INTERNACIONAL
R REPORTAGEM
A
Em um passo considerado ousado, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – o Brics – criam novo Banco de Desenvolvimento e esperam mexer com os tabuleiros da geopolítica mundial
Criação do banco foi formalizada durante a VI Cúpula de líderes do Brics, em Fortaleza; a sede será erguida em Xangai, na China, e a Índia vai assumir a primeira presidência da instituição.
Por André Tennitz
O gigante de
50 bilhões de dólares
pós dois anos de negociação, os países do Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – formalizaram em 15 de julho a criação do New Development Bank (NDB, Novo Banco de Desenvolvimento). Com capital inicial de US$ 50 bilhões, e autorizado de US$ 100 bilhões, a instituição tem o objetivo de aprofundar a integração econômico-financeira do bloco e alavancar recursos para projetos de infraestrutura e de desenvolvimento sustentável nos países-membros e em outras economias emergentes. O banco terá sede em Xangai, na China, e um primeiro escritório regional na África do Sul.
Anunciada durante a VI Cúpula de líderes do Brics, em Fortaleza, o NDB é uma demons- tração de força e representa o passo mais ousado dado pelo grupo que surgiu em 2006 do
acrônimo criado cinco anos antes pelo economis- ta britânico Jim O’Neill, do banco de investimen- t o s n o r t e - a m e r i c a n o Goldman Sachs, para designar as economias emergentes em acelerado processo de desenvolvi- mento. A instituição surge t a m b é m e m m e i o à frustração desses países com a falta de avanço das prometidas reformas do Banco Mundial e do F u n d o M o n e t á r i o Internacional (FMI) para permitir que a estrutura de poder dessas organiza- ções, dominada pelos países desenvolvidos, s o b r e t u d o E s t a d o s Unidos, Inglaterra, França
e Alemanha, reflita de
Marcelo Camargo / ABrMarcelo Camargo / ABr
Guido Mantega: “ no banco do Brics,
o poder é igual. O importante é quem
tem o controle acionário, e não
haverá controle acionário de ninguém”.
INTERNACIONAL
R REPORTAGEM
A
Em um passo considerado ousado, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – o Brics – criam novo Banco de Desenvolvimento e esperam mexer com os tabuleiros da geopolítica mundial
Criação do banco foi formalizada durante a VI Cúpula de líderes do Brics, em Fortaleza; a sede será erguida em Xangai, na China, e a Índia vai assumir a primeira presidência da instituição.
Por André Tennitz
O gigante de
50 bilhões de dólares
pós dois anos de negociação, os países do Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – formalizaram em 15 de julho a criação do New Development Bank (NDB, Novo Banco de Desenvolvimento). Com capital inicial de US$ 50 bilhões, e autorizado de US$ 100 bilhões, a instituição tem o objetivo de aprofundar a integração econômico-financeira do bloco e alavancar recursos para projetos de infraestrutura e de desenvolvimento sustentável nos países-membros e em outras economias emergentes. O banco terá sede em Xangai, na China, e um primeiro escritório regional na África do Sul.
Anunciada durante a VI Cúpula de líderes do Brics, em Fortaleza, o NDB é uma demons- tração de força e representa o passo mais ousado dado pelo grupo que surgiu em 2006 do
acrônimo criado cinco anos antes pelo economis- ta britânico Jim O’Neill, do banco de investimen- t o s n o r t e - a m e r i c a n o Goldman Sachs, para designar as economias emergentes em acelerado processo de desenvolvi- mento. A instituição surge t a m b é m e m m e i o à frustração desses países com a falta de avanço das prometidas reformas do Banco Mundial e do F u n d o M o n e t á r i o Internacional (FMI) para permitir que a estrutura de poder dessas organiza- ções, dominada pelos países desenvolvidos, s o b r e t u d o E s t a d o s Unidos, Inglaterra, França
e Alemanha, reflita de
Marcelo Camargo / ABrMarcelo Camargo / ABr
Guido Mantega: “ no banco do Brics,
o poder é igual. O importante é quem
tem o controle acionário, e não
haverá controle acionário de ninguém”.
