Sidney Moraes Sanches**
Resumo: este artigo aborda os testemunhos no Evangelho de Marcos recorrendo à
Epistemologia do Testemunho, campo de estudos da Teoria do Conhecimento. Apresenta as principais teorias: reducionista e não-reducionista, e as duas di-mensões do testemunho: individual e social. A seguir, usa esses conceitos para verificar as qualidades dos testemunhos no Evangelho de Marcos. Como caso exemplar, analisa o testemunho do geraseno.
Palavras-chave: Epistemologia do testemunho. Evangelho de Marcos. Jesus de Nazaré.
Oralidade.
J
ennifer Lackey, estudiosa da Epistemologia do testemunho, descreve o testemu-nho comouma fonte valiosa de conhecimento. Nós confiamos nos relatos daqueles ao nosso re-dor desde os ingredientes de nossa comida e remédios até a identidade dos membros de nossa família, desde a história de nossa civilização até os limites e assuntos de nosso planeta. Se nós recusamos aceitar o que outros nos dizem, nossas vidas, tanto do ponto de vista prático quanto intelectual, seriam irreconhecíveis (2008, p. 13). Cabe, todavia, a pergunta: “Por que e como aceitar o que é dito por outra pessoa?”,
ou, “como justificamos o fato de agirmos baseados no que nos é dito por outra pessoa?” Conforme Dervail Moreira (2015, p. 17):
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* Recebido em: 03.07.2018. Aprovado em: 16.09.2018.
** Pós-doutorando em Teologia (FAJE). Doutor em Teologia (FAJE). Mestrado em Missiologia (Centro Evangélico de Missões, CEM). Bacharelado em Teologia (Seminário e Instituto Bíblico da IPRB). Professor colaborador (FAJE), Bolsista PNPD/CAPES. E-mail: [email protected]
EPISTEMOLOGIA
DO
TESTEMUNHO
Se a justificação é condição necessária para o conhecimento e se a maior parte de nosso conhecimento foi adquirida através de testemunhos, então a explicação de como justificamos crenças adquiridas por testemunho é fundamental para explicar a maior parte de nosso conhecimento.
Essa questão fundamental está presente em todo e qualquer encontro humano, espe-cialmente naquele onde a certeza ou confiança na declaração feita por alguém é vital para a formulação do conhecimento e para a orientação da vida. Esse aspecto da convivência humana é examinado, filosoficamente, pela Teoria do Conhecimento, particularmente pela Epistemologia do Testemunho, para cuja análise filosófica convergem questões, como: O que é um testemunho e uma testemunha? Que qualidades deve possuir o testemunho que o diferencia de outras formas da comunicação humana? Como saber se o testemunho é verda-deiro, e quão confiável, isto é, justificável, ele é como fonte de conhecimento? (DANCY, 1993; DA SILVA, 2014; MOREIRA, 2015). As respostas nos aju-darão a tratar do tema problemático da confiança em textos religiosos, mais especificamente: o Novo Testamento, tomando como exemplo o Evangelho de Marcos e seus testemunhos de Jesus de Nazaré.
DIMENSÃO INDIVIDUAL DO TESTEMUNHO
Desde a Modernidade ocidental, o conhecimento adquirido pelo ser humano é produ-to de uma apreensão racional, operada pela percepção individual, que recebe as impressões advindas do mundo externo pelos sentidos. É uma atividade estritamente individual e isolada. Nela colaboram: a memória por meio da rememoração; a introspecção por meio da consciência; a razão por meio do raciocínio a priori; a indução por meio da observação da experiência comum; o testemunho por meio do que é transmitido por outras pessoas. As quatro primeiras compõem a matéria básica a partir da qual todo conhecimento é constituído. Somente a partir delas pode-se fazer inferências, generalizações ou induções que ampliarão o conhecimento já recebido. O testemunho, dife-rentemente, é um conhecimento formado a partir daquelas fontes e, por vezes, dependente do processo de generalização. Por um lado, ele não é capaz de elaborar qualquer conhecimento. Por outro lado, todo conhecimento adquirido pelas demais fontes é transmissível apenas pelo testemunho (AUDI, 2003, p. 4-7).
