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Um ensaio etnofotográfico sobre o envelhecimento
Wilson José Alves Pedro
Professor Adjunto da Universidade Federal de São Carlos – Departamento de Gerontologia, São Carlos (SP), Brasil. Docente do Programa de Pós-Graduação Ciência, Tecnologia e Sociedade e do Programa de Mestrado Profissional – Gestão das Organizações e Sistemas Públicos. Investigador Visitante do Instituto do Envelhecimento – Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (2013-2014). E-mail: [email protected]
Resumo
O presente artigo propõe uma síntese reflexiva – imagética e textual sobre o tema processos de envelhecimento. Trata-se de um ensaio etnofográfico, a partir de registros do diário de campo, realizados em Portugal. A partir de um enquadre teórico sociológico propõe uma reflexão sobre a complexidade da apreensão dos processos de envelhecimento, enquanto fenômeno-objeto de estudo e seus determinantes. Aponta-se a necessidade de saberes interdisciplinares e procedimentos plurimetodológicos no âmbito dos estudos gerontológicos para compreender e agir sobre as multideterminações deste processo.
Palavras-chave
Gerontologia Social; Envelhecimento; Fotografia; Etnografia.
Abstract
This article proposes a reflective synthesis - imagery and text on the subject of aging processes. This is a test etnofográfico, from records of the diary, made in Portugal. From a sociological theory fits proposes a reflection on the complexity of the seizure of the aging processes as a phenomenon - object of study and its determinants. It points up the need for interdisciplinary knowledge and plural methodological procedures in gerontological studies to understand and act on multideterminações this process.
Keywords
Social Gerontology; Aging; Photography; Ethnography.
Incursões pela Gerontologia
Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida. Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção – isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos. Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelada para branco quente ousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que foi será outra coisa, e o
que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão. Altos montes da cidade! Grandes arquiteturas que as encostas íngremes seguram e engradecem, resvalamentos de edifícios diversamente amontoados, que a luz tece de sombras e queimações – sois hoje, sois eu, porque os vejo, sou o que [não sereis] amanhã, e amo-vos da amurada como um navio que passa por outro navio e há saudades desconhecidas na passagem” (PESSOA, p. 113-114).
Nos últimos anos a opção em trabalhar com envelhecimento ativo e saudável mobilizou as incursões acadêmicas, políticas e pessoais bastante complexas. Parafraseando o poeta... “envelhecer é preciso, envelhecer não é preciso...” Atuo na vertente social da gerontologia (PEDRO, 2012, 2013a, 2013b) um emergente campo científico, bastante desafiador, pois demanda estudos e intervenções para aprimorar “o lugar da velhice na sociedade” (BEAUVOIR). Será possível? Grandes são os paradoxos e contradições dos processos individuais e coletivos do envelhecer, destacando que “uma vida que nem sempre é vivida, no emaranhado das relações sociais” (CIAMPA, 1993). Afinal qual é o lugar da velhice nas sociedades contemporâneas?
Figura 1: A espera da procissão. Festa de Santo Antônio, Lisboa, junho de 2013. Fonte: Acervo Pessoal do Autor
Defendo que as pessoas devem ocupar lugares sociais cidadãos, construindo identidades com autonomia, emancipação e respeito às diferenças (PEDRO, 2014). Tendo delimitado o estudo das estratégias de promoção do envelhecimento ativo no contexto luso-brasileiro, como fenômeno-objeto para os estudos pós-doutorado junto ao Instituto do Envelhecimento – Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e considerando a natureza e complexidade do tema, tornou-se imperativo a imersão deste pesquisador social brasileiro, na realidade portuguesa. A cultura é um fator determinante dentro da estrutura para compreender o envelhecimento ativo. Segundo a OMS “a cultura, que abrange todas as pessoas e populações, modela nossa forma de envelhecer, pois influencia todos os outros fatores determinantes do envelhecimento ativo” (WHO, 2005). Esta etapa foi importantíssima
117 para compreender as especificidades e as formas de viver e envelhecer em Portugal na contemporaneidade (PEDRO, 2014).
