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CONSTRUINDO UMA ESCUTA DA CRIANÇA: SOFRIMENTO, ÉTICA E ESTÉTICA NA ESCOLA

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Universidade Federal Fluminense Faculdade de Educação Programa de Pós-Graduação

Mestrado em Educação

ANGÉLICA DUARTE DA SILVA ARAUJO

CONSTRUINDO UMA ESCUTA DA CRIANÇA: SOFRIMENTO, ÉTICA E ESTÉTICA NA ESCOLA

Niterói 2018

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ANGÉLICA DUARTE DA SILVA ARAUJO

CONSTRUINDO UMA ESCUTA DA CRIANÇA: SOFRIMENTO, ÉTICA E ESTÉTICA NA ESCOLA

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre em Educação.

Orientador: Profa. Dra. Marisol Barenco de Mello

Niterói 2018

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CONSTRUINDO UMA ESCUTA DA CRIANÇA: SOFRIMENTO, ÉTICA E ESTÉTICA NA ESCOLA

ANGÉLICA DUARTE DA SILVA ARAUJO

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________________________ Presidente da Banca, Profa. Dra. Marisol Barenco de Mello

Universidade Federal Fluminense Orientadora

_________________________________________________________ Prof. Dr. Luciano Ponzio

Universidade de Salento

_________________________________________________________ Prof. Dr. Jader Janer Moreira Lopes

Universidade Federal Fluminense

_________________________________________________________ Prof. Dr Valdemir Miotello

Universidade Federal de São Carlos

Niterói Fevereiro de 2018

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Palavras de Gratidão

Para agradecer aos meus pais, faltam-me palavras. Lágrimas tomam conta dos meus olhos todas as vezes em que penso neles, e aí já não consigo escrever mais nada. Talvez nenhuma palavra de agradecimento seja suficiente para possibilitar a compreensão do tamanho da gratidão que eu sinto. Eu realmente entendo que não seria nada sem os meus pais. A eles, toda a minha gratidão e amor.

À minha amada irmã Shirley, por apoiar minhas ideias loucas, por sempre estar presente em minha vida com palavras de incentivo e carinho. Mesmo em tempos de dificuldades, ela nunca duvidou do meu potencial.

Ao meu noivo, Paulo Márcio, por estar ao meu lado em todas as situações, por secar minhas lágrimas e me apoiar nas horas difíceis que passei nesses dois anos de mestrado, por me incentivar a continuar e se alegrar com a minha alegria. É maravilhoso ter a certeza de que tenho você ao meu lado.

É importante sermos gratos, eu acredito que gratidão é amor. Nesse grupo que se intitula Atos, do qual eu tenho orgulho de participar todas as terças-feiras, além de muito estudo, existe amor. Aquele amor inexplicável, amor ao conhecimento, amor político de luta pelas classes populares, amor de amizade, pois amigos nos tornamos. Nesta dissertação, muitas palavras próprias-alheias escritas, algumas até como citação, ouço as vozes de todos, Ana Elisa, Ana Lopes, Liliane, Maria Letícia, Reginaldo, Marisol, Denise, Giulia, Márcia, Patrícia, Sandro e tantos outros. Sou muito grata por possibilitarem a escrita com palavras tão importantes, de apoio e de amor.

À Sol, também conhecida como Marisol, agradeço por iluminar todas as minhas palavras, acreditando que elas fazem sentido. Sou muito grata por ter você em minha vida, não só como orientadora, mas também como amiga. O sentido de tudo está com você, e sem você nada seria possível.

Aos professores da banca de qualificação, Jader Janer, Valdemir Miotelo e Luciano Ponzio, agradeço por serem tão amorosos em suas palavras e auxiliarem na construção deste projeto de dizer.

À CAPES, por possibilitar financeiramente que esta dissertação fosse possível.

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Si finisce sempre col parlare di ciò che si ama. Roland Barthes

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RESUMO

Esta pesquisa surge na intenção de revelar as enunciações que não compreendemos ou não escutamos na escola, bem como quais enunciações das crianças desvelam esse sofrimento. Entendemos que tal sofrimento não se revela somente no verbal, e, para compreendê-lo, devemos observar também o extraverbal. Esse extraverbal não se revela só no corpo, no movimento enunciativo, ele compreende também o que acontece antes da enunciação. Usamos a fotografia, pois entendemos que nela a vida se revela, mas a foto não fala por si só. Esse verbal-corporal que a fotografia apresenta só faz sentido se cotejado com o extraverbal que confere sentido à fotografia. Nesse sentido, a fotografia apresenta-se como plano estético em que é possível ver o sofrimento presenciado no momento em que é retratada. Fazemos uso dela para revelar o extraverbal. Sabendo que o evento da alteridade é alegria e dor ao mesmo tempo, e que o humano no homem é a alteridade, este evento de alteração, de alteridade, é um encontro de alargamento, de dor. Existe, nesse lugar de convívio das crianças, esse lugar onde as crianças são esses sujeitos da educação, uma ideologia de que nele só há alegria, porque não compreendemos que o humano do homem na criança é o mesmo e o diferente no mesmo lugar, não reconhecendo esses lugares como lugares também de sofrimento e reafirmamos a concepção de que a infância é um lugar de amor e alegria. Sendo assim, qualquer dor na criança é considerado um desvio. Não temos o objetivo de reafirmar os desvios, mas sim desideologizar que a infância é um lugar de alegria, pois o homem é sempre o mesmo e o diferente no mesmo lugar. Nesse percurso, humanizamos a infância no sentido de reconhecer os eventos complexos de sofrimento como enfrentamento ao sofrimento, pois entendemos que o humano enfrenta e resiste ao sofrimento. No entanto, esta resposta não nos é acessível ao menos que aprendamos a compreender a criança para além do verbal.

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ABSTRACT

This research appears in the intention of revealing the statements that we do not understand or do not listen in the school, as well as which statements of the children that unveil this suffering. We understand that such suffering is not revealed only in the verbal, to understand it we must also observe the extraverbal. This extraverbal is not revealed only in the body, in the enunciative movement, it also understands what happens before enunciation.We use photography because we understand that in it life reveals itself, but the photograph does not speak for itself. It only makes sense that verbal-corporal that the photograph presents, compared with the exraverbal that confers the photograph's meaning.In this sense the photograph presents itself as an aesthetic plane where it is possible in which it is possible to see the suffering witnessed at the moment in which the photograph is portrayed. We use it to reveal the extraverbal. Knowing that the event of alterity is joy and pain at the same time and that human in man is otherness, this event of alteration, of alterity, is an encounter of enlargement, of pain. There exists in this place of children's conviviality, this place where children are these subjects of education, an ideology of which there is only joy in it, why we do not understand that the human being of the man in the child is the same and the different in the same place, recognizing these places as places of suffering and reaffirming the idea that childhood is a place of love and joy. Therefore, any pain in the child is considered a deviation.We do not aim to reaffirm deviations, but rather to de-ideologize that childhood is a place of joy, for man is always the same and different in the same place. In this course we humanize our childhood to recognize the complex events of suffering as a confrontation with suffering, because we understand that the human faces and resists suffering. However, this answer is not accessible unless we learn to read the child beyond the verbal.

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SUMÁRIO

I PARTE

Dia 11 de março de 2015 - A escola e o fluxo do cotidiano: Johrei 15

Para início de conversa 17

Dia 25 de agosto de 2016 - A escola e o fluxo do cotidiano: A

impossibilidade de pensar

21

Dia 12 de março de 2015 - A escola e o fluxo do cotidiano: Teoria e prática, lugares de problemas

23

Dia 01 de setembro de 2016 - A escola e o fluxo do cotidiano: Questão da pesquisa: ato responsável

24

Dia 13 de março de 2015 - A escola e o fluxo do cotidiano: A sala dos professores: criança enuncia?