O testemunho individual envolve todo tipo de informação oferecida ou recebida de alguém. Contudo, não apenas ouvimos o testemunho de alguém, mas o colocamos à prova, buscando meios para a sua justificação. Fazemos isso, de maneira inferencial, quando buscamos, em outras fontes de conhecimento,
uma série de premissas que permitem concluir que o testemunho é justificado, portanto, digno de crédito. Fazemos isso, de maneira direta, quando simples-mente aceitamos o testemunho de alguém porque confiamos na habilidade e capacidade da testemunha. Confiamos em que ele sabe o que está dizendo, sendo seu atestador. Temos razões próprias e pessoais para confiar na teste-munha. Portanto, o crédito dado ao testemunho depende de não termos razões para duvidar dele (AUDI, 2003, p. 141, 146; MEDEIROS, 2015, p. 17; DA SILVA, 2014, p. 237).
A partir das duas possibilidades temos, pelo menos, três teorias explicativas para a justificação do testemunho, todas vinculadas ao trabalho original do filóso-fo australiano Charles A. J. Coady (DA SILVA, 2014, p. 232; PRITCHARD, 2004, p. 328; MEDEIROS, 2015, p. 23). A primeira teoria é chamada de “Re-ducionismo global”. Conforme esta, o ouvinte de um testemunho, qualquer que seja, deve ter razões positivas para dar crédito a ele, que não estão no próprio testemunho e nem na testemunha. Busca-se por elementos fora da enunciação do testemunho para dar-lhe sustentação. Uma segunda posição se chama: “Reducionismo local”. De acordo com ela, o ouvinte de um testemu-nho deve buscar evidências para ele, fora do testemutestemu-nho, mas somente naquilo que diz respeito ao seu conteúdo declarado (DA SILVA, 2014, p. 232-236; PRITCHARD, 2004, p. 330).
A terceira teoria é chamada de “Antirreducionismo global”. Alguns a chamam: não-reducionismo ou fundamentalismo epistemológico. Segundo ela, o ouvinte de um testemunho deve dar crédito a ele, e à testemunha, desde que não tenha razões negativas para rejeitá-lo, seja em seu sistema de crenças, seja em alguma informação contraditória (DA SILVA, 2014, p. 232). Duncan Pritchard (2004, p. 328) chama seus defensores de dispensadores de provas (defaultists) e a teoria de “Credulismo aberto”, porque dispensa o testemunho de qualquer exame, sendo tão somente aceito com base na tendência humana para dizer a verdade e para crer nele por causa disso.
Temos, assim, duas teorias opostas entre si: os reducionistas insistem que os não-reducionistas erram, ao dispensar provas ou evidências para o testemunho, pois, colocam o testemunho acima de outras fontes de conhecimento para as quais evidências são totalmente necessárias; e, permitem que o testemunho seja meio de trapaça e de mentira. Os não-reducionistas discordam dos reducionistas, demonstrando que o testemunho não está acima de outras fontes de conhecimento, mas tem suas próprias exigências epistêmicas, por exemplo, suas próprias instâncias de monitoramento do testemunho (DA SILVA, 2014, p. 240-244). Ao colocar exigências de prova tão elevadas, os reducionistas intelectualizam de tal modo o testemunho, gerando o ceticismo, quando ele deixa de servir ao que de fato propõe: assegurar um modo de transmitir
conhecimento bastante utilizado na vida comum das pessoas e coletividades (PRITCHARD, 2004, p. 329).
Afora a discussão epistemológica sobre as razões que apoiam ou não a aceitação do testemunho, temos o exame do que acontece quando alguém transfere ou transmite o testemunho para outra pessoa e, assim, sucessivamente. Temos, então, o testemunho como um ato de fala ou de comunicação que carece de um contexto para sua execução. A esse respeito, temos três visões diferenciadas. Temos uma visão estreita, sugerida por Charles A. J. Coady, quando o teste-munho é dado por alguém detentor de competência, autoridade e credenciais para tal, em resposta à necessidade ou interesse de alguém (LACKEY, 2008, p. 14-19; DA SILVA, 2014, p. 228; MEDEIROS, 2015, p. 9). Temos uma “vi-são ampla”, recomendada por Elizabeth Fricker, onde o testemunho acontece quando alguém exprime seu próprio pensamento, não importa o conteúdo, e nem a sua intenção, nem mesmo o interesse e necessidade do ouvinte, portan-to, sem o interesse em sua transmissão (LACKEY, 2008, p. 19-23; DA SIL-VA, 2014, p. 229). A dificuldade com relação à segunda teoria é que qualquer conversa onde expressamos os pensamentos, ou dizemos qualquer coisa, seja considerada testemunho. E, quanto à primeira teoria, que o testemunho apenas acontece quando visa a transmissão de um conteúdo por pessoa credenciada, em uma situação específica, sob o estímulo de um interlocutor.
Uma “visão moderada”, mediadora entre as duas propostas acima, é expressa por Peter Graham. Ele diz que há testemunho quando alguém competente, com autori-dade e credenciais, detentor de determinada informação, decide transferi-la para outro, de modo a suprir alguma necessidade ou interesse, independen-temente de ser estimulado ou não por este (LACKEY, 2008, p. 23-25; DA SILVA, 2014, p. 230; MEDEIROS, 2015, p. 11). Jennifer Lackey aperfeiçoou essa teoria sugerindo uma “visão dualista”, na qual a transmissão do teste-munho interessa tanto à testemunha quanto ao ouvinte. Assim, falante e ou-vinte interagem na transmissão do testemunho, cabendo ao ouou-vinte o que é relevante ou necessário no testemunho (LACKEY, 2008, p. 2). Na verdade, o papel do ouvinte é muito mais intenso, pois ele pode adicionar ou vincular outros testemunhos, não necessariamente ligados, diretamente, ao testemunho recebido, e dar-lhe um uso que não estava na intenção imediata da testemu-nha. Mesmo quando um testemunho não intenciona transmitir conhecimento, o ouvinte pode servir-se dele de acordo com suas necessidades, e usá-lo como testemunho para e por si mesmo (LACKEY, 2008, p. 25-26,32). Assim, uma visão dualista, também é disjuntiva, visto que separa “o testemunho como um ato intencional, da parte do falante, e o testemunho como uma fonte de crença ou conhecimento, para o ouvinte” (LACKEY, 2008, p. 27; DA SILVA, 2014, p. 230-231; MEDEIROS, 2015, p. 54-80).
DIMENSÃO SOCIAL DO TESTEMUNHO
O testemunho não é somente individual, também é social. Ele inaugurou, praticamente, um novo campo de estudos na Teoria do Conhecimento, chamado Epistemo-logia social. Nela, pergunta-se pelas condições nas quais o testemunho pode ser considerado uma atividade social de transmissão do conhecimento: como indivíduos e grupos podem justificar a recepção e transmissão de declarações, mensagens, ações, ou pensamentos, concernentes a um tema de interesse so-cial? Em que medida um grupo pode ser responsabilizado por um testemunho seu, no sentido do grupo inteiro, ou individual, no sentido dos seus membros? De que modo, grupos produzem um conhecimento verdadeiro e como justifi-car esse conhecimento? Os indivíduos que falam pelo grupo devem ser aceitos pessoalmente, ou socialmente como o grupo que dá testemunho? Como jus-tificar que uma sociedade seja conduzida pelo testemunho de grupos, ainda que sejam os indivíduos que apareçam como os portadores e transmissores do conhecimento que a sociedade precisa? (GOLDMAN; BLANCHARD, 2018). A justificação ou aceitação social do testemunho passa por critérios racionais que as-seguram a confiabilidade do testemunho. Tendemos a confiar no que dizemos e no que nos dizem pessoas conhecidas, pertencentes ao grupo ou a grupos que conhecemos. O ponto é se estendemos ou não a mesma confiança a indi-víduos e grupos que não conhecemos (KETZER, 2014, p. 47-51). Isso coloca a questão da honestidade no testemunho, nesse caso, uma questão ética. É comum considerar a honestidade como critério de confiança. Pode-se propor uma ati-tude genérica de confiança, desde que não haja razões para duvidar da hones-tidade da pessoa e do grupo. Ou uma atitude seletiva de confiança, quando ela existe em função de determinado conhecimento específico, onde se confia que a testemunha fará jus à sua reconhecida competência. Ou, o que é mais comum, atribui-se, imediatamente, uma dose de confiança, enquanto se busca no convívio social as razões justificadoras para seguir confiando. Sendo assim, uma pessoa ou grupo reconhecido por sua honestidade tem um testemunho confiável, e vice-versa (KETZER, 2014, p. 51-62). Pode-se construir o perfil de uma boa testemunha como aquele que passa uma boa informação, sendo que boa quer dizer: competente e honesta ou confiável.
