UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA
VALDIR JOÃO ROHDE
A CRISE DA ADOLESCÊNCIA
Professora orientadora: Angela Drugg
VALDIR JOÃO ROHDE
A CRISE DA ADOLESCÊNCIA
Monografia apresentada ao curso de Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijuí, como exigência parcial para obtenção do grau de Bacharel em Psicologia.
A Banca Examinadora abaixo assinada aprova o trabalho de conclusão de curso:
A CRISE DA ADOLESCÊNCIA
elaborado por
VALDIR JOÃO ROHDE
como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Psicologia.
Ijuí (RS), 10 dezembro de 2012.
BANCA EXAMINADORA
______________________________________ Orientadora Angela Drugg
______________________________________ Professor Nielson Heidemann
DEDICATÓRIA
Dedico a minha família, esposa, os dois filhos e genro.
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos professores, orientadores e as instituições que me acompanharam durante a minha formação.
RESUMO
Esta pesquisa tem por objetivo realizar um estudo sobre a “crise da adolescência”. Inicialmente discutimos como o adolescente foi se inscrevendo no meio social, sua relação com a cultura, com as tradições e costumes institucionalizados pela civilização, como algumas leis, ritos e normas foram se modificando até chegar aos dias de hoje em que praticamente desapareceram. Em seguida, apresentamos a adolescência como moratória, momento em que o adolescente é submetido a uma espera, onde as realizações são adiadas. Na última parte, analisamos os lutos na adolescência. O texto apresenta três lutos: o luto pela perda dos pais da infância, o luto pela perda do corpo infantil, e o luto pela perda da bissexualidade. Esses lutos representam perdas e novas aquisições.
Palavras-chave: Adolescência, Moratória, Lutos.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 7
1- ADOLESCÊNCIA E CULTURA ... 10
2 A ADOLESCÊNCIA COMO MORATÓRIA ... 14
3 OS LUTOS NA ADOLESCÊNCIA ... 21
3.1 O LUTO PELOS PAIS DA INFÂNCIA ... 21
3.2 O LUTO PELA PERDA DO CORPO INFANTIL ... 24
3.3 O LUTO PELA PERDA DA BISSEXUALIDADE... 28
CONCLUSÃO ... 31
INTRODUÇÃO
Neste Trabalho de Conclusão de Curso optamos por pesquisar a crise da adolescência por nos depararmos com as dificuldades que os jovens encontram no cotidiano. Observamos as crises, as esperas, os anseios, os envolvimentos, as transformações vividas pelos adolescentes, as questões múltiplas, os diferentes confrontos, os muitos porquês e as dúvidas que surgem nesta etapa da vida.
Este trabalho está fundamentado em uma pesquisa bibliográfica de variados temas apresentados por vários autores. Mencionamos alguns autores pesquisados: Freud, Anna Freud, Contardo Calligares, Arminda Aberastury e Mauricio Knobel.
Procuramos enriquecer esta pesquisa recorrendo às diferentes fontes literárias, consultando obras de profissionais deste campo. A ferramenta que nos serviu para melhor desempenhar esta tarefa foi a leitura. Pesquisamos no campo psicológico e social desenvolvido por médicos, psicanalistas, educadores, escritores e muitos colaboradores na área da psicologia.
Para abordar a questão da “crise da adolescência” organizamos nossa pesquisa em torno de três temáticas, a saber: a adolescência em diferentes culturas; a adolescência como moratória e os lutos na adolescência. Cada temática constitui-se em um capítulo do trabalho.
Assim, no primeiro capítulo veremos que os laços culturais eram elaborados pela própria comunidade. Que na modernidade o adolescente não encontra mais o ritual tradicional que existia na sociedade pré-moderna e que podia ser realizado em um tempo bastante curto. Observamos que todas as culturas aplicam definições semelhantes para considerar que o adolescente se tornou adulto: trabalhar, votar, casar e integrar-se a sociedade. Há tarefas universais que estão presentes em todas as culturas e se aplicam a todos os indivíduos. Toda a sociedade tem compromissos culturais que consideram muito bons. O adolescente é um observador em potencial da cultura adulta, ele compara as práticas morais e éticas dos adultos e, fica bem claro, que algumas manifestações da adolescência, não somente são específicas da cultura, mas também parcialmente causadas por ela.
No segundo capítulo, as leituras feitas apontaram o fato de que a adolescência veio ao mundo quando a passagem da criança ao adulto tornou-se problemática e por mais ou menos doze anos a criança integra-se a nossa cultura, mas como há a instauração dessa moratória o processo de assumir responsabilidades de adulto vai sendo adiado e demorado. O momento que o adolescente vive é um paradoxo. Ele é frustrado pela moratória imposta, cheio de restrições, interdições e ao mesmo tempo a idealização social lhe ordena que seja feliz. Outro fator que dificulta o relacionamento social do adolescente é o de ser visto criança em alguns casos, em outros visto como adulto, sofrendo essas comparações poderá sentir-se mal e passa a agredir a vontade explícita dos adultos. A estética da adolescência atravessa todas as idades e todos os continentes, os adolescentes são os mesmos no mundo inteiro, suas modas, seus estilos, as músicas. A adolescência não precisa acabar. Se tornar adulto não significa nenhuma promoção, quando os adultos desejam permanecer adolescentes.
Finalmente, no terceiro capítulo apresentamos a teoria dos lutos na adolescência de Arminda Aberastury. O luto pelos pais de infância é um momento muito difícil, pois esta perda valiosa é vivida com grande sofrimento e terá a necessidade de criar meios de substitui-los por novas aquisições reais, simbólicas e imaginárias. Porém, esta perda é necessária para que o ser humano se mantenha “desejante”, desligar a libido do objeto desaparecido e ser livre para investir em outros objetos. A relação de dependência infantil é abandonada gradualmente com alguma dificuldade. Os pais também precisam elaborar essa perda, para não haver uma ruptura ou um estado de solidão,
No luto pela perda do corpo infantil o adolescente percebe as transformações e, num primeiro momento, isto pode lhe gerar estranheza. O adolescente começa a descobrir que seu corpo é desejado por outros, surgem os desejos sexuais, prazeres, a vida de fantasias o aparecimento do complexo de Édipo. Ele vai marcando o seu corpo e quando isto não basta, a causa da estranheza pode induzir a buscar outras saídas como a depressão, anorexia, bulimia e outras. Porém estes desequilíbrios e instabilidades vividos pelo adolescente são necessários para estabelecer sua identidade. Quando o adolescente adquire a sua identidade, aceita
seu corpo, decide habitá-lo, enfrenta-se com o mundo e usa-o de acordo com o seu sexo.
Num terceiro momento, Arminda Aberastury apresenta a teoria do luto pela perda da bissexualidade. Agora encontra o seu objeto sexual.
1 ADOLESCÊNCIA E CULTURA
Antes da modernidade, na sociedade tradicional, as exigências sociais para ir se tornando adulto não eram tão distantes do cotidiano. A estabilidade e familiaridade que envolvia todo o corpo social, não criavam abismos entre as experiências. Os laços tanto transcendentes quanto cotidianos, os dispositivos rituais, cerimônias culturais, eram milenarmente elaboradas pela experiência histórica da própria comunidade. Temos exemplos na cultura hebreia, onde aos 12 anos de idade os adolescentes recebiam a Torá (Leis do Judaísmo), e no catolicismo e protestantismo que introduziram a crisma, a primeira comunhão, e a confirmação na adolescência.
