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Algumas considerações sobre o tráfico de pessoas para fins de exploração sexual

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Academic year: 2021

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UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

LUANA REGINA BOTH

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O TRÁFICO DE PESSOAS PARA FINS DE EXPLORAÇÃO SEXUAL

Santa Rosa (RS) 2014

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LUANA REGINA BOTH

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O TRÁFICO DE PESSOAS PARA FINS DE EXPLORAÇÃO SEXUAL

Monografia final do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Monografia.

UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

DECJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais

Orientador (a): MSc. Lurdes Aparecida Grossmann

Santa Rosa (RS) 2014

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Dedico este trabalho a minha família que sempre se manteve presente me dando apoio e incentivo.

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AGRADECIMENTO

Agradeço inicialmente a Deus, a minha orientadora, professora MSc. Lurdes Aparecida Grossmann pela dedicação e colaboração neste trabalho, assim como aos demais professores que ao longo do curso contribuíram para realização desta caminhada. Aos meus colegas e amigos com os quais compartilhei muitos momentos inesquecíveis. A minha família por todo apoio.

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“Cada coisa tem o seu valor; ser humano, porém tem dignidade” (IMMANUEL KANT).

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RESUMO

O tráfico de pessoas não é uma prática nova, na realidade ocorre há séculos, no entanto nos últimos anos, este assunto tem se tornado um problema de dimensões cada vez maiores. É um crime que desconhece fronteiras, ocorrendo nos mais diferentes países, mas principalmente naqueles onde as dificuldades econômicas são mais presentes. Este delito é realizado com diferentes propósitos, sendo que neste estudo será abordado sob a ótica da exploração para fins sexuais. Tem-se como objetivo principal analisar as medidas e dispositivos legais, preventivos e repressivos, que visam conter o progressivo aumento dos crimes de tráfico de pessoas para fim de exploração sexual, previstos no Código Penal. Especificamente, objetiva-se verificar quais direitos são atingidos pelo crime de tráfico de pessoas e examinar o art. 231 do Código Penal e as suas alterações, que tipifica o crime de tráfico internacional de pessoas no país. Em um primeiro momento, o trabalho apresenta a evolução histórica do tráfico de pessoas, apresentando as características do crime e o perfil da vítima. Após, é abordado sobre como este crime é tratado no direito comparado, faz-se ainda uma análise do tipo penal do artigo 231 do CP e suas alterações, e por fim se faz uma análise jurisprudencial do tema. Para tanto, desenvolveu-se um estudo exploratório, que utilizou no seu delineamento a coleta de dados em fontes bibliográficas disponíveis em meios físicos e na rede de computadores, sendo que na sua realização foi usado o método de abordagem hipotético-dedutivo.

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ABSTRACT

Human trafficking is not a new practice actually occurs for centuries, but in recent years, this issue has become a problem of ever larger. It is a crime that knows no borders, occurring in many different countries, but especially in those where economic difficulties are more present. This offense is done for different purposes, and in this study will be approached from the perspective of exploitation for sexual purposes. Has as main objective to analyze the measures and legal, preventive and repressive provisions that aim to curb the progressive increase in crimes of trafficking for purposes of sexual exploitation, provided the Penal Code. Specifically, the objective is to ascertain what rights are affected by the crime of trafficking in persons and examine the art. 231 of the Penal Code and its amendments, which typifies the international crime of human trafficking in the country. At first, the paper presents the historical evolution of human trafficking, showing the characteristics of the crime and the victim profile. Following is approached about this crime is treated in comparative law, it still makes an analysis of the criminal type of article 231 of the Penal Code, as amended, and finally it makes a jurisprudential analysis of the subject. To this end, we developed an exploratory study, which used in design to collect data in literature sources available on physical media and computer network, and its realization method was used hypothetical-deductive approach.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 08

1 A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO TRÁFICO DE PESSOAS: CARACTERÍSTICAS DO CRIME E PERFIL DA VÍTIMA ... 10

1.1 A evolução histórica do crime de tráfico de pessoas ... 10

1.2 Características do crime e perfil das vítimas ... 16

2 O TRÁFICO DE PESSOAS NO DIREITO COMPARADO E NO DIREITO BRASILEIRO ... 25

2.1 O tráfico de pessoas no direito comparado ... 25

2.2 Análise do tipo penal do artigo 231 do CP e suas alterações ... 33

2.3 Análise jurisprudencial do tema ... 41

CONCLUSÃO ... 48

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INTRODUÇÃO

O tráfico de pessoas não é uma novidade do mundo moderno, ao contrário, pode ser constatado ao longo de toda a história da humanidade, apesar disso, nos últimos anos é que tem assumido dimensões maiores, tornando-se foco de muitas discussões a nível internacional, onde autoridades e governantes de diferentes países buscam encontrar alternativas eficazes para combater este problema.

O tráfico de pessoas é um delito que tem diferentes propósitos, assim, o presente estudo aborda esta prática especificamente sob a ótica da exploração para fins sexuais. Sob este prisma, o crime de tráfico internacional de pessoas objetiva a promoção e facilitação da entrada e saída de pessoas do país com a finalidade de praticar a prostituição, de modo que o crime incorre tanto para aquele que facilita como para o que promove e contata a pessoa para este fim.

As vítimas do tráfico de pessoas são em sua maioria provenientes de países com economias em desenvolvimento, que em função da instabilidade e grande vulnerabilidade econômica, tornam mais fácil o recrutamento das vítimas que muitas vezes são iludidas, acreditando em ofertas de melhores empregos e melhora de vida, caindo assim numa rede de armadilhas, às vezes ficando reféns de seus aliciadores.

O tráfico de pessoas teve seu início ainda na Antiguidade, mas, sobretudo no último século tornou-se um problema de discussão mundial, visto que agride diretamente os direitos mais importantes da pessoa humana. Trata-se de um crime que representa uma afronta ao Estado democrático de direito, sendo inclusive considerado como uma nova forma de escravidão.

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No final do século XX, com a globalização e ampliação de mercados internacionais, o crime organizado passou a ter características de grandes empresas multinacionais, explorando todos os recursos que a mundialização e as novas tecnologias trouxeram. Dentre as diversas atividades desenvolvidas pelo crime organizado, tem se destacado a mercantilização de seres humanos, por meio do tráfico internacional de pessoas, isso em função do crescimento na circulação de pessoas, além do aumento na facilidade de movimentação do fluxo de capitais.

A presente monografia tem como objetivo principal analisar as medidas e dispositivos legais, preventivos e repressivos, que visam conter o progressivo aumento dos crimes de tráfico de pessoas para fim de exploração sexual, previstos no Código Penal.

Está dividida em dois capítulos, sendo que o primeiro apresenta a evolução histórica do tráfico de pessoas, as características do crime e o perfil da vítima. No capítulo dois se traz uma análise de como o crime de tráfico de pessoas é tratado no direito comparado, em seguida é realizado o exame do tipo penal do artigo 231 do CP e suas alterações, e, por fim, realiza-se uma abordagem jurisprudencial do tema.

O estudo é do tipo exploratório, pois utilizou-se no seu delineamento a coleta de dados em fontes bibliográficas disponíveis em meios físicos e na rede de computadores, sendo que na sua realização foi usado o método de abordagem hipotético-dedutivo.

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1 A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO TRÁFICO DE PESSOAS: CARACTERÍSTICAS DO CRIME E PERFIL DA VÍTIMA

O tráfico internacional de pessoas com a finalidade de exploração sexual no modo como é conhecido e praticado atualmente ainda é bastante recente, no entanto desde os tempos de Colônia, o Brasil sofre com este mal, apesar de na época apresentar outros contornos. Deste modo, cabe aqui discorrer brevemente sobre a evolução histórica desta prática.

1.1 A evolução histórica do crime de tráfico de pessoas

Historicamente sabe-se que muitas civilizações usavam e dependiam do trabalho escravo para a execução das mais variadas tarefas, como por exemplo, as civilizações antigas do Egito, Grécia e Roma (RODRIGUES, 2013).

Damásio de Jesus (2003, p. 71) afirma: “O tráfico de seres humanos faz parte da nossa história.” Mesmo estando presente na história da humanidade, destinado as mais variadas funções, é na era moderna que esse tipo de tráfico transformou-se em uma operação mercantil, em função do desenvolvimento do sistema capitalista de produção, onde tudo se transforma em mercadoria. Neste sentido, Mariane Strake Bonjovani (2004) explica que o tráfico de seres humanos passou a ter lucro em cidades italianas entre os séculos XIV e XVII, durante o renascimento e que estimulou o comércio e o capitalismo, que se iniciava.

Já na era contemporânea o tráfico de pessoas assumiu maior sofisticação e mais modalidades, passando a ser não só uma atividade de cunho criminoso, mas, sobretudo, alimentando atividades ilícitas, como adoção ilegal de crianças e adolescentes, trabalho escravo, turismo sexual, envolvendo assim, pessoas de diferentes níveis sociais, econômicos e culturais, vítimas de todas as idades e de todos os lugares (GOLDMAN, 2009, Apresentação).

Shecaria e Silveira (2006) indicam que a referência histórica mais antiga sobre tráfico de pessoas é a relacionada ao tráfico negreiro, sendo que o Brasil colônia foi o último país da América a abolir a escravidão.

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Sobre o tráfico de pessoas para a finalidade de escravidão, Bonjovani afirma que “historicamente, o tráfico de seres humanos teve início na Antiguidade Clássica, na Grécia e, posteriormente, em Roma” (BONJOVANI, 2004, p. 17), naquele período da História os prisioneiros de guerra eram transformados em escravos. Ou seja, os povos vencidos eram escravizados por seus conquistadores.

Verifica-se que no início do século XIX os ingleses já não tinham mais interesse na mão-de-obra escrava, isso porque sua visão estava voltada para a América do Sul como um crescente mercado consumidor. Neste período, Portugal liderava tanto o tráfico quanto o comércio de escravos, situação esta que levou a coroa Inglesa a pressionar cada vez mais o país, objetivando extinguir esta prática. Destaca-se que os ingleses a partir de 1º de março de 1807 passaram a considerar o tráfico negreiro como uma prática ilegal, sendo que um ano depois, em 1º de março de 1808, assumiu a condição de crime contra humanidade (SHECARIA; SILVEIRA, 2006).

Ao ser tratado como crime, os países que o praticavam começaram a elaborar medidas contra esta prática.

Portugal e sua colônia, no caso o Brasil, passaram a ser alvo de inúmeras medidas que procuravam acabar com tráfico e o trabalho escravo. Uma dessas medidas foi no sentido dos ingleses forçarem Portugal a aceitar um tratado de “Cooperação e Amizade”, