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O trabalho de psicólogos com cegos

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA ELAINE DIAS

O TRABALHO DE PSICÓLOGOS COM CEGOS: ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL VERSUS EMPREGABILIDADE.

Palhoça 2012

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ELAINE DIAS

O TRABALHO DE PSICÓLOGOS COM CEGOS: ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL VERSUS EMPREGABILIDADE.

Pesquisa apresentada na disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso II, como requisito parcial para obtenção do título de Psicólogo.

Orientadora: Ana Maria Pereira Lopes

Palhoça 2012

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RESUMO

O momento da escolha profissional coincide com a fase da descoberta e com a definição da identidade. Sendo assim, uma vez que para sujeitos que não possuem limitações físicas já existe dificuldade em relação à sua escolha profissional, seria possível supor que, para pessoas com qualquer tipo de necessidades especiais, esse processo deva ser mais difícil ainda. O objetivo geral da pesquisa foi o de caracterizar os métodos utilizados por profissionais da psicologia para a realização de Orientação Profissional (OP) com cegos, buscando-se identificar os métodos adotados pelos profissionais para favorecer a acessibilidade do trabalho de OP com pessoas cegas; a constituição das diversas metodologias, e a consideração da condição psicossocial da deficiência visual. O trabalho foi delineado como estudo de casos e os dados analisados qualitativamente. Participaram da pesquisa, dois Psicólogos que trabalham com orientação profissional junto às pessoas cegas. Como instrumento de coleta de dados foi utilizado um roteiro de entrevista semi estruturada composto por vinte perguntas. Os resultados apontaram que os principais procedimentos adotados para favorecer a acessibilidade são relacionais e tecnológicos, estes últimos softwares e de sistemas operacionais No que tange às metodologias adotadas, identificou-se a existência de um trabalho multidisciplinar, com objetivo de orientar em direção à empregabilidade, com predominante modalidade de grupos. Já em relação à consideração da condição psicossocial da deficiência visual, os resultados mostram que os trabalhos de orientação profissional com os cegos estão fortemente direcionados para a inclusão no mercado de trabalho, e não tanto para a sua possibilidade de escolha. Buscam conscientizar o cego da existência do apoio social, como os benefícios e a lei de cotas, além de intervirem no processo de aceitação e enfrentamento da condição de ser deficiente. Diante disto, destaca-se a importância do desenvolvimento de estudos sobre escolha e orientação profissional com essa população, tendo em vista a instabilidade e a competitividade presentes no mercado de trabalho, além da existência do preconceito em relação a real capacidade contributiva destes indivíduos para o desenvolvimento de uma organização.

Palavras-chave: Orientação Profissional, Escolha Profissional, Incapacidade Visual,

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SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ... 5 1.1 PROBLEMÁTICA ... 5 1.2 JUSTIFICATIVA ... 9 1.3 OBJETIVOS ... 12 1.3.1 Objetivo Geral ... 12 1.3.2 Objetivos Específicos ... 12 2 REFERENCIAL TEÓRICO ... 13 2. 1 ESCOLHA PROFISSIONAL ... 13

2.1.1 A relação entre sujeito e trabalho ... 13

2.1.2 A escolha profissional e seu desenvolvimento na história ... 16

2.1.3 Conceituando orientação profissional ... 17

2.1.4 Processos e influências da escolha profissioal ... 20

2.2. DEFICIÊNCIA VISUAL ... 21

2.2.1 Aspectos antropológicos ... 21

2.2.2 Conceituando a deficiência visual ... 22

2.3 POLÍTICAS DE INCLUÇÃO ... 23

3 MÉTODO ... 27

3.1 QUANTO AO TIPO DE PESQUISA ... 27

3.2 PARTICIPANTES DA PESQUISA ... 28

3.3 EQUIPAMENTOS E MATERIAIS ... 28

3.4 SITUAÇÃO E AMBIENTE ... 28

3.5 COLETA DOS DADOS ... 29

3.5.1 Instrumento de Coleta de Dados ... 29

3.5.2 Procedimento de Seleção dos Participantes ... 29

3.5.3 Procedimento de Contato com os Participantes ... 30

3.5.4 Procedimento de Coleta e Registro dos dados ... 30

3.5.5 Organização, Tratamento e Análise dos Dados ... 31

4. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS ... 33

4.1 DESCRIÇÃO DAS PARTICIPANTES ... 33

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4.1.2 Participante II: Débora ... 34

4.2 ACESSIBILIDADE NA OP COM PESSOAS CEGAS. ... 34

4.3 METODOLOGIAS ADOTADAS POR PROFISSIONAIS DA OP JUNTO AO CEGO..38

4.4 CONDIÇÃO PSICOSSOCIAL DA DEFICIÊNCIA VISUAL ... 46

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 53

REFERENCIAS ... 55

APÊNDICES ... 60

APÊNDICE A - Roteiro de Entrevista ... 61

APÊNDICE B Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ... 63

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1 INTRODUÇÃO

A presente pesquisa é referente ao Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Psicologia no qual têm-se como objetivo caracterizar os métodos utilizados por profissionais da psicologia para a realização de Orientação Profissional (OP) com cegos. Este é vinculado ao Núcleo Orientado do Trabalho e ao estágio específico de desenvolvimento humano no trabalho, que desenvolve atividades de pesquisa e estágio em torno da relação entre homem e trabalho não somente dentro das organizações e sim para além delas. Dessa forma, esta pesquisa é um dos pré- requisitos para obtenção do respectivo título de Psicólogo.

Esta pesquisa inicia-se pela contextualização da problemática investigada e justifica sua pertinência tanto no campo científico quanto no social. Posteriormente, apresenta-se uma revisão no estado da arte que permite discutir os principais conceitos em que a temática se insere. Após, são apresentados os procedimentos metodológicos que serão utilizados para alcançar os objetivos propostos, em seguida realizar-se-á a análise dos dados coletados e por fim as considerações finais do presente estudo.

1.1 PROBLEMÁTICA

A psicologia tem como objeto de estudo os fenômenos psíquicos, sendo estes de extrema complexidade, o que significa ser necessário levar em consideração as diferenças existentes em cada indivíduo. (BOCK, et al, 1999). Assim como cada indivíduo apresenta diferenças singulares no processo de desenvolvimento e aprendizagem, o mesmo ocorre entre grupos. No entanto, justamente estes grupos que compõem a sociedade possuem aspectos próprios que os tornam iguais entre si e os diferem do restante da população.

Como já afirmado, quando se pertence a um grupo a pessoa possui características destes. Tendo em vista que a identidade que é construída dentro do grupo pertencente. A sociedade atribui características às situações e pessoas e estas são interiorizadas pelos sujeitos, este por sua vez se molda a partir destas (CIAMPA, 1987). Ao existir grupos diferentes, a psicologia afirma que em qualquer lugar onde existam seres humanos, esta profissão pode atuar. Nesse sentido, fica a seguinte pergunta: O que, na contemporaneidade, os psicólogos

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estão fazendo para auxiliar na inserção do mercado de trabalho, bem com na orientação profissional das pessoas com deficiência visual?

Diante dessas afirmativas, o presente trabalho interessa-se sobre a intervenção profissional de OP para pessoas cegas. Para tanto é necessário contextualizar que existe vários tipos de cegueira, estes variam pelo grau de acuidade visual. Sendo assim, para Bruno (1997), portador1 de cegueira é aquele indivíduo que mesmo com a máxima correção óptica possível possui acuidade visual menor que 20 graus, ou aqueles que possuem ausência total de visão, incluindo a falta de sensibilidade ao contraste de cores e à luz. Dessa forma, o processo de aprendizagem desses indivíduos dar-se-á por meio dos sentidos como, por exemplo: o meio tátil, auditivo; gustativo e olfativo. Isso não significa que o desenvolvimento psicológico desses indivíduos ocorrerá de forma deficitária, e sim que esse processo deverá ocorrer de forma alternativa, e para isso é necessário que o cego esteja familiarizado com os instrumentos e técnicas de mediação.