25

Agosto de 2016, 1:15 AM - O Cronotopo da Estudante Pesquisadora: Questões da pesquisa

27

Ato 1- No corredor da escola 29

Setembro de 2016 , 1: 47 AM - O Cronotopo da Estudante Pesquisadora: O labirinto da enunciação

31

Dia 14 de março de 2015 - A escola e o fluxo do cotidiano: Relatórios de aula

35

Março de 2015 , 00: 44 AM - O Cronotopo da Estudante Pesquisadora: Teorias que Informam Sobre a Infância

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Narrativa dos Processos 39

II PARTE

Agosto de 2017, 23: 25 PM - O Cronotopo da Estudante Pesquisadora: Memórias atrapalhadas

41

Dia 10 de novembro de 2017- A escola e o fluxo do cotidiano : No corredor da creche UFF

49

Janeiro de 2018, 18: 24 PM - O Cronotopo da Estudante Pesquisadora: Lendo a Fotografia pelos Elementos do Gênero

50

III PARTE

Dia 18 de março de 2015 - A escola e o fluxo do cotidiano: Áudio da Reunião de pais

62

Janeiro de 2018, 21: 56 AM - O Cronotopo da Estudante Pesquisadora: Problemas de Visão

65

Metodologia de Pesquisa 69

Considerações Finais 77

Narrativa dos Processos 79

Dia 03 de abril de 2016 - A escola e o fluxo do cotidiano: Cristal 81

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ÍNDICE DE FOTOS

Fotografia 1 – Guilherme e seu óculos 29

Fotografia 2 – GREI 5 47

Obra de arte 1 – O juramento dos Horácios. Tinta a óleo, Jacques-Louis David,1784

51

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Dia 11 de março de 2015

A escola e o fluxo do cotidiano: Johrei

No início da aula, uma criança aparentava um comportamento diferenciado. Todas as crianças brincavam, enquanto ele se sentava afastado do grupo. Logo ele se levantou e me falou:

- Professora? - Sim, Matheus1?

- Minha mãe me ensinou a fazer o ‘Johrei2’. Eu faço quando estou triste. Posso fazer o Johrei, professora?

Realmente não entendi o que acontecia naquele momento, não sabia do que ele estava falando e não fazia a menor ideia de como ajudá-lo.

- Não sei o que é ‘Johrei’. Juci3 você sabe?

- Johrei é uma oração de uma religião que eu não estou lembrando o nome agora, mas não tem problema algum, pode deixar ele realizar o Johrei. Você quer que eu faça a oração para você, Matheus?

- Não, minha mãe me ensinou a fazer sozinho. Posso fazer o Johrei, Angélica? Não vai demorar e eu vou me sentir muito melhor.

As lágrimas que corriam pelo seu rosto chamaram-me a atenção, pois não havia acontecido nada na sala de aula, ou pelo menos nada que eu tivesse percebido, nenhuma briga, nenhuma reclamação, ele havia acabado de chegar.

- Não precisa chorar, Matheus, faça a sua oração.

- É que às vezes demora um pouco para eu me sentir melhor, mas no final eu sempre me sinto bem.

- Demore o tempo que for necessário, eu e Angélica não iremos te incomodar.

Nós ficamos ali, aguardando, esperando, intrigadas, tentando ouvir o que ele falava, mas os sussurros eram incompreensíveis...

- Já me sinto melhor. Depois você deixa eu fazer de novo? - Sim, sempre que você precisar.

1 Matheus – Integrante do Grupo escolar de 5 anos da UMEI Alberto de Oliveira em 2015.

2 Johrei – Johrei é um método de canalização de energia espiritual da Igreja Messianica Mundial do Brasil.

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Matheus repetiu sua oração silenciosa várias vezes durante o dia, e até hoje me pego tentando compreender o que o incomodava tanto naquele dia.

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Para início de conversa

Nesta dissertação, eu te convido a caminhar comigo, desvendando os mistérios no labirinto da minha vida em relação aos outros, na relação de uma professora, estudante e pesquisadora, buscando um lugar de entendimento do sofrimento na criança em uma posição de escuta, sem interpretá-la, sem conferir à criança um sentido que não o dela.

Tenho como objetivo, com este trabalho, compreender as relações entre crianças e adultos na escola. Ao longo do meu trabalho enquanto professora, observo uma relação indiferente ao sofrimento da criança na escola. Costumamos nomear essas expressões de tristeza como ‘adaptação’, ‘saudade dos pais’, buscando naturalizar o que nos é incompreendido. Busco, com esta dissertação, compreender essas enunciações de sofrimento pelo extraverbal, corporal, buscando uma maneira de entender as enunciações das crianças por elas mesmas, no diálogo conosco. A escola de Educação Infantil é vista como um lugar da alegria, porém busco mostrar que é também o lugar do sofrimento. Isso me move a pensar, pois o humano no homem é o mesmo e o diferente no mesmo lugar. Para tal, busco a criação de condições do encontro dialógico entre adultos e crianças, problematizando as relações discursivas no contexto escolar.

Esta é uma dissertação sobre a infância na escola e as condições dialógicas entre adultos e crianças, em busca da construção de um plano dialógico no qual possamos escutar os enunciados infantis em suas próprias bases, aos muitos enunciados que às crianças são dirigidos. Busco escutar essas vozes que enunciam na escola e compreender essa relação de incompreensão do sofrimento. Sou uma professora procurando caminhos para pensar sobre as relações escolares.

Tenho como objetivo a construção de um exercício. Ele parte da minha visão, enquanto autora, sobre problemáticas vividas no cotidiano escolar, portanto, é um estudo sobre o cotidiano escolar. No entanto, ele vai para além disso, ao trazer os aportes dos estudos bakhtinianos, que tratam, no nosso caso, da construção dos planos polifônicos para buscar um espaço de diálogo, para que o plano da escritura seja um espaço-tempo em que não mortifiquemos o outro. Fazemos uma crítica ao gênero dissertação, que muitas vezes é monológico, e procuramos, neste estudo, desmonologizar a escrita acadêmica. No texto Constelar, dissemos:

Em tempos de tentativas de fragmentação dos seres humanos, em que a ciência veste-se do dogmático discurso da verdade única, em que as Ciências Humanas buscam interpretar a vida, utilizando-se de métodos exatos ou monológicos, na pretensiosa definição do seu

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‘objeto’ de estudo, o homem, Bakhtin provoca a pensarmos em outras relações entre as verdades e a aprendermos a prática da ciência do ato irrepetível. Convoca-nos a construir um pensamento polifônico no mundo, a pensarmos o sujeito das Ciências Humanas não como um objeto, coisa morta, mas como um ser expressivo, vivo e falante.4

Parto desse solo teórico da Filosofia da Linguagem de Bakhtin, para pensar uma ciência outra, e sigo estudando as obras do Círculo de Bakhtin. Com base nos textos de Volochínov, discutimos a enunciação. Buscamos estudar os gêneros com base nos textos de Bakhtin e de Medviédev, porque entendemos que a enunciação se dá em um gênero e o gênero traz as possibilidades de dizer. Trazemos para o texto a perspectiva bivocal da obra de Dostoiévski, pois percebemos possibilidades dialógicas de dizer no romance, como nos fez ver Bakhtin, que outros gêneros não trazem:

Com Dostoiévski, podemos refletir em como não fazer pesquisas monológicas em que o pesquisador analisa, interpreta, diz e dá acabamento ao que seus sujeitos de pesquisa trazem, abafando suas vozes no discurso único e verdadeiro do autor/pesquisador, como não seguir um método, mas pensar uma metodologia de pesquisa que leve

em consideração a polifonia, a bivocalidade e a autoria tanto dos sujeitos como do pesquisador.

Fomos muitas vezes a Dostoiévski. Mas, como o professor Miotello uma vez nos alertou: o que Bakhtin viu nesse autor, só ele viu. O que vemos, portanto, são os sentidos apontados por Bakhtin para a compreensão da obra de Dostoiévski. Seguimos sua pista de leitura como analogia figurada, bem ao modo como Bakhtin mesmo fez com a polifonia (BAKHTIN, 2015, p. 23).

