ensino fundamental e ensino médio do município de Seropédica e Petrópolis.
1 Amabis, José Mariano; Martho, Gilberto Rodrigues. Biologia das populações – genética, evolução e ecologia – Vol.3. São Paulo: Ed. Moderna,
2 Barros Carlos; Paulino, Wilson Robert. Os Seres Vivos. 6º série. São Paulo: Ed. Ática 3 Cruz, Daniel. Ciências e Educação Ambiental 6º série. São Paulo: Ed. Ática
4 Gewandsznajder, Fernando. Ciências e a vida na Terra
5 Gowdak Demétrio; Martins, Eduardo. Ciências: Novo Pensar. 6º série 6 Linhares, Sérgio. Vol. Único e Vol.3. São Paulo: Ed. Ática
7 Lopes, Sônia. Biologia. Vol. Único e Vol. 3. São Paulo:Ed. Saraiva. 8 Paulino, Wilson Roberto. Biologia. Vol. Único. São Paulo: Ed. Ática. 9 Silva Júnior, César; Sasson, Sezar. Biologia. Vol.3. São Paulo: Ed. Saraiva. 10 Soares, José Luís. Biologia. Vol. Único e Vol.3.São Paulo: Ed. Scipione. 11 Valle, Cecília. Terra e Universo. 5º série. São Paulo: Editora Positiva.
Resultados e Discussões
Livros mais utilizados pelo ensino fundamental.
Observando o livro da 6ª série de Fernando Gewandsznajder, Ciências e a vida na Terra, falase sobre evolucionismo utilizando os animais para explicar os mais bem adaptados e como esses se mantêm vivos numa seleção natural.
Perguntas deste livro sobre evolução: O que são fósseis e qual a sua importância para o estudo da evolução? Explique com suas palavras o conceito de seleção natural? Defina mutação? De que forma a seleção natural e as mutações atuam sobre a evolução?
Mais na frente, no mesmo livro, um texto propondo atividades em grupo. “Leia o texto a seguir e depois, em grupo, faça a pesquisa que se pede. Darwin e evolução”.
No livro de Cecília Valle, Terra e Universo. 5º série. Editora Positiva, na pág. 78 – livro de 5º série aparece a seguinte questão:
“Harmonia ou desarmonia?
A relação entre dois indivíduos, sendo um predador e o outro a presa é, sem dúvida, uma relação hostil desarmônica.
No entanto, o predatismo deve ser considerado uma relação desarmônica quando consideramos seu significado para o equilíbrio do ecossistema.
A leitura destes livros leva a algumas interrogações e os seus conteúdos apresentam pontos em comum, que devem ser refletidos. A discussão acerca do evolucionismo tem profundas conseqüências, não só no ensino de ciências, como em muitos outros aspectos da educação e da própria sociedade.
Ao abordar este tema sem qualquer contextualização, sem mencionar os cientistas que se debruçaram sobre o assunto e o cenário em que se deu o desenvolvimento de suas teorias, a mensagem assume formas dogmáticas e fechadas. Sem a ajuda da História da Ciência, de descrições mesmo que resumidas da época em que os cientistas viveram, o porquê das suas perguntas e as buscas pelas respostas, estas viram “pacotes”. Os estudantes não tratam sobre as dúvidas desses teóricos, as idéias predominantes na época na qual viviam, as limitações dessas teorias e o fato de que estas não são as únicas “verdades” e nem imutáveis. Essa abordagem será importante para que os estudantes possam elaborar seus próprios conhecimentos.
Com a mudança recente da matriz curricular, onde esta passa a ser integrada e interdisciplinar, de 5ª a 8ª, é de extrema importância, a História da Ciência, os seus cientistas e a época na qual está inserido, serem abordados nos livros didáticos, pois senão continuaremos ensinando Ciência como um dogma a ser seguido pelos nossos estudantes.
