PUC-SP
María Rebeca Ramírez Ramírez
O tríptico literário em
Terra Nostra,
de Carlos Fuentes
DOUTORADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
PUC-SP
María Rebeca Ramírez Ramírez
O tríptico literário em
Terra Nostra,
de Carlos Fuentes
DOUTORADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
Tese apresentada € Banca Examinadora como exig•ncia parcial para obten‚ƒo do t„tulo de Doutor em Ci•ncias Sociais – Antropologia – pela Pontif„cia Universidade Cat†lica de Sƒo Paulo, sob orienta‚ƒo do Prof. Doutor Edgard de Assis Carvalho.
A Deus, pela Sua presença constante em minha vida e por conduzir-me por este caminho.
À Raquel, minha mãe, por despertar em mim o prazer pela vida e pelos estudos.
Aos meus amados pelo amor, compreensão, paciência, apoio ilimitado, incentivo e ajuda entusiasmada.
Ao Prof. Dr. Edgard de Assis Carvalho pela atenção, amizade generosa e pela orientação segura, fatos que contribuíram para o desenvolvimento e resultados desta pesquisa. Agradeço-lhe ainda por ter-me revelado a possibilidade de fazer do encontro com a Antropologia uma experiência de sensibilidade.
À Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pela oportunidade concedida, pelos desafios e pela realização.
À CAPES pela concessão bolsa de estudos, que possibilitou a realização da pesquisa.
Aos professores do Programa de Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo pelo conhecimento adquirido.
À Josefine pela fidelidade, companhia e amizade incondicional.
A tese estabelece a relação tríptica entre os três mundos de Terra Nostra (1975) de Carlos Fuentes. Ao contrário da concepção linear da História, difundida pelas correntes do progresso, a tradição precolombina indica a multiciplicidade de tempos possibilitando que variadas e distantes épocas sejam realidades contemporâneas no instante da narrativa. Sob esse prisma, o romance percorre as transversalidades temporais e espaciais dos mitos ameríndios e da história dos conquistadores do Novo Mundo. De forma descontinua, fragmentada, polifônica e carnavalizada, segundo a óptica de Mikhail Bakhtin, Walter Mignolo, Edgar Morin, Giambattista Vico, o popular e o erudito, o passado, o presente e o futuro, conquistadores e conquistados se imbricam em circularidades trípticas que resgatam por meio da imaginação e da linguagem poética a memória encoberta pelo discurso histórico linear. Terra Nostra pode ser interpretada como uma leitura paralela e alternativa que, ao mesmo tempo em que discute a antropogênese latinoamericana, observa um passado inacabado e constantemente presente nas formulações do devir, isto é, das utopias sociais e políticas.
The thesis establishes a relationship between the three worlds of Terra Nostra (1975), written by Carlos Fuentes. Differently from the linear concept of history, the pre-Colombian tradition understands the world as a multiplicity of historical times, making it possible that several past ages become contemporary realities during the narrative. Terra Nostra goes through the time and space transversalities of Amerindian myths and the history of the New World conquistadors. Conquered and conquerors rescue the popular memory, hidden by the linear historical discourse, through imagination and poetical language, in a discontinuous, fragmented, polyphonic, carnivalized way, according to Mikhail Bakhtin, Walter Mignolo, Edgar Morin, Giambattista Vico. Terra Nostra can be considered as a parallel and alternative understanding of the reality that, at the same time, discusses Latin-American anthropogenesis, observes an unfinished past that is always present at the future conceptions, which are social and political utopias.
La thˆse ‰tabli une relation triptyque entre les trois mondes de Terra Nostra (1975)
de Carlos Fuentes. Contrairement € la conception lin‰aire de l’Histoire, diffus‰e par
les courants du progrˆs, la tradition pr‰colombienne indique la multiplicit‰ des temps,
permettant que des ‰poques diverses et ‰loign‰es deviennent des r‰alit‰s
contemporaines au moment de la narration. Selon ce point de vue, le roman
parcourt les transversalit‰s temporelles et spatiales des mythes am‰rindiens et de
l’histoire des conqu‰rants du Nouveau Monde. D’une maniˆre discontinue,
fragment‰e, polyphonique, carnavalesque, selon l’optique de Mikhail Bakhtin, Walter
Mignolo, Edgar Morin, Giambattista Vico, le populaire et l’‰rudit, le pass‰, le pr‰sent
et le futur, les conqu‰rents et les conquis s’imbriquent en des circularit‰s triptyques
qui rachˆtent par l’imagination et le langage po‰tique la m‰moire masqu‰e par le
discours historique lin‰aire. Terra Nostra peut •tre interpr‰t‰e comme ‰tant une
lecture parallˆle et alternative qui, em m•me temps qu’elle discute l’anthropog‰nˆse
latino-am‰ricaine, observe um pass‰ inachev‰ et au m•me temps pr‰sent dans les
formulations du devenir, c’est-€-dire des utopies sociales et politiques.
La tesis establece la relación tríptica entre los tres mundos de Terra Nostra (1975) de Carlos Fuentes. Al contrario del concepto lineal de la Historia, propagado por las corrientes del progreso, la tradición precolombina revela la multiplicidad del tiempo lo que hace posible que variadas y distantes épocas sean realidades contemporáneas en el instante de la narrativa. Bajo ese prisma, la novela recorre las transversalidades temporales y espaciales de los mitos amerindios y la historia de los conquistadores del Nuevo Mundo. De manera descontinuada, fragmentada, polifónica y carnavalizada, desde la óptica de Mijail Bajtín, Walter Mignolo, Edgar Morin, Giambattista Vico, lo popular y lo erudito, el pasado, el presente y el futuro, conquistadores y conquistados se superponen en circularidades trípticas que rescatan por medio de la imaginación y del lenguaje poético la memoria encubierta por el discurso histórico lineal. Terra Nostrapuede ser interpretada como una dupla lectura, paralela y alternativa, que al mismo tiempo en que escudriña la antropogénesis latinoamericana revela un pasado inconcluso y tenazmente presente en las enunciaciones del porvenir, es decir en las utopías sociales y políticas.
INTRODUÇÃO ... 01
PRIMEIRA PARTE A carnavalização da história em O Velho Mundo... 23
SEGUNDA PARTE Os intertextos no mito fundacional em O Mundo Novo... 137
TERCEIRA PARTE A esfera das possibilidades da memória em o outro mundo ... 204
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 316
BIBLIOGRAFIA... 328
INTRODUÇÃO
Memória e desejo são imaginação presente. Este é o horizonte da literatura. Imaginar o passado. Recordar o futuro. Um escritor conjuga os tempos e as tensões da vida humana com meios verbais.
Carlos FuentesValiente mundo nuevo.
Carlos Fuentes é considerado um dos principais escritores latino-americanos do século XX. Influenciado pela modernidade de Miguel de Cervantes, escreve como crítico das culturas da América e do mundo. Seu pensamento sociopolítico e literário alcança o século XXI; como cronista da devastação pré-colombiana, investiga o passado de relações disjuntas da história do nosso continente e percebe a relação polar entre civilização e barbárie, tradição pré-hispânica e modernidade. Essa polarização influencia seu fazer literário, que somado à sua visão particular da história delineia a trajetória de seus escritos. Sua constante preocupação pela releitura da história se efetua pelo método do revisionismo do passado histórico y literário do universo latino-americano. A história é uma espiral de múltiplas viagens temporais, afirma. E qual é a idade do tempo? Eterna pergunta que paira no ciclo narrativo organizado e denominado por ele como La edad del tiempoe inclui relatos densos, complexos e repletos de personagens alegóricos.
Carlos Fuentes afirma em Valiente mundo nuevo (1992), que se faz
necess‹rio abrir as p‹ginas mais “obscuras das ‹reas cinzentas do registro hist†rico”
e que “h‹ que dar voz aos sil•ncios da nossa hist†ria”, e acrescenta: “o meio
privilegiado para a explora‚ƒo de tal passado nƒo ‰ o Žmbito discursivo da historia,
senƒo o espa‚o imaginativo da literatura de cria‚ƒo (...) que cria uma realidade
paralela por meio do mito e duma linguagem contemporizada”. (1992, p.12). A
pluralidade de significados desafia o conceito tradicional da historiografia, “utilit‹ria
de estruturas totalizantes em busca da legitima‚ƒo de um passado suscet„vel €
manipula‚ƒo” (1992, p.13).
