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Do internamento em regime fechado para a vida em liberdade

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Academic year: 2020

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Agradecimentos

A realização desta dissertação não teria sido possível sem a colaboração, disponibilidade e empenho de algumas pessoas. Tendo isso em consideração, gostaria de expressar o meu apreço e gratidão a todos aqueles que contribuíram ao longo deste processo.

Gostaria de agradecer ao meu orientador da Universidade do Minho, o Professor José Manuel Sá Cunha Machado, pelas suas orientações, recomendações e pela sua disponibilidade. Sempre se demonstrou compreensivo e acessível quando mais precisei e este resultado não teria sido possível sem a sua ajuda.

Agradecer à minha mãe pela sua paciência e sobretudo por sempre incentivar a minha formação e crescimento pessoal.

Ao meu pai que sempre me acompanhou e incentivou ao longo de todo o percurso, sempre demonstrando orgulho em mim.

À minha namorada, pela sua disponibilidade em me ajudar e elucidar, por estar sempre presente nos momentos em que precisei.

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Do internamento em regime fechado para a vida em liberdade

Resumo

O presente trabalho tem como objetivo fazer uma reflexão acerca da medida do internamento em regime fechado e as suas consequências para os jovens que a cumprem. Através da análise de vários estudos e obras sobre este tema, procurou-se perceber não só o funcionamento dos centros educativos, mas sobretudo o funcionamento do internamento em regime fechado e os seus aspetos positivos e negativos para a correta reinserção dos jovens. Ao longo do trabalho são focados vários aspetos deste processo de reinserção e a forma como o regime fechado se relaciona com os mesmos, tais como a liberdade do jovem, a forma como este vê a medida, o estigma que esta provoca ao jovem e a forma como este é visto e a facilidade ou dificuldade do regime em garantir a não reincidência. O objetivo do trabalho é perceber se a medida de internamento em regime fechado se adequa aos propósitos da lei tutelar educativa, a educação para o direito, a reeducação do jovem, ou se é uma medida que necessita de ser revista. Com estes propósitos em mente chegamos à conclusão que embora exista uma necessidade da medida do internamento, o regime fechado, mesmo que executado apenas em casos mais gravosos, parece uma medida excessiva tendo em conta os propósitos da lei tutelar educativa. Embora seja realizada uma reeducação para o direito, esta não vai completamente de encontro à realidade.

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From internment in a closed regime to life in freedom

Abstract

The present work aims to reflect on the internement in a closed regime and its consequences for the young people who comply with it. Through the analysis of several studies and works on this theme, we have tried to perceive not only the functioning of educational centres, but especially the functioning of internment in a closed regime and its positive and negative aspects in the correct reintegration of interned youth. Throughout the work, we focus various aspects of this reintegration process, and the way in which the closed regime relates to them, such as the freedom of the interned youth, the way the youth sees the measure, the stigma it causes to those who completed internment, the way they are percevied by society and the ease or difficulty of the regime in ensuring non-recurrence. The objective of the study is to understand if the measure of internment in a closed regime is adequate for the purposes of the tutelary law, education for the law, re-education of the young, or if it is a measure that needs to be reviewed. With these purposes in mind, we have come to the conclusion that although there is a need for the measure of internment, the closed regime, even if executed only in more serious cases, seems an excessive measure in view of the purposes of the tutelary law of education. Although the reeducation performed is done with the right purposes, it does not conform completely to reality.

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Índice

Introdução ... 1

1 – A delinquência e a reeducação ... 5

1. 1 – A delinquência e a sociedade ... 5

1.2 – Medidas definidas pela lei ... 6

1.3 – A medida de internamento em centro educativo... 11

2 – O sistema de justiça juvenil português ... 13

2.1 – A lei tutelar educativa ... 13

2.2 – A existência do regime fechado... 15

2.3 – A transformação do centro educativo em instituição total ... 16

3 – O processo de reinserção dos jovens ... 19

3.1 – A relação dos jovens com o centro educativo ... 19

3.2 – Modelo de reeducação e a reincidência ... 21

3.3 – O estigma e a reincidência ... 24

3.4 – As dificuldades em reproduzir a realidade: regime fechado ... 27

3.5 – Os dados da reincidência em Portugal ... 30

3.6 – A (des)centralização dos centros educativos ... 34

4 – A vida após o internamento ... 37

4.1 – A necessidade de acompanhamento ... 37

5 – Um olhar alargado sobre outros sistemas de justiça juvenil ... 43

5.1 – A evolução dos sistemas de justiça juvenil ... 43

5.2 – A problemática da idade e a responsabilidade penal ... 44

5.3 – Os sistemas de justiça juvenil francês e espanhol ... 49

Conclusão ... 51

Bibliografia ... 55

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Introdução

A seguinte dissertação foi elaborada no âmbito do Mestrado em Crime, Diferença e Desigualdade, da Universidade do Minho, tem como título “Do internamento em regime fechado para a vida em liberdade”, e tem como objetivo uma reflexão acerca da medida de internamento em regime fechado e as suas consequências para os jovens que a cumprem.

Em qualquer sociedade existe crime, tal como nos diz Durkheim, e isso não é diferente na sociedade portuguesa. Mais concretamente, a criminalidade juvenil é um problema que tem ganho uma crescente notoriedade desde o fim da década passada, resultando na implementação de leis em diversos países, nomeadamente na implementação da lei tutelar educativa em Portugal.

O crime cometido por um jovem passa a ser diferenciado do crime cometido por um adulto, é tratado de forma diferente em instâncias diferentes. Assim, com o surgimento desta lei denota-se a preocupação em não condenar um jovem delinquente a uma pena de prisão, a uma medida elaborada com um intuito punitivo ao invés de restaurador. Com a lei tutelar educativa passa a existir uma preocupação em perceber o porquê da delinquência, com maior foco para anos mais recentes, o meio que rodeia este jovem e necessidade em percebê-lo para realmente o conseguir ajudar.

Percebendo o intuito em afastar os jovens do sistema penal, diretiva das Nações Unidas, e criar um sistema de justiça juvenil específico e orientado para a educação para o direito, questiona-se a utilidade de uma medida deste mesmo sistema que opta pela total privação da liberdade, característica comum a uma pena de prisão adulta.

O objetivo do nosso sistema de justiça juvenil é reeducar estes jovens delinquentes para a sociedade, passar-lhes normas e valores correspondentes da mesma. Assim, este trabalho procura perceber qual a necessidade da existência desta pena e quais os benefícios e prejuízos da mesma na vida destes jovens, no processo de reeducação e no processo de reinserção dos mesmos.

Numa parte inicial, iremos refletir sobre o que é verdadeiramente a delinquência, o que realmente leva a que um jovem siga o caminho da delinquência, percebendo que existem vários fatores que influenciam não só a personalidade de um jovem, mas também as suas escolhas. O

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personalidade, algo que não deve ser descurado. No seguimento desta reflexão descrevemos as medidas implementadas pela lei tutelar educativa, as medidas a que os jovens dos 12 aos 16 anos estão sujeitos quando cometem um crime, analisando a medida de internamento em regime fechado, percebendo a realidade dos centros educativos em Portugal e o funcionamento dos mesmos.

De seguida, focamo-nos num olhar mais aprofundado do sistema de justiça juvenil. Focando como objetivo deste estudo a medida de internamento em regime fechado, debruçamo-nos sobre a mudança de mentalidade imposta pela implementação da lei tutelar educativa, a ideia de que qualquer medida deve ser imposta ao jovem tendo em conta o seu superior interesse, ou seja, deve ser aplicada aquela que melhor se adequa às suas necessidades, bem como a inclusão da família nos processos. Nesse sentido, analisamos perspetivas quanto à necessidade da existência da medida regime fechado, visto que esta, segundo recomendação das Nações Unidas, deve ser evitada. Por consequência, falamos também sobre o risco da transformação do centro educativo numa instituição total, devido à privação da liberdade e outras privações a que os jovens ficam sujeitos.