Os critérios racionais para o testemunho não podem seguir as normas estabelecidas para a justificação dos demais meios de transmissão individual do conhecimento, como a apresentação de evidência ou a demonstração da verdade. Como um ato de comunicação social, o testemunho é uma asserção de um falante a um ouvinte que compromete o falante com o que é afirmado. Para que isso acon-teça, o testemunho deve seguir suas próprias normas a partir desse domínio da linguagem (RODRIGUES, 2014, p. 96). O único critério racional realmente
válido para a aceitação do testemunho é o próprio testemunho naquilo que a testemunha afirma ser do seu conhecimento. Uma testemunha não pode dizer algo que ela desconhece, pois isso contradiz a própria constituição do teste-munho enquanto uma declaração sobre algo. Quando isso acontece, deixa de existir o comprometimento público exigido para que o testemunho seja acolhi-do por um ouvinte. A aceitação acolhi-do testemunho depende acolhi-do contexto social acolhi-do falante e do ouvinte. Cumprida essa norma, o conhecimento transmitido pelo testemunho é válido (RODRIGUES, 2014, p. 101).
A norma social constitutiva do testemunho foi aprimorada na reflexão de John L. Aus-tin (1990) sobre os diversos aspectos de uma asserção. Nem toda asserção é portadora de verdade ou evidência, o que não significa que não deve ser considerada naquilo que ela pretende sobre expressar algum conhecimento do mundo, especialmente na realidade social dos usuários de uma linguagem (AUSTIN, 1990, p. 21-23). Quando uma testemunha diz: “Eu dou testemu-nho”, isto não “é descrever o ato que estaria praticando ao dizer o que disse, nem declarar que o estou praticando: é fazê-lo” (AUSTIN, 1990, p. 24). Evidentemente, o testemunho como sentença declarativa precisa de um contexto
lin-guístico e também social para ser identificado como tal: alguém que peça e aceite o testemunho nas circunstâncias em que ele deve ser oferecido, o que não quer dizer que o testemunho deva ser reduzido a uma forma linguística fixa, e nem as condições de proferimento, circunstâncias e ações, não sejam as mais diversas (AUSTIN, 1990, p. 26-27). Nem que um testemunho não deve ser aceito com base na dubiedade da testemunha, ou na pouca evidên-cia factual, ou não correspondênevidên-cia com uma realidade, pois, nesses casos, o que é desmerecido não é o testemunho, mas a sua incapacidade de realização (AUSTIN, 1990, p. 28).
Desse modo, como ato performativo, o que faz de uma declaração um testemunho é (AUSTIN, 1990, p. 31):
(A.1) Deve existir um procedimento convencionalmente aceito, que apresente um determinado efeito convencional e que inclua o proferimento de certas pala-vras, por certas pessoas, e em certas circunstâncias; e, além disso, que
(A.2) as pessoas e circunstâncias particulares, em cada caso, devem ser adequa-das ao procedimento específico invocado.
(B.1) O procedimento tem de ser executado, por todos os participantes, de modo correto e
Claro que podem haver desacertos ou infelicidades no ato de dar testemunho. Ele pode ser falso, pode ser duvidoso, enfim, pode não realizar a sua finalidade. Es-ses são resultados da não observância dos critérios expostos acima. Pode ter ocorrido um desacerto na realização do testemunho, não nele mesmo, o que não desvaloriza ou desacredita o testemunho naquilo que ele propõe realizar (AUSTIN, 1990, p. 32).
