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O QUE O IMPEACHMENT DIZ SOBRE O BRASIL?

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Academic year: 2021

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Revista de Humanidades e Letras ISSN: 2359-2354 Vol. 2 | Nº. 2 | Ano 2016

Ronie A. Teles da Silveira UFSB

O QUE O IMPEACHMENT DIZ SOBRE O

BRASIL?

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RESUMO

Nesta edição a revista Capoeira - Humanidades e Letras publica, na secção de artigos, textos que são crônicas sobre do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Palavras-chave: impeachment; crônicas; Brasil;

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ABSTRACT

In this special edition, Capoeira – Humanidades e Letras publishes in its section of articles texts that are chronicles on the impeachment process of President Dilma Rousseff.

Keywords: impeachment process; chronicles; Brazil

impeachment; Dilma Rousseff.

Site/Contato

www.capoeirahumanidadeseletras.com.br [email protected]

Editores deste número: Marcos Carvalho Lopes [email protected] Túlio Muniz

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O QUE O IMPEACHMENT DIZ SOBRE O BRASIL?

Ronie Alexsandro Teles da Silveira

Uma das avaliações da atual situação do Brasil não acredita na hipótese de que o atual processo de impeachment indica o funcionamento saudável de nossas instituições. Por saudável entenda-se democrático e voltado para a defesa do interesse público. Desse ponto de vista, não se acredita que os atos atribuídos à Dilma Roussef sejam proporcionalmente significativos a ponto de justificarem, em um ambiente democrático, o desfecho do impeachment – que, nesse momento, parece inevitável.

Em função dessa desproporcionalidade, imagino que, para os adeptos dessa avaliação, o impeachment da Presidenta Dilma Roussef significará um retrocesso injustificado. Caso ele ocorra, afirmará um desequilíbrio na maneira como se julgam e se condenam ações políticas que tenham supostamente infringido o interesse público e as regras democráticas. Lembremo-nos de que a democracia é uma tentativa de estabelecer equidistância entre dimensões diferentes da vida social, de tal forma que elas se tornem submetidas a um mesmo padrão de medida e possam, assim, ser equacionadas a partir dessa base comum. Ela é uma espécie de instância de ponderação e equalização de diferenças sociais.

A condenação política da Presidenta significaria, dessa perspectiva, uma infração contra esse regramento democrático da equidistância. Afinal, as investigações em curso têm indicado novamente que a prática sistemática da corrupção é o procedimento padrão do sistema político brasileiro. Digo novamente porque, afinal, isso não constitui exatamente uma novidade para quem acompanha o noticiário nacional ao menos uma vez por semana ou vive nesse país. E se se trata de passar o Brasil a limpo e coibir a corrupção, os crimes atribuídos à Presidenta não deveriam encabeçar a lista das condenações. Não se deveria começar por ela. Se for para combater a corrupção, que isso seja feito democraticamente. Isto é, com isonomia e de tal forma que a proteção ao interesse público espalhe-se uniformemente pela sociedade brasileira, sem promover nenhum tipo de interesse particular – no caso, o dos partidos de oposição ao governo da Presidenta Dilma.

Observe que essa leitura dos eventos é possível dentro de uma percepção mais ampla segundo a qual a democracia é um progresso desejável por si mesmo. Além disso, ela supõe que o Brasil encontra-se inserido em alguma fase de concretização da uma sociedade efetivamente

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democrática. É em função dessa crença acerca de nossa vida democrática ou em vias de se democratizar que o impeachment parece um retrocesso para essa primeira interpretação.

Mas há também uma posição diferente e contrária à anterior que, ainda assim, compartilha com ela esse mesmo princípio de crença firme na democracia como um destino nacional, no qual já estamos inseridos. Os adeptos dessa segunda posição afirmam que o impeachment apresenta-se como um lance positivo para a consolidação da democracia. Afinal, não se pode começar a vida democrática e a isonomia social através de um passe de mágica: ao mesmo tempo em toda a parte da difusa corrupção da política brasileira. Seria excesso de fantasia acreditar que as instituições começariam a funcionar em um dado momento e se tornariam, a partir de então, capazes de combater todos os crimes simultaneamente e de acordo com o peso relativo de dano causado ao patrimônio público. Na verdade, seria impossível colocar, agora, todos os crimes em uma mesma balança e iniciar os processos de investigação e condenação de maneira proporcional, preferencialmente a partir dos mais para os menos graves.