A adolescência foi um produto da modernidade, frente à ausência da eficácia ritual acima referida. Assim, o apelo cultural e social atingem o jovem sob a forma de não simbolizado, sob forma real: ele é aturdido, siderado, produz-lhe estranhamento e o mantém estupefato e mudo. Desentendido, ele não tem como responder a esse apelo senão pela produção do “adolescimento”. O adolescente não encontra mais o ritual tradicional que existia na sociedade pré-moderna e que podia ser realizado em um tempo bastante curto, introduzindo-o no mundo adulto.
Segundo o Comitê sobre Adolescência, Grupo Adiantamento da Psiquiatria (E. U. A.), a sociedade cria todo um universo de regras, leis, costumes, tradições e práticas a fim de perpetuar os valores comuns para todos os seus membros. Todas as maneiras socialmente padronizadas de comportamento constituem a cultura de uma sociedade. Esses valores da cultura aparecem associados às principais mudanças fisiológicas, como o nascimento, a morte, o casamento, o parto, a infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice, e ditam as condutas e atitudes de cada sujeito.
Como podemos então definir o atingimento da fase adulta pelo adolescente? Esta etapa atinge um vasto campo de maturação social, psicológica e emocional, pois não podemos definir a fase adulta apenas pelos aspectos físicos, pois só isso não qualifica o adolescente como adulto. O que numa determinada cultura pode se definir como um grau de maturidade, em outra cultura não qualifica o sujeito, como tal (COMITE SOBRE ADOLESCÊNCIA, 1969, p. 31, 32).
O mesmo Comitê sobre a Adolescência apresenta alguns critérios para definir o estado adulto. Em quase todas as culturas aplicam se as definições que reconhecem o adolescente como adulto, como por exemplo, ganhar a própria vida ou o direito de votar com determinada idade. Diante desta responsabilidade social que parece existir em todas as sociedades o indivíduo pode formar um lar e se integrar na sociedade (ibid, p. 33).
Nos diferentes estudos sobre adolescência, o texto apresenta a interferência que a cultura exerce no meio em que o adolescente vive, destacando que culturas diferentes formarão sujeitos com características diferenciadas e poderão dar origem a indivíduos doentes, transviados ou padronizados. Mas é propício salientar que os diversos sistemas de cultura nem sempre exercem influência nos sujeitos, porque
cada um apresenta vontade e desejo próprios (ibid, p. 34). É notável como divergem entre si as culturas de um continente para o outro
continente, quando se trata de alcançar a idade adulta. Alguns são influenciados pela tradição familiar, outros pelas normas religiosas, leis da tribo ou fatores socioeconômicos. Mas acima de qualquer critério mencionado, tudo indica que o critério decisivo do status de adulto é o de criar e manter os filhos, a família (ibid, p. 35 – 37).
No livro Psicologias (BOECK, FURTADO e TEIXEIRA, 2001, p. 292, 293), é feito um comparativo a respeito da cultura entre adolescentes de uma ilha da Nova Guiné e adolescentes de nossa cultura. Os adolescentes da referida ilha começam a desenvolver as atividades sexuais antes que os da nossa sociedade, ou seja, nos da nossa sociedade a atividade sexual vem depois da pré-adolescência. Os meninos da ilha saem de casa na adolescência, enquanto os nossos em grande maioria ainda permanecem dependentes dos pais. Esse exemplo mostra que a adolescência não é uma fase natural do desenvolvimento humano.
Podemos considerar então, que a adolescência é uma fase típica do desenvolvimento do jovem de nossa sociedade. Isso porque uma sociedade evoluída tecnicamente e industrializada, exige um período para que o jovem adquira os conhecimentos necessários para dela participar. Podemos concluir este ponto dizendo que o tempo de preparação do adolescente, serve em nossa cultura, como um instrumento que vai moldá-lo para exercer uma função específica.
Ainda segundo o Comitê sobre Adolescência, há diversas idades que tornam o sujeito oficialmente adulto: uma seria com 12 anos, quando o adolescente alcança
algumas oportunidades como ir ao cinema, teatro, viagens aéreas, sem a companhia dos pais ou responsável. Outro seria a idade de 16 anos, como acontece em alguns países que permitem dirigir, trabalhar se quiser, e ter o direito de votar. Uma ainda maior ocorre aos 18 anos, quando os homens são chamados ao serviço militar e podem casar sem o consentimento dos pais. A mudança final da adolescência ocorreria aos 25 anos, por recomendação do Ministério da Saúde, quando todos os privilégios e responsabilidades são outorgados aos jovens de ambos os sexos (ibid, p. 37, 38).
A definição social do adulto no exercício de suas funções, especialmente na civilização ocidental, parece ser alcançada quando ele assume plena responsabilidade de si mesmo. O equilíbrio mental e emocional estável seria uma das características do termino psicológico da adolescência (ibid, p. 39, 40).
Há tarefas universais da adolescência que clareiam como o sujeito deveria se comportar. Estão presentes em todas as culturas e se aplicam em todos os indivíduos, por exemplo: o tabu do incesto é universal, e não se conhece exceção alguma. Outro denominador comum é a mudança do estado de educando para o de educador.
Em qualquer cultura se espera que o adolescente aprenda a trabalhar, amar e assumir as suas capacidades alcançando as funções dos adultos, e também em praticamente todas as culturas o adolescente aplica idênticos mecanismos de defesa, como negação, repressão e projeção (ibid, p. 40, 41).
Ao estudarmos a adolescência nos deparamos com a seguinte questão: poderia a cultura facilitar ou inibir a adolescência? Quando temos a intenção de responder esta questão, precisamos observar que toda a sociedade tem compromissos culturais que consideram muito bons, mas nem sempre o adolescente se enquadra dentro desses padrões e, nem sempre, o considera esses compromissos desejáveis. É nesse ponto que o juízo cultural adulto se mostra tão diverso e variável. Tomemos como exemplo a cultura cristã que requer do sujeito uma repressão e negação pesada e direta, onde o individuo deverá lidar com seus impulsos agressivos através de manobras defensivas, deverá reprimir pensamentos pecaminosos e o seu comportamento deverá ser de um verdadeiro herói. A adolescência, portanto pode ser tensa não só por motivos biológicos, mas também pelas pressões e exigências que a cultura exerce sobre o jovem em desenvolvimento (ibid, p. 42, 43). Nesta fase de descontinuidade entre infância e
adulto, o adolescente não se sente a vontade, acha difícil assumir o novo papel. O adolescente se vê censurado quando tenta agir como adulto, e criticado também quando não tenta.
O adolescente é um observador em potencial da cultura adulta. Passa a comparar o que os adultos praticam com o seu comportamento ético com os padrões da cultura. Algumas práticas vividas pelos adultos causam confusão e revolta por parte dos adolescentes, os adultos dizem uma coisa e praticam outra. Também fica evidente, que na nossa cultura a mulher cada vez mais vai se destacando, assumindo novos papéis, como por exemplo: a de ser uma policial, diretora de empresa, até presidente da república etc. enquanto alguns homens assumem papéis bem mais discretos como figurinistas, cabeleireiro, garçom, etc. Isto pode deixar o adolescente em conflito com a sua identidade profissional e sexual (ibid, p. 52-57).
A adolescência é também a “idade da ansiedade”. A insegurança pode trazer consequências imensuráveis, principalmente no aspecto psicológico, pois o jovem, e como o futuro não esta assegurado para nenhuma pessoa, pode entrar em desespero. Mesmo que a humanidade viva a fantasia de que o futuro é previsível e certo, o adolescente não sente esta segurança.
Atualmente não se apregoa esta segurança, antes somos bombardeados por todos os lados, recebemos enxurradas de profecias e previsões de desgraça através da mídia. Os meios de comunicação se encarregam de transmitir notícias espetaculares, mortes, assaltos, sequestros, estupros, fraudes, corrupção, acidentes, guerras, atentados, etc. pela TV, Rádio, Jornal e outros veículos de informação. Estamos rodeados destes acontecimentos negativos. No senso comum é frequente a frase: “Viva bem o dia de hoje porque o amanhã é incerto!” Todos estes acontecimentos podem levar o adolescente a desacreditar no mito tranquilizador de que o futuro é previsível. Muitos adolescentes, então, são levados a “orgias” e comportamento aparentemente destrutivo. Neste ponto, deve ficar bem claro, que algumas manifestações da adolescência, não somente são especificas da cultura, mas também parcialmente causadas por ela.
A biologia da puberdade é universal, mas as reações humanas ocorrem sempre dentro de uma cultura particular e a adolescência só se torna plenamente inteligível através da tomada de consciência e compreensão da cultura que a cerca. (ibid, p. 57, 58).
2 A ADOLESCÊNCIA COMO MORATÓRIA
O autor em quem nos embasaremos neste capítulo é Contardo Calligares membro fundador da APPOA, Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Ele é psicanalista e psicoterapeuta, doutor em Psicologia Clínica da Universidade de Provence, é colunista do caderno “Ilustrada” da folha de São Paulo. É italiano, viveu entre Nova York e São Paulo. Ensinou na New School de Nova York e foi professor convidado de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley. Também fez parte do corpo docente do Institute For The Study Of Violence, em Boston. É autor de várias obras literárias, entre elas o livro “Adolescência”. Além de ser um grande colaborador em outras obras.
Quando Calligaris (2009) comenta sobre a adolescência ele vai destacar um fato marcante ocorrido há alguns séculos atrás. Ele afirma que a adolescência veio ao mundo quando a passagem da criança ao adulto tornou-se problemática. Na falta de dispositivos societários, o sujeito teve de lidar solitariamente com a questão. Assim, ele vai solicitar uma moratória para poder responder, somente após um segundo crescimento, ao apelo puberdário e social.
No decorrer deste processo, o adolescente se depara com os pais, avós e familiares próximos como tios, outra pessoas de mais idade, seus professores e até algumas autoridades, enfim a sociedade, o jovem adolescente se defronta com um emaranhado de relacionamentos. Exemplificando este momento marcante na vida do adolescente Calligaris (ibid, p. 10) narra um fato fictício, que poderia acontecer com um sujeito que, por algum acidente, fosse transportado para uma sociedade totalmente diferente, comparando o passar adolescente com a de um passageiro de avião que sofre um acidente no meio de uma imensa floresta selvagem, mas por sorte uma tribo ali existente o acolhe e adota este passageiro solitário. Por um período de doze anos ele terá que se entrosar e adaptar aos usos e costumes da tribo, isto desde a linguagem até valores que ele aparentemente viverá pelo resto de seus dias.
Passados os doze anos, o sujeito já fala corretamente, conhece as leis e as regras de sua nova tribo, ele já se sente um deles. Nesta sociedade é de suma importância se sobressair, ser destacado. Ele, portanto, terá de aprender a fazer duas coisas que são imprescindíveis na tribo: pescar e tocar música, pois nessa
sociedade é indispensável ser um bom pescador e tocar música. Durante doze anos olhou, imitou e aprendeu, o corpo já está treinado, rápido e forte, o sujeito se sente pronto. Porém, nesta altura dos acontecimentos, os anciões da tribo comunicam: você já tem tamanho e perícia, mas temos que lhe avisar que terá de esperar mais dez anos antes de vir a fazer parte da tribo, você não nos é estranho, mas ainda não pode ser membro desta tribo. Contudo, este pequeno atraso é para seu bem, por causa do nosso amor por você, queremos lhe proteger por mais um tempo. Portanto, você vai poder se preparar melhor ainda para o dia em que será reconhecido como nosso membro, você ainda não terá as pesadas responsabilidades dos membros da tribo, use o tempo da pesca e da música para se divertir e não como um compromisso, participe disso como numa brincadeira.
Este sujeito criado por Calligaris (ibid) certamente passaria por um leque variado de sentimentos; raiva, desprezo, rebeldia, impaciência. Se tivesse oportunidade iria se aliar a uma tribo inimiga, procuraria um grupo onde se sentiria um homem ou uma mulher de verdade, talvez até importunasse nas horas menos adequadas, tocando música a todo acústico nas altas noites, perturbando o sono de muitos ou se aventurando em pescarias em lugares proibidos e se tornaria fonte de
preocupação e medo, objeto de repressão entre os mais idosos. O autor compara o que acontece com os nossos adolescentes ao que
aconteceu com o passageiro acidentado. Por mais ou menos doze anos, as crianças se integram a nossa cultura, elas aprendem que há dois campos para se destacar e alcançar felicidade e obter reconhecimento: as relações amorosas, sexuais e o trabalho, campo produtivo, financeiro e social. É necessário ser desejável e invejável. Mas é nesse ponto que lhes é comunicado que não está bem na hora ainda, é reprimido, mesmo que o sujeito foi treinado com vários cursos e diplomas e tenha passado por mil caminhos: pela escola, pelos pais, pela sociedade, corpo e espírito prontos para a competição, mas não é reconhecido como adulto. Aprende que por mais dez anos ficará sob a tutela dos pais, preparando-se para o sexo, amor e trabalho, sem produzir, ganhar ou amar, e isto só será possível na marginalidade. Instaura-se assim uma moratória, esse prolongamento se torna mais uma idade de vida (CALLIGARIS, 2009, p. 12 - 16).
Ao alcançar este estágio de desenvolvimento, o sujeito ainda um tanto imaturo, depara-se com tarefas difíceis, como construir valores, alcançar reconhecimento na sociedade, fazer escolhas etc.
Anna freud (1995, p. 11) chega a postular que a sustentação de um equilíbrio constante ao longo da adolescência, é por si mesmo anormal, pois é de se esperar que um adolescente normal e saudável sofra uma quebra no crescimento pacífico. Ela coloca que, as manifestações comportamentais do adolescente podem vulgarmente ser vistas como patológicas. Na verdade, não são mais do que a internalização do conflito interno que o adolescente precisa elaborar. Adolescer é morrer como criança e nascer como adulto.
O sujeito, no caso o adolescente, percebe que os adultos são falhos, são injustos, não sabem de tudo e, ainda assim, querem determiná-lo. Percebe que os adultos por vezes vivem ao contrário do que apregoam. Isto lhe causa sofrimento e decepção e quando acaba constatando que a oportunidade de ocupar um lugar vai sendo adiada, ele começa a passar por crises.
O que era um doce sonho torna-se um amargo fracasso. O adolescente vê a pior face de seus pais e passa a denunciar e se revoltar contra o mundo. Todas as normas pré-estabelecidas agora são discutidas, debatidas e colocadas em dúvida. O adolescente passa a ser hostil e agressivo, o que é até certo ponto uma agressividade sadia, que Ana Freud nomeou, “Desejo Hostil Diferenciador”, presente e atuante em qualquer ser humano.
Neste contexto todo de sofrimento do adolescente, Calligaris aponta alguns elementos importantes, exemplificando com o caso do aeronauta acidentado. É relevante pensar como seria a reação de tal sujeito numa tribo hipotética, e poderíamos presumir que este jovem passaria por um período de contestação aguda. Talvez começasse a pescar com dinamite e tocaria músicas extravagantes.