DIMENSÃO INDIVIDUAL DO TESTEMUNHO NO EVANGELHO DE MARCOS Consideremos o Evangelho de Marcos como um opúsculo ou pequena obra que
reú-ne um repertório de testemunhos sobre Jesus de Nazaré, composto com fins propagandísticos, visando a publicização e difusão do conhecimento acerca dele. O seu autor escolheu contar a vida de Jesus de Nazaré a partir de tes-temunhos de pessoas que conviveram com ele, direta ou indiretamente. Ele
coletou, transcreveu e ordenou os testemunhos em uma narrativa popular cha-mada evangelho. A própria obra marcana, e seu autor, pode ser considerada
um testemunho sobre Jesus de Nazaré. Conforme explica Richard Horsley
(2010, p. 110), este traz a
história sobre um líder profético popular de um movimento de renovação entre pessoas comuns na Galileia, ele foi evidentemente regularmente representado oralmente entre outras comunidades de povos comuns em um raio cada vez mais amplo.
Deste modo, os testemunhos cumpriram a importante função de tornar público ou dar publicidade a Jesus de Nazaré. Esta foi realizada em três etapas. No período da missão de Jesus de Nazaré, os testemunhos vulgarizaram a sua presença, tornando-a comum no ambiente da Síria e da Galileia, de modo que mais e mais pessoas partilharam do conhecimento sobre ele. A consequência foi tor-nar Jesus acessível, dando livre, desimpedida e franqueada aproximação a ele, estimulando as pessoas a procura-lo onde quer que ele estivesse ou fosse. No período após a morte e ressurreição, os testemunhos serviram para preservar as memórias do que Jesus fez e ensinou, cooperando na formação e desenvol-vimento das congregações nazarenas pela região. No período de composição do Evangelho de Marcos, o registro dos testemunhos objetivou tanto a preser-vação da memória jesuânica nas congregações nazarenas, como abranger uma determinada parcela da população sírio-galilaica ainda não alcançada por eles, convocando-a para a fé em Jesus de Nazaré.
Tomemos o exemplo paradigmático de testemunhos individuais no caso do geraseno possesso por Legião, relatado no Evangelho de Marcos, capítulo 5, versos 1 a
20. Temos um homem alienado e decrépito pela ação de um ou muitos espíri-tos imundos, de conhecimento geral na região. Houve uma situação conflitiva entre os espíritos imundos e Jesus de Nazaré, onde ele exerceu juízo sobre eles, expulsando-os da sua presença, tendo como resultado a libertação do geraseno. O juízo jesuânico foi confirmado pela entrada dos espíritos imundos nas manadas de porcos que se precipitaram no mar, afogando-se. Os cuidado-res dos porcos que pcuidado-resenciaram os acontecimentos, passaram pelos campos, correram até as aldeias e deram o seu testemunho aos proprietários dos por-cos: uma espécie de relatório formal (apēngeilan, Mc 5,14). Estes foram até o lugar do evento para assegurar do testemunho dado, e muitos curiosos foram com eles. Obtiveram um novo testemunho através do relato completamente detalhado, do começo ao fim, daqueles que viram os fatos ocorridos, portanto, suas testemunhas (diēgēsanto autois hoi idontes pēs egeneto, Mc 5,16). Com base nos testemunhos individuais, e no que eles mesmos viram, decidiram pela saída de Jesus da sua região. O geraseno insinuou acompanhar a Jesus, mas ele recusou, dizendo-lhe que voltasse para aqueles de sua casa e, peran-te eles, desse seu peran-tesperan-temunho (apangeilon), um relatório detalhado “de tudo o que o Senhor te fez e como teve compaixão de ti” (Mc 5,19). É a mesma expressão usada também para o relato dado pelos cuidadores de porcos a seus proprietários. Esse é o aspecto formal do testemunho, onde a participação em um acontecimento e suas circunstâncias comprometem a pessoa com o ocorri-do, a partir do qual se torna a responsável por sua transmissão. Após asseverar o que Jesus de Nazaré fez por ele aos de sua casa, o geraseno saiu para a Decá-pole, anunciando ou falando em toda a parte, publicizando (kēryssein), “o que Jesus lhe fez” (Mc 5,20).