Para conseguir alcançar a visão oblíqua da qual Bakhtin nos fala, olhamos para a fotografia, enquanto a possibilidade de um plano estético para se pensar a vida do cotidiano escolar. Para entender uma fotografia e fazer uma leitura em diferentes camadas, buscamos as contribuições da leitura de fotografias de Roland Barthes. Reitero aqui o que dissemos no texto Constelar:

Bakhtin nos deixa pistas auxiliando nossa compreensão. Ele nos fala de visão oblíqua, do escudo de Perseu: vai à literatura para compreender a vida, pois o mundo da visão estética, o mundo da arte, é, de todos os mundos culturais abstratos, o que mais se aproxima do mundo da vida, do ato, por sua concretude e impregnações de tons emotivo-volitivos (BAKHTIN, 2010, p.124). Por um olhar enviesado para a arte, o filósofo percebe, nas obras de Dostoiévski e Rabelais, dentre outros, a criação de um plano estético novo, diferente do romance monológico da época, o qual chamou de romance polifônico. Identifica, na escrita literária, a polifonia como um método artístico

4

Marisol Barenco. O Amor em Tempos de Escola. Constelar: Aprendendo o exercício de uma heterociência, 2016, p. 185.

(19)

capaz de não aniquilar os sentidos do homem no romance, apontando, dessa forma, indícios para construirmos relações humanas em bases dialógicas e para pensarmos a ciência como ato responsável: ética, estética e conhecimento como dimensões inseparáveis5.

Seguindo essas pistas, busco dividir esse trabalho em três partes. No primeiro, busco criar cronotopos para levantar questões que me chamam a atenção na escola. Apresento uma tentativa frustrada de compreender o sofrimento infantil na escola, fazendo uma leitura de um evento como se fosse um roteiro de filme. O segundo capítulo também é construído em cronotopos, divididos entre o cronotopo do fluxo do cotidiano e o da estudante pesquisadora. A grande questão que se apresenta é a relação entre arte e vida, e a assunção da fotografia como lugar oblíquo para pensar a vida. Esses cronotopos são demarcados por dia, hora e local, para possibilitar o entendimento da mudança espaço-temporal das personagens professora-pesquisadora.

Apresento a pesquisadora estudante enunciando em um monólogo reflexivo, em que eu, além de ser a estudante pesquisadora na vida – a autora dessa pesquisa – faço um duplo de mim como pesquisadora, em um plano estético, para ter consciência dos processos que eu assumi enquanto estudava. Colocando-me como personagem estudante, pude refletir e tomar consciência, pela via literária, de meu próprio processo de estudar, com um ponto de vista objetivado, distanciado sobre as questões. Utilizei como figura a obra de Jorge Larrosa, Imagens do Estudar, texto que faz parte do livro

Pedagogia Profana, para prefaciar minhas reflexões de estudante com as imagens do

estudar que considero correlatas aos meus momentos enquanto estudante, nesta presente pesquisa. Foram momentos que vivi, no decorrer dessa pesquisa, como alguém que vive uma experiência que não sabe aonde irá chegar.

No plano do cotidiano, baseio-me em minhas experiências de acontecimentos vividos na escola e me recrio em um cronotopo na escola, personagem como um duplo de mim, professora da escola. Essa é a personagem da vida, do cotidiano, que tem um ponto de vista ético sobre a vida. Esses planos da relação entre o autor e a personagem tensionaram essa problemática vivida entre a professora e as crianças na escola, bem como uma pesquisadora que reflete sobre esses processos. O sofrimento infantilé o que me mobiliza a pensar, porque, na minha relação com a escola, observo que há um estranhamento ao sofrimento, tudo o que é sofrimento no que diz respeito às crianças é considerado como desvio.

5

Marisol Barenco. O Amor em Tempos de Escola. Constelar: Aprendendo o exercício de uma heterociência, 2016, p. 187.

(20)

No trabalho de leitura da vida, pela via oblíqua da fotografia, busco um olhar estético para as questões do cotidiano escolar levantadas na pesquisa. Nesse sentido, assumo três posições de autor na escrita da dissertação, criando duplos de mim para que haja pelo menos dois em todos os momentos da dissertação.

Os dois planos – do cotidiano e da estudante – são tensionados por tentativas, erros e avanços que permeiam a discussão de uma dissertação em construção permanente.

Convido o leitor a colocar os pés no chão da escola e me acompanhar pelos caminhos que eu faço pelos corredores e salas. Convido-os também a me acompanhar em meus estudos e reflexões, enquanto estou na minha mesa, investigando e pensando a pesquisa. Convido-os a ver, junto comigo, o que enxergo, quando entro em uma sala de aula, a sentir o que sinto em algumas conversas com os professores. De lá eu consigo sentir o cheiro que as paredes exalam, pois a escola da minha memória viva tem cheiro. Espero que, do seu lugar, você consiga sentir tantos outros.

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Dia 25 de agosto de 2016

A escola e o fluxo do cotidiano: A impossibilidade de pensar

Vamos pensar, Angélica6, temos que encontrar essa questão da pesquisa. Eu estou aqui na escola, eu olho e consigo ver mil questões, mas a minha está difícil de enxergar. Vamos pensar. O que me interessa aqui?

- Tia Angélica, para onde a minha mãe foi?

- Ela foi embora, mas você pode ficar um pouco mais e brincar. Pensa, Angélica, pensa!

- Professora, não se esqueça da entrega dos relatórios bimestrais de desenvolvimento das crianças!

- Não se preocupe, querida coordenadora, já estou finalizando. - Está bem. Aguardo os relatórios da sua turma na semana que vem.

Pensa, qual é a sua questão de pesquisa? Como você pode querer pensar sobre a escola estando na escola e não conseguir ver a questão?

- Quanto tempo falta para minha mãe chegar? - Oi? Ah, falta pouco, já já ela chega!

- É hora do recreio, pessoal! Vamos brincar?

Agora eu tenho que conseguir pensar. Tem a escola, tem as crianças, tem eu enquanto professora, tem a rotina, o corpo docente, a organização, tem os problemas que eu enxergo e tem a questão da minha pesquisa...

- Professora, o Matheus caiu no pátio e machucou o joelho. - Vamos lá ver o que houve.

Pensa, Angélica, você consegue. Eu sei que está aqui na minha cara, embaixo do meu nariz, mas eu não consigo ver!

- Tia Angélica, já está na hora de ir para casa? - Está quase na hora.

Nossa, nunca percebi como esse sinal é barulhento. A escola é um barulho só, não consigo pensar aqui.

- Angélica, já bateu o sinal, não vai liberar as crianças? - Já estamos indo.

(22)

Um dia inteiro aqui, e eu não consegui pensar na minha pesquisa nem em um minuto completo. Não dá para pensar a escola dentro da escola, aquele lugar não fica silencioso nem um minuto. O pior é que são 17h, e eu não tenho mais forças nem para pensar. Queria mesmo é dormir e acordar com a minha questão. É, querida Angélica, só que hoje é terça-feira, e tem encontro do grupo Atos. Ainda bem que hoje vamos ao cinema, eu posso sentar ao lado do Reginaldo7 e, se o filme for chato, eu posso dormir durante a sessão que ninguém vai perceber, ele vai me acobertar. Neruda8, eu aqui numa crise existencial de pesquisa sem questão e tendo que ficar duas horas assistindo ao Neruda. Eu preciso pensar, o cotidiano é o lugar do fluxo interminável, inacabado, aberto para o futuro, preciso de um lugar onde eu não perca a vida, mas que eu possa pensar...

7 Reginaldo Lima, amigo pessoal e integrante do grupo Atos. 8

Filme Neruda, direção de Pablo Larrain e Roteiro de Guillermo Calderón, lançado 15 de dezembro de 2016, no Brasil.

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Dia 12 de março de 2015

A escola e o fluxo do cotidiano: Teoria e prática, lugares de

problemas

- Bom dia Angélica, madrugou hoje aqui, hein. Isso que é vontade de trabalhar!

- Bom dia, Maria9. Precisava de uns minutos para pensar e entender algumas coisas. Cheguei mais cedo um pouquinho hoje.