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Arquivo ABDE
INTERNACIONAL
No encontro de Fortaleza, os dirigentes dos países do Brics assinaram tam- bém um acordo para disponibilizar até US$ 100 bilhões de suas reservas interna- cionais para se ajudarem mutuamente em caso de problemas de balanço de paga- mentos. Cada país terá um limite de recursos que poderá pedir aos sócios se enfrentar eventuais crises de liquidez.
Pelos termos do acordo, denominado Arranjo Contingente de Reservas (ACR), a China entrará com a maior cota, de US$ 41 bilhões. Brasil, Rússia e Índia vão disponibilizar US$ 18 bilhões cada um, cabendo à África do Sul US$ 5 bilhões. Em caso de dificuldades, cada país poderá sacar uma vez e meia o valor correspondente à sua participação.
Se o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), como emprestador de recursos de longo prazo, pode ter como referência o Banco Mundial, o ACR, voltado a oferecer ajuda para situações emergenciais, se espelha no Fundo Monetário Internacional (FMI). A ideia é que até 30% do valor da cota possa ser sacado como empréstimo de curto prazo. Para ter acesso a valores mais ele- vados, qualquer um dos países terá que negociar um acordo de ajuste de suas contas com o FMI.
Bancos de fomento vão financiar empresas em moeda local
Arranjo Contingente de Reservas (ACR ) , assinado pelos dirigentes dos cinco países do Brics, vai disponibilizar até US$ 100 bilhões de reservas internacionais.
Outro acordo firmado durante o encontro em Fortaleza estabeleceu que instituições de fomento do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul vão dis- ponibilizar linhas de crédito em moeda local para investidores do bloco. No acordo assinado durante a VI Cúpula do Brics, os bancos de desenvolvimento se comprometem a financiar mutuamente as empresas de seus países, dentro de limites fixados previamente.
Na prática, o mecanismo vai permitir que empresa chinesa, por exemplo, possa investir no Brasil recebendo créditos em reais do BNDES. Em contra- partida, uma companhia brasileira terá condições de desenvolver projetos na China com crédito em moeda local, fornecido pelo banco chinês de fomento.
O presidente do BNDES, Luciano Coutinho (foto), explicou que o meca- nismo deve incentivar a internacionalização das empresas dos cinco países que investem dentro do bloco. “Para investimentos diretos, isso é importante porque as companhias que investem em outros mercados têm suas receitas na moeda local”, observou.
No caso do BNDES, segundo Coutinho, o funding para as operações pode- rá ser obtido no exterior e não vai disputar espaço com as fontes locais de recursos. “O BNDES poderá fazer captações externas. Já fizemos isso de for- ma bem-sucedida”, disse ele.
Mecanismo vai ajudar a enfrentar crises de balanço de pagamentos
maneira mais fiel a atual configuração econômica e geopolítica mundial.
Na declaração final do encontro, os líderes do Brics afirmaram estar “desapontados e seriamen- te preocupados” com o atraso das reformas das instituições multilaterais. A presidenta Dilma Rousseff lembrou que, embora sejam responsá- veis por mais de 40% da população e por um quarto do PIB global, os países do Brics têm apenas 11% do poder de voto no FMI. Observou ainda que, com a criação do novo banco, o bloco “ganha densidade política e afirma seu papel no cenário
mundial”, além de “dar uma contribuição importante à reconfiguração do sistema de governança econômica internacional”. Procurou, todavia, evitar um tom de confron- tação. “O banco não é contra ninguém. É a nosso favor. É uma constatação de que o mundo é multilateral”, afirmou a presidenta.