Terra Nostrase publica na metade da d‰cada dos setenta; cinco s‰culos ap†s
a primeira gram‹tica da l„ngua espanhola de Antonio de Nebrija, e dezessete anos
antes que se completassem os quinhentos anos do Descobrimento da Am‰rica. Sƒo
antecedentes de um passado pluridimensional, aberto e reinterpret‹vel que o
romance carnavaliza pela ruptura da narrativa linear de uma hist†ria un„voca. No
relato, a realidade social se cruza com o destino individual das personagens, como
um mosaico sincr‰tico, espelho granformado que reflete poss„veis imagens da
antropog•nese do homem latino-americano.
A arte, particularmente a literatura, representa a realidade de um modo que
produz com maior fidelidade sua natureza amb„gua. Carlos Fuentes assegura que a
literatura “revela o real que subjaz por tr‹s do contexto comumente aceito da
realidade, o mundo da fic‚ƒo ‰ um componente essencial da realidade, cada
instŽncia imaginativa constitui uma a‚ƒo potencial, uma hist†ria inexplorada” (1992,
p.18). Diz que pela imagina‚ƒo se alargam os limites do mundo conhecido e, ao
imaginar mundos, consequentemente, torna-se poss„vel perceber a realidade
emp„rica de outro modo.
“A poesia sabe e pode enfrentar a realidade total, para al‰m da visƒo reduzida
do esquema ideol†gico, da necessidade pol„tica momentŽnea ou do simples fato
hist†rico; a literatura, em nome da polival•ncia do real, cria o real, e ao acrescentar
seu pr†prio real, deixa de ser correspond•ncia verbal de verdades anteriores a ela”
(1992, p.18). Trata-se de uma realidade de papel, inven‚ƒo e cria‚ƒo na qual a
literatura diz coisas do mundo utilizando novas possibilidades narrativas; novos
procedimentos formais que forjam a imaginar outras hist†rias € margem da oficial, a
No ensaio Valiente mundo nuevo, que tem como subt„tulo, Épica, utopía y mito em la novela hispanoamericana reafirma mais uma vez o eixo tem‹tico de
toda sua obra, cujo mote principal ‰ o tempo. Em seus escritos, Carlos Fuentes situa
grande parte da narrativa na hist†ria do M‰xico, evoca o universo pr‰-hispŽnico para
memoriz‹-lo no espa‚o da imagina‚ƒo, reivindica o passado a partir do presente
“repovoando os espa‚os escuros da Hist†ria. Recordamos aqui, hoje. Amanhƒ
teremos uma imagem do que foi o presente. Nƒo podemos ignorar isto, como nƒo
podemos ignorar que o passado foi vivido, que a origem do passado ‰ o presente”
(p.17).
Intrinsecamente latino-americano e cidadƒo do mundo, homem das letras,
romancista, contista, ensa„sta, teatr†logo, autor m•ltiplo, leitor das realidades do
nosso continente, cr„tico e tradutor de sua cultura nativa. O universo liter‹rio de
Carlos Fuentes abrange renovadas possibilidades de reflexƒo sobre os diversos
temas que permitem diferentes propostas interdisciplinares de pesquisa cient„fica na
‹rea da Literatura, Hist†ria, Antropologia, Sociologia, Psicologia, Pol„tica, Filosofia.
Preocupado com a identidade latino-americana, observa que a hist†ria do continente
inclui as das civiliza‚•es ind„genas pr‰-colombianas mexicas dos toltecas, olmecas,
astecas e de tantos outros grupos nativos origin‹rios dos quatro cantos da Am‰rica.
Essa reflexƒo inclui sistematicamente o aporte da Espanha no M‰xico, ponto de
encontro entre dois mundos de culturas diferentes. O que ‰ a Am‰rica? Europeia,
criolla, „ndia? E sempre chega € mesma conclusƒo, somos um povo
Indo-Afro-Americano.
Afirma que no universo da literatura, o passado ‰ imagina‚ƒo e que o futuro se
constr†i “do desejo de hoje pelo encontro entre nossos movimentos de funda‚ƒo –
‰pica e mito; utopia e barroco – com as manifesta‚•es modernas da narrativa
hispano-americana, mediante o entrela‚amento constante do movimento com suas
fun‚•es: dar nome e dar voz; recordar e desejar” (1992, p28, 29). Como exemplo
dessa constru‚ƒo liter‹ria, cita Jorge Lu„s Borges e a nova refuta‚ƒo do tempo que acumula todos os espa‚os do mundo em sua obra El Aleph, ou a multiplicidade do
tempo em El jardín de senderos que se bifurcan, at‰ aproximar-se da totalidade do conhecimento em La biblioteca de papel, cuja imagem apresenta uma esp‰cie
Apenas para fazer-nos sentir que o mundo dos livros est‹ liberado das demandas da cronologia ou da sucessƒo lineal: um autor, uma biblioteca, um livro, significam todos os autores e todos os livros, presentes aqui, agora, contemporŽneos uns aos outros nƒo somente no espa‚o senƒo no tempo. (...). Um livro, um tempo, um espa‚o, uma biblioteca em muitos lugares e em muitos tempos. Pois a condi‚ƒo para essa unidade da literatura ‰ a pluralidade das leituras. Borges acaso cria totalidades de tempo e espa‚o, em El jardín de
senderos que se bifurcan, o narrador concebe cada possibilidade de tempo (...) l• duas vers•es do mesmo cap„tulo ‰pico. Nƒo a versƒo ortodoxa, •nica, senƒo uma segunda versƒo, heterodoxa: nƒo somente a reforma, senƒo a contrarreforma; nƒo s† a conquista, senƒo a contra-conquista. (1992, p.38-39).
Cita Don Quijote que sai de La Mancha para entrar no universo liter‹rio
universal e, a partir da„, percorre o mundo imagin‹rio de todas as gera‚•es.
“Cervantes confronta imagina‚ƒo e realidade, inaugura o romance moderno e cria a
pluralidade nas percep‚•es da sociedade” (p.40). Os que percebem a
simultaneidade de obras de diferentes autores, nos mais variados tempos, sƒo os
leitores, diz Carlos Fuentes, porque a leitura desde diferentes lugares e ‰pocas
possibilita a compreensƒo do texto como um mosaico narrativo, alcan‚ando a
constru‚ƒo polif‘nica, compreendida como um territ†rio ocupado por quem l• e por
quem escreve. Esse mecanismo estabelece o conceito de intertextualidade
enunciado por Julia Kristeva.
A intertextualidade se constr†i como uma rede de rela‚•es, constituindo-se em um novo texto, fruto das leituras de narrativas anteriores. Configurando o processo da escrita em um processo de releitura e de reescrita, todo texto sempre representa a leitura de outros textos. Todo texto ‰ absor‚ƒo e transforma‚ƒo de outro texto. Em lugar da no‚ƒo de intersubjetividade, se instala a da intertextualidade, e a linguagem po‰tica se l•, pelo menos, como dupla (...). A linguagem po‰tica aparece como um di‹logo de textos: toda sequ•ncia se faz em rela‚ƒo € outra proveniente de outro
corpus, de maneira que toda sequ•ncia est‹ duplamente orientada: para o ato de reminisc•ncia (evoca‚ƒo de outra escrita) e para o ato de intima‚ƒo (a transforma‚ƒo dessa escritura). (1985, p.50).
Em sua busca por reler o passado, Carlos Fuentes aproxima os diferentes
campos do saber e os redimensiona criando novos sentidos de interpreta‚ƒo num
constante movimento interdisciplinar. As reflex•es sobre a antropog•nese
latino-americana e as considera‚•es sobre a multiciplicidade cultural sustentam o ide‹rio
ensaios El espejo enterrado(1992), La Nueva Novela Hispanoamericana(1969), Territorios del tiempo (1990), Geografía de la novela (1993), Nuevo Tiempo Mexicano(1995), importantes fontes de consulta, manancial comum que abastecem
o corpus da pesquisa. Em Valiente mundo nuevo, reflete-se sobre o processo
hist†rico e comenta a tradi‚ƒo multicultural hispano-americana.
