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O Mobiliário do Antigo Egipto no Império Novo Análise Material e Simbólica

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O Mobiliário do Antigo Egipto no Império Novo

Análise Material e Simbólica

 

 

 

André Henriques d’Almeida Garrido Patrício

Abril 2014

 

Dissertação

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O Mobiliário do Antigo Egipto no Império Novo

Análise Material e Simbólica

 

 

André Henriques d’Almeida Garrido Patrício

Dissertação

de Mestrado em História – Especialização em Egiptologia

Versão corrigida e melhorada após a sua defesa pública

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Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à

obtenção do grau de Mestre em História – Especialização em Egiptologia,

realizada sob a orientação científica de Professora Doutora Maria Helena

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Em memória da minha sorellina Raquel Patrício e dos meus amados avós, que

reencontrarei no Mundo dos Ocidentais.

Para o Strauss, o meu eterno companheiro!

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AGRADECIMENTOS

À Professora Doutora Maria Helena Trindade Lopes pela sua enorme paciência, pela

sua constante presença e total disponibilidade. Por nunca me ter deixado parar. Acima

de tudo pelo seu génio e pelo seu amor pelo Egipto, que me inspirou mais do que

quaisquer palavras conseguirão alguma vez exprimir.

Ao Professor Doutor José das Candeias Sales pela sua visão do Egipto. Pelo seu

conhecimento enciclopédico de todo o panteão egípcio e por estar sempre disponível

a partilhá-lo.

À Professora Doutora Victoria Asensi Amorós por me ter ajudado mesmo sem fazer

ideia de quem eu era e por gentilmente me ter facultado acesso à sua Dissertação de

Doutoramento, compilação máxima da madeira do antigo Egipto.

À Senhora D. Lurdes Morgado pela sua disponibilidade e explicações dos aspectos

burocráticos. Foi indispensável.

À Susana Mota por nunca ter parado de “me dar na cabeça”, por ter sempre insistido

que a perfeição era essencial. Por me ter lembrado constantemente das etapas que se

seguem e do quão fascinantes são. Pela ajuda da sua incomparável mente sem

paralelo.

À Regina Carvalho pela paciência que sempre teve para as questões existenciais que

surgem nos momentos menos apropriados.

Ao Bernardo Neves por estar presente há tantos anos que se tornaram incontáveis.

Pela sua enorme paciência em atender os meus pedidos de leitura a horas

inadmissíveis e pela sua frase de assinatura “Só não consegues se não queres!”, algo

que sempre muito me irritou mas que me obrigou a nunca parar. Desde o Técnico.

Aos meus pais. À minha mãe por ter sempre acreditado que se eu amava Egiptologia

devia seguir o “meu coração”. Por ter tido sempre a certeza de que eu completaria

este trabalho e continuaria neste campo que sempre me fascinou. Ao meu pai por se

ter apaixonado pelo Egipto quando eu decidi ir para Egiptologia e por a partir desse

dia nunca mais ter parado de me questionar sobre os mais variados assuntos das Duas

Terras. São os dois o exemplo máximo do que força, dignidade e resistência humana

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O Mobiliário do Antigo Egipto no Império Novo

Análise Material e Simbólica

André Henriques d’Almeida Garrido Patrício

A presente dissertação reflecte a compilação de um estudo essencialmente

bibliográfico e iconográfico de doze peças de mobiliário do antigo Egipto, Império

Novo. É primeiramente apresentado um breve estudo sobre materiais usados para a

construção dos diversos objectos produzidos no referido período histórico e

analisados os seus aspectos simbólicos. São também apresentadas sucintamente

algumas técnicas de construção adoptadas durante as dinastias XVIII-XX para a

construção de mobiliário doméstico e ritual. De seguida estes objectos são analisados

material e simbolicamente em dois capítulos tendo como base a investigação

efectuada. Colocam-se ao longo deste trabalho diversas questões, sendo as mais

prementes “se terá havido transferência de mobiliário doméstico para o contexto

funerário” e “Terão tido os espólios funerários mobiliário feito exclusivamente para

esse fim”. As conclusões revelam dados comparativos do universo de peças de

mobiliário recolhidas e apresentam algumas hipóteses explicativas sobre o assunto

abordado.

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1

INTRODUÇÃO

“Os antigos conheciam sete ramos do Nilo: como o Pitão mitológico, o Nilo

mergulhava as suas sete cabeças no mar. [...] A vida do Egipto é o Nilo: sem o Nilo, o Egipto

seria apenas a continuação do Deserto Líbico, até ao Mar Vermelho. Assim, é o país mais

fecundo em que ao homem foi dado semear.”

Eça de Queirós1

Egipto!

A terra dos faraós!

Estes são ainda hoje poderosos constructos inscritos na mente colectiva humana. Estão de tal forma enraizados que usualmente a própria Humanidade não se apercebe das suas presenças. Para muitos, o Egipto traduz-se num local quase mágico e repleto de segredos, num passado distante onde homens que eram considerados deuses reinavam. Para outros será uma realidade que nunca pode ter existido por ser tão surpreendente. Um facto é constante: o fascínio que o Antigo Egipto exerce sobre tantos é, cientificamente, inexplicável.

A civilização faraónica surgiu em cerca de três mil antes de Cristo2 tendo-se mantido viável durante trinta Dinastias3 que se estenderam por mais de dois milénios e meio4. Foi contudo eventualmente forçada a adormecer por um mundo que observava o seu extenso oásis habitado por um povo complexo e antigo com olhares de inveja. Esse mesmo mundo actuou constantemente contra um povo que tinha como uma das suas centrais preocupações a manutenção de maat. O Egipto foi repetidas vezes invadido. Manteve-se sempre numa cerrada batalha pelo controlo do isefético e a sua manutenção fora das suas fronteiras. Todas as grandes civilizações, enfim, acabam por perceber quando é altura de, quase como se de um plano estratégico se tratasse, qual dentes de dragão, enterrar-se na profundeza da terra sobre a qual andou durante milénios. E esperar. Pacientemente esperar que o planeta venha a estar preparado para a voltar a receber. Há pouco mais de um século e meio esse momento

                                                                                                               

1

Queirós, E., O Egipto – Notas de Viagem, 43-44.

2 Dinastia I, Faraó Aha. Cf. Shaw, I. (ed), The Oxford History of The Ancient Egypt, 480.

3 Consideram-se os Períodos Intermediários como mantendo o regime faraónico, independentemente

das alterações políticas internas do Egipto nessas alturas. As trinta dinastias estenderam-se, sensivelmente por cerca 2657 anos, terminando com o início do segundo Período Persa. Cf. Shaw, I. (ed), Ibidem, 480-482.

4 Foi, até aos dias de hoje a única civilização que se estendeu no tempo por um período tão extenso. A

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2

parece ter chegado. A extraordinária história desta civilização começou a ser conhecida e estudada com um cuidado e interesse inesperados. De certa forma, os antigos egípcios voltaram a andar uma vez mais no seu mundo. Os seus nomes recomeçaram a ser pronunciados e a sua eternidade foi, segundo os seus mais profundos costumes, assegurada.