Demanda – Apresentada formalmente pela Índia na reunião de cúpula de Nova Délhi, no início de 2012, a proposta de criação de um banco de fomento do Brics se consolidou no ano seguinte, no encontro de Durban, na África do Sul. “Hoje é evidente que as atuais instituições multilate- rais, embora tenham expandido sua base de recursos durante a recente crise global, não são capazes de atender às imensas necessidades de investimento dos países emergentes”, afirma o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, embaixador Carlos Márcio Cozendey. “Isso ficou claro, inclusive, em discussões levadas a cabo no G-20 (grupo que reúne as 19 maiores economias e a União Europeia), nas quais os países desenvolvidos deixaram claro que não fariam tão cedo outra capitalização dessas instituições.”
O NDB, porém, não se propõe a substituir as fontes tradicionais de financia- mento, mas a criar um espaço adicional de mobilização de recursos para as economias em desenvolvimento. Conforme estabelece o artigo primeiro do Acordo Constitutivo do novo banco, que define os objetivos da nova instituição, ela agirá “complementando os esforços existentes de instituições financeiras multilaterais e regionais em prol do cresci- mento e do desenvolvimento globais”.
O NDB nasce com capital maior que o do Banco Interamericano de Desenvolvimento, de US$ 35 bilhões, e do próprio Banco Mundial, atualmente de aproximadamente US$ 40 bilhões. Para a economista Glória Moraes, professora da Faculdade Mackenzie Rio, é importante que os países emergentes, que vêm crescendo a taxas superiores à média internacional nos últimos anos, disponham de um instrumento financeiro próprio para dar suporte à expansão e suas economias. “O Banco Mundial e outras instituições multilate- rais existentes têm hoje pouco fôlego e seguem a agenda imposta pelos Estados Unidos e pelos principais países europeus”, diz ela. “Essas instituições”, acredita, “não estão, necessariamente, comprometidas com o desenvolvimento econômico dos países da periferia sistêmica.”
Os resultados, porém, não deverão aparecer no curto prazo. Para que possa ter validade, o acordo de criação do NDB precisa ser ratificado pelos parlamentos dos países do
Brics. Além disso, embora a estimativa oficial seja a de que o banco comece a funcionar em 2016, ele só atingirá a capacida- de plena de operação no início da próxima década. Isso porque o capital inicial de US$ 50 bilhões, que será dividido igualmente entre os sócios, não será integralizado de uma só vez. Após a aprovação dos respectivos poderes legislativos, cada país terá de fazer um aporte inicial de US$ 2 bilhões, completando os US$ 10 bilhões de sua cota num período de sete anos.
Condicionalidades – Ainda que em grande parte tenha sido concebido num modelo que espelha as instituições multilaterais em atividade, o NDB pretende marcar diferenças importantes na forma de operação. A principal delas será não estabelecer condicionalidades, exigências de ações de política econômica, como privatização e abertura comercial, que se tornaram comuns, por exemplo, nas operações do Banco Mundial a partir dos anos 1980.
“Quando se definiu que a nova instituição seria voltada para a área de infraestrutura e para o desenvolvimento sustentá- vel, consolidou-se a ideia de um banco de projetos, e não de policy”, diz Cozendey. “Portanto, o NDB não vai vincular seus empréstimos à adoção de políticas específicas, nem condicionar a liberação de recursos a outros aspectos que não sejam a viabilidade econômica e ambiental dos projetos financiados.”
O ato constitutivo do NDB define um escopo bastante amplo para as operações do banco do Brics. A instituição poderá dar suporte a projetos públicos ou privados por meio de empréstimos, garantias, participação acionária e outros instrumentos financeiros. O NDB também deverá cooperar com instituições internacionais e outras entidades financei-
ras, além de prover assistência técnica aos projetos apoiados.
“O novo banco abre a possibilidade de acesso a recursos que não os de mercado para financiar projetos, principalmen- te de infraestrutura e de modernização e atualização de estruturas produtivas, que, geralmente, exigem recursos vultosos e possuem baixas taxas de retorno”, diz Glória Moraes. As diretrizes operacionais, entretanto, ainda serão detalhadas pelos órgãos diretivos da nova instituição, que também deverá captar recursos no mercado financeiro global. Segundo Cozendey, a avaliação é de que o NDB conseguirá obter classificação de risco melhor que a conferida hoje, individualmente, aos países-membros – o que justifica a expectativa de que ele conseguirá operar com custos reduzidos e taxas de juros competitivas.