Imaginemos o geraseno, obediente ao mandato de Jesus, indo aos seus, e a todos da Decápole, e falando seu testemunho de como Jesus o libertou do domínio de Legião. Tal como os cuidadores dos porcos, havia um comprometimento do geraseno com o acontecimento, do qual ele não poderia deixar de falar a quem quer que seja, pois se tornou o seu portador, a sua testemunha. O seu teste-munho é uma asserção sobre Jesus de Nazaré, que comunica algo sobre o que ele fez, aumentando o conhecimento acerca dele. Não é uma afirmação vazia de conteúdo, pois está bem fundamentada no ocorrido ao geraseno. De fato, o geraseno está em uma posição privilegiada para dar seu testemunho, afinal, ele é a pessoa afetada pelo acontecimento. Ele está cumprindo a norma mais fundamental para o testemunho: ele é participante do acontecimento. Perante essa condição, não cabe a apresentação de evidências, muito menos se há alguma demonstração de verdade, pois ele poderia dizer: “Olhem para mim”. A quem duvidasse, caberia a apresentação do ônus da prova. Com o passar do tempo, o testemunho do geraseno se tornou uma memória arquivada continuamente
rememorada, trazida ao presente, toda vez que ele falava a alguém o seu tes-temunho.
DIMENSÃO SOCIAL DO TESTEMUNHO NO EVANGELHO DE MARCOS
O testemunho dado pelo geraseno foi amplamente divulgado entre os seus e em toda a Decápole. O geraseno mesmo permaneceu como testemunho do ato liber-tador jesuânico, que sinalizava “tudo o que o Senhor fez por ti em sua mi-sericórdia” (ho kyrios soi pepoiēken kai ēleēsen se, Mc 5,19). O testemunho era sobre a obra de Deus e seu caráter compassivo. Assim, o testemunho do geraseno deixou de ser apenas dele, para se tornar de todas as testemunhas que o viram e ouviram, em primeira, segunda ou terceira mão. Qualquer um que ouvia o testemunho do geraseno, diria a outrem: “Ele disse sobre como Jesus o libertou do domínio de Legião”. Quem o ouvia era tomado por um estado de perplexidade, susto e admiração (ethaumazon, Mc 5,20), pois lhes era difícil conceber ou explicar o acontecido, de tão maravilhoso, estranho e incomum que ele era. O seu testemunho pedia às pessoas que desenvol-vessem, em si mesmas, a capacidade subjetiva de se maravilharem e, com isso, apreenderem algo da realidade que lhes escapava. Eles não saberiam como reagir ao testemunho, senão através da aceitação de outro tipo de rea-lidade, somente compreendida no nível do excepcional e, aparentemente, do irreal. Portanto, a dimensão social do testemunho dado pelo geraseno está na acolhida de uma comunidade, que também serve para a sua legitimação, tornando-o seu testemunho, também.
Contudo, houve outras testemunhas oculares do ocorrido ao geraseno. Alertado pelos cuidadores de porcos, os seus proprietários, junto com o povo das aldeias, foram até o local e viram o geraseno “possesso sentado, vestido e são do ju-ízo” (ton daimonizomenon kathēmenon himatismenon kai sēfronounta, Mc 5,15). A cena presenciada os deixou estarrecidos, tomados de pavor ou medo (efobēthēsan). O fato de conhecerem o aspecto anterior do geraseno, compa-rado ao que estavam vendo diante de si, obrigou-os a recorrer ao testemunho, de fato, um relato minucioso (diēgēsanto) daqueles que tinham visto, notado e observado o evento (hoi idontes pēs egeneto), sendo, então, aptas a testemu-nhar o que acontecera acerca do possesso e dos porcos. Os testemunhos dados exigiram que construíssem nova identidade do geraseno e, por consequência, deram um novo testemunho sobre ele, doravante.