Conforme o Ministério do Trabalho (1996), no Brasil existem diversos movimentos sociais e legislações organizadas em prol dos direitos, proteção e apoio às pessoas com deficiência. Como por exemplo, a lei de cotas (nº 8.213, de 24 de julho de 1991, Art. 93), que diz que toda a empresa de médio e grande porte, deve destinar uma porcentagem de vagas para pessoas com deficiência. Contudo, ainda há uma lacuna grande na sua aplicação prática, cheia de preconceitos em relação à integração desses sujeitos no processo produtivo, permanecendo os obstáculos que mantêm a exclusão das pessoas com deficiência em termos de uma vida independente.

Mesmo com a lei de cotas, quando a sociedade diz apoiar qualquer deficiência e os meios de comunicação transmitem novelas que mostram deficientes que conseguem se inserir no mercado de trabalho, questiona-se: será que essas pessoas estão tendo possibilidade de escolher criticamente sua profissão? E ainda, estarão escolhendo? Como será que ocorre sua inserção no mercado de trabalho? Tendo em vista que estes fazem suas escolhas mediante profissões pré-estabelecidas pela sociedade, ou seja, que vão de acordo com a condição da deficiência, pode-se afirmar que pessoas com deficiência se inserem no mercado de trabalho, e, se deparam com locais não adaptados para recebê-los, além de não haver uma preparação dos colaboradores para atuar junto a uma pessoa com deficiência.

1Cabe salientar que, a terminologia “portador” de deficiência será citada no decorrer desta pesquisa. Apesar de

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Para melhor compreensão de como está o mercado de trabalho para cegos, segue um recorte de uma tabela retirada do site do Instituto Benjamim Constant2, que traz as ocupações compatíveis com o desempenho de deficientes visuais.

Figura 1: Ocupações compatíveis com o desempenho de deficientes visuais. Fonte: Instituto Benjamim Constant, (2011).

Nesta tabela fica evidente que a maioria dos cargos que podem ser ocupados por cegos é de auxiliar. Por mais que um sujeito cego deseje escolher uma determinada profissão, os limites impostos fazem com que essa escolha não seja necessariamente o que ele deseja.

2 INSTITUTO BENJAMIM CONSTANT. Ocupações compatíveis com o desempenho de deficientes visuais.

Disponível em: <

http://www.ibc.gov.br/index.php?query=ocupa%E7%F5es&Buscar=Buscar&amount=0&blogid=1 >. Acesso em 25 de ago de 2011.

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Demonstra-se então, que na era contemporânea, por mais que se afirme que há liberdade de escolher uma profissão, será que esta realmente acontece?

Com o surgimento do capitalismo, instaurou-se na sociedade a possibilidade de se poder escolher uma profissão, pois na Idade Média as profissões eram impostas, ou seja, as condições eram estabelecidas a priori por meio da estrutura da sociedade e pela forma como esta se organizava (BOCK, 2002). Sendo assim, a orientação profissional surgiu com o objetivo de auxiliar os indivíduos no processo de escolha profissional, por meio do desenvolvimento de autoconhecimento, ampliação das percepções a respeito de profissões existentes no mercado de trabalho, corrigir erros e distorções, além de problematizar o sentido, o significado e as expectativas do trabalho. Isto torna possível, pensar no desenvolvimento de estratégias de inserção no mercado de trabalho e de como enfrentar situações de início de carreira (BOCK, 2002).

Segundo Bock (2006), as escolhas profissionais, embora sejam realizações individuais, são influenciadas por variáveis de diferentes naturezas, sendo estas: psicológica, familiar, social, econômica e cultural, que se relacionam com os sistemas de produção atual. Além disso, essas escolhas com freqüência, são tomadas de forma não-reflexiva; são determinadas, sobretudo por hábitos padronizados, pelas expectativas dos outros significativos e pelo mercado.

O momento da escolha profissional, segundo Lucchiari (1993), coincide com a fase da descoberta, (desenvolvimento desses jovens) e com a definição de sua identidade. Sendo assim, uma vez que para sujeitos que não possuem limitações físicas já existem dificuldade em relação à sua escolha profissional, seria possível supor que, para pessoas com qualquer tipo de necessidades especiais, esse processo deva ser mais difícil ainda, uma vez que existe preconceito no mundo do trabalho em relação à real capacidade contributiva destes indivíduos para o desenvolvimento de uma organização. Sabendo-se disso, como será que esse sujeito delimita seu projeto profissional?

Com isto, a intenção da presente pesquisa é responder a seguinte questão: Quais

as características da orientação profissional realizada por profissionais da psicologia com cegos?

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1.2 JUSTIFICATIVA

A análise do microdados do Censo de 2000 aponta que, 24,6 milhões de pessoas possuíam algum tipo de deficiência no país, correspondendo a 14,5% da população brasileira. Dentre estes, 16,6 milhões possuem algum grau de deficiência visual, contendo aproximadamente 150 mil sujeitos que afirmam ser cegos, ou seja, incapazes de enxergar. Dentre o total de casos de deficiências investigados pelo IBGE, 48,1% possuem deficiência visual.

Segundo o IBGE (2000), a deficiência visual pode ser classificada de três maneiras, sendo elas: incapacidade de enxergar, grande dificuldade permanente de enxergar e alguma dificuldade permanente de enxergar. Sendo assim, no Brasil existem 159 824 sujeitos classificados como incapazes de enxergar, ou seja, quando estes declaram ser totalmente cegos; 2 398 472 sujeitos apresentam grande dificuldade permanente de enxergar, quando os sujeitos mesmo com o auxílio de óculos ou lentes de contato possuem grande dificuldade de enxergar; e por último, 14 015 641 sujeitos apresentam alguma dificuldade permanente de enxergar, quando há alguma dificuldade de enxergar, mesmo utilizando óculos ou lentes de contato.

Segundo o Diário Oficial da União (1999), as instituições de ensino público e particular são obrigadas, por lei, a ofertar matrículas em cursos regulares para esse público, além de oferecerem educação especial realizada por uma equipe multiprofissional. Já o ensino superior deve oferecer, aos alunos com deficiência visual, provas seletivas de ingresso e as disciplinas devem ser realizadas de forma adaptativa. É direção do Diário Oficial ainda, que essas instituições possuam um local de acessibilidade para apoiá-los no que for necessário para que os auxiliem em seus processos educacionais, como por exemplo: máquina de datilografar e impressora Braille, sistema de síntese de voz, plano de aquisição gradual de acervo bibliográfico dos conteúdos básicos em Braille.

O Censo Escolar divulgado pelo MEC em 2007 mostra o crescimento de alunos com deficiência visual matriculados no ensino superior, indicando uma evolução de 271,5% dentre os anos de 2003 a 2005. Em números absolutos, no ano de 2003 havia 920 alunos matriculados, já no ano de 2005 havia 3.418.

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A Constituição de 1988 prevê a reserva de cargos para pessoas portadoras de deficiência no mercado de trabalho por meio da lei de cotas. Essa lei (nº 8.213, de 24 de julho de 1991, Art. 93) diz que em empresas de médio a grande porte, para cada 100 funcionários 2% das vagas de emprego serão destinadas para pessoas com deficiência em geral. Além disso, a Lei inclui a proibição de qualquer discriminação no que se refere a salário e critérios diferenciados de admissão desses sujeitos. Os microdados do Censo de 2000, apontam que entre os 26.228.629 trabalhadores formais ativos, 537.430 são pessoas portadoras de deficiência, representando apenas cerca de 2,05% do total de trabalhadores formais no Brasil. Em meio de todos os tipos de deficiência, a visual é a que mais possui inserção no mercado de trabalho, uma vez que dentre as vagas destinadas a pessoas com deficiência, 40,8% são ocupadas por deficientes visuais; 34,0% por deficientes auditivos; 24,1%; por deficientes físicos e 19,3% por deficientes mentais. Pode-se indicar diante desses dados que os cegos estão bem inseridos no mercado formal de trabalho, mesmo que estes estejam muitas vezes em cargos subalternos.

