MINISTÉRIO PÚBLICO
--- DIREITO PROCESSUAL PENAL
SEMANA 12
SINOPSE DE ESTUDO
#SouPlenus
#AquiéMP
#TôDentro
SUMÁRIO
1. PERÍCIAS EM GERAL ... 3
2. EXAME CORPO DE DELITO ... 6
3. OUTRAS ESPÉCIES DE PERÍCIAS ... 7
3.1 Exame necroscópico ... 7
3.2 Exumação ... 7
3.4 Exame de lesões corporais ... 8
3.5 Exame do local em que foi praticada a infração ... 9
3.6 Exame laboratorial ... 9
3.7 Exame de destruição ou rompimento de obstáculos e escalada ... 10
3.8 Avaliação ... 10
3.9 Exame de local de incêndio ... 11
3.10 Exame grafotécnico ... 11
3.11 Exame dos instrumentos do crime ... 12
4. INTERROGATÓRIO ... 12
5. CONFISSÃO ... 18
6. DECLARAÇÕES DO OFENDIDO ... 21
7. PROVA TESTEMUNHAL ... 22
8. RECONHECIMENTO DE PESSOAS E COISAS ... 28
9. ACAREAÇÃO ... 29
10. PROVA DOCUMENTAL ... 30
11. INDÍCIOS E PRESUNÇÕES ... 31
12. BUSCA E APREENSÃO ... 32
13. INTERCEPTAÇÃO TELEFÔNICA ... 36
13.1 Procedimento ... 38
14. QUEBRA DE SIGILO DE DADOS BANCÁRIOS, FINANCEIROS E FISCAIS ... 43
15. COLABORAÇÃO PREMIADA ... 47
16. AÇÃO CONTROLADA ... 57
17. INFILTRAÇÃO DE AGENTES ... 60
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA ... 62
Superado o estudo da teoria geral da prova, necessário se faz estudar as provas em espécie.
1. PERÍCIAS EM GERAL
Perícia é o exame realizado por pessoa que tenha conhecimento técnico específico em determinada área do conhecimento. Sua existência é necessária pelo fato de que o juiz não domina todas as áreas de conhecimento, necessitando de auxílio para a compreensão de certas informações.
Art. 159. O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por perito oficial, portador de diploma de curso superior. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 1º Na falta de perito oficial, o exame será realizado por 2 (duas) pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso superior preferencialmente na área específica, dentre as que tiverem habilitação técnica relacionada com a natureza do exame. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 2º Os peritos não oficiais prestarão o compromisso de bem e fielmente desempenhar o encargo. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) A regra é que as perícias sejam realizadas por peritos oficiais, ou seja, servidores pú- blicos do Estado, não havendo necessidade de compromisso. Nesse caso, basta um profissional para a elaboração do laudo. Porém, nada impede que, em sendo a perícia complexa, necessi- te-se de mais de uma perito de especialidades diversas (art. 159, § 7º). Ainda que não seja esse caso, a atuação de dois peritos é mera irregularidade que não tem o condão de gerar a nulidade do exame.
Excepcionalmente, a perícia será realizada por dois peritos não oficiais, os quais devem prestar compromisso e serem portadores de diploma de curso superior. A ausência de compromisso consiste em mera irregularidade inapta a macular o laudo.
Súmula 361-STF: No processo penal, é nulo o exame realizado por um só pe- rito, considerando-se impedido o que tiver funcionado, anteriormente, na diligência de apreensão.
Ressalta-se que a súmula supracitada refere-se apenas à perícia realizada por perito não oficial, na qual são necessários dois. Se for perito oficial, basta um. Ademais, a nulidade apontada é relativa, devendo ser arguida em momento oportuno, sob pena de preclusão, e demonstrado o prejuízo.
Importa salientar que a Lei de Drogas possui disposição especial sobre a realização
de perícia, bastando um perito não oficial, que não ficará impedido:
Art. 50. Ocorrendo prisão em flagrante, a autoridade de polícia judiciá- ria fará, imediatamente, comunicação ao juiz competente, remetendo- -lhe cópia do auto lavrado, do qual será dada vista ao órgão do Ministé- rio Público, em 24 (vinte e quatro) horas.
§ 1º Para efeito da lavratura do auto de prisão em flagrante e estabele- cimento da materialidade do delito, é suficiente o laudo de constatação da natureza e quantidade da droga, firmado por perito oficial ou, na fal- ta deste, por pessoa idônea.
§ 2º O perito que subscrever o laudo a que se refere o § 1º deste artigo não ficará impedido de participar da elaboração do laudo definitivo.
Cabe lembrar que os peritos devem ser imparciais, de forma que as hipóteses de suspeição dos juízes lhes são aplicáveis (art. 280). Dessa forma, as partes não intervêm na no- meação dos peritos (art. 276). O que é possibilitado às partes, ao assistente da acusação e ao ofendido é a formulação de quesitos e a nomeação de assistente técnico:
Art. 159 (...)
§ 3º Serão facultadas ao Ministério Público, ao assistente de acusação, ao ofendido, ao querelante e ao acusado a formulação de quesitos e in- dicação de assistente técnico. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 4º O assistente técnico atuará a partir de sua admissão pelo juiz e após a conclusão dos exames e elaboração do laudo pelos peritos oficiais, sendo as partes intimadas desta decisão. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 5º Durante o curso do processo judicial, é permitido às partes, quanto à perícia: (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
I – requerer a oitiva dos peritos para esclarecerem a prova ou para res- ponderem a quesitos, desde que o mandado de intimação e os quesitos ou questões a serem esclarecidas sejam encaminhados com antecedên- cia mínima de 10 (dez) dias, podendo apresentar as respostas em laudo complementar; (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
II – indicar assistentes técnicos que poderão apresentar pareceres em prazo a ser fixado pelo juiz ou ser inquiridos em audiência. (In- cluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 6º Havendo requerimento das partes, o material probatório que serviu de base à perícia será disponibilizado no ambiente do órgão oficial, que manterá sempre sua guarda, e na presença de perito oficial, para exame pelos assistentes, salvo se for impossível a sua conservação. (In- cluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 7º Tratando-se de perícia complexa que abranja mais de uma área de conhecimento especializado, poder-se-á designar a atuação de mais de um perito oficial, e a parte indicar mais de um assistente técnico.
(Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
O assistente técnico é o perito de confiança da parte e vai atuar com a finalidade de ratificar ou impugnar as informações do laudo oficial. Obviamente, não necessitam ser im- parciais. A não admissão do assistente técnico pelo juiz é decisão irrecorrível, sem prejuízo do manejo de mandado de segurança ou do habeas corpus ou, ainda, alegação em preliminar de apelação, por cerceamento do direito de defesa ou de acusação.
Conforme demonstrado pelos dispositivos acima, o CPP é omisso quanto ao prazo do assistente técnico para apresentar seu laudo, devendo ser fixado pelo juiz. Parte da doutrina defende que deve ser de 10 dias, igual ao laudo oficial, sem prejuízo de dilatação em caso de motivo justificado.
Quanto ao procedimento das perícias, dispõe o art. 160:
Art. 160. Os peritos elaborarão o laudo pericial, onde descreverão mi- nuciosamente o que examinarem, e responderão aos quesitos formula- dos. (Redação dada pela Lei nº 8.862, de 28.3.1994)
Parágrafo único. O laudo pericial será elaborado no prazo máximo de 10 dias, podendo este prazo ser prorrogado, em casos excepcionais, a requerimento dos peritos. (Redação dada pela Lei nº 8.862, de 28.3.1994)
O laudo é o documento em que o perito expõe, discute e conclui sobre os elementos que lhe foram apresentado. Se for elaborado por mais de um perito e havendo divergências entre eles, o juiz tem a faculdade de nomear um terceiro e até mesmo determinar novo exame por outros peritos (art. 180).
Em relação ao valor da prova pericial, expõe o art. 182 que o juiz não ficará adstrito ao laudo, podendo aceitá-lo ou rejeitá-lo, no todo ou em parte. Assim, conclui-se que o CPP adotou o sistema liberatório, pelo qual o magistrado possui liberdade em analisar o laudo, de forma motivada. O sistema liberatório se opõe ao sistema vinculatório, no qual o juiz está vin- culado às conclusões do perito.
