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Lutero e Müntzer

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Academic year: 2021

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LUTERO E MÜNTZER

Joachim Fischer

De 14 a 19 de agosto de 1988 realizou-se em Oslo, capital da N o­ ruega, o 7° Congresso In te rn a cio na l de Pesquisas em Lutero. O tem a g e ­ ral fo i: "R esponsabilidade p e lo m undo — as intenções de Lutero e seus e fe ito s ". Deste tem a a b ran g en te tratou o presidente do congresso, o te ó ­ logo luterano Dr. Inge L$nning, Reitor da Universidade de Oslo, no dis­ curso que apresentou na sessão solene de abertura, no Salão N obre da U niversidade. Nesta ocasião, os participantes foram saudados, entre o u ­ tros, pela M inistra do Estado para Igreja e Educação; a Igreja Luterana, à

qual pertencem em torno de

88

% da população do país1/ ® estatal. A

sessão encerrou com o hino "D eus é castelo forte e b o m ", cantado pelos presentes, em pé, em a le m ã o e inglês.

A lista de participantes registrou 164 nomes. Tomando com o re fe ­

rência o país em que cada u m (a) atu a lm e n te reside, constata-se que

110

congressistas vieram da Europa, a saber, 32 dos países escandinavos (15

da N oruega,

8

da Finlândia, 5 da Dinam arca, 4 da Suécia), 65 das duas

A lem anhas (47 da República Federal da A le m a nh a , 18 da República De­ m ocrática A le m ã ), 5 da Suíça, 3 da Itália, 2 da Inglaterra, 2 da França e um da Hungria. 36 vieram dos Estados Unidos da A m érica, 11 da Ásia (7 do Japão, 2 da India, um da C oréia do Sul, um de Singapura), 3 da Á fric a (Á frica do Sul, Tanzânia e N a m íb ia ), 2 da A m érica Latina (Brasil), um da A ustrália e um da Nova Z e lâ nd ia . Houve entre os (as) congressistas p elo

menos

2

13

mulheres.

Nas cinco sessões ple ná rias fo ra m abordados os seguintes aspec­ tos específicos do tem a g e ra l: a proclam ação, a polêm ica,-creducação, o Terceiro M undo e a p o lítica . Para cada subtem a, com exceção do re

te-1 — H a n s w ilh e im HAEFS, e d ., D e r F is c h e r W e lta lm a n a c h te-1987 [O a lm a n a q u e m u n d ia l Fischer 1987], F r a n k fu rt/M a in , Fischer T a sch e n b u ch V e rla g , 1986, p. 424.

2 — Há, a lé m disso, a lg u n s n o m e s, n a lis ta do s p a rtic ip a rrfe s , no5"quais n ã o se sab e se são m a scu ­ lin o s ou fe m in in o s .

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rente ao Terceiro M u n do , Houve duas palestras. Uma enfo cou sobretudo as intenções de Lutero na respectiva área, a outra os efeitos concretos que as propostas de Lutero tiveram . No que diz respeito ao Terceiro M u n ­ do, Simon S. M a im e la (Á frica do Sul) fa lo u sobre o tem a "R esponsabili­ dade pelo m undo: as intenções de Lutero e seus efeitos na perspectiva s u l-a fric a n a ". J. Paul Rajashekar (da India, mas a tu a lm e n te tra ba lh a nd o e residindo na Suíça) abordou o assunto "Lutero e o islam ism o: uma pers­ pectiva a s iá tic a ". A p artir da A m é rica Latina, Lutero fo i a bo rd a do na pa­ lestra "R e fle tin d o sobre Lutero num a re a lid a d e subm ersa", de V ítor Wes- th e lle (Brasil). Mas visto que o a uto r não p o d ia estar presente, a palestra não fo i p ro fe rida (e, conseqüentem ente, tam bém não discutida), mas so­ m ente distribuída, m im e o g ra fa d a , na versão inglesa.