Isso seria uma requisição ingênua que desconsidera a lógica dos processos históricos, sempre graduais, intermitentes e não raro oscilantes. O funcionamento das instituições e seu efeito sobre o comportamento dos homens não é uma equação matemática que pode ser aplicada simétrica e instantaneamente, como se se tratasse da justiça divina – fulminante, absolutamente criteriosa e onisciente. De fato, ainda não parece haver chegado o dia do juízo final.

O que se pode fazer, em casos como o brasileiro, caracterizado por uma contaminação generalizada do tecido político, é iniciar por alguma ponta do novelo da corrupção e do desmazelo na relação com o bem público. Acredita-se que, dessa forma gradual, as condenações exemplares irão conter a expansão da corrupção, na mesma proporção em que a democracia for adquirindo uma vigência consistente e sólida sobre a totalidade da vida social.

Para essa perspectiva, o impeachment em curso faz parte de um fortalecimento gradual das instituições democráticas brasileiras. Elas estariam adquirindo força, se aprofundando e se espalhando pela sociedade brasileira. Dilma não seria um mero bode expiatório, um sacrifício purificador que nos libertaria de nossa vida degradada, como por um passe de mágica. O impeachment seria apenas um passo adiante em direção à consolidação de um jogo social mais democrático, no qual já estamos inseridos – talvez desde o fim da última ditadura.

Chamo a atenção para o fato de que em ambas as interpretações, divergentes quanto à avaliação do significado do impeachment, há uma convergência de base. Ela é relativa ao significado desejável da presença e da evolução da democracia entre nós. A diferença entre essas duas formas de se avaliar o impeachment de Dilma Roussef diz respeito a como se entende que o interesse público e a equidistância estariam melhor preservados. Se a condenação da Presidenta

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danifica as regras democráticas, então se trata de um golpe, como quer uma das interpretações. Se, ao contrário, ele fortalece essas últimas, então se trata de um lance político legítimo dentro do processo de amadurecimento de nossas instituições em direção à isonomia plena.

Observe que essas duas avaliações, embora de resultados antagônicos, compartilham uma mesma leitura fundamental da vida social brasileira. Nessa interpretação geral sobre quem temos sido, nos encontramos em algum ponto intermediário entre, de um lado, a barbárie social da validade do puro interesse privado e, de outro, a consolidação de uma democracia efetivamente isonômica. O que é fundamental para ambas é que efetivamente estamos nos movendo na direção da democracia e, portanto, para dentro do conjunto de valores que caracterizam a modernidade da civilização ocidental. Esses valores democráticos estariam, portanto, impondo-se ou sendo assimilados por nós de maneira gradual, inserindo-nos em um modo de vida plenamente compatível com a vida civilizada de matriz europeia.

Dentro desse quadro, uma avaliação correta seria uma entre aquelas duas resultantes de nossa compreensão do impeachment sob o pano de fundo dessa leitura de intensificação da força dos mecanismos responsáveis pela implantação de uma democracia plena no Brasil. É justamente essa moldura relativa à nossa introdução gradual nos valores do ocidente contemporâneo isonômico, que fornece sentido às interpretações de ambos os lados, que caracterizei rapidamente acima. Parece-me que a grande maioria das posições particulares presentes, hoje, no debate em torno da legitimidade e do significado do impeachment pode ser identificada com uma daquelas duas opções.

Como não compartilho dessa crença básica, comum a ambas as posições, meu objetivo aqui será esclarecer o que penso que tem ocorrido no Brasil e como isso torna possível uma terceira leitura alternativa do processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. A dimensão e o prazo concedido pela Revista Capoeira para a elaboração desse texto limitaram bastante o número e a diversidade dos argumentos que seriam necessários apresentar e discutir. Para esses complementos remeto o leitor para o livro “Apresentação do Brasil” (SILVEIRA, 2015a) no qual ele poderá encontrar um apoio suplementar para o que se segue. Trata-se, aqui, apenas de um esboço sugestivo e sintético de uma interpretação mais complexa.

O impacto da chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder presidencial pode ser descrito como gerando um impacto modernizador no Brasil. De fato, a despeito de certa propensão socialista de alguns discursos de seus membros, na prática o PT demonstrou empenho em garantir que a riqueza nacional fosse utilizada visando à melhoria de condições de vida da maioria da população. Apenas para ficar no exemplo mais eloquente desse empenho, cito o Programa Bolsa Família, responsável por retirar o Brasil do mapa da fome, elaborado pela

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Organização das Nações Unidas, na sua versão publicada em 2013. Os governos do PT tentaram tornar efetiva no Brasil a ideia de uma república: o patrimônio público administrado em função do benefício coletivo. Embora isso não pareça muito revolucionário, fez muita diferença para as camadas mais pobres da população brasileira, historicamente destituídas da possibilidade da divisão dos benefícios sociais mais básicos.