Por fim, cabe ressaltar que o juiz também pode negar as perícias que considere des- necessárias ou protelatórias. A única perícia que não pode ser negada é o exame de corpo de delito:
Art. 184. Salvo o caso de exame de corpo de delito, o juiz ou a autori-
dade policial negará a perícia requerida pelas partes, quando não for necessária ao esclarecimento da verdade.
2. EXAME CORPO DE DELITO
Corpo de delito são os vestígios materiais deixados pela infração penal. O exame de corpo de delito é a perícia que tem como objeto esses vestígios. Trata-se de um exame obriga- tório:
Art. 158. Quando a infração deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado.
Art. 161. O exame de corpo de delito poderá ser feito em qualquer dia e a qualquer hora.
Art. 564. A nulidade ocorrerá nos seguintes casos:
III - por falta das fórmulas ou dos termos seguintes:
b) o exame do corpo de delito nos crimes que deixam vestígios, ressalva- do o disposto no Art. 167;
Exame de corpo de delito direto é o qual os peritos dispõe dos próprios vestígios para análise. Por outro lado, no exame de corpo de delito indireto, os vestígios já desapareceram, devendo os peritos utilizar meios acessórios, tais como fotos, prontuários médicos, etc.
Não sendo de forma alguma possível a realização do exame de corpo de delito, em nenhuma hipótese a confissão tomará seu lugar. Por outro lado, a prova testemunhal pode atestar a materialidade delitiva:
Art. 167. Não sendo possível o exame de corpo de delito, por haverem desaparecido os vestígios, a prova testemunhal poderá suprir-lhe a falta.
Dessa forma, há uma gradação a ser seguida: exame de corpo de delito direto, exame indireto, quando não possível aquele, e prova testemunhal, quando não possível a realização de nenhum dos anteriores.
O entendimento do STF, do STJ e da doutrina majoritária é no sentido de que o exa- me de corpo de delito indireto carece de qualquer rigor formal, dispensando a elaboração do laudo pericial. Ademais, no caso de prova testemunhal para suprir a falta, basta o depoimento de uma única testemunha para firmar o convencimento do julgador.
A denúncia pode ser oferecida sem estar acompanhada do exame de corpo de deli-
to, desde que ele seja realizado no curso do processo, com exceção das hipóteses em que sua existência seja uma condição de procedibilidade (ex.: infrações contra a propriedade imaterial e tráfico de drogas). Sobre a perícia em infrações contra a propriedade imaterial:
Súmula 574-STJ: Para a configuração do delito de violação de direito autoral e a comprovação de sua materialidade, é suficiente a perícia realizada por amostragem do produto apreendido, nos aspectos externos do material, e é desnecessária a identificação dos titulares dos direitos autorais violados ou daqueles que os representem.
3. OUTRAS ESPÉCIES DE PERÍCIAS 3.1 Exame necroscópico
Autópsia ou necropsia é um tipo de prova pericial em que são examinadas as partes externas e internas de um cadáver, para aferir a causa da morte, bem como comprová-la:
Art. 162. A autópsia será feita pelo menos seis horas depois do óbito, salvo se os peritos, pela evidência dos sinais de morte, julgarem que possa ser feita antes daquele prazo, o que declararão no auto.
Parágrafo único. Nos casos de morte violenta, bastará o simples exame externo do cadáver, quando não houver infração penal que apurar, ou quando as lesões externas permitirem precisar a causa da morte e não houver necessidade de exame interno para a verificação de alguma cir- cunstância relevante.
Como se infere do artigo supra, o tempo mínimo de segurança para a realização da necropsia é de 6 horas. Esse tempo é necessário para se ter certeza dos sinais tanatalógicos, com a constatação da morte, de modo a evitar qualquer equívoco fatal. No entanto, quando a morte for evidente, não há necessidade de esperar esse tempo, devendo ser declarado no auto pelo perito.
Todavia, em caso de morte violenta, ou seja, morte não natural, poderá ser feito ape- nas simples exame externo do cadáver, de acordo com as hipóteses do parágrafo único do art.
162 do CPP. Ex.: decapitação ou carbonização da vítima.
3.2 Exumação
A exumação é outra modalidade de prova pericial. Está prevista nos arts. 163 a 166 do CPP e significa desenterrar ou tirar o cadáver do túmulo em que foi enterrado, para a realização de autópsia, em caso de dúvida posterior ao sepultamento, para o refazimento de perícia ou para a complementação de dados já colhidos.
É necessária justa causa para que seja feita a exumação, por meio de autorização ju- dicial, devendo ser seguido o procedimento legal, sob pena de cometimento de contravenção penal (art. 67 da Lei de Contravenções Penais).
Quem pode determinar a exumação? Em regra, cabe à autoridade policial (que con- duzirá a diligência), mas o juiz e o Ministério Público também podem determiná-la (art. 47).
A legislação prevê algumas regras procedimentais:
Art. 163. Em caso de exumação para exame cadavérico, a autoridade providenciará para que, em dia e hora previamente marcados, se realize a diligência, da qual se lavrará auto circunstanciado.
Parágrafo único. O administrador de cemitério público ou particular indicará o lugar da sepultura, sob pena de desobediência. No caso de recusa ou de falta de quem indique a sepultura, ou de encontrar-se o cadáver em lugar não destinado a inumações, a autoridade procederá às pesquisas necessárias, o que tudo constará do auto.
Art. 165. Para representar as lesões encontradas no cadáver, os peritos, quando possível, juntarão ao laudo do exame provas fotográficas, es- quemas ou desenhos, devidamente rubricados.
Art. 166. Havendo dúvida sobre a identidade do cadáver exumado, pro- ceder-se-á ao reconhecimento pelo Instituto de Identificação e Estatísti- ca ou repartição congênere ou pela inquirição de testemunhas, lavran- do-se auto de reconhecimento e de identidade, no qual se descreverá o cadáver, com todos os sinais e indicações.
Parágrafo único. Em qualquer caso, serão arrecadados e autenticados todos os objetos encontrados, que possam ser úteis para a identificação do cadáver.
Para se identificar o cadáver, podem ser utilizados impressões datiloscópicas, exame de arcada dentária, DNA ou, como indica o dispositivo acima, prova testemunhal. Os objetos são úteis para o reconhecimento por familiares ou outras pessoas próximas.
3.4 Exame de lesões corporais
No crime de lesão corporal, é necessário aferir se as lesões são leves, graves ou gra- víssimas para possibilitar o enquadramento na qualificadora devida, se for o caso.
Entretanto, se ficar constatado que o primeiro exame pericial está incompleto, pode- rá ser realizado exame complementar, o qual será determinado pela autoridade policial ou ju-
diciária, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, do ofendido, do acusado, ou de seu defensor, a fim de aferir a extensão da lesão corporal (art. 168). Assim, na realização do exame completar, os peritos deverão estar de posse do primeiro auto de corpo de delito, para comple- mentá-lo ou ratificá-lo (art. 168, § 1º).
O exame pericial complementar deve ser feito no caso de crime de lesão corporal grave (art. 129, § 1º, I, do CP) logo que completado os 30 dias, para se atestar a gravidade da lesão (art. 168, § 2º). A sua ausência resulta na desclassificação do delito, assim como o exame realizado antes dos 30 dias é ineficaz e o feito após a recuperação é considerado não realizado.
Porém, caso os vestígios do crime desapareçam, a prova testemunhal suprirá o exa- me complementar (art. 168, § 3º).
3.5 Exame do local em que foi praticada a infração
Para possibilitar a realização desse exame, a autoridade policial tomará as providên- cias necessárias para conservar o local do crime inalterado até a chegada dos peritos, os quais irão fotografar a cena do crime, fazer desenhos ou esquemas elucidativos para instruir seus laudos (art. 169, caput).
Art. 169. Para o efeito de exame do local onde houver sido praticada a infração, a autoridade providenciará imediatamente para que não se al- tere o estado das coisas até a chegada dos peritos, que poderão instruir seus laudos com fotografias, desenhos ou esquemas elucidativos.
Parágrafo único. Os peritos registrarão, no laudo, as alterações do esta- do das coisas e discutirão, no relatório, as consequências dessas altera- ções na dinâmica dos fatos.