A lé m das sessões ple ná rias houve 16 sem inários. Cada um trpba- Ihou, em quatro reuniões, um a tem ática específica. O a u to r deste artig o p articipou do sem inário sobre "L u te ro e M ü n tz e r". Os 12 integrantes v ie ­

ram da República Dem ocrática A le m ã (

6

), da República Federal da A le ­

m anha (2), dos Estados Unidos da A m érica (2), da Nova Z e lâ nd ia (1) e do Brasil (1). Q uatro participantes eram historiadores marxistas. Os trabalhos fo ra m presididos e coordenados p elo Dr. S iegfried Brãuer, de Berlin (RDA), d ire tor teo ló g ico da Evangelische Verlangsanstalt, a m àior e ditora evangélica da RDA.

Recentem ente, um grupo de tra ba lh o in te rd is c ip lin a r da A cade­ m ia de Ciências da RDA e la bo ro u 14 "Teses sobre Tomás M ü n tz e r"3. Constata, entre outras coisas, que não se conhecem nem o ano nem a data de nascim ento de M üntzer, mas que possivelm ente tenha nascido em 1489. Em 1989, pois, poder-se-iam com em orar os 500 anos de seu nascim ento. Tendo em vista este ju b ile u , apresentarem os, a seguir, um breve re la tó rio sobre o sem inário supracitado.

1. Objetivo e método

Os trabalhos do sem inário gira ra m em torno da pergunta: Como lidam os com personagens que, cada um de sua m a n eira , realizaram uma obra historicam ente e xtra o rd in á ria , sem jam ais terem discutido se­ riam ente, um com o outro? O sem inário baseou-se nos dois escritos de

1524 que representam a controvérsia direta entre Lutero e M üntzer, ou

3 — Thesen ü b e r Thom as M ü n tz e r. Zeitschrift für Geschichtsw issenschaft, B e rlin , 36(2): 99-121, 1988.

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seja, "U m a carta aos príncipes da Saxônia a respeito do espírito re v o lu ­ c io n á rio "4, de Lutero, e a "A p o lo g ia e resposta altam ente necessária à carne de W ittenberg, que carece do Espírito e vive com odamente e que sujou d ep lo ra ve lm e n te , de fo rm a errada, a pobre cristandade p e lo a bu­ so da Sagrada Escritura"5, de M üntzer. Através de pequenos ensaios fo ­

ram introduzidos e postos em discussão os seguintes temas: a história dos

efeitos dos escritos, a m otivação para seu surgim ento, sua estrutura, sua linguagem , o conceito da p alavra de Deus, a com preensão do Espírito, os

conceitos de a utoridade (O b rig ke it) e revolução (A ufruhr), a a titu d e de

Lutero e M üntzer fre nte a m a rg in a liza d os (Aussenseiter), pagãos e ju­ deus, a apocalíptica, a autocom preensão dos dois reform adores e o in te ­ resse por M üntzer no Brasil.

2. Desenvolvimento

2

.

1

. Os dois escritos supracitados representam marcos im portantís­

simos na controvérsia entre Lutero e M üntzer. Mas seu efeito im ed ia to,

visto dentro do contexto histórico, fo i m uito lim ita d o . Foram ultrapassa­ dos pelos acontecim entos, que se seguiram com grande rapidez. Am bos os teólogos avançaram para outras posições, d iferen te s das d efe nd id a s naqueles escritos. Em m eio à a g ita çã o da época, os contem porâneos de Lutero e M üntzer não tiveram tem po su ficiente para estudar calm am ente o conteúdo dos dois escritos, sua arg um en taçã o e suas im plicações. Ho­ je, no entanto, o historiador tem m elhores condições de a va lia r o s ig n ifi­ cado daquelas publicações.