Estas incluem, pelo menos, o mundo m„tico das civiliza‚•es pr‰-hispŽnicas e a heran‚a mediterrŽnea trazida por Espanha ao Novo Mundo: tradi‚ƒo greco-latina viva nas disjuntivas temporais: permanecer e fluir; no apego ao direito escrito e € filosofia est†ica; imersƒo na filosofia cristƒ, seus dogmas, hierarquias e promessas. Renascimento e contrarreforma; conquista e contra-conquista; superviv•ncia judia; aporte africano; nova civiliza‚ƒo mesti‚a, crioula, ind„gena e negra. (...) a coexist•ncia de todos os n„veis hist†ricos ‰ apenas o signo externo de uma decisƒo subconsciente desta terra e desta gente: todo tempo deve ser mantido. (1992, p. 23).
Essas ideias sƒo ampliadas, reiteras e discutidas em Terra Nostrana inten‚ƒo
de abarcar a multiplicidade de culturas e de tempos hist†ricos, que somados
constituem o caudal cognitivo dos povos da Pen„nsula Ib‰rica e da Am‰rica Latina.
O romance introduz a tese sobre a forma‚ƒo pluricultural do sujeito
hispano-americano por meio da fragmenta‚ƒo temporal e pelas refer•ncias intertextuais das
obras liter‹rias produzidas durante os s‰culos XVI e XVII. Os recortes
hist†rico-liter‹rios revelam a inten‚ƒo de apresentar a sua versƒo sobre as ra„zes
socioculturais da Pen„nsula Ib‰rica e as consequ•ncias dessas na Am‰rica durante
o processo de coloniza‚ƒo.
Pela via metaf†rica, um recurso liter‹rio poss„vel, o romance apresenta
algumas das caracter„sticas constitutivas da idiossincrasia do latino-americano. Os
argumentos defendidos se referem a uma antiga preocupa‚ƒo de Carlos Fuentes
que resume e sintetiza suas inquietudes no que diz respeito “ao destino que
responde-corresponde ao povo Indo-Afro-Americano” (1992, p. 10).
No M‰xico nativo de Carlos Fuentes ocorre a g•nese de um Novo Mundo
inventado pela imposi‚ƒo decisiva da civiliza‚ƒo espanhola do s‰culo XVI sobre a
civiliza‚ƒo asteca. Essas civiliza‚•es t•m diferentes pontos de vista a respeito da
concep‚ƒo do tempo; para os povos pr‰-hispŽnicos o tempo ‰ c„clico; para os
A linearidade da história resume o passado pela natureza restrita de suas fontes e pelas inexoráveis exigências impostas pelo tempo e pelo lugar da ocorrência, Terra Nostra,respaldada pela imaginação literária, evoca as páginas da História para compor uma versão possível dos acontecimentos que no passado teriam dado origem à situação político-econômica da América Latina da década de setenta.
Emoldurada pela palavra que legitima e amalgama a temática histórico-literária de Terra Nostra, O Velho Mundo, O Mundo Novo e O Outro Mundo, a tese estabelece a relação tríptica entre eles estruturando-os como um tríptico literário organizando seus episódios cronologicamente. Trata-se de inúmeros fragmentos que no romance são apresentados como uma sucessão de flashbacks, por meio de narrativas entrecortadas, em conexões sugeridas pela obra que se estabelecem sutilmente. A fábula do Descobrimento, da Conquista e da Colonização das terras da Nova Espanha forma o eixo condutor no processo narrativo do romance, mesclando ingredientes indígenas e europeus amalgama os sujeitos, os discursos e as representações para emoldurar o encontro-confronto dos três mundos num duelo de versões narrativas.
O corpus se organiza, segundo o modelo tríptico, de acordo com a trilogia do romance. A primeira parte, A carnavalização da história em O Velho Mundo, focaliza a história da Espanha e a sua relação com a América; essa relação se constrói em torno na figura sociopolítica do rei Felipe II e da personagem literária Celestina cujos lábios estão tatuados e regravados os fatos marcantes que dão origem à narrativa. Discute as estruturas monolíticas do poder representadas na figura do Senhor inserida no edifício de El Escorial, que na obra se reconhece como Palácio. O primeiro episódio se inicia com um relato breve sobre o encontro entre dois jovens, Polo Febo e Celestina, em Paris, no dia 14 de julho de 1999. Nessa sequência inicial, ocorrem muitos relatos extraordinários, marcados pela aura do Juízo Final preconizada pelo iminente fim de século. A personagem Celestina aparece pela primeira vez e revela-se como protagonista e conhecedora dos fatos que abrangem os séculos XVI e XVII, época que compreende a permanência da dinastia dos Áustria no trono da Espanha.
que consentem diálogos possíveis num plano pluridimensional. A possível construção da antropogênese latino-americana, somada à memória cultural das personagens do romance, autoriza a fusão do relato histórico com o ficcional, ambos se fundem nas múltiplas vozes das personagens que forçam a ficção a mover-se pelo território da verossimilhança para confrontar a versão linear dos relatos históricos. A reinvenção dos mitos pré-hispânicos e as crônicas da conquista, na visão de Carlos Fuentes, formam um duplo eixo estruturador: a saga do deus mesoamericano Quetzalcóatl e o descobrimento-conquista da América. A figura de Quetzalcóatl, dentro do contexto da obra, articula a história da Conquista. As aventuras do Peregrino no Novo Mundo se correspondem, por um lado, com as etapas principais da vida Quetzalcóatl-Topiltzin e, por outro, com momentos significativos da conquista da América. O estudo de estes dois componentes se realiza em estreita relação com as fontes documentais do romance.
A terceira parte, A esfera das possibilidades em O Outro Mundo, apresenta O Velho Mundo transformado pela intersecção com O mundo novo. Nesse encontro predomina a ideia da história como um espelho, as figuras e os sucessos históricos evocam o replicam outras personagens e outros acontecimentos. O Outro Mundo é o reflexo do Velho Mundo, suas características socioeconômicas e políticas se assemelham as dos povos dominados pelo poder absoluto no passado. Esses fatos explicitam a multiplicidade de focos narrativos que existem no romance, ao mesmo tempo que questionam o discurso histórico linear que privilegia um único ponto de vista, uma única verdade e apenas uma versão da realidade.
Para pensar a História da Espanha e a da América dos séculos XVI e XVII, Carlos Fuentes instaura uma ruptura da ordem espaço-temporal e a polifonia de vozes narrativas. Essa fusão constrói versões múltiplas da História, produto das diferentes formas de conceber e de elaborar a narrativa. A última parte do Tríptico convoca algumas das personagens da primeira parte e introduz outras de diversas obras literárias, surgem muitas histórias paralelas que foram iniciadas em episódios anteriores que se encontram e se entrecruzam para mentir e para desmentir os fatos anteriormente narrados.
mem†ria latino-americana. A narrativa se desloca no tempo e no espa‚o, a
intertextualidade convoca uma multiciplicidade de obras e de personagens da
literatura universal para reuni-los no palco do plurilingu„smo, lugar em que a
heterogeneidade fica expl„cita como constitutiva da linguagem liter‹ria.
A imagem evoca o s‰culo XVI e o Teatro de Giulio Camillo que, interessado em
sintetizar a arte da mem†ria, desenhou um prodigioso Teatro da Mem†ria invertendo
os pap‰is tradicionais do teatro. No lugar de atores, um espectador solit‹rio se
situava no cen‹rio, contemplando a atua‚ƒo que se desenvolvia ao seu redor, nas
gradas ascendentes do audit†rio. Na obra, o palco do Teatro da mem†ria de Val‰rio
Camillo possibilita a oportunidade de imaginar destinos poss„veis ao reescrever a hist†ria numa “fortale‚a de papel”, materialidade de Terra Nostra.
As teorias formuladas por Mikhail Bakhtin em seus escritos,A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. O Contexto de François Rebelais (2002), Problemas literários y estéticos (1986), El método formal en los estudios literarios: introducción crítica a una poética sociológica (1994), Problemas da poética de Dostiévki (2000), Questões de literatura e de estética (2002)
permitem compreender os recortes temporais como forma aberta e plurivocal de
perceber a hist†ria, em oposi‚ƒo ao discurso un„voco do relato linear.
A atitude transgressora que retira as personagens hist†ricas, m„ticas e liter‹rias
do seu lugar comum caracteriza a carnavaliza‚ƒo da hist†ria por meio da linguagem
romanesca. O autor russo situa sua abordagem te†rica no campo das ci•ncias da
linguagem e dos estudos sobre a po‰tica sociol†gica, valorizando a possibilidade de
construir uma ci•ncia das rela‚•es, o dialogismo, em que a mente teria uma fun‚ƒo
construtiva fundamental. Por ser um modo de sistematiza‚ƒo do conhecimento, de
ordena‚ƒo das partes num todo e de constru‚ƒo da percep‚ƒo, o dialogismo se
fundamenta nƒo apenas como categoria est‰tica, mas tamb‰m como princ„pio
filos†fico que orienta um m‰todo de investiga‚ƒo baseado na carnavaliza‚ƒo.