- Está lendo o quê?

- Estou fazendo uma disciplina muito interessante, sobre pesquisa com bebês e crianças, e estou querendo entender um pouco mais sobre esse conceito de infância. Foi o tema da aula passada e alguns autores muito reconhecidos abordam a temática.

- Não sei para que estudar tanto. No final das contas, essas teorias todas não servem para nada. Quando eu leio esses autores, eu só penso: esses caras nunca estiveram na escola.

- Por que você diz isso, Maria?

- Porque a teoria não funciona na prática. Pode tentar... Tenta aí entender a escola lendo esse pessoal famoso. Você não vai conseguir colocar nada em prática, porque eles não falam da prática. Eu acho que nunca estiveram em uma escola de verdade, trabalhando de verdade, tendo que fazer mil coisas ao mesmo tempo e ainda dar conta de fazer relatório, planejamento, chamada...

- É, eu entendo que falar sobre a escola é bem diferente de falar com a escola. - Sim, de dentro se tem outra visão.

- Isso é bom, falar de dentro e com! Muito bom, Maria, é sempre bom conversar! Você me ajudou muito hoje!

- Vamos trabalhar, professora Angélica, você já está ficando louca de tanto estudar...

É, eu vivi isto: o que está na teoria não cabe na vida, ao mesmo tempo a prática não dá conta. Estou em uma encruzilhada. O fluxo do cotidiano não me deixa pensar. É preciso olhar para a escola com um olhar oblíquo. E agora?

- Você não vem Angélica? - Estou indo.

9 Nome fictício.

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Dia 01 de setembro de 2016

A escola e o fluxo do cotidiano: Questão da pesquisa: ato

responsável

- Angélica, você vai passar pelas barcas?

-Oi? Desculpa, Miza10, o que você disse? Acho que eu tive uma alucinação aqui!

- Eu perguntei se você ia passar pelas barcas. A aula acabou, e eu pensei que você poderia me dar uma carona até as barcas, mas, se você quiser me falar das alucinações, eu acho até mais interessante do que barcas.

- Eu estava pensando aqui sobre as disciplinas do mestrado e sobre a pesquisa. Eu venho procurando a questão da pesquisa. Eu acho que ela está aqui embaixo do meu nariz, mas eu não consigo ver.

- A questão da pesquisa é algo que vem me tirando o sono. Eu tenho pesadelos, nos quais a questão se transforma em um gato preto e me foge pela cozinha. Eu puxo o gato pelo rabo e acordo sem a questão.

- Bom, pelo menos não sou só eu que estou ficando louca!

-Não mesmo! Estamos todos loucos. Mas você fala sobre as crianças na sua pesquisa? - Sobre as crianças não. Não quero falar sobre elas, eu quero que elas se digam. Eu gostaria de compreender as relações das crianças com a escola, do ponto de vista da criança. É isso! Eu quero assumir uma perspectiva que olhe para a criança da vida, uma criança concreta, como sujeito do ato, eu quero assumir o olhar que ela tem para mim, ao mesmo tempo do que eu tenho para ela, duas arquitetônicas. Eu quero encontrar um lugar teórico, epistemológico e metodológico no qual eu possa trabalhar com a questão da criança viva. A minha questão é esta: eu quero trabalhar com a criança como um sujeito da enunciação. Você ouviu isso? Miza, muito obrigada, que conversa ótima sobre as barcas!

- É... Como eu te disse, estamos todos loucos!

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Dia 13 de março de 2015

A escola e o fluxo do cotidiano: A sala dos professores: criança

enuncia?

Quando toca a sirene, é como se as luzes da sala do cinema se acendessem, todos sabem que é hora de levantar e sair. Abrindo a porta da sala, deixamos de ser uma coisa e passamos a ser outra. O corredor passa a ser um lugar para correr, eu me seguro para não acompanhar os alunos, porque dizem nos corredores que eu sou professora e que professores devem dar exemplo. (Isso é muito chato!) Sorrio para os supostos alunos e uso a minha imaginação para correr junto com eles. Ah sim, ali eu posso correr. O grande problema é que o meu corredor não me leva a uma sala tão legal, pois, nos últimos dias, o filme que vem passando na sala dos professores me parece uma mistura de ação, terror e suspense. Atravesso o corredor e dou de cara com a sala mais temida: a sala dos professores, lugar dos ditos detentores do saber. Aí começa o filme de ação, sou eu, Tom Cruise, em Missão Impossível11, tentando parecer invisível, me esgueirando pelas paredes da sala, - normalmente uso a sala porque é lá que fica o banheiro - atravesso o campo minado, esperando ser imperceptível, - quem nunca desejou isso? Não costumo fugir de uma boa conversa, mas, em alguns dias, eu estou tão bem, que quero só ser invisível mesmo - não me vejam, por favor! Pedia mentalmente, mas meu desejo nunca era atendido, nunca conseguia passar sem ouvir questionamentos, - deve ter algo de errado com a minha roupa, pensava.

- Sua sala hoje estava barulhenta! – Mariana12, a professora do quinto ano falava em um tom de quem puxava assunto – e ali começava o meu filme de terror, eu sentia que aquele era um diálogo que não ia ter um final feliz, mas sempre participo da cena esperando que o filme de terror tenha um final de romance.

-É, as crianças falam, enunciam, e às vezes – tom de suspense na minha voz dando ênfase a cada sílaba- mesmo em si-lên-cio elas dizem!

Uma gargalhada alta toma conta da sala. Meu rosto reflete o meu não entendimento - a

legenda passou rápido demais, eu não entendi o sentido dessa cena - penso.

- Você é tão engraçada professora, podia ser comediante. - Seu tom é irônico.

11

Missão impossível, filme dos Estados Unidos de 1996, teve Tom Cruise como o protagonista. 12 Nome fictício.

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-Não entendo, por quê? Você não acha que as pessoas não enunciam no silêncio? – questiono.

A sirene toca.

- Vamos voltar ao trabalho. Alguns têm coisas sérias a fazer aqui. - Mariana fala como quem escorrega da resposta. Encaminhamo-nos para o corredor enquanto respondo: - O riso também é sério, querida Mariana.

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Agosto de 2016, 1:15 AM

O Cronotopo

da Estudante Pesquisadora: Questões da pesquisa

Uma postura arredia é o que convém ao estudante. O estudante é um ser cabisbaixo, de trato difícil, inseguro, um pouco encurvado, olhando aqui e ali desconfiadamente, caminhando como se estivesse fugindo de alguma coisa, como se estivesse se escondendo. O estudante não tem gestos amáveis. E tampouco se deixa querer. Nunca ele é visto tranquilo num grupo, nunca ele é visto rindo, nunca ele é visto entre as pessoas com essa desenvoltura cordial e um pouco indiferente, com essa segurança e essa naturalidade desenvolta dos que estão acostumados à amabilidade. O estudante está sempre como um louco e, quando alguém dirige a ele uma palavra amável, quando alguém quer acercar-se dele, o estudante dá como que um bufido e, cortante, dobra-se outra vez atrás do fio de suas arestas.13

Aqui estou eu, em mais uma noite, com devaneios sobre a pesquisa, com mil perguntas na minha cabeça. Já percebi que não vai ser tão simples assim. É tão enraizado o fato de que as crianças não falam, que, para eu construir uma argumentação, mostrando que criança enuncia, vou precisar pensar nas condições da enunciação infantil. Para eu poder pensar na enunciação da criança, preciso resolver o problema da enunciação para além da palavra verbal. As crianças falam sem a linguagem verbal, e o círculo de Bakhtin vislumbra isso em algumas partes, entretanto, não foi algo que explicitamente se colocou.

O tom alarga a enunciação para além da palavra verbal, porque o tom é musical, o tom é corporal, esse é o meu gancho. No entanto, para eu dizer que as crianças enunciam, e eu sei que elas enunciam, eu sei que elas estão em diálogo ativo, nós é que às vezes não compreendemos o contexto enunciativo. Não tenho uma gramática para escutá-las. É sobre entender a gramática da enunciação verbal, não verbal ou verbal em construção. É isso, tenho que buscar sentidos não verbais. As crianças, em silêncio, enunciam.

