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COMO ASSIM? IMAGENS DE REFERÊNCIA?

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COMO ASSIM? IMAGENS DE REFERÊNCIA?

Lucas Pacheco Brum (UnB)

Introdução

Nos dias atuais, as visualidades

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têm se apresentado com cada vez mais força polissêmica na vida diária dos sujeitos. Este momento atual, denominado por Raimundo Martins (2006) como “civilização das imagens”, é marcado pelas experimentações efêmeras, pelos prazeres pequenos e momentâneos, pelos momentos de vida íntima com os telefones celulares, ipod, iphones de alta resolução, de relações interpessoais via web, pelas plataformas de relacionamentos, mais conhecidas como culturas online ou culturas de ciberespaços em que sujeitos se expõem/mostram e divulgam o melhor de si.

Esses hábitos configuram a era das imagens, traçando um novo desenho da contemporaneidade, onde nós professores e os nossos/as estudantes estamos convivendo com um universo eletronicamente conectado nas redes da web, invadida pela mídia de informação, pela propagação de imagens publicitárias, pelo consumo e pelo capitalismo. As imagens chegam até nós instantaneamente em alta resolução pelos sites, telefones celulares e por outros meios de comunicação, demandando novas formas de vivermos, pensarmos, agirmos e nos portarmos. Sobre o momento atual, Paul Duncum, diz que “em nenhum outro momento da história da humanidade foi possível comunicar-se instantaneamente com outras partes do mundo mediante o apoio de imagens de alta resolução” (DUNCUM, 2011, p. 17).

Esse fator se compreende pelo acesso à informação e pelo avanço do processo tecnológico que movimenta os indivíduos no sentido de serem produtores e consumidores de suas imagens, pois a forma de se relacionar com o mundo mudou, exigindo que os indivíduos sejam cibernéticos, eletrônicos e móbiles. A maioria das pessoas está sob conexão e em conexão umas com as outros, a partir do mundo digital, e esse, sempre acompanhado de visualidades e dispositivos em formatos diversos que permitem novas formas de comunicação.

As visualidades e as imagens estão intrinsecamente conectadas ao mundo e à vida das pessoas. “A cada dia, consumimos quase 18.000 imagens somente percorrendo nossos trajetos

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Entendo visualidade como um campo maior, que abriga as imagens. Visualidade pode ser entendida a partir dos

estudos da cultura visual tudo que é visível. As “visualidades” incluem: artefatos culturais, imagens objetos,

performances, peças de teatro, espetáculos de danças e de músicas, etc. Já a “imagem”, é entendida como uma

reprodução, imitação, ou representação de um objeto qualquer.

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cotidianos, rotineiros, demandados por nossas obrigações e compromissos diários”

(TOURINHO, 2011a, p. 09). A partir dessa perspectiva, Martins (2011, p. 16) aponta que “a velocidade e o volume de imagens que sitiam e interpelam cotidianamente constituem uma espécie de avalanche que nos arrasta, desnorteia e fragmenta sem que tenhamos tempo para refletir, analisar ou fazer algum tipo de crítica sobre elas”.

Em todas as instâncias, sejam elas mais simples - como a sacola do supermercado - até os meios mais imagéticos, como as mídias de massa, está explícita a imagem carregada de seus significados com seus códigos e signos. E esses podem produzir discursos, políticas, saberes sociais, econômicos, artísticos, religiosos e ficcionais. A imagem é comunicativa, discursiva, informativa, interpretativa. Ela nos provoca, nos toca, afeta nos modos de ver, agir e pensar, podendo, ainda, propagar ideias, informações, narrativas e formas de lazer e entretenimento. Ela tornou-se indispensável e indissociável da vida contemporânea, pois através dela o homem compra, vende, comunica, informa e divulga. Enfim, está carregada de significados e conceitos que implicam em nossos comportamentos, atitudes e estilo de vida.