No século XVIII o Egipto começou a ser então revelado pelos olhos de uma nova civilização. Nos dias de hoje, em lentos passos vai-se tentando compreender aquele mistério que foi o mundo do Antigo Egipto. É essencial olhar com humildade e reverência para um povo cuja existência ainda é tão repleta de perguntas. Muito mais do que de respostas. É neste ponto que se introduz o presente estudo. Na tentativa de compreender mais um pequeno detalhe desta civilização que ainda se mantém longe de ser revelada na sua totalidade. Talvez ainda não confie nos que habitam este planeta!

De uma forma reducionista pode-se começar a compreender os antigos egípcios com recurso a três aspectos básicos essenciais da sua cultura. O faraó, o Nilo e o seu complexo sistema de crenças religiosas e simbólicas.

O Nilo era o coração do Egipto. Literalmente. Sem este rio nunca teria existido uma civilização. Os antigos egípcios tinham uma clara noção deste facto. Tudo o que era simbólico desde a fertilidade à cor natural do rio e mesmo à cor negra dos depósitos de detritos orgânicos das suas cheias tinha uma conotação extremamente positiva. Seria provavelmente uma forma de agradecimento pela vida que só este corpo de água tornava possível no meio de dois desertos inóspitos. O rio Nilo vem da África equatorial e desagua no Mar Mediterrâneo. Percorre um total de 6759.24 quilómetros. A riqueza orgânica deste rio deve o seu agradecimento às grandes monções na Etiópia que arrastam até ao Egipto um elevado volume de detritos altamente nutritivos que são depositados nas terras das suas margens5. É assim facilmente compreendido o papel central e a ligação deste rio a todo o sistema de crenças do antigo Egipto. Por certo que uma das suas mais importantes associações é feita ao grande Nun, a água primordial que cobria tudo e de onde surgiu a vida do primeiro dos deuses egípcios6, em mais do que uma cosmogonia.

O faraó estava inevitavelmente ligado ao Nilo e era desta associação que uma das suas mais poderosas ferramentas surgia. Para todos os efeitos os seus ancestrais

                                                                                                               

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3

haviam surgido do Nilo. Esta ligação directa entre o rio, fonte de vida, o faraó e os egípcios, que dependiam do rio para sobreviver, remetia para uma das eternas bases da realeza: a ligação única e transcendental de um individuo, o faraó, com todos os seus súbditos. Ao contrário de todos os outros membros da sociedade que apenas se ligam a alguns dos seus indivíduos, o faraó estava inquestionavelmente ligado a todos7. Por outro lado a sua ligação com o divino estava claramente estabelecida desde os primeiros tempos do Egipto. O faraó era8 divino. Mais, ele era um deus vivo que governava sobre os egípcios. Ele era Hórus, filho e neto de deuses. Estes dois pontos estabeleciam amplamente a legitimidade de um faraó como governante em vez de qualquer outro indivíduo. Este facto ajuda a perceber a aparentemente excessiva preocupação de tantos faraós usurpadores do trono de Hórus em estabelecer, sem margem para dúvidas, a sua linhagem divina.

O sistema de crenças religiosas é certamente bastante mais complexo que os anteriores e acima de tudo, abrange-os. É necessário estabelecer que um sistema de crenças religiosas se refere a um tipo de informação que inclui qualquer objecto, ocorrência, gesto ou indivíduo que em determinado momento da história e em determinado lugar teve um significado fora do comum ou transcendente9. Entraremos aqui no domínio do simbólico, núcleo vivo da religião egípcia. O simbolismo, que deriva de uma crença tem como principal objectivo transportar o observador para uma concepção abstracta10. Muitos dos símbolos têm, na realidade, origem na natureza. Este é um aspecto central no sistema de crenças religioso-simbólicas de qualquer civilização11. É exatamente esta ligação ao natural que cria símbolos que não são mais do que representações das realidades da existência12 e do fundamento das estruturas religiosas da vida humana e do universo. Contudo o papel mais importante será a capacidade que retêm de serem reconhecíveis e de assim tornar possível ao indivíduo não apenas nomear mas também identificar determinados fenómenos cósmicos e acima de tudo penetrá-los com uma introspecção significativa. Desta forma, o individuo e a sua sociedade tornam-se capazes de elevar o natural e a si próprios

                                                                                                               

7 Cf. Quigley, D. (ed), The Character of Kingship, 5.

8 Ou pelo menos foi durante quase toda a duração do Egipto faraónico.

9

Reno, S. J., “Religious Symbolism: A Plea for a Comparative Approach” in Folklore, 76. 10 Reno, S. J., Op. Cit., 77.

11Ibidem.

12 Sendo estes símbolos representantes das preocupações básicas dos homens: necessidade de

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4

acima do quotidiano, passando a pertencer a algo transcendental13. No caso dos antigos egípcios vê-se este processo na proximidade do individuo ao divino e ao seu próprio Egipto: as Duas Terras eram governadas por um deus vivo. O ciclo estava assim fechado e totalmente explicado.

Certamente que uma abordagem possível para levantar o denso véu do antigo Egipto será compreender o indivíduo Sabe-se que a complexidade do ser humano apenas é rivalizada por duas questões. Pelo que consegue alcançar partindo de uma simples ideia abstracta. Por aquilo que escolhe para o acompanhar durante a sua existência. Desde os primórdios da humanidade até à actualidade, alguns aspectos têm sido comuns a todas as civilizações e, por correspondência, a todos14 os indivíduos. O primeiro é sem dúvida o aspecto genético. A sobrevivência da espécie associada à procriação individual. Está geneticamente determinado que um indivíduo fará tudo ao seu alcance para garantir o prolongamento da sua existência e na maioria dos casos, conseguir manter essa mesma existência ad aeternum com novas gerações portadoras do seu material genético. Um segundo aspecto é uma clara extensão do primeiro. A manutenção da existência individual, mesmo após a morte física. Neste ponto, o antigo Egipto e a sua civilização foram mestres. Tornaram uma realidade cruel numa crença e essa crença numa prática. Estabeleceram um elaborado conjunto de rituais que foram durante milénios meticulosamente seguidos. Pretendiam garantir a sua continuidade numa nova dimensão, o seu Mundo dos Ocidentais. Aqui, apenas seriam abraçados aqueles de coração puro. Os melhores de entre todos.

O terceiro aspecto consistentemente detectado em todas as civilizações é na realidade aquele que torna possível conhecer os que passaram antes de nós pelo planeta Terra e permite que o estudo que aqui se apresenta exista: a eterna necessidade de representação não só do indivíduo como da sua civilização e das suas crenças, fazendo-o iconográfica e materialmente. Para os habitantes das Duas Terras, estas representações eram essenciais para a manutenção da sua existência no Egipto e para activar a eficácia dos seus portais para o Mundo dos Ocidentais. Hoje chamamos-lhes túmulos. Estes locais de descanso eterno encerraram esses dois elementos que são de extrema importância e que este estudo abordará. Um primeiro é a própria riqueza iconográfica que preenche as paredes dos túmulos privados. Esta

                                                                                                               

13Ibidem.

