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Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 15, n. 31, p. 346-349, jan./jun. 2009
Rafael Henrique Teixeira
INGOLD, Tim. Lines: a brief history. London: Routledge, 2007. 188 p.
Rafael Henrique Teixeira*
Universidade Federal de São Carlos – Brasil
A leitura de Lines: a brief history traz em seu bojo a necessidade de um esforço de descentramento. Recorrendo a modos de agir e pensar os mais distantes e variados, é acima de tudo a alguns de nossos hábitos e concepções mais arraigados que Tim Ingold se dirige.
O livro se inicia com uma questão que anuncia a amplitude da temática abordada. “O que caminhar, tecer, observar, cantar, contar uma história, dese-nhar e escrever tem em comum? A resposta é que procedem ao longo de linhas de um tipo ou outro” (p. 1).1 O objetivo de Ingold é o estabelecimento de uma história das linhas, na medida em que o ato de fabricá-las subsumiria todos os aspectos da vida cotidiana: “a vida […] não é confi nada no interior de pontos, procede ao longo de linhas” (p. 104).
No entanto, foi exatamente na contramão desse imperativo da atividade humana e não-humana – da atividade vital de modo geral – que se deram as transformações de que o livro trata.
A linha, no curso da história, foi fragmentada em relação ao movimento contínuo que lhe dá origem, seja esse qual for: um gesto, o trajeto de um via-jante, ou a evolução da vida. Ela passa a existir somente enquanto um canal de pontos conectados, composição que possibilita, num processo que vai da ge-ometria euclidiana à arquitetura renascentista, que a linha se torne reta. “Nas sociedades ocidentais, linhas retas são onipresentes […] ícone virtual da mo-dernidade, índice do triunfo do racional e de um projeto intencional sobre as vicissitudes da natureza” (p. 152). Não menos importante ao desenvolvimento da exposição do que a constatação da generalidade das linhas e da natureza das transformações pelas quais passou, é a impossibilidade de separar uma
* Doutorando em Antropologia Social.
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história das linhas das transformações correlatas pelas quais passou a relação entre linhas e superfícies.
Com esses objetivos em mente, Ingold leva adiante sua investigação, recorrendo a uma miríade de temáticas e paisagens etnográfi cas “ocidentais” e “não-ocidentais”, bem como a um grande número de elementos visuais que se prestam à argumentação.
Começando pela escrita, Ingold mostra que a leitura, da Antiguidade Grega à Idade Média, voltada a um texto que repousava sobre o desenho de linhas, consistia em seguir um gesto deixado pela mão. No entanto, com o sur-gimento das modernas tecnologias de impressão, não há mais traços a seguir na página impressa. “O olho do leitor observa a página […] mas não a habita” (p. 29). Contemplando a página, ele agrupa os fragmentos, letras em palavras, palavras em frases, frases em uma composição completa. Elementos reunidos de modo a formar um traçado, mas cujas linhas resultantes são conectoras. Portanto, “não é a própria escrita que faz a diferença. É mais o que acontece com ela quando a linha da letra que fl ui do manuscrito é substituída pelas li-nhas que conectam um plano pré-composto” (p. 91).
Transformação correlata teria ocorrido nos modos de habitar a superfície do mundo. A vida é vivida ao longo de trajetórias, e trajetórias dão origem a linhas. Contudo, a prática do transporte converte cada linha de movimento num equivalente de uma linha ponteada. Para o viajante, as paradas que ligam destinos sucessivos não são traços de movimento, mas conectores de ponto a ponto. “Ir ao longo de, contudo, é tecer um caminho através do mundo mais do que dirigir-se de ponto a ponto através da superfície” (p. 79).
Afi rmações aparentemente inocentes, não fosse o fato de que o “trans-porte é distinguido não pelo emprego de meios mecânicos, mas pela dissolu-ção da íntima ligadissolu-ção que, na caminhada, liga locomodissolu-ção e percepdissolu-ção” (p. 78). O viajante transportado se torna um passageiro, não se move, é movido de um lugar a outro. Ele é dissociado do processo de autoconstituição inerente ao movimento, bem como do ordenamento progressivo da realidade sensitória ao longo do trajeto percorrido. A fragmentação das linhas de movimento resulta num conceito de lugar como o terreno no interior do qual toda a vida seria contida, suprimindo toda experiência incorporada no movimento.
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projeto coincidente com os limites de sua própria existência […] essa concep-ção darwiniana não é absolutamente um processo vital.” (p. 114). A vida, nos moldes concebidos por Ingold, é um tornar-se. Traçando seus caminhos pelo emaranhado do mundo, humanos e não-humanos criam-se e recriam-se a si mesmos na imanência de suas mútuas relações, bem como contribuem com seus movimentos ao envolvente tecido em que se encontram inseridos.
“[…] nosso entendimento da evolução poderia ser irrevogavelmente al-terado. Isso poderia nos levar a uma ilimitada visão do processo evolucioná-rio, e de nossa própria história em seu interior, na qual habitantes, através de suas próprias atividades, continuamente forjam as condições de suas próprias vidas mutuamente” (p. 3). Nessa altura da exposição, Ingold realiza um para-lelo com a teoria antropológica. Se Darwin insere a vida no interior de pontos, antropólogos fariam o mesmo ao desenharem diagramas de parentesco e des-cendência. As linhas do parentesco reúnem e conectam, mas, como no modelo darwiniano, não exprimem a linha da vida.
Dessa maneira, Ingold mostra o modo como o “Ocidente” moderno che-ga ao termo da circunscrição da vida no interior de pontos. As linhas de trans-porte, acima mencionadas, conectam pontos no espaço sobre algum território arbitrariamente delimitado; enquanto linhas de transmissão (como fi guram na biologia darwiniana ou uma sequencia parental ancestral-descendente) conec-tam indivíduos numa sequencia diacrônica.
Em um nível mais geral, a linearidade da linha, resultado último de uma fragmentação que lhe fornece as condições de possibilidade, passa a ser as-sociada com a cultura em detrimento da natureza. “No lugar de uma infi nita variedade de linhas – e vidas – que nos são apresentadas na experiência feno-menal, fomos deixados com apenas duas grandes classes: linhas que são retas e linhas que não são. As primeiras são associadas com a humanidade e a cultura, a segunda com a animalidade e a natureza” (p. 155). Mas, de todas as linhas resultantes das atividades de humanos e de não-humanos, apenas uma minoria delas possui o caráter linear que as imagens do pensamento “ocidental” nos faria supor. A hegemonia das linhas retas é um fenômeno da modernidade, não da vida em geral, tendo, por isso, alguma coisa de fundamentalmente artifi cial quando afi rma sua generalidade.
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Lines
possui tom evolucionista ou teleológico, tampouco reforça distinções cate-góricas entre “Nós” versus “Eles”. As linhas resultantes de nossas próprias práticas cotidianas de habitar o mundo conservam ainda seu aspecto dinâmi-co e ilimitado, poudinâmi-co afeitas que permanecem à fragmentação que hábitos e pensamentos modernos lhe impõem: “[…] como a vida, a linha não tem fi m. E como na vida, o que importa não é o destino fi nal, mas todas as coisas inte-ressantes que ocorrem ao longo do caminho” (p. 170).