Desse modo, é evidente, o processo de Educação e especificamente o da Educação em Artes Visuais é permeado por imagens, muitas das quais são convencionadas e legitimamente instituídas pelo teor intelectual e cultural que elas abarcam, mais especificamente as imagens da História da Arte, que se apresentam demasiadamente nos currículos escolares e nos planejamentos dos/as professores/as. As imagens que ocupam espaço e território no currículo estão, a todo o momento, em conflito com as imagens e visualidades advindas das diferentes culturas, das mídias, dos processos midiáticos, das redes sociais, dos cotidianos e dos corpos dos/as estudantes. Encontramos um número exorbitante de imagens que chegam endereçadas à escola, à sala de aula e no currículo, que estão presentes através dos telefones celulares dos/as estudantes, nas músicas que ouvem e nos modos como falam, andam, se comportam, expressam e agem - nos processos de subjetivações.

Entretanto, nesse texto primeiramente discorro sobre a formulação do conceito de

imagens de referência desenvolvida na pesquisa de mestrado, bem como, os modos que elas

exercem sobre os/as estudantes diferentes influências. Para isso faço um recorte de alguns

resultados encontrados na investigação dos modos como às imagens de referência impactam e

produzem os/as estudantes, e os modos como as quais estão implicadas nas vivências e

experiências de suas vidas. É importante destacar que as análises realizadas aqui sofreram

pequenas alterações do texto original – dissertação.

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Como assim? Imagens de referência?

O conceito, “imagens de referência”, é entendido do ponto de vista das imagens que constituem os repertórios visuais dos/as estudantes a partir das mídias sociais. O conceito formulado refere-se às imagens que constituem os repertórios visuais dos/das estudantes a partir das mídias sociais. As imagens de referência estão relacionadas,

às imagens que são importantes e significativas e que, de alguma forma, produzem sentidos e experiências em suas vidas cotidianas. Toma-se como exemplo a imagem dos cantores (as), atores (atrizes) de seriados e de novelas, os personagens e super-heróis de filmes e desenhos animados, das histórias em quadrinhos, como os mangás, e as celebridades que circulam no facebook, instagram, twitter, site, blogs, YouTube entre outros. (BRUM, 2017, p. 21).

A título de exemplo, cito algumas imagens de referência, tais como: Whindersson Nunes, Dani Russo, Selena Marie Gomez, Barbie, Pablo Vittar, Anitta, Ariana Grande, Kéfera Buchmann, Jutsin Biebe, Cléo Pires, Sérgio Dutra Santos e entre outros.

Figura 01: Exemplos de imagens de referência.

Desse modo, as imagens de referência são aquelas que circulam e estão presentes na

vida diária dos/as estudantes, e que de algum modo produzem sentido e significado em suas

vidas “impactando nos modos ser e estar no mundo e influenciado as suas atitudes,

pensamentos, gostos, modos de falar, de vestir, de andar e pensar” (BRUM, 2017, p. 23). Elas

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estão entrelaçadas com a cultura de cada um e os modos como cada um se relacionam com suas imagens, que nem sempre se apresentam de maneira explícita no cotidiano escolar, sendo impressas nas roupas ou materiais escolares. Essas imagens chegam à escola, através dos/as estudantes, e estão nos seus modos de caminhar, expressar, falar, agir e comportar e vestir.

Elas se revelam na maneira como os/as estudantes falam, andam, pensam, ou seja, encontram um modo de expressão em seus corpos através de um processo de subjetivação na construção de si, agindo, modificando, deslocando e transformando as experiências que os/as estudantes têm consigo mesmo. Elas exercem sobre eles diferentes influências e que tais influências só fazem sentido em suas vidas, quando estão relacionadas com a sua cultura e as suas experiências e vivências pessoais que vivem diariamente, na “construção de si”.

Entretanto, as imagens de referências estão imersas nas relações de poder/saber e regimes de verdades, de tal modo operam subjetivações sedutoras, sutis e complexas, uma vez, que o universo imagético dos/as estudantes que habitam o cenário escolar é disseminador de informação, entretenimento, signos, conceitos, política e discursos sobre eles (TOURINHO, 2011a).

O impacto e as influências das imagens de referência nas vivências e experiências na vida dos/das estudantes.

Devido à complexidade do conceito formulado, as imagens de referência exercem sobre os/as estudantes diferentes influências, de tal forma que há variadas possibilidades imagens se tornarem referência em suas vidas. Isso ocorre pelo meio da cultura em que vivem produzindo e operando experiências de vidas, valores, atitudes, comportamento, verdades e modos de ser e agir. Nesse sentido, para este ensaio, escolhi - a partir de dois dados visuais - duas imagens de referência, juntamente com as falas de duas estudantes, para exemplificar como o conceito opera a partir dos modos como os/as estudantes se relacionam com suas imagens, bem como elas estão implicadas nas vivências e experiências de vidas. Para isso, os holofotes estarão voltados para apenas uma influência que impacta a vida dos/das estudantes e produz a construção de si.