No livro do ensino fundamental, da coleção Ciências de Cecília do Valle, também não são abordadas as diferentes teorias da evolução e seus teóricos; apenas se fala em relações harmônicas, desarmônicas e predatismo. Desta forma, a noção de harmônico e desarmônico fica associada, para os alunos, às idéias que trazem de suas experiências de vida, ou seja, harmonia com algo bom e desarmonia como algo ruim. Esse assunto deve ser abordado no momento em que se estiver tratando de evolução, pois essas relações ocorrem na natureza entre os indivíduos, sendo elas intraespecíficas e/ou interespecíficas, e os adaptados continuarão vivos. Dessa forma se dá a seleção natural para a evolução das espécies.
A seleção natural não pode ser vista da forma generalista com a qual deparamos nos livros didáticos e até mesmo no meio acadêmico. Ao relatar as relações entre abelhas Kropotkin descreve que elas: “... não se distinguem pelas influências sanguinárias e pelo amor aos combates inúteis com que muitos escritores adotam tão agradavelmente a todos os animais”.
Carlos Barros e Wilson Robert Paulino no livro Os Seres Vivos descrevem na Pág 37 a seguinte definição:
de sobreviver e deixar descendentes férteis, enquanto os portadores de características “desfavoráveis” tendem a ser eliminado, pois terão menores chances.” (Barros e Paulino, 2004).
Ao descrever seleção natural o autor traz em seu livro a seguinte descrição “... os indivíduos portadores de características “favoráveis” têm maior chance de sobreviver e deixar descendentes férteis, enquanto os portadores de características “desfavoráveis” tendem a ser eliminado, pois terão menores chances”. A noção de “características favoráveis” é tratada de forma muito generalista e necessita ser melhor discutida.
É possível perceber no trecho em negrito, destacado abaixo, que indivíduos com características compreendidas como “desfavoráveis” conseguem sobreviver no meio no qual vivem sem serem eliminados. E o mais interessante é que podem ser encontrados em vários lugares no mundo, deixando grande quantidade de descendentes férteis, como é o caso das formigas.
“ ...Se não conhecermos nenhum outro caso da vida dos animais, a parte daqueles conhecidos das formigas e cupins poderemos concluir com segurança que a ajuda mútua (que conduz à confiança mútua, primeira condição da bravura) e a iniciativa pessoal (primeira condição do progresso intelectual) são duas condições incomparavelmente mais importantes no desenvolvimento do mundo dos animais que a luta mútua. Na realidade as formigas prosperam, apesar de que não possuem nenhum dos traços “defensivos” sem os quais não pode passar animal algum que leve vida solitária. Sua cor as faz muito visíveis para seus inimigos, e nos bosques e nos prado, os grandes formigueiros de muitas espécies chamam a atenção logo. A formiga não tem carapaça dura; seu ferrão, por mais que resulte perigoso quando centenas se afundem no corpo de um animal, não tem grande valor para a defesa individual. Ao mesmo tempo, as larvas e os ovos das formigas constituem um apetitoso alimento para muitos dos habitantes dos bosques.
confiança mútua. E se a formiga sem falar em outros cupins mais desenvolvidos ocupa acima de uma classe inteira de insetos por sua capacidade mental, se por sua bravura se pode equiparar aos mais valentes dos vertebrados, e seu cérebro – usando as palavras de Darwin “constitui um dos mais maravilhosos átomos de matéria do mundo, talvez ainda mais assombroso que o cérebro do homem” _ Não deve a formiga tudo isto a que a ajuda mútua substitui completamente a luta mútua em sua comunidade?” (T.N) 1 (Kropotkin,
1947)
Em um questionário, aplicado aos professores de escolas públicas do Ensino Fundamental e Ensinos Médios, referentes à noção de “luta pela vida”, foi destacada a seguinte frase contida em um manual didático: “os mais fortes, certamente, terão mais possibilidades de sobreviver” (CETEB, 1993). Procurouse identificar de que forma os professores explicavam para os alunos o exemplo da formiga, que apesar de pequena e aparentemente mais frágil, conseguiam sobreviver superando outras espécies. Dos trinta e cinco (35) professores entrevistados, 17 afirmaram, neste item, que a questão estava relacionada à adaptação das espécies e não a “lei dos mais fortes”. Dez (10) professores deram ênfase à organização social. No entanto, seis (6) professores manifestaram adesão à lei dos mais fortes, colocando o exemplo como exceção. Os resultados desta pesquisa revelam uma forte relação entre as concepções dos professores e a idéia de evolução dos alunos, percebida nos espaços escolares e universitários, os alunos que ingressam na universidade associarem a idéia de evolução à competição, ao sucesso dos “mais fortes” e outros.(Bernardo, 2006)
Livro utilizado no Ensino Médio.