Caso haja alteração no lugar do crime, este fato deverá constar no relatório, em que os peritos tirarão suas conclusões levando-se em consideração as alterações havidas, devendo os peritos levantar diversas hipóteses do que pode ter ocorrido.
3.6 Exame laboratorial
É o exame feito em laboratório, com o auxílio dos aparelhos e dos elementos quí- micos necessários, devendo o material do produto analisado ser armazenado, para o caso de ser necessário realizar novo exame ou contraprova, até a prolação da sentença (caso a lei seja omissa).
Art. 170. Nas perícias de laboratório, os peritos guardarão material su- ficiente para a eventualidade de nova perícia. Sempre que conveniente,
os laudos serão ilustrados com provas fotográficas, ou microfotográfi- cas, desenhos ou esquemas.
Um exemplo dessa modalidade de perícia é o exame de identificação de substân- cias entorpecentes ilícitas. No entanto, destaque-se que é suficiente a lavratura de um laudo de constatação da natureza e quantidade da droga, que deve ser feito por um perito oficial ou, na falta deste, por uma pessoa idônea (art. 50, § 1º, da Lei nº 11.343/06). Será necessário o laudo definitivo no caso de ter sido feito o laudo de constatação por pessoa idônea, o qual deverá ser lavrado por dois peritos. Já no caso de o laudo de constatação ter sido lavrado por perito oficial, já tem força de laudo definitivo.
Há também o exame de dosagem alcoólica, que é feito por etilômetro (o popular
“bafômetro”) ou por exame de sangue. Nesse caso, importa mencionar que, para a constatação do crime previsto no art. 306, caput, da Lei 9.503/97, é admitido qualquer meio de prova, como teste de alcoolemia ou toxicológico, exame clínico, perícia, vídeo, prova testemunhal, etc., sem- pre observado o direito à contraprova.
3.7 Exame de destruição ou rompimento de obstáculos e escalada
Esse exame também é chamado de perícia em furto qualificado, o qual é realizado com o intuito de demonstrar as qualificadoras de destruição ou rompimento de obstáculos e escalada do crime de furto (art. 155, §4º, I e II, do CP):
Art. 171. Nos crimes cometidos com destruição ou rompimento de obs- táculo a subtração da coisa, ou por meio de escalada, os peritos, além de descrever os vestígios, indicarão com que instrumentos, por que meios e em que época presumem ter sido o fato praticado.
A realização dessa perícia é obrigatória quando há vestígios, podendo ser suprida por prova testemunhal no caso de desaparecimento, nos termos do art. 167 do CPP.
3.8 Avaliação
O laudo de avaliação das coisas destruídas, deterioradas ou que constituam produto do crime é feito em casos de crimes contra o patrimônio:
Art. 172. Proceder-se-á, quando necessário, à avaliação de coisas des- truídas, deterioradas ou que constituam produto do crime.
Parágrafo único. Se impossível a avaliação direta, os peritos procederão à avaliação por meio dos elementos existentes nos autos e dos que re- sultarem de diligências.
A avaliação poderá ser direta, quando o perito tem contato direto com objeto do exa- me, ou indireta, quando será feita por meio de elementos existentes nos autos e dos que resul- tarem de diligências, como dispõe o parágrafo único.
Esse exame é importante tanto para a dosimetria da pena quanto para a aferição do furto de pequeno valor (art. 155, § 2º, do CP).
3.9 Exame de local de incêndio
Essa modalidade de perícia é utilizada para verificar o crime do art. 250 do Código Penal:
Art. 173. No caso de incêndio, os peritos verificarão a causa e o lugar em que houver começado, o perigo que dele tiver resultado para a vida ou para o patrimônio alheio, a extensão do dano e o seu valor e as demais circunstâncias que interessarem à elucidação do fato.
3.10 Exame grafotécnico
Também chamado de exame caligráfico ou exame de reconhecimento de escritos, é conceituado como o exame que tem o fito de certificar que a letra posta em determinado es- crito pertence à pessoa investigada, de modo que é muito utilizado na determinação de autoria em certos crimes, como de estelionato ou de falsificação.
O procedimento do exame grafotécnico está descrito no art. 174 do CPP:
Art. 174. No exame para o reconhecimento de escritos, por comparação de letra, observar-se-á o seguinte:
I - a pessoa a quem se atribua ou se possa atribuir o escrito será intimada para o ato, se for encontrada;
II - para a comparação, poderão servir quaisquer documentos que a dita pessoa reconhecer ou já tiverem sido judicialmente reconhecidos como de seu punho, ou sobre cuja autenticidade não houver dúvida;
III - a autoridade, quando necessário, requisitará, para o exame, os do- cumentos que existirem em arquivos ou estabelecimentos públicos, ou nestes realizará a diligência, se daí não puderem ser retirados;
IV - quando não houver escritos para a comparação ou forem insuficien- tes os exibidos, a autoridade mandará que a pessoa escreva o que lhe for ditado. Se estiver ausente a pessoa, mas em lugar certo, esta última diligência poderá ser feita por precatória, em que se consignarão as pa- lavras que a pessoa será intimada a escrever.
Ressalta-se que a ausência de intimação do réu resulta na nulidade da prova colhida, mesmo que o escrito não lhe seja atribuído.
Importante salientar que o acusado ou o investigado não é obrigado a fornecer mate- rial de próprio punho para esse exame, por conta do princípio de que ninguém é obrigado a pro- duzir prova contra si mesmo. A omissão não pode ser interpretada em seu desfavor, da mesma forma caso disfarce a letra ou escreva com a mão que não é de costume. No entanto, a doutrina (Nestor Távora e Rosmar Rodrigues de Alencar, p. 672) defende que poderá ser determinada a condução coercitiva do acusado ou do investigado no caso de recusa injustificada.
3.11 Exame dos instrumentos do crime
Instrumentos do crime são aqueles que servem de agente mecânico para a realização do crime, esse exame é feito para verificar a natureza e a eficiência do instrumento (art. 175).
Entende-se por natureza a espécie, o tipo de objeto. Ex.: arma de fogo, arma branca, veneno, etc.
Ele é importante para verificar a ocorrência de crime impossível (art. 17 do CP). Por outro lado, sua ausência não implica em nulidade do processo, podendo ser suprido por outros meios de prova.
4. INTERROGATÓRIO
O interrogatório, incontroversamente, é um meio de prova e está disciplinado nos arts. 185 a 196 do CPP.
Convém mencionar que o interrogatório, quando da ditadura militar, era utilizado com o objetivo de obter a confissão do crime, uma vez que o acusado era tido como o objeto da prova e a confissão era a “rainha das provas”. No entanto, atualmente, considerando a visão garantista do processo penal, o contexto do sistema acusatório e sendo o acusado detentor de direitos, o interrogatório possui natureza mista ou híbrida, pois além de ser meio de prova, também é meio de defesa, uma vez que é oportunizado ao réu apresentar sua versão dos fatos ao juiz, exercendo a autodefesa.
Assim, no exercício da autodefesa, é permitido ao acusado calar-se, sendo assegura- do que o silêncio não seja interpretado em seu desfavor (art. 186, parágrafo único), bem como também poderá mentir, o que decorre do seu direito ao silêncio (art. 5º, LXIII, CF/88).
O interrogatório é dividido em três partes:
I. Fase preliminar: o juiz adverte o acusado sobre o seu direito ao silêncio (interroga- tório sub-reptício), sob pena de nulidade do feito;
II. 1ª parte: fase de qualificação do réu, fundamental para aferição das circunstâncias judiciais (art. 187, § 1º);
III. 2ª parte: diz respeito aos fatos ou ao mérito da causa (art. 187, § 2º).
Art. 187. O interrogatório será constituído de duas partes: sobre a pes- soa do acusado e sobre os fatos.
§ 1º Na primeira parte o interrogando será perguntado sobre a resi- dência, meios de vida ou profissão, oportunidades sociais, lugar onde exerce a sua atividade, vida pregressa, notadamente se foi preso ou pro- cessado alguma vez e, em caso afirmativo, qual o juízo do processo, se houve suspensão condicional ou condenação, qual a pena imposta, se a cumpriu e outros dados familiares e sociais.