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5

fabulosa técnica de representar uma realidade através de um complicado registo simbólico produziu não só imagens com profundas raízes no sistema de crenças desta civilização como também representações de actividades comuns do dia a dia15 que permitem fazer suposições educadas de como terá sido a vida entre 1550 e 1069 antes de Cristo16 assim como dos complexos sistemas de crenças e simbolismos em vigor nessa época histórica. O segundo elemento é uma consequência afortunada do mesmo sistema de crenças. A preservação, que pretendia ser eterna, de riquíssimos espólios funerários que acompanhavam o morto. Destes complexos recheios de túmulos torna-se possível ver com que objectos viviam os antigos egípcios, nas Duas Terras e nos domínios de Osíris. Para compreender o que gerou estes repositórios arqueológicos, há que compreender quais as principais forças motrizes que moldavam a mente egípcia. É exactamente no mobiliário17 descoberto que se encontrará muitos dos elementos necessários para algumas das respostas que se procuram com este estudo. Há um aspecto em especial que deverá ser de imediato retido: a existência de uma relação bilateral entre a vida antes e depois do Egipto reflectida nos espólios tumulares. A função do mobiliário na vida terrena influenciava a sua importância funerária e o contrário seria também válido. É então fulcral fazer quando possível uma análise desta relação e entender o papel do mobiliário doméstico. É ainda vital compreender a riquíssima fonte de informação das crenças dos habitantes do antigo Egipto que estas peças encerram em si. Será inevitável ver toda esta indústria como um enorme catalisador das muitas trocas comerciais, motor de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e de especializações profissionais ao serviço da construção das mais refinadas peças de mobiliário.

Assim esta tese, inserida no âmbito da História do Quotidiano da antiga civilização Egípcia faz uma análise focada no mobiliário do antigo Egipto no período especifico do Império Novo18 com três focos distintos, organizados de forma a conduzir o leitor por um percurso lógico de sucessão de informação. No primeiro capítulo será fornecida informação referente aos materiais usados para a construção de mobiliário. A madeira será apresentada como a matéria básica dominante19 de

                                                                                                               

15 Um dos muitos exemplos mais completos neste aspecto será o Túmulo de Sennedjem (TT 1). Vd.

Haring, B. J. J., The tomb of Sennedjem (TT1) in Deir el-Medina: palaeography .; e Hodel-Hoenes, S.,

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6

todas as peças de mobiliário. Os restantes materiais, metal, pedras semipreciosas, faiança e marfim serão igualmente apresentados como eventuais complementos das peças. A simbologia geral destes materiais será igualmente mencionada. Numa segunda parte do capítulo I serão apresentadas brevemente as técnicas de construção adoptadas nestas peças.

No segundo capítulo far-se-á uma apresentação e estudo material de mobiliário doméstico encontrado em diversos túmulos. Serão apresentados dois exemplares de cada tipo de peça de mobiliário considerado para este estudo. São essencialmente peças de uso comum diário, pertencentes ao mobiliário designado como doméstico. No capítulo III será apresentada uma análise simbólica das peças do capítulo II. Para esta análise terá sido feita uma coordenação das informações apresentadas nos dois capítulos anteriores, tanto materiais como iconográficas. Num todo pretende também focar-se a importância do mobiliário no antigo Egipto e a forma como remete directamente para a importância e razão de existir de todas as estruturas construídas pelo Homem, desde uma simples cadeira a uma complexa pirâmide. Mostra-se como o mobiliário, as técnicas envolvidas na sua construção, o

design e o seu significado tendem a acompanhar a própria evolução do Egipto e como

estabelecem um paralelismo com as crenças, vivências e relação com o cosmos e eventualmente com a sua história.

Para reunir a informação apresentada recorreu-se a pesquisa bibliográfica e deslocações in vivo pesquisando-se acervos museológicos a nível mundial numa metodologia focada nos objectos que se pretendiam apresentar e não em função de um museu, da sua importância ou do volume da sua colecção. De igual forma, a pesquisa iconográfica incide principalmente em reproduções de frescos de túmulos das Dinastias do Império Novo, tendo sido dada preferência à informação e nunca ao túmulo20. Foram no entanto igualmente incluídas reproduções esquemáticas e de frescos de túmulos de Dinastias anteriores ao período central, assim como de algumas peças para auxiliar na evolução da narrativa. Pretendeu-se essencialmente trazer algum do mobiliário raramente colocado em evidência, tendo contudo sido feitas referências a objectos amplamente reconhecíveis.

                                                                                                               

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CAPÍTULO I

OS MATERIAIS E TÉCNICAS USADOS NA CONSTRUÇÃO DE MOBILIÁRIO NO ANTIGO

EGIPTO:IMPÉRIO NOVO

Para a compreensão de qualquer aspecto de uma civilização com um elevado grau de especialização, como o desenvolvido pelo antigo Egipto nos mais diversos campos21

, é exigida uma análise cuidada dos elementos arqueológicos que chegaram até à actualidade.

Para a compreensão da construção de mobiliário durante o Império Novo é inevitável postular-se a existência de diversos trabalhadores envolvidos neste processo, desde o momento inicial aos últimos detalhes de cada peça que era produzida. Os elementos deste grupo específico eram globalmente referidos como artesãos22

. Pertenciam a uma classe extremamente bem organizada essencialmente assente na especialização dos seus membros nas mais diversas vertentes23.

Por um lado existiam os carpinteiros24

, os “trabalhadores de metal”   25

e restantes indivíduos de áreas responsáveis pela construção e acabamento de cada peça26. Por outro havia uma sequência de actividades levada a cabo por artesãos ou

trabalhadores com diferentes qualificações que seriam os suportes básicos destes últimos. Forneciam as matérias primas. Entre elas, incluem-se as madeiras, cuja origem poderia ser do Egipto ou importada, os metais, as pedras preciosas ou semipreciosas, pastas de vidro, faiança e linho que poderiam ter as mesmas proveniências.

                                                                                                               

21 Campos que englobam esferas tão distintas como a política, arte e arquitectura ou religião, ver

Morkot, R. G., The Egyptians – An Introduction, 200-221.; Política, arquitectura e religião são extremamente bem retratados em Shaw, I. (ed), The Oxford History of Ancient Egypt, 218-314.; Uma visão mais generalista pode ser encontrada na publicação de Strouhal, E., Life of the Ancient Egyptians; Uma descrição extremamente bem aprofundada de todas as esferas até agora estudadas pode ser encontrada em Sasson, J. M. (ed), Civilizations of the Ancient Near East, 273-395; 749-775; 1373-1387; 1623-1635; 1711-1815; 2223-2265; 2533-2569.; Erman, A., Life in Ancient Egypt, 259-305; 328-368; 446-478.

22 Para aprofundamento do grupo social do artesão, consultar Valbelle, D. “Craftsmen” in Donadoni,

S., The Egyptians, 31-61. 23

Numa breve nota, interessa referir que o processo de escolha e recolha dos materiais para construção de mobiliário estava, no Império Novo, extremamente refinado, estando o primeiro ponto a cargo de elementos que detinham o título de Oficiais Responsáveis por Expedições e o segundo ponto nas mãos dos designados Operários, essencialmente dois polos dentro da estrutura social do mundo de Artesãos, Cf. Valbelle, D., Op. Cit., 31, 33, 46.

24 Davies, N. de G., The Tomb of Rekh-Mi-Ré’ at Thebes, 51. Vd. Anexo I, Figura 1 e 2, 1. 25 Vd. Anexo I, Figura 2, 1 e Figura 3, 2.

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8

1.1OS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO USADOS NO MOBILIÁRIO DO IMPÉRIO NOVO

As actividades que permitiam recolher a matéria prima usada na construção das peças de mobiliário, tinham frequentemente lugar nos domínios longínquos do então Egipto imperial.