Um ponto importante, de acordo com Glória Moraes, é que a instituição deverá agregar a experiência que os sócios possuem com seus próprios bancos de desenvolvimento – todos eles importantes e decisivos para os projetos nacionais.
“Não se pode falar de desenvolvimento econômico da China sem citar o Banco de Desenvolvimento da China, assim como não se pode tratar de desenvolvimento econômico do Brasil sem mencionar o BNDES”, diz ela.
Capital – Os sócios fundadores do NDB terão participação equitativa no capital da instituição. Isso significa que cada um dos cinco membros iniciais terá igual poder de voto, e não haverá predominância de nenhum país em detrimento dos demais. Conforme ressaltou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, no evento em que a instituição foi anunciada, “no banco do Brics, o poder é igual. O importante é quem tem o controle acionário, e não haverá controle acionário de ninguém”.
Marcelo Camargo / ABr
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No encontro de Fortaleza, os dirigentes dos países do Brics assinaram tam- bém um acordo para disponibilizar até US$ 100 bilhões de suas reservas interna- cionais para se ajudarem mutuamente em caso de problemas de balanço de paga- mentos. Cada país terá um limite de recursos que poderá pedir aos sócios se enfrentar eventuais crises de liquidez.
Pelos termos do acordo, denominado Arranjo Contingente de Reservas (ACR), a China entrará com a maior cota, de US$ 41 bilhões. Brasil, Rússia e Índia vão disponibilizar US$ 18 bilhões cada um, cabendo à África do Sul US$ 5 bilhões. Em caso de dificuldades, cada país poderá sacar uma vez e meia o valor correspondente à sua participação.
Se o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), como emprestador de recursos de longo prazo, pode ter como referência o Banco Mundial, o ACR, voltado a oferecer ajuda para situações emergenciais, se espelha no Fundo Monetário Internacional (FMI). A ideia é que até 30% do valor da cota possa ser sacado como empréstimo de curto prazo. Para ter acesso a valores mais ele- vados, qualquer um dos países terá que negociar um acordo de ajuste de suas contas com o FMI.
Bancos de fomento vão financiar empresas em moeda local
Arranjo Contingente de Reservas (ACR ) , assinado pelos dirigentes dos cinco países do Brics, vai disponibilizar até US$ 100 bilhões de reservas internacionais.
Outro acordo firmado durante o encontro em Fortaleza estabeleceu que instituições de fomento do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul vão dis- ponibilizar linhas de crédito em moeda local para investidores do bloco. No acordo assinado durante a VI Cúpula do Brics, os bancos de desenvolvimento se comprometem a financiar mutuamente as empresas de seus países, dentro de limites fixados previamente.
Na prática, o mecanismo vai permitir que empresa chinesa, por exemplo, possa investir no Brasil recebendo créditos em reais do BNDES. Em contra- partida, uma companhia brasileira terá condições de desenvolver projetos na China com crédito em moeda local, fornecido pelo banco chinês de fomento.
O presidente do BNDES, Luciano Coutinho (foto), explicou que o meca- nismo deve incentivar a internacionalização das empresas dos cinco países que investem dentro do bloco. “Para investimentos diretos, isso é importante porque as companhias que investem em outros mercados têm suas receitas na moeda local”, observou.
No caso do BNDES, segundo Coutinho, o funding para as operações pode- rá ser obtido no exterior e não vai disputar espaço com as fontes locais de recursos. “O BNDES poderá fazer captações externas. Já fizemos isso de for- ma bem-sucedida”, disse ele.
Mecanismo vai ajudar a enfrentar crises de balanço de pagamentos
maneira mais fiel a atual configuração econômica e geopolítica mundial.