§ 2º Na segunda parte será perguntado sobre:
I - ser verdadeira a acusação que lhe é feita;
II - não sendo verdadeira a acusação, se tem algum motivo particular a que atribuí-la, se conhece a pessoa ou pessoas a quem deva ser im- putada a prática do crime, e quais sejam, e se com elas esteve antes da prática da infração ou depois dela;
III - onde estava ao tempo em que foi cometida a infração e se teve notí- cia desta;
IV - as provas já apuradas;
V - se conhece as vítimas e testemunhas já inquiridas ou por inquirir, e desde quando, e se tem o que alegar contra elas;
VI - se conhece o instrumento com que foi praticada a infração, ou qual- quer objeto que com esta se relacione e tenha sido apreendido;
VII - todos os demais fatos e pormenores que conduzam à elucidação dos antecedentes e circunstâncias da infração;
VIII - se tem algo mais a alegar em sua defesa.
Importante! No interrogatório, o direito ao silêncio é relativizado, de modo que o acusado não poderá mentir na 1ª parte do procedimento, devendo fornecer informações verdadeiras a respeito de sua qualificação, sob pena de cometer contravenção penal (art. 68 da Lei de Contravenções Penais), ou de cometer o crime de falsa identidade (art. 307 do CP).
Na segunda parte do interrogatório, o acusado poderá calar-se ou mentir, sal- vo para fazer imputação falsa a alguém, sob pena de cometer o crime de denun- ciação caluniosa (art. 339 do CP) ou fazer autoimputação falsa (art. 341 do CP).
Tem-se que o interrogatório é ato personalíssimo e somente deve ser feito na pre-
sença de um juiz (judicialidade), devendo, ainda, prevalecer a oralidade no seu procedimento.
Significa dizer que apenas a pessoa do próprio acusado poderá prestar depoimento e, no caso de o acusado ser pessoa jurídica, será prestado depoimento por pessoa portadora de carta de preposição.
Ressalte-se que a oitiva do investigado em sede de inquérito policial não se trata de interrogatório, dado o caráter inquisitivo desse procedimento, em que não se é permitido o exercício do contraditório ou da ampla defesa, de modo que o art. 6º, V, do CPP, é aplicado somente no que for cabível.
Em que pese o interrogatório ser regido pela espontaneidade, o Código de Processo Penal permite a condução coercitiva do acusado, caso ele seja intimado e não compareça ao ato, devendo haver a impossibilidade de realizar algum procedimento sem a sua presença (art.
260, caput). Esse ponto é extremamente criticado pela doutrina, que considera o dispositivo como não recepcionado pela constituição, tendo em vista que a autodefesa é renunciável.
Nesse sentido foi, inclusive, o entendimento adotado pelo STF no julgamento das ADPFs 395 e 444. Entendeu-se que “o emprego da medida representa restrição à liberdade de locomoção e viola a presunção de não culpabilidade, sendo, portanto, incompatível com a Constituição Federal”. Ressaltou-se, no entanto, que os atos até então realizados são conside- rados válidos, mas daqui para frente, os agentes ou autoridades públicas que desconsiderarem a decisão do STF poderão responder nos âmbitos civil, administrativo e criminal pelo ato, sem prejuízo da ilicitude de interrogatório e consequente impossibilidade de utilização dos elemen- tos ali angariados.
Em relação ao local do interrogatório, o réu poderá ser ouvido por carta precatória, caso resida em comarca diversa da que tramita o processo, bem como, poderá ser ouvido na sua residência, em caso de velhice ou de enfermidade (arts. 222 e 220, por analogia).
Frise-se que o entendimento do STF é de que a falta de oportunidade do interrogató- rio enseja nulidade relativa do feito, caso haja demonstração do prejuízo.
Nada obsta que se proceda a novo interrogatório de ofício pelo juiz ou a requeri- mento de qualquer das partes, desde que cumpridas todas as etapas processuais por todos os agentes envolvidos no feito, inclusive o acusado, o que evidencia que esse dispositivo não gera o direito ao acusado de ser ouvido a qualquer tempo no processo:
Art. 196. A todo tempo o juiz poderá proceder a novo interrogatório de ofício ou a pedido fundamentado de qualquer das partes.
Além disso, nos procedimentos ordinário e sumário, o interrogatório deve ser o últi-
mo ato da audiência de instrução e julgamento:
Art. 400. Na audiência de instrução e julgamento, a ser realizada no pra- zo máximo de 60 (sessenta) dias, proceder-se-á à tomada de declara- ções do ofendido, à inquirição das testemunhas arroladas pela acusa- ção e pela defesa, nesta ordem, ressalvado o disposto no art. 222 deste Código, bem como aos esclarecimentos dos peritos, às acareações e ao reconhecimento de pessoas e coisas, interrogando-se, em seguida, o acusado.
A importância do interrogatório como último ato de instrução é tamanha que o STF determinou sua aplicação ao processo penal militar:
A exigência de realização do interrogatório ao final da instrução crimi- nal, conforme o art. 400 do CPP, é aplicável no âmbito de processo penal militar.
A realização do interrogatório ao final da instrução criminal, prevista no art. 400 do CPP, na redação dada pela Lei nº 11.719/2008, também se aplica às ações penais em trâmite na Justiça Militar, em detrimento do art. 302 do Decreto-Lei nº 1.002/69.
Logo, na hipótese de crimes militares, o interrogatório também deve ser realizado depois da oitiva das testemunhas, ao final da instrução.
STF. Plenário. HC 127900/AM, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 3/3/2016 (Info 816).
O STF, por questões de segurança jurídica, afirmou que a tese fixada só se tornou obrigatória a partir da data de publicação da ata deste julgamento (10/03/2016), sendo todos os interrogatórios realizados até essa data válidos, ainda que não tenham observado o art. 400 do CPP, ou seja, ainda que tenham sido realizados como primeiro ato da instrução.
Ademais, durante os debates, os Ministros afirmaram que a tese se aplica ao proce- dimento da Lei de Drogas e ao processo de crimes eleitorais, devendo o interrogatório também ser o último ato da instrução, mesmo não havendo previsão legal neste sentido. Portanto, fi- quem atentos!
Em se tratando de Tribunal do Júri, é possível que o réu não compareça ao plenário, de modo que não será interrogado (art. 457, § 2º), o que não acarretará nulidade do ato ou do feito. Caso o réu compareça, as perguntas formuladas pelas partes, poderão ser feitas direta- mente ao réu, porém, as perguntas feitas pelos jurados, serão feitas por intermédio do juiz (art.
474, §§ 1º e 2º).
Observação: o interrogatório não é ato privativo do juiz, de modo que as partes podem par- ticipar do procedimento, inclusive formulando perguntas ao réu (art. 188), ocasião em que o juiz atuará como fiscal dos questionamentos, podendo indeferi-los (sistema presidencialista de perguntas no interrogatório). Além disso, é adotada a individualidade do interrogatório, em que serão feitos interrogatórios separados, quando houver mais de um réu.
Em relação às respostas, o procedimento será o seguinte:
I. Se o réu negar a acusação, poderá prestar esclarecimentos e indicar provas (art. 189);
II. Se o réu confessar a autoria, será perguntado sobre os motivos e as circunstâncias do fato e se outras pessoas concorreram para a prática do delito (art. 190).
Sendo certo que o interrogatório importa em exercício de defesa, o acusado deve ser acompanhado por defensor, ainda que dativo, bem como, tem direito a entrevista prévia com este, sob pena, em ambos os caso, de nulidade absoluta, podendo ser oferecida correição parcial.
Art. 185 (...)
§ 5º Em qualquer modalidade de interrogatório, o juiz garantirá ao réu o direito de entrevista prévia e reservada com o seu defensor; se rea- lizado por videoconferência, fica também garantido o acesso a canais telefônicos reservados para comunicação entre o defensor que esteja no presídio e o advogado presente na sala de audiência do Fórum, e entre este e o preso.
Quanto ao interrogatório do réu preso, em regra, deve ser feito no estabelecimento prisional, desde que assegurada a segurança do juiz, do membro do Ministério Público e dos auxiliares, além de ser garantida a presença do defensor e a publicidade do ato:
Art. 185 (...)
§ 1º O interrogatório do réu preso será realizado, em sala própria, no es- tabelecimento em que estiver recolhido, desde que estejam garantidas a segurança do juiz, do membro do Ministério Público e dos auxiliares bem como a presença do defensor e a publicidade do ato.