Entretanto, essa não é a narrativa completa do impacto dos governos do Partido dos Trabalhadores da última década e meia. É de conhecimento público, pelo menos desde o escândalo do Mensalão, que o PT adotou métodos políticos tradicionais para colocar em prática aquele choque republicano. Por métodos tradicionais entenda-se a prática de compra de votos no Congresso, visando aprovar medidas de interesse republicano. Claro que o método não foi utilizado somente com esse propósito. A recente delação premiada do ex-senador Delcídio do Amaral revela o uso do mesmo método para bloquear uma CPI que estava na iminência de convocar um dos filhos do ex-presidente Lula para depor. As negociações escusas foram sistematicamente utilizadas pelo PT com o objetivo de tornar possível o choque republicano que presumia, entre outras coisas, também sua permanência no poder. Afinal, o partido era o protagonista do choque republicano. A condenação de José Dirceu, presidente do PT e ex-ministro da Casa Civil do governo de Lula, por chefiar o esquema de pagamento de propina a congressistas em troca de votos aos projetos do interesse do Executivo, é muito eloquente a respeito do uso sistemático desse método antirrepublicano.

Esses poucos elementos permitem obter um quadro acerca do significado dos governos do Partido dos Trabalhadores nos últimos anos. Assim, temos um partido eleito democraticamente, orientado em sua prática para a modernização do país através de um choque republicano e que lança mão dos métodos de compra de votos de membros do Congresso Nacional – métodos claramente antirrepublicanos. Assim o PT tentou promover avanços em direção a um estilo de administração pública isonômica por meio de métodos paternalistas, típicos do velho coronelismo brasileiro.

É desnecessário enfatizar que uma transformação profunda do Brasil deveria se operar por meio de uma implementação coerente de princípios republicanos. Isso quer dizer que esses princípios deveriam ter envolvido o uso de métodos republicanos, para não se tornarem contraditórios e autoanuláveis na prática política de longo prazo. O PT parece ter chegado à conclusão que o Brasil só poderia ter sua feição alterada por meio do sistema antirrepublicano já existente – talvez em função das seguidas derrotas eleitorais para a Presidência da República.

Chamo a atenção para aqueles requisitos de profundidade e coerência. Sem eles, as transformações realizadas não se mantém ao longo do tempo, porque se mostram superficiais e

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incoerentes. Elas não conseguem operar mudanças autênticas no nosso modo de vida, na medida em que o método utilizado para realizá-las destrói o que vai senso transformado. Não é de se estranhar, portanto, que o motivo fundamental que conduziu ao processo de impeachment de Dilma Rousseff tenha sido uma rebelião da base de apoio do próprio governo. Base política até então controlada por meio de propina e nomeações para cargos de direção do serviço público federal da qual Eduardo Cunha é certamente o melhor representante. Ou seja, o impeachment é a manifestação de um curto-circuito do mecanismo contraditório de operar um choque republicano por meio de métodos antirrepublicanos. Ele expressa exatamente a lógica da inconsistência, típica da prática política utilizada pelo Partido dos Trabalhadores nesses anos de exercício do poder.

Isso significa que a colocação em prática de princípios republicanos deveria ter ocorrido através de um método coerente: talvez em função do reconhecimento coletivo de que eles são os melhores para o país. Ou seja, uma política prática deveria ser a consequência do reconhecimento social da superioridade dos princípios que a orientam. Isso tudo se considerarmos que a relação entre os princípios e a prática política deveria ocorrer em um ambiente marcado pela coerência para se aprofundarem na vida social do Brasil e romperem sua crosta atavicamente antirrepublicana. Nesse sentido, se deveria esperar que os princípios defendidos pelo PT tivessem sido socialmente reconhecidos como superiores - em função do resultado das eleições diretas ou por qualquer outro motivo. Essa adesão à superioridade desses princípios é que poderia ter conduzido a uma transformação profunda do país. Sem ela, o PT adotou o sistema antirrepublicano vigente.