A reflexƒo te†rica de Mikhail Bakhtin permite compreender o desdobramento
temporal como dinŽmico e criador; representante da mem†ria criativa no processo
de desenvolvimento na rela‚ƒo entre literatura e hist†ria, como uma das “formas
composicionais de organiza‚ƒo do plurilingu„smo no romance, para que os textos
alheios, provenientes da prosa extraliter‹ria, processem o recurso do recorte como
narrativa hist†rica, elaborada por meio de uma estrutura narrativa fragmentada,
analisam-se os elementos da carnavaliza‚ƒo, os intertextos na reconstru‚ƒo
dial†gica dos mitos mesoamericanos e a polifonia na esfera do desejo e da utopia
como subs„dios propostos pela mem†ria circular no romance.
A contextualiza‚ƒo do mito na literatura possibilita diversas interpreta‚•es
reveladas pelo conceito de mito liter‹rio apresentado nos escritos de Mircea Eliade
em Aspectos do mito (1963). Comenta que “Os mitos de origem prolongam e
completam o mito cosmog‘nico: contam como o Mundo foi modificado, enriquecido
ou empobrecido” Mito e Realidade(1972). A obra de Maria Zaira Turchi,Literatura e antropologia do imaginário (2003) relaciona a Antropologia com a arte da
palavra e percebe o romance de natureza hist†rico-‰pico-l„rico como uma das
express•es mais significativas da literatura contemporŽnea, por construir mundos
f‰rteis de aventuras e sentimentos.
Em Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura (2001), para
Hayden White h‹ que refletir sobre a forma de organiza‚ƒo e elabora‚ƒo das
narrativas hist†ricas para que elas adquiram sentido, pois os conte•dos
hist†rico-m„ticos sƒo percebidos como afirma‚•es metaf†ricas que sugerem um complexo de
s„mbolos que possibilitam a fusƒo do romance e da hist†ria por meio da imagina‚ƒo
construtiva.
A ideia de que hist†ria e fic‚ƒo tecem o discurso hist†rico se ap†ia nas
reflex•es de Paul Ricoeur sobre a temporalidade, “Contando hist†rias, os homens
articulam sua experi•ncia do tempo, orientam-se no caos das modalidades
potenciais de desenvolvimento, marcam com enredos e desenlaces o curso muito
complicado das a‚•es reais dos homens (...) a hist†ria do romance faz da literatura
“um enorme canteiro de experimenta‚ƒo” (Paul Ricoeur, 1990, p.43).
Para reconstruir o mito, o romance atravessa o tempo por um espa‚o fant‹stico
que oscila entre a hist†ria e a fic‚ƒo; os dados hist†ricos e m„ticos sƒo extra„dos das
obras de Miguel- Le†n Portilla, El reverso de la Conquista. Relaciones Aztecas, Mayas e Incas El destino de la palabra (1964); De la oralidad y los códices mesoamericanos a la escritura alfabética (1992); Visión de los vencidos; Relaciones indígenas de la Conquista (1969); Motivos de la antropología
americanista, indagaciones en la diferencia (2001). Esses escritos sƒo
culturas provenientes de mundos diferentes e para entender os mecanismos do
processo da conquista relatados, que ao construir a mito-hist†ria geram um novo
mito de origem como consequ•ncia do encontro-fusƒo entre as culturas
pr‰-hispŽnicas e o interesse sociopol„tico cultural do homem europeu.
Estudiosos da Hist†ria do Descobrimento e da Conquista do nosso continente
Octavio Paz (2009) e Tzvetan Torodov (2005) comentam que as narrativas que
comp•em a Hist†ria do per„odo da funda‚ƒo da Am‰rica estƒo marcadas pela
conflu•ncia de textos liter‹rios europeus. Esses documentos sƒo poss„veis vias para
explicitar as interfaces da literatura, no que se refere €s narrativas hist†ricas. Diz
Torodov que “as narrativas hist†ricas sƒo nƒo apenas modelos de acontecimentos e
processos passados, mas tamb‰m afirma‚•es metaf†ricas que sugerem uma
rela‚ƒo de similitude entre esses e o tipo de hist†ria que convencionalmente
utilizamos para conferir aos acontecimentos das nossas vidas significados
culturalmente sancionados” (2005, p.42). Carlos Fuentes nƒo descarta esse tempo de funda‚•es marcado pela imagina‚ƒo; em Terra Nostraas refer•ncias textuais ao Diario de Cristóbal Colón (1994) e €s Cartas de relación, de Hernán Cortés
(2006) surgem como documentos essenciais para criar as imagens do Novo Mundo
e as da Conquista do M‰xico.
Os estudos cr„ticos de Walter Mignolo (1993) a respeito das rela‚•es entre a
Hist†ria e a Literatura estabelecem parŽmetros te†ricos que orientam a perspectiva
anal„tica sobre a constru‚ƒo da hist†ria em Terra Nostra. O autor comenta que na
literatura latino-americana das •ltimas d‰cadas do s‰culo XX surge uma nova forma
de narrativa, fruto do di‹logo entre as ci•ncias humanas. Nesse sentido, a literatura
percebe o car‹ter heterog•neo de forma‚ƒo dos diferentes espa‚os culturais. Essa
apropria‚ƒo tem sido conceituada como etnoliteratura, poesia experimental,
literatura etno-cultural, e outros. Essas obras representam um desafio do ponto de
vista da sua classifica‚ƒo e an‹lises, em alguns casos sƒo denominadas como
romance da antropog•nesis ou etno-romance. Ressaltam o lugar da enuncia‚ƒo dos
discursos, desarticulando cŽnones e tradi‚•es em concordŽncia com a ideia de
inven‚ƒo de Am‰rica preconizada por Edmund O’Gorman, que mitiga o sentido de
descobrimento difundido pelo discurso europeu.
Terra Nostra pertence ao g•nero liter‹rio conceituado como Novo Romance
romanesco como voltado para uma instŽncia temporal do passado, heran‚a do
modelo romance hist†rico de Walter Scott. Menton comenta que a Europa do s‰culo
XIX ‰ o ber‚o onde nasce o romance hist†rico, esse fato coincide com a
necessidade de legitimar as tradi‚•es nacionais sob a ideia de que existe uma
hist†ria universal eurocentrista. Argumenta que motivado pela f‰ no historicismo, o
romancista procura no passado as for‚as motrizes da sua pr†pria hist†ria, e que o
romance hist†rico hispano-americano ambiciona criar a legitimidade nacional
estabelecendo uma aproxima‚ƒo entre o universo sociocultural latino-americano e o
modelo europeu. “Os romances hist†ricos escritos sob a influ•ncia do modernismo
hispano-americano (1882-1915) nƒo possu„ram o mesmo empenho no sentido de
atingir uma consci•ncia nacional, mas sim tratam de escapar das descri‚•es
naturalistas – positivistas ou do materialismo burgu•s e procuram uma re-cria‚ƒo
fidedigna ao mesmo tempo embelezada de certas ‰pocas do passado, no plano do
escapismo” (Menton, 1993, p.37).
Partindo desse conceito, o romance compreende-se como um escrito que se
situa total ou parcialmente num passado nƒo vivenciado diretamente pelo autor.
Menton estabelece como romance hist†rico tradicional aquele surgido entre
1826-1949, vinculado € origem dos romances nacionalistas e ao romance hist†rico
romŽntico, “O romance hist†rico tradicional se remonta ao s‰culo XIX e se identifica
principalmente com o Romantismo, embora evolucionasse no s‰culo XIX dentro da
est‰tica do Modernismo, do crioulismo e ainda dentro do existencialismo”.
Argumenta que, no s‰culo XX, “as grandes guerras mundiais frustram o otimismo
inicial com rela‚ƒo ao progresso hist†rico, embora no imagin‹rio ocidental a ideia de
que a Europa ‰ o ber‚o de uma civiliza‚ƒo supostamente continua j‹ estava
solidificada” (1993 p.31-35).
No Novo Mundo, complementa Menton, a narrativa latino-americana procura
obscurecer os traumas da conquista ib‰rica e cria imagens que se aproximem ao
modelo da civiliza‚ƒo europeia. Procura esquecer o passado,transcende a
diversidade constitutiva do latino-americano e “constr†i uma face homog•nea
inserida num passado nacional comum, interpretada pela produ‚ƒo de a‚•es
romanescas de significativas hist†rias exemplares, cujos protagonistas personificam
novas na‚•es. A partir desse momento o romance l• a hist†ria, interpreta e explicita
as inten‚•es da ‰poca em que se escreve” (1993, p.16).
O tempo hist†rico e o m„tico se conjugam harmoniosamente para criar a
verossimilhan‚a no universo do romance, ao mesmo tempo funcionam como vias
seguras para compreender a cosmovisƒo dos povos representados nas figuras das
personagens de Terra Nostra. A forma de organiza‚ƒo significativa do relato
hist†rico implica no entendimento de que na narrativa nƒo h‹ apenas a mera
reprodu‚ƒo de acontecimentos nela descritos, mas que essa tamb‰m acumula em si
um complexo universo de s„mbolos culturais que envolvem e tentam explicar esses
acontecimentos. A multiciplidade temporal articula a reflexƒo do autor mexicano
sobre o tempo em espiral, que percebido como peregrino e construtor da hist†ria flui
num constante movimento de corsi e recorsi, estrutura narrativa m•ltipla que
percorre e recorta a hist†ria permitindo no romance a concep‚ƒo de um passado
inacabado, segundo os postulados do pensador Giambattista Vico, em A ciência nova (1999). Esses escritos instauram um movimento circular que re•ne as presen‚as da mem†ria e do tempo no espa‚o criado em Terra Nostra.
A narrativa de Carlos Fuentes entrela‚a o passado, o presente e o futuro para
revelar verdades poss„veis e tecer uma hist†ria sem fim constitu„da pelas vozes
marginalizadas da História, pela valoriza‚ƒo das tradi‚•es culturais, pelo
questionamento dos dogmas e pelo preenchimento dos vazios impostos pelo
discurso totalizador. A preocupa‚ƒo quanto € multiplicidade cultural latino-americana
‰ uma diretriz tem‹tica em sua obra, seu acervo liter‹rio desde a primeira cole‚ƒo de contos, Los días enmascarados (1954), at‰ seus •ltimos ensaios demonstram a
sua preocupa‚ƒo por reescrever a hist†ria do continente americano e principalmente
a hist†ria do M‰xico, eixo de toda a sua narrativa.
Sua produ‚ƒo liter‹ria observa o passado como pluridimensional, aberto,
reinterpret‹vel e vivo dentro do mundo contemporŽneo. Para Carlos Fuentes, o meio
privilegiado para explorar o passado se encontra no espa‚o da cria‚ƒo liter‹ria. Em contos como Por la boca de los dioses, Chac Moolou Tlactocatzine, inclu„dos em Los días enmascarados, descreve o passado pr‰-hispŽnico e sua rela‚ƒo de
conflito ainda latente na realidade atual. Nos tr•s contos, o passado esquecido
irrompe para reinterpretar os mitos com a inten‚ƒo de refletir sobre o inevit‹vel
obra alude aos cinco dias finais do calendário asteca como aporte pré-cortesiano à cultura mexicana moderna. Os tempos inclusos e vitais de todos os homens são a ramificação metafísica das preocupações quanto aos diferentes tempos históricos pelos quais transitam as realidades hispano-americanas. Em ambos os casos, os tempos são representações de vozes culturaise interiores, como nos contos que as evidenciam.
Em La región más transparente (1958), retoma temas relacionados à
identidade mexicana, examinados de forma embrionária em Los días enmascarados (1954). O romance registra um período preciso da vida sociocultural mexicana, o tempo da narrativa no qual se insere a maior parte da ação é o ano de 1951. A obra ilustra um México moderno, que concebido a partir de personagens representativos de todos os setores sociais das grandes cidades refletem sobre o inevitável conflito entre as lembranças do passado e a percepção do presente a procura das raízes pré-hispânicas que parecem incompreensíveis para a mentalidade da cultura mestiça que configura o México atual. Como uma fotografia do tempo, constrói um registro cuidadoso do cotidiano das diferentes classes sociais. A cidade é intelectualmente descrita pela personagem Manuel Zamacoma, uma espécie de filósofo que vive preocupado em analisar as porções culturais que formam o ser mexicano. Ele surge segurando um exemplar da obra de Octavio Paz, El laberinto de la soledad (1959), o que revela um recorte do pensamento da época.
A Cidade de M‰xico, com seu duplo humano Ixca Cienfuegos, ‰ a grande
protagonista; a personagem traduz o universo m„tico pr‰-hispŽnico latente, uma vez
que percorre as diversas classes sociais mexicanas em busca de uma v„tima
espontŽnea para participar de um sacrif„cio ritual asteca, pois dessa forma a gl†ria
do passado mexicano seria restaurada. O romance prop•e uma visƒo fragmentada
da realidade e as refer•ncias espaciais se desdobram em refer•ncias temporais.
Cada parte da cidade descrita revela um espa‚o concreto que, ao mesmo tempo,
significa um tempo m•ltiplo. Alguns destes espa‚os sƒo apontados como
possibilidades de ac•mulo de tempos diversos, da mesma forma que em Terra Nostra.
A narrativa de La región más transparente reflete o conflito entre as
diferentes concep‚•es de tempo; e a forma de construir esse per„odo da Hist†ria do
M‰xico centra-se na conflu•ncia dos diferentes registros das tradi‚•es intelectuais e
da oralidade expl„cita. Fragmentando as unidades temporais impl„citas no espa‚o da
cidade, ambiciona a percep‚ƒo de um todo multitemporal. Ao expor a constru‚ƒo
filos†fica, representada pela personagem Zamacoma, junto € constru‚ƒo m‹gica de
Ixca Cienfuegos, al‰m de explicitar a brutalidade cotidiana, questiona, como em Terra Nostra, o real e a constru‚ƒo das poss„veis verdades impl„citas no discurso
hist†rico. A conflu•ncia de tempo linear e de tempo m„tico se evidencia na
simultaneidade sugerida pelos espa‚os da narrativa, como a pra‚a central que
cumpre o papel de reunir as vozes apagadas pela hist†ria. Revela-se a inten‚ƒo de
assinalar os tempos mexicanos, tempos que ainda nƒo se realizaram como reafirma nos ensaios de Nuevo tiempo mexicano(1971).
La muerte de Artemio Cruz (1962) analisa a psicologia de um membro
representativo da oligarquia, fruto do processo revolucion‹rio. O romance relata
epis†dios da revolu‚ƒo de 1910, que nƒo teriam resolvido as injusti‚as seculares da
na‚ƒo mexicana. Na sociedade burguesa mexicana da ‰poca da Revolu‚ƒo, surge
Artemio Cruz, um sujeito pobre, mesti‚o, que entra na Revolu‚ƒo levado pela
fatalidade e algum idealismo. Acaba desiludido e se casa com a filha de um antigo
latifundi‹rio, consegue poder econ‘mico e pol„tico e participa da “venda do pa„s” ao
imperialismo ianque. As sequ•ncias narrativas sƒo apresentadas pelos pronomes
“eu”, refer•ncia ao tempo presente de Artemio Cruz prostrado e agonizante no seu
narra a hist†ria da personagem sem respeitar qualquer cronologia e o “ele”, que
surge como nivelamento l†gico que permite seguir a hist†ria pessoal de Artemio
Cruz. Essa figura representa a classe dominante mexicana, que mesmo
reconhecendo sua tradi‚ƒo revolucion‹ria, entrega o pa„s aos poderes estrangeiros
e reprime os que nƒo aceitam esse modelo de domina‚ƒo.
A hist†ria do M‰xico perpassa a trajet†ria de Artemio Cruz, o romance
interpreta os fatos constitutivos do ser mexicano; pela fragmenta‚ƒo temporal a
narrativa imprime o car‹ter inovador € obra que relata grandes momentos da hist†ria
do seu pa„s. Os diferentes pontos de vista e possibilidades de contar a hist†ria,
assim como fluxos narrativos interrompidos, prenunciam a fragmenta‚ƒo proposta
em Terra Nostra, dessa vez, como em Artemio Cruz, nƒo se trata da vida de um
indiv„duo refletida em um pa„s, e sim de tempos, de espa‚os e de narrativas
diversas que se fragmentam e, ao mesmo tempo, fundam um espa‚o-tempo
particular, simb†lico pela necessidade de construir e perceber o real como
substŽncia de questionamento.