A partir dos dados levantados, uma estudante conta um momento familiar que ela

estava vivenciando, no qual a sua imagem de referência ajudou a resolver os seus problemas

pessoais. Essa estudante tem como imagem de referência a “Dani Russo” (Fig. 02), que é uma

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personalidade da internet e das mídias sociais, mais conhecida popularmente como YoTuber.

Sobre o que estava acontecendo em sua casa com sua família, ela conta o seguinte,

A Dani Russo, tipo eu estava vendo um vídeo dela sobre violência, porque ela apanhou da mãe dele por uma coisa que ela não fez e tal (ela apanhou recentemente). Ela tipo, é contra a violência, ela acha que tudo é na base da conversa e eu também sou assim, eu acho que me identifico muito com ela nesta parte de pensar. Tipo eu penso do mesmo jeito que ela, ela pensa que tudo é na base da conversa. Tudo para mim é a conversa, tipo ontem aconteceu algo triste de mais entre o meu pai e minha mãe, o meu pai fez algo para minha mãe (a estudante não quis falar o que aconteceu entre seus pais, não quis insistir, percebi que ela abaixou a cabeça) e eu falei vamos conversar parem com isso me senti mal, por isso a conversa é tudo. (Fala retirada das transcrições dos Grupos Focais).

Figura 02: Imagem de referência “Dani Russo”.

A forte influência da imagem de referência da “Dani Russo” para esta estudante se

apresenta no sentido de que a sua imagem é contra qualquer tipo de violência. O fato de a

referida imagem “Dani Russo” ter apanhado de sua mãe e ter gravado um vídeo sobre o

ocorrido, em seu canal no YouTube, dizendo que é contra a violência, demonstra a relação

singular que a estudante tem com ela, de modo que a imagem opera na sua subjetividade, a

partir das relações de saber/poder que a produz e a constrói em si mesma. Em outras palavras,

está relacionada com experiências que a estudante têm de si, a partir de um conjunto de

regime de verdades (FOUCAULT, 1985), neste caso os vídeos de depoimento sobre a

violência da YoTuber que ela acompanha em seu canal. Esse processo de subjetivação que a

imagem produz sobre a estudante não acontece pelo fato de a YoTuber ter apanhado, mas sim

das ideias sobre a violência que ela produz em seu canal, que de algum modo permite

deslocar, transformar e modelar as experiências e as vivências que a estudante tem consigo

mesma. Conforme Foucault, são técnicas e procedimentos de “si” que

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[...] permitem aos indivíduos, por conta própria ou com a ajuda de outros, certo número de operações sobre seu corpo e sua alma, pensamentos, condutas ou qualquer forma de ser, obtendo assim uma transformação de si mesmos, com o fim de alcançar certo estado de felicidade, pureza, sabedoria ou imortalidade (FOUCAULT, 1990, p. 48).

Em buscas que realizei pela internet, observei que Dani Russo publicou nas suas redes sociais o que aconteceu com ela. Ela tinha chegado à sua casa, de um evento que estava realizando, com umas 20 sacolas na mão, onde se encontravam presentes que tinha ganhado de seus fãs, como por exemplo: ursinhos, cartas, camisinhas, vibradores, presentes de loja, catuaba

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e entre outros objetos. E, no meio desses vários objetos havia um dichavador de maconha

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, que escondeu da sua mãe, dentro de sua caixa de relógio, para que ela não achasse.

Foi à academia, chegando de volta em casa, sua mãe tinha achado o dichavador de maconha e não queria saber de suas explicações, porque ela tinha escondido. Assim, naquele momento, sua mãe ficou brava e começou a bater nela com um a peça de churrasqueira.