Hoje não! Hoje é dia de dormir! Vou procurar logo a minha cama, o sono vai me guiar. Essa cama não é mais como antigamente, antes eu deitava, e era só fechar os olhos que a mágica do sono tomava conta de mim, mas agora, todas as vezes que fecho os olhos, mais perguntas se apresentam. Elas surgem como carneirinhos pulando a cerca, as perguntas pulam na minha direção e, em vez de me trazerem sono, trazem com elas inquietações. Criança enuncia? Eu acredito que sim, mas como entender ou

(28)

responder a isso? Quais são as características desse enunciado? O corpo enuncia antes da fala? Sendo assim, os bebês enunciam?

Desisto! Eu me rendo! Já que não vou conseguir dormir, pelo menos eu tento solucionar meus monstros, é melhor do que escondê-los embaixo da cama. Vamos lá, Angélica, de volta à mesa de estudos. Como quase toda noite, sentada de frente para os livros, questionando a minha própria fala.

Às vezes eu falo as coisas com tanta certeza e depois fico me questionando se é realmente isso mesmo, já não sei mais se eu li isso em algum lugar, se eu escutei alguém falar, se essa palavra é minha ou de outros. Com certeza, ouço as vozes do grupo Atos. Bom, se eu escrever isso algum dia, em algum lugar, farei como Kierkegaard... Augusto Ponzio falava sobre isso em algum lugar desse livro amarelo, esse aqui, achei!

Abro o livro

Kierkegaard, como se sabe, usava o pseudônimo, a polinomia: cada um de seus livros era atribuído a um pseudônimo diferente. Dizia: Eu nunca disse nada daquilo que encontrarem escrito; disseram eles, os autores dos livros que eu simplesmente limitei-me a transcrever e a publicar. Kierkegaard, porém era também um pastor, um pastor dinamarquês, um padre. Consequentemente, fazia sermões na igreja e, quando decidiu publicar Dezoito Discursos Edificantes, publicou-os em seu nome. Dirigindo-se aos leitores, escreveu no prefácio mais ou menos assim: Quando ler, leia em voz alta; logo é um diálogo entre você e você mesmo, fazendo com que aquilo que você está lendo se transforme em elemento, matéria, instrumento de discussão com você mesmo e, então, não me deve atribuir coisa alguma, ou aprender ou relatar algo.14

Eu sei, eu sei, a palavra é ato singular e responsável, mas ela não se centra em mim. Kierkegaard achou uma ótima saída para não centrar a palavra nele enquanto autor. Agora como eu posso fazer isso na pesquisa? E se eu pensasse no acontecimento e criasse um plano estético para olhar obliquamente para a vida? E se eu pensasse como se escrevem os roteiros? E se eu escrevesse a vida em roteiros de filme?

(29)

Ato 1

No corredor da escola

Personagens: Guilherme15, criança de aproximadamente três anos; Jessica16, professora da turma de Guilherme;

Angélica, Professora de Educação Infantil.

Ruídos de ambiência: choro de bebês, crianças correndo, barulho de pratos na cozinha, vozes de adultos.

Fotografia 2 – Guilherme e seu óculos.

Cena 1: No Pátio.

Angélica caminhava todas as manhãs por toda a escola, estava ocupando a função de mediadora, e ficava onde mais precisasse de ajuda. Na maioria das manhãs, ela ficava observando as crianças no pátio, cuidando para que não se machucassem nas brincadeiras matinais.

Guilherme sempre chegava chorando no pátio da UMEI17,

era seu primeiro mês, e ele não se interessava muito pelos brinquedos do pátio. Seus dois anos não lhe davam um arcabouço de palavras para expressar. Ele caminhava na direção de Angélica e, ao seu lado, ficava chorando

15 Integrante do Grupo escolar de 2 anos da UMEI Villa Ipiranga em 2016. 16

Jéssica, amiga pessoal e professora contratada da Rede Municipal de Niterói em 2016. 17UMEI – Unidade Municipal de Educação Infantil.

Figura 1 – GREI 5

(30)

repetidamente até o fim do horário do pátio. Alguns dias ele ficava andando pelo pátio com os dedos na boca, caminhava como uma sombra atrás da professora da sua turma. Corta para: Berçário

Certo dia, precisaram da ajuda de Angélica no berçário e ela não vai para o pátio no horário da turma do Guilherme. Era comum chamarem-na no berçário, e as crianças já sabiam onde a encontrar, pois, quando não estava no berçário, estava no pátio.

Ruídos de ambiência: Músicas infantis, ruído de crianças caminhando pelo corredor, vozes diversas.

Era o horário do almoço, as crianças seguem para o refeitório, caminho que passa pela porta de várias salas.

No meio da apresentação da galinha pintadinha, alguém bate na porta do berçário. Era ele, Guilherme, com uns enormes óculos pretos e queixo levantado. Sem falar nenhuma palavra, ele se movimentava na frente de Angélica como quem quer se mostrar.

Diálogo

-Como você está lindo, Guilherme! Que óculos maravilhosos. –Tom de alegria.

Guilherme continua a sua exposição com uma expressão diferente da que apresentava cotidianamente.

Uma terceira voz entra no diálogo, é Jessica, a professora da turma do Guilherme, ela o convoca a voltar para fila e seguir para o refeitório.

- Venha Guilherme, já falou com a tia Angélica. Agora vamos almoçar, me dê aqui seus óculos, porque já passou a hora do brinquedo.

O rosto do menino modifica-se no exato momento em que seus óculos são retirados pela professora da sua turma, e a costumeira feição entristecida volta ao seu olhar.

(31)

Setembro de 2016 , 1: 47 AM

O Cronotopo

da Estudante Pesquisadora: O labirinto da

enunciação

O labirinto é a figura que serve como o lugar do estudo. Mas não se trata, aqui, do labor intus, circular e unívoco, aquele que não tem bifurcações – bivia – e que tem apenas um caminho que leva inevitavelmente ao centro, do centro ao ultimo circulo, daí novamente ao centro e assim, indefinidamente. O labirinto que acolhe o estudante não tem um ponto central que seja o lugar o sentido, da ordem, da claridade, da unidade, da apropriação e da reapropriação constante. O dédalo que o estudante percorre, multívoco, prolífico e indefinido, é um espaço de pluralização, uma máquina de desestabilização e dispersão, um aparelho que desencadeia um movimento infinito de sem-sentido, de desordem, de obscuridade, de expropriação. O estudante dispersa-se nos meandros do labirinto sem centro e sem periferia, sem marcas, indefinido, potencialmente infinito.18

Não funciona, não é esse o gênero, não é essa a forma. Não é assim, cheguei a um beco sem saída. Essa tentativa de colocar no gênero roteiro não deu certo. Tentativa de olhar para uma situação objetivando a situação em um gênero discursivo, não dá conta por si só. O Guilherme não fala. Eu mesma virei personagem objetivada, não chega nem perto das discussões de Bakhtin sobre a relação entre o autor e o personagem. Objetivar uma situação num gênero discursivo sem escutar as vozes não traz a escuta da vida. O gênero pelo gênero resulta em um esteticismo.

Depois de tudo que eu fiz e estudei, ainda assim, não consigo entender a enunciação, não chego ao sofrimento das crianças. Me sinto andando em círculos, rodo, rodo e não chego a lugar nenhum. Volto para o mesmo lugar sem entender nada. É isso, Angélica, você precisa entender primeiro o que é uma enunciação. Já li isso em algum lugar nesse livro marrom, acho que não está aqui na mesa. Já sei! Está na prateleira de livros do corredor. Este aqui: A Construção da Enunciação e Outros Ensaios, do Volóchinov, que, na verdade, tem uma capa cinza, né, Angélica.