Em Aura(1962) se superp•em a hist†ria e a fic‚ƒo quando o protagonista, um
historiador de profissƒo, recebe o encargo de escrever a biografia de um antigo
general mexicano. A trama reflete sobre os enganosos mecanismos da mem†ria, e a
dificuldades de reconstruir a personalidade individual em um mundo em que a
identidade est‹ permanentemente exposta ao desdobramento e a dispersƒo. O
tempo se multiplica, ou se fragmenta no momento presente como neste romance. A
formula‚ƒo est‰tica que se constr†i mediante a profusƒo de vozes de diferentes
tempos remete aos tempos hist†ricos mexicanos que se encadeiam sem
cumprirem-se efetivamente. Parece que este fato leva ao escritor a enfocar em algumas de
suas obras, que recortam a Hist†ria mexicana, momentos hist†ricos cl‹ssicos de
ruptura e reconstru‚ƒo do imagin‹rio, ou seja, da Conquista e da Revolu‚ƒo.
Esses momentos exemplificam os presentes cont„nuos que resgatam os
para„sos subvertidos, refletem a capacidade imanente das rupturas na medida em
que revelam a transcend•ncia impl„cita aos limites da resist•ncia. Essa capacidade
de perceber a constru‚ƒo da narrativa hist†rica como uma ordena‚ƒo linear dos
fatos, permite a fragmenta‚ƒo nos diferentes paradigmas significativos permitidos € obra liter‹ria. A mesma problem‹tica reaparece em Cambio de piel (1975), quando
de palco para a aventura existencialista das personagens. A obra contempla o
passado como pluridimensional, reinterpret‹vel, aberto e ainda vivo no mundo
contemporŽneo.
Em Gringo Viejo (1985), o sentimento de solidƒo e os ideais da revolu‚ƒo
marcam as figuras do general Arroyo e Harriet Winslow, uma mulher sem filhos que
vai ao M‰xico para ser professora na casa de uma fam„lia de fazendeiros mexicanos
e termina incorporando-se ao grupo de revolucion‹rios comandado por Arroyo. A
personagem hist†rico-fict„cia Ambroise Bierce, o gringo viejo, assim como Harriet e o
general Arroyo estabelecem uma grande met‹fora das conflu•ncias temporais entre
o passado e o presente, que disputam as fronteiras interiores de cada um. O tempo
ao qual estƒo submetidas as personagens ‰ o tempo da ruptura, do desequil„brio e
do caos instaurado nas usurpa‚•es de poder. Enquanto fato hist†rico, a Revolu‚ƒo
invade o limite temporal interior de cada personagem e permite a cada uma delas
viver suas trajet†rias e questionar os direcionamentos de suas vidas.
O universo pr‰-hispŽnico reaparece em Cristóbal Nonato (1987). Trata-se de
uma obra de propor‚•es ‰picas, com personagens representativas das diferentes
camadas sociais que transformam a Cidade de M‰xico do s‰culo XX em
protagonista e amalgamador da realidade nacional e em palco prop„cio para que os
mitos pr‰-hispŽnicos manifestem a sua presen‚a apocal„ptica, par†dica e grotesca.
O protagonista, um embriƒo em processo de gesta‚ƒo, reflexiona ironicamente
sobre o processo de reda‚ƒo do romance enquanto dialoga com o leitor.
O discurso auto-reflexivo das personagens criadas por Carlos Fuentes desafia
a cren‚a de que as manifesta‚•es hist†ricas sƒo objetivas, neutras ou imparciais.
Por meio de um narrador autoconsciente em primeira pessoa, Carlos Fuentes
ridiculariza o conceito tradicional da hist†ria utilit‹ria que corresponde a estruturas
totalizantes. Contempla a constru‚ƒo dos estados-na‚ƒo nos mesmos termos que a
produ‚ƒo dos romances: “ambos sƒo atos de fabula‚ƒo que buscam sua
legitimidade em um passado suscept„vel de manipula‚ƒo” (1978, p.13).
A mesma preocupa‚ƒo acontece em El tuerto es rey (1970) e Todos los gatos son pardos (1970) quando se discutem alguns dos problemas hist†ricos de
Hispano-Am‰rica desde perspectivas diferentes. Temas como o Descobrimento e a Conquista da Nova Espanha geram a cr„tica ao poder e € autoridade. De Todos los
e revistos em Terra Nostra: o tempo da conquista, o encontro e as consequências desse encontro são o alvo constante nas reflexões da obra. Escrita para o teatro, a peça revela a sua inquietude sobre a complexidade de teorias acerca da formação cultural mexicana, teorias discutidas entre os anos quarenta e cinquenta no México pelos críticos Alfonso Reyes, José Vasconcelos e Octavio Paz.
Carlos Fuentes constrói literalmente o momento da conquista do México, destacando como protagonistas as figuras de Moctezuma e a sua corte, Hernán Cortés e sua expedição e, num coro de vozes, algumas das personagens míticas da cultura asteca. O momento histórico surge amplamente documentado com seus referenciais míticos e históricos correspondentes para fomentar o diálogo entre dois discursos imaginários; a memória é o resultado da leitura dos cronistas e dos historiadores, tanto índios como espanhóis. No prólogo dessa peça escreve:
(...) é ao mesmo tempo uma memória pessoal e histórica, já que indagar sobre as nossas origens comuns para entender a nossa existência presente requer ambas as memórias no México, o único país que eu conheço, além da Espanha e dos do mundo eslavo, não em vão excêntrico como nós, onde se perguntar Quem sou eu? Quem é o meu pai e quem é minha mãe, equivale a perguntar-se, Quem significa toda esta nossa história? (1970, p.9).
O diálogo imaginário entre o tempo atual com os cronistas, Moctezuma e Hernán Cortés, gera a memória circular. O passado histórico se recompõe ao refletir o tempo presente; o diálogo com as figuras históricas provoca o confronto entre mito e realidade questionando a ideia de verdade na construção da narrativa histórica linear. Nessa versão, a construção da História da Conquista é antes de tudo, uma interpretação antropológica do ser mexicano, em primeiro lugar, e das origens históricas e míticas do latino-americano.
fim das campa“as e o governo Rivadavia. Mais do que um recorte hist†rico, a
narrativa recorta os ideais de um tempo libert‹rio.
Os ideais incorporados pela personagem Baltazar Bustos, que proclama a
liberdade, igualdade e fraternidade como cr„tica € pr‹tica de incorporar modelos de
governo importados da Europa € realidade da Am‰rica Latina, surgem no momento
de ruptura na constru‚ƒo do imagin‹rio e dos referenciais europeus, momento que
se produz pela conflu•ncia de vozes e de tempos que se interrelacionam para
catalisar os imagin‹rios inerentes €s popula‚•es americanas.
Diz Raymond L. Williams que “tais obras constituem a continua‚ƒo dos temas
de Terra Nostra: a origem das culturas e da hist†ria da Am‰rica. La campanha
refere a hist†ria de Am‰rica desde que o Cone Sul alcan‚ou sua independ•ncia e
pode ser lida como uma par†dia do romance hist†rico do s‰culo XIX” (1998, p.71). O interesse pelo tema da Conquista da Am‰rica se reitera em Ceremonias del Alba
(1991) quando explora o passado no espa‚o dial†gico entre o tempo m„tico e o
tempo linear, para “dar uma voz aos sil•ncios da nossa hist†ria” (1978, p.13).
Nos ensaios La nueva novela hispanoamericana (1989), Cervantes o la crítica de la lectura (1976), Valiente mundo nuevo (1992) e Geografía de la novela (1993), Carlos Fuentes enuncia algumas das ideias mais importantes sobre
a sua concep‚ƒo de romance, “nƒo ‰ a hist†ria de todo romance uma evoca‚ƒo da
hist†ria mais do que uma correspond•ncia com a hist†ria? Este compromisso do
romance – realidade imaginativa, narra‚ƒo da na‚ƒo da sociedade e da sua cultura,
compromisso de inventar verbalmente a segunda hist†ria sem a qual a primeira ‰
ileg„vel” (1993, p.26). Considera que o mesmo corresponde € Modernidade e afirma,
“o romance ‰ fruto do pensamento moderno” (1993, p.28).