As regiões delimitadas para estudo, suas características e especificidades são dialeticamente singulares e plurais. Cruzar informações sobre a região metropolitana de Lisboa - Portugal com o interior do Estado de São Paulo – Brasil, foi e continua a ser um processo inesgotável. A identificação e caracterização das singularidades, especificidades, indicadores e boas práticas públicas de promoção do envelhecimento ativo são elementos-chave do estudo. Nestas, o trabalho e a participação social são elementos centrais da investigação e constitutivos da promoção de saúde e cidadania. São dimensões se amalgamam requerendo delimitações e enquadres teóricos e metodológicos.
A abrangência geográfica das regiões do estudo foram pré-definidas pelo pesquisador, tendo por referência a localização as instituições âncoras do estudo - Universidade de Lisboa e Universidade Federal de São Carlos (PEDRO, 2013b). As escolhas destas regiões justificam-se também pelas características sócio demográficas, e pela relevância da população com 60+ anos nos universos investigados (INE, 2013; IBGE 2013).
O trabalho de campo proporcionou interações significativas com diversos atores sociais, tanto na etapa de identificação dos documentos para análise, como na etapa das visitas técnicas. Parcela significativa dos informantes do estudo se inserem num perfil sênior, ou seja, são pessoas com 50+ anos. A quase totalidade das organizações, programas e serviços investigados são destinadas e/ou dirigidas por pessoas com 60+ anos. Muitas foram as interações decorrentes do estudo com pesquisadores e profissionais, estudantes em formação, representantes de movimento sociais. Demandas e desafios das múltiplas determinações do envelhecimento foram revisitadas in locus; sendo na postura de estranhamento o fio condutor para viabilizar a presente investigação. E no processo de trabalho, o Diário de Campo foi essencial para registros, apontamentos e reflexões,
Inquestionavelmente cuidados éticos são imprescindíveis. Portanto, todos os registros fotográficos foram realizados em espaços públicos, o que permite o direito de publicização das imagens.
Neste mundo globalizado, a diversidade de identidades é essencial para a garantia da autonomia, o respeito à diferença e à emancipação, em todo o curso da vida e nos processos de envelhecimento.
O trabalho se desenvolveu entre os meses de fevereiro de 2013 e janeiro de 2014, com idas e vindas entre Portugal e Brasil. A proposta de cruzar fronteiras provoca inquietações e reflexões acadêmicas e pessoais.
Neste contexto o presente ensaio apresenta algumas reflexões sobre os bastidores da pesquisa. Denominado um estudo etnofográfico sobre o envelhecimento em Portugal, propicia ao leitor o compartilhamento de imagens e reflexões, enfatizando a importância do diário de campo na pesquisa social e a emergência de inovação nas investigações sociais sobre o envelhecimento.
O envelhecimento, um fenômeno individual e coletivo, complexo e multideterminado; requer esforços inovadores, para o enfretamento de sua ideologização e mercantilização e mesmo a sua banalização. É preciso um amplo empreendimento científico, tecnológico e político, para a promoção de condições objetivas e subjetivas, éticas e humanas para o envelhecimento ativo e saudável digno. Se de um lado as imagens registradas expressam manifestações de autonomia e independência, condições sine qua non para a construção de uma velhice ativa; os textos complementarmente contextualizam e problematizam aportes teóricos e metodológicos para a análise dos processos de envelhecimento.
Portugal. Fruto das incursões cotidianas, em um cenário até então (des) conhecido pelo pesquisador, cujas imagens apresentadas não remetem direta ou exclusivamente às estratégias investigadas no estudo principal. Conforme apontado o empreendimento de observar, interagir e compreender os processos de envelhecimento ativo em Portugal é extremamente instigante. O encantamento e a inquietação provocadas pelo cotidiano transcendiam aos objetivos do estudo. As várias manifestações individuais e coletivas, as ruas e lugares, as produções simbólicas revelavam o cotidiano de um país envelhecido e com expressões singulares de “autonomia e independência”. Isto pode ser constatado a olho nu. Pairava a dúvida: O que fazer? Como captar este movimento? Como demonstrar este processo de envelhecimento? Como evidenciar e integrar este cenário ao estudo em andamento.