Abro o livro A palavra na vida, com toda evidência, não se centra em si mesma. Surge da situação extraverbal da vida e conserva com ela o vínculo mais estreito. E mais, a vida completa diretamente a palavra, que não pode ser separada da vida sem que perca seu sentido.19

18

Jorge Larrosa: Pedagogia Profana. 2006, p. 201.

(32)

É isso, a palavra está na vida, é social e traz com ela todo o contexto histórico. Tudo bem, mas e o gesto? Quando enunciamos a palavra, o corpo vai junto. Temos um tom para cada fala. Se estamos irritados ou felizes a mesma palavra traz diferentes tons, e com eles novos significados.

Abro o livro

Desta maneira, cada enunciação da vida cotidiana é um entinema socialmente objetivo. É uma espécie de palavra-chave que somente conhecem os que pertencem a um mesmo horizonte social. As peculiaridades das enunciações da vida cotidiana consistem em que elas, mediante milhares de fios, entrelaçam-se com o contexto extraverbal da vida e, ao serem separadas deste, perdem quase por completo seu sentido: quem desconhece seu contexto vital mais próximo não as entenderá.20

Então se a gente separa a palavra do cotidiano, da pessoa, do corpo que enuncia, ela não terá o mesmo significado. Hum, interessante isso. Eu acho que tenho um livro sobre o corpo aqui.

Abro o livro

Tanto o corpo quanto a palavra são fronteiras entre o mundo interior e o exterior, entre o eu e o não eu, a alteridade. O corpo é a fronteira entre o eu-para-mim e a espacialidade do outro; a palavra (o enunciado) é fronteira entre o meu dizer interno, semiamorfo- ainda que possível tão somente a partir da anterioridade do discurso social da alteridade-, e a formulação expressiva dirigida ao outro com fins de comunicação. A linguagem que recebo está prenhe de um diálogo inconcluso ao que eu tenho que me conectar, qualquer palavra que sou capaz de proferir é uma resposta a algo dito antes por outros, oriento meu discurso sempre para que alcance o outro. Sempre se fala para alguém essa é a essência do meu eu-para-outro: ato, discurso, literatura.21

Estou mesmo presa na fronteira que me leva ao labirinto. Bom, então o corpo do Guilherme enuncia seu próprio mundo, pois, ao enunciar, ele responde ao mundo. Isso não tem nada de passivo, ele é um sujeito do ato.

Abro o livro

Habitualmente respondemos a qualquer enunciação do nosso interlocutor, se não com palavras, pelo menos com um gesto: um movimento da cabeça, um sorriso, uma pequena sacudidela da cabeça,

20

Idem, 2013, p..80.

(33)

etc. Pode-se dizer que qualquer comunicação verbal, qualquer interação verbal, se desenvolve sob a forma de intercâmbio de enunciações, ou seja, sob a forma de diálogo22.

E agora? O que eu faço com isso tudo? Com todas essas questões e com essas respostas? O que consigo perceber no evento-acontecimento com Guilherme? O que há ali que pode dizer que ele enuncia com gestos, tom e atos? E o que nisso mostra a arquitetônica do eu-outro? Na relação eu-outro espacial, temporal e de valor?

Abro o livro

Que gênero discursivo é esse em que as crianças enunciam? Poderemos afirmar que as relações corporais do bebê configuram um gênero, isto é, que elas possuem motivo, unidade temática, autoria, projeto discursivo, entre outros elementos que compõem os gêneros, segundo Medviédev? Podemos afirmar que são os elementos não verbais como o choro, o gesto, a brincadeira infantis gêneros discursivos? Estamos trabalhando nessa compreensão, e esperamos que outros trabalhos e diálogos se juntem aos nossos, para a compreensão de um cronotopo em que as crianças, mesmo as muito pequenas, possam ser sujeitos na cultura, enunciadores responsáveis e responsivos, sujeitos da enunciação, a quem podemos dirigir a palavra responsivamente.23

Bom, fui eu mesma que escrevi isso com Ana e Marisol. Crianças enunciam, já

que são sujeitos humanos na cultura. Isso eu sei da vida na escola. Mas mais que isso, a enunciação transborda, em muito, a compreensão rasa da parte verbal de um ato comunicativo. A enunciação é uma situação concreta, comunicativa, que envolve além do falante e do ouvinte todo o presumido da cena enunciativa, as relações valorativas do contexto próximo e mais alargado da cultura e, principalmente, um gênero discursivo em seu acabamento estético.

Abro o livro

Não se podem existir tais tipos de relações entre um conceito abstratamente ideal e um objeto concreto real, assim como não é possível abstrair um ser humano da sua realidade concreta, conservando somente o cerne do sentido (homo sapiens). 24

22 Valentin Volochínov: A construção da enunciação e outros ensaios. 2013, p. 63.

23 Marisol Barenco, Ana Lopes, Angélica Duarte. É possível que a criança enuncie? Por uma educação infantil dialógica.2018, p.23.

(34)

Qualquer forma de abstração, qualquer coisa que se afaste da concretude da vida só me leva para becos sem saída, de abstrações, como se encontrássemos, no final, só linhas vazias, não encontramos o Guilherme como um ser humano vivo e concreto.

Abro o livro

A diversidade de valor do existir enquanto humano (isto é, correlato com um ser humano) pode apresentar-se somente à contemplação amorosa; somente o amor está em condição de afirmar e consolidar, sem perder e sem desperdiçar, esta diversidade e multiplicidade , sem deixar atrás apenas um esqueleto nu de linhas e momentos sem sentido fundamentais. 25

(35)

Dia 14 de março de 2015

A escola e o fluxo do cotidiano: Relatórios de aula

- Oi, Angélica, preciso falar com você. - Oi, Alba, tudo bem?

- Sim, eu queria falar com você sobre os relatórios do primeiro bimestre. Eles devem ser entregues até semana que vem, aí marcaremos a reunião de pais - falou a orientadora pedagógica em um tom amistoso. Eu trouxe alguns modelos de relatórios antigos para você ter umas ideias. Estão um pouco empoeirados, mas vai ser ótimo para você ter como base.

(36)

Março de 2015, 00: 44 AM

O Cronotopo

da Estudante Pesquisadora: Teorias que Informam

Sobre a Infância

O estudante que tem todo tempo está na realidade fora do tempo. Fora do passado e do porvir, fora inclusive da presença do presente, pelo menos desse presente que é um agora que passa e que incessantemente se realiza no futuro. Por isso, com todo o tempo dos que vivem na ausência do tempo, o estudante vaga, divaga, vagabundeia. Extravagante, o estudante dá voltas e reviravoltas, move-se lentamente, permite-se rodeios, oferece-se pausas.26

Nossa, este é um dos antigos. Está na moda agora esse negócio de ser ‘vintage’ e usar coisas velhas. É bom valorizar o conhecimento dos antigos. Quando eu estava nascendo, essa pessoa já estava pensando em educação e, naquele ano, aconteceu pelo menos uma coisa boa: eu nasci. Vamos ver se a segunda coisa boa foi a escritura deste relatório.

Prefeitura Municipal de Niterói Maio de 1989

Relatório Descritivo

Nesta primeira etapa, o aluno conseguiu desenvolver bem a linguagem. Superou o estágio sensório-motor avançando para o

pré-operatório. Ainda apresenta

características egocêntricas não

conseguindo se colocar no lugar dos coleguinhas. Trata os objetos coletivos como pessoais, tendo dificuldades em compartilhar os mesmos. Entretanto, O aluno apresenta uma evolução na visão global sem descriminar detalhes. Com relação às brincadeiras, ela interage bem com os objetos usando a imaginação

nas brincadeiras.27

Confesso: falar sobre as crianças sempre foi difícil para mim, não que eu não consiga, aliás, falar sobre algo é muito simples. É só escolher um padrão, transformar esse padrão em uma tabela de quadradinhos e ir encaixando as crianças nele. Depois é só encontrar uma âncora, alguém que já tenha dito aquilo que você quer dizer para validar o que você pensa, porque tem coisas que a gente não pode pensar sozinho. Eu até concordo que não dá para pensar sozinho, precisamos de pelo menos dois para poder

26 Jorge Larrosa: Pedagogia Profana. 2006, p.201.

(37)

pensar, mas esses relatórios que pensam sobre não nos dizem muito mais do que a estrita opinião de quem os faz. Os pedagogos vão dizer que “os relatórios são importantes para acompanhar o desenvolvimento intelectual da criança”. Ora, mas como acompanhar o desenvolvimento sem levar em consideração a própria criança? Sem que ela se diga? Se a criança não participa do processo, isso me parece uma interpretação individual, unilateral, e interpretativa do processo.