§ 2º Excepcionalmente, o juiz, por decisão fundamentada, de ofício ou a requerimento das partes, poderá realizar o interrogatório do réu preso por sistema de videoconferência ou outro recurso tecnológico de trans- missão de sons e imagens em tempo real, desde que a medida seja ne- cessária para atender a uma das seguintes finalidades:
I - prevenir risco à segurança pública, quando exista fundada suspeita de que o preso integre organização criminosa ou de que, por outra razão,
possa fugir durante o deslocamento;
II - viabilizar a participação do réu no referido ato processual, quando haja relevante dificuldade para seu comparecimento em juízo, por en- fermidade ou outra circunstância pessoal;
III - impedir a influência do réu no ânimo de testemunha ou da vítima, desde que não seja possível colher o depoimento destas por videoconfe- rência, nos termos do art. 217 deste Código;
IV - responder à gravíssima questão de ordem pública
Note-se que, excepcionalmente e nas hipóteses dos incisos acima transcritos, pode- rá ser feito interrogatório por videoconferência ou meio virtual ou online ou por meio eletrôni- co. As partes serão intimadas com antecedência de 10 dias (art. 185, § 3º). O réu terá direito a assistir a todos os outros atos referentes à audiência, bem como a ter contato com seu defensor a todo momento, através de telefone. A sala de conferência será fiscalizada por corregedores, pelo juiz, pelo Ministério Público e pela OAB (art. 185, §§ 4º a 6º).
A videoconferência pode ser realizada em qualquer ato que dependa da participação da pessoa presa, como acareação, reconhecimento de coisas e de pessoas, inquirição de teste- munhas ou tomada de declarações do ofendido, sempre acompanhados pelos acusados e pelo defensor (art. 185, §§ 8º e 9º).
Por fim, ressalta-se que esses dispositivos sobre videoconferência foram acrescen- tados ao CPP pela Lei 11.900/09, de modo que o STJ considera eivado de nulidade absoluta o interrogatório realizado por videoconferência antes da referida lei por violação ao devido pro- cesso legal.
Observação: parcela da doutrina entende ser inconstitucional o interrogatório por videocon- ferência, justificando que a presença física do juiz é indispensável à ampla defesa.
Ainda sobre o assunto, atente-se para o seguinte julgado
Não configura nulidade a negativa de pedido da Defensoria Pública de requisição de réu preso para entrevista pessoal com a finalidade de sub- sidiar a elaboração de defesa preliminar. Isso porque inexiste previsão legal que autorize a Defensoria Pública a transferir ao Poder Judiciário o ônus de promoção de entrevista pessoal do réu preso.
STJ. 6ª Turma. RHC 50.791-RJ, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 14/10/2014 (Info 551).
Quando o interrogatório do réu preso não puder ser realizado no estabelecimento prisional nem por videoconferência, deverá ser feito por requisição em juízo, ocasião em que o Estado fará o encaminhamento do réu à sede do juízo para que seja realizado o interrogatório.
Em relação à oralidade no interrogatório, o art. 192 do CPP traz as seguintes possibi- lidades: em interrogatório de surdo, será feito por perguntas escritas, que serão respondidas oralmente; em interrogatório de mudo, as perguntas serão orais e as respostas serão escritas;
em interrogatório de surdo-mudo, as perguntas e as respostas serão escritas; no caso de o in- terrogando não saber ler ou escrever, pessoa habilitada intervirá no ato como intérprete.
Ademais, se o acusado não falar língua nacional, exceto no caso de o idioma ser o português de Portugal ou o castelhano, o interrogatório será feito por intérprete (art. 193).
O curador participará do interrogatório do réu inimputável por doença mental ou que não possua plena capacidade.
Por fim, o acusado, no interrogatório, deverá dar informação acerca da existência de filhos, suas idades e se possuem alguma deficiência, bem como o nome e o contato de eventual responsável pelos cuidados dos filhos.
5. CONFISSÃO
A confissão ocorre quando o réu reconhece os fatos narrados na peça acusatória e está disciplinada nos arts. 197 a 200 do CPP. Sua natureza jurídica é de meio de prova.
Tem-se que a confissão, embora já tenha sido considerada como a rainha das provas, não mais o é, em virtude do sistema de livre convencimento motivado, bem como da inexistên- cia de hierarquia entre as provas, o que possibilita ao juízo, não obstante o réu ter reconhecido a veracidade de sua acusação, determinar a produção de outras provas no processo, para que se possa aferir a sua credibilidade (art. 197).
Apesar de ter o mesmo valor que qualquer prova produzida no processo, lembrem- -se que a confissão não supre a ausência de exame de corpo de delito quando não realizado (art. 158).
A confissão é classificada nos seguintes termos:
Confissão
extrajudicial É a feita fora do processo penal, geralmente perante à autoridade poli- cial, sem observância do contraditório e ampla defesa.
Confissão judicial Feita perante a autoridade judicial. Se realizada perante a autoridade competente, será própria. Se realizada perante a autoridade incompe- tente, será imprópria.
Confissão explícita Feita de maneira evidente, confessando a prática do crime sem deixar dúvidas.
Confissão implícita Quando o acusado paga a indenização. Não tem qualquer valor no pro- cesso penal.
Confissão simples O acusado simplesmente confessa a prática do fato delituoso.
Confissão complexa Quando o réu confirma mais de um fato delitivo contido na acusação.
Confissão qualificada
Além de confessar a prática do fato delituoso, o acusado invoca uma excludente de ilicitude ou de culpabilidade. Também chamada de pon- te de bronze.
Confissão ficta Quando o acusado não contesta os fatos que lhes são imputados. No processo penal, não há que se falar em confissão ficta por conta do princípio da presunção de inocência.
Confissão delatória É a delação premiada. O acusado confessa a prática do fato delituoso e aponta coautores ou partícipes em troca de benefícios previstos em lei.
Também chamada de chamamento do corréu.
Confissão parcial O acusado confessa apenas parte dos fatos narrados na inicial.
Confissão retratada Ocorre quando o agente confessa a prática do delito e, posteriormente, se retrata, negando a autoria.
A confissão extrajudicial é admitida, mas deverá ser reduzida a termo nos autos (art.
199). A menos que feita na presença de defensor, apenas ela não pode fundamentar uma con- denação, com exceção do procedimento do júri, no qual prevalece o sistema da íntima convic- ção do juiz.
Importante ressaltar que a confissão espontânea consiste em atenuante da pena (art. 65, III, “d”, do CP), de caráter subjetivo, aplicada na segunda fase da dosimetria da pena.
Assim, o STJ firmou o entendimento de que as confissões parcial, qualificada e retratada, quan- do utilizadas para condenar o réu, servem para a aplicação da atenuante:
Súmula 545-STJ: Quando a confissão for utilizada para a formação do convencimento do julgador, o réu fará jus à atenuante prevista no art. 65, III, d, do Código Penal.
Se a confissão, ainda que parcial, serviu de suporte para a condenação, ela deverá ser utilizada como atenuante (art. 65, III, “d”, do CP) no mo- mento de dosimetria da pena.
STJ. 6ª Turma. HC 217683/SP, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 25/06/2013.
STJ. 5ª Turma. HC 328021/SC, Rel. Min. Leopoldo de Arruda Raposo (De- sembargador convocado do TJPE), julgado em 03/09/2025 (Info 569).
A confissão qualificada (aquela na qual o agente agrega teses defensivas
discriminantes ou exculpantes), quando efetivamente utilizada como elemento de convicção, enseja a aplicação da atenuante prevista na alí- nea “d” do inciso III do art. 65 do CP.
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1198354/ES, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 16/10/2014.
Se a confissão do agente é utilizada pelo magistrado como fundamento para embasar a condenação, a atenuante prevista no art. 65, inciso III, alínea “d”, do CP deve ser aplicada em favor do réu, não importando que, em juízo, este tenha se retratado (voltado atrás) e negado o crime.
STJ. 5ª Turma. HC 176405/RO, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 23/04/2013.
Ressalte-se que o STF possui alguns julgados em sentido contrário, mas é mais prová- vel que na sua prova seja cobrado o entendimento do STJ, devendo a súmula ser memorizada.