Na declaração final do encontro, os líderes do Brics afirmaram estar “desapontados e seriamen- te preocupados” com o atraso das reformas das instituições multilaterais. A presidenta Dilma Rousseff lembrou que, embora sejam responsá- veis por mais de 40% da população e por um quarto do PIB global, os países do Brics têm apenas 11% do poder de voto no FMI. Observou ainda que, com a criação do novo banco, o bloco “ganha densidade política e afirma seu papel no cenário
mundial”, além de “dar uma contribuição importante à reconfiguração do sistema de governança econômica internacional”. Procurou, todavia, evitar um tom de confron- tação. “O banco não é contra ninguém. É a nosso favor. É uma constatação de que o mundo é multilateral”, afirmou a presidenta.
Demanda – Apresentada formalmente pela Índia na reunião de cúpula de Nova Délhi, no início de 2012, a proposta de criação de um banco de fomento do Brics se consolidou no ano seguinte, no encontro de Durban, na África do Sul. “Hoje é evidente que as atuais instituições multilate- rais, embora tenham expandido sua base de recursos durante a recente crise global, não são capazes de atender às imensas necessidades de investimento dos países emergentes”, afirma o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, embaixador Carlos Márcio Cozendey. “Isso ficou claro, inclusive, em discussões levadas a cabo no G-20 (grupo que reúne as 19 maiores economias e a União Europeia), nas quais os países desenvolvidos deixaram claro que não fariam tão cedo outra capitalização dessas instituições.”
O NDB, porém, não se propõe a substituir as fontes tradicionais de financia- mento, mas a criar um espaço adicional de mobilização de recursos para as economias em desenvolvimento. Conforme estabelece o artigo primeiro do Acordo Constitutivo do novo banco, que define os objetivos da nova instituição, ela agirá “complementando os esforços existentes de instituições financeiras multilaterais e regionais em prol do cresci- mento e do desenvolvimento globais”.
O NDB nasce com capital maior que o do Banco Interamericano de Desenvolvimento, de US$ 35 bilhões, e do próprio Banco Mundial, atualmente de aproximadamente US$ 40 bilhões. Para a economista Glória Moraes, professora da Faculdade Mackenzie Rio, é importante que os países emergentes, que vêm crescendo a taxas superiores à média internacional nos últimos anos, disponham de um instrumento financeiro próprio para dar suporte à expansão e suas economias. “O Banco Mundial e outras instituições multilate- rais existentes têm hoje pouco fôlego e seguem a agenda imposta pelos Estados Unidos e pelos principais países europeus”, diz ela. “Essas instituições”, acredita, “não estão, necessariamente, comprometidas com o desenvolvimento econômico dos países da periferia sistêmica.”
Os resultados, porém, não deverão aparecer no curto prazo. Para que possa ter validade, o acordo de criação do NDB precisa ser ratificado pelos parlamentos dos países do
Brics. Além disso, embora a estimativa oficial seja a de que o banco comece a funcionar em 2016, ele só atingirá a capacida- de plena de operação no início da próxima década. Isso porque o capital inicial de US$ 50 bilhões, que será dividido igualmente entre os sócios, não será integralizado de uma só vez. Após a aprovação dos respectivos poderes legislativos, cada país terá de fazer um aporte inicial de US$ 2 bilhões, completando os US$ 10 bilhões de sua cota num período de sete anos.
Condicionalidades – Ainda que em grande parte tenha sido concebido num modelo que espelha as instituições multilaterais em atividade, o NDB pretende marcar diferenças importantes na forma de operação. A principal delas será não estabelecer condicionalidades, exigências de ações de política econômica, como privatização e abertura comercial, que se tornaram comuns, por exemplo, nas operações do Banco Mundial a partir dos anos 1980.
“Quando se definiu que a nova instituição seria voltada para a área de infraestrutura e para o desenvolvimento sustentá- vel, consolidou-se a ideia de um banco de projetos, e não de policy”, diz Cozendey. “Portanto, o NDB não vai vincular seus empréstimos à adoção de políticas específicas, nem condicionar a liberação de recursos a outros aspectos que não sejam a viabilidade econômica e ambiental dos projetos financiados.”