Realizou-se um levantamento de produção científica sobre a temática da presente pesquisa no mês de agosto de 2010, com o intuito de identificar a existência de trabalhos científicos relacionados ao que se pretende investigar. Assim sendo, utilizou-se como fonte de pesquisa, as bases de dados e os portais eletrônicos de acesso público, sendo este o BVS (Biblioteca Virtual em Saúde). Por meio desta foi possível acessar as publicações do PePSIC (Periódicos Eletrônicos em Psicologia), Scielo (Scientific Electronic Library Online), Lilacs (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde ) e Redalyc (Red de Revista Científicas de América Latina y El Caribe, España y Portugual). Nas bases de dados online foram utilizadas as seguintes palavras chave: orientação profissional, orientação vocacional, escolha profissional, população especial, incapacidade visual, deficiência visual, pessoa cega. Contudo, não foram encontrados trabalhos científicos diretamente sobre a temática em questão, a metodologia de trabalhos de orientação profissional com pessoas cegas, mas sim acerca de aspectos da inserção no mercado de trabalho por parte da deficiência, o que se tornou como fundamento para a compreensão sobre a temática do presente estudo.

A pesquisa intitulada, “Escolha profissional: caminhos e percalços da pessoa deficiente visual”, é exemplo do tipo de produção sobre a temática. Este indica que as dúvidas quanto ao futuro profissional, em relação aos casos de pessoas com deficiência visual, ganham proporções mais complexas, por terem que se deparar ainda com as restrições de ingresso no mercado de trabalho, decorrentes não só de sua limitação visual, mas também, e principalmente, dos preconceitos e estereótipos que permeiam as relações interpessoais

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(BASTOS; AMIRALIAN, 2001). Encontrou-se, inclusive, um trabalho a respeito do embate entre sonho e realidade que se impõe aos jovens com deficiências (em geral) no momento da escolha profissional. Revela-se, então que a orientação vocacional tem um importante suporte em relação ao preparo destes jovens a considerarem diversas variáveis envolvidas numa escolha profissional madura, contudo não é demonstrado as metodologias construídas nesse processo (BASTOS, 2002).

Na revisão de literatura publicada na última década sobre orientação profissional de pessoas com deficiências (deficiências múltiplas; físicas; mentais, visuais e auditivas), os resultados apontaram o predomínio de artigos em periódicos das áreas de Psicologia e Educação, referentes à pesquisas de levantamento sobre jovens adultos atendidos individualmente em OP, com abordagem comportamental ou psicanalítica e com pouca ênfase no processo (IVATIUK; YOSHIDA, 2010).

As pesquisas sobre a inserção das pessoas com deficiência em geral no mercado de trabalho, indicaram a necessidade de criar uma cultura que favoreça a mudança de olhar sobre este universo da deficiência (SOUZA; KAMIMURA, 2009). Nesse sentido encontrou-se também, um trabalho a respeito do ponto de vista dos empregadores sobre a pessoa com deficiência. Os resultados indicaram que essas empresas possuíam funcionários com diferentes tipos de deficiência e a sua contratação ocorreu, predominantemente, pela obrigatoriedade da lei (TANAKA; MANZINI, 2005).

Uma vez que não foram encontrados trabalhos científicos sobre a orientação profissional com pessoas cegas, perspectiva-se mais diretamente a importância de trabalhos exploratórios sobre as metodologias utilizadas nesse trabalho, especificamente aquelas que abordam os aspectos subjetivos da escolha. Isto leva a uma relevância científica da proposta, isto é, sua contribuição para o desenvolvimento dos estudos sobre escolha e orientação profissional com essa parcela da população. Portanto, a realização da presente pesquisa proporcionará contribuições significativas para o meio profissional e acadêmico.

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1.3 OBJETIVOS

1.3.1 Objetivo Geral

Caracterizar o processo de orientação profissional realizado por psicólogos junto aos cegos.

1.3.2 Objetivos Específicos

Identificar os procedimentos adotados para favorecer a acessibilidade ao trabalho de OP com pessoas cegas;

Identificar a constituição das diversas metodologias (etapas; temas; perspectiva teórica) adotadas por profissionais da OP junto ao cego;

Identificar, no trabalho realizado, como é considerada a condição psicossocial da deficiência visual;

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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Nesta pesquisa serão explicitados os pressupostos teóricos que auxiliarão na posterior análise dos dados. Para tal, apresentar-se-á o conceito de deficiência visual, seus aspectos antropológicos, físicos, sociais, psicológicos e legais, além da evolução tecnológica para auxiliar a acessibilidade do cego. Discutir-se-á ainda, as temáticas que envolvem o processo de escolha profissional e cegueira, tornando-se possível entender a relação entre sujeito e trabalho; seu desenvolvimento ao longo da história, bem como os fatores que influenciam esta escolha e como isso implica na vida dos seres humanos, independente destes serem videntes ou não. Além disso, serão apresentados os métodos mais conhecidos para a realização de orientação profissional por meio da perspectiva sócia histórica.

2. 1 ESCOLHA PROFISSIONAL

Para que haja maior compreensão do leitor no que se refere à história e ao processo de escolha profissional e os fatores que influenciam essa escolha, julga-se necessário iniciar esta pesquisa com uma discussão à cerca das relações entre homem e trabalho, além do sentido deste na vida dos seres humanos. Discutir-se-á ainda, a importância do trabalho na construção da identidade e da subjetividade dos indivíduos, estes pautados na perspectiva sócio-histórica.

2.1.1 A relação entre sujeito e trabalho

A palavra trabalhar, segundo Aranha (1997), é derivado do latim tripaliare e tem como significado tortura, sofrimento e dor. Este conceito de trabalho vem se modificando com o tempo. O trabalho era separado por classes, sendo o trabalho braçal, físico e manual imposto para aqueles desprovidos de educação como os servos, escravos e pobres, estes simplesmente executavam o que lhes era mandado. Já o trabalho que exigia da

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intelectualidade era realizado por aqueles que tiveram acesso à educação, como os “mandantes” burgueses.

Segundo Codo (2006), no século XX, um bom trabalhador era aquele que realizava sua tarefa de forma automática sem ter claro o que estava fazendo. O trabalho era braçal e o processo de produção era em série, cada funcionário tinha uma função. O filme

Modern Times3 (Tempos Modernos),retratada bem esta época, na cena em que o ator Charlie Chaplin aperta parafusos incessantemente. Destaca-se que, mesmo sendo um filme lançado em 1936, o retrato do autor apertando parafusos ainda se segue, pois na maioria das empresas o bom colaborador não é aquele que pensa e reflete e sim aquele que executa as atividades a ele designado. Em contraponto, para Codo (2006), no século XXI, um bom trabalhador é aquele que tem consciência de sua tarefa e do processo como um todo. Dessa forma, o trabalhador precisa saber trabalhar em equipe, utilizar de suas capacidades intelectuais, da sua subjetividade e ainda demonstrar comprometimento.

Para Aranha (1997, p. 23), “o homem se faz pelo trabalho. Ou seja, ao mesmo tempo que produz coisas, torna-se humano, constrói a própria subjetividade”. A partir do momento que o trabalho modifica a maneira de agir e de pensar, estes tornam-se humanizados pois viabilizam a realização de seus projetos de vida.

O trabalho existe em qualquer lugar onde haja seres humanos. Logo, “trabalho é uma relação de dupla transformação entre o homem e a natureza, geradora de significado” (CODO 2006, p. 80). Por exemplo; um professor ao ministrar uma aula, tem a pretensão de identificar o resultado do seu trabalho, dessa forma ele atribui um sentido, um significado ao que faz. Se este passa a não atribuir sentido ao trabalho que executa, este se aliena, isto é, trabalha sem saber o sentido de seu trabalho, não sabe o que, e para que faz, simplesmente executa-o. Nesse sentido, o trabalho é um dos papéis fundamentais na construção da identidade, apesar de não ser o único.