Analisando um pouco os jovens modernos, a situação deles é pior do que a do sujeito aeronáufrago. Em nossa cultura, um sujeito será reconhecido como adulto e responsável na medida em que viver e se firmar como independente (peça-chave da educação moderna ), autônomo como os adultos dizem que são. Fazendo uma retrospectiva a épocas nas quais essa moratória não era imposta, os jovens de 15 anos já levavam exércitos à batalha, comandavam navios ou simplesmente tocavam negócios com competência (CALLIGARIS, 2009, p. 17).
Jerusalinsky reforça esta afirmação e lembra de sujeitos que realizaram conquistas ainda muito jovens, como Alexandre Magno que conquistou a Macedônia
com 21 anos de idade, Anibal conquistou Austurias com 19, Dagoberto I aos 16 anos governou o primeiro Reino Franco (RASSIAL, 1999, p. 25).
Corso resignifica este conceito de adolescência sublinhando que quando a adolescência começa o jovem não é mais visível. E o fulano, não veio, não está? Ou está na casa da namorada, ou saiu com os amigos, foi com um amigo fazer alguma coisa certamente fora de casa. Se estiver em casa, está dormindo, trancado no quarto ou numa interminável conversa telefônica. Este é o silencio, ele está lá, mas a comunicação é impossível (CORSO, 1999, p. 84).
É um momento em que o adolescente vive um paradoxo, ele é frustrado pela moratória imposta – você não pode! Cheio de restrições, proibições, ele é interditado. E ao mesmo tempo, a idealização social da adolescência lhe ordena que seja feliz (CALLIGARIS, 2009, p. 18).
O autor enfatiza que aos poucos o adolescente vai descobrindo uma competição possível com os adultos, tanto na sedução quanto no enfrentamento. Mas essa mudança parece acontecer somente para o adolescente na medida em que o olhar dos adultos não reconhece no adolescente os sinais da passagem para a idade adulta. Na cultura moderna, adulto, é quem consegue, por exemplo, ser desejável e invejável (ibid, p. 20),
Em sua análise sobre a adolescência, o escritor observa que ninguém entende direito o que é um homem ou uma mulher, ninguém sabe também o que é preciso para que um adolescente se torne adulto. Ao adolescente resta a espera, enquanto esta moratória é instaurada (ibid, p. 21).
A maturação adolescente é evidente, invasiva e destrutiva. A sua graça de criança agora é recusada, suspensa, negada, por consequência, o adolescente não é mais nada, nem criança amada, nem adulto reconhecido (ibid, p. 24). O espelho é visto como algo que não é bem a nossa imagem que deve muito ao olhar dos outros. O sujeito se vê e imagina que os outros o vejam. Por isso o espelho é tentador e perigoso para o adolescente, porque ele gostaria muito de descobrir o que os outros veem nele.
Ele não é mais criança, mas ainda não é adulto, o espelho para ele parece vazio. A insegurança se torna assim o traço próprio da adolescência. A sua dificuldade de relacionamento deriva, provém dessa insegurança (ibid, p. 25). O adolescente começa a se indagar “o que os adultos querem de mim?”. Qual seria o
gesto necessário para redirecionar o olhar do adulto, teria que ser dotado de que atributo, ou, o que traria reconhecimento entre “os grandes”.
Indo um pouco mais a fundo, o escritor explica que os adultos se contradizem: querem que o adolescente seja autônomo, mas lhe recusam a autonomia. Pedem que o adolescente alcance sucesso social e amoroso, mas primeiro precisa se preparar melhor. Será que os próprios adultos sabem fazer isso? Aparentemente não, o adolescente assume então a tarefa de interpretar o desejo inconsciente (ou simplesmente escondido, esquecido) dos adultos (ibid, p. 26 ).
Em geral o adolescente é ótimo intérprete do desejo dos adultos, e esta interpretação produz o desencontro entre adultos e adolescentes inexiste a idealização do fora da lei. Esta idealização é acompanhada por algum tipo de justificativa moral. Por exemplo, Robin Hood está à margem da lei, mas isso porque o xerife de Nottigham é um usurpador ilegítimo. Robin Hood se situa contra e acima da lei em nome de uma justiça superior a ela. Entende-se assim que o adolescente não tem outra opção, e que o adulto quer dele revolta. E a repressão só confirma nele essa crença, acrescentando a constatação de que o adulto repressor é hipócrita (ibid, p. 28).
As condutas adolescentes são tão variadas quanto os sonhos e os desejos reprimidos dos adultos. Os adolescentes em seus atos no mínimo transgridem a vontade explícita dos adultos.
Calligaris lembra que Ana Freud já mencionou este aspecto de que os adultos tratam a adolescência como uma espécie de patologia social, ou como uma epidemia psíquica de adolescentes, uma doença. No mínimo o comportamento adolescente seria anormal comparado ao padrão adulto, a ponto de que algumas famílias consideram o adolescente um perigo e uma grande ameaça à paz familiar. Se a adolescência é uma patologia, então ela é uma patologia dos desejos de rebeldia reprimida dos adultos (ibid, p. 34).
O texto de Calligaris recheado de características da adolescência e chama a nossa atenção para o adolescente que se enfeia e para o adolescente barulhento. Primeiro, o adolescente que se enfeia parece desafiar o que é o estilo padrão dos adultos, por exemplo, os adolescentes inventam o seu padrão diferenciado, mas reconhecido entre o seu grupo, o que constitui alguma espécie de agressão deliberada para desafiar a aprovação dos adultos. Mas este ato não serve só para se diferenciar, se enfeiar corresponde a uma recusa de sexualidade e o desejo do
valor social. Pode ser também que o adolescente se enfeia para se proteger de um olhar que poderia não achá-lo desejável, com isto procura se justificar: “Não gostam de mim, mas é porque eu não quis”. A feiura pode ser também uma espécie de exibicionismo escancarado, a proposta de um erotismo fora de norma, uma espécie de armadilha sexual despreocupada com as normas impostas pela sociedade adulta.
O piercing umbilical das garotas é uma lembrança do umbigo do nenê, ou uma distração lúdica ao caminho do órgão genital. É uma maneira de chamar o olhar para o encontro permanente próximo à vagina, uma das aberturas do corpo. Para os meninos, por exemplo, a cueca é vista e evoca uma história de cocô, xixi e de fraldas, uma maneira preventiva de se ridicularizar nos arredores dos órgãos genitais, que lembra que algo está em riste, referente ao pênis.
Estes modos atrevidos e escandalosos dos adolescentes, como por exemplo: cabelos ultra loiros, brincos, tatuagens e cara feia, fazem pensar que, caso encontrassem a si mesmos numa rua escura, trocariam de calçada ou correriam para casa assustadíssimos (ibid, p. 49- 51).
Outra característica marcante abordada pelo autor é o adolescente barulhento. O adolescente vive uma trilha sonora permanente e inspiradora de imagens. Essa escuta constante comporta a sua parte de provocação, isto é, o adolescente oscila entre as caixas de som e vive do fone de ouvido. O recado é claro: ou te ensurdeço ou não te ouço. É uma maneira de gritar: “Eu não vivo, arrebento”. Os adultos por mais que protestem, não agem diferentemente e, de vez em quando, adoram estourar as caixas de seus aparelhos para comunicar (ao seu vizinho) as insustentáveis emoções daquele dia, ou pior (para o vizinho) daquela noite. Em todos esses desafios, provocações e péssimos comportamentos o adolescente descobre que sua rebeldia não para de alimentar os ideais sociais dos adultos (ibid, p. 51 – 53).