No seguimento da análise ao sistema de justiça juvenil, abordamos a reinserção dos jovens na sociedade, as diferentes perspetivas sobre a mesma. Falamos inicialmente da relação que estes jovens estabelecem com o centro educativo e as relações pessoais que formam e procuramos, posteriormente, perceber se este tipo de medida prejudica ou beneficia a reinserção destes jovens na sociedade, se as experiências e as mencionadas relações que foram criadas facilitam a sua reinserção ou se esta medida se encontra desfasada da realidade. Como deve ser traçado o plano de um jovem delinquente para que este não reincida? E quais são os principais motivos para a reincidência existir? Falamos, portanto, da forma como a reeducação é feita, o seu modelo, o estigma que pode provocar e o seu impacto na reincidência, mas também a validade das experiências que esta medida proporciona, até que ponto se adequa à realidade do exterior. Complementando esta análise, descrevemos brevemente os dados da reincidência em Portugal e fazemos uma breve reflexão sobre a rede de centros educativos em Portugal, a sua localização geográfica e o impacto que esta pode ter na reinserção dos jovens, uma vez que o internamento é um processo que não deve englobar apenas o jovem e o centro.

No capítulo seguinte, debruçamo-nos sobre a vida destes jovens após o internamento, a necessidade que estes têm de receber acompanhamento para reduzir, se possível extinguir, o risco de reincidência. Nessa perspetiva, analisamos as ajudas existentes e as soluções já

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recomendadas para a melhoria do sistema de justiça juvenil português neste aspeto, nomeadamente a supervisão intensiva, procurando perceber se realmente os jovens que cumprem medida de internamento em regime fechado precisam de acompanhamento no exterior, posterior ao fim da medida, e se deve este, existindo, ser obrigatório ou facultativo.

Por último, um olhar geral sobre outros sistemas de justiça juvenil, a evolução que tem ocorrido na Europa em relação a este tema e as alterações que se foram registando, mencionando a disparidade nos limites etários dos diferentes sistemas de justiça juvenil. Nesse seguimento, é feita uma análise comparativa entre os sistemas de justiça juvenil em Espanha, em França e em Portugal.

Em suma, esta dissertação pretende realizar e incitar uma reflexão acerca da medida de internamento em regime fechado, focada em perceber a verdadeira eficácia e o real benefício desta medida. Perceber se existe a necessidade de mudanças, na lei, nas estruturas ou no próprio conceito da medida. Mas sobretudo, perceber até que ponto se pode pretender obter sucesso na reinserção de um jovem, a sua correta integração na sociedade sem qualquer tipo de reincidência, ou sinal da mesma, declarando a total privação da liberdade.

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1 – A delinquência e a reeducação

1. 1 – A delinquência e a sociedade

Na sociedade em que vivemos o termo delinquente é, cada vez mais, utilizado e facilmente atribuído a um determinado jovem. Precipitadamente são culpabilizados pelos seus desvios e comportamentos desviantes, pela sua inadaptabilidade.

Conforme citado em Santos (2004, p. 11), Ferreira afirma que é “um erro assumir que a maior parte dos delinquentes são diferentes dos não-delinquentes”, sendo que o meio em que estes se encontram define muitas vezes o percurso de um jovem. Este autor define, ainda, dois tipos de delinquentes, o “subsocializado” e o “socializado”. No primeiro, a delinquência é caracterizada por uma falta de laços do jovem com a sociedade, seja com aqueles que o rodeiam, bem como com as instituições convencionais, e por um desacreditar das normas legais da sociedade. No segundo, a delinquência é apreendida, o jovem aprende a ser desviante através dos comportamentos que observa, isto é, quando toma como exemplo o meio ou as companhias desviantes a que está exposto. Sendo que “esta exposição a comportamentos delinquentes é mais comum em populações mais vulneráveis a sentimentos de frustração e de injustiça pelo facto de não terem acesso legítimo a objetivos e oportunidades (…) A existência desses sentimentos leva à rejeição dos objetivos convencionais da sociedade e ao envolvimento com meios ilegítimos de os obter”.

“Muita da delinquência é uma forma atrativa de socialização, variando, na perceção de quem a pratica, entre o que se considera ser uma brincadeira, a necessidade de ocupação do tempo livre, a afirmação de poder ou a obtenção de reconhecimento social. Desta conjugação conclui-se que, frequentemente, a sua vivência é gratificante, aliciante e desafiante para crianças e jovens, potencialmente geradora de um estatuto social que confere um determinado papel e reconhecimento e importância no contexto de vida, alcançando-se através de meios ilegítimos aquilo que de outra forma dificilmente se conseguiria” (Rodrigues, et al., 2016, p. 113).

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onde as instituições tradicionais de controlo social, designadamente a família e a escola, se veem sem grande eficácia sendo, também elas, alvos preferenciais dessa mesma violência no que são acusadas de disfuncionamentos de diversa ordem” (Carvalho, citado em Santos, 2004, p. 11). A família e a escola, instituições convencionais fundamentais, são duas das maiores fontes de proteção e educação para qualquer criança, sendo indispensáveis para a sua correta formação e instrução. A disfunção familiar, independentemente da sua tipologia, pode contribuir negativamente para o desenvolvimento de um jovem, visto que, em muitos casos, a ausência de um ambiente familiar estável conduz à delinquência, ao desvio. Por isso mesmo, qualquer tentativa de reeducação deve ter em conta não só o jovem delinquente, mas também a sua família. A escola, por sua vez, pode funcionar como um complemento ou como uma antítese da família. “O contacto com subculturas que rejeitam a escola pode anular ou neutralizar as orientações incutidas pela família na socialização primária levando ao aparecimento de comportamentos delinquentes. A escola, ao proporcionar identificações e integrações positivas, reforça as orientações tradicionais, mesmo naqueles jovens em que a família não cumpriu o seu papel na socialização primária” (Ferreira, citado em Santos 2004, p.17). Em qualquer dos casos, cabe apenas ao sistema de justiça juvenil decidir se um jovem se encontra numa situação de risco, seja qual for o motivo. Cabe também ao sistema de justiça juvenil perceber os motivos da mesma e responder de forma adequada.

Importa por isso perceber em que medida o estado português lida com a delinquência, quais as medidas que incorpora na sua lei, quais os seus aspetos positivos e negativos, e se, de facto, se consegue alterar a vida destes jovens para melhor.

1.2 – Medidas definidas pela lei

O atual sistema de justiça juvenil português rege-se pela lei tutelar educativa, em vigor desde o ano de 2002, cujo objetivo é uma educação para o direito, para a responsabilização do jovem delinquente. “É uma lei educativa, pois pretende estimular nos jovens delinquentes o respeito e interiorização pelos valores e normas essenciais que regem a sociedade” (Barreiro, 2015, p. 21). O atual sistema dá resposta a factos considerados como crimes cometidos por jovens delinquentes dos 12 aos 16 anos, procurando uma resposta adequada a cada caso específico.

Assim, as medidas que constituem a lei tutelar educativa (Lei n.º4/2015, de 15/01, p. cap.5), são as seguintes:

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Admoestação

A admoestação consiste na advertência solene feita pelo juiz ao menor, exprimindo o carácter ilícito da conduta e o seu desvalor e consequências e exortando-o a adequar o seu comportamento às normas e valores jurídicos e a inserir-se, de uma forma digna e responsável, na vida em comunidade.

Privação do direito de conduzir

A medida de privação do direito de conduzir ciclomotores ou de obter permissão para conduzir ciclomotores consiste na cassação ou na proibição de obtenção da licença, por período entre um mês e um ano.

Reparação ao ofendido

1 – Esta medida consiste em:

a) Apresentar desculpas ao ofendido;

b) Compensar economicamente o ofendido, no todo ou em parte, pelo dano patrimonial, exclusivamente através de bens ou verbas que estejam na disponibilidade do menor;

c) Exercer, em benefício do ofendido, atividade que se conexione com o dano, sempre que for possível e adequado.