Segundo Baptista e Luna (2001), a identidade é formada por um processo de construção de si, que se dá por meio das relações interpessoais e também pela história ontológica de cada um, sobre como o sujeito se percebe, como os outros o percebem e também por aquilo que se percebe sobre o que os outros percebem a seu respeito. Isso torna os seres humanos subjetivamente diferentes um dos outros. Sendo assim, adquiril-se características peculiares de acordo com a sociedade da qual se faz parte e é no contexto

3 TEMPOS MODERNOS. Direção:

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histórico que surgem as possibilidades e alternativas na formação de uma identidade. É a partir das experiências de vida que as pessoas projetam quem querem ser, sendo a identidade composta por um conjunto de papéis desempenhados, como por exemplo: estudante, mãe, psicólogo, enfim.

Baptista e Luna (2001), falam ainda sobre a identidade pressuposta, que seria aquilo que a sociedade ou alguém idealiza que um determinado sujeito seja. Dentro da identidade pressuposta, existem as identidades de reposição, que é quando o sujeito faz aquilo que os outros esperam dele, e a identidade superada, o sujeito não faz aquilo que os outros esperam. Como por exemplo: uma mãe diz para seu filho que não adianta se inscrever no vestibular pois este não consegue estudar direito por conta da sua cegueira, (identidade pressuposta). Este sujeito tem duas alternativas, ele pode não estudar e desistir de se inscrever no vestibular (identidade reposta), ou procurar alternativas para conseguir estudar de maneira mais adequada e se inscrever no vestibular (identidade superada). Ciampa (1987, p. 171) afirma que:

interiorizamos aquilo que os outros nos atribuem de tal forma que se torna algo nosso. A tendência é nós nos predicarmos coisas que os outros nos atribuem. Até certa fase esta relação é transparente e muito efetiva; depois de algum tempo, torna-se mais torna-seletiva, mais velada (e mais complicada).

Neste sentido, a formação da identidade tem ligação direta com a subjetividade de cada indivíduo e este se dá por meio da história de vida, crenças, valores e comportamentos de cada um.

Para a psicologia sócio-histórica o ser humano é ativo, social e histórico. Dessa forma, faz parte da condição humana constituir sua consciência; como a maneira de pensar, de sentir e de agir. A consciência é a forma como o indivíduo percebe o mundo, o sentido (soma de acontecimentos psicológicos que a palavra evoca na consciência) e o significado (construção social) que este atribui a própria vida em relação aos outros, através da linguagem, do pensamento e da emoção. Um exemplo da constituição da consciência seria a linguagem. Esta é produzida sóciohistóricamente e torna-se fundamental no processo de constituição do indivíduo, uma vez que facilita a comunicação nas relações interpessoais, consigo mesmo e com a própria consciência. (FURTADO, 2001).

Diante disto, pode-se dizer que os seres humanos se diferem dos outros animais, no tocante a agir de maneira consciente baseado no conhecimento das necessidades, assimila experiências vividas no decorrer de sua história social, acumula e as transmite por meio da linguagem, da arte e do trabalho a atividade criadora e produtiva, com a finalidade de

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proporcionar um processo de aprendizagem que promova novas aptidões e novas funções psíquicas (AGUIAR, 2001).

Segundo Vygotsky (2007), a abordagem sócio-histórica compreende a relação entre o indivíduo e a sociedade de forma dinâmica e dialética, ou seja, este está diretamente ligado ao meio em que atua, superando a idéia de que o indivíduo é o reflexo da sociedade ou autônomo em relação a ela. Para o autor, o pressuposto básico desta teoria seria a constituição do ser humano nas interrelações e que por meio destas, apropria-se do meio social, transformando a realidade objetiva em processos subjetivos.

2.1.2 A escolha profissional e seu desenvolvimento na história

Segundo Bock (2002), na Grécia Antiga não havia necessidade de escolha de alguma ocupação ou profissão, uma vez que o ócio era valorizado pela sociedade da época. Logo, somente os nobres não trabalhavam enquanto o restante da população realizava atividades de coleta e de caça para a sobrevivência da espécie. Os homens eram responsáveis pela caça e as mulheres responsáveis pela plantação, colheita e civilização do grupo. A Igreja Católica tinha total poder, legitimando a ordem social, no qual tudo ocorria pela “vontade de Deus” sem questionamentos. Nessa época, o conceito de vocação era atribuído ao divino, onde cada um possuiria uma missão a ser cumprida. Dessa forma, quem nascesse servo sempre o seria e quem nascesse em uma família nobre seria sempre nobre.

A partir da instalação do capitalismo, surgiu a necessidade de vender a força de trabalho como modo de sobrevivência, sendo assim os trabalhadores deveriam ser livres para dispor do seu trabalho de modo que gerasse lucro para o mercado. É na Revolução Industrial que a divisão técnica do trabalho ocorre, tornando-se possível visualizar o avanço das teorias e práticas na área da orientação profissional. A escolha profissional passou a ser importante “uma vez que passa a prevalecer a ideia do homem certo no lugar certo, visando maior produtividade”. Diante deste contexto, o conceito de vocação mudou e o próprio sujeito passou a ser responsável pelo seu sucesso ou fracasso. Então, se um indivíduo adquirisse riquezas, isso passou a ser relacionado à escolha da profissão certa e se este fracassasse era por que tinha escolhido a profissão errada (BOCK, 2002, p. 24).

De acordo com Carvalho (1995), o surgimento da orientação profissional no Brasil se deu no ano de 1920, ligada à psicologia aplicada, na época utilizada no país. No que

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se refere às teorias, o processo de orientação profissional realizado por psicólogos no Brasil foi fortemente influenciado pela psicanálise e pela estratégia clínica do psicólogo argentino Rodolfo Bohoslavsky (BOCK, 2002). No final do século XX, mais precisamente no ano de 1993, segundo Sparta (2003), a Associação Brasileira de Orientação Profissional (ABOP) foi fundada com a finalidade de desenvolver a orientação profissional no país. Desde então, a associação promove a cada dois anos simpósios nacionais. A autora ainda indica que no ano de 1997 publicou-se a primeira revista da ABOP.

2.1.3 Conceituando orientação profissional

Segundo Bock (2002), a orientação profissional tem como objetivo principal auxiliar os indivíduos no processo de escolha profissional de modo que estes tenham consciência de suas escolhas. Ou seja, eles devem ter claro, os reais motivos que os levaram a optar por determinada ocupação, tendo ciência das implicações que terá para alcançá-las. O autor diz ainda que é necessário que este desenvolva o auto conhecimento e obtenha informações a respeito do mercado de trabalho. Nesse sentido, o sujeito precisa ampliar suas percepções a respeito das profissões existentes no mundo do trabalho, para que assim, possa corrigir erros e distorções que este venha a ter. É necessário ainda que o sentido, o significado e as expectativas do trabalho sejam problematizar, para que se torne possível, pensar no desenvolvimento de estratégias de inserção no mercado de trabalho e de como enfrentar situações de início de carreira.

Segundo Bock (2002), a orientação profissional não é uma atividade específica da psicologia nem da pedagogia, embora estes sejam os profissionais que mais realizam esse tipo de trabalho. Para ele, seria interessante que um programa de orientação profissional fosse constituído por uma equipe multidisciplinar, com a finalidade de entender o fenômeno de maneira mais ampla e integrada. Nas palavras de Bock (2002, p.69), “a abordagem sócio-histórica aponta caminhos para entender o indivíduo e sua relação com a sociedade de forma dinâmica e dialética”. Sendo assim, a estratégia utilizada na perspectiva sócio-histórica é de proporcionar ao sujeito reflexões para que este compreenda amplamente os determinantes de sua escolha.