Um dos mais conhecidos exemplos será a “Expedição a Punt27

” no Faraonato de Hatchepsut28. Na sua representação é ilustrada a quantidade de matéria prima

recolhida da longínqua terra. Compreende-se também a vasta distância percorria pelas expedições para trazerem até ao coração do Império Egípcio o material que tanto desejavam. Conhecida também é a razão da necessidade de tamanhos esforços: apesar da sua enorme riqueza, muitos dos elementos que os antigos egípcios mais apreciavam não existiam naturalmente na sua Kmt29.

AS MADEIRAS

Na construção de mobiliário no antigo Egipto, a matéria prima que servia como base da maioria das peças era a madeira30

. A procura deste material encontrava sérias limitações dentro do país. Uma primeira relaciona-se com o facto de as fontes indígenas do território serem essencialmente ou de pequeno porte ou constituídas por espécies que apresentavam composições demasiado fibrosas e portadoras de imperfeições como um elevado número de nós31. Estes eram aspectos que as

tornavam num pobre contributo para o nível de excelência procurado.

As características das madeiras indígenas do antigo Egipto, no entanto, ajudaram ao desenvolvimento do engenho dos seus marceneiros. As dimensões reduzidas revelaram-se percussoras da criação de eficientes técnicas de junção de diversas peças de madeira. Muitas são ainda hoje usadas32

. Apesar de terem, por seu lado, limitado a criação de um elevado número de peças de mobiliário de grandes

                                                                                                               

27 Vd. Anexo I, Mapa V, 54.

28 Vd. Anexo I, Figura 5, 3.

29Terra Negra, nome atribuído ao Egipto durante a civilização faraónica. . Cf. Gardiner, Sir A., Egyptian Grammar, 597.

30 Para este tema apenas serão referidas madeiras usadas na construção de mobiliário, sendo, no

entanto, a lista de outras madeiras existentes no Egipto durante o Império Novo muito mais extensa. Vd. Asensi, V., La Madera en el Antiguo Egipto: Identificaciones, Usos Y Comercio. Reflexiones a partir de los Objectos de ças Colecciones Egipcias de Marsella, Amiens Y Dijon.; Loret, V., La Flore Pharaonique D'Apres Les Documents Hieroglyphiques Et Les Specimens Decouverts Dans Les Tombes.

31 Alfred, C., “Fine Wood-Work” in Singer, C., Holmyard, E. J., Hall, A. R., A History of Technology, 685.

32 Henriques, R. “A Técnica e o Objecto (Contraponto entre mobiliário egípcio e mobiliário português)

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9

dimensões. As imperfeições naturais ajudam a perceber o desenvolvimento e aperfeiçoamento de diversas técnicas de revestimento das peças de mobiliário com materiais como o gesso, pedras semipreciosas, diversos metais, entre outros. A escolha do material de revestimento não era, no entanto, arbitrária. Pode-se então definir com base nas crenças e práticas dos antigos Egípcios que a escolha de determinado revestimento bem como o uso de certa madeira estaria eventualmente relacionado não só com aspectos estéticos33

como também com aspectos simbólicos fundamentados em elementos mitológicos, religiosos e mágicos.

As árvores que povoavam as Duas Terras, no Império Novo, e eram usadas especialmente no fabrico de mobiliário podem ser resumidas a algumas espécies do género Acácia (Acacia), Figueira “sicómoro”34

(Ficus sycomorus), Pérsea (Mimusops

laurifolia)35 e ainda espécies dos géneros Salgueiro (Salix), Tamareira (Tamarix) e

Buxo (Buxos sempervirens L)36.

A procura de maior quantidade deste material assim como de árvores de maior envergadura que fornecessem madeira de melhor qualidade e também mais duradoura37 apesar de ser já prática comum desde o Império Antigo, originou no

Império Novo rotas comerciais constantes e expedições frequentes38. Do Líbano

vinha, desde a Dinastia IV, Faraonato de Seneferu, Cedro (Cedrus libani) tendo os antigos egípcios viajado até ao Chipre, à Síria e à Turquia39 em busca desta madeira.

O Freixo (Fraxinus excelsior) e o Ulmeiro (Ulmus campestres) eram importados de diversas regiões do Norte de África e foram especialmente usados durante o Império Novo40

. Da Turquia vinham ainda diversas espécies de Carvalho (género Quercus). Da Etiópia, Ceilão e Índia eram trazidas variadas espécies do cobiçado Ébano (género

Diospyros), extremamente apreciado devido às suas características específicas e

inexistência natural no país das Duas Terras41. Desde o Faraonato de Tutmés III                                                                                                                

33 Ou ligados ao valor material.

34 Amorós, V., Op. Cit., 65. 35

Killen, G., Egyptian Woodworking and Furniture, 7 – 9.

36 São ainda referidas como árvores indígenas possivelmente usadas em mobiliário, apesar de não

terem sido ainda identificadas em peças: dois tipos de palmeiras: a Phoenix dactylifera sendo a sua madeira fibrosa e mole; a Hyphoene thebaica de madeira bastante dura e o Álamo do Eufrates (Populous euphratica), que crescia no Delta do Nilo Cf. Killen, G., Ancient Egyptian Furniture, Vol. I – 4000-1300 BC, 1-6.

37 Por exemplo, a madeira de Figueira de “sicómoro” mantinha a sua qualidade apenas num espaço de

tempo muito reduzido, Amorós, V., Ibidem, 81. 38 Vd. Anexo I, Mapa IV, 53.

39Ibidem, 63.

40 Killen, G., Egyptian Woodworking and Furniture, 9.

(16)

10

passou a ser usada uma grande quantidade de madeira de Alfarrobeira42

(Ceratonia

siliqua). Eram trazidas árvores da Ásia Ocidental e das zonas a sul do Mar

Vermelho43. Do Líbano, Trípoli, Megiddo 44 e áreas circundantes do Mar

Mediterrâneo foram saqueadas durante o vigésimo terceiro ano do seu Faraonato seis cadeiras, seis assentos de pés e seis mesas com esta madeira na sua composição45

. Da Síria, da Palestina e da Núbia era trazido Teixo (Taxus baccata) e Pinho de diversas espécies (género Pinus)46 . Da Síria, do Líbano e do continente asiático era ainda

trazido o Cipreste (Cupressus sempervirens L). Da Ásia Ocidental era importado o Abeto47 (Abies cilicica) Plátano48

(Platanus orientalis) e do Mar Cáspio a Árvore da

Ameixa49 (Prunus domestica). Parecendo ser amplamente procurado ao ponto de a

produção indígena não ser suficiente, era trazido também da Ásia e do norte de África o Buxo50

(Buxos sempervirens L.) muito usado para incrustações e produção de

objectos musicais 51 . Dos mesmos locais vinha Nogueira (Juglans regia),

extremamente dispendiosa e equivalentemente apreciada. Tanto da Ásia Ocidental como da Europa do Sul eram trazidos exemplares de Tília52

(Tilia europea) que

atingia diâmetros de cerca de 1.3m e de Álamo-Branco (Carpinus betulus), uma madeira extremamente dura mas com excelente capacidade para dobragem com uso de vapor.