2.2. Uma das questões controvertidas e ntre Lutero e M üntzer fo i a

da relação existente entre o Espírito e a p alavra. Lutero hesitou durante

m uito tem po se d eve ria m anifestar-se expressam ente sobre esta ques­ tão. Tratava-se de um a questão da d o u trin a . Segundo o próprio Lutero, não cabia à a utoridade secular ocupar-se com tais assuntos teológicos. Os teólogos de W ittenberg, pois, não p od ia m contar, nesta questão, sem

4 — Ein B rie f an d ie Fürsten zu Sachsen v o n d e m a u frü h ris c h e n G e ist. In: M a rtin LUTHER, W erk«,

K ritisch e G e sa m ta u sg a b e [O bras, e d iç ã o c rític a c o m p le ta ], W e im a r, Böhtaus N a c h f., 1899, v. 15, p. (199) 210-21. [E dição d e W e im a r = W A ].

5 — H o c h ve ru rsa ch te S chutzrede u n d A n tw o r t w id e r da s g e is tlo s e , s a n ftle b e n d e Fleisch zu W itte n ­ b e rg , w e lc h e s m it* v e rk e h rte r W e is e d u rc h d e n D ie b s ta h l d e r H e ilig e n S chrift d ie e r b ä rm lic h e C h ris te n h e it also g a n z jä m m e rlic h b e s u d e lt h a t. In: Th om a s MÜNTZER, Schriften und Briefe,

k ritis c h e G e sa m ta u sg a b e [Escritos e cartas, e d iç ã o c rític a c o m p le ta ], ed. p o r G ü n th e r Franz, G ü te rs lo h , G ü te rs lo h e r V e rla g s h a u s G e rd M o h n , 1968, p. 321-43. (Q u e lle n u n d F o rschu ngen z u r R e fo rm a tio n sg e sch ich te , 33).

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mais nem menos, com o a p o io das auto rid a de s da Saxônia. Q uando Lu- tero fin a lm e n te se m anifestou, d irigiu-se não apenas ao p rín cip e e le ito r, Frederico o Sábio, mas tam bém ao irm ã o (e, depois, sucessor) deste, o d uque João. Achava que seria mais fá c il convencer este da necessidade de tom ar contra M üntzer as m edidas desejadas.

Em 3 de agosto de 1524, o mais tardar, Müntzer teve c o nh e cim e n ­

to da "C a rta " de Lutero, q ue havia sido impressa em fins de ju lh o 6. Esbo­ çou sua resposta, m e n ta lm en te, a in d a em A llstedt. Mas d e v id o às cir­ cunstâncias (fuga de AHstedt em 7 de agosto), e la só fo i im pressa em m eados de dezem bro, em N ürnberg.

2.3. A estrutura de am bos os escritos explicá-se a p a rtir da re tó ri­

ca clássica. Segundo as regras da mesm a, a estrutura deixa transparecer a lg o da intenção do autor. E, pois, im po rta nte para a in terpretação de detalhes. A "C a rta " de Lutero tem a fo rm a de uma ve rdadeira carta so­ m ente no início, no fim e num trecho in te rm e d iá rio . Nas outras partes, os detalhes e os meios estilísticos em pregados indicam que se trata de um discurso de acusação (em la tim : ora tio), com o costumavam ser fe ito s nos tribunais.

A resposta de M ü n tze r tem ig u a lm e n te a form a de úm discurso p ro fe rid o perante um trib u n a l. Também a escolha desta form a p or parte de M üntzer é, pois, um a resposta à " C a r ta " de Lutero. M üntzer cham a-a de "discurso de d e fe s a " (a p o lo g ia ). Mas som ente na p rim eira p arte e la é defesa. Na segunda parte e la é um discurso de acusação. M üntzer contra-acusa Lutero d ia n te de Cristo na presença do povo cristão. De acordo com a autocom preensão p ro fé tica de M üntzer, o processo a con­ tece no m om ento em que o pro fe ta fa la .

2.4. A controvérsia e ntre Lutero e M üntzer é tam bém um a contro­

vérsia em torno da questão da linguagem adequada. A de M ü n tze r é

conscientem ente pop u la r, p olêm ica e m ordaz, mais im a g in a tiv a do que a de Lutero. E uma lin g u a g e m com traços carnavalescos. E a lin g u a g e m do m arginalizado, do p ro fe ta e xila d o . A través dela, M üntzer d e sa fia a linguagem tra dicio na l. Ter criad o esta nova linguagem é a (talvez) m a io r façanha de M üntzer. A o usá-la, M üntzer desmascara, dia nte da o p in iã o pública, o m undo dos pastores e dos teólogos, que, na sua o p in iã o , é um m undo corrom pido pela hipocrisia. Seu ju lg a m e nto sobre Lutero é duro. Para ele, o re form a do r de W ittenberg é um palhaço, uma fig u ra carna­ valesca que não pode nem deve ser levada a sério, pois distorce a Sagra­ da Escritura e bajula os grandes.

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2.5. Lutero e M üntzer são, ambos, representantes de um m o vi­ m ento bíblico. Mas nos detalhes há grandes diferenças teológicas entre eles. A "C a r ta " de Lutero é uma re fle xão sobre a palavra de Deus no contexto de um a teo lo g ia da história. Para Lutero, a palavra e a v io lê n cia são incom patíveis. O re fo rm a d o r de W ittenberg nega-se a d istin gu ir en­ tre vio lê n cia contra pessoas e contra objetos. Também em sua "C a rta ", Lutero tenta sustentar sua com preensão de tolerância: o m inistério da pa­ lavra não cabe à a utoridade secular; na cristandade, o escândalo deve ser re m ovido unicam ente pela palavra de Deus.

• Para M üntzer, a Bíblia constitui um a unidade. N ela, ele n ão dis­ tingue os dois testamentos. Está convicto de que a Bíblia existe para m a­ tar, não para v ivifica r. Em sua resposta a Lutero encóntra-se a fu n d a m e n ­ tação teo ló g ica de sua dou trin a da lei. Pará que haja separação entre os escolhidos (os pobres) e os ateus é necessária a pureza da lei d ivin a . M üntzer é da o p in iã o de que Lutero, com sua com preensão d ia lé tic a de lei e e van g elho , neutraliza a rb itra ria m e n te a lei e destrói a seriedade do juízo de Deus, que é o ve rd ad e iro centro da Escritura.

2.6. Para Lutero, o ve rd ad e iro Espírito é o Espírito de Cristo. Este

Espírito está disposto a suportar o sofrim ento. Na pregação e no sacra­ m ento é com provado pela palavra de Deus. É incom patível com a v io lê n ­ cia. A p artir deste conceito de Espírito, M üntzer é acusado como espírito falso, tra id o r da pátria ("e s p írito re v o lu c io n á rio "!).

M üntzer, por sua vez, acusa Lutero de ter xingado o "e s p írito cer­ to ", "s o b pretexto da Sagrada Escritura", com o sendo um "e s p írito falso e um satanás".

Lutero e M üntzer estão preocupados com a verificação ou d istin ­ ção dos espíritos. Cada um está convicto de, ern últim a análise, ser o ú ni­ co capaz de fazê -lo. O crité rio da ve rifica çã o é, para Lutero, a Escritura pregada, enq u an to que M üntzer quer que todos (e todas) ouçam d ire ta ­ m ente a "v o z v iv a ".

2.7. Segundo Lutero, o poder da espada cabe à autoridade secu­

lar, de acordo com Rm 13, desde o início da história, para que os bons se­ jam protegidos e os maus, castigados.

M üntzer baseia-se ig ualm ente em Rm 13, mas desenvolve um conceito tota lm en te d ife re n te de a u to rid a d e secular._Esta é m inistra da espada. Usa-a para que o ve rd ad e iro e va n g e lh o se im ponha aos ateus. M üntzer a trib ui o poder da espada à com unidade inteira. Nisso transpa­ recem as experiências que fez em A llstedt. A o apontar, neste contexto, para o pobre, destaca o aspecto social da re a lid a d e . Ter reconhecido que

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as relações de pro prie da d e são a base social de toda d om in açã o é, para aquele tem po, um a noção singular.

2.8. Lutero sem pre re je ito u energ ica m e n te a id é ia de que o e va n ­

gelho, p regado por ele, levaria à revolução.

Em M üntzer, in icialm e nte não há a firm ações positivas sobre a re­ volução. N um a etapa posterior fa la ocasionalm ente de revolução ou re­ b e liã o não justificada ("u n fü g lic h e r A u fru h r"). Parece pressupor, pois, q ue existe tam bém revolução ou re b e liã o justificada ("fü g lic h e r A u fru h r"). Em sua "A p o lo g ia " , e le passa da a firm a ç ã o co ndicional à a firm a ç ã o incondicional da revolução. Fala, neste escrito’, com o pastor e teó lo g o, não com o p olítico ou líd e r cam ponês. C onheceu os objetivos do m ovim ento cam ponês, mas jam ais se id e n tifico u p le n a m e n te com os mesmos. N ão estava preocupado com o pro blem a da p ro prie da d e como tal. Ele se vê co nfro n tad o com este p ro b le m a q u a n do e le se pergunta: O que, a fin a l de contas, im pede as pessoas de se a b rire m para a palavra de Deus? E esta pergunta teo ló g ica que m ove a M üntzer. Para e le , o im ­ p e d im e n to é o egoísm o, ou, visto de o utro âng u lo , a fa lta de interesse p elo bem com um . Desta m aneira, o fa ze r te o lo g ia de m odo radical leva- o à ação re vo lu cio ná ria.

2.9. Lutero e M üntzer q ua lificam -se m utuam ente com o hereges,

colocando o o utro no mesmo nível dos marginalizados, sobretudo dos ju­

deus. A p rin cip a l característica dos m arginalizados (Aussenseiter) é, para Lutero, o fa to de que usam a vio lê n c ia , e, para M üntzer, o fa to de que re­ jeitam a d o u trin a da revelação d ire ta do Espírito. Am bos a firm a m que os m arginalizados (inclusive os pagãos e os judeus) carecem do Espírito. Po­ rém , cada um entende o Espírito de m a n eira d ife re n te .

2.10. Em Lutero, o apocalíptico é mais e vid e n te do que em M ü n t­

zer (e nos reform adores hum anistas). Nos anos posteriores de sua vida torna-se mais fo rte ainda. Tomou a fo rm a de consciência de crise com traços de resignação.

M üntzer tém uma consciência de c o n flito m uito forte, de caráter quiliasta. Essa consciência tem , por assim dizer, um a m oldura a p o c a líp ti­ ca, pois a consciência geral da época é apo ca líp tica . M üntzer espera que a situação de p erfeição se estabeleça já a q u i na terra.

2.11. "AutocompreensSo" é um term o m oderno, não existente no

século XVI. É mais adequado à época da Reform a falar-se de uma cons­ ciência de se ter uma missão (ou: um com prom isso) (Sendungsbewusst- sein). Neste sentido, a Reforma é, para Lutero, um a causa bem pessoal, sua. Pressupõe que a palavra de Deus está de seu lado. Está convicto de

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ter sido capacitado, p or esta mesma palavra, para julgar doutrina correta e falsa. Identifica-se com a pessoa do apóstolo Paulo, entendendo-se a si mesmo como fig u ra e xem plar. Sem q u a lq u er hesitação reclama para si o papel de quem re a lm e n te fo i convocado por Deus.

M üntzer, por sua vez, vê seu destino à luz da história da paixão. Entende ser a qu e le q ue leva a Reforma ò conclusão, não apenas a qu e le que vem em segundo lu g ar (após o iniciador, Lutero, que, segundo sua opinião, fracassou). Está convicto de ser o pre ga d or sério da bóa‘ nova, o profeta que possui o Espírito, nos m oldes de 1 Co 14.