Após o acontecido, ela ficou sumida por alguns dias do seu canal no YouTube, porque, segundo ela, não estava “legal” e com a “cabeça cheia de coisa”. Fotos divulgadas por ela mostram os hematomas e os roxos que ficaram pelo seu corpo. Dani Russo, posteriormente, aproveitou o acontecido para divulgar uma mensagem para os seus seguidores, no seu Twitter (Fig. 03) e no seu canal no YouTube, que foi a seguinte:

No Twitter:

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É uma bebida alcoólica originária do Brasil, à qual se atribuem propriedades afrodisíacas. É preparada a partir de diversas plantas que popularmente levam o nome de catuaba.

3

Conhecido também como um esmurrugador, triturador. É um pequeno aparelho com um sistema interno

moedor ou triturante, utilizado para, entre outros fins, preparar o tabaco ou outros tipos de fumo para posterior

confecção de cigarros, ou como moedor de ervas finas e especiarias (como pimenta calabresa e outras pimentas,

oréganos, etc.) para o preparo de alimentos.

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Figura 03: Imagem retirada da Internet sobre o desabafo da Dani Russo quando apanhou da sua mãe nas suas redes sociais.

No seu canal no YouTube

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:

[...] em minha opinião nem mesmo se eu tivesse matado uma pessoa, isto seria motivo para minha mãe e nem para ninguém do mundo para levantar um dedo para mim. Eu acho que nada se resolve na base do soco, da gritaria, bater em filho para mim não é educar. Eu sou totalmente contra qualquer tipo de violência, dentro de casa, na rua e com os animais. Nada se resolve com a violência galera, sem nem mesmo os caras que adestram cães precisam bater nos cachorrinho para ensinar alguma coisa, porque um pai tem que bater em um filho para ensinar [...] quando minha mãe me bateu eu não aprendi nada com aquilo, só senti um sentimento de revolta, de sair de casa [...] se você quer ensinar conversa, não é batendo que você resolve tudo [...] (Fragmento da fala da Dani Russo no seu canal no YouTube).

Na sua mensagem sobre o ocorrido, Dani Russo expõe sua opinião de que nada se resolve com a violência, que é conversando que se resolvem os problemas. O discurso da YouTuber, nas suas redes sociais, chama atenção pelo fato de ela não ter culpa nenhuma sobre o que aconteceu e, mesmo assim, ter apanhado, como alguns dos seus seguidores disseram:

“espancada pela mãe”. Ela toma isso como um aprendizado de que não se deve bater em ninguém, por mais que alguém faça alguma coisa de errado. A maneira como Dani Russo encara esta situação, perdoando a sua mãe, e publicando na mídia para os seus seguidores, é o que torna impactante sobre a estudante, e em consequência disso modifica “e media a relação do sujeito consigo mesmo: essa relação na qual se estabelece, se regula e se modifica a experiência que a pessoa tem de si mesma” (LARROSA, 1994, p. 37). Desse modo, a sua imagem exerce sobre a estudante a concepção de que com a violência não se resolve nada e que a melhor forma de resolver os problemas interpessoais, e os desentendimentos que surgem entre as pessoas, é através do diálogo. A YouTuber também propaga a concepção sobre o perdão, o bom relacionamento e a educação.

Entretanto, o discurso presente na sua imagem não se trata de um poder opressor sobre a estudante, mas de relações de poder, aqui compreendido que o poder está em movimento a partir de “estratégias de relações de força sustentando tipos de saber e sendo sustentado por elas” (FOUCAULT, 1979, p. 246). E ainda, construindo valores, atitudes, verdades, condutas, práticas discursivas e modos de ser e estar no mundo, agindo sobre nós, e sobre os/as estudantes de diferentes maneiras transformando suas experiências de si com si.

Nas palavras de Hall, “se todos os discursos produzem posições de sujeitos, somos, portanto,

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O vídeo pode ser assistido em < https://www.youtube.com/watch?v=l6mJobYCkOY >. Acesso em: 27 de dez.

2016.

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posicionados e posicionamos os ‘outros’ dentro de discursos específicos de poder e regularização” (HALL, 1997, p. 56). Para Tourinho (2009), as representações visuais são compreendidas como discursos, “no sentido de que elas sempre “dizem algo” e criam possibilidades para que algo seja dito” (TOURINHO, 2009, p. 141). No entanto, como pontuam os autores, as imagens de referência só dizem algo e provocam discursos para aqueles em que o discurso é interpretado, ou seja, em conexões com as experiências estéticas e com as vivências, modificando-se e transformando-se a partir de um processo de análise consigo mesmo, que efetue de algum modo uma ação de voltar-se para si mesmo. O discurso visual “é construído a partir das articulações que os indivíduos percebem, produzem participam, criticam, e transformam ao viver suas experiências” (TOURINHO, 2009, p. 145).