Para formar o embasamento te†rico sobre o romance, como g•nero liter‹rio,
Carlos Fuentes contrasta as express•es liter‹rias da Idade Antiga frente €s
express•es liter‹rias da Idade Moderna. A primeira grande divisƒo encontra-se nas
formas, “enquanto que as primeiras demonstra‚•es liter‹rias eram eminentemente
l„ricas, ‰picas e dram‹ticas; na Modernidade, o romance ocupa um lugar priorit‹rio”
(1989, p.16). Afirma que “O romance ‰ a ‰pica de uma sociedade em luta consigo
mesma. A literatura potencial e conflituosa do nosso tempo tenta proporcionar-nos a
parte nƒo escrita e nƒo lida do mundo (...) as grandes obras do passado sƒo parte
tenham sido escritas no passado, foram escritas para ser lidas no presente” (1993,
p.30).
Defende a inven‚ƒo de uma nova forma de linguagem que libere € literatura
hispano-americana dos limites da representa‚ƒo documental e naturalista. Essa
tend•ncia documental teria a sua origem na necessidade de registrar e de avaliar as
tens•es num continente em busca da sua identidade, mas carente dos meios de
expressƒo necess‹rios para represent‹-la. A aus•ncia de ve„culos democr‹ticos de
comunica‚ƒo ou de uma classe intelectual emancipada teria obrigado o romancista a
exercer o papel de rep†rter revolucion‹rio e de pensador legislador.
Com o romance da revolu‚ƒo, fruto da revisƒo da hist†ria, representado pelo
escritor Juan Rulfo, teria se produzido uma mudan‚a de enormes consequ•ncias
para a hist†ria liter‹ria hispano-americana, como a introdu‚ƒo da ambiguidade
necess‹ria para a representa‚ƒo do mundo moderno e a articula‚ƒo entre a
tem‹tica da revolu‚ƒo e os grandes mitos universais. “Trata-se, segundo o autor, do
conceito de literatura dissidente, que se op•e €s formas monol„ticas do poder da
linguagem, da ambiguidade de significados, da pluralidade de significados, da
constela‚ƒo de ideias, da abertura” (1976, p. 32).
Seus ensaios desenvolvem uma base sociohist†rica que permitem compreender uma das afirma‚•es contidas na narrativa de Terra Nostra, “toda essa
carga policultural que chega a Am‰rica trazida pelos conquistadores” (1992, p.46).
Na constante busca pela antropog•nese latino-americana, reflete sobre a hist†ria, a
sociedade e a literatura espanhola do per„odo de 1492 a 1615. A partir de distintos
Žngulos e perspectivas, busca nas origens as ra„zes que corresponderiam € cultura
da Pen„nsula Ib‰rica que miscigenada € cultura dos povos pr‰-colombianos
resultaria no que hoje se entende como idiossincrasia latino-americana. Inquieto por
desentranhar este tema, apresenta desde seus primeiros modelos narrativos uma via a ser percorrida em Terra Nostra.
O conflito constitui o mote central que desenvolve em El Espejo Enterrado
(1992), cujo t„tulo procede do costume dos „ndios olmecas e totonacas de enterrar
seus mortos com um espelho que serviria de guia durante a longa viagem ao
inframundo. Carlos Fuentes comenta que o t„tulo tamb‰m faz refer•ncia € obra de
Ram†n Xirau L´Espil Soterrat, um espelho que olha desde a Am‰rica para o
Os conquistadores espanh†is, franceses e norte-americanos t•m entrado ao M‰xico atreves de Veracruz. Mas as mais antigas culturas, os olmecas ao sul do porto, desde h‹ 3500 anos, e os totonacas ao norte, com uma antiguidade de 1500 anos, tamb‰m t•m suas ra„zes aqui. Nas tumbas de seus s„tios religiosos tem-se encontrado espelhos enterrados, cujo prop†sito era guiar os mortos em sua viagem ao inframundo. C‘ncavos, opacos, polidos, contendo uma centelha da luz nascida em meio € escuridƒo. Mas o espelho enterrado nƒo forma parte apenas da imagina‚ƒo ind„gena americana. O poeta mexicano-catalƒo Ram†n Xirau intitulou um de seus livros L´Espil Soterrat -O espelho enterrado -, recuperando uma antiga tradi‚ƒo mediterrŽnea nƒo muito longe das dos antigos habitantes ind„genas das Am‰ricas. Um espelho que olha das Am‰ricas para o MediterrŽneo, e do MediterrŽneo €s Am‰ricas. Este ‰ o sentido e o ritmo deste livro. (1992, p. 11-12).
Reflete a rela‚ƒo do Novo Mundo com a Espanha e reconsidera temas centrais tratados em Terra Nostra. A Espanha desenhada ‰ multicultural, as ra„zes culturais
judeu-cristƒs, ‹rabes, gregas, latinas, cartagineses, g†ticas e ciganas sƒo
reconhec„veis ao longo de toda a Pen„nsula Ib‰rica. No s‰culo XVI, a Espanha
policultural se encontra com o Novo Mundo tamb‰m enriquecido pela cultura dos
povos pr‰-colombianos. A cren‚a nas distintas alternativas e valores culturais se
constituem em abundante material e eixo central para a reescrita do universo
hispŽnico que, enriquecido pela inclusƒo do material pr‰-hispŽnico, gera a utopia e a
inven‚ƒo da Am‰rica na obra.
passo para a idade dourada. Mas logo, pelos seus pr†prios atos, o para„so terreno foi destru„do e os bons selvagens foram percebidos como “bons para trabalhar a terra, semear e fazer tudo o que for mandado”. Desde entƒo, o continente americano tem vivido entre o sonho e a realidade, tem vivido o div†rcio entre a boa sociedade que desejamos e a sociedade imperfeita em que realmente vivemos. Temos persistido na esperan‚a ut†pica porque fomos fundados pela utopia, porque a mem†ria da sociedade feliz est‹ na origem da Am‰rica, e tamb‰m no fim do caminho, como meta e realiza‚ƒo das nossas esperan‚as. (1992, p.9,10).
A cole‚ƒo de ensaios Tiempo mexicano (1971) ‰ a primeira exposi‚ƒo
detalhada da sua utopia social. Em seus escritos analisa a sociedade mexicana em
uma ampla perspectiva hist†rica; o autor se mostra interessado na conflu•ncia das
tr•s grandes concep‚•es do tempo, na realidade presente do seu pa„s: a visƒo
m„tica e circular do passado pr‰-hispŽnico, a concep‚ƒo teol†gica e lineal da cultura
europeia e as formas h„bridas surgidas como consequ•ncia da mesti‚agem. Para o
autor, toda tend•ncia documental se origina na necessidade de registrar e de avaliar
as tens•es de um continente € procura da sua identidade, mas que carece dos
meios de expressƒo necess‹rios para represent‹-la.
Explica que a ideia de “conhecer a Espanha para que o M‰xico possa
reconhecer-se a si mesmo” tem sua correspond•ncia no reconhecimento
ibero-americano por parte da Espanha, o que se traduz no seu pr†prio autoconhecimento.
A reflexƒo acrescenta a ideia de que a l„ngua espanhola ‰ a chave dessa integra‚ƒo
entre a Espanha e a Am‰rica, pois do mesmo modo que a hist†ria e a literatura, as
ra„zes liter‹rias compartidas, nƒo sƒo um patrim‘nio exclusivo da Espanha, e sim
riqueza cultural compartida e constru„da por todas as na‚•es dos falantes da mesma
l„ngua. “a l„ngua sempre foi companheira do imp‰rio, e consequentemente, para
subverter as for‚as opressoras que legitimam a hegemonia das classes privilegiadas, deve-se come‚ar pela linguagem” (Cristóbal Nonato, p. 97).
verbais: impuras, barrocas, conflitivas, sincr‰ticas, policulturais. (1993, p. 22).
Ao longo das p‹ginas de Terra Nostra, Carlos Fuentes discute sua tese que se
reafirma em seus in•meros escritos e entrevistas: “Vivemos hoje. Amanhƒ teremos
uma imagem do que foi o presente. Nƒo podemos ignorar isto, como nƒo podemos
ignorar que o passado foi vivido, que a origem do passado ‰ o presente, o passado
nƒo est‹ conclu„do; o passado tem que ser reinventado a cada momento para que
nƒo se fossilize entre as mƒos” (1992, p.17). Essas ideias sobre a multiplicidade de
culturas do sujeito hispano-americano tƒo presentes na interpreta‚ƒo da Hist†ria da
Am‰rica, relacionadas € preocupa‚ƒo por compreender o contexto cultural ib‰rico, motivaram a escolha do romance Terra Nostrapara este estudo.
