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Saúde debate vol.39 número104

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Academic year: 2018

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SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 39, N. 104, P. 288-289, JAN-MAR 2015

288

CARVALHO, G. C. M.

Participação da

comunidade na saúde.

Campinas: Saberes, 2014.

Maria Célia Delduque1, José Agenor Álvares Silva2

1 Fundação Oswaldo Cruz

(Fiocruz) – Brasília (DF), Brasil.

[email protected]

2 Fundação Oswaldo Cruz

(Fiocruz) – Brasília (DF), Brasil.

[email protected]

RESENHA | CRITICAL REVIEW

DOI: 10.5935/0103-1104.20151040087

A segunda edição do clássico livro de Gilson Carvalho, ‘Participação da comunidade na saúde’, foi lançada em 2014, logo após sua triste despedida. Em um momento no qual a participação democrática perde importância no âmbito do SUS e “a ética na vida social parece estar saindo pela porta dos fundos, exigindo mais ativismo social e cívico”

(SANTOS, 2014, P. 13), o lançamento dessa segunda

edição, pela Editora Saberes, representa um sopro de esperança para esta atividade, que é um dos mais importantes alicerces consti-tucionais para o Sistema Único de Saúde: a participação.

Gilson Carvalho, um sanitarista-poeta ou poeta-sanitarista, consegue fazer do seu livro uma lição de vida e esperança. Inicia convencendo que todo aquele que desempe-nha a função de ajudar os outros a ter saúde, em verdade, é provedor de gente feliz.

Reforça que a participação é tão natural quanto necessária, posto que o coletivo sempre esteve presente em sua vida, seja na numerosa família, na grande vizinhança integrada (na rua, da cidade do interior), no colégio interno, desde os nove anos, na repú-blica de estudantes. Foi escoteiro, participou de movimentos religiosos, lutas políticas e, especialmente, lutas pela saúde. Foi no cole-tivo que se forjou gente.

Lamenta que, a partir de 1990, tenha havido uma diminuição da importância da participação na saúde, que se apresentava

crescente em décadas anteriores, e se per-gunta onde está a chama daqueles que antes estavam engajados, dada a dificuldade de trazer para a participação novos companhei-ros. Reflete o poeta-sanitarista que, quiçá, é pela deformação do termo ‘controle social’ (sequer referido na Constituição de 1988) que acabou a essência da participação do cidadão. Defende que a tríade da participa-ção da comunidade: aparticipa-ção, proposiparticipa-ção e con-trole, não deve ser distorcida ao se referir, exclusivamente, ao controle social, porque é mais que controle, é engajamento para a ação, é desafio para a proposição.

No que se refere à paridade na composi-ção dos conselhos, Gilson Carvalho é categó-rico: “a paridade foi colocada como essência e destacada num parágrafo: paridade entre o segmento dos usuários e o conjunto dos demais segmentos” (P. 65). Defende que a

pa-ridade não pode ser jamais quebrada e que é ilegal indicar um servidor público para ocupar assento no conselho como usuário dos serviços de saúde. Tal fato quebra física e filosoficamente a paridade exigida na Lei n.º 8142/90, retardando o processo de demo-cratização na área da saúde.

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SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 39, N. 104, P. 288-289, JAN-MAR 2015

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ferir o princípio da independência entre os poderes. Tampouco as listas tríplices ou sêx-tuplas para que o prefeito escolha os conse-lheiros é legal, visto que a indicação deve ser sempre dos pares. A discussão sobre saúde nos conselhos, portanto, transcende a esfera executiva de governo, para abarcar, também, outras instâncias governamentais.

As decisões dessas instâncias participa-tivas, seja em sede de conselho ou em con-ferência de saúde, deixaram registrado o saudoso sanitarista. Elas devem, sempre, passar por um crivo legal antes da imple-mentação, a fim de assegurar-lhes a legalida-de e a juridicidalegalida-de, porque, muitas vezes, a decisão não é implementada por se tratar de ato ilegal.

Quando discute as decisões das confe-rências, Gilson Carvalho se esmera. Com postura crítica e incomum inteligência, discute sobre a soberania das assembleias, que não pode ser absoluta, pois há regras maiores no País que devem ser observadas, e que alterações no regimento interno das conferências, sendo legais, só podem entrar em vigor na conferência seguinte. O direito em vigência é soberano e imutável, até que o conselho que convocar a conferência seguin-te reconheça o novo direito, na nova regra, que regerá a nova assembleia.

E sobre os horários de exposição e fun-cionamento dos grupos durante as conferên-cias, o nobre poeta da saúde é enfático:

Temos que aprender e ensinar que os horá-rios democraticamente estabelecidos devem ser despoticamente cumpridos... porque inúmeros finais de conferências madrugada a fora, dominados, muitas vezes, por peque-nos grupos presentes, têm sido um ato dura-mente antidemocrático que alguns pensam legitimar cantando de mãos dadas o Hino Nacional. (P. 102).

Muitas vezes, porém, alguns ficam até tarde por responsabilidade e compromisso com a causa.

Encerra sua obra com um tema muito caro: a educação permanente para a parti-cipação. Para Gilson Carvalho, a ferramenta da educação é essencial para a mudança dos condicionantes e determinantes do estado de saúde e da qualidade de vida das pessoas. Deixa em seu livro, registrada para as futuras gerações, a Lei dos 5, como a única saída para a garantia de saúde no Brasil: educação, edu-cação, eduedu-cação, educação e educação.

O grande médico, o sanitarista, o poeta, o pensador, o radical defensor da participação cidadã viveu o suficiente para ver o exemplo da participação da saúde se espraiar por toda a Administração Federal, pelo Decreto n.º 8.243, de 23 de maio de 2014, que criou a Política Nacional de Participação Social e o Sistema Nacional de Participação Social.

AbraSUS, Gilson! s

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