Prefeitura Municipal de Niterói Abril de 2000

Relatório Descritivo

Observamos nesse primeiro semestre, do jardim 4, que Maria vem desenvolvendo

suas potencialidades com grande

desenvoltura. Com a participação

cotidiana nas atividades do grupo ela passou a interagir mais, desenvolvendo assim as suas habilidades, caminhando para um melhor aprendizado possível. Sabendo eu cada criança avança em um

ritmo, valorizamos nesse primeiro

bimestre, atividades coletivas que estimulassem a troca de experiências. Observamos que ela já realiza sozinha, atividades do cotidiano, tais como: pendurar a bolsa, retirar a agenda da bolsa e calçar os sapatos, atividades rotineiras que estimulamos para que sejam desenvolvidas pelos alunos sem o auxílio das professoras já no primeiro mês de contato com a escola. No

entanto, Maria ainda precisa de

auxilio para se vestir e para utilizar

brinquedos que necessitem de

raciocínio lógico.28

Esses relatórios realmente não me ajudam a entender a criança singular. Eles falam de uma criança abstrata baseadas em teorias universalistas da infância. Não é isso que eu busco para a minha dissertação. É bem verdade que eu os leio para construir um relatório de aula, mas como não ser ética também na construção dos relatórios das crianças? Não tem como buscar ser dialógico na escritura da dissertação, mas deixar de ser quando o assunto é relatório. Esses relatórios me fizeram refletir sobre essa relação com o outro enquanto objeto, porque, muitas vezes, parece que o outro é objetificado.

(38)

Essas teorias que informam sobre a infância não dão conta de entender o sofrimento da criança singular, só o sofrimento em uma perspectiva abstrata. Busco um meio de escutar a criança como um outro que diz a sua vida em formas enunciativas, e não um objeto de descrição do adulto. Porque realmente é isto que somos na pesquisa: seres humanos que falam.

Não sei se as pessoas se sentem embaraçadas com o sentimento dessa indiferença, mas sou tocada por ela quando absorvo as crianças: vivem em um mundo que é delas. E tenho a impressão de que eu vivia em um mundo meu. Penso que a maioria dos escritores, mesmo “sérios”, que falam da infância, enganam-se sempre no assunto. Vêem a criança sob seu ponto de vista de adultos ou então fazem um esforço enorme para se colocar no lugar do eu imaginam ser uma criança. Tudo isso é muito sistemático, muito próximo de nossas próprias convenções. Penso que a criança se conduz muito vagamente, na vida, com surpresas de jovem animal que vê- ou encontra- alguma coisa pela primeira vez; dos adultos que a cercam, cuja identidade nem sempre é muito clara, dizem lhe que um parece, é seu pai, que ele se chama papai (mas o que é para ela um pai?), que o outro é a sua mãe e que o terceiro é a empregada, a cozinheira, o carteiro; todas essas pessoas são ‘’adultos’’ que têm a mesma importância e que, ao mesmo tempo, não estão muito vinculados a ela; ela tem uma vida pessoal, a que tais pessoas não tem acesso. E essas relações, ninguém quer vê-las. 29

Até no meu silêncio, eu enuncio. Os gestos, as expressões faciais, a forma como meu corpo se posiciona, tudo te responde, tudo é linguagem. O sujeito enunciador tem um projeto de dizer, e isso se dá no gênero discursivo.

O gênero é o modo como cada um de nós, enquanto autores, entra na vida, como penetra e percebe o real. Cada gênero é uma fenda, um foco de luz na realidade em uma frequência diferente. Quanto mais gêneros, mais larga a visão de mundo. A heterociência se constrói pela escuta do sujeito do ato. Isso se dá pela luta contra a objetificação.

Abro o livro

Cada gênero é capaz de dominar somente determinados aspectos da realidade, ele possui certos princípios de seleção, determinado formas de visão e de compreensão dessa realidade, certos graus na extensão de sua apreensão e na profundidade de penetração nela.30

É,esse gênero não dá conta disso.

29Marguerite Yourcenar. De Olhos Abertos apud Carlos Rodrigues Brandão. Educação como Cultura. 2002, p.189.

(39)

Narrativa dos Processos

O que temos até aqui? O que você consegue ver, Angélica, com seus erros e seus acertos? Com seus pensamentos e suas dúvidas?

Vejo que, nessa primeira parte, algumas tentativas de compreender o sofrimento não tiveram grande sucesso. Comecei escrevendo uma narrativa do sofrimento do Matheus, o que sozinho não dá conta.

Eu olho para o fluxo do cotidiano e tento pensar as questões da escola e não dou conta. Percebo que o cotidiano é um lugar onde eu não consigo pensar. Percebo nele o lugar da arquitetônica do ato. Não é que eu não reflita sobre os acontecimentos que o permeiam, mas, envolvida no fluxo, eu não consigo gerar uma teoria acabada o suficiente para poder pensar de modo demorado, a fim de, de certa forma, tecer um plano com acabamento suficiente para poder dialogar textualmente, fazer ciência, criar conhecimento de uma segunda ordem, com a finalidade de inserir as reflexões na cadeia discursiva das ciências humanas.

Busco, então, um plano estético, e o Roteiro que tem o Guilherme como personagem também não dá conta por si só. Vejo também que todo esse processo me fez perceber coisas que eu não havia percebido antes, e elas me dão pistas dos caminhos a seguir. As questões que são suscitadas lá no cotidiano me acompanham até a minha mesa de estudos, e, enquanto pesquisadora, eu reflito sobre elas. Mas até aqui as minhas reflexões não deram conta de entender o sofrimento da criança.

Preciso de um acabamento estético não mortificante, que me traga para a tangente da vida, como disse Bakhtin nos Apontamentos dos Anos 40, estando o autor tanto na vida quanto na sua tangente, para poder pensar e criar um elo textual na cadeia do discurso científico, ou heterocientífico. Preciso dar um passo.

(40)
(41)

Agosto de 2017, 23: 25 PM

O

Cronotopo

da

Estudante

Pesquisadora:

Memórias

atrapalhadas

Um humor melancólico é o que convém ao estudante. A melancolia, esse humos negro, sombrio, que a fisiologia do renascimento já relacionava com a vida intelectual, é a substância que predomina no temperamento do estudante. E a melancolia sempre vem mesclada com uma tristeza, é um desequilíbrio produzido pela solidão. O melancólico é aquele que se isola. É aquele que sensível à influencia de Saturno, se prostra frequentemente inativo, estupefato, perdido, esvaziado, desanimado. Quando todos os demais estão agitados, ativos, alegres e engenhosos, quando todos têm coisas para fazer, quando todos têm coisas para dizer, quando todos têm uma tarefa que os justifica lhes é urgente, o estudante melancólico, olha o vazio e submerge num tipo de profundidade pantanosa, escura, opaca, imóvel, pesada, silenciosa.31

Nada do que eu tenho até aqui me faz compreender o sofrimento, o que eu fiz até aqui me ajudou a entender algumas coisas, mas ainda não me faz entender o sofrimento do outro. Vamos lá, Angélica, pense, você precisa perceber algo a mais, não pode ser só isso. Bom, eu me lembro dos encontros com as crianças, e relembrando-me desses encontros que ficaram na minha memória, eu sei que existe algo ali que eu ainda não consigo compreender completamente.