Aos poucos, os adultos verificam que as crianças que estão se preparando já são um pouco crescidas. Elas constituem uma nova mistura inédita. Os adultos continuam querendo mantê-las protegidas e felizes, assistidas num mundo encantado, sem obrigações e responsabilidades, ao mesmo tempo, aos poucos os adultos percebem que passou o tempo dos brinquedos e historinhas, e começa o tempo de interesse pelo sexo e pelo dinheiro. Aparece assim uma semelhança
inédita com os adultos. Essas supostas “crianças” já têm corpos, gostos, vontades, prazeres e alguns deveres muito parecidos com os nossos.
Cada vez mais o olhar dos adultos está voltado para os adolescentes. A imagem da adolescência feliz nos propõe um espelho para contemplar a satisfação dos nossos ávidos desejos, e a adolescência se opõe com um erotismo alusivo. Procuramos na visão da adolescência o clipe de nossos gozos: “Nossa, se pudéssemos de verdade tirar férias do jeito que nem adolescente consegue!” (ibid. p. 57). A adolescência real nos assusta como um filme pornográfico, quando, de repente, se realiza de verdade fantasias que estão em nós adultos, mas que preferimos levar ao esquecimento. Calligaris enfatiza ainda mais, afirmando que os adolescentes ideais têm corpos que reconhecemos parecidos com os nossos, eles são adultos de férias e sem lei (ibid , p 68, 69).
Calligaris observa que a estética da adolescência atravessa todas as idades e todos os continentes, os adolescentes são os mesmos do mundo inteiro. Mesmas modas, mesmos estilos, mesmas músicas. Assim a adolescência não precisa acabar. Crescer, se tornar adulto, não significa nenhuma promoção. Porque o adolescente deveria desejar se tornar adulto, quando os adultos querem ser adolescentes? E porque desejar o reconhecimento dos adultos, se na verdade são estes que parecem pedir que os adolescentes os reconheçam como pares?
Os adolescentes pedem reconhecimento e encontram no âmago dos adultos um espelho para se contemplar. Pedem uma palavra para crescer e ganham um olhar que admira, justamente o casulo que eles queriam deixar.
3 OS LUTOS NA ADOLESCÊNCIA
Arminda Aberastury menciona três lutos na passagem adolescente. Vale destacar que esta escritora (in memoriam) é especialista no campo psicanalítico. Foi ela quem contribuiu para aprofundar e estimular o estudo teórico e técnico da psicanálise infanto-juvenil. Arminda estimulou vários de seus alunos e colaboradores mais diretos, que sob sua supervisão produziram uma obra importante. Muitos psicanalistas, estudantes de psicanálise, psiquiatras, psicólogos e educadores beneficiam-se desta obra.
Comprometida com o labor científico, seus traços eram bastante vigorosos na forma de orientar e pensar, suas projeções inquestionáveis, seu pensamento científico profundamente desenvolvido. Sua literatura e permanência científica já esta assegurada na literatura psicológica do tema que foi a grande paixão de sua vida, a Adolescência.
Aberastury foi membro da Associação de Psicanalise Argentina – APA. Os colaboradores do Livro Adolescência publicada em 1990 pela Editora Artes Médicas Sul LTDA, comentam sobre Arminda: O seu critério era estimulante e vibrante e seu valioso contato humano. Aberastury coloca que a temática da adolescência provoca, na atualidade, o interesse de diversos setores de estudiosos da conduta humana e exige todas as contribuições das diferentes disciplinas cientificas, considerando que é um compromisso continuar investigando e transmitindo as conclusões.
Considera a adolescência um momento crucial na vida do homem e que constitui a etapa decisiva de um processo de desprendimento. Os lutos antes mencionados aparecem como três momentos fundamentais: O luto pelos pais da infância, o luto pela perda do corpo infantil e o luto pela perda da bissexualidade. Temas estes que serão trabalhados a seguir.
3.1 O LUTO PELOS PAIS DA INFÂNCIA
Ao pensarmos o tema Adolescência e seus Lutos, nos textos abordados por Freud, e especialmente as relações com a figura do pai, queremos destacar alguns pontos da vida de Freud. Freud descreveu ter uma grande semelhança com o seu
pai, física e mental, até herdara o senso de humor o ceticismo e o livre pensamento paterno. Da mãe, herdou as apaixonadas emoções. Mas o intelecto era dele próprio. Freud era um grande estudioso, desde os oito anos de idade dedicava-se as leituras com muito afinco, em especial Shakespeare. Aos 22 anos de idade modificou o seu nome de batismo – Sigismund – tirando as letras i e s, passando a se chamar Sigmund. O nome do adolescente Freud passa a ser um obstáculo, o “... adolescente aí tropeça, imaginando o seu nome e retomando suas identificações fundamentais”. “A opção por Sigmund significa repudiar, o nome recebido dos pais” (RAPPAPORT, 1993). Por ocasião da morte do pai Freud escreveu: “... a morte de meu velho me afetou profundamente... teve um efeito significativo em minha vida. (...)“... sinto-me agora totalmente desarraigado...” (...)
Foi só depois da morte do pai que Freud pode investigar a fundo a relação do
homem com seus pais, e finalmente chegar ao complexo de Édipo. Moura (1999, p. 25) em Psicanálise e Hospital, enfatiza que o luto é um tempo
necessário a ser vivido, inicialmente há uma fase de idealização do ser amado e posteriormente um processo natural de desinvestimento necessário na elaboração do luto. Moura (ibid.) ainda apresenta o luto como a perda de um lugar, o objeto perdido obriga a um trabalho de luto que exige um tempo de idealização.
Quando falamos deste momento do luto pelos pais da infância podemos constatar que o adolescente que antes idealizava os pais, e depositava grande valor se deparar com questionamentos, passando a buscar figuras e identificações fora do âmbito familiar. Como se trata de uma caminhada independente, a insegurança e o medo o levam a se apoiar em algo novo, criando novas identificações. O adolescente perde o corpo de criança e começa a busca de novas identificações.
Mas ao contrário do que alguns imaginam o sujeito adolescente precisa muito de seus pais. A presença dos pais junto ao adolescente é fundamental para que ele possa desempenhar sua função de separação. Se os pais não estiverem presentes ele não poderá sequer fazer esta escolha.
A adolescência é um trabalho de escolhas, e um trabalho da elaboração da falta no Outro. Há momentos em que, diante de tantas reações adversas por parte dos filhos, os pais desistem de desempenhar sua função de pais, entendem que não são mais ouvidos, levados a sério, respeitados, dando de ombros e desistem. Aí são os pais que se separam dos filhos, invertendo os papéis. Começa então uma série
Para compreender e lidar melhor com este estado do adolescente é fundamental que se conheça essa aparente “Patologia” chamada “Síndrome da Adolescência Normal”. O adolescente está em uma busca constante de si mesmo, ele necessita intelectualizar e fantasiar, também está no processo de evolução sexual, a flutuação é constante (ABERASTURY e KNOBEL, 1992, p. 42).
Esta passagem da infância para a vida adulta é um momento muito difícil, mais do que um período de tempo o sujeito terá de cumprir a tarefa de viver o luto pela perda dos pais da infância, ressituando-se subjetivamente como adulto. Essa perda valiosa é vivida com um grande sofrimento e será necessário criar meios de substituí-la por novas aquisições reais, simbólicas e imaginárias. É o momento de ser do contra, ter manias com alimentos, vestir-se diferente, cultuar ídolos, passar a gostar mais de amigos do que dos pais, conhecer novas religiões, experimentar variadas formas de ser, estar deprimido, chorar sem motivo aparente, ser alegre de forma exagerada, fazer reivindicações sendo estas algumas elaborações de luto pelos pais da infância (ABERASTURY e KNOBEL, 1992, p. 44).