São as características da confissão:
Personalíssima: somente a pessoa do acusado poderá fazê-la, sendo proibida ao preposto ou mandatário, bem como a confissão de um agente não importa a dos demais, em caso de concurso de agentes;
Espontânea: não pode haver qualquer forma de constrangimento para o agente confessar;
Retratável: o réu pode voltar atrás, o que não vincula o juiz, o qual poderá utilizar a confissão anteriormente feita no momento da sentença (art. 200);
Divisível: o juiz pode considerar apenas parte dela, desde que preservada a coe- rência da confissão (art. 200);
Informal: não existe procedimento para a realização da confissão;
Expressa: não há confissão tácita ou ficta, bem como a revelia não induz a presun- ção da veracidade dos fatos;
Importante! O silêncio do acusado não poderá ser considerado negativamente como elemen- to de formação do convencimento do juiz. Desse modo, a parte final do art. 198 do CPP não foi recepcionada pelo ordenamento jurídico atual, em homenagem aos princípios da não autoin- criminação e do direito ao silêncio.
6. DECLARAÇÕES DO OFENDIDO
O ofendido, pessoa que foi vítima da conduta delitiva praticada pelo réu, quando in- timado a ser ouvido, não é considerado testemunha, não tem direito ao silêncio (salvo quando seu depoimento puder incriminá-lo), bem como, não tem compromisso de dizer a verdade, de modo que não poderá incorrer em crime de falso testemunho (art. 203 do CP), sendo possível, no entanto, ser responsabilizado pelo crime de denunciação caluniosa (art. 339).
Art. 201. Sempre que possível, o ofendido será qualificado e pergun- tado sobre as circunstâncias da infração, quem seja ou presuma ser o seu autor, as provas que possa indicar, tomando-se por termo as suas declarações.
§ 1º Se, intimado para esse fim, deixar de comparecer sem motivo justo, o ofendido poderá ser conduzido à presença da autoridade.
§ 2º O ofendido será comunicado dos atos processuais relativos ao in- gresso e à saída do acusado da prisão, à designação de data para au- diência e à sentença e respectivos acórdãos que a mantenham ou mo- difiquem.
§ 3º As comunicações ao ofendido deverão ser feitas no endereço por ele indicado, admitindo-se, por opção do ofendido, o uso de meio eletrôni- co.§ 4º Antes do início da audiência e durante a sua realização, será reserva- do espaço separado para o ofendido.
§ 5º Se o juiz entender necessário, poderá encaminhar o ofendido para atendimento multidisciplinar, especialmente nas áreas psicossocial, de assistência jurídica e de saúde, a expensas do ofensor ou do Estado.
§ 6º O juiz tomará as providências necessárias à preservação da intimi- dade, vida privada, honra e imagem do ofendido, podendo, inclusive, determinar o segredo de justiça em relação aos dados, depoimentos e outras informações constantes dos autos a seu respeito para evitar sua exposição aos meios de comunicação.
Caso o ofendido não compareça em juízo, após ser devidamente intimado, nem jus- tifique o motivo de sua ausência, este poderá ser conduzido coercitivamente, haja vista o seu dever de depor, sob pena de praticar o crime de desobediência, sendo certo também que a não oitiva da vítima é causa relativa de nulidade do feito, devendo, pois, ser demonstrado o prejuízo.
Em caso envolvendo o incêndio da boate “Kiss”, ocorrido em Santa Maria/RS, o STF (Info 823), entendeu que não seria obrigatória a oitiva de todas as vítimas do homicídio ten- tado. Com isso, afirmou que não há direito absoluto à produção da prova, devendo, em casos complexos, ser priorizada a prudência do arbítrio do juízo da causa, quanto à pertinência e
relevância das provas requeridas pelas partes, uma vez que, entre outros motivos pelos quais fundamentou a dispensa da oitiva de todas as vítimas, demandaria mais de 954 horas para co- lher o depoimento das 638 vítimas.
Na oitiva do ofendido, é possível que haja a participação das partes, por meio de perguntas diretamente formuladas à vítima, sendo permitido também em Tribunal do Júri (art.
473). Frise-se que o juiz deverá analisar o depoimento do ofendido, uma vez que este possui peculiar interesse na condenação do ofensor.
Caso seja constatado que a presença do réu poderá causar humilhação, temor ou sério constrangimento ao ofendido, podendo vir a interferir na verdade dos fatos, o juiz poderá determinar que seja feita a inquirição por videoconferência ou, caso não seja possível, deter- minará a retirada do réu, prosseguindo com a inquirição na presença de seu defensor (art. 217, caput).
Na oitiva judicial de crianças e adolescentes que foram supostamente vítimas de cri- mes contra a dignidade sexual, é importante a realização do chamado depoimento sem dano, o qual é um procedimento especial, que consiste no seguinte: a criança ou o adolescente fica em uma sala reservada, sendo o depoimento colhido por um técnico (psicólogo ou assistente social), que faz as perguntas de forma indireta, por meio de uma conversa em tom mais infor- mal e gradual, à medida que vai se estabelecendo uma relação de confiança entre ele e a vítima.
O juiz, o Ministério Público, o réu e o Advogado/Defensor Público acompanham, em tempo real, o depoimento em outra sala por meio de um sistema audiovisual que está gravando a conversa do técnico com a vítima.
Essa prática não é expressamente prevista em lei. Apesar disso, o STJ reconhece sua validade nos crimes sexuais contra criança e adolescente:
Não configura nulidade por cerceamento de defesa o fato de o defen- sor e o acusado de crime sexual praticado contra criança ou adolescente não estarem presentes na oitiva da vítima devido à utilização do método de inquirição denominado “depoimento sem dano”.
STJ. 5ª Turma. RHC 45.589-MT, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 24/2/2015 (Info 556).
7. PROVA TESTEMUNHAL
A prova testemunhal é um meio de prova lícito admitido pelo Direito Processual Pe- nal e é consubstanciada pela pessoa que declara em juízo algo acerca dos fatos ocorridos.
Assim, é uma prova essencialmente produzida em juízo, devendo o depoimento prestado na fase de inquérito ser repetido perante o juiz. De outra sorte, diferentemente do que
ocorre no processo civil, toda e qualquer pessoa pode ser testemunha.
Art. 203. A testemunha fará, sob palavra de honra, a promessa de di- zer a verdade do que souber e lhe for perguntado, devendo declarar seu nome, sua idade, seu estado e sua residência, sua profissão, lugar onde exerce sua atividade, se é parente, e em que grau, de alguma das partes, ou quais suas relações com qualquer delas, e relatar o que souber, expli- cando sempre as razões de sua ciência ou as circunstâncias pelas quais possa avaliar-se de sua credibilidade.
Note-se que a regra é que a testemunha preste compromisso de dizer a verdade, in- dependentemente de lembrança feita pelo juiz. Ela não terá direito ao silêncio, salvo quando os fatos puderem incriminá-la. Assim, incorrerá no crime de falso testemunho, em caso de de- satenção ao compromisso de dizer a verdade ou em caso de exercício do silêncio injustificada- mente.
O depoimento da testemunhal é sempre oral, sendo possível a consulta aponta- mentos. Entretanto, o STJ (Info 431) decidiu que é permitido o depoimento escrito a ser con- feccionado em audiência de instrução e julgamento, na presença de juiz, quando se tratar de vítima de crime contra a dignidade sexual, menor de idade, em razão de abalo psicológico.
Apesar de ser permitido que toda e qualquer pessoa preste depoimento, é necessá- rio fazer algumas ressalvas:
São dispensados do depoimento o ascendente, descendente, afim em linha reta, cônjuge ou companheiro, ainda que separado, irmão, pai, mãe, filho adotivo do réu (não da ví- tima), conforme art. 206 do CPP, salvo em caso de impossibilidade de obter ou integrar a prova do fato e de suas circunstâncias, quando deverão depor;
São dispensadas de prestar compromisso as pessoas doentes e deficientes men- tais e os menores de 14 anos (art. 208), bem como as acima referidas, sendo chamadas de de- clarantes ou informantes, de modo que não integram o número legal de testemunhas;
São proibidas de depor as pessoas que, em razão de função, ministério, ofício ou profissão, devam guardar segredo, salvo se, desobrigadas pela parte interessada, quiserem dar o seu testemunho (art. 207). É o exemplo de padres, médicos, psicólogos, etc. O sigilo inci- dirá apenas sobre os fatos passados, não sobre os futuros. Em caso de desobrigação pela parte, essas pessoas poderão prestar depoimento, ocasião em que prestarão compromisso de dizer a verdade, sob pena de prática de crime de falso testemunho (art. 342).