2 – A apresentação de desculpas ao ofendido consiste em o menor exprimir o seu pesar pelo facto, por qualquer das seguintes formas:

a) Manifestação, na presença do juiz e do ofendido, do seu propósito de não repetir factos análogos;

b) Satisfação moral ao ofendido, mediante ato que simbolicamente traduza arrependimento. 3 – O pagamento da compensação económica pode ser efetuado em prestações, desde que não desvirtue o significado da medida, atendendo o juiz, na fixação do montante da compensação ou da prestação, apenas às disponibilidades económicas do menor.

4 – A atividade exercida em benefício do ofendido não pode ocupar mais de dois dias por semana e três horas por dia e respeita o período de repouso do menor, devendo salvaguardar um dia de descanso semanal e ter em conta a frequência da escolaridade, bem como outras atividades que o tribunal considere importantes para a formação do menor.

5 – A atividade exercida em benefício do ofendido tem o limite máximo de doze horas, distribuídas, no máximo, por quatro semanas.

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6 – A medida de reparação nas modalidades previstas nas alíneas b) e c) do n.º 1 exige o consentimento do ofendido.

Prestações económicas ou tarefas a favor da comunidade

1 – A medida de prestações económicas ou de realização de tarefas a favor da comunidade consiste em o menor entregar uma determinada quantia ou exercer atividade em benefício de entidade, pública ou privada, de fim não lucrativo.

2 – A atividade exercida tem a duração máxima de sessenta horas, não podendo exceder três meses.

3 – A realização de tarefas a favor da comunidade pode ser executada em fins-de-semana ou dias feriados.

4 – É correspondentemente aplicável o disposto nos n.ºs 3 e 4 do artigo 11.º.

Imposição de regras de conduta

1 – A medida de imposição de regras de conduta tem por objetivo criar ou fortalecer condições para que o comportamento do menor se adeque às normas e valores jurídicos essenciais da vida em sociedade.

2 – Podem ser impostas, entre outras, as seguintes regras de conduta com a obrigação de: a) Não frequentar certos meios, locais ou espetáculos;

b) Não acompanhar determinadas pessoas; c) Não consumir bebidas alcoólicas;

d) Não frequentar certos grupos ou associações; e) Não ter em seu poder certos objetos.

3 – As regras de conduta não podem representar limitações abusivas ou desrazoáveis à autonomia de decisão e de condução de vida do menor e têm a duração máxima de dois anos.

Imposição de obrigações

1 – A medida de imposição de obrigações tem por objetivo contribuir para o melhor aproveitamento na escolaridade ou na formação profissional e para o fortalecimento de condições psicobiológicas necessárias ao desenvolvimento da personalidade do menor.

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a) Frequentar um estabelecimento de ensino com sujeição a controlo de assiduidade e aproveitamento;

b) Frequentar um centro de formação profissional ou seguir uma formação profissional, ainda que não certificada;

c) Frequentar sessões de orientação em instituição psicopedagógica e seguir as diretrizes que lhe forem fixadas;

d) Frequentar atividades de clubes ou associações juvenis;

e) Submeter-se a programas de tratamento médico, médico-psiquiátrico, médico-psicológico ou equiparado junto de entidade ou de instituição oficial ou particular, em regime de internamento ou em regime ambulatório.

3 – A submissão a programas de tratamento visa, nomeadamente, o tratamento das seguintes situações:

a) Habituação alcoólica;

b) Consumo habitual de estupefacientes;

c) Doença infetocontagiosa ou sexualmente transmissível; d) Anomalia psíquica.

4 – O juiz deve, em todos os casos, procurar a adesão do menor ao programa de tratamento, sendo necessário o consentimento do menor quando tiver idade superior a 16 anos.

5 – É correspondentemente aplicável o disposto no n.º 3 do artigo 13.º.

Frequência de programas formativos

1 – A medida de frequência de programas formativos consiste na participação em: a) Programas de ocupação de tempos livres;

b) Programas de educação sexual; c) Programas de educação rodoviária;

d) Programas de orientação psicopedagógica; e) Programas de despiste e orientação profissional;

f) Programas de aquisição de competências pessoais e sociais; g) Programas desportivos.

2 – A medida de frequência de programas formativos tem a duração máxima de seis meses, salvo nos casos em que o programa tenha duração superior, não podendo exceder um ano.

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3 – A título excecional, e para possibilitar a execução da medida, o tribunal pode decidir que o menor resida junto de pessoa idónea ou em instituição de regime aberto não dependente do Ministério da Justiça que faculte o alojamento necessário para a frequência do programa.

Acompanhamento educativo

1 – A medida de acompanhamento educativo consiste na execução de um projeto educativo pessoal que abranja as áreas de intervenção fixadas pelo tribunal.

2 – O tribunal pode impor ao menor sujeito a acompanhamento educativo regras de conduta ou obrigações, bem como a frequência de programas formativos.

3 – O projeto é elaborado pelos serviços de reinserção social e sujeito a homologação judicial. 4 – Compete aos serviços de reinserção social supervisionar, orientar, acompanhar e apoiar o menor durante a execução do projeto educativo pessoal.

5 – A medida de acompanhamento educativo tem a duração mínima de três meses e a máxima de dois anos, contados desde a data do trânsito em julgado da decisão de homologação judicial prevista no n.º 3.

6 – No caso de o tribunal impor ao menor a frequência de programas formativos é correspondentemente aplicável o disposto no n.º 3 do artigo 15.º.

7 – No caso de o tribunal impor ao menor a obrigação prevista na alínea e) do n.º 2 do artigo 14.º vale correspondentemente o disposto no n.º 4 do mesmo artigo.

A intervenção, quando considerada necessária, não tem uma intenção punitiva pelo crime cometido, mas sim a reeducação, a sua total e correta integração na sociedade. Ao contrário do sistema penal português, o objetivo descrito na lei não é assegurar a segurança da comunidade, mas sim o futuro do jovem em sociedade. Todas as medidas devem “utilizar e fomentar ‘programas’ que se centrem na educação dos adolescentes para os valores essenciais à vida em comunidade, que evidenciaram necessitar de interiorizar com a prática do facto” (Rodrigues, et al., 2016, p. 49). Seja essa medida a mais leve, o admoestamento, ou a mais grave, o internamento em regime fechado.

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1.3 – A medida de internamento em centro educativo

Neste caso o objeto de estudo é a medida de internamento em centro educativo, em especial o regime fechado. Importa perceber o estado atual desta medida cujas especificações e consequências serão debatidas mais à frente. O objetivo passa por perceber se esta medida se ajusta à realidade da sociedade em geral, bem como à realidade de cada jovem em particular.

Conforme o Relatório Estatístico Anual da DGRSP (DGRSP, 2016) todas as medidas aplicadas aos jovens que praticam crimes, entre os 12 e os 16 anos, têm como objetivo a “educação para o direito e a inserção, de forma digna e responsável, na vida em comunidade”, sendo no caso do internamento considerado necessário um “afastamento temporário do seu meio habitual que têm como objetivo a aquisição de recursos que permitam gerir a sua vida de modo social e juridicamente responsável” (DGRSP, 2016, p. 26). Esta medida deve “ser uma medida de último recurso e pelo período mínimo necessário e deve ser limitada a casos excecionais” segundo as regras das Nações Unidas para a proteção de menores privados de liberdade, (artigo 1º) (Santos, 2004, p. 68). O documento anterior define algumas regras fundamentais para a execução destas medidas. Os jovens “devem poder exercer uma atividade útil e seguir programas que mantenham e reforcem a sua saúde e o respeito por si próprios, favorecendo o seu sentido de responsabilidade e encorajando-os a adotar atitudes e adquirir conhecimentos que os auxiliarão no desenvolvimento do seu potencial como membros da sociedade” (artigo 12º) (Santos, 2004, p. 69) bem como os locais que os recebem “devem ser descentralizados e de um tamanho que facilite o acesso e o contacto entre os menores e as suas famílias. Devem ser criados estabelecimentos de detenção de pequena escala e integrados no ambiente social, económico e cultural da comunidade” (Santos, 2004, p. 69).