Algumas perdas são essenciais na vida do adolescente, para que o ser humano se torne desejante, e são mais marcantes em alguns períodos da vida. Para que o sujeito possa sair desse estado faz-se necessário o “trabalho de luto” que consiste em desligar a libido do objeto desaparecido, para que o eu novamente livre possa investir em outros objetos.
Esse desligamento acontece com dor e resistência, pois Freud mesmo afirmou que “as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posição libidinal, nem mesmo na realidade quando um substituto lhe acena” (FREUD, 1925, p. 261). Durante este estado de luto aparecem conflitos de grande magnitude. Diante de tantas escolhas a fazer, o jovem entra em conflito, pois quando há escolhas, há perdas, e nesse instante de sofrimento elas se agigantam diante do jovem e parecem com uma dimensão maior do que realmente tem. A figura desses pais maravilhosos, o pai ideal, aos poucos vai sendo destronada desse lugar. Tal como a estátua do rei Nabucodonosor, ela vai ruir por ter os pés de barro ao ser atingida por uma pedra e derrubada e lançando os envolvidos no drama humano numa situação de perda e consequentemente de luto (DANIEL cap. 2, Vers. 31-35).
Esse luto começa a se instalar no seio da família e atinge principalmente os pais, pois estes também passam a fazer um importante trabalho de luto. O adolescente deseja inscrever o seu nome próprio, mas como ainda não lhe é
conferido o poder de decisão e é impossibilitado de dar conta de tudo, ele passa por um processo de castração e a castração limita e ordena o sujeito, não há mais garantias por parte do Outro, ao outro falta. Este momento de luto não é apenas um período cronológico, mas é um processo com o qual o sujeito se defronta com coisas que estão fora do seu alcance e de controle da situação. O adolescente precisa aprender a abandonar os antigos padrões de relacionamento e desenvolver novas formas de relacionar-se, de vincular-se ao outro.
A relação de dependência infantil é abandonada gradualmente com bastante dificuldade. A impotência de lidar com as mudanças físicas, o sofrimento da perda da identidade e papel infantis, em luta com a nova identidade e as expectativas sociais que desperta, levam o adolescente a um processo de negação destas mudanças que estão ocorrendo simultaneamente na figura e na imagem dos pais e no vinculo com os mesmos. E os pais precisam elaborar essa perda. Isto dá lugar à interação de um duplo luto. O adolescente espera não apenas pais protetores e controladores, os pais, por sua vez, terão de se adaptar a esta nova reivindicação por parte do filho, do contrário grandes conflitos serão gerados de ambas as partes, podendo até haver uma ruptura, um afastamento, um estado de solidão (ABERASTURY, 1990, p. 117, 118).
3.2 O LUTO PELA PERDA DO CORPO INFANTIL
É muito marcante a perda do corpo infantil e a transformação do corpo adolescente. Várias mudanças ocorrem nesse corpo, num primeiro momento ao se deparar com o seu próprio corpo, este lhe causa estranheza, e isto pode ter várias consequências, podendo aceitá-lo ou rejeitá-lo.
O adolescente começa a descobrir que o seu corpo é alvo do desejo do outro e que ele também deseja outros objetos de amor. De acordo com a visão freudiana o desenvolvimento psicossexual inicia pelos estágios pré-genitais, começando pelo estágio oral, a principal fonte de prazer se dá pela boca, comer, engolir, cuspir, morder, mastigar, etc.
O segundo estágio é o anal. Neste reter e expulsar geram traços e valores específicos. Dependendo de como a mãe tratar a criança nesta fase a criança
poderá se tornar criativa e produtiva, do contrário se tornará inibida. O estágio anal é seguido pelo estágio fálico quando os órgãos genitais se tornam as áreas mais importantes. Aí aparecem os desejos sexuais, os prazeres da masturbação e a vida de fantasia. A atividade autoerótica, monta o cenário para o aparecimento do complexo de Édipo que Freud considerou uma das suas maiores descobertas. (CAMPELL, 2000, p. 66).
Após a fase fálica, a criança ingressa no período de latência. Este ocorre geralmente entre os cinco e doze anos aproximadamente. Na latência ocorre o recalcamento dos desejos incestuosos próprios do conflito edipiano e a criança investe sua energia psíquica em atividades sociais e intelectuais. Assim, geralmente é um período de relativa calma e tranquilidade psíquica na qual a criança pode se ocupar de aprendizagens escolares, brincadeiras com amigos, atividades artísticas e esportivas, etc... Na adolescência a sexualidade recalcada novamente se faz presente e questões conflitivas relativas ao conflito edipiano vão ser retomadas.
O adolescente ao se deparar com a nova imagem do corpo transformado, sente muita angústia e mal estar, pois a imagem que já foi simbolizada pelo psiquismo, agora diante do espelho a vê transformada. Nesse momento de sofrimento, ao se deparar com o novo corpo, nova imagem, é preciso que o adolescente encontre onde ecoar a onipotência do seu narcisismo e “o seu avesso de tristeza, luto e solidão” (CAMPEL, 2001, p.75).
O adolescente se descobre num novo corpo, que funciona como receptáculo. E esse corpo pode falar através de marcas, como piercings e tatuagens, ou da própria linguagem sobre a angústia e mal estar que as transformações que acontecem em seu corpo e em seu psiquismo lhe causam. O adolescente pode então se alienar a sociedade de consumo, pois esta oferece ao sujeito imagens como modelos ideais de eu, ao invés do “ser é o de ter”.
Quando o adolescente não consegue lidar de forma normal com as transformações que acontecem no corpo Rassial (1999, p.17) ressalta que a puberdade fisiológica perturba a imagem do corpo construída na infância. E para lidar com esse mal estar, esse “ser estranho”, o sujeito encontra saídas como a depressão, suicídio, marcas no corpo, fazendo sintomas como anorexia, bulimia, entre outras. As mudanças corporais obrigam também o adolescente a reformular seu “esquema corporal”, reformula a imagem do seu próprio corpo, à medida que perde o corpo infantil e consegue um novo corpo.
Na adolescência a definição sexual deverá efetuar-se no plano psicológico. A identidade adulta alicerçada em responsabilidade e autoconhecimento, só poderá surgir a partir da aceitação do próprio corpo com todas as transformações próprias dessa fase evolutiva (...) (ABERASTURY e KNOBEL, 1992, p.40).
Durante a puberdade e na adolescência já estabelecida, acontecem importantes fatos biológicos, como a mudança corporal, as modificações de atitudes físicas e do manejo do corpo, que não poucas vezes levam a vagaroso processo de autoconhecimento. Quem sou eu? É a pergunta que muitas vezes é formulada pelo adolescente. Entretanto, terá de aguardar a resposta. Ela chegará quando a adolescência se transformar em “juventude” e “adultícia jovem” e pela elaboração dos lutos (Ibid, p. 42). A adolescência é processo e desenvolvimento.
O adolescente passa por desequilíbrios e instabilidades extremas, que pode ser perturbadora para adultos, mas necessária para o adolescente que neste processo vai estabelecer a sua identidade. Para isso precisa enfrentar o mundo dos adultos, desprender-se do seu mundo infantil, no qual vivia cômoda e prazerosamente.
A necessidade de elaborar lutos obriga o adolescente a recorrer normalmente
a manejos psicóticos1 de atuação, que identificam a sua conduta (ABERASTURI e
KNOBEL, 1992, p.1).