Am bos os teólogos, pois, têm a firm e convicção de possuírem a verdade. Isso é, por um lado, a condição para sua atuação histórica. Mas, por outro lado, incapacita-os para o d iá lo g o . Inexoravelm ente executa-se a separação. H oje, não se pode a d m itir, desta m aneira, que, por causa de um p rogram a, se passe por cim a de pessoas.

2.12. Na perspectiva da historiografia brasileira, a Reforma com o

um todo é um fen ô m e n o m a rg in a l. Isso vale, conseqüentem ente, tam ­ bém para um tem a específico com o "Lutero e M ü n zte r". Há bem pou ­ cas contribuições próprias para este tem a, em líng u a portuguesa7. De Lu­ tero tratam sobretudo as exposições da História da Igreja, p rin cip a lm e n te as de autores evangélicos. Neste contexto — via Lutero, portanto — a p a ­ rece tam bém M üntzer. A A m érica Latina fo i e xplorad a , durante séculos, pelo sistema colonial. Os m ilhões de oprim idos da a tu a lid a de são um dos resultados daquela história. A p a rtir desta situação há, entre teólogos evangélicos e cum enicam ente abertos (sobretudo luteranos), certa sim ­ patia por M üntzer com o o re fo rm a d o r que, num a ação re v o lu cio ná ria, lutou pelos m arginalizados e injustiçados de seu tem po. Na te o lo g ia da libertação católica, M üntzer a in d a não fo i descoberto como possível "co m p a n h e iro na cam in h ad a da lib e rta ç ã o " (Leonardo Boff), ao

contrá-7 — A o c o n fe c c io n a r a B ib lio g ra fia lu te ra n a b ra s ile ira [BLuB] 1960 - 1986 (in : M a rtin N . DREHER, o rg ., Reflexões em torno de lu te ro , São L e o p o ld o , S in o d a l, 1988, v. 3, p. 87-154), e n c o n tre i s o m e n te as se g u in te s p u b lic a ç õ e s : M a rtin DREHER, O p ro fe ta T hom as M ü n tz e r, Th om a s M ü n t­ zer, um p ro fe ta ? , Revista Eclesiástica Brasileira, P e tró p o lis, 42(165): 128-43, m a r. 1982; Estu­ dos Teológicos, São L e o p o ld o , 22 (3): 195-214, 1982. — P a u lo F. FLOR, Lutero e os ra d ic a is de seu te m p o . Igreja Luterana, P orto A le g re , 44 (1 ): 18-24, l. t r im . 1 9 8 4 .— M á rio L. REHFELDT, Lu­ te ro e a g u e rra d o ^ c a m p o n e s e s , Igreja Luterana, P orto A le g re , 3 0 (3 /4 ): 103-10, 1969. — J u lio d e SANTA A N A , Lu te ro e os m o v im e n to s so cia is na A le m a n h a d u ra n te o p e río d o d e 1517 - 1525, Perspectiva Teológica, B e lo H o riz o n te , 15(37): 337-49, s e t./d e z . 1983; Caminhando, São B ern a rd o do C a m p o , 2 (2): 53-65, 1984.

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rio do que aconteceu com Lutero8. A A m é rica Latina é um continente fo r­ tem ente co -m o ld a do p elo catolicism o. Este viu a guerra dos camponeses na A le m a nh a (1524/25) tra d ic io n a lm e n te com o um dos resultados in e vi­ táveis do m o vim en to 'h e ré tic o " da Reform a. Essa visão em parte existe a inda hoje, com o e vid en cia a seguinte citação:

" (...) a heresia de Lutero provoca uma série de revoltas sociais. (...) a pregação de Lutero espalhou o veneno da revolta princi­ palmente entre a gente do campo (...). Bandos desatinados an­ dam de cidade em cidade destruindo conventos, castelos, aba­ dias, fortalezas..."9.