O ato constitutivo do NDB define um escopo bastante amplo para as operações do banco do Brics. A instituição poderá dar suporte a projetos públicos ou privados por meio de empréstimos, garantias, participação acionária e outros instrumentos financeiros. O NDB também deverá cooperar com instituições internacionais e outras entidades financei-
ras, além de prover assistência técnica aos projetos apoiados.
“O novo banco abre a possibilidade de acesso a recursos que não os de mercado para financiar projetos, principalmen- te de infraestrutura e de modernização e atualização de estruturas produtivas, que, geralmente, exigem recursos vultosos e possuem baixas taxas de retorno”, diz Glória Moraes. As diretrizes operacionais, entretanto, ainda serão detalhadas pelos órgãos diretivos da nova instituição, que também deverá captar recursos no mercado financeiro global. Segundo Cozendey, a avaliação é de que o NDB conseguirá obter classificação de risco melhor que a conferida hoje, individualmente, aos países-membros – o que justifica a expectativa de que ele conseguirá operar com custos reduzidos e taxas de juros competitivas.
Um ponto importante, de acordo com Glória Moraes, é que a instituição deverá agregar a experiência que os sócios possuem com seus próprios bancos de desenvolvimento – todos eles importantes e decisivos para os projetos nacionais.
“Não se pode falar de desenvolvimento econômico da China sem citar o Banco de Desenvolvimento da China, assim como não se pode tratar de desenvolvimento econômico do Brasil sem mencionar o BNDES”, diz ela.
Capital – Os sócios fundadores do NDB terão participação equitativa no capital da instituição. Isso significa que cada um dos cinco membros iniciais terá igual poder de voto, e não haverá predominância de nenhum país em detrimento dos demais. Conforme ressaltou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, no evento em que a instituição foi anunciada, “no banco do Brics, o poder é igual. O importante é quem tem o controle acionário, e não haverá controle acionário de ninguém”.
Marcelo Camargo / ABr
INTERNACIONAL
Pelo acordo constitutivo, determinadas decisões estratégicas só poderão ser tomadas por maioria especial, ou seja, mediante dois terços dos votos e a aprovação de pelo menos quatro dos cinco sócios fundadores. “Isso quer dizer que os membros originais terão influência grande, mas nenhum terá o poder de veto”, explica Cozendey. “É uma regra importante, pois impede bloqueios no processo decisório, e abre a perspectiva de uma gestão equilibrada.”
O acordo prevê ainda que outros países integrantes da
25%
do PIB mundial
15%
do comécio mundial
O Brics Organização das Nações Unidas, bancos de investimento e instituições multilaterais poderão se tornar acionistas do banco – como tomadores ou não tomadores de recursos. A entrada desses novos acionistas é justamente um dos casos que terão de ser aprovados por maioria especial dos integran- tes do Brics. Os novos membros não poderão ter, individual- mente, mais do que 7% do capital, e os cinco países fundado- res, em qualquer hipótese, terão sempre garantida uma participação mínima de 55%.
Além do capital integralizado e de recursos captados no mercado, o NDB poderá administrar fundos especiais de investimentos formados pelos sócios, que não precisarão seguir a mesma proporção do capital. Esses recursos, porém, não farão parte do capital do banco e, portanto, não influen- ciarão o poder de voto de cada país. O primeiro desses fundos, segundo Cozendey, deverá ter o objetivo específico de financiar e apoiar tecnicamente a preparação de projetos – área identificada como uma das principais carências dos países do grupo.
Governança compartilhada – Haverá um rodízio entre os países-membros na indicação dos dirigentes. O primeiro presidente executivo, conforme ficou acertado na reunião de Fortaleza, será indicado pela Índia, vindo a seguir o Brasil, acompanhado por Rússia, África do Sul e China. O mandato será de cinco anos. Cada país fundador indicará ainda um vice-presidente.
A instância máxima de decisão política do novo banco será o Conselho de Governadores. Indicados pelos sócios, os governadores deverão ter status ministerial. Caberá a esse conselho, inicialmente sob o comando da Rússia, definir, a cada cinco anos, as linhas estratégicas de atuação do banco. O órgão se reunirá uma vez por ano, no mínimo, e terá poderes para admitir novos sócios, aumentar ou diminuir o capital, decidir sobre a suspensão de membros que não tenham cumprido com suas obrigações, emendar o acordo constituti- vo da instituição, aprovar acordos de cooperação com outras organizações internacionais, deliberar sobre a distribuição de resultados, decidir pelo encerramento das atividades e eleger o presidente executivo.
Completa a estrutura o Conselho de Diretores, que será presidido inicialmente pelo Brasil. O board será responsável pela condução das operações gerais do banco e, de acordo com as orientações do Conselho de Governadores, deverá tomar as decisões sobre estratégias de negócios, aprovar operações de empréstimo, garantias ou a utilização de outros instrumentos financeiros, aprovar o orçamento anual e submeter as contas da instituição à aprovação dos governadores.
Diferentemente do modelo das instituições multilaterais existentes, o board será não residente, ou seja, não terá sede fixa. Cada sócio fundador apontará um diretor. O modelo, nota Cozendey, é mais próximo ao das modernas sociedades anônimas, onde os diretores representam diretamente os acionistas. Caso ocorra a entrada de novos sócios, o Conselho de Governadores estabelecerá regras, de modo que o total de diretores não passe de 10. Os diretores se reunirão pelo menos a cada quatro meses, terão mandado de dois anos e poderão ser reeleitos.
Banco do Brics
As principais características da nova instituição de desenvolvimento
África do Sul
Brasil
China
Índia
Rússia
Capital inicial do Banco será de
US$ 50 bilhões
dividido igualmente entre os sócios
Banco vai alavancar recursos para projetos de infraestrutura e de desenvolvimento sustentável nos países-membros e em outras economias emergentes.
A sede será em Xangai, na China, e o primeiro escritório regional na África do Sul.
Estimativa inicial para o começo das operações é em 2016.
Cada país terá de fazer um aporte inicial de US$ 2 bi, completando os US$ 10 bi de sua cota num período de sete anos.
Todos os cinco membros fundadores têm igual poder de voto.
Presidente-Executivo
mandato rotativo entre os países-membros; o primeiro será indicado pela Índia.
Vice-presidentes
cada país fundador indicará um executivo para a função.
Conselho de Governadores
instância máxima de decisão política; indicados pelos sócios, terá o poder ministerial.
Conselho de Diretores
será coordenado inicialmente pelo Brasil e cada sócio-fundador apontará um diretor, que terá mandado de dois anos e poderá ser reeleito; mesmo com a entrada de novos sócios, o total de diretores não poderá ser superior a 10. O órgão se reunirá pelo menos a cada quatro meses e será responsável pela condução das operações gerais do banco, devendo, entre outras ações, tomar as decisões sobre estratégias de negócio e aprovar o orçamento anual.
Outros países integrantes da ONU poderão ser acionistas e, assim, membros do Banco.
Decisões estratégicas deverão ser aprovadas por maioria especial (2/3 dos votos) e por pelo menos 4 dos 5 membros fundadores. Não haverá poder de veto.
PROPOSTA
RECURSOS COMPOSIÇÃO
GOVERNANÇA
CAPITAL
US$ 35 bi
Banco Mundial US$ 40 bi BRICS BID
US$ 50 bi
11%
do poder de voto no FMI
$
R REPORTAGEM
40%
da população
mundial
INTERNACIONAL
Pelo acordo constitutivo, determinadas decisões estratégicas só poderão ser tomadas por maioria especial, ou seja, mediante dois terços dos votos e a aprovação de pelo menos quatro dos cinco sócios fundadores. “Isso quer dizer que os membros originais terão influência grande, mas nenhum terá o poder de veto”, explica Cozendey. “É uma regra importante, pois impede bloqueios no processo decisório, e abre a perspectiva de uma gestão equilibrada.”