Sobre a perda do corpo infantil, Aberastury comenta que as mudanças em que o adolescente vai perdendo a sua identidade de criança, implicam em uma nova busca de identidade que vai se construindo num plano consciente e inconsciente. O mundo interno é construído com as imagens paternas, estas imagens formam uma ligação que será como uma ponte que dará passagem para chegar às novas escolhas. Aí o adolescente vai se modificando lentamente e nenhuma pressa interna ou externa favorece este trabalho. O adolescente terá perdas que ele deverá aceitar ou não, pois está fazendo luto por uma dupla perda: a perda do seu corpo de criança e o abandono da fantasia do duplo sexo, na medida em que na moça se manifesta a menstruação e no rapaz a produção do sêmen.
A elaboração do luto nesta fase conduz a aceitação do papel que a puberdade lhe destina. Durante o trabalho do luto surgem defesas cuja finalidade é
1
Psicótico está relacionado com alucinações, delírios, mudanças, pensamento confuso e sérias dificuldades de relacionamento social.
negar a perda da infância. O luto frente ao crescimento implica o ego e o mundo externo e os desníveis entre o crescimento do corpo e a aceitação psicológica desse fato. A implicação é maior quando o corpo muda rapidamente, sofre a angustia de um ser invadido. Quando o adolescente adquire uma identidade, aceita o seu corpo, decide habitá-lo, enfrenta-se com o mundo e usa-o de acordo com o seu sexo.
O adolescente é um ser humano que quebra em grande parte as suas conexões com o mundo externo, não porque esteja doente, mas porque uma das manifestações da sua crise de crescimento é o afastamento do mundo externo para se refugiar num mundo interno que lhe é seguro e conhecido. É uma necessidade que o adolescente tem de estar só e se desdobrar em seu mundo interno, é um tempo de recolhimento necessário para depois agir no mundo exterior, o adolescente passa a pensar e falar muito mais do que agir. Melaine Klein aponta para esta dificuldade que é de falar e não ser compreendido em seu meio, este sujeito terá de aprender a adaptar-se a realidade do meio em que vive (ABERASTURY e KNOBEL, 1992, p. 63 – 70).
Em virtude das modificações biológicas características da adolescência, o indivíduo, nesta etapa do desenvolvimento, vê-se obrigado a assistir passivamente a toda uma série de modificações que se realizam na sua própria estrutura, criando um sentimento de impotência frente a sua realidade concreta, que o leva a deslocar a sua rebeldia em direção a esfera do pensamento. Este se caracteriza então, por uma tendência ao manejo onipotente das ideias frente ao fracasso do manejo da realidade externa. Vive ainda com uma mente infantil, mesmo tendo um corpo adulto. Lentamente vai negando o seu corpo infantil, elaborando a perda e aceitando a sua nova personalidade (ibid, 1992, p. 80, 81).
No adolescente normal as manifestações acontecem em busca de novos símbolos, ideias e desejos, o que o leva a atuar como um puro ser pensante. Dessa maneira, o adolescente nega, temporariamente, a perda do seu corpo infantil, e mesmo flutuantemente se relaciona com pais, a família, o mundo real que o rodeia e do qual depende. Aos poucos vai elaborando a perda e começa a aceitar a sua nova personalidade.
Ninguém melhor que o adolescente para poder contribuir para as mudanças sociais positivas. Mas o adolescente pode passar por momentos que para nós podem parecer complicados, principalmente e neste caso a parte psicótica é a que
pode predominar sobre a não psicótica2, alguns adolescentes podem começar a realizar papéis fantasiados, sentindo-os como se fossem reais. É aí que pode aparecer o fenômeno do impostor ou o se eu fosse você.
Falsas personalidades parecem apoderar-se do adolescente.
(ABERASTURY, 1990, p. 114, 115). A flutuação entre a infância e a adolescência é dolorosa, os adolescentes quereriam ser adulto de súbito ou não crescer nunca. Também para os pais este é um processo conflitivo, podem acontecer erros neste apressado desejo de empurrar ou deter fomentar ou reprimir com brutalidade os progressos do adolescente. É um drama na vida do adolescente que por um lado deve submeter-se a uma disciplina, escolar ou doméstica, e, por outro, quer participar ativamente na vida do adulto, e para tal necessita de liberdade (ibid, p. 26).
3.3 O LUTO PELA PERDA DA BISSEXUALIDADE
Nesta altura do trabalho sobre os três lutos, faz-se necessário recordar que durante a infância a relação de dependência é a situação lógica e natural do indivíduo. A criança aceita a sua impotência e que outros assumam certos aspectos de suas funções egóicas, que lhe vão permitir identificações e o aumento da modelagem de sua personalidade, mas durante o processo adolescente surge confusão nesses papéis, não é adulto nem criança, o que o leva a sofrer fracassos na personalização.
Assim é possível explicar a típica irresponsabilidade do adolescente. Ele não sente responsabilidade por nenhum dos acontecimentos. A responsabilidade está sempre sobre os outros que tem a função de verificar os acontecimentos. É uma característica que acontece na adolescência, descrita por alguns como falta de caráter, quando o ser humano é despersonificado e tratado como objeto de suas satisfações imediatas. Esse desprezo e desconsideração para com as coisas do mundo externo real faz com que as relações objetais do adolescente sejam muito intensas, mas ao mesmo tempo muito frágeis, vivenciando instabilidade emocional e
2
absoluta indiferença. O adolescente procura negar o luto recorrendo a atuações motoras.
O adolescente passa a buscar a sua turma, o seu grupo, compartilhando conduta, responsabilidade e até culpa, tentando evitar responsabilidades pessoais, atribuindo os acontecimentos ao grupo.
Normalmente, o adolescente aceita gradualmente a perda de seu corpo e seu papel infantil, assim como modifica a imagem de seus pais de infância, substituindo-os pela imagem de seus pais atuais (ABERASTURY, 1992, p. 115-117).
Freud em seu artigo, “As Transformações da Puberdade” menciona que as mudanças que se introduzem na adolescência, levam a vida sexual infantil a sua configuração normal definitiva. Até esse momento a pulsão sexual era predominante autoerótica, agora encontra objeto sexual, até então as pulsões sexuais eram independentes e distintas umas das outras, o prazer era um alvo sexual exclusivo, agora surge um novo alvo sexual. E este novo alvo sexual atribui aos dois sexos funções muito diferentes, agora o desenvolvimento sexual passa a divergir muito entre homem e mulher. O novo alvo sexual do homem consiste na descarga de serviços sexuais da função reprodutora, em suas particularidades e pulsões (Freud, 1905, p. 196).
O pai da psicanálise neste ponto da tensão sexual lança seu olhar sobre as zonas erógenas e como elas se encaixam na nova ordem. O olho pode ser o ponto mais afastado do objeto sexual, mas é o órgão mais frequente na estimulação e cortejo do objeto sexual. Outro objeto estimulador do desejo sexual é a mão que quando tocada se intensifica e é preparada para o outro. São diversos os contatos que provocam sensações prazerosas no parceiro ou aquele que é objeto de desejo. (ibid, p. 198).
Quando Freud comenta sobre a teoria da libido, que segundo explicações de autores significa Liebe do = ama aqui, estabelece a libido como uma força quantitativa e variável que pode medir os processos e as transformações, que ocorrem no âmbito da excitação sexual, ela também seria de caráter qualitativo, por ser a energia libidinosa diferente das outras formas de energia psíquica. Mas segundo esta teoria não dá para estabelecer uma distinção imediata entre a libido e as outras formas de energia que operam no ego, e complementa afirmando o que C.G.Jung observou psicanaliticamente, dissolve-se o próprio conceito de libido ao
equacioná-lo com a força pulsional psíquica em geral. A libido seria uma química particular da função sexual (ibid p. 206, 207).