Figura 2: Bairro Alto, Lisboa, março de 2013. Fonte: Acervo Pessoal do Autor
O diário de campo tornou-se, portanto, um recurso essencial na pesquisa. Tomou forma e consistência, a partir de anotações, leituras, registros fotográficos, gravações em áudio e outros recursos, que compunha um mosaico de informações e que agora, revisitadas estão contempladas no presente ensaio.
Apesar da clareza e foco do objeto de estudo - concepções paradigmáticas de envelhecimento ativo, em documentos e na produção científica; o perfil sócio demográfico com ênfase na população sênior (+50) e as estratégias de promoção do envelhecimento ativo, tendo o trabalho a centralidade (PEDRO, 2013), ou seja, as concepções, políticas e práticas de promoção do envelhecimento ativo, suas interfaces com a saúde, trabalho e a participação social, nos contextos luso-brasileiro, a imersão na cultura portuguesa foi uma etapa fundamental na identidade do pesquisador. Uma oportunidade singular.
O planejamento da investigação contemplava a proposta de realização de registros fotográficos dos locais visitados. A literatura sobre pesquisa social destaca a importância do diário de campo e enfatiza que “observar não é apenas ver. A validade – será que se está observando aquilo que de fato se deseja observar? A confidencialidade ou fidedignidade – será que sucessivas observações do mesmo fato ou situação oferecerão resultados semelhantes?” (MARTINS, THEOPHILO, 2007, p. 84). Assim a opção pela realização de registros fotográficos como recurso complementar do trabalho de campo possibilitava registros importantes para evidenciar elementos complementares, porém essenciais ao estudo. A fotografia é uma paixão antiga e companheira de viagem. Na condição de pesquisador
119 social foi importante rever e (re) significar a possibilidade de seu uso.
Lisboa, com sua geografia, sua arquitetura e sua gente revelara-se um observatório social interessantíssimo sobre os processos de envelhecimento. O macro contexto econômico, político e social português que me defrontei, revela também um cenário que requer um grande empreendimento hermenêutico (AMARAL, 2010; CENTENO, 2013; ROSA, 2012).
Figura 3: Avenida do Alecrim, Lisboa, 16 de fevereiro de 2013. Fonte: Acervo Pessoal do Autor
No processo de investigação os aportes teóricos e metodológicos foram assumindo novos contornos, a partir de revisões sobre o individualismo metodológico nas teses de Boudon (1986) e Ansart (2002) (1986), as diferentes formas de pensar o social com Becker (2009) e as análise sobre os processos de envelhecimento de acordo com Caradec, Cabral e Cols (2013) corroboram os pressupostos do estudo e aguçam as reflexões: como apreender o fenômeno-objeto de estudo – processos de envelhecimento individual e coletivo – em suas múltiplas determinações? Que saberes são necessários? De que forma?
Com Boudon a problematização sobre o lugar do indivíduo e dos indivíduos no pensamento sociológico. Se enquadrarmos o princípio do individualismo metodológico, visando compreender o envelhecimento – individual e coletivo tem-se com Ansart (2002) que o fenômeno observado na consequência do comportamento dos indivíduos, ou seja, o objeto situa-se no estudo dos comportamentos individuais no interior de um determinado sistema social. Ora o revela-se o potencial? O individualismo metodológico “questionará o comportamento real dos actores, considerando os papéis como possibilidades de acção atribuídas aos actores, e não como normas constrangedoras (...) a tarefa do individualismo metodológico não será verificar os papéis impostos, mas examaminar de que modo assumes os actores os seus papeis, avaliam os ´subpapéis´que lhes são propostos e com que consequências de ordem geral” (ANSART, 2002, p. 98-99).