Observação: os advogados podem recusar-se a depor, ainda que autorizados pela parte inte- ressada.
Os deputados e senadores não são obrigados a depor em relação a fatos ocorridos no exercí- cio do mandato.
Os magistrados e membros do Ministério Público são impedidos de atuar em qualquer ato da persecução penal.
O corréu não pode depor em relação aos fatos que atingem o seu coautor.
As testemunhas classificam-se do seguinte modo:
Testemunhas
numerárias Arroladas pelas partes, compromissadas e integram o número legal.
Testemunhas
extranumerárias Cuja oitiva é determinada de ofício pelo juiz. Em regra, são compro- missadas.
Testemunhas referidas
ou referenciais Pessoas citadas ou referidas pelas testemunhas numerárias.
Testemunhas inócuas Aquelas que não sabem nada acerca do fato criminoso Testemunhas de beati-
ficação (laudadores) Elogiam o réu em relação ao seu comportamento social.
Testemunhas da coroa Agentes infiltrados na investigação criminal.
Testemunhas próprias Prestam depoimento sobre os fatos delitivos, o objeto da causa.
Testemunhas fedatá- rias (impróprias/ins-
trumentárias)
Não prestam depoimento, mas participam da regularidade formal dos atos praticados pelas autoridades, a exemplo da testemunha que assina o auto de formalização de diligência de busca e apreen- são (art. 245, § 7º).
Hearsay Testimony (testemunha indireta)
É a testemunha de “ouvi dizer”. Relata fato que não presenciou, ape- nas ouviu falar, a qual é tida como prova lícita, devendo apenas ser valorada com bastante cautela pelo magistrado.
Quanto a esta última, importante ter em mente o recente julgado do STJ:
O testemunho por ouvir dizer (hearsay rule), produzido somente na fase inquisitorial, não serve como fundamento exclusivo da decisão de pro- núncia, que submete o réu a julgamento pelo Tribunal do Júri.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.373.356-BA, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julga- do em 20/4/2017 (Info 603).
Quanto ao procedimento da prova testemunhal, tem-se que as testemunhas devem ser arroladas na peça acusatória ou na resposta escrita do réu à acusação, sob pena de preclu-
são.
Caso a testemunha resida em comarca diversa da que tramita o processo, poderá ser ouvida por meio de videoconferência. Restando essa impossibilitada, deverá a testemunha ser ouvida por carta precatória (prova fora da terra), sendo fixado prazo razoável para o seu cum- primento. Esse procedimento não suspenderá o processo, mas o julgamento só poderá ser feito após o decurso do prazo fixado, independentemente da devolução da carta precatória, de modo que, por ocasião da devolução, mesmo após o julgamento, deverá ser juntada aos autos (art. 222, caput, §§ 1º e 2º).
Súmula 155-STF: É relativa a nulidade do processo criminal por falta de intimação da expedição de precatória para inquirição de testemunha.
Súmula 273-STJ: Intimada a defesa da expedição da carta precatória, torna-se desnecessá- ria intimação da data da audiência no juízo deprecado.
Ademais, a presença do réu poderá ser dispensada na audiência a ser realizada no juízo deprecado, devendo, no entanto, estar presente o seu defensor, podendo ser nomeado defensor dativo.
Em caso de não comparecimento injustificado da testemunha devidamente intima- da, o juiz poderá determinar a sua condução coercitiva, a ser efetivada por oficial de justiça, o qual poderá ser auxiliado por força policial, caso haja necessidade (art. 218), bem como, poderá ser condenada a pagar multa de 1 a 10 salários-mínimos, custas da diligência, além de conde- nação ao crime de desobediência, devendo, ainda, comunicar ao juízo mudança de endereço, sob pena de incorrer nas penas aqui expostas.
Observação: a testemunha que não reside na comarca do juízo em que foi intimada para pres- tar depoimento não está obrigada a comparecer.
É possível que a parte contradite as testemunhas, o que significa requerer que os depoimentos de certas testemunhas não sejam tomados, em virtude de serem suspeitas de parcialidade ou indignas de fé, devendo a parte fazer prova imediata do alegado (logo após a qualificação das testemunhas), após o que será oportunizada a oitiva da outra parte e da tes- temunha contraditada. Assim, formado o contraditório, o juiz julgará a respeito da contradita, podendo ouvir a testemunha contraditada sem o compromisso de dizer a verdade ou, em caso de dúvida ou por conveniência, poderá o juiz postergar a decisão acerca da contradita, facultan- do-lhe tomar o depoimento desde logo:
Art. 214. Antes de iniciado o depoimento, as partes poderão contraditar a testemunha ou arguir circunstâncias ou defeitos, que a tornem suspei-
ta de parcialidade, ou indigna de fé. O juiz fará consignar a contradita ou arguição e a resposta da testemunha, mas só excluirá a testemunha ou não lhe deferirá compromisso nos casos previstos nos arts. 207 e 208.
Algumas autoridades públicas possuem certas prerrogativas quando prestam depoi- mentos como testemunhas, veja-se:
Art. 221. O Presidente e o Vice-Presidente da República, os senadores e deputados federais, os ministros de Estado, os governadores de Estados e Territórios, os secretários de Estado, os prefeitos do Distrito Federal e dos Municípios, os deputados às Assembleias Legislativas Estaduais, os membros do Poder Judiciário, os ministros e juízes dos Tribunais de Contas da União, dos Estados, do Distrito Federal, bem como os do Tri- bunal Marítimo serão inquiridos em local, dia e hora previamente ajus- tados entre eles e o juiz.
§ 1º O Presidente e o Vice-Presidente da República, os presidentes do Se- nado Federal, da Câmara dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal poderão optar pela prestação de depoimento por escrito, caso em que as perguntas, formuladas pelas partes e deferidas pelo juiz, lhes serão transmitidas por ofício.
§ 2º Os militares deverão ser requisitados à autoridade superior.
§ 3º Aos funcionários públicos aplicar-se-á o disposto no art. 218, deven- do, porém, a expedição do mandado ser imediatamente comunicada ao chefe da repartição em que servirem, com indicação do dia e da hora marcados.
Observação: esse rol é estendido aos advogados públicos federais pela Lei 13.327/2016, em seu art. 38, inciso VI.
Segundo o STJ (Info 547), essa do art. 221 NÃO é aplicada quando a autoridade é con- vocada para ser ouvida na condição de investigado ou de acusado.
Ademais, com base no art. 210 do CPP, deve-se tomar o depoimento das testemunhas separadamente, devendo, ainda, ser garantido espaço reservado para que umas não entrem em contato com as outras. No entanto, caso isso ocorra, haverá mera irregularidade no feito.
O juiz fiscalizará as perguntas formuladas pelas partes diretamente às testemunhas, podendo indeferir perguntas indutivas, que não tiverem relação com a causa, ou importarem a repetição de outra pergunta já respondida (art. 212, caput).
Em relação à ordem das perguntas, primeiro serão formuladas pela parte que arro-
lou a testemunha (direct examination), depois pela parte contrária (cross examination) e, só en- tão, o juiz formulará as perguntas complementares (art. 212, parágrafo único). A inversão dessa ordem gera nulidade relativa, devendo ser demonstrado o prejuízo (STJ, Info 423).
Observação: no Tribunal do Júri, os jurados não podem fazer perguntas diretamente ao ofen- dido e às testemunhas, somente por intermédio do juiz (sistema presidencialista).
Observados os procedimentos previstos nos arts. 213 e 215 do CPP, o depoimento da testemunha será reduzido a termo (devem ser transcritos até os erros de português), devendo ser assinado por ela, pelo juiz e pelas partes. É permitido que outra pessoa assine pela testemu- nha, caso esta não saiba ou não possa fazê-la.
Deve ser observado também o art. 405, § 1º, CPP, em relação à gravação magnética, digital, audiovisual do depoimento:
Art. 405 (...)
§ 1º Sempre que possível, o registro dos depoimentos do investigado, indiciado, ofendido e testemunhas será feito pelos meios ou recursos de gravação magnética, estenotipia, digital ou técnica similar, inclusive audiovisual, destinada a obter maior fidelidade das informações.
Caso a testemunha não conheça a língua nacional, deverá ser nomeado intérprete para traduzir as perguntas e respostas. Tratando-se de surdo, mudo ou surdo-mudo, serão apli- cadas as regras do art. 192 do CPP:
Art. 192. O interrogatório do mudo, do surdo ou do surdo-mudo será feito pela forma seguinte: (Redação dada pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003)
I - ao surdo serão apresentadas por escrito as perguntas, que ele respon- derá oralmente; (Redação dada pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003) II - ao mudo as perguntas serão feitas oralmente, respondendo-as por escrito; (Redação dada pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003)
III - ao surdo-mudo as perguntas serão formuladas por escrito e do mes- mo modo dará as respostas. (Redação dada pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003)
Parágrafo único. Caso o interrogando não saiba ler ou escrever, intervirá no ato, como intérprete e sob compromisso, pessoa habilitada a enten- dê-lo.
As testemunhas que não puderem comparecer ao juízo para prestar depoimento por motivo de enfermidade ou de velhice serão ouvidas no local em que se encontram (art. 220).
Além disso, o juiz poderá antecipar o depoimento de testemunhas quando houver receio de
que, por enfermidade ou velhice, não mais existam ao tempo da instrução (art. 225).
O CPP acautelou a circunstância de quando a presença do réu puder causar humilha- ção, temor ou sério constrangimento, da seguinte forma:
Art. 217. Se o juiz verificar que a presença do réu poderá causar humi- lhação, temor, ou sério constrangimento à testemunha ou ao ofendido, de modo que prejudique a verdade do depoimento, fará a inquirição por videoconferência e, somente na impossibilidade dessa forma, determi- nará a retirada do réu, prosseguindo na inquirição, com a presença do seu defensor.
Parágrafo único. A adoção de qualquer das medidas previstas no caput deste artigo deverá constar do termo, assim como os motivos que a de- terminaram.
Observação: a carta rogatória somente será expedida em último caso e às expensas de quem a requerer, tendo em vista a possibilidade de ser tomado depoimento por meio virtual (art.
222-A)
De mais a mais, é possível a substituição de testemunhas arroladas que não tenham sido encontradas, desde que tenha agido a parte de boa-fé, não sendo permitida a substituição para arrolar testemunha inexistente ou para procrastinar o feito, em aplicação por analogia do art. 451 do CPC/15.
8. RECONHECIMENTO DE PESSOAS E COISAS
É o procedimento utilizado para a identificação de pessoas envolvidas no fato e de coisas importantes para a apuração das responsabilidades pela prática do delito. Referido pro- cedimento está descrito no art. 226 do CP, o qual poderá ser feito na fase policial (autoridade policial) ou na fase judicial (autoridade judiciária):
Art. 226. Quando houver necessidade de fazer-se o reconhecimento de pessoa, proceder-se-á pela seguinte forma:
I - a pessoa que tiver de fazer o reconhecimento será convidada a descre- ver a pessoa que deva ser reconhecida;
Il - a pessoa, cujo reconhecimento se pretender, será colocada, se possí- vel, ao lado de outras que com ela tiverem qualquer semelhança, convi- dando-se quem tiver de fazer o reconhecimento a apontá-la;
III - se houver razão para recear que a pessoa chamada para o reconheci- mento, por efeito de intimidação ou outra influência, não diga a verdade em face da pessoa que deve ser reconhecida, a autoridade providencia- rá para que esta não veja aquela;
IV - do ato de reconhecimento lavrar-se-á auto pormenorizado, subscri- to pela autoridade, pela pessoa chamada para proceder ao reconheci- mento e por duas testemunhas presenciais.
Parágrafo único. O disposto no no III deste artigo não terá aplicação na fase da instrução criminal ou em plenário de julgamento.
Importa salientar que o reconhecimento pode ser tanto do acusado quanto de teste- munhas e até da vítima. O procedimento será feito primeiramente com a descrição do suspeito, depois, será colocada uma pessoa ao lado de outras suspeitas que tenham as mesmas caracte- rísticas físicas, para que seja feita a identificação. No caso de várias pessoas tiverem de fazer a identificação, far-se-á separadamente.
Quanto ao reconhecimento de objeto, será aplicado o art. 226 do CPP no que couber.
Observação: STF permite o reconhecimento de pessoas ou coisas por meio de fotografias. A doutrina estende a possibilidade para vídeos e por voz. Por fim, o “retrato falado” não pode ser utilizado como meio de prova.
9. ACAREAÇÃO
A acareação é utilizada quando houver divergência nas declarações sobre fatos e cir- cunstâncias relevantes e está disposta nos arts. 229 e 230 do CPP:
Art. 229. A acareação será admitida entre acusados, entre acusado e tes- temunha, entre testemunhas, entre acusado ou testemunha e a pessoa ofendida, e entre as pessoas ofendidas, sempre que divergirem, em suas declarações, sobre fatos ou circunstâncias relevantes.
Parágrafo único. Os acareados serão reperguntados, para que expliquem os pontos de divergências, reduzindo-se a termo o ato de acareação.
Art. 230. Se ausente alguma testemunha, cujas declarações divirjam das de outra, que esteja presente, a esta se darão a conhecer os pontos da divergência, consignando-se no auto o que explicar ou observar. Se sub- sistir a discordância, expedir-se-á precatória à autoridade do lugar onde resida a testemunha ausente, transcrevendo-se as declarações desta e as da testemunha presente, nos pontos em que divergirem, bem como o texto do referido auto, a fim de que se complete a diligência, ouvindo-se a testemunha ausente, pela mesma forma estabelecida para a testemu- nha presente. Esta diligência só se realizará quando não importe demo- ra prejudicial ao processo e o juiz a entenda conveniente.
Assim, os acareados são reperguntados para que esclareçam os pontos de divergên-
cia das declarações por eles prestadas em momento anterior, devendo o procedimento ser re- duzido a termo. Em caso de testemunha ausente, deverá ser seguido o procedimento do art.
230 acima transcrito.
A acareação pode ser feita na fase policial e judicial, de ofício ou a requerimento, sendo facultado ao acusado participar ou não do procedimento, bem como assegurado o seu direito ao silêncio.
10. PROVA DOCUMENTAL
Documento é definido como qualquer escrito, instrumento ou papel, público ou par- ticular, contanto que seja original, assim entendida a fotografia do documento devidamente autenticada. Desse modo, são considerados documentos desenhos, fotos, gráficos, e-mails, documentos anônimos (não só os nominativos), desde que tenham origem lícita e sejam ver- dadeiros:
Art. 232. Consideram-se documentos quaisquer escritos, instrumentos ou papéis, públicos ou particulares.
Parágrafo único. À fotografia do documento, devidamente autenticada, se dará o mesmo valor do original.
No processo penal, permite-se a juntada de documentos em qualquer fase do pro- cesso, desde que submetidos ao contraditório, ressalvada a hipótese de impossibilidade de apresentação de documento no Tribunal do Júri, se não tiver sido apresentado com antece- dência mínima de 3 dias, sendo a outra parte cientificada (art. 479, caput). Sobre esse assunto, destaque-se mais uma vez o seguinte julgado:
O prazo de 3 dias úteis a que se refere o art. 479 do CPP deve ser respei- tado não apenas para a juntada de documento ou objeto, mas também para a ciência da parte contrária a respeito de sua utilização no Tribunal do Júri.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.637.288-SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, Rel.
para acórdão Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 8/8/2017 (Info 610).
Em caso de documento apresentado em língua estrangeira, este deverá ser traduzido por tradutor público ou por pessoa idônea nomeada pelo juízo (art. 236).
Observação: a carta particular obtida por meio ilícito não pode ser utilizada em juízo, salvo se em benefício do réu (princípio da proporcionalidade pro reo). Além disso, a carta particular po- derá ser apresentada por seu destinatário, independentemente de autorização do signatário.
Ao juiz é permitido requisitar a apresentação em juízo de documento de que tenha