Efeito dessa irradiação ou tradição testemunhal foi o Evangelho de Marcos. No período em que seu autor coletou e transcreveu os testemunhos que vieram a ser registrados em seu evangelho, predominava o baixo nível de letramento e alfabetização da população sírio-galilaica. Essas pessoas viviam uma vida
arraigada no campo em meio a pequenos vilarejos e aldeias, e umas poucas cidades. Em toda a região e além preponderava a oralidade como meio privilegiado de contato e transmissão de ideias. Os testemunhos foram o modo adequado para a comunicação oral sobre Jesus de Nazaré entre pessoas pouco letradas e não-alfabetizadas, ou semi-alfabetizadas, que manuseavam uma pequena tradição judeana (judean) oral com fortes raízes nas histórias de Moisés, Elias e Davi (HORSLEY, 2010, p. 107). O autor do evangelho optou em continuar com essa tradição oral ao manter as qualidades memoráveis e performativas dos testemunhos.
Memorável diz respeito ao trabalho de transmissão da memória efetuada por uma tes-temunha, que guarda a reminiscência de um evento. O testemunho é um cha-mado à lembrança e não tem outro propósito senão fazer viver, outra vez, o acontecimento, de modo a promover a sua contínua comemoração: participa-ção do evento passado no presente do testemunho dado. Ora, o Evangelho de Marcos é memorável porque ele cumpre a função retentiva da memória em uma cultura oral, efetuando a transcrição e o registro do que era recordado pe-las pessoas de quem foi Jesus de Nazaré e do que ele fez. A sua finalidade era preservar e perpetuar essas lembranças, manter a memória viva, não deixando que as experiências caíssem no esquecimento. Através do seu trabalho, ele deu voz e meios para que os seguidores de Jesus de Nazaré prosseguissem na comemoração da sua vida entre eles. Foi o modo de mantê-lo vivo e próximo de seus seguidores, e de outros que viessem a crer juntamente com eles. Performativo diz respeito à execução de uma encenação diante de um público ou
au-diência, mantendo, necessariamente, as características da comunicação verbal próprias de uma cultura com forte tradição de oralidade. A respeito dos teste-munhos no Evangelho de Marcos, Werner Kelber identificou um enredo básico tipicamente oral: a uniformização da estrutura e a variedade de experiências de cura; o drama ao redor de duas personagens: o doente e o curador, e de dois elementos: doença e cura; a ênfase no acontecimento sobrenatural em detri-mento da ação ordinária; a redução da ação dos personagens a uma única atitu-de: súplica e cura. O resultado é uma cristologia oral, “conforme as exigências da retórica oral, da reminiscência oral, da reprodução oral” (KELBER, 1991, p. 88), onde Jesus é o herói no nível da realidade ordinária, que a transforma por sua ação extraordinária. Todos os relatos apresentam a mesma organização uniforme, com grande variação na execução narrativa, onde partes são amplia-das ou reduziamplia-das, e até modificaamplia-das, dependendo do público e do improviso necessário. Em resumo, os enredos dos relatos testemunhais espelham a per-formance oral; e os temas de cura e enfrentamento são típicos de uma mentali-dade oral, quando divide a realimentali-dade entre dois princípios, encarnados em dois personagens que se enfrentam, com cores éticas, um mau e outro bom, sendo
que o bom vence o mau. A ideia é captar a imaginação do público antes que reconstruir uma experiência histórica (KELBER, 1991, p. 91, 92).
Fundamental a esse procedimento é o papel do narrador. A sua participação pode
ocor-rer de três formas: como o investigador e coletor dos testemunhos; como o
portador e transmissor dos testemunhos; como a testemunha ocular que relata, a partir de si, os testemunhos. Na opção marcana, o narrador inexiste como testemunha ocular, ele nunca conta os testemunhos na primeira pessoa. Muito menos insinua alguma portabilidade e transmissão prévia dos testemunhos. Resta a visão do histor, antigo termo grego para designar “‘aquele que vê’. Esta concepção da visão como fonte essencial de conhecimento leva-nos à ideia de que histor, aquele que vê, é também ‘aquele que sabe’” (LE GOFF, 2012, p. 20). Não somente como aquele que vê e sabe, mas como aquele que,
sabendo, deixa que os outros também vejam e saibam por si mesmos. Tudo
acontece diante dos ouvidos do leitor, como se estivesse vendo realmente os acontecimentos. De fato, “este relacionamento é um componente de parte da narrativa, do conteúdo do texto narrativo: A diz que B vê o que C está fazendo” (BAL, 1997, p. 146). O leitor tem a vantagem da visão total do quadro, acom-panhando os movimentos de todos os personagens, de um lugar para outro, identificando todos os comportamentos, ouvindo todos os diálogos, conhecen-do os pensamentos e sentimentos conhecen-dos personagens, avalianconhecen-do as atitudes de cada um deles, não deixando passar nenhum detalhe que seja importante para ele como testemunha do testemunho.