Figura 4: Avenida do Alecrim, Lisboa, 16 de fevereiro de 2013. Fonte: Acervo Pessoal do Autor
Complementarmente as reflexões sobre a representação da realidade social. Becker (2009) afirma que através de um filme documentário, um estudo demográfico ou um romance realista as representações são sempre parciais. E os outros recursos devem ser também problematizados? Neste direcionamento refletíamos sobre a proposta de trabalho e as formas de representações da realidade social: “menos do que experimentamos e teríamos à nossa disposição para interpretar se estivéssemos no contexto real que ela representa. Afinal, é por isso que se fazem representações: para relatar apenas aquilo que os usuários precisam para realizar o que quer que queiram fazer Uma representação eficiente nos diz tudo que precisamos saber para nossos objetivos, sem perder tempo com aquilo que não precisamos” (BECKER, 2009, p. 31).
O autor destaca:
Somos todos curiosos em relação à sociedade em que vivemos. Precisamos saber, na base mais rotineira e da maneira mais comum, como nossa sociedade funciona. Que regras governam as organizações de que participamos? Em que padrões rotineiros de comportamento outras pessoas se envolvem? Sabendo essas coisas, podemos organizar nosso próprio comportamento, aprender o que queremos, como obtê-lo, quanto custará, que oportunidades de ação várias situações nos oferecem. Onde aprendemos essas coisas? Da maneira mais imediata, a partir das experiências de nossa vida diária. Interagimos com todas as espécies de pessoas, grupos e organizações. Conversamos com pessoas de todos os tipos e em todos os tipos de situação. Evidentemente, não de todos os tipos: a experiência social de tipo face a face é limitada pelas relações sociais, a situação na sociedade, os recursos econômicos, a localização geográfica. Podemos nos virar com esse conhecimento limitado, mas, em sociedades modernas (provavelmente em todas as sociedades), precisamos conhecer mais do que aprendemos com a experiência pessoal. Precisamos – ou pelo menos queremos – saber sobre as outras pessoas e lugares, outras situações, outras épocas, outros estilos de vida, outras possibilidades, outras oportunidades’. (BECKER, p. 17-18).
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Figura 5: Explicações do Avô. Autor: Francisco Romano Esteves (1882-1960). Óleo sobre tela. Fonte: Acervo Pessoal do Autor. Registro fotográfico: Museu Casa Santa Maria
Para Becker, as fotografias, objeto cultural, ganha sentido a partir do contexto. Assim o documentário, o fotojornalismo e a sociologia visual, oferecem um cenário mínimo para tornar as imagens inteligíveis.
Assim, procuramos “representações da sociedade” em que outras pessoas nos falam sobre todas essas situações, lugares e épocas que não conhecemos em primeira mão, mas sobre os quais gostaríamos de saber. Com a informação adicional, podemos fazer planos mais complexos e reagir de uma maneira mais complexa às nossas situações de vida imediatas. Para simplificar, uma “representação” da sociedade é algo que alguém nos conta sobre algum aspecto da vida social. Essa definição abarca um grande território. Num extremo situam-se as representações comuns que fazemos uns dos outros como leigos, no curso da vida diária. (BECKER, p. 17-18). Para a sistematização do Diário de Campo a proposição da fotoetnografia (ACHUTTI, 1997) foi fundamental. Trata-se de uma vertente na pesquisa qualitativa, pautada em pressupostos da etnografia, utilizando-se de técnicas fotográficas aliadas à observação e escrita, descrevendo através de imagens o fenômeno-objeto investigado (DUARTE, 2002). Esta técnica permite alimentar a observação, o ato de olhar e captar emoções, sutilezas e sensibilidades (Andrade, 2002).