3. Conclusões

O se m in á rio mostrou com o a pesquisa sobre M üntzer e sua re la ­ ção com Lutero está a vançando, hoje em d ia . Não levou a resultados d efin itivo s nem a teses conclusivas. Não houve consenso sobre os d ive r­ sos aspectos do tem a. Nem sequer era a intenção do se m in á rio estabele­ cer tal consenso. E m uito im po rta nte que o tem a não fo i discutido som en­ te por teólogos. H istoriadores cristãos e m arxistas estudaram em conjunto o assunto "Lutero e M ü n tz e r". Foi d ife re n te do passado, qua n do cada la­ do se dedicou, a p o lo g e tica m e n te , a " s e u " personagem . N a quela etapa, o critério para a a va lia çã o da re la çã o e ntre Lutero e M üntzer fo i, via de regra, entre os teólogos, a pergu n ta p elo p ro fe ta v e rd a d e iro e o profeta falso. Entre os marxistas, o c rité rio fo i a p ergu n ta p elo líd e r re vo lu cio ná ­ rio das massas exploradas. Na ótica dos teólogos luteranos, Lutero fo i o verdadeiro p ro fe ta , M üntzer o falso. Na ótica dos marxistas, M üntzer foi o autêntico líd e r re v o lu c io n á rio , Lutero o tra id o r de "to d o s os elem entos d e m o crá tic o -re v o lu c io n á rio s "10. Desta vez, os interesses históricos se

8 — v. L e onardo BOFF, E a igreja sa fez povo, e c le s io g ê n e s e : a ig re ja q u e nasce d a fé d o p o v o , 3. e d ., P etró polis, V ozes, 1986, p. 164-79. N e ste c a p ítu lo , o " p r e g a d o r Th om a s M u e n tz e r (1489 - 1525)" é a p e n a s rfie n c io n a d o c o m o líd e r dos ca m p o n e s e s . B o ff b a s e ia -s e , a q u i, n u m a p u b li­ cação d o h is to ria d o r s o v ié tic o M . M . S m irin , d e 1956, e n u m liv r in h o d o te ó lo g o lu te ra n o Paul A lth a u s , d e 1953. A s d u a s p u b lic a ç õ e s , p o is, a in d a n ã o c o n s id e ra m os re s u lta d o s d a pesquisa e da in te rp re ta ç ã o re ce n te s d a pe ssoa e d a o b ra d e M ü n tz e r (so bre o d e s e n v o lv im e n to d a pes­ qu isa a té 1976 cf. A b ra h a m FRIESEN & H a n s -J ü rg e n GOERTZ, e d ., Thomas Müntzer, D arm stadt, W isse n sch a ftlich e B u c h g e s e lls c h a ft, 1978, 536 p. [W e g e d e r Forschu ng, 4 9 1 ]; sob re a m a is re­ cen te in te rp re ta ç ã o m a rx is ta cf. as 14 teses c ita d a s a c im a na n. 3).

9 — A. MONGE & B. SIMONETTO, História da igreja em quadrinhos, os d o z e a c a m in h o , São P aulo, P aulinas, 1980, p. 217.

10 — Franz MEHRING, Deutsche G eschichte vom Ausgange des M ittelalters, e in L e itfa d e n fü r Leh­ re n d e u n d L e rn e n d e [H is tó ria a le m ã d e sd e o fin a l d a Id a d e M é d ia , um m a n u a l p a ra d o cente s e estu d a n te s], 6. e d ., B e rlin , D ietz, 1952, p. 44.

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com plem entaram . Cristãos e marxistas vêem Lutero e M üntzer com o dois personagens históricos que se com plem entam m utuam ente. Am bos ten­ taram resolver, no século XVI, problem as cuja solução era m uito d ifíc il. Até hoje tais problem as evid en cia m a im possibilidade de o pesquisador tom ar, fre nte aos mesmos, uma atitude " o b je tiv a " ou " n e u tr a " de a p a ­ rente cie n tificid a d e . A pesquisa científica é indispensável para e n te n d e r aqueles problem as, bem como os personagens de Lutero e M üntzer. Mas não há com preensão sem que se tom em consideração o contexto dos problem as e dos personagens.

Referências

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