Essa exigência de coerência parece muito natural, na política e na vida privada. Todos nós, em nossas vidas diárias, identificamos a coerência com uma virtude. Afinal, se trata de ter a expectativa de que um mesmo conjunto de valores adquira validade exclusiva em um mesmo ambiente e possa, assim, moldá-lo de acordo com o seu conteúdo (dos valores). No caso da política, essa expectativa da coerência leva certamente à condenação dos métodos de governo do Partido dos Trabalhadores. Isso porque eles são claramente incoerentes com seus próprios objetivos.

Entretanto, essa tentação de acusar um partido de incoerência não conduz a nenhuma conclusão útil no contexto da cultura brasileira. Essa condenação expressa apenas uma modalidade de moralismo fútil. A coerência é uma virtude democrática, na medida em que a isonomia só pode ser obtida quando um conjunto de valores adquire profundidade e validade universal. Essa última envolve a capacidade de equalizar a totalidade dos elementos diversificados que ela subordina. A coerência é uma forma de subordinação que articula as

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diferenças sob um controle unificado criando a profundidade. Ela significa a capacidade de integração da diversidade sob uma ordem exclusiva. Os elementos diversos são submetidos a esse regramento, porque ele é reconhecidamente superior e capaz de ordená-los. Ou seja, democracia e coerência envolvem subordinação das partes a valores reconhecidamente superiores.

A questão que me parece decisiva é a seguinte: a incoerência do Partido dos Trabalhadores só é objeto de condenação moral de um ponto de vista democrático, porque só dessa perspectiva se produz uma expectativa acerca da coerência. Com isso não quero dizer que o Partido dos Trabalhadores é inocente. Isso quer dizer que no Brasil não há aquele conjunto de valores reconhecidamente superiores que possa funcionar como plataforma para uma avaliação independente e para o tratamento isonômico em um enfrentamento das partes. Ou seja, não parto daquele acordo entre as duas perspectivas anteriores para as quais nos encontramos em algum ponto da instalação da democracia brasileira.

Não há na vida brasileira as condições para se exercer coerência política entre princípios e prática, porque não há uma base comum que permita a implementação gradual de um conjunto de regras. Somente essa disposição firme e consistente consigo mesma poderia servir como apoio para operacionalizar uma transformação social profunda. Só a persistência em uma mesma direção, essa unilateralidade da vontade, é capaz de exercer esse domínio efetivo dos elementos particulares e realizar alterações significativas e duradouras. Sem esse requisito da coerência e da isonomia, a força que se exerce em qualquer direção se perde diante das resistências particulares já consolidadas. A falta de integração impede a vigência de um projeto, a conquista da totalidade por um mesmo valor. O Brasil é um país de vontades múltiplas.

Chamo a atenção, nesse ponto, para a atuação do Poder Judiciário. Durante grande parte das investigações da Operação Lava-Jato, esse Poder manteve uma posição relativamente isonômica. Quando a tensão política se elevou, em função da proximidade das investigações em torno da família do ex-presidente Lula e de sua nomeação para ministro da Casa Civil, a imparcialidade do Judiciário foi abandonada. Os vazamentos das gravações envolvendo a Presidenta, algumas já realizadas fora do prazo legal estabelecido, derrubaram por terra o (suposto) caráter apolítico do poder Judiciário. Como se não bastasse, as constantes investidas partidárias – sempre simpáticas ou antipáticas, mas nunca isentas – do Ministro Gilmar Mendes demonstram a falta de capacidade desse Poder de adotar uma postura efetivamente republicana e isonômica. Não se trata somente de que o Partido dos Trabalhadores tenha se mostrado incoerente, mas também o próprio Poder Judiciário. O humorista José Simão resumiu essa

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percepção quando escreveu que “Moro contratou o Bolt para pegar o Lula. E o Rubinho para pegar a mulher do Cunha”.

Isso também não significa que não existam valores democráticos presentes no ambiente político brasileiro. Eles certamente existem: há políticos interessados no bem público por si mesmo, assim como há ministros do Judiciário que encarnam a isenção tipicamente moderna desse Poder. Entretanto, tais atitudes e princípios não são hegemônicos e, dessa forma, não adquirem poder suficiente para gerar um ambiente coerente, ordenado sob sua própria validade superior. Eles se mostram incapazes de estabelecer domínio permanente sobre a totalidade da vida social. Seu controle se exerce em alguns ambientes, em algumas circunstâncias, por algum tempo, mas eles não controlam profundamente o Brasil. Trata-se de uma modalidade de controle oscilante, temporário e, por isso, não isonômico. Isso permite perceber como a vida social brasileira é incoerente e refratária à profundidade do controle unificado.

Esses valores democráticos não exibem, por aqui, a força intensa e compulsória que possuem no ambiente europeu, por exemplo. Nós, intérpretes obrigatórios do Brasil por nascimento, em geral julgamos o país como se tais valores fossem desejáveis por si mesmos, porque é assim que eles são reconhecidos na velha Europa. Agindo assim, nós procedemos exatamente como os turistas europeus que visitam e julgam o Brasil a partir de suas ideias europeias. É por isso que nossos juízos são moralistas e inúteis, na medida em que avaliamos sob a perspectiva de uma coerência e de uma isonomia que não podem existir no Brasil de maneira hegemônica.

O Brasil tem resistido mansamente a tal tipo de avaliação. Ele não tem se subordinado a uma vontade unificadora de sua diversidade, nem tem admitido integração plena sob qualquer tipo de ordenamento. As sínteses que podem existir aqui não são as sínteses europeias uniformizantes (SILVEIRA, 2015b). Não é ocasional que tenhamos passado a maior parte da vida nacional independente sob ditaduras. Também não é fortuito que a força bruta empregada nesses longos períodos ditatoriais não tenha conseguido gerar um ambiente integrado e isonômico. O uso da força não alterou substancialmente os procedimentos refratários ao ordenamento da sociedade brasileira. Assim que a força se atenua, a diversidade das particularidades reassume o controle – ou parte dele. O Brasil claramente tem optado pela incoerência como forma de vida, pela justaposição dos elementos existenciais, sem dar à sua totalidade uma cor uniforme, sem permitir o estabelecimento de um domínio claramente identificável por meio de uma subordinação universal de suas partes.

Por isso, o país sempre tem a aparência de uma complexidade mutável, indescritível, inapreensível a uma única percepção abrangente. Ninguém consegue afastar-se muito do Brasil e

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obter dele uma visão panorâmica geral, porque ele se move, reduz as distâncias, aproxima-se caloroso e convidativo, subjulga docemente qualquer visão geral, indicando como ela é tão parcial e limitada como qualquer interesse. Ele não resiste frontalmente às demandas de coerência, mas desvia-se delas, esquiva-se, ginga sem nunca deixar-se ser atingido por tais juízos totalizadores. É por isso que esses juízos nada dizem de relevante, porque deslizam sobre a superfície incapazes de ganhar profundidade.

A vida brasileira é vivida sob a forma da incoerência. Nenhum procedimento, nenhum regramento adquire validade intensa e domina nossa existência. Por isso, o Barão de Mauá (1943), reconhecendo o deslizar contínuo da legislação, já solicitava a edição daquela lei superior que fizesse valer todas as demais. Afinal, a lei brasileira é tênue, impotente e sem capacidade de comando sobre o mundo real. Os elementos da vida passeiam soltos, libertos do constrangimento centralizador e da unidade da regra. Os exemplos aqui são inúmeros e deixo ao leitor a missão de rememorar eventos pessoais eloquentes a esse respeito. Observe que em todos eles algum processo de unificação cedeu terreno diante da persistência da variabilidade e da dispersão.

As exigências de coerência da parte dos intérpretes, quaisquer que sejam elas, são uma forma de imitação dos comportamentos turísticos europeus. Elas são uma forma de moralismo que serve mais como descarga emocional para os indignados do que como sugestão de soluções pertinentes. Afinal, eles pressupõem a validade da coerência como critério para julgar o Brasil. Mas o país é existencialmente incoerente não por deficiência, mas por propensão, por estilo, por vocação histórica, por talento já exercido – sem conotações metafísicas, por favor. Então o resultado dessas avaliações não se conecta a um mundo que se encontra em condições de ser alterado por elas, porque o juízo e o ajuizado não compartilham elementos comuns.

Se observarmos as críticas contra o PT, presentes em vários ambientes sociais, verificaremos que uma delas é recorrente: a de radicalismo. Mesmo depois de 15 anos governando o país, o partido ainda sofre críticas por ser comunista ou por tentar doutrinar as criancinhas indefesas – como expressa a tentativa de se aprovar a Lei da Mordaça. Tais críticas são claramente infundadas e até risíveis, mas elas não são injustas.

O Partido dos Trabalhadores adotou um discurso republicano, tentou tomar pé em um ponto de vista isento, coerente, elevado e, por isso, capaz de propor alterações profundas no país. Por isso, ele é considerado radical e inflexível. No Brasil ser radical é adotar qualquer posição elevada e assumir princípios não negociáveis, dispor-se a subordinar a diversidade a um único princípio, submeter-se e submeter a variedade. As críticas ao radicalismo são justas porque se tratam, afinal, de iniciativas que se configuram como um verdadeiro atentado contra a incoerência que temos sido, um ato de guerra contra nossa maneira de ser. A retidão de uma

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vontade persistente é um gesto ameaçador para o Brasil que temos sido. Do ponto de vista do país que existe, o projeto da coerência e da transformação profunda é uma verdadeira sentença de morte.

Daqui se pode explicar também certa satisfação masoquista de parte da opinião pública em ver o Partido dos Trabalhadores revelar-se incoerente e tão brasileiro como todos nós. Isso nos conforta enormemente porque reconhecemos, mais uma vez, que ninguém está acima do próprio interesse (partidário) e em condições de exigir coerência e subordinação dos demais. Todos nós, afinal, nos revelamos muito brasileiros, parciais e agarrados à particularidade de nossos próprios pontos de vista e interesses. A verdade sobre o impeachment se mostra quando percebemos que o fracasso do PT é o sucesso do Brasil como uma forma de vida potente, incoerente e perseverante. É um triunfo do Brasil que a Presidenta Dilma Rousseff passe pelo processo de impeachment porque isso reforça o que temos sido e enfraquece qualquer projeto que nos conduza a uma vida coerente, regrada, moderna e profunda. O perfil pessoal da Presidenta também favorece esse sentimento masoquista. Não são poucas as narrativas sobre sua indisposição em tergiversar, em convencer, em negociar e se mostrar flexível. Nesse sentido, ela é bem menos brasileira que o ex-presidente Lula.

Por outro lado, o processo de impeachment contra Dilma Rousseff também é um desafio que o Brasil lança aos seus intérpretes, no sentido de se deslocarem para um ponto de vista que possibilite alguma conexão com o país, para a obtenção de elementos que funcionem como um patamar comum entre quem interpreta e o que é interpretado, sem o qual não há interpretações úteis. Sem esse elemento, nossas interpretações continuarão a ser puro desvario, ficções sem utilidade e pertinência, fantasmagorias acerca de um mundo existente apenas na imaginação da velha Europa. O respeito às regras básicas da hermenêutica seria bem vindo nesse caso.

Essa conexão nos exigirá um esforço para nos livrarmos de um conjunto de critérios e valores de matriz europeia que nada informam sobre o Brasil. Quer dizer, eles dizem sobre o Brasil apenas o que um europeu pode ver: um mundo que ainda não chegou a ser como deveria ser, não chegou a ser o que a velha Europa é. Mas isso é apenas uma tautologia, uma incompreensão muito antiga e já gasta pela sua repetição insistente e inócua. É necessária uma compreensão do país e não a mera condenação de uma de suas partes, qualquer que seja ela – motivada, em geral, pela sua incoerência com o restante da realidade nacional. O tradicional ponto de vista europeu, democrático e coerente, consiste somente na execração de aspectos da vida nacional que lhe parecem fracassos.

Enquanto não abrirmos mão de nossos preconceitos europeus, com os quais fomos educados, e reconhecermos o Brasil que há, nenhuma interpretação pertinente poderá ser feita,

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apenas condenações tão intensas e diversificadas quanto inócuas. Nesse sentido, o processo de impeachment de Dilma Rousseff nos diz que ainda somos brasileiros expatriados do próprio país. Somos todos uns turistas europeus.

Referências

MAUÁ, V. de. Autobiografia. Rio de Janeiro: Zelio Valverde, 1943.

SILVEIRA, R. A. T. Apresentação do Brasil. Santa Cruz Cabrália: Ronie Alexsandro Teles da Silveira, 2015a.

____. A Síntese Carnavalesca. Capoeira, v. 2, nº 1, 2015b, pp. 37-53.

Ronie Alexsandro Teles da Silveira

É graduado em Filosofia pela Universidade Fede-ral de Goiás, possui mestrado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e dou-torado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. É professor adjunto da Universidade Federal do Sul da Bahia. Tem ex-periência na área de Filosofia e Psicologia Cogniti-va, com ênfase nas questões epistemológicas liga-das à memória. Atualmente se interessa pelas con-sequências da intensificação dos valores democrá-ticos no mundo contemporâneo - epistemológicas, estéticas, éticas e políticas. Além disso, desenvolve uma linha de pesquisa sobre as relações entre a Filosofia e a Cultura Brasileira.

Referências

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