A força do discurso que a imagem propaga sobre a estudante está relacionada, também, em dizer que não está de mal com sua mãe, e que sua mãe nunca deixou faltar nada a ela, além de que errar é humano e, no momento, ela perdoa a sua mãe. Assim, a maneira como a estudante vê a sua imagem e os significados que atribui a ela estão relacionados às suas experiências, pois só se constrói significados a partir do que é sentido e reconhecido. Isso vem ao encontro de Tourinho e Martins (2011), que corroboram com a discussão, inferindo que

Quando vemos uma imagem, objeto, ou artefato, recorremos às informações gerais e/ou ao conhecimento específico que possuímos. Recorremos a hábitos, valores, referências e contexto para dar sentido/significados o que vemos. (TOURINHO;

MARTINS, 2011, p. 55).

Como destacam os autores, as imagens só têm sentido e significado a partir dos conhecimentos e informações que possuímos, ou seja, a partir das experiências que já tivemos, pois é através dos significados que reconhecemos e damos nomes às coisas que nos rodeiam. As imagens só produzem efeitos nos contextos em que vivemos. Elas são lócus de aprendizagens, pois, a partir das imagens de referência os/as estudantes aprendem;

concepções, ideias, conceitos estilos de vidas que estão implicadas no cotidiano e na produção de sujeitos. Elas formam, informam e educam os sujeitos em si “ao se posicionar como lócus de educação, de formação, de condução da vida das pessoas” todos “aprendem modos de ser e estar no mundo também nesse espaço de cultura” (FISCHER, 2012, p. 113). O pedagógico, entretanto, vai além dos lugares que têm a função de educar, como a escola, a igreja, a família, etc, mas, também outros locais e espaços mais amplos em que a educação ocorre.

Como exemplo tem-se o cinema, a televisão, a publicidade, as campanhas de moda, os

videogames, as histórias em quadrinhos, os álbuns de figurinhas, as revistas, os livros, a

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internet, as mídias sociais, as plataformas de relacionamentos e entre outros, “onde o poder é organizado e difundido” (STEINBERG; KINCHELOE, 2004, p. 14).

As imagens se apresentam como uma forte polissemia nas vidas dos/as estudantes em

“que articulam informação, conhecimento, entretenimento e comunicação. Elas influenciam, direcionam, alteram e transformam sentidos e significados de experiências e de papéis sociais [...]” (TOURINHO, 2011b, p. 06). As imagens de referência agem, seduzem e produzem discursos sobre os/as estudantes de diferentes maneiras. Uma mesma imagem pode determinar várias maneiras de ver e experimentar o visível, além de posicionamentos díspares sobre ela. Elas exercem sobre os/as estudantes diferentes influências e podemos considerar que “os indivíduos se apropriam de características das representações visuais, e as adotam como representação de si mesmo” (FREEDMAN, 2006, p. 26). Mas não são todas as características, elas variam de acordo as experiências e com contexto de cada um.

Vale lembrar, ainda, que nem tudo o que as imagens de referência fazem, falam, propagam, agem, é aceito pelos os/as estudantes, ou seja, não os influenciam. Eles também são críticos e tomam diferentes posicionamentos sobre elas. Por exemplo, a imagem de

“Kéfera” (Fig. 04), que causou divergências entre os/as estudantes do estudo. O que Kéfera faz em seus vídeos e no seu Snapchat

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nem sempre é aceito por algumas estudantes. Isso significa que as imagens nem sempre têm o poder de seduzir e produzir as subjetividades dos seus seguidores na mesma intensidade, pois, às vezes, não estão vinculadas aos espaços em que vivem. Voltar-se a si mesmo, e fazer uma análise si mesmo, a partir dos discursos que as imagens de referência propagam em suas redes sociais, é um processo singular, que acontece quando os sujeitos se permitem se observar, se decifrar, se interpretar e se julgar (LARROSA, 1994). Os sujeitos também são críticos quanto às imagens de que gostam e se apresentam em seu cotidiano; não são passivos frente a elas. Isso pode ser observado na forma como relata outra estudante, falando sobre as atitudes e comportamentos da imagem de “Kéfera”, vista no YouTube.