Existem várias teorias que podem ser seguidas para a realização de orientação profissional, bem como: teorias não-psicológicas (onde a escolha profissional é entendida

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como um fenômeno de ordem social e econômica, desconsiderando a tomada de decisão do sujeito neste processo); teorias psicológicas (onde a escolha profissional é entendida como um fenômeno psicológico estando os aspectos sócio-econômico-culturais em segundo plano); e as teorias gerais (no qual a escolha profissional, ora é entendida como um fenômeno psicológico, ora entendida como um fenômeno social, econômico e cultural). Além dessas teorias, existe a nova classificação das teorias em orientação profissional, como as: teorias tradicionais (onde se procura uma harmonia entre perfis, ou seja, deve-se encontrar um perfil profissional que seja adequado a um determinado tipo de sujeito); teorias críticas (nessa teoria a escolha profissional é entendida como puramente reflexo da sociedade); teoria para além da crítica (onde a escolha profissional é entendida como a relação do indivíduo com o meio social de forma dinâmica e dialética - abordagem sócio-histórica) (BOCK, 2002).

A orientação profissional pode ser realizada, segundo Bock (2002), tanto individualmente como em grupo, sendo esta modalidade a mais rica para o processo dos participantes, onde podem compartilhar suas opiniões, valores, interesses e seus projetos de vida. O programa de orientação profissional, de acordo com Bock (2002), na teoria sócio-histórica ocorre em três momentos. Neles devem ser abordados os significados da escolha profissional; aspectos sobre o trabalho bem como o auto-conhecimento do jovem e as informações profissionais. Em relação à quantidade de encontros para cada tipo de temática, estes dependem da maneira como o profissional irá conduzir o processo de orientação profissional, bem como da quantidade de jovens envolvidos nesse processo.

Para melhor compreensão de como é realizado um processo de orientação profissional, o quadro a seguir indica os objetivos da orientação profissional, quais sejam, auxiliar o jovem a conhecer a si mesmo, a realidade do mercado de trabalho e as profissões existentes, além dos procedimentos que podem ser utilizados nesse processo, tais como individual e/ou grupal.

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Figura 2: Objetivos da orientação profissional Fonte: Soares (1987, p. 88).

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2.1.4 Processos e influências da escolha profissioal

São inúmeros os fatores que influenciam um jovem na sua escolha profissional. Levando em consideração que o ser humano constituiu-se por meio das relações que estabelece com outros indivíduos, das experiências e dos contextos vivenciados e da forma com que se apropriam do meio social, Bock (2006), salienta que as atitudes, personalidades e habilidades são desenvolvidas na relação com o outro, e que esta ainda, é mediada pela sociedade. Os jovens que passam pelo processo de escolher uma profissão, reconhecem os valores de suas famílias e também os do meio social em que estão inseridos. Isto acaba por tornar mais difícil a sua escolha, além de influenciar na formação de seu projeto de vida (LUCCHIARI, 1998). A autora cita como exemplo, o prestígio, o status social e a importância do dinheiro como sendo valores que poderiam influenciar nessa escolha. Inclusive Soares (2002) corrobora com essa idéia, dizendo que na sociedade capitalista, a valorização das pessoas se dá em relação ao status profissional adquirido, ou seja, a sociedade valoriza a produtividade e une a isso, o nível de cultura e prestígio social da pessoa. Sendo assim, os jovens que são influenciados por essas ideias construídas pela sociedade, tendem a buscar profissões que os façam sentir-se valorizados e acabam não levando em consideração os aspectos relacionados com essas profissões (LUCCHIARI,1998).

Whitaker (1997) indica que, para que o indivíduo possa ter certeza de que não está sendo atraído pela representação social de determinada profissão, é necessário que este conheça os aspectos negativos e positivos da possível profissão e saiba avaliar de maneira consciente e reflexiva a sua escolha, levando em consideração seus interesses. Para que isso ocorra é imprescindível que o jovem se informe sobre as oportunidades do mercado de trabalho e a gama de profissões existentes, e dentre aquela que mais o interessar, procure saber o que esses profissionais fazem, onde fazem e quais são suas diferentes atividades realizadas.

O conhecimento dos jovens a respeito das profissões existentes pode ser restrita, como profissões comentadas por familiares, amigos e pelos meios de comunicação em massa. Dessa forma, estes jovens escolhem uma profissão utilizando-se de informações imprecisas e baseando-se muitas vezes em crenças e fantasias (BOHOSLAVSKY, 2007; WHITAKER, 2006). Exemplos disso são jovens que escolhem uma determinada profissão por terem ouvido falar que esta está sendo bem procurada no mercado de trabalho, ou aqueles que optam por

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profissões da “moda” (WHITAKER, 1997). Ao agir dessa maneira, o jovem não percebe que o mercado de trabalho é um fenômeno instável, que está em constante mudança (BOCK; AGUIAR, 1995). Assim, jovens que fizerem suas escolhas partindo de informações imprecisas, têm maior possibilidade de uma futura frustração do que aqueles que utilizaram de informações mais fidedignas.

Segundo Levenfus e Nunes (2002), muitos dos jovens ao passarem por essa etapa de escolha profissional sentem medo de errar e acabar tendo que trocar de escolha. De acordo com essa afirmação, pode-se pensar que estes jovens se vêem passíveis de mudança, como se essa escolha tivesse que ser para sempre, sendo que, na medida em que os anos passam e nos relacionamos com pessoas diferentes os interesses também podem ser modificados. Segundo Bohoslavsky (2007, p.28), “definir o futuro não é somente definir o que fazer, mas, fundamentalmente, definir quem ser e, ao mesmo tempo, definir quem não ser”. Para Bock (2006), é importante que o indivíduo se auto-perceba em relação às suas características, pois isto facilita que o mesmo elabore projetos em relação a sua vida viabilizando assim suas escolhas.

2.2. DEFICIÊNCIA VISUAL

Para que haja maior compreensão do leitor no que se refere às políticas de inclusão e acessibilidade das pessoas com deficiência visual, julga-se necessário iniciar este capítulo com uma discussão acerca dos aspectos antropológicos da deficiência além da conceituação desta. Torna-se assim, possível entender a deficiência por meio de seus aspectos biopsicossociais.

2.2.1 Aspectos antropológicos

Segundo Bruno e Mota (2001), os aspectos antropológicos das deficiências evoluíram na história humana de acordo com crenças, valores culturais, concepção de homem e transformações sociais de cada época. Sendo assim, no período em que predominou o princípio da eugenia “melhoramento genético”, as pessoas que apresentavam qualquer tipo de

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deficiência, sendo ela, física, mental ou sensorial, eram eliminadas. Com o surgimento do Cristianismo na Idade Média, estes começam a ser vistos com compaixão, porém ao mesmo tempo, a deficiência era explicada por possessão de espíritos, comportamentos pecaminosos e maldição. Na Idade Moderna, a ciência evolui e a deficiência foi percebida com um enfoque patológico. Já na Idade Contemporânea, com o auge dos ideais da Revolução Francesa (igualdade, liberdade e fraternidade) os movimentos sociais em todo mundo se expandem, e com isso há a possibilidade de garantir os direitos e deveres dessa população minoritária.

2.2.2 Conceituando a deficiência visual

Conceituar a deficiência, segundo Diniz (2007), é algo complexo, uma vez que, deve-se tomar cuidado para que estas não se apresentem como violentas e nem discriminatórias. As pessoas com deficiência, segundo a autora, já foram pejorativamente chamados de “aleijado”, “manco”, “retardado”, “mongol”, “coxo”, entre outras.

Para Sassaki (2003), não há um único termo considerado definitivamente correto, pois com o passar dos anos estes são modificados de acordo os valores culturais de cada sociedade, como por exemplo: nos anos 1960 eram chamados de “inválidos”, “incapacitados”, “defeituosos”, “deficientes” e “excepcionais”, já nos anos 80 e 90 esses termos mudam para “pessoas deficientes”, “pessoas portadoras de deficiência”, ”pessoas com necessidades especiais”, “portadores de necessidades especiais”, “pessoas especiais”, “pessoa com deficiência”, e no início do século XXI, foram chamados de “portadores de direitos especiais”.

Nesse início de terceiro milênio, passou a haver uma positiva aceitação por parte das pessoas com deficiência a adoção mundial do termo: “pessoas com deficiência”. Segundo Diniz (2007), esse termo não gera conotação negativa e entende a deficiência como característica individual presente na interação social. Para Sassaki (2003), este termo agrega valores de emancipação e empoderamento, ou seja, podem fazer escolhas, tomar decisões e ter total controle de suas vidas. Pode-se concluir então que, a partir desse momento as pessoas com deficiência, passam a assumir uma postura mais ativa perante a sociedade. No Brasil, essa discussão sobre a representação dessas terminologias mais adequadas a serem utilizadas são pouco exploradas, uma vez que a deficiência ainda possui uma visão estigmatizada de tragédia e não de justiça social.

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A cegueira pode ser causada por inúmeros fatores e em qualquer momento da vida. Ela pode ser causada por seqüelas de doenças congênitas, ou não, e também por algum tipo de acidente. Ou seja, indivíduos podem já nascerem cegos ou adquiri-las ao logo da vida. Sendo assim, existem vários tipos de cegueira, e estas variam pelo grau de acuidade visual. Para Bruno (1997), pessoa cega, é aquele indivíduo que mesmo com a máxima correção óptica possível possui acuidade visual menor que 20 graus, ou aqueles que possuem ausência total de visão, incluindo a falta de sensibilidade ao contraste de cores e à luz. Segundo o § 1o do Decreto nº 5.296/2004, a cegueira significa:

a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60o; ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores.

Dessa forma, o processo de aprendizagem desses indivíduos dar-se-á por meio dos sentidos, estes, segundo Diniz (2007), pouco explorados por pessoas que enxergam, como: o meio tátil, auditivo; gustativo e olfativo. Isso não significa que o desenvolvimento psicológico desses indivíduos ocorrerá de forma deficitária, e sim que esse processo deverá ocorrer de forma alternativa e para isso é necessário que o cego esteja familiarizado com os instrumentos e técnicas de mediação. Para Diniz (2007), a deficiência seja ela qual for, necessita de condições sociais favoráveis, para que seja possível conduzir a vida como uma forma diferente de se viver “um estilo de vida”.

2.3 POLÍTICAS DE INCLUSÃO

Para que haja melhor entendimento do leitor em relação aos aspectos legais das políticas inclusivas no Brasil, faz-se necessário a discussão do conceito de acessibilidade. De acordo com o Decreto nº 5.296 de 2 de dezembro de 2004 o conceito de acessibilidade é a:

condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços de

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transporte e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida.

Sassaki (2009), indica seis dimensões da acessibilidade que devem ser seguidas para que haja a viabilização da mesma, no contexto da educação, do trabalho e do lazer. Sendo elas a arquitetônica, comunicacional, metodológica, instrumental, programática e atitudinal. Tendo em vista que a presente pesquisa trata-se da deficiência visual, logo as medidas explicitadas a seguir serão especificamente sobre este tipo de deficiência. Assim sendo, no que se refere a dimensão arquitetônica algumas medidas devem ser tomadas: no campo da educação e do trabalho o espaço físico deve ser de fácil acesso, amplo, sem barreiras físicas e adaptado, conter lajotas em alto relevo, faixas indicativas de alto contraste, corrimão, boa ventilação e iluminação, elevadores, mobílias e equipamentos adaptados e bem dispostos para que auxiliem na educação e/ou no trabalho. Em relação ao campo do lazer, as necessidades de adaptações são dos lugares públicos que poderão ser freqüentados como, por exemplo: transporte coletivo, locais de eventos e espaços urbanos. (SASSAKI, 2009).

No que se refere à dimensão comunicacional, tanto do campo da educação quanto do trabalho é necessário ter disposto tecnologias assistidas para comunicação, textos em

braille ou digitalizados para que a pessoa com deficiência visual possa ler as letras ampliadas

ou ouvi-las através de leitura dinâmica. É importante a relação interpessoal, ou seja, sem barreiras na comunicação entre as pessoas seja ela virtual ou presencial. (SASSAKI, 2009).

Em relação à dimensão metodológica, junto a pessoas cegas no campo da educação a importância de disponibilizar materiais didáticos adequados, como livros em

braille ou em auto relevo e sorobã (material didático para auxilio em cálculos matemáticos).

No campo do trabalho, também é necessário métodos e técnicas adaptadas, como por exemplo em um treinamento e desenvolvimento de recursos humanos, ergonomia, entre outros. Ou seja, sem barreiras nos métodos e técnicas. (SASSAKI, 2009). Na dimensão instrumental, tanto no campo da educação, do trabalho e do lazer faz-se necessário a total acessibilidade da utilização de instrumentos e utensílios. (SASSAKI, 2009).

No que se refere à dimensão programática, para essas pessoas tanto no campo da educação, do trabalho e do lazer, faz-se necessário junto ao cego eliminar as barreiras invisíveis que dificultam ou impossibilitem a participação plena dessas pessoas com deficiência em qualquer contexto da vida. Estas barreiras invisíveis estão embutidas em portarias; resoluções; regulamentos; leis; normas; decretos e políticas públicas. (SASSAKI, 2009). E, por último, a dimensão atitudinal. Tanto no campo da educação, quanto no trabalho

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e lazer, é importante educar a sociedade como um todo, para que estes aprendam a evitar comportamentos discriminatórios, estereotipados e cheio de preconceitos, ou seja, sem barreiras atitudinais (SASSAKI, 2009).

Cabe ressaltar que, com o avanço da tecnologia surge uma nova dimensão da acessibilidade, relacionada principalmente à informática. Foram criadas ferramentas específicas para que as pessoas com deficiência visual também possuam acesso as informações como o restante da população, como por exemplo: softwares de acessibilidade (sintetizadores de voz, correio online em braille; Monet; Dirce Daisy; avaliador de acessibilidade) e impressora braille4. Logo, pode-se concluir que todo esse movimento a favor da acessibilidade contribui não só para a inserção destes no ensino regular ou no mercado de trabalho, mas também na ampliação de oportunidades de aprendizagem em menor tempo, o que pode ocasionar no aumento da auto-estima por parte dessas pessoas com deficiência visual.

Nessa mesma direção pode-se indicar algumas medidas relativas a políticas públicas existentes no Brasil, a fim de viabilizar a acessibilidade das pessoas cegas:

Segundo o Decreto nº 5.296 de 2 de dezembro de 2004, é admitido a entrada e a permanência de cão-guia junto a pessoa com deficiência em “órgãos da administração pública direta, indireta e fundacional, as empresas prestadoras de serviços públicos e as instituições financeiras” (dispostos no art. 5º deste Decreto) bem como nas edificações de uso público e/ou coletivo, deste que seja apresentado a carteirinha de vacinação do animal em dia.

A contratação de 2% à 5% de pessoas com deficiência ou habilitadas, torna-se obrigatória em empresas que possuem cem ou mais funcionários contratados, conforme a Lei de cotas nº 8.213, de 24 de julho de 1991, em seu Art. 93.

Segundo o Diário Oficial da União (1999), as instituições de ensino público e particular são obrigadas, por lei, a ofertarem matrículas em cursos regulares além de oferecerem educação especial realizada por uma equipe multiprofissional. Já o ensino superior deve oferecer, aos alunos com deficiência visual, provas seletivas de ingresso e as disciplinas devem ser realizadas de forma adaptativa. É necessário ainda que essas instituições possuam um local de acessibilidade para apoiá-los no que for necessário para que os auxiliem

4 Monet: Software que cria desenhos em alto relevo que possam ser impressos em Braille.

Dirce Daisy: Software que reproduz e cria livros digitais falados.