Obra que exige um estudo pr‰vio a respeito das culturas ib‰ricas e americanas,
correspondente ao per„odo hist†rico dos s‰culos XVI e XVII, e dos mitos
mesoamericanos. Carlos Fuentes argumenta que “o presente chama de hist†rico
tudo quanto tem um lugar no passado. Mas somente aquilo, que mant‰m um sentido
para o nosso presente, tem um lugar no passado” (1992, p.31). Para interpretar o
passado, a intertextualidade ‰ um instrumento chave que institui o di‹logo
multicultural e politemporal entre o universo da cultura pr‰-hispŽnica e a espanhola
desses s‰culos. O tr„ptico liter‹rio em an‹lise perpassa as concep‚•es de Carlos
Fuentes relacionadas ao movimento incessante entre o presente e o passado.
PRIMEIRA PARTE
El tiempo se vierte, indiferente a nosotros, nos defendemos de él invirtiéndolo, reinvirtiéndolo, divirtiéndolo, subvirtiéndolo, convirtiéndolo: la reversión pura es atributo del tiempo puro, sin hombres; la reversión y la conversión son respuesta humana, módulo del tiempo, corrupción de su limpia y fatal indiferencia. Escribir es combatir el tiempo a destiempo: a la intemperie cuando llueve, en un sótano cuando brilla el sol. Escribir es un contratiempo.
Geografía de la Novela
Escribe, Guzmán, escribe, lo escrito permanece, lo escrito es verdad en si porque no se le puede someter a la prueba de la verdad ni a comprobación alguna, ésa es la realidad plena de lo escrito, su realidad de papel, plena y única.
I
A CARNAVALIZAÇÃO DA HISTÓRIA EM O VELHO MUNDO
(...) como nƒo ver nestas profecias da antiga cria‚ƒo mexicana um espelho para o nosso pr†prio tempo, para nossa obstinada diverg•ncia entre a promessa da vida e a certeza da morte, entre a avan‚ada consci•ncia humanista, cient„fica, verbaliz‹vel, ‰tica, e a fatal inconsci•ncia pol„tica da destrui‚ƒo, do sil•ncio e da morte.
Carlos FuentesNuevo tiempo mexicano
O cr„tico liter‹rio Santiago Juan Navarro em seu ensaio Entre el revisionismo histórico y la literatura de resistencia (1995) comenta que a tend•ncia revisionista
da fic‚ƒo hist†rica p†s-modernista se constitui em um “p†s-modernismo de
resist•ncia”. E acrescenta que, frente as estrat‰gias do simulacro que dominam a
sociedade de consumo e o elitismo da cultura institucional, autores como Carlos
Fuentes apresentam em suas obras uma dinŽmica de enfrentamento cultural em que
as estrat‰gias de representa‚ƒo hegem‘nicas sƒo inscritas, e ao mesmo tempo
subvertidas, ao propor uma profunda reflexƒo sobre a hist†ria e sobre a forma
textual em que ‰ transmitida e recriada.
contradizem o poder monológico das representações convencionais e comunicam uma impressão polifônica. Esta apertura formal é expressão de uma ideologia que celebra a pluralidade como um valor supremo e se opõe aos sistemas culturais vigentes. No lugar do elitismo, as proporções monológicas, e a centralização que caracterizam à cultura institucionalizada, Fuentes propõe uma ideologia baseada na diferença que celebra o papel dos grupos marginalizados e as culturas locais. (...) obras como Terra Nostraou
Cien años de soledadpodem descrever-se como romances à busca de uma síntese utópica das culturas de Hispano-América. Esta inclinação totalizadora adota matizes pós-modernistas pela sua condição ambígua, fragmentária e plural. (...) em algumas ocasiões é explicitamente parodiada como ocorre em Terra Nostra com a metáfora de El Escorial. (...) Ademais do seu interesse na materialidade dos elementos narrativos e a sua relação com os outros universos discursivos, estas obras tratam com igual (ou superior) profundidade questões de ordem epistemológica e político. Qual é a natureza do passado e de suas consequências? Como se produz o nosso conhecimento do passado? Como se transmite dito conhecimento? Como se sanciona uma versão particular da história? Como podemos produzir versões alternativas e como podem ser consideradas politicamente efetivas? Estas são questões que vão além de uma mera exploração ontológica do universo textual no âmbito especifico do pós-modernismo. (Navarro, 1995, p.196-197).
Escrita entre 1968 e 1975, ano em que foi publicada, Terra Nostra representa uma época em que a Espanha e a maior parte dos países da América Latina vivem a repressão de regimes totalitários. Santiago Juan Navarro observa que Carlos Fuentes busca em seu romance uma chave que permita explicar a conjuntura histórica do mundo hispânico da segunda metade do século XX. Ao longo da revisão histórica registrada na obra, tenta diagnosticar o labirinto político hispânico desse período aludindo às manifestações fascistas e à agonia de Francisco Franco na Espanha, o terrorismo de Estado praticado no Chile, Argentina, Uruguai, Bolívia, Peru, Guatemala e Republica Dominicana; a corrupção e monopólio do poder no México e ao caudilhismo e à dependência político-econômica de toda a região do Caribe em relação aos Estados Unidos da América. Comenta que o escritor mexicano reescreve grande parte da história ocidental, centrando sua atenção na alvorada da Idade Média e no enfrentamento cultural entre a Espanha imperial e o México pré-hispânico.
surpreendente do romance ‰ o uso de uma hist†ria ap†crifa que acaba por desalojar a versƒo herdada das cr‘nicas oficiais. Em Terra
Nostra a hist†ria tradicional de cronologias exatas – sucess•es din‹sticas, grandes fa‚anhas e empresas ‰picas – cede lugar a um aparente caos de personagens e de vozes narrativas em que ‰ dif„cil estabelecer a agencia hist†rica. O resultado ‰ uma versƒo alternativa do passado onde os elementos fant‹sticos, €s vezes, parecem verdadeiros. A sensa‚ƒo de caos que podemos experimentar durante os primeiros momentos da leitura, progressivamente, cede lugar € impressƒo contr‹ria: tudo no romance parece responder a um grande desenho em que o leitor ‰ convidado a estabelecer conex•es entre os elementos mais dispersos.
(Navarro. 2002, p.50).
A obra est‹ dividida em tr•s grandes partes: O Velho Mundo, O Mundo Novoe
O Outro Mundo. Emoldurada pela palavra que legitima e amalgama a tem‹tica
hist†rico-liter‹ria dos tr•s mundos de Terra Nostra, a tese estabelece a rela‚ƒo
tr„ptica entre os mundos estruturados como um tr„ptico liter‹rio organizando seus epis†dios cronologicamente. Trata-se de in•meros fragmentos que no romance sƒo
apresentados como uma sucessƒo de flashbacks, por meio de narrativas
entrecortadas, em conex•es sugeridas pela obra que se estabelecem sutilmente. A
f‹bula do Descobrimento, da Conquista e da Coloniza‚ƒo das terras da Nova
Espanha forma o eixo condutor no processo narrativo do romance, que mesclando
ingredientes ind„genas e europeus amalgama os sujeitos, os discursos e as
representa‚•es para emoldurar o encontro-confronto dos tr•s mundos num duelo de
vers•es narrativas. Os motivos b‹sicos que determinam os cen‹rios sƒo o Imp‰rio
romano de Tib‰rio C‰sar, a Espanha do s‰culo XVI e XVII, a Am‰rica do
Descobrimento-Conquista e a cidade escatol†gica da Paris de 1999.
Terra Nostra (1975), consta de setecentas e oitenta e tr•s paginas, cento e
quarenta e quatro segmentos narrativos divididos formalmente nas tr•s partes da
obra. O relato se inicia e termina no mesmo lugar geogr‹fico, na cidade de Paris de
1999, primeiro e •ltimo epis†dio. Os cento e quarenta e dois epis†dios restantes
acontecem na Espanha do s‰culo XVI e XVII e em suas ‹reas de influ•ncia na
Am‰rica e no MediterrŽneo.
A obra se traduz pelo complexo jogo entre a Hist†ria linear e a oficiosa,
elaborada por Carlos Fuentes mediante as lacunas deixadas pela primeira. No plano
metodol†gico proposto para este estudo, as partes do tr„ptico foram divididas