O acordo prevê ainda que outros países integrantes da
25%
do PIB mundial
15%
do comécio mundial
O Brics Organização das Nações Unidas, bancos de investimento e instituições multilaterais poderão se tornar acionistas do banco – como tomadores ou não tomadores de recursos. A entrada desses novos acionistas é justamente um dos casos que terão de ser aprovados por maioria especial dos integran- tes do Brics. Os novos membros não poderão ter, individual- mente, mais do que 7% do capital, e os cinco países fundado- res, em qualquer hipótese, terão sempre garantida uma participação mínima de 55%.
Além do capital integralizado e de recursos captados no mercado, o NDB poderá administrar fundos especiais de investimentos formados pelos sócios, que não precisarão seguir a mesma proporção do capital. Esses recursos, porém, não farão parte do capital do banco e, portanto, não influen- ciarão o poder de voto de cada país. O primeiro desses fundos, segundo Cozendey, deverá ter o objetivo específico de financiar e apoiar tecnicamente a preparação de projetos – área identificada como uma das principais carências dos países do grupo.
Governança compartilhada – Haverá um rodízio entre os países-membros na indicação dos dirigentes. O primeiro presidente executivo, conforme ficou acertado na reunião de Fortaleza, será indicado pela Índia, vindo a seguir o Brasil, acompanhado por Rússia, África do Sul e China. O mandato será de cinco anos. Cada país fundador indicará ainda um vice-presidente.
A instância máxima de decisão política do novo banco será o Conselho de Governadores. Indicados pelos sócios, os governadores deverão ter status ministerial. Caberá a esse conselho, inicialmente sob o comando da Rússia, definir, a cada cinco anos, as linhas estratégicas de atuação do banco. O órgão se reunirá uma vez por ano, no mínimo, e terá poderes para admitir novos sócios, aumentar ou diminuir o capital, decidir sobre a suspensão de membros que não tenham cumprido com suas obrigações, emendar o acordo constituti- vo da instituição, aprovar acordos de cooperação com outras organizações internacionais, deliberar sobre a distribuição de resultados, decidir pelo encerramento das atividades e eleger o presidente executivo.
Completa a estrutura o Conselho de Diretores, que será presidido inicialmente pelo Brasil. O board será responsável pela condução das operações gerais do banco e, de acordo com as orientações do Conselho de Governadores, deverá tomar as decisões sobre estratégias de negócios, aprovar operações de empréstimo, garantias ou a utilização de outros instrumentos financeiros, aprovar o orçamento anual e submeter as contas da instituição à aprovação dos governadores.
Diferentemente do modelo das instituições multilaterais existentes, o board será não residente, ou seja, não terá sede fixa. Cada sócio fundador apontará um diretor. O modelo, nota Cozendey, é mais próximo ao das modernas sociedades anônimas, onde os diretores representam diretamente os acionistas. Caso ocorra a entrada de novos sócios, o Conselho de Governadores estabelecerá regras, de modo que o total de diretores não passe de 10. Os diretores se reunirão pelo menos a cada quatro meses, terão mandado de dois anos e poderão ser reeleitos.
Banco do Brics
As principais características da nova instituição de desenvolvimento
África do Sul
Brasil
China
Índia
Rússia
Capital inicial do Banco será de
US$ 50 bilhões
dividido igualmente entre os sócios
Banco vai alavancar recursos para projetos de infraestrutura e de desenvolvimento sustentável nos países-membros e em outras economias emergentes.
A sede será em Xangai, na China, e o primeiro escritório regional na África do Sul.
Estimativa inicial para o começo das operações é em 2016.
Cada país terá de fazer um aporte inicial de US$ 2 bi, completando os US$ 10 bi de sua cota num período de sete anos.
Todos os cinco membros fundadores têm igual poder de voto.
Presidente-Executivo
mandato rotativo entre os países-membros;
o primeiro será indicado pela Índia.
Vice-presidentes
cada país fundador indicará um executivo para a função.
Conselho de Governadores
instância máxima de decisão política; indicados pelos sócios, terá o poder ministerial.
Conselho de Diretores