O adolescente vai se familiarizando com o seu novo corpo mudado, transformado, ele assume uma nova personalidade e experimenta novas relações com ambos os sexos. O seu comportamento e preparação asseguram que a fascinação e o desejo são normais e o adolescente passa a desenvolver o seu papel sexual (CAJADO, 1968, p. 93).
À proporção que o adolescente se torna mais independente, passa a se enredar mais na sociedade, vai à busca do emprego, começa a se interessar na politica e até assume trabalhos voluntários. Fatores estes que passam a influenciar na sua vida, tais como seus modos, aparência e até estilo de vestuário e costumes. (ibid, p. 95).
O adolescente busca o seu direito próprio, atingir o estado adulto, dizer e fazer coisas sérias. Também gosta de viver o presente, o imediato. Apesar das tensões da adolescência, a quase totalidade dos jovens acaba fazendo um ajustamento adequado, se envolve, é capaz de exercer uma profissão, e assumir compromissos com a sociedade.
A cada momento convivido o adolescente vai compreendendo e aceitando o fato de que a independência está realmente ao seu alcance. A “perda” da bissexualidade é mais real do que psicológica. Começa a abandonar também a preocupação com a própria personalidade, anteriormente conflitante. Passa a ter um idealismo; zela, sacrifica, atua ardentemente desejando alcançar uma meta definida, um rumo norteador.
COSIDERAÇÕES FINAIS
Ao concluir esta monografia retrocedemos evocando o tema que nos motivou a pesquisa “A Crise da Adolescência”. Não podemos deixar de mencionar o que nos levou a desenvolver os aspectos que ampliaram o nosso conhecimento a respeito da adolescência e suas expectativas em relação à sociedade, aos pais e a aceitação de si mesmo, a influência da cultura, a moratória imposta pelos adultos, os lutos que representam momentos fundamentais na sua vida.
Ao desenvolver esta pesquisa procuramos seguir os pensamentos que os autores nos legaram, consultamos livros, obras literárias, tudo o que trouxeram informação a respeito do adolescente, suas relações nos meios em que vive e aquilo que pode lhe causar influência. Surgiram dificuldades quanto a relacionar os textos, parecia um quebra cabeça, um jogo de montar, até parecia faltar alguma peça, procuramos, refizemos, recebemos correções, aos poucos uma a uma de suas peças foram se encaixando. Outro ponto delicado é saber interpretar o pensamento dos autores das obras lidas. Ler, reler, refletir e porque não dizer: ler muitas vezes até conceber um pensamento para poder transcrever as frases no texto. Desempenho, reflexão, interpretação e muita atenção a cada conceito apresentado.
Com tudo que pesquisamos foi possível entender um pouco mais do relacionamento adolescente e adulto e tudo o que permeia os pensamentos das duas gerações. Também sentimos os anseios que envolvem o jovem no seu cotidiano, suas questões em relação ao adulto, ao namoro e sua expectativa futura. Verificamos que o subjetivo, algo armazenado no intimo, no inconsciente do sujeito e quando começa a fluir, vir à tona, pode gerar conflitos.
Acreditamos que este trabalho abre uma janela das inúmeras que existem no universo da literatura. Mas não é um fechamento, ou completo, ainda cabem outras contribuições e colaborações de autores, pois o tema trabalhado “A Crise da Adolescência” deixa aberto para outros assuntos importantes tais como: O Adolescente e as Drogas, O Adolescente e o Alcoolismo, O Adolescente e a Prostituição, O Adolescente e a Criminalidade, etc.
Entendemos que o assunto que foi trabalhado traz uma boa contribuição para quem deseja conhecer um pouco do que está implícito na vida de nossos adolescentes e aqueles que lhes acompanham no percurso de seu desenvolvimento. O que foi trabalhado é um assunto que está em pauta na atualidade e à medida que construirmos nosso conhecimento poderemos trazer novas contribuições.
Trabalhando os temas de cada capítulo, podemos apresentar sinteticamente o pensamento de cada autor incluído nesta pesquisa. No capítulo Adolescência e cultura, o Comitê sobre Adolescência nos lembra de que a sociedade cria todo um universo de leis, regras, valores e tradições e todas de maneira padronizadas e aceitas pela sociedade no universo cultural, e que o adolescente embora explicitamente, está inserido neste processo social, e neste processo atinge um vasto campo de maturação social, psicológica e emocional. O adolescente passa por diferentes etapas de desenvolvimento dentro do campo no qual está inserido, porque as transformações humanas ocorrem sempre dentro de uma cultura particular, e a adolescência só se torna plenamente inteligível através da tomada de consciência e compreensão da cultura que a cerca.
No segundo capítulo, sobre a moratória Calligares exemplifica o que acontece com o sujeito no período adolescente. Ele é comparado a um estranho que terá de se adaptar a uma tribo estranha, o que vai gerar muitos conflitos na vida do jovem, principalmente o fato de etapas de desenvolvimento e interação serem prorrogadas, planos adiados, responsabilidade protelada, sem ser reconhecido nas suas escolhas e desejos, sem direito de autonomia. Parece que o jovem vai desaparecendo, ele não se faz presente, ele nunca está no lugar esperado. Calligares constata que a adolescência é uma fase muito linda, pois os adultos parecem querer se tornar como eles em suas formas de pensar e agir, quando se relacionam com os adolescentes.
Aberastury trabalha as três teorias do luto adolescente e em cada uma delas o adolescente precisa desfazer, romper, passar por processos de transformação e aprender a buscar novos objetos, relacionar-se com os adultos, isto é um processo muitas vezes lento. Estas teorias estão voltadas ao corpo, ao psíquico e associadas às influencias do meio em que vive. Aos poucos o adolescente vai sendo moldado, vai se estruturando, formando seu próprio ideal, realizando alguns de seus sonhos, e
também descobrindo outras formas de convivências. Normalmente, o adolescente aceita gradualmente a perda de seus pais, de seu corpo e seu papel infantil, modificando a imagem de seus pais da infância, substituindo-os pela imagem de seus pais atuais e a sua própria imagem vai se adaptando e o luto vai sendo superado.
REFERÊNCIAS
ABERASTURY, Arminda et al. Adolescência. 6. Ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
ABERASTURY Arminda, KNOBEL Mauricio (col). Adolescência Normal. 10. Ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.
ALBERTI, Sonia. O Adolescente e o Outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Adolescência entre o Passado e o Futuro. Porto Alegre: Artes oficiais, 1999.
Livro Adolescência. Porto Alegre: Artes oficiais 1995. Bíblia Sagrada. Daniel, Capítulo 2 Versículos 31-35.
BOCK Ana, FURTADO Odair, TEIXEIRA Maria. Psicologias: Uma Introdução ao Estudo de Psicologia. São Paulo: Saraiva, 2001.
CALLIGARES Contardo. A Adolescência. 2. ed. São Paulo: Publifolha 2009.
Comitê Adolescência, grupo psiquiatria E.U.A. Dinâmica da adolescência. São Paulo: Cultrix, 1968.
CAHN, Raymond. O Adolescente na Psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.
CORSO, Mario. Adolescente Entre o Passado e o Futuro. Porto Alegre: Artes oficiais, 1999.
FREUD, Siegmund. Luto e Melancolia. Traduzido das Edições Alemãs. Standart 1995.
NOGUEIRA, Ana Maria S.G. C. Portal Ciência e Vida - Latência Editora, Escala, edição n* 82, 2012.
RASSIAL, Jean Jaques. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997.
RAPPAPORT, Clara Regina et al. Adolescência: Abordagem Psicanalítica. São Paulo:Pedagógica e Universitária, 1993.