ANÁLISE SIMBÓLICA DAS MADEIRAS

A simbologia associada ás madeiras remonta a Dinastias anteriores ás do Império Novo. Este aspecto pode ser inferido pela análise e estudo iconográfico de diversas fontes53. É frequente a representação de madeiras (na sua forma natural - em

                                                                                                               

42

Cf. Amorós, V., Ibidem, 336. 43 Cf. Killen, G., Ibidem, 2.

44 Actualmente localizado em Israel, a 30 km sudoeste de Haifa.

45

Outros materiais incluídos no mobiliário: marfim, ébano e ouro. Cf. Killen, G., Ibidem. 46

Alfred, C., Op. Cit., 685.

47 Cf. Amorós, V., Ibidem, 336.

48 Cf. Killen, G., Ancient Egyptian Furniture, vol. I – 4000-1300 BC, 5. 49

Cf. Killen, G., Op. Cit., 5. 50

Podendo ainda vir de locais como Mitanni e Alashia, segundo interpretações de cartas de Amarna. Cf. Gale, R., Gasson, P., Hepper, N., “Wood: Botany” in Nicholson, P. T., Shaw, I. (eds), Ancient Egyptian Materials and Technology, 338.

51

Cf. Killen, G., Ibidem, 2. 52Ibidem, 4.

53 Um exemplo do Império Médio: “Aves numa Acácia”, Beni Hasan, Túmulo de Khnemhotep, metade

(17)

11

árvores54

) em templos55

associadas a deuses56

ou figura mitológica, assim como a sua inclusão em diversos capítulos das várias composições literárias, ligando-as frequentemente a um relato mitológico-religioso57. Um dos exemplos mais conhecido

deste tipo de representações será certamente o do deus inventor da arte da escrita, por excelência o que registava em árvores os longos Faraonatos para os próprios faraós, o deus lunar Tot58

.

Passar-se-á de seguida à análise das madeiras às quais foram atribuídas pelos egípcios características simbólicas ou papéis no seu sistema de crenças.

A Acácia, 59 ou 60 (dependendo da espécie, Acacia

nilótica ou Acacia tortilis, respectivamente), estava directamente associada aos mitos

de criação. Sob a sagrada acácia de Iwnw da deusa Saosis61

nasceram os primeiros deuses62. Também Hórus emergira de uma acácia63. Por associação ao seu papel em Iwnw, árvore sob a qual decisões de vida ou morte eram tomadas64

, compreende-se que simbolicamente a sua madeira estaria associada à possibilidade de escolha de vida (ou morte...), cuja dimensão aumentaria dependendo do contexto em que o mobiliário feito de ou com elementos de acácia estaria inserido.

A Figueira “sicómoro”, 65 , tem um significado mitológico

interessante. Era comummente associada às deusas Ísis, Nut66

e mais frequentemente

                                                                                                               

54 Vd. Anexo I, Figura 7, 4.

55 Vd. Anexo I, Figura 8, 4 e Figura 9, 5.

56 Vd. Anexo I, Figura 10, 5.

57

Como exemplo encontra-se n’O Mito de Hórus de Behutet e do Disco Alado uma referência à árvore sagrada Acácia “The barque of Ré’ moored at the Town of Per-aha. Its prow was of iam and its stern of

senedj, and they are sacred trees to this day.” Fairman, H. W. “The myth of Horus at Edfu – I” in The Journal of Egyptian Archaeology, 21 (1), 32.

58 A captação da Figura 8 omite-o, mas a Figura 9 mostra Tot esquematicamente na mesma

representação do Ramesseum. Vd. Anexo I, Figuras 8 e 9, 4-5.

59 Cf. Asensi, V., Op. Cit., 336 e Gardiner, Sir A., Op. Cit., 695. Loret, V., La Flore Pharaonique

d’Apres les Documents Hieroglyphiques et les Specimens Decouverts dans les Tombes, 84. refere para

a mesma espécie o nome hieroglífico , uma ligeira variação de um dos termos usados para a definição de árvore por Gardiner, Sir A., Ibidem.

60

Cf. Asensi, V., Ibidem.

61 Uma das quatro deusas comummente chamadas de deusas-árvores. A mais predominante sendo

Hathor e as restantes duas Isis e Nut. Para melhor compreensão, Vd. Bleeker, C. J., Hathor and Thoth: Two Key Figures of the Ancient Egyptian Religion, 36.

62 Lurker, M., Lexikon de Götter und Symbole der alten Ägypter, 39. 63 Wilkinson, R. H., Symbol and Magic in Egyptian Art, 90.

64 Lurker, M., Op. Cit., 52.

65 Cf. Asensi, V., Ibidem. Enquanto que a Figueira da Síria (ou Figueira pseudo-Sicómoro) se chamava

.

(18)

12

à “Senhora do Sicómoro”, Hathor 67

. Apresenta, tal como a Pérsea,

68, uma importância simbólica de elevado relevo, também muito

similar à da acácia, sendo os seus frutos e folhagens usados repetidamente em contextos funerários69

. De salientar ainda que quando representada com uma gémea era estabelecida uma ligação directa com o horizonte e o sol nascente70, relembrando

o hieróglifo akhet. Tinham inevitavelmente uma ligação solar e eram frequentemente plantadas em redor dos templos e representadas em túmulos71

com detalhada precisão.

A importância simbólica do Salgueiro, 72

, remonta à cosmogonia de

Iwnw, sendo sobre os seus ramos que o disco solar descansava sobre a forma de pássaro73

no início dos tempos74

. Em outras situações o salgueiro era associado ao mito de Osíris, simbolicamente representando vida, fecundidade e renascimento.

À Tamareira, 75

, era associado o deus Upuaut, “Aquele que abre os caminhos”76, directamente ligado ao Mundo dos Ocidentais77, tornando a sua madeira

numa escolha lógica para determinadas peças usadas em contexto funerário.

As madeiras importadas devem ser compreendidas num registo ligeiramente diferente. Por virem de fora do Egipto, seriam possivelmente mais dispendiosas. O seu frequente aparecimento em escavações arqueológicas, surgindo essencialmente em mobiliário funerário78

das Dinastias XVIII e seguintes, provam contudo o seu uso bastante comum. O Cedro79, 80, era, por exemplo, uma madeira de elevada

qualidade tornando-se numa árvore muito desejada para mobiliário da elite81

. O seu

                                                                                                               

67 Wilkinson, R. H., Op. Cit., 91. Vd. Anexo I, Figura 10b, 5. 68 Cf. Asensi, V., Ibidem.

69

Um exemplo praticamente intocado de cestos com os frutos de Persea residiu durante milénios no túmulo de Tutankhamon (KV 62).

70 Wilkinson, R. H., Ibidem, 90.

71 Vd. representação de um Jardim no Túmulo de Rekhmiré, Davies, N. De G. Op. Cit., pl. 79. 72 Cf. Asensi, V., Ibidem.

73

Fénix ou o seu antecessor, o pássaro Benu.

74 Keimer, L., “L'arbre “tjeret” est il réellement le saule égyptien (Salix safsaf Forsk.)?” in Bulletin de

l’Institut Français d’Archéologie Orientale (31), 190. 75

Cf. Asensi, V., Ibidem. 76

Sales, J. C., As divindades Egípcias: uma chave para a compreensão do Egipto antigo, 151. 77 Facilmente se entende assim o uso do tamarisco na construção de ushabtis.

78 É importante referir que na sua maioria, o mobiliário funerário descoberto até à data era pertença da

elite.