Em Portugal, à data de julho de 2018, existiam seis centros educativos, três dos quais com internamento para ambos os géneros, com 172 jovens internados no total. Importa salientar que a lotação total do conjunto dos centros educativos é de 164, estando três dos mesmos em sobrelotação. O número total de internados é superior a qualquer altura do ano anterior, sendo o sistema predominante o regime semiaberto com 67%, seguido do regime aberto com 17% e por fim o regime fechado com 16%. De notar que existe uma percentagem quase idêntica entre o regime de maior liberdade e aquele que retira a liberdade por completo. “Aos 172 jovens internados corresponderam 379 tipologias de crimes registadas nos processos de origem. Predominou a categoria contra as pessoas (51%), com um total de 194 tipos de crime

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designadamente, os vários tipos de ofensas à integridade física e a ameaça e coação. Seguiu-se a categoria contra o património (44%), com 167 registos e onde se destacaram os vários tipos de roubo e furto” (DGRSP, 2018, p. 10), sendo os restantes 5% referentes a crimes contra a vida em sociedade ou crimes de legislação avulsa. Na sua maioria são jovens portugueses e apenas 22 (cerca de 19%) são do sexo feminino. De notar ainda que os jovens internados provêm maioritariamente da zona centro do país, justificando a concentração de um número maior de centros educativos nessa zona, mas que uma percentagem significativa provém da zona sul do país onde não existe qualquer centro educativo.

O centro educativo e a sua respetiva equipa técnica são responsáveis pelo planeamento individual de cada programa e a sua correta aplicação, devendo este abranger as áreas de formação escolar e profissional, orientação vocacional, educação para a saúde, animação sociocultural e desportiva, bem como a satisfação de qualquer outra necessidade específica do jovem. “O acolhimento do educando tem de se centrar muito no passado, num diagnóstico das dificuldades anteriores e no porquê de estar aqui” (Santos, 2004, p. 607). É da responsabilidade desta equipa técnica proporcionar aos jovens todas as ferramentas necessárias, de fasear a sua reabilitação com objetivos e regras bem definidas. É o técnico que define o plano do jovem que tem de acompanhar, bem como é o responsável por definir novas metas e objetivos ao longo do internamento.

A criação e a contínua existência destes centros educativos tem como objetivo a reeducação e a reinserção, colocando completamente de lado a ideia de um sistema punitivo. O foco da instituição passa por conseguir inserir estes jovens na sociedade que os rodeia. Oferecer educação e proteção para que estes jovens possam almejar um futuro positivo, integrados na sociedade. A lei tutelar educativa foca-se numa educação para o direito, em transmitir a estes jovens valores e normas que os façam perceber que não podem praticar novos crimes, fazê-los perceber que estavam errados, mas que podem ter uma vida melhor longe disso, munir os jovens de competências pessoais e sociais. A educação para o direito consiste na “educação para os valores sociais, morais, para a cidadania, (…) para a sua responsabilização pessoal e social e para a solidariedade social” (Santos, 2004, p. 608). A reinserção é isso mesmo, garantir que o jovem tem todos os meios e condições necessárias para ser inserido na sociedade, todas as ferramentas sociais e profissionais. No entanto, esta só pode ser verdadeiramente alcançada quando o jovem, após o cumprimento do internamento em centro educativo, não volta a cometer nenhum crime, não reincide.

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2 – O sistema de justiça juvenil português

2.1 – A lei tutelar educativa

A lei tutelar educativa entrou em vigor em janeiro de 2001, com o propósito de substituir o sistema anterior, que carecia de ferramentas para distinguir “situações de risco, carência social ou para-delinquência de outras relacionadas com a prática de crimes” (Santos, 2004, p. 23). O foco passa a ser perceber se a família e o meio que envolvem o jovem influenciam positiva ou negativamente o seu desenvolvimento. Passou a haver uma preocupação em prevenir e proteger jovens em situações de risco. Esta foi criada com o intuito de realizar uma diferenciação entre jovem em risco, onde deve atuar a prevenção e a proteção, e jovens desviantes ou delinquentes, que precisam de ser reeducados para a vida em sociedade.

De entre as novas medidas propostas na lei, a mais gravosa para estes jovens passa a ser o internamento em centro educativo. Sendo naturalmente privilegiados outros tipos de medidas como a intervenção familiar, acompanhamento especializado, internamento em instituições sociais, entre outras referidas acima, a finalidade de todas elas passava por garantir uma sociedade mais segura, educada e responsável. Se no período anterior a estas leis uma intervenção não era temporalmente delimitada e podia retirar os jovens do seu seio familiar por completo, em caso de internamento a tempo inteiro, o sistema foca-se agora em ter uma intervenção ponderada e protetora dos direitos destes jovens. O objetivo passa por melhorar a vida destes jovens e não lhes limitar o futuro. Um internamento em regime fechado que poderia até então perpetuar-se até à idade adulta, se assim decidido pelos técnicos da instituição, passa agora a ser ainda menos recorrente e delimitado no tempo, tal como está previsto na nossa atual lei tutelar educativa. Esta medida é apenas aplicada quando se verifica que o meio em que o jovem está inserido é prejudicial para o seu desenvolvimento e para uma saudável construção de identidade própria, tendo como objetivo a sua eficaz reinserção na sociedade. A lei tutelar educativa refere que “na escolha da medida tutelar aplicável o tribunal dá preferência, de entre as que se mostrem adequadas e suficientes, à medida que represente menor intervenção na

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adesão e a adesão de seus pais, representante legal ou pessoa que tenha a sua guarda de facto" (Lei n.º4/2015, de 15/01). O estado decide nestes casos pela intervenção na formação destes jovens e a sua colocação numa instituição especializada em reeducá-los para a sociedade, que, no entanto, os isola do mundo, de forma temporária, parcial ou permanente.

Se isso for evitável, se for possível utilizar a família para fazer esta reeducação e reinserção, então essa deve ser a prioridade. Estes novos métodos e objetivos “introduziram, primeiro na doutrina e depois na legislação, a despenalização dos comportamentos delinquentes e, com esta, o fim da prisão de menores e a emergência da escola em privação de liberdade. Todavia, a justiça de menores ao fundamentar a sua finalidade na proteção, por via da educação, em lugar da punição, como solução de controlo para a delinquência juvenil, cria uma nova diferenciação dos menores – melhor, outra classificação – baseada em aspetos médico-psicológicos e em critérios de educabilidade” (Bandeira, 2009, citado em (Torres, 2012, p. 9). Assim, o Decreto-Lei n.º 323-D/2000 define o internamento em centro educativo como a última medida a ser aplicada, que deve abranger apenas jovens “cuja necessidade educativa, evidenciada na prática de ato qualificado pela lei penal como crime, deva ser satisfeita mediante um afastamento temporário do seu meio habitual e com recurso a programas e métodos pedagógicos específicos” (Santos, 2004, p. 479), com o objetivo de uma educação do jovem para o direito e de garantir a sua futura inserção na sociedade.

A criação desta pena visa, portanto, abranger jovens que cometeram atos considerados crime, que eram anteriormente julgados como adultos. Esta é aplicada a casos em que se verifica que nenhuma outra medida é suficiente para garantir a reeducação do jovem e desdobra-se em três tipos de execução, os regimes: aberto, semiaberto e fechado. Como descrito na já referida Lei nº 166/99 de 14/9, referente à aprovação da Lei Tutelar Educativa em 2 de julho de 1999, nos dois primeiros casos a medida vai de 6 meses a 2 anos, sendo o primeiro aplicável a crimes pouco graves e o segundo a crimes mais graves. Já o regime fechado é aplicável no caso de o jovem ter cometido factos qualificados como crimes muito graves e ter idade superior a 14 anos, sendo a pena de 6 meses a 3 anos. Em qualquer um dos casos, conforme estipulado no Decreto-Lei 323-D/2000, “os regimes de execução do internamento são fixados pelo tribunal e diferenciam-se pelo grau de limitação da liberdade e da autonomia dos educandos, designadamente na relação com o meio exterior”. A lei define que em regime aberto os jovens “residem no centro educativo, mas frequentam, preferencialmente no exterior, as atividades formativas e socioeducativas. Podem sair sem acompanhamento e passar fins-de-semana e férias com os progenitores, representante legal

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ou pessoa que tenha a sua guarda de facto”. Em regime semiaberto “os jovens residem no centro educativo e frequentam as atividades formativas e socioeducativas no interior daquele. Apenas podem passar férias com os progenitores, representante legal ou pessoa que tenha a sua guarda de facto”, caso se verifique progresso na sua reeducação. No caso do regime fechado “os jovens residem e frequentam as atividades formativas e socioeducativas no centro, estando as saídas, sempre sob acompanhamento, estritamente limitadas ao cumprimento de obrigações judiciais, à satisfação de necessidades de saúde ou a outros motivos excecionais”, sendo a saída acompanhada por um funcionário, excluindo situações excecionais na fase final da pena. Em qualquer um dos casos a pena existe para garantir que o jovem é retirado do meio que o influencia negativamente, oferecendo-lhe um plano educativo, específico e pessoal, que engloba formação profissional, atividades desportivas e uma responsabilização e maturação para a vida em sociedade.

2.2 – A existência do regime fechado

O internamento em centro educativo pretende garantir uma reeducação do jovem, ou seja, incutir-lhe as normas e valores da sociedade geral, fomentar um sentido de responsabilidade para consigo e para com os outros e fornecer capacidades e conhecimentos que permitam a este jovem novas oportunidades aquando da sua saída.

Numa análise às medidas de internamento estabelecidas na justiça juvenil espanhola, que partilha dos mesmos três tipos de execução, aberto, semiaberto e fechado, Santos (2004) indica que este parece ser um meio “adequado ao fim ressocializador”. No entanto, define o internamento em regime fechado como a exceção, sem pôr de parte a sua utilidade. “Haverá casos em que é necessária a existência do regime fechado para afastar, durante algum tempo, o jovem do seu ambiente habitual” (Santos, 2004, p. 118). Ainda assim, este estudo realça que o regime fechado pode ser encarado como uma pena equivalente à prisão, onde o objetivo não é proteger e reeducar o jovem, mas sim castigá-lo, afastando-o da sua família. Sendo que no caso do sistema de justiça espanhol a pena poderia ser prolongada até 5 anos. É óbvia a obrigatoriedade de existirem penas proporcionais à gravidade do crime que é cometido, porém mesmo sendo “verdade que os crimes para os quais se prevê internamento em regime fechado são os que provocam mais alarme social, a autora considera que tal alarme é um limite excessivo ao fim ressocializador da lei” (Santos, 2004, p. 118).

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Esta medida pode ser positiva num estado inicial do processo de reeducação, caso o jovem precise de se afastar de um meio que lhe é prejudicial. Mas, retirar totalmente o direito de liberdade de um jovem não parece ser uma forma eficaz de o ressocializar, de o incluir numa sociedade. Na realidade, Mulas (citado em Santos, 2004, p.118) acredita que neste modelo não prevalece o interesse superior da criança, algo fundamental na lei espanhola bem como na nossa lei tutelar educativa, mas sim o “interesse de segurança” da sociedade de onde são retirados estes jovens.

O regime fechado é visto como um castigo tal como uma pena de prisão “comum”. Mulas afirma ainda que o regime fechado tem mais características punitivas e nocivas para os jovens do que reais benefícios (Santos, 2004, p. 119). Tendo isso em conta, questiona-se se o regime fechado será maioritariamente benéfico para estes jovens.

2.3 – A transformação do centro educativo em instituição

total

Numa perspetiva centrada no sistema juvenil português, Neves descreve a primeira fase do internamento, o acolhimento, como um processo de “desindividuação e mortificação” do jovem (Neves, 2007, p. 1030) em relação ao exterior e um processo de “individuação” na relação consigo próprio. Ou seja, deixar de parte todo seu historial na sociedade e as normas e valores que havia adquirido no meio de onde provém e adquirir as regras, normas e valores específicos que a instituição lhe pretende incutir. Este autor alega que “ao mesmo tempo que o educando é protegido de uma entrada a frio no grupo, adiando-se assim a possibilidade de praxe pelos companheiros, é bruscamente desapossado de referências identitárias”, ao que uma técnica acrescenta: “Isso serve para fazer um corte com a situação lá fora, com o exterior, e também com o passado, não é? É para fazer ver desde logo que há regras a cumprir na instituição... e depois também funciona como recompensa, à medida que eles vão progredindo nas fases [através de um sistema de pontos atribuídos em função do comportamento e da duração da estadia]... Porque nós também temos tão poucas coisas para oferecer, tão poucos recursos...” (Neves, 2007, p. 1030).

O conceito de instituição total é aqui apresentado como uma forma de compensar a falta de recursos que estas instituições têm e procuram retirar totalmente a identidade destes jovens de forma a construírem, gradualmente, uma identidade nova, que vá de encontro aos seus conceitos e ideais. Este sistema baseia-se numa ideia de “aprendizagem pela privação”.

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A reeducação levada a cabo foca-se mais numa “oposição do que na procura de compreensão da posição do outro”. Razão pela qual o autor indica que mais do que pontos positivos, este tipo de reeducação tem uma grande probabilidade de falhar: “É provável que, retirados os educandos do contexto de vigilância e contenção (…) e regressados aos meios dos quais são originários, o efeito da dita reeducação se dissolva rapidamente na medida em que os agentes de controlo estão bastante mais diluídos no espaço” (Neves, 2007, p. 131).

O ponto positivo deste sistema seria apenas a distinção feita do bem e do mal, a procura de fazer estes jovens perceber a diferença entre um comportamento aceitável em sociedade, benéfico para eles e para aqueles que os rodeiam, e o comportamento delinquente que eles apresentam aquando da sua chegada. O autor reconhece que, à data do estudo, também a relação entre os profissionais e os jovens era um aspeto negativo dos centros educativos. Não existia a necessária partilha de experiências, uma vontade por parte dos profissionais em perceber a história e a personalidade dos jovens, eles estavam errados e ponto. O objetivo passava por suprimir a identidade destes jovens, retirar-lhes qualquer capacidade de pensar por si mesmos, de modo a garantir que estes estavam totalmente controlados. O regime fechado é visto neste estudo como uma forma de conter estes jovens num espaço em que não tenham qualquer contacto com alguém que possam influenciar negativamente.

Grande parte dos autores da área questionam a eficácia dos internamentos em regime fechado enquanto forma de reinserir os jovens delinquentes na sociedade, muito por culpa de se poderem traduzir “em tempos e experiências abstratos, teóricos, desfasados e, por isso, as mais das vezes pouco conducentes à concretização da finalidade de integração social do jovem” (DGRS, 2012, p. 31).

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3 – O processo de reinserção dos jovens

3.1 – A relação dos jovens com o centro educativo

Os centros educativos foram criados para fazer face a um problema da sociedade, o que fazer aos jovens que cometiam atos vistos pela lei como criminosos? Condenar a uma pena de prisão e a um estigma, jovens com um futuro tão longo pela frente, era uma pena demasiado pesada, que ao invés de resolver o problema apenas o agravava. Assim, o centro educativo é, sem dúvida, na sua conceção, uma instituição destinada a jovens que cometeram atos ilícitos, mas com o objetivo de os recuperar para a sociedade, de os reeducar e posteriormente ressocializar, “proporcionar, por via do afastamento temporário do seu meio habitual e da utilização de programas e métodos pedagógicos, a interiorização de valores conformes ao direito e a aquisição de recursos que lhe permitam, no futuro, conduzir a sua vida de modo social e juridicamente responsável” (Torres, 2012, p. 4) Ou seja, pretende-se moldar a educação destes jovens, para que se consigam integrar na sociedade para a qual queremos que retornem.

Por isso mesmo, como nos diz Azevedo & Duarte (2014), estes são vistos “como uma instituição de controlo formal que visa responder às necessidades educativas dos jovens”, procurando proporcionar-lhes uma nova oportunidade na vida, um futuro positivo construído com base em aprendizagens “escolares, profissionais e pessoais.”. O dia-a-dia destes jovens passa pela realização de estágios no exterior, regras bem definidas de horários, higiene e frequência das diversas aulas. Sendo que, no caso de estes se encontrarem a cumprir o internamento em regime fechado, todas as atividades realizadas no exterior não existem. E embora todas as regras impostas tenham o objetivo de criar um sentido de responsabilidade e maturidade nestes jovens, todas as aulas e formações visam transmitir conhecimento e competências sociais. O facto de tudo isso não ser transportado para a sociedade, mesmo que de forma faseada, retira alguma da sua utilidade. Se tudo o que lhes é ensinado e transmitido funciona apenas no seio do centro educativo e não é “testado” na vida real, esta reeducação não serve de muito. Afinal, a sociedade está muito longe de ser um meio regido pelas mesmas regras e horários, o meio que os rodeia pode ser

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Isso mesmo é posto em causa por alguns dos jovens. De que serve viver num ambiente estritamente controlado se fora do centro não têm ninguém que os controle ou pelo menos não da mesma forma ou durante o mesmo período de tempo? Qual a lógica de ter de “pedir licença para tudo” se deviam antes aprender a ser autónomos? O que demonstra uma certa incompreensão dos planos de que são alvo, ao contrário dos profissionais que trabalham nestas instituições que consideram o sistema normativo implementado como fundamental para que estes jovens criem hábitos saudáveis, “treinem competências” e percebam a necessidade do cumprimento das normas na sociedade. Assim, enquanto um dos lados acredita numa normatização excessiva, o outro considera o sistema educativo normativo como fundamental.

No entanto, contrariando, de certa forma, a visão dos profissionais dos centros educativos, em geral, Azevedo e Duarte (2014) apontam na sua publicação que o fator mais importante para a mudança destes jovens se trata da relação que estes estabelecem com aqueles que os acompanham, os ensinam, aqueles que todos os dias procuram proporcionar-lhes a oportunidade de um futuro melhor, os profissionais que trabalham na sua reeducação.

Esta publicação centra-se nos resultados de um estudo sobre jovens que estiveram internados em centros educativos, e chega à conclusão que “um dos fatores essenciais de todo o percurso de internamento é a relação interpessoal com os/as técnicos/as, sublinhando que a proximidade da relação contribui para o sucesso da intervenção, para as mudanças atingidas e para as competências adquiridas.” É a capacidade de ouvir, de procurar perceber, de explicar de forma correta, de fazer estes jovens perceber que se está a lutar pelo futuro deles e não a “confiná-los” a um espaço longe da sociedade, que faz com que o internamento seja bem-sucedido, com que estes jovens realmente queiram aprender e melhorar.

Não é a rigidez imposta que os faz mudar, mas sim as relações que formam. “Souberam-me respeitar, não entraram logo no meu espaço, não o invadiram […]”. Os profissionais deste centro educativo funcionam como uma referência para estes jovens, procuram não só a rigidez das normas, mas também o lado afetivo das relações interpessoais. Um dos profissionais afirma mesmo: “o grande erro em que se cai, aqui e noutros centros, é a gente tentar intervir, ou trabalhar, ou lidar com estes miúdos num ponto de vista ou num patamar superior, de quem conhece e de quem sabe; e não pode ser assim, tem que ser ao contrário, […] descer ao nível deles.”

Devemos procurar perceber o jovem, como um indivíduo singular e único, criar uma relação com o mesmo, ao invés de o catalogar e normatizar, de procurar que sejam todos iguais. Devem

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ser incutidas no jovem as normas em falta para que se viva em sociedade, mas não um conjunto excessivo de normas que posteriormente não conseguirão aplicar na sociedade. Não deve ser procurada a “descaracterização do indivíduo, nomeadamente através da regulamentação excessiva, da perda de autonomia pessoal e do sentido de planos para o futuro” (Alberto, 2002, citado por Santos, 2010).

O centro educativo não deve ser uma instituição total, onde, como Goffman diz, “todos os aspetos da vida são realizados no mesmo local e sob uma única autoridade, cada fase da atividade diária do participante é realizada na companhia imediata de um grupo relativamente grande de outras pessoas, todas elas tratadas da mesma forma e obrigadas a fazer as mesmas coisas em conjunto.” Onde “todas as atividades diárias são rigorosamente estabelecidas em horários, por um sistema de regras formais explícitas e um grupo de funcionários» (1999 [1961], pp. 17-18).” (citado em (Neves, 2007, p. 1022)

O sistema deve reger-se pelo incutir de normas e regras sim, mas de uma personalizada e não numa tentativa de esbatimento de personalidades. “Num sistema iminentemente normativo, mas onde é valorizada a dimensão afetivo-relacional, abre-se espaço para discutir as vantagens e inconvenientes de abordagens menos comportamentalistas e normativas, transformando as relações de força em relações de sentido, possuidoras de maior potencial ressocializador (Neves, 2011, citado em Azevedo e Duarte 2014).”

O técnico de centro educativo é fundamental no percurso do jovem dentro da instituição, seja na partilha de conhecimento ou nas regras que pretende passar ao jovem, mas não pode deixar de “dar a palavra aos menores e aproveitar ao máximo a sua capacidade para se pronunciarem sobre os seus assuntos pessoais e para tomarem decisões quanto à sua vida e ao seu futuro” (Castro, 2015, p. 20). É importante criar laços com o jovem que se pretende educar, como também perceber as suas crenças, valores e o meio de onde provém. E se retornam para o meio de onde provém, importa ser realizado um trabalho também nesse âmbito, criar relações positivas no mesmo.

3.2 – Modelo de reeducação e a reincidência

Tendo isto em conta, é pertinente garantir o contacto com a sociedade na qual o jovem se pretende inserir posteriormente, garantir que este cria laços afetivos positivos no meio em que será inserido. Afinal, o meio em que nos encontramos é fundamental para a definição de qualquer

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personalidade, principalmente num jovem que se procura inserir. É fundamental por isso adequar o plano que se traça para estes jovens ao meio para o qual vão assegurar o contacto com o exterior para que se perceba que realmente a sua reeducação está a resultar, para que todo o progresso realizado no meio confinado que é o centro educativo não funcione apenas dentro do seu edifício físico, para que a vida destes jovens não seja o seguir de uma rotina que se perde quando chegam ao mundo exterior, mas que possam ter autonomia e responsabilidade em construir uma vida melhor fora da instituição.

Não se pode permitir que todo o internamento se cumpra “como se jovens e famílias fizessem parte de universos distintos que se tocaram antes da entrada no centro, e se tocarão depois, sem que haja interação entre a intervenção desenvolvida junto do jovem e a intervenção que deveria ser proposta à família”, como é mencionado no relatório de Acompanhamento e Fiscalização dos Centros Educativos (DGRS, 2012, p. 35), como se o meio do centro educativo fosse igual ao que os jovens encontram cá fora. Se o pretendido é educar o jovem para viver harmonicamente na sociedade, a resposta não deve passar pela rutura total com a mesma e pela “sua integração num universo separado da sociedade” que pode por vezes ser “uma escola de crime” (Leonor Fontes, 2014, p.48).

O internamento em regime fechado impossibilita isto, o contacto com o exterior, um processo de reeducação que inclui o meio ao qual queremos que o jovem se adapte. Este é um dos fatores apontados como justificação para os dados obtidos no estudo realizado por Barreiro (2015), onde o regime fechado aparece em último lugar no nível de eficácia para a reinserção, atribuído pelos técnicos do centro educativo em questão. Isso corrobora as conclusões apresentadas, pelo já acima referido Relatório de 2012 da Comissão de Acompanhamento e Fiscalização dos Centros Educativos, que apontava para a ineficácia deste regime, que era em si uma aprendizagem desfasada da realidade, na medida em que o afastamento destes jovens da sociedade resulta numa dificuldade ou até mesmo incapacidade em “aplicar (…), fazer e ser o que se aprendeu durante o período que se permaneceu no centro educativo” (DGRS, 2012).

O cumprimento desta pena, internamento em regime fechado, pode elevar a dificuldade da ressocialização destes jovens, mesmo quando o centro educativo opera da forma descrita no artigo Intervenção em Centro Educativo: Discursos a Partir de Dentro, acima mencionado, mas isso acontece sobretudo aquando da total ausência de contacto com o exterior. É verdade que o objetivo é uma desvinculação com o lado negativo da vida destes jovens, com o meio que os prejudica, com as relações interpessoais que os desencaminham, mas não se pretende que o plano definido

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vá de encontro ao que Goffman define como instituição total. “Até que ponto é que a privação da liberdade a que o indivíduo se encontra sujeito será, de facto, a melhor forma de o preparar para uma vida a gozar no futuro em liberdade, ou se este paradoxo não virá por si mesmo contribuir decisivamente para o acentuar de valores e atitudes da subcultura desviante do próprio indivíduo impedindo a sua completa ressocialização?” (Carvalho, 1999, p. 32).

Para que realmente seja possível reinserir estes jovens na sociedade com sucesso é preciso incutir-lhes autonomia, oferecer-lhes ferramentas para que eles possam decidir por si mesmos, e isso só é possível se eles experienciarem essas escolhas, enquanto dentro do cumprimento da pena, no meio a que realmente querem que eles pertençam. Se os formamos para uma área profissional da qual eles gostam, devemos oferecer a oportunidade de a experienciarem no exterior, mesmo que de forma condicionada. Se fomentamos a ideia de formarem relações interpessoais saudáveis, familiares ou não, devemos dar-lhes a oportunidade de as contruírem também no exterior, para que tenham relações positivas aquando da sua saída, não ficando todas as relações que devem prezar dentro do centro educativo que agora deixaram. O regresso à sociedade é o desafio maior de qualquer plano de ressocialização e como tal deve ser preparado ao longo de todo o cumprimento da pena, não apenas no seu fim, embora essa fase seja extremamente importante.

O modelo idealizado pelo sistema de justiça juvenil português assenta em 4 fases progressivas do internamento em centro educativo, a integração, aquisição, consolidação e autonomia. A primeira fase foca-se no primeiro contacto entre o jovem e a instituição, os jovens que nela habitam, em adaptar este jovem recém-chegado à sua nova realidade diária. “A sua integração requer um plano de intervenção, que leve o jovem a uma inserção gradual na vida quotidiana do centro, e comece a perceber que é preciso cumprir regras”, evitando uma inserção brusca e precipitada num meio completamente novo. A aquisição resume-se ao incutir das regras e normas que o jovem carece, desconhece ou pelo menos procura evitar. Importa transmitir e sedimentar as normas e regras que se pretende que ele siga na instituição de forma a transportá-las para o exterior aquando da sua saída. É fundamental “ser incentivado a começar a saber estabelecer relações interpessoais, tendo como finalidade uma aprendizagem de vida em sociedade, incutindo-lhe sobretudo competências sociais.”

Sendo a consolidação a fase de avaliação, a fase em que os técnicos procuram perceber se realmente o jovem interiorizou aquilo que lhe foi ensinado e se está pronto para a última fase do internamento. A fase da autonomia, a fase de preparação para a saída do jovem para o exterior,

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“deverá ter como objetivo perceber se o jovem já se sente preparado para respeitar os valores necessários para a vida em sociedade, pondo em prática as competências, que adquiriu nas fases anteriores.” Todas estas fases, quando em internamento em regime fechado, ocorrem dentro do centro educativo, mas a fase da autonomia devia estender-se ao exterior servindo também a experiência do jovem como um exemplo aos recém-chegados e aos que se encontram em fase de aquisição ou consolidação, transmitindo aos colegas que todo o processo realmente resulta numa inserção na sociedade (Castro, 2015, p. 19).

3.3 – O estigma e a reincidência

Numa notícia publicada pelo Diário de Notícias, em janeiro de 2016, era apontada uma diminuição da atribuição de penas de institucionalização, explicada pelo subdiretor da Direção-Geral da Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP), Licínio Lima, como uma sensibilização, por parte dos juízes, para a manutenção da liberdade destes jovens, dando agora prioridade ao acompanhamento por um técnico no exterior, de forma a garantir a “normalização” da vida destes jovens, garantir que estes frequentam a escola e definir-lhes objetivos a cumprir não os retirando da sociedade e do seio familiar.

As razões para esta maior preocupação em optar por compromissos com os pais destes jovens e as devidas instituições que estes frequentam era o estigma que o “encarceramento” provoca, marcando estes jovens como delinquentes ou excluídos, e o sucesso, ou falta dele, da reinserção dos mesmos na sociedade, apos uma institucionalização. Pois, tal como nos é apontado nesta reportagem "os jovens que são ‘apenas’ acompanhados e não internados reincidem muito menos que os que são internados em centros educativos.” Ao que ainda nos acrescenta, “um recente documento da DGRSP e da Universidade do Minho, no perfil de jovens entre os 12 e os 16 anos, os que mais reincidem já depois de cumprida uma medida tutelar educativa, são também os jovens que desenvolveram percursos com delitos mais graves, violentos e frequentes”, ou seja, que cumpriram pena em regime fechado.

O estudo sugere que as penas mais pesadas aumentam a dificuldade de reinserção destes jovens na sociedade, sobretudo devido a uma privação total da liberdade. Apesar disso, os dados mais recentes da própria DGRSP indicam que a tendência se inverteu e que, com a nova alteração à lei, a tendência tem sido o aumento anual de pedidos recebidos para a execução de medidas em centro educativo.

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No entanto, os ideais defendidos pelo estudo referido acima, bem como o testemunho do Diretor-Geral, vão de encontro às conclusões apresentadas em Almeida (Almeida, 2017, p. 60) que caracteriza o centro educativo como uma instituição total. Uma instituição total, segundo Goffman, é “um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada” (Goffman, 1999, p. 11) e que apresenta quatro características principais, o caracter total, o aspeto segregativo da instituição, a homogeneização e a normalização. Isso mesmo descrevem as conclusões apresentadas.

O estudo realizado por Almeida descreve o centro educativo como instituição total “uma vez que os jovens residem num único espaço, dentro do qual executam todas as tarefas diárias sob a vigilância de funcionários. (…) os jovens estão segregados da comunidade por estarem privados do contacto com o exterior (…) a intervenção do centro educativo é homogeneizante, pois o mesmo conjunto de regras é aplicável a todos os jovens. Em quarto lugar, constatou que a vida quotidiana do centro educativo é totalmente regulamentada. (…) o centro educativo tem um carácter estigmatizante, uma vez que os jovens quando contactam com pessoas do exterior designam-no de “colégio”, em vez de “centro educativo”, por ser menos estigmatizante.”

Apresenta o caracter total ao mante-lo no mesmo espaço, perante a mesma autoridade diária e com normas específicas e rígidas. Apresenta a segregação ao privar o jovem do contacto com o exterior, totalmente no caso do regime fechado, e ainda na separação entre o grupo que educa e o grupo que precisa de ser educado, os corretos e os que precisam de ser corrigidos. O jovem internado não fica excluído sozinho num quarto, mas é inserido num grupo de indivíduos semelhantes e distinguido dos demais.

Também Marteleira partilha desta ideia e completa, referente à homogeneização, que “no centro educativo, todas as tarefas são regradas e são igualmente estabelecidos horários para as executarem” (Marteleira, 2014, p. 3). A normalização é a “existência de um plano racional único para atender aos objetivos oficiais da instituição” ou, no caso do centro educativo, a tentativa de “rotinizar a vida diária de forma a proporcionar um quotidiano estável e sem sobressaltos” (Marteleira, 2014, p. 3). A estas características, ou consequências, da instituição total, Medeiros e Coelho, citados em Marteleira (2014, p. 3), acrescentam a estigmatização que estas provocam nos jovens, fator apontado acima como relevante aquando da saída para o exterior.