Os alunos do ensino médio não utilizavam um livro didático específico até o ano de 2006. No entanto, dentre os livros mais utilizados pelos professores deste nível de ensino destacase o de Sônia Lopes.
Segundo Lopes “O ponto fraco em toda a Teoria de Lamarck, consistia na atribuição ao ambiente da faculdade de provocar determinadas modificações na “soma”, e em admitir, sobretudo que tais modificações fossem transmitidas aos descendentes da espécie. Quanto à atribuição das causas, da evolução, ocasionava aos naturalistas mais amplas perspectivas para desvendar o mistério desse importante problema biológico.
A teoria evolutiva adotada pela ciência moderna é fundamentada nos princípios básicos das idéias de Darwin que podem ser resumidos do seguinte modo:
· Os indivíduos de uma mesma espécie apresentam variações em todos os caracteres,
não sendo, portanto, idênticos entre si;
· Todo organismo tem grande capacidade de reprodução, produzindo muitos
descendentes. Entretanto, apenas alguns dos descendentes chegam à idade adulta;
· O número de indivíduos de uma espécie é mantido, mais ou menos constante ao longo
das gerações;
· Assim, há grande “luta” pela vida entre os descendentes, pois apesar de nascerem
muitos indivíduos poucos atingem a maturidade, o que mantém constante o numero de indivíduos na espécie;
· Na “luta” pela vida, organismos com variações favoráveis às condições do ambiente
onde vivem tem maiores chances de sobreviver, quando comparados aos organismos com variações menos favoráveis;
· Os organismos com essas variações vantajosas têm maiores chances de deixar
descendentes. Como há transmissão de caracteres de pais para filhos, estes apresentam essas variações vantajosas.
Assim, ao longo das gerações, a atuação da seleção natural sobre os indivíduos mantém ou melhora o grau de adaptação destes ao meio”. (Lopes, 1997:145). Apesar da autora dizer que o ponto fraco de Lamarck consistia na atribuição ao ambiente da faculdade de provocar determinadas modificações na “soma”, a mesma acaba por cair no mesmo “erro” ao citar as idéias de Darwin. Como dizia Margulis “Darwin era Lamarckista”.(Entrevista com Lynn Margulis, 2001), logo se percebe que essa é uma questão a ser discutida para que talvez retornem a citar Lamarck nos livros didáticos do ensino fundamental, mas de forma a não ridicularizálo.
(1989, p.291), “o ensino há de basearse na curiosidade e não em exigências, e o professor deveria estimular essa curiosidade, sem recorrer a qualquer método consagrado”. Há que se concordar com Nadir Delizoicov dizendo que “Existe a necessidade de aproximação efetiva da universidade com a escola pública de modo a fazer com que os frutos da pesquisa cheguem à escola. Enfatizando também a necessidade de investimentos na formação continuada do professor, na perspectiva de seu aperfeiçoamento profissional, de forma a desenvolver autonomia na analise do livro didático que ele utiliza”.(Bizzo, 1996) E o que se observa é que esses pontos precisam novamente ser ressaltado, já que não foram considerados no passado.
Bibliografia:
BIZZO, Nélio e Molina Adela,.El mito darwinista en el aula de clase: un análisis de fuentes de información al gran público. Educação e Ciência, V. 10, n. 3, p. 401416, 2004.
BIZZO, Nélio. Graves erros de conceitos em livros didáticos de ciência. Revista Ciência Hoje, V. 21, n 12, pág 27, Junho 1996.
FEYERABEND, P. Contra o Método. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 3ª ed, 1989.