Em certos lugares (falando da Kéfera) é bem desnecessário, mas em outros ela bem à vontade, ela é bem despojada quando ela quer. Quando ela está na casa dela é do jeito que ela é. Ela grava Snapchat sem sutiã, tipo ela é ela mesmo. Então quando ela vai fazer vídeo ela já e outra pessoa e quando ela vai para certos lugares, ela já é bem diferente também. Algumas coisas que ela faz eu acho desnecessário, acho que não precisa. (Fala retirada das transcrições dos Grupos Focais).

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O Snapchat é uma rede social de mensagens instantâneas voltado para celulares com sistema Android e

iOScriada e desenvolvida por Evan Spiegel, Bobby Murphy e Reggie Brown, estudantes da Universidade

Stanford.

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Figura 04: Imagem de referência “Kéfera Buchmann”.

Kéfera é uma atriz, apresentadora e escritora Brasileira que têm um canal no YouTube que apresenta vários vídeos cotidianos de sua vida e do seu cotidiano.

Na fala da estudante, ela deixa claro que nem tudo o que Kéfera faz (atitudes e comportamentos) ela considera correto, tampouco concorda. Isso demonstra que, por mais que as imagens cheguem endereçadas à vida dos/as estudantes, eles não aceitam todas as influências de uma só imagem na sua vida e no seu dia a dia. Eles se posicionam frente às suas imagens e há certas influências e aspectos dessas suas imagens que não os influenciam - não operam na construção de si. Assim, isso leva à reflexão de que as influências que não lhes afetam são as que não produzem sentido e não são significativas em suas vidas, ou seja, tais influências não estão, de certo modo, vinculadas às suas experiências, ao seu meio e à construção de si.

Neste sentido, percebe-se que alguns estudantes têm seus próprios posicionamentos frente às suas imagens de referência, e que não se deixam se influenciar por completamente, tais como: os comportamentos, as atitudes, as ideias, os modos de falar e de vestir, os conteúdos e os discursos que as imagens compartilham. Eles não filtram todas as influências de uma só imagem; na sua grande maioria todos os estudantes têm mais de uma imagem de referência as quais estão implicados nos seus processos de subjetivação e nas suas experiências de vida. Isso significa, a partir de Hernández (2007)

[...] que uma imagem pode evocar diferentes respostas por parte de diferentes

pessoas. Levar isso em conta pressupõe valorizar não apenas a exploração das

versões díspares de interpretação que se derivam de uma representação, mas também

as defendidas por cada aluno e aluna, a seguir, situar suas diferentes visões em

contextos teóricos, sociais e culturais mais amplos; desvelando-se, clareando-se as

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“lentes” através das quais realizam seus modos de ver. (HERNÁNDEZ, 2007, p. 80 - 81).

Em conformidade com o autor, nem todos veem, interpretam e se deixam influenciar com a mesma imagem. Todos os estudantes têm seus próprios modos de olhar, interpretar e se relacionar com suas imagens, a partir dos seus contextos culturais. Eles se posicionam frente a elas, tendo suas posições críticas, entendendo-se que nem todas as imagens, como nem todas as influências, são subjetivadas e utilizadas em suas vidas. Entretanto, o que aprendem e os modos como se educam através das imagens de referência pode ser para alguns mais significativo do que para outros a partir de uma mesma imagem.

Tourinho (2011b) contribui sobre o papel e a influência das imagens em nossas vidas, destacando que podem variar de acordo com cada um, partindo da cultura em que estamos inseridos e da maneira como nos relacionamos com elas, assim agindo sobre nós de diferentes formas. Isso vem ao encontro do que Hernández (2011) reitera, ao considerar as imagens como portadoras e mediadoras de significados e posições discursivas que contribuem para pensar sobre nós mesmos como sujeitos. Nesse entendimento, as imagens de referência ajudam em um processo de construção de identidades e subjetividade, pois elas oferecem recursos para sua formação, como, por exemplo: o jeito de ser, de se vestir, de agir, de pensar e de se comunicar, além de (re) construir e difundir comportamentos, sentimentos, estilos de vida e aparências, ou seja, na construção que os/as estudantes têm consigo mesmos.

Referências

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