Estes autores defendem que esta existe nas instituições totais “… quer por a sociedade diferenciar os internados rotulando-os negativamente, quer por o próprio internado assumir (…) a

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sua diferença face ao homem normal, quer ainda pela conjugação destes dois fatores”. Essa será a razão para o jovem ocultar a natureza do seu processo de reeducação, chamando-lhe colégio em vez de centro educativo. O jovem não quer ser rotulado negativamente, procura demarcar-se do tempo que passou sem liberdade, bem como de todos os preconceitos e rótulos atribuídos a alguém que passou por essa experiência.

Maria João Leite de Carvalho questiona “até que ponto é que a privação da liberdade a que o indivíduo se encontra sujeito será, de facto, a melhor forma de o preparar para uma vida a gozar no futuro em liberdade, ou se este paradoxo não virá por si mesmo, contribuir decisivamente para o acentuar de valores e atitudes da subcultura desviante do próprio indivíduo impedindo a sua completa ressocialização?” (Carvalho, citado em Perdigão, 2015, p. 33). Os centros educativos, ao internarem jovens, ao excluí-los do mundo real, estarão a funcionar como uma instituição total, podendo contribuir para uma estigmatização, bem como para a preservação dos ideais da subcultura desviante.

Duarte Fonseca diz mesmo que a recente junção da DGRS com a DGSP, pode agravar esta estigmatização, quer nos jovens quer nas suas famílias, amigos ou vizinhos, no meio que os rodeia. O facto de um jovem estar mediante uma medida imposta por um organismo com o “rótulo Serviços Prisionais” pode rotular o jovem como alguém que se encontra numa prisão para menores, a cumprir uma pena (Duarte-Fonseca, 2012, p. 35). Se o jovem sentir de facto esta rotulação feita pela sociedade, ele sentir-se-á excluído pela mesma, o que resultará numa maior dificuldade de integração. Assim, a forma como o jovem vê e rotula a sua medida é também um fator a ter em conta no seu processo de integração na sociedade.

Um jovem que comete um ato qualificado como crime pela lei penal necessita obviamente de uma intervenção, principalmente quando se verifica que o jovem não percebe a gravidade do facto ou se demonstra uma instabilidade psicológica ou emocional. E por isso percebe-se a aplicação do regime fechado, mas a sua prolongação pelo período de dois anos em total privação de liberdade pode ser mais danificadora do que regenerativa. Quanto mais tempo o jovem passa dentro do centro educativo, quer em termos de tipo de medida quer em tempo de pena, maior é a “anulação da personalidade” destes jovens, mais visível se tornam os efeitos da instituição. “Ao entrar na instituição, o menor é obrigado a abandonar o papel social que desempenhava no exterior, (…) dá-se um desculturamento, a mortificação do eu” (Marteleira, 2014, p. 4). Por esse motivo “durante o período em que se encontram internados, os jovens desenvolvem estratégias de resistência, de forma a preservarem a sua individualidade face ao modelo institucionalmente

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imposto”, pelo que mesmo que estes colaborem inicialmente, os jovens que ficam mais tempo internados são aqueles que melhor se adaptam a resistir ao sistema mesmo cumprindo as regras impostas.

O estudo diz mesmo que qualquer ser humano que se veja privado da sua liberdade sente a necessidade de desenvolver “estratégias adaptativas para sobreviver”, não significa que realmente existiu um processo de reeducação. Por isso mesmo, os jovens que se encontram em regime fechado são também aqueles que apresentam uma maior resistência ao internamento e mesmo “que valorizem o que aprenderam durante a reclusão, atribuem um carácter sancionatório à medida de internamento” (Almeida, 2017, p. 63). Citado em Almeida (2017, p. 64), Neves diz que “devido à escassez de trabalho específico de intervenção com os jovens e em virtude da cisão com o exterior, imposta pelo regime fechado e mesmo no regime semiaberto” estas medidas não conduzem a uma inversão da trajetória de vida destes jovens, não são apropriadas para a reinserção social dos jovens. Existe uma disparidade entre os objetivos da medida e a forma como esta é executada.

3.4 – As dificuldades em reproduzir a realidade: regime

fechado

Anabela Rodrigues afirma que o internamento em centro educativo pode cair no erro de se transformar apenas numa medida de proteção, quando não existem “programas de intervenção psicossocial e programas educativos” específicos. Na realidade, a medida de internamento pode ser vista apenas como uma forma de garantir a segurança da sociedade, excluindo o jovem sem ter em conta as suas necessidades. A medida pode ser utilizada como resposta ao crime praticado e não como forma de reeducação do jovem.

A mesma autora enuncia ainda que a cisão com o exterior que vai contra os objetivos da lei, referida também por Tiago Neves, só pode ser eliminada “através de um comprometimento com a ‘socialização’, desde o primeiro dia do internamento” (Rodrigues, et al., 2016, p. 54). O que, por sua vez, requer uma maior e melhor variedade de programas educativos disponíveis aos centros educativos, bem como um maior número de parcerias com o exterior, que como já verificamos são muito escassas. Proteger a sociedade destes jovens não é uma forma de os reeducar, é apenas uma forma de os afastar temporariamente da mesma sem realmente tratar o problema.

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Posto isso, é também de salientar a chamada de atenção feita para a ausência de intervenção terapêutica nestes jovens. Não basta focar na educação, é por vezes também necessário englobar um tratamento psiquiátrico, algo reiterado “não só no Estudo 2010 (Santos et al., 2010) como também no Relatório 2012 (CAFCE, 2012)” (Rodrigues, et al., 2016, p. 54). “Importa reforçar que, até ao presente, não foi criado qualquer centro educativo especial, tal como a lei prevê, para adolescentes «com necessidades especiais de saúde mental» ou «que revelem psicopatologias associadas à delinquência juvenil» (Santos, et al., 2010, p. 206-207)”. O que, por sua vez, pode resultar na reincidência visto que não existiu, como a lei exige, um tratamento específico para as necessidades do jovem.

No relatório do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa, datado de 2004, também se questiona a eficácia da medida de internamento em regime fechado na educação do menor para o direito. Alguns dos entrevistados, diversos profissionais da área, consideravam a medida do regime fechado exagerada e semelhante a um modelo de prisão. De entre os entrevistados mencionados relativamente a este regime apresenta-se como problema comum a ausência de escolhas a que estes jovens são sujeitos. Os jovens estando confinados sempre ao mesmo espaço, não têm a “possibilidade de uma conveniência normal, (…) em que se lhe põem permanentemente escolhas e que são nessa escolhas, nessas possibilidades de opção, que se vai normalmente formar a personalidade, estamos a coartar a própria socialização”, a restringir a sua interação com a sociedade e os seus intervenientes (Santos, 2004). Por isso mesmo, alguns dos testemunhos apontam para uma necessidade de fasear o processo, bem como de proporcionar uma passagem para o regime aberto.

O regime fechado deve existir, mas apenas como uma fase do processo, não como sendo o processo em si. Estes afirmam mesmo que só deve existir regime fechado num centro educativo em que exista outro tipo de regimes, onde seja possível passar para um nível de maior liberdade e contacto com o exterior. É importante para que o jovem tenha um sentido e objetivo de progressão, tenha a esperança de ganhar alguma autonomia e liberdade ainda dentro do centro educativo.

A Comissão de Acompanhamento e Fiscalização dos Centros Educativos, criada ao abrigo do art.º 209.º da LTE, afirma no seu relatório de 2014 que discorda de um sistema de reeducação que assente no confinamento destes jovens, isolado do mundo exterior, acrescentando ao que haviam afirmado no relatório de 2012, “que o ‘fechamento ao mundo exterior’ do centro educativo constitui um sério entrave à educação para o direito” (Almeida, 2017, p. 65), tendo em conta que

Referências

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