79 A maioria do mobiliário do KV 62 foi produzido com esta madeira.

80 Cf. Asensi, V., Ibidem.

81 O mesmo principio se aplicava ao ébano, hbn. Cf. Loret, V., La Flore Pharaonique D'Apres Les

(19)

13

uso parece ter sido no entanto bastante diversificado e aplicado em praticamente todos os campos imagináveis.

A madeira importada era procurada pelas suas características específicas. Tendiam a originar mobiliário de elevada qualidade, produzidos por artesãos detentores de elevada perícia e técnica. A importância da madeira estrangeira estaria assim possivelmente mais ligada à qualidade82

dos objectos que com ela se produziam e consequentemente ao valor comercial que lhe era atribuído. Era possível que, talvez com a excepção da cor, não existisse um significado directamente ligado ao sistema de crenças do antigo Egipto.

O Carvalho, 83, foi detectado nas junções de algumas peças de

mobiliário encontradas no KV 6284

e nas camas rituais de Tutankhamon. É uma madeira dura e resistente o que certamente explica a sua utilização em juntas. O Freixo é uma madeira bastante elástica com uma dureza média, apesar de resistir com pouco sucesso ao passar do tempo. Era curiosamente usada para garantir a solidez de objectos85, servindo como reforço estrutural86. Tendo características semelhantes, o

Ulmeiro era usado para as mesmas finalidades.

O Teixo era utilizado em diversos contextos87. Tinha particular importância na

construção do mobiliário uma vez que os cabos das ferramentas usadas para trabalhar a madeira eram frequentemente feitos de Teixo. O Cipreste, madeira bastante aromática, com um tom castanho-amarelado com reflexos rosa, era bastante resistente e facilmente trabalhada, sendo aplicada em diversos campos para além do mobiliário, como a produção de sarcófagos. O Freixo, o Ulmeiro, o Teixo e o Cipreste não têm vocábulos até agora conhecidos que os definissem no Antigo Egipto.

O Ébano, 88

, foi desde a sua introdução na produção de mobiliário, uma madeira muito cobiçada pela elite. A madeira apresenta uma enorme resistência ao passar do tempo e o elevado grau de mestria necessário para o entalhamento do

                                                                                                               

82

Apesar de ficar inevitavelmente ligada por consequência ao valor comercial que lhe era atribuído. Um exemplo do quão cobiçado o ébano era são as recorrentes peças de mobiliário onde o artesão escurecia a madeira de forma a tentar imitar a cor do ébano.

83

Cf. Asensi, V., Ibidem. 84

O seu uso principal era, contudo, nas construções arquitectónicas. Cf. Amorós, V., Op. Cit., 136. 85 O uso desta madeira não estava claramente ligado a qualquer função simbólica associada à sua cor

que apresenta reflexos naturais que variavam entre o rosa e o verde. 86

O sarcófago de Ramsés II é um exemplo ideal onde o uso de freixo cumpria o seu papel estrutural. Cf. Amorós, V., Op. Cit., 144.

87 Sendo escultura um dos campos artísticos que mais usava esta madeira. Conhecesse uma cabeça da

(20)

14

ébano, devido à sua elevada dureza, foram factores determinante para se tornar numa madeira cara e desejada. O mobiliário que chegou até à actualidade exemplifica o cuidado com que o ébano era trabalhado. As suas cores mais comuns eram o castanho escuro e o preto. O seu uso era quase sempre exclusivo para mobiliário, sendo especialmente usado em embutidos, uma consequência do seu elevado custo. O Pinheiro, 89

(Pinus pinea L.) não era, à semelhança do cedro, usado

apenas em mobiliário. Encontram-se dados que atestam a sua raridade como árvore no Egipto, tendo assim sido colocadas em jardins privados para efeitos decorativos, desde os tempos de Seneferu90. Também para o Buxo não foi identificado um

vocábulo específico91, pelo que a sua existência é apenas atestada por técnicas actuais

de identificação de madeira. A sua madeira, bastante dura e resistente após secagem, tem dois tons dominantes, o verde escuro brilhante na parte superior e o verde-amarelado na parte inferior92, tornando-a simbolicamente ligada à vida e regeneração.

De uma forma geral, a cor93

natural das madeiras, indígenas ou importadas, era inevitavelmente associada aos complexos sistemas de crenças do antigo Egipto. A escolha do artesão tendia a ser influenciada pelo significado que se pretendia associar à peça de mobiliário que iria construir. Madeiras avermelhadas e amareladas estabeleciam uma ligação simbólica com os dois tons de pele usados nas representações dos egípcios (pele masculina e feminina, respectivamente) e a madeira negra era usada para a representação de peles mais escuras, a pele dos estrangeiros. Madeiras com cores verdes extremamente definidas, como a do buxo, eram sempre associadas a vida e renascimento, sendo usadas em peças onde esse contexto fosse apropriado94

.

OS METAIS

Sendo a madeira o material que servia de base para a criação de uma peça de mobiliário, a maioria das vezes não era o suficiente para transformar a simples criação

                                                                                                               

89

Cf. Amorós, V., Ibidem,336.

90 Cf. Ibidem, 125. Um aspecto curioso, uma vez que era também uma árvore indígena. 91Ibidem,140.

92

Ibidem, 141.

93 A simbologia das cores é analisada em conjunto com outros materiais, sendo o seu significado

dependente na maioria dos casos da cor e não do material que originava o pigmento em si.

94 Faria todo o sentido usar madeira de buxo numa peça ligada a amamentação, como uma cadeira, por

(21)

15

numa obra-prima. Para que o efeito fosse completo, diversos outros materiais eram cuidadosamente escolhidos e incluídos nas peças trabalhadas pelos artesão.

Os metais tendiam a ser uma opção frequentemente seleccionada. Podiam ser aplicados sobre a peça, revestindo-a95 ou na peça, incrustados96. Em ambos os casos,

quando o metal surgia no mobiliário do Império Novo, era sempre com objectivos decorativos e associativamente simbólicos. Podia sobre ele ser gravada por exemplo, uma cena da vida diária, um nome ou texto (Figura 11). Muitas vezes um metal era usado em conjunto com outros metais para originar uma composição elaborada de diversos elementos que formavam uma imagem. Este processo era feito com incrustação de diferentes metais ou incrustação de um metal noutro metal (Figura 12). O mais precioso de todos os metais, o ouro, existia em grandes quantidades no próprio Egipto e na Núbia97

, território que durante o Império Novo foi anexado às Duas Terras98 com um carácter mais permanente. As suas características químicas

colocavam-no no topo de todos os metais usados em mobiliário, ou em qualquer outra finalidade. O túmulo de Rekhmiré mostra exemplarmente o trabalho do ouro por artesãos. Este metal não era apenas usado com a finalidade de satisfazer necessidades decorativas e simbólicas do antigo Egipto. Era um bem extremamente valioso e como tal usado para trazer até ao coração do Império outros metais (e inúmeros bens) que nele não existiam99

. Estava ligado praticamente a todas as esferas do mundo do antigo Egipto. A abundância de ouro nas Duas Terras ajuda a explicar a ascensão meteórica desta civilização como uma superpotência no mundo pré-clássico.