Aprendemos a ver apenas o que praticamente precisamos ver. Atravessamos nossos dias com viseiras, observando apenas uma fração do que nos rodeia. Os homens modernos não são bons observadores e o uso de uma máquina fotográfica pode auxiliar sua percepção. No caso da antropologia, o ato de fotografar pode dar uma visão global e uma observação detalhada (DUARTE, 2002, p. 54)
Esta proposição dá aderência aos pressupostos de Becker, ao reconhecer e legitimar outras possibilidades de representar o social – objetiva e subjetivamente e nos conduzia:
Meus próprios colegas de profissão – sociólogos e cientistas sociais – gostam de falar como se tivessem o monopólio da criação dessas
representações, como se o conhecimento da sociedade que produzem fosse o único conhecimento “real” sobre esse assunto. Isso não é verdade. E eles gostam de fazer a afirmação igualmente tola de que as maneiras que possuem de falar sobre a sociedade são as melhores ou as únicas pelas quais isso pode ser feito de forma apropriada, ou que suas maneiras de fazer esse trabalho protegem contra todas as espécies de erros terríveis que poderíamos cometer. Esse tipo de conversa é apenas uma tomada do poder profissional clássica. Levar em conta as maneiras como as pessoas que trabalham em outros campos – artistas visuais, romancistas, dramaturgos, fotógrafos, cineastas – e os leigos representam a sociedade revelará dimensões analíticas e possibilidades que a ciência social muitas vezes ignorou serem úteis em outros aspectos. (BECKER, p.19).
Portanto, mobilizado pela apreensão e representação do fenômeno-objeto de estudo, concomitante às evidências de estudos teóricos e empíricos sobre o envelhecimento, interagi com os seniores, pesquisadores e gestores portugueses da área do envelhecimento.
No cotidiano do Bairro Alto, que completou 500 anos de fundação; os deslocamentos para a Universidade e organizações visitadas, bem como tempo livre retroalimentava continuamente a tônica do envelhecimento: na dimensão vivida e representacional (artes, mídia, instituições e afins) o envelhecimento se manifestava. Muitas eram as evidencias fenomenológicas, cujos registros fotográficos tornavam o indizível em visível.
A Fotografia não fala (forçosamente) daquilo que não é mais, mas apenas e com certeza daquilo que foi. Essa sutileza é decisiva. Diante de uma foto, a consciência não toma necessariamente a via nostálgica da lembrança (quantas fotografias estão fora do tempo individual), mas sem relação a qualquer foto existente no mundo, a vida da certeza: a essência da Fotografia consiste em ratificar o que ela representa. (BARTHES, 1984, p.127-128)
Figura 6: Alameda da Linha das Torres, Lisboa, outubro de 2013. Fonte: Acervo Pessoal do Autor
123 Por ocasião do Simpósio Ciências Sociais Cruzadas (2013) interagi com a do Prof. Dr. José de Souza Martins, um dos mais importantes cientistas sociais brasileiros contemporâneos. Faço remissão a este encontro, além das conferências, a identificação do livro Sociologia da Fotografia e da Imagem (2008) e visita ao ensaio fotográfico Fronteiras (2013), foram fundamentais e decisivos para definição deste ensaio.
Martins afirma que “das formas de expressão visual da realidade social, a fotografia é aquela que ainda procura o eu lugar na sociabilidade contemporânea. Talvez, porque tenha sido, por muito tempo, a mais popular de todas, ao alcance de um leque amplo de usuários e instrumentalizada por uma variedade significativa e imaginários. A que se deve agregar, em consequência, a diversidade de funções: das puramente técnicas à puramente artísticas, passando pelas relativas ao lazer e à memória do homem comum” (MARTINS, 2008, p. 33)
Figura 7: Marchas de Santo Antonio. Avenida da Liberdade. Lisboa, junho, 2013. Fonte: Acervo Pessoal do Autor
Martins afirma que a fotografia procura o seu lugar na Sociologia:
Tanto como forma peculiar de expressão do imaginário social e da consciência social como recurso da Sociologia para compreendê-los. Ou, melhor dizendo, procura a Sociologia um lugar para ela no elenco dos recursos metodológicos que possam enriquecer os seus meios de observação e registro das realidades sociais. Como ocorreu com os antropólogos, não é raro que os sociólogos busquem nela a técnica capaz de reter e documentar a dimensão ontológica do social. O uso da fotografia pela Antropologia e pela Sociologia chegou a ser considerado, e ainda é por muitos, um recurso objetivo de pesquisa, e por isso complementar da objetividade nas Ciências Sociais. Sujeito, porém a ressalvas relativas ao risco da subjetividade própria de uma modalidade de expressão visual no trânsito na arte. Howard Becker assinalou esse temor em Margareth Mead, pioneira no uso antropológico da fotografia.