Avaliador e Simulador de Acessibilidade: Ferramenta que possibilita avaliar, simular e corrigir o nível de acessibilidade nas páginas da web, como sítios e portais. (Dados retirados do site Acessibilidade Brasil: <http://www.acessobrasil.org.br/softwares/>.

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em seus processos educacionais, como por exemplo: máquina de datilografar em Braille e impressora Braille, sistema de síntese de voz, plano de aquisição gradual de acervo bibliográfico dos conteúdos básicos em Braille. Além disso é o direcionamento a eliminação de barreiras arquitetônicas com intenção de facilitar a circulação dessas pessoas nos espaços de uso coletivo e dispor de barras de apoio nas paredes dos sanitários.

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3. MÉTODO

Segundo Santos (2002, p.37) método é a forma mais detalhada e rigorosa de se expor os meios que foram utilizados para alcançar os objetivos de uma pesquisa, assim “como dos recursos humanos e materiais envolvidos, do universo da pesquisa, dos critérios utilizados para a seleção da amostra, dos instrumentos de coleta, dos métodos de tratamento dos dados”.

3.1 QUANTO AO TIPO DE PESQUISA

Tendo em vista que o método de pesquisa é determinado pelo problema sob investigação, o delineamento que segue busca viabilizar cientificamente a construção de um método para a investigação proposta. Sendo assim, a investigação será realizada através de um estudo de multicasos que tem como característica aprofundar aspectos característicos de um fenômeno em específico. Segundo Yin (2001), este procedimento de pesquisa favorece maior foco na compreensão e na comparação qualitativa dos fenômenos.

A refente pesquisa também é caracterizada como um estudo de campo, uma vez que a coleta de dados se deu no próprio local onde acontece o fenômeno que se pretendeu estudar (SANTOS, 2002).

Quanto aos objetivos, a pesquisa é classificada como descritiva, uma vez que se teve como intuito estudar as características de um determinado grupo. Utilizou-se de “técnicas padronizadas de coleta de dados”, tais como entrevista e também se estabeleceu relação entre as variáveis (GIL, 2002, p.43). Para Santos (2000), esta se caracteriza pela descrição de um fato ou fenômeno, tornando-se possível levantar características já conhecidas a respeito do fenômeno que se deseja investigar.

A pesquisa foi realizada por meio de natureza qualitativa, uma vez que, segundo Haguette, (1995), este método fornece uma compreensão mais profunda de certos fenômenos sociais.

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3.2 PARTICIPANTES DA PESQUISA

Participaram da pesquisa dois psicólogos que primeiro se dispuseram a participar do presente estudo. O quadro a seguir facilita a visualização dos participantes5 desse estudo, como idade, sexo, formação, tempo de formação e abordagem utilizada.

Participantes Participante1 (Augusta) Participante2 (Débora)

Sexo Feminino Feminino

Idade 32 anos 34 anos

Formação Psicologia Psicologia

Tempo de Formação 5 anos 12 anos

Abordagem utilizada Psicanálise Psicanálise

Experiência com a deficiência Primeira Primeira

Quadro 1: Identificação dos participantes. Fonte: Elaborado pela autora, 2012.

3.3 EQUIPAMENTOS E MATERIAIS

Os equipamentos e materiais utilizados foram: um notebook, fone de ouvido com microfone acoplado, software de conexões de voz (skype), e o programa mp3 skype recorder.

3.4 SITUAÇÃO E AMBIENTE

A fim de garantir as condições necessárias no que se refere às questões éticas e à garantia da fidedignidade das informações, os participantes foram previamente orientados pela pesquisadora (via e-mail) em relação ao preenchimento do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) que encontra-se em APÊNDICE B e também sobre os cuidados que deveriam ser tomados no decorrer da entrevista, como: local silencioso, boa iluminação, ventilação adequada e que a mesma não poderia ser interrompida. Solicitou-se que após o

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documento ser lido e no caso de concordância, o mesmo deveria ser preenchido, assinado, digitalizado e enviado para a pesquisadora. No TCLE constam explicações a respeito dos objetivos do trabalho bem como sobre os direitos dos participantes da pesquisa, como: o anonimato, o direito de desistir desta a qualquer momento e se recusar a dar informações. Sendo assim, as duas entrevistas ocorreram em um ambiente tranqüilo, sem intervenção sonora ou quaisquer interrupções por outrem. Apesar de as mesmas terem sido à distância, este ambiente só foi possível, uma vez que a pesquisadora havia solicitado anteriormente (via e-mail) essas condições para que a entrevista fosse efetivada.

3.5 COLETA DE DADOS

3.5.1 Instrumento de Coleta de Dados.

Coletar dados é unir informações importantes e necessárias para o desenvolvimento dos objetivos propostos em uma pesquisa (SANTOS, 2002).

Vale ressaltar que antes da coleta de dados, realizou-se um estudo piloto com a finalidade de garantir a fidedignidade e validade do instrumento (SELLTIZ; WRIGHTSMAN; COOK, 1987). A partir da entrevista, verificou-se a necessidade de incluir uma questão e de reformular outra, a fim de facilitar a compreensão do sujeito no decorrer da entrevista e de responder os objetivos propostos pelo presente estudo. Após serem feitas todas as correções devidas mediante o estudo piloto, a pesquisadora aplicou o instrumento de coleta com dois psicólogos, cada entrevista teve duração média de 40 minutos. Sendo assim, o instrumento utilizado foi uma entrevista semi-estruturada (esta se encontra em APENDICE A) a qual permitiu à pesquisadora incluir questões conforme a necessidade do momento e sanar dúvidas no decorrer da entrevista. De acordo com Minayo (2009), a partir da entrevista semi-estruturada, “o entrevistado tem a possibilidade de discorrer sobre o tema sem se prender à indagação formulada” (p. 64).

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A escolha dos profissionais investigados se deu mediante um levantamento de informações sobre todas as instituições de apoio ao cego em SC e no Brasil. Localizou-se um total de 125 instituições no Brasil. Estas instituições encontram-se em APÊNDICE C. Algumas dessas instituições não possuíam telefone, site, nem e-mail, inviabilizando o contato com as mesmas. A pesquisadora entrou em contato via e-mail e site, com aquelas instituições em que não possuíam telefone, porém a maioria das instituições não respondeu ao e-mail. Já aos que responderam, referiram não possuir psicólogo na instituição nem realizaram a atividade de orientação profissional. Por fim, a pesquisadora entrou em contato com as instituições que possuíam telefone. Identificou-se que, grande parte dessas instituições não possui psicólogos contratados e sim voluntários. Nessa busca foram localizados três profissionais, sendo que dois aceitaram participar da pesquisa. Sendo assim, participaram da presente pesquisa dois psicólogos queprimeiro se dispuseram.

3.5.3 Procedimento de Contato com os Participantes

No que se refere ao procedimento de coleta e dados, o primeiro contato com os participantes desta pesquisa foi por meio de correio eletrônico e ligações telefônicas. Conforme estes se dispuseram a participar do presente estudo, marcou-se então a data e o horário que a entrevista seria realizada.

3.5.4 Procedimento de Coleta e Registro dos dados

Em virtude da localidade em que os participantes residem e trabalham, qual seja a região sudeste, utilizou-se para aplicação do instrumento de coleta de dados, um software que permite a comunicação pela internet através de conexões de voz (skype), juntamente com o programa mp3 skype recorder que registra todas as conversas realizadas pelo skype.

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3.5.5 Organização, Tratamento e Análise dos Dados.