Com o Egipto Imperial e o consequente aumento da produção de bens para uma elite cada vez mais exigente, a procura de ouro100 escalou para volumes nunca

registados antes do Império Novo. Consequentemente, deixou de ser usado como

                                                                                                               

95 Vd. Anexo I, Figura 11, 6.

96 Vd. Anexo I, Figura 12, 6.

97

Remete-se aqui para o documento onde se encontra o que é considerado o primeiro mapa topográfico da história, assinalando os locais de mineração de ouro no antigo Egipto, o Papiro de Turim. Localização actual: Museo delle Antichità Egizie di Torino, Objecto: Papiro delle miniere, Número de Inventário: Cat. 1879 +1969+1899 RCGE 17468. No Anexo apresenta-se um mapa mais recente. Vd. Anexo I, Mapa I, 50.

98 Acontecimento recorrente durante toda a história do Egipto Antigo, tendo conhecido o seu período

de anexação mais durador e estável durante o Império Novo. Remete-se, como exemplo, para a larga escala de construção monumental de Templos pelo território Núbio durante o Faraonato de Ramsés II, Cf. James, T. G., Ramsès II.

99 Lacovara, P., Markowitz, Y. J., ”Gold” in Redford, D. B. (ed), The Oxford Encyclopedia of Ancient

Egypt, vol. 2, 34.

(22)

16

elemento de troca para adquirir bens101

. Para satisfazer a enorme procura de ouro, outros produtos passaram a ser trocados pelo metal dourado que nesta altura também era importado de forma a satisfazer a necessidade dos egípcios. Na realidade, o papel comercial do metal nobre inverteu-se. Foram construídas fortificações perto das segundas cataratas do Nilo102 que se tornaram não só em postos de defesa das minas

de ouro da região, agora exploradas mais intensamente, mas também postos de trocas comerciais. Bens essenciais como vinho e grão egípcio eram trocados por ébano, marfim, gado e acima de tudo pelo amarelo ouro núbio.

De uma forma geral, os restantes metais usados durante o Império Novo103

na construção de mobiliário eram importados, sendo na sua maioria trazidos de domínios egípcios do próximo Oriente.

Numa leitura macroscópica, a prata104 era de uma importância extrema.

Apesar de os depósitos de ouro terem uma quantidade relativa de prata, a mesma não se encontrava em estado puro e o refinamento deste material apenas surgiu numa época mais tardia105 no Egipto faraónico. Assim a sua raridade era de tal forma

considerável que, certamente, se não fossem as suas qualidades químicas negativas, como a inevitável oxidação, teria sido um metal incrivelmente mais adorado. Inicialmente, o “metal branco”106

valeria duas vezes mais do que o ouro107

. No entanto, simbolicamente, o seu estatuto era extremamente elevado. A Figura 12 exemplifica um dos usos da prata em incrustações, completando detalhes, neste caso, na roupa do casal faraónico.

Entre a prata e o ouro encontra-se naturalmente no Egipto uma curiosa liga dos dois metais (com alguns vestígios de cobre na sua composição), o electrum. A sua coloração dependia directamente da quantidade dominante de metal na liga, podendo ir do pálido tom da prata ao intenso amarelo do ouro. O cobre, também incluído na

                                                                                                               

101 Porque na realidade a oferta não igualava a procura do Egipto do Império Novo.

102

Lacovara, P., Markowitz, Y. J., Op. Cit., 36.

103 Ou durante todo o Egipto dinástico, sendo a época que se destaca como excepção à regra a do

Terceiro Período Intermediário, em que as mais imediatas fontes de metais preciosos eram os túmulos dos antigos faraós do Império Novo.

104

Trazida do Levante, Turquia e Grécia, sob a forma de tributo ou como resultado de troca comercial, dependendo, claro, do local de origem.

105 Lacovara, P., Markowitz, Y. J., ”Silver” in Redford, D. B. (ed), The Oxford Encyclopedia of Ancient

Egypt, vol. 3, 287.

106 Lacovara, P., Markowitz, Y. J., Op. Cit., 287.

107 Valor que foi alterado devido à quantidade introduzida pelo aumento do Império e rotas comerciais.

(23)

17

tabela periódica no mesmo grupo do ouro e da prata108

, classificado como metal de transição, revelou-se essencial na construção de mobiliário requintado e especialmente delicado, pelas suas características especiais de maleabilidade e ductilidade. No Império Novo o cobre era principalmente trazido do Sinai, local explorado desde o Império Antigo109, de Timna no Negev110, da Síria e do Chipre.

No Império Novo vê-se uma substituição do cobre por bronze na maioria dos seus usos mecânicos111

. Mantinha apesar de tudo uma posição de elevado destaque nas trocas comerciais e surgem, datadas desta época, peças de mobiliário de elevada importância112 onde o cobre era usado como elemento decorativo.

O Papiro Mayer B113

relata a pilhagem do túmulo de Ramsés VI, descrevendo entre outros objectos usurpados, oito camas, pertencentes ao faraó, ornamentadas com cobre114. Este metal tinha assim uma dupla importância115, como o bronze viria a ter

numa época mais tardia.

O bronze surge frequentemente em mobiliário do Império Novo. É uma liga metálica de cobre e estanho116

, tendo ainda na sua constituição a presença em quantidades variáveis de outros metais como níquel, alumínio, zinco, chumbo, fósforo, entre outros. O estanho presente no bronze alterava essencialmente a resistência mecânica e a dureza do cobre117, não afectando a sua ductilidade118.

                                                                                                               

108

Grupo 11. Elementos incluídos no mesmo grupo da Tabela Periódica de Elementos têm comportamentos químicos semelhantes.

109 Lacovara, P., ”Copper” in Redford, D. B. (ed), The Oxford Encyclopedia of Ancient Egypt, vol. 1, 295.

110

Actualmente uma região de Israel. 111

Havia contudo um considerável de objetos feitos em cobre, desde representações de deuses a material para armazenamento de substâncias para uso cosmético, por exemplo. Arqueólogos notam que muitas vezes há uma certa indiscriminação no uso de cobre e bronze em peças similares, podendo ser um ou outro usado, provavelmente de acordo com a disponibilidade. Cf. Lacovara, P., Markowitz, Y. J., ”Bronze” in Redford, D. B. (ed), The Oxford Encyclopedia of Ancient Egypt, vol. 1, 201.

112 Exemplos mais conhecidos estão na colecção de Tutankhamon no The Egyptian Museum of

Antiquities, Cairo. Peças de mobiliário considerado doméstico como a “Arca de Viagem com varas para transporte” (objecto JE 62722) ou um exemplo incontornável de mobiliário exclusivamente funerário ou ritual, “O dossel e santuário dos vasos canópicos” (objecto JE 60686). Para outros exemplos, neste ponto, na colecção Vd. Hawass, Z., King Tutankhamun: Treasures of the Tomb.; Carter, H., Mace, A., C., The Tomb of Tut.ankh.amen: Search, Discovery and Clearance of the Antechamber.; Carter, H., The Tomb of Tut.ankh.amen: The Annexe and Treasury.; Carter, H., The Tomb of Tut.ankh.amen: The Burial Chamber.

113 Localização actual: National Museums Liverpool (World Museum) e está registado sob o número

de acesso M11186. 114

Reeves, N., Wilkinson, R. H., The Complete Valley of the Kings: The Tombs and Treasures of Egypt’s Greatest Pharaohs, 192.