Vai ficando evidente, porém, que a imagem fotográfica constitui mais do que um recurso da técnica de pesquisa nas Ciências Sociais. Antes de ser procurada pelos cientistas sociais, já havia sido cortejada pelo senso comum e com ele contraíra matrimônio. Mais do que se tem hoje, essa busca tinha
sentido quanto a Sociologia ainda se sentia segura no interior da fortaleza da objetividade e das técnicas aparentemente precisas de observação e estudo das estruturas sociais, dos processos sociais e das situações sociais. Uma época, também em que uma certa inocência social limitava o ímpeto de expressão do homem comum e o mantinha relativamente confinado no interior do castelo forte das regras sociais” (MARTINS, 2008, p. 33-34). E cada vez mais o estudo elucidava a relevância da inovação. Evidências emergiam e não se tratava apenas de um flagrante. A intencionalidade do pesquisador em evidenciar o trabalho e a participação social como elemento-chave na promoção do envelhecimento ativo era recorrente. E cotidianamente observava-se.
Figura 8: Mercado de Almerin. Almerin, junho, 2013. Fonte: Acervo Pessoal do Autor
A idéias sociologicamente densa do momento decisivo opõe-se frontalmente à banalidade anti-sociológica do flagrante e do congelamento. O flagrante, para chegar à Sociologia, depende do que no casual e no repentino se fixou em imagem fotográfica. Depende, então, de paciente busca na imagem já feita, quase sempre improfícua, não raro com resultados ingênuos e simplistas. A fotografia que expressa e documenta o momento decisivo chega com um quadro visual de referência que é em si interpretativo, com o deciframento da imagem já proposto esteticamente, socialmente dimensionado, na tensão entre a obra fotográfica e a imagem fotográfica. O flagrante é um acaso; o momento decisivo é uma construção, uma espera elaborada, esteticamente definida. Não é acidental que o fotógrafo procure previamente o cenário em que transcorrerá a cena do que vai fotografar (MARTINS, 2008, p. 61).
Meu foco de estudo, entretanto é a promoção do envelhecimento ativo através do trabalho. Flagrantes do cotidiano foram registrados. Os indicadores e estudos apontam a ampliação da carreira e também outras formas de permanência na vida ativa e laboral após a
125 aposentadoria (citar). O cotidiano traduzia,
Figura 9: Baixa Chiado. Lisboa, outubro, 2013. Fonte: Acervo Pessoal do Autor
O diário de campo se compunha, contemplando elementos subsidiários essenciais para a compreensão dos processos de envelhecimento. As visitas técnicas aos programas e organizações, as participações em eventos sobre envelhecimento e políticas públicas (e foram muitos os eventos em 2013, com efetivas contribuições após as discussões do Ano Europeu de Promoção do Envelhecimento Activo e Solidariedade entre as gerações ocorrido em 2012) e as leituras e discussões corroboravam os dados.
Portanto, o envelhecimento humano, um dos problemas centrais do século XXI e também de Portugal, investigado por Cabral et all (2013) era corroborado no trabalho de campo, exigindo elementos para aprofundar o “paradoxo do envelhecimento”. De um lado, o envelhecimento é visto como fenômeno positivo - individual e coletivo; corroborado em termos econômicos, sociais, biomédicos, nos quais as políticas públicas promotoras do acesso universal aos cuidados de saúde são conduzidas, traduzindo o aumento da expectativa e vida. De outro lado, este fenômeno do envelhecimento interage com a diminuição da taxa de fecundidade.
Os usos do tempo, as redes sociais e as condições de vida compunham dados importantes de estudo em processo de finalização na ocasião (CABRAL e COLS, 2013) eram também confirmados no cotidiano, corroborando as evidências.