O leitor não somente retém a qualidade performativa dos testemunhos, mas da pró-pria performance testemunhal do herói e protagonista do evangelho: Jesus de Nazaré (MARGUERAT; BOURQUIN, 2009, p. 65-67). Esta vai do batismo no Jordão até a ressurreição em Jerusalém e o retorno para a Galileia. Nesse percurso, aquilo que é declarado acerca dele no batismo na Galileia: “Tu és meu Filho amado” (Mc 1,11) é cumprido no retorno ressurreto para a Galileia: ele é o Filho de Deus (Mc 15:39). O Evangelho de Marcos é o testemunho sobre como essa competência foi adquirida no decorrer do percurso narrativo efetuado por Jesus de Nazaré, a partir do testemunho de seus seguidores, que comemorariam essa memória toda vez que o evangelho fosse performado, vez após vez, entre uma audiência.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com o recurso à Epistemologia do testemunho, examinamos o testemunho no Evange-lho de Marcos a partir da sua dimensão individual. Este é uma asserção feita de uma pessoa para outra, ou outras, que implica a transmissão e recepção de conhecimento. Admitindo a teoria não-reducionista, de caráter dualista e
disjuntivo, entendemos o testemunho como dependente da relação entre quem fala e quem ouve, que estabelece as condições de justificação. Sendo assim, dispensamos as demonstrações de evidências externas, para nos fixarmos, ex-clusivamente, na capacidade da testemunha de prover conhecimento confiá-vel, e na capacidade do ouvinte em avaliar e acolher o seu testemunho desde que julgado apropriado e pertinente à sua situação. Também, investigamos a dimensão social do testemunho no Evangelho de Marcos. Este aponta a im-portância do grupo para produção e justificação do testemunho. Entendemos que nenhum testemunho individual basta caso um grupo não forneça uma base social para ele e que, de fato, todo testemunho individual reporta a um grupo ou o representa. Empregamos, como caso exemplar, o testemunho do geraseno possesso por Legião, tanto em sua dimensão individual, quanto em sua dimen-são grupal ou social.
Indicamos o Evangelho de Marcos, e seu autor, como representante da dimensão indi-vidual e social do testemunho sobre Jesus de Nazaré. Usando a descrição de Walter Benjamin (1987, p. 198-199), o autor do evangelho marcano, viajou pelas estradas, aldeias, povoados e cidades, entre a fronteira da Galileia com a Síria, estendida para a Fenícia e a Decápolis. Nessas regiões, ouviu muitos testemunhos sobre Jesus de Nazaré, divulgados por todo lugar, por qualquer pessoa. Um dia, resolveu coloca-los por escrito de modo a oferecer o primeiro testemunho completo sobre Jesus de Nazaré, o Ungido Filho de Deus. Ele o fez de modo a fazer sobressair as qualidades orais dos testemunhos mantendo o caráter transmissivo da tradição oral na qual estava inserido. Significa que seu texto guarda as qualidades memorativas e performáticas de uma obra des-tinada propositalmente à execução oral e direta perante uma audiência que o ouve, mesmo enquanto o lê. A sua execução ou performance não está na leitu-ra privada e isolada de pessoas letleitu-radas, mas em ambientes públicos e de uma audiência cuja oralidade é a marca de sua tradição cultural, e que quer se ver assim reconhecida e identificada enquanto a execução tem lugar.
EPISTEMOLOGY OF TESTIMONY IN THE GOSPEL OF MARK
Abstract: this article approaches the testimony in the Gospel of Mark to turn to Episte-mology of testimony, area of interest of the Theory of Knowledge. Introduces the principal theories: reductionist and no-reductionist, and the two dimen-sions of testimony: individual and social. Following, use this concept for exa-mines the qualities of testimonies in the Gospel of Mark. As an exemplar case, analyses the testimony of Gerasene.
Referências
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