115 Decorativa e económica.

116 Cf. Chang, Química, 526.

(24)

18

Durante o antigo Egipto a sua utilidade estava também muito relacionada com a produção do mobiliário. As ferramentas usadas na transformação da madeira tinham, no Império Novo, inevitavelmente pelo menos um componente feito em bronze119

, que proporcionava um nível de mestria excepcional no corte e restante trabalho de madeira120. Assim, as características físicas desta liga metálica tornavam-na

duplamente valiosa: o bronze era perfeito para ser usado como ferramenta e por apresentar elevada maleabilidade121

era ideal para uso na decoração de peças de mobiliário. Um aspecto arqueológico importante a ter em atenção no que toca ao início do uso da liga metálica bronze em detrimento do metal cobre é o facto de este último raramente existir em estado puro na natureza, surgindo normalmente com impurezas que podem adulterar testes químicos usados na actualidade para identificar os constituintes de determinada peça. Assim, torna-se difícil estabelecer um momento determinado na história do antigo Egipto para a criação da liga metálica122.

A diferença entre o metal puro cobre e a liga metálica bronze era bem conhecido pelos antigos egípcios, especialmente pelas similaridades que o último tinha com o ouro123. Assim, de uma forma geral, e por estarem inevitavelmente

ligados, a proveniência do bronze coincidia com a do cobre. Os locais vitais de importação incluíam o Chipre, o Sinai, o sudoeste Asiático e a Núbia124

.

ANÁLISE SIMBÓLICA DOS METAIS

A importância simbólica dos metais era extremamente detalhada e complexa. O ouro, 125 , gozava da mais significativa simbologia.

Naturalmente perseverante era igualmente divino e logo estabelecia uma relação com a eternidade e o renascimento126. Desde os primórdios da civilização egípcia, e muito

provavelmente desde tempos anteriores, que a sua cor natural, o radiante dourado,

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

118 Este facto tornou o bronze no perfeito substituto do cobre em ferramentas, aspecto completamente

generalizado durante o Império Novo.

119 Alguns instrumentos poderiam ter ainda elementos de cobre, metal que estava na base da precisão

do corte e trabalho da madeira. 120

Killen, G., “Furniture” in Redford, D. B. (ed), The Oxford Encyclopedia of Ancient Egypt, vol. 1, 580.

121 Característica que advinha da sua ductibilidade.

122 Lacovara, P., Markowitz, Y. J., Op. Cit., 200. 123

Uma grande durabilidade e com um polimento extremo adquiria a tão desejada cor áurea. 124Ibidem.

125 Cf. Gardiner, Sir A., Egyptian Grammar, 505.

126 Schorsch, D., “Precious-Metal Polychromy in Egypt in the Time of Tutankhamun” in The Journal

(25)

19

ajudou a estabelecer uma ligação com o sol e o deus que por ele era representado127

, Ré. Os egípcios sempre tiveram esse dom, o de associar a sua mitologia à sua realidade. O que viam era magistralmente introduzido no seu sistema de crenças. Virá, portanto, sem surpresa, a associação entre carne dos deuses egípcios e o ouro, o amarelo do disco solar, a representação do deus primordial Ré.

A prata, 128, era associada à lua e à pureza. O deus lunar por

excelência era Tot, mas Nefertem terá sido o deus mais representado num tom prateado129

. É comum encontrar-se o disco lunar feito em prata, essencialmente em peças de joalharia130, representando claramente a cor da lua e por definição o material

do qual era certamente feita. Mas de todas as simbologias associadas a este metal, a mais significativa era sem dúvida a sua associação aos ossos dos deuses. Frequentemente encontra-se prata dourada (coberta por ouro), em objectos como peitorais131, uma referencia quase anatómica da ligação entre o ouro e a prata na

composição física dos deuses.

Ao electrum, 132, era atribuída uma simbologia que variava de acordo

com a percentagem presente dos dois elementos que o constituíam e que alteravam o seu aspecto significativamente, podendo passar por ouro ou prata, sendo essa alteração definida pelo elemento dominante. No entanto, a existência natural deste metal prova um ponto importante, o ouro e a prata estavam inegavelmente ligados e as suas repercussões simbólicas eram inultrapassáveis. A explicação desenvolvida pelos antigos egípcios sobre a anatomia divina estava sem dúvida certa133.

O cobre, 134, encontra a sua mais significativa simbologia na cor que

varia de acordo com o tipo de impurezas que se introduziam na sua matriz135

. O seu valor comercial era substancialmente inferior ao dos metais mais frequentemente

                                                                                                               

127 Wilkinson, R. H., Op. Cit., 82. 128 Cf. Gardiner, Sir A., Ibidem. 129

Deuses solares como Hórus ou Hathor tinham também uma vertente lunar. Cf. Schorsch, D., Op. Cit., 57.

130 Lacovara, P., Markowitz, Y. J., Op. Cit., 287. 131

Cf. Ibidem. 132

Designado por bom ouro, um material precioso. Cf. Gardiner, Sir A., Op. Cit., 505.

133 Na realidade, a cor estava mais frequentemente ligada à escolha do metal que iria ser usado do que a

sua facilidade em ser trabalhado. Cf. Schorsch, D., Op. Cit., 57. 134

Cf. Gardiner, Sir A., Ibidem, 564.

135 As impurezas produziam exemplos de cobre com variações de cor desde o vermelho, castanho ou

(26)

20

utilizados, tornando-o assim uma presença rara no mobiliário da elite do Império Novo.

O bronze, 136, tem um simbologia importantíssima, que vinha

directamente das suas características químicas que tornam esta liga num material que não só pouco sofria com o passar do tempo como se devidamente polido se tornava dourado, elevando-o ao nível do ouro. Transportava assim a mesma simbologia do amarelo, do dourado resplandecente mas a um preço bastante mais reduzido e a sua inclusão como adorno de peças de mobiliário ficou por este facto garantida. No Império Novo este aspecto foi importantíssimo pois com a exigência extrema de ouro pelo Império, o facto de outro material poder copiar a simbologia do mais nobre de todos os metais em peças de mobiliário era não só um achado como certamente um alívio.

OUTROS MATERIAIS

No mobiliário do Império Novo, encontram-se exemplos que percorrem todo o espectro de elementos desde minerais como pedras semipreciosas137

, passando por exemplos como a complexa manipulação de minerais simples para obtenção de pasta de vidro colorido138, , até ao uso de gesso como base

decorativa, podendo em alguns casos ser coberto por um metal nobre, o recorrente gesso dourado sendo aplicado de forma a servir de elemento de ligação dando forma à imagem que se pretendia desenhar139

.

MINERAIS

A exploração da terra em busca de minerais pelos antigos Egípcios é amplamente conhecida140. Esta procura não era, como se poderia pensar,

exclusivamente pelos minerais comummente referidos como pedras preciosas e semipreciosas mas também por minerais usados como matéria prima na produção de outros componentes de grande importância para o mobiliário. Um exemplo de

                                                                                                               

136

Cf. Ibidem, 582.

137 Hawass, Z., King Tutankhamun: Treasures of the Tomb, 56.

138 Chamado de “A pedra que flui”. Cf. Wilkinson, R. H., Symbol and Magic in Egyptian Art, 88. 139 Vd. Anexo I, Figura 13, 7.

Imagem

Tabela I – Esquematização dos materiais usados nas peças de mobiliário estudadas.

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