Figura 10: Bairro Alto, Lisboa, março de 2013. Fonte: Acervo Pessoal do Autor
Organismos internacionais - Organização das Nações Unidas - ONU, a Organização Mundial de Saúde - OMS, a Comissão Europeia - CE e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico - OCDE preconizam diretrizes e orientações para a promoção de hábitos saudáveis de envelhecer durante todo o curso da vida, visando a necessidade de assegurar a inclusão social das pessoas à medida que envelhecem e garantir a participação na vida coletiva. E a despeito de tudo, o meu desassossego me faz revisitar Pessoa (2013), pois precisava também de inspiração poética para o enfrentamento deste processo. Meus colegas do Instituto do Envelhecimento foram co-responsáveis deste processo, uma vez me acolheram como Investigador Visitante e me incentivam a buscar elementos da mutideterminação do envelhecimento em Portugal: o perfil e especificidades dos seniores em Lisboa e Portugal, as redes interpessoais, as relações de apoio emocional, instrumental e de aconselhamento; a participação social, as ocupações de tempos livres, saúde e bem estar, as possibilidades de trabalho e ocupação do tempo livre, dentre outros temas afetos ao envelhecimento.
Nas entrelinhas dos estudos compartilhados e na vivência cotidiana de Lisboa muitas informações e cenas me pungiram. Inúmeros foram os registros fotográficos. Confesso, que quando iniciei estes registros não tinha muita clareza dos outputs. Ficava uma mescla do desejo de manter o vivido em fragmentos da fotografia, registrar meu trabalho de campo ou até mesmo fotografias para poder compartilhar com amigos minha estada em Lisboa.
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Figura 11: Exposição Fotográfica Freguesia São José, Lisboa, novembro de 2013. Fonte: Acervo Pessoal do Autor
Ora finalizo, reacendendo expectativas de que as reflexões advindas deste processo possam fomentar reflexões e novas estratégias de promoção do envelhecimento ativo. Agradeço aos sujeitos registrados nas imagens, com o reconhecimento que apesar de identidade manter-se “anônima e indizível”, fotografia permite-nos refletir sobre a independência e da autonomia necessárias para o curso da vida, de forma tão especial quando nos veem com velhos e quando assim também nos sentimos... Envelhecer é preciso, envelhecer não é preciso.
Figura 12: Estação Metro Campo Grande, Lisboa, novembro de 2013. Fonte: Acervo Pessoal do Autor
E mais uma vez, é na poesia de Pessoa que conduzimos o encerramento do presente ensaio, de modo reflexivo e poético, compartilhando com o leitor uma vez mais a complexidade – teórico e metodológica de refletir sobre o lugar da velhice na contemporaneidade. Se estes evidenciam alguns dos lugares ocupados é preciso destacar que são apenas alguns. Há outros lugares... visíveis ou não, acessíveis ou não, solitários ou compartilhados... Velhos, idosos, sêniores, pessoas idosas, terceira idade... acomodados ou desassossegados, como o poeta, outras pessoas buscam....
não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente rimado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo passa. Temos pois que conversar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira. Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem nas diversidades do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhamos distraídos. O romancista é todos nós, narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo. Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas como os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito. (PESSOA, 2013, p. 55-56)
Referências
BARTHES, Roland. A câmara clara. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.
BECKER, Howard Saul. (2009) Falando da Sociedade. Ensaios sobre as diferentes
maneiras de representar o social. Rio de Janeiro, Zahar, 2009.
CABRAL, Manuel Villaverde e cols (org). Processos de Envelhecimento. Lisboa, Portugal, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014.
MARTINS, José de Souza. Sociologia da Fotografia e da Imagem. São Paulo, Contexto, 2008.
PEDRO, Wilson José Alves Estratégias de promoção do envelhecimento ativo através do
trabalho. Projeto de pesquisa. UFSCar, Brasil; Instituto do Envelhecimento, Instituto de
Ciências Sociais, Lisboa, Portugal, 2013.
PESSOA, Fernando Livro do Desassossego. Assírio & Alvim. Porto, Portugal, 2013. WHO. Envelhecimento ativo: uma política de saúde. World Health Organization; trad. Suzana Gontijo. Brasilia, Organização Pan-America de Saúde, 2005.