Considerando que no instrumento de coleta constam perguntas abertas nas quais os resultados foram categorizados a posteriori, cabe salientar que a análise das questões foi realizada por meio de análise de conteúdo. Para Gomes (2000), analisar o conteúdo de uma pesquisa consiste em encontrar respostas para as questões formuladas, além de confirmar ou não as hipóteses pré estabelecidas. Para tanato, as entrevistas foram transcritas na íntegra. A partir disso, construiu-se categorias e subcategorias contendo aspectos comuns, mediante a decomposição dos trechos mais significativos de acordo com os objetivos específicos propostos, quais sejam: identificar os procedimentos adotados para favorecer a acessibilidade no trabalho de OP com pessoas cegas; identificar a constituição das diversas metodologias adotadas por profissionais da OP a estes sujeitos, e ainda, identificar no trabalho realizado como é considerada a condição psicossocial da deficiência visual. Articulado a isso, os dados também foram analisados de acordo com o referencial teórico que fundamentou a investigação, que para Gil (2002), garante o caráter qualitativo da pesquisa.

O quadro a seguir, proporciona uma visualização das categorias e subcategorias, a partir dos objetivos específicos da mesma.

Categorias Subcategorias

Procedimentos relacionais Promoção da autonomia e independência

Procedimentos tecnológicos Piso Tátil

Tecnologia virtual Etiquetas Braille Mural sonoro Calculadora sonora. Modalidade Grupal Individual Individual Familiar Junto às empresas Encontros Frequência Duração

Quantidade de encontros por tema

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(Conclusão)

Temas Dicas de entrevista

Elaboração de currículo Leis trabalhistas

Orientação quanto ao uso do ponto eletrônico Etiqueta Corporativa

Esclarecimento em relação às profissões, as áreas de atuação Adaptações Limite Auto-estima Frustração Autoconhecimento Autonomia Independência

Abordagem teórica metodológica Psicanálise

Teoria específica em Orientação Profissional Bohoslavsky Nenhuma

Teste psicológico Não

Objetivos dos atendimentos Orientação para a empregabilidade Trabalho Multidisciplinar Curso de Informática

Terapeuta Ocupacional Psicologia Serviço Social Direcionando para a inclusão no mercado de

trabalho

Foco na potencialidade Foco na empregabilidade Intervenção diante das dificuldades/lutos no

processo

Enfrentamento frente a sua nova condição

Apoio social no tocante ao direito Parcerias Benefícios Lei de Cotas Quadro 2: Categorias de Análise.

Fonte: Elaborado pela autora, 2012.

Cabe ressaltar ainda, que os dados obtidos em entrevista foram divididos em categorias. Estas foram discutidas de maneira lógica, mas também em continuum, visto que os objetivos específicos desta pesquisa são complementares entre si.

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4. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS

Neste capítulo, apresentar-se-á a análise das entrevistas realizadas com os participantes desta pesquisa, a partir do referencial teórico da investigação. O exposto a seguir traz considerações importantes para compreender os procedimentos adotados para favorecer a acessibilidade no trabalho de orientação profissional (OP) com pessoas cegas; as metodologias adotadas junto a estes sujeitos, e ainda, como são consideradas as condições psicossociais da deficiência visual durante o processo de escolha profissional. Sendo assim, para que haja maior compreensão por parte do leitor, esta análise terá início com a apresentação da descrição das participantes.

4.1 DESCRIÇÃO DAS PARTICIPANTES.

A seguir, busca-se fazer uma breve descrição da trajetória dos profissionais entrevistados. Assim sendo, os objetivos específicos deste estudo, que deram embasamento para a criação das categorias serão discutidos nos subcapítulos seguintes deste tópico.

4.1.1 Participante I: Augusta

Augusta é uma mulher de 33 anos, casada, está formada há 5 anos em psicologia

e trabalha há três anos em uma instituição de apoio ao cego localizada na região Sudeste do Brasil. Nessa instituição ela desenvolve um programa de reabilitação do deficiente visual através de estratégias de inclusão profissional e social. Seu interesse pela deficiência visual surgiu antes de iniciar o curso de psicologia, quando já apresentava curiosidade de aprender o

braille. Ao se inserir no mundo acadêmico, houve a possibilidade de entrar em contato com a

deficiência e com o braille, através de um estágio da disciplina de psicologia social. Após um ano de sua formatura, foi convidada pela instituição a participar do quadro de funcionários. Augusta indica ainda, que não possui nenhuma capacitação para lidar com a deficiência, uma vez que a instituição na qual trabalha é muito carente e não estimula os funcionários para tal.

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A psicóloga demonstra interesse em se capacitar na área, porém no momento torna-se inviável por questões financeiras e de estrutura familiar.

4.1.2 Participante II: Débora

Débora é uma mulher de 34 anos, está formada há 12 anos em psicologia e

psicopedagogia. Trabalha há cinco anos em uma instituição de apoio ao cego localizada na região Sudeste do Brasil. Nessa instituição ela desenvolve um programa de orientação para o mercado de trabalho através do diálogo sobre inclusão profissional e social. Sua primeira experiência com OP foi na própria instituição em que trabalha. Lá, já existia um grupo de orientação profissional e esta sentiu a necessidade de dar continuidade a esse trabalho e procurou se capacitar para tal. A mesma indica que esses conhecimentos adquiridos nas capacitações a ajudaram a entender o que acontece com o cego, o processo que ele passa em relação à perda visual, ao luto, ao choque inicial e depois a aceitação em si, além de ter agregado na realização de seu trabalho.

4.2 ACESSIBILIDADE NA OP COM PESSOAS CEGAS.

Apresenta-se agora os procedimentos adotados para favorecer a acessibilidade no trabalho de OP com pessoas cegas a partir dos dados coletados junto às entrevistadas. Para o desenvolvimento deste foram criadas duas categorias, procedimentos relacionais e os

procedimentos tecnológicos. Os procedimentos relacionais podem ser vistos em apenas uma

subcategoria: promoção da autonomia e independência. E os procedimentos tecnológicos poderão ser vistos em cinco subcategorias, conforme o quadro a seguir:

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Categorias Subcategorias

Procedimentos relacionais Promoção da autonomia e independência

Procedimentos tecnológicos Piso Tátil

Tecnologia virtual Etiquetas Braille

Mural sonoro Calculadora sonora. Quadro 3: Apresentação das categorias do objetivo 1

Fonte: Elaborado pela autora, 2012.

Em relação à primeira categoria, denominada de Procedimentos Relacionais, observa-se o cuidado de Augusta em promover a autonomia e independência das pessoas que atende através de situações que envolvem a relação, como o lanche. No trecho extraído da entrevista, a mesma relata:

Olha, a gente tenta dar o máximo de autonomia pra eles. A instituição, ela é muito carente. Fica ai, muito restrito a realidade da instituição. Mas, assim, a gente tenta oferecer o máximo de recursos pra eles. Como por exemplo, uma questão básica como o lanche que fica na mesa e eles é que vão se servir, porque a gente vai trabalhar essa questão da autonomia, da independência. Sic. (Augusta).

Nesse sentido, pode-se perceber que Augusta procura utilizar procedimentos que promovam a autonomia dos que ali são atendidos. Para as pessoas em geral, não há finalidade alguma o ato de colocar o lanche em um local fixo, além de oferecer o que comer. Este ato simples, no caso da relação com a pessoa cega, tem a finalidade de estimulá-las a se movimentar em busca do que desejam, além de mostrar que é possível realizar suas tarefas do dia-a-dia sem quaisquer auxílios e que mesmo sem a visão, é possível serem autônomos e independentes, pois a cegueira os limita, mas não os incapacita.

Na mesma direção da primeira entrevistada, a segunda, Débora, também contribui para a compreensão de que procedimentos relativos à autonomia e independência podem ser vislumbrados no trabalho, conforme a seguir.

[...] mas a gente trabalha muito [...] com a questão da autonomia. De eles estarem indo buscar, deles irem correr atrás, deles estarem buscando cursos. Quando aparece uma entrevista eles que vão. A gente coloca muito a postura deles nesse enfrentamento, [...].Sic. (Débora).

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