Talvez a minha memória já esteja me enganando, pois, cada vez que eu penso, eu me lembro de algo de que não me lembrava antes. Minha memória se parece com um quebra-cabeças de mil peças, mil peças bem levinhas, daquelas que voam com uma leve brisa, e pronto, já está tudo embaralhado de novo. No entanto, de repente, eu olho para o lado, e lá está uma pecinha que eu nunca havia visto antes, mas que faz todo o sentido agora, quando eu olho com cuidado, e me demoro nela. Aí que eu percebo a importância daquela pequena pecinha que sempre esteve alí, diante dos meus olhos, mas eu nunca a vi realmente, só no depois, quando re-olho.

Minha memória às vezes me atrapalha a montar o quebra-cabeça, e, por isso, eu eu costumava fazer diários, naqueles cadernos de planejamento que a gente recebe no inÍcio do ano. Eu gosto de escrever, é bom auto-avaliar-se e ver as besteiras que você fez. É otimo ver as coisas boas também, para poder lembrar. O problema era lembrar de escrever diariamente. Eu posso dizer que fazia um ‘biário’, porque, se eu esquecesse em

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um dia, no outro com certeza eu lembraria. É isso, Angélica! Você tem um caderno com anotações daquela época. E, se ele existe ainda, com certeza está no quartinho da bagunça.

Achei!

Diário de aula

Dia 17 de Março de 2015

Sou uma professora louca. Não entendo o que acontece nessa sala de aula. Às vezes eu acho que sou cega, mesmo conseguindo ver. Nossa, quem ouvir isso vai logo dizer: é louca de pedra. Embora eu respeite essa opinião, eu digo isso, porque sei que acontecem coisas que eu não consigo ver. Entenda, eu vejo, entretanto não consigo compreender.

É confuso de se dizer, quando falo em voz alta fica até mais complicado ainda. Quero dizer, na escola acontecem coisas que eu não entendo. Olha aquele menino, eu não o aguento mais, ele chora o dia inteiro, o período de adaptação já passou, e ele continua chorando. Bom, eu entendo que ele tenha algumas questões, que é a sua primeira vez na escola de Educação Infantil, que ele entrou bem depois de todos. Na verdade, aqui a maioria das crianças chegou com dois anos, ele só veio para a UMEI com cinco anos. Acho estranho, quando olho para ele, pois parece que ele não se sente bem aqui. Ao mesmo tempo, eu concordo com ele, deve ser bom andar por aí, sem destino e sem hora para nada.

Não que eu ache que não ter hora para nada seja bom, mas ter hora para tudo também é cansativo. Os estudiosos de educação dirão: a rotina é otima para a criança, depois de um tempo ela se acostuma, é só questão de hábito. Eu acordo cedo a vida inteira, e olha, eu nunca me adaptei. É sempre um grande problema para mim. O despertador toca repetidas vezes até que eu reconheça que vou ser obrigada a levantar da cama. Um drama só, mau humor, vontade nenhuma de conversar. Gostaria muito de acordar saltitante, mas com o despertador não dá. Talvez ele seja parecido comigo, só tem dificuldades para se adaptar em coisas que todos se adaptam rapidamente. Ou tavez ele só esteja querendo ir embora mesmo.

(43)

Não sou de reclamar, mas correr atrás dele pela escola inteira é um exercício cansativo. Se eu me distraio um minuto, ele já se põe a correr em qualquer direção. Eu realmente não consigo entender, e olha, não é por falta de conversa, na verdade acho que está mais para um monólogo. O pai dele diz que ele fala, mas comigo nada. Nenhum murmúrio, nenhum olhar, nenhum gesto. Parece que é por culpa minha que ele está aqui. Tá, tudo bem que sou eu que fico parada na porta da sala para impedir que ele fuja. Tenho medo de que o portão esteja aberto, e ele saia correndo para a rua. Deus me livre de correr atrás dele por entre os carros. Vai ser melhor para ele ficar aqui.

Nossa, eu pareço uma pessoa muito ruim, ficar na porta para impedir a passagem realmente não é muito legal, mas é para o bem dele. Bom, não parece que é para o bem dele. O único sorriso do dia só aparece quando eu abro a porta da sala e ele recebe o pai. Durante o dia inteiro ele arrasta aquela mochila, acho que vou enlouquecer, não aguento mais o barulho das rodinhas ralando naquele piso de cimento batido desgastado pelo tempo. Eu só não jogo a mochila pela janela porque ela vai bater na grade de ferro e voltar com tudo em cima de mim. Já seria um avanço tirar alguma coisa de dentro dela, todos os dias travo uma luta para retirar a agenda.

É, acho que eu estou enlouquecendo mesmo, mas que atire a primeira pedra a professora que puder dizer que nunca quis jogar alguma coisa pela janela. Vocês acham que eu não sei que tem algo errado? É claro que eu sei! Vocês vão dizer que eu pareço pretensiosa, mas não é isso. Tá bom, pode até ser, mas o que eu quero dizer é que eu vejo que tem algo, mas eu realmente não sei o quê.

Olha para ele, ele chora a maior parte do tempo. Quando não está sentado ao lado da porta, ele está parado olhando para a janela enorme que ele quase não dá altura para olhar para fora, acho que é por isso que ele passa tanto tempo lá, não conseguiu ver ainda que a janela não tem vista para lugar nenhum. Mesmo assim, ele passa horas pendurado naquela janela enorme, se equilibrando, tentando não esbarrar nas montanhas de cestos onde guardamos os brinquedos, tentando olhar por entre as grades, procurando uma brecha para ver. Ver o quê? Eu queria tanto que ele me respondesse, mas ele não conversa comigo. Poxa, todo mundo conversa

(44)

comigo, as crianças me amam, eu sou super legal. Presunçosa? Tá, tudo bem, eu não sou legal o tempo todo, às vezes eu sou até bem chata, mas, quando eu falo, as crianças olham para mim, elas se interessam pelo que eu falo. Tá bom, as vezes elas não me dão a menor bola, mas olha, tem horas que uns se interessam e outros não, tem horas que os outros se interessam e uns não, existe um equilíbrio, sabe? Mas com o Vinícius não, ele só se interessa pela janela e pela porta. O que será que tem alí que eu não vejo? O que está além do muro? Realmente não consigo ver.

Aqui está dificil de pensar, muito barulho, não que eu seja desatenta, mas os sons da rua desviam a minha atenção, as crianças conversando, sempre alguém me chama para alguma coisa. Vou tirar uma foto.

Ei pessoal, olha o passarinho!

Como é estranho reler o que eu escrevi sobre aquele momento. Nessa escritura, eu revelo que observo bastante a conduta do Vinícius. Eu consigo perceber que o período de adaptação já passou, mas ele continua a chorar. No entanto, realmente o que faço na escrita é uma tentativa de interpretação. Critico as questões de interpretação, critico a rotina, mas, nas minhas tentativas de diálogo, a criança nada diz, e eu os silêncio.

Relendo calmamente, eu consigo enxergar a minha posição na foto. Ele está de costas para mim, e eu fechando a porta. Eu realmente não gosto de mim também, eu dou toda razão a ele, eu também não daria ideia para mim, pareço muito chata. Quer dizer, quem fica guardando a porta? Um carcereiro? Um guarda? É claro que ele fica feliz quando o pai chega. Isso significa que ele vai pegar a mochila e vai embora. Aliás, essa mochila me incomodava muito mesmo, mas ele estava certo, sempre pronto para sair.

Pelo menos, eu tinha consciência de que havia algo ali, quando eu olhei a cena. De dentro da cena, descrevi tudo. Mas isso só dá conta do ponto de vista da professora, do meu ponto de vista único sobre tudo o que eu vejo. Eu consigo ter uma descrição, mas ela é totalmente subjetiva, unilateral e muito misturada com minhas emoções, experimentações, testando modos de fazer melhor. Nossa, quanta coisa eu aprendi desde esse dia. Quantas situações eu passei dentro dessas escolas. Olha aí, você continua falando de si. Continua fazendo a mesma coisa que fazia, fica aí falando da sua relação, em um processo de erros e acertos. É tudo uma descrição monológica. Ah, Angélica, parece até que você não aprendeu que toda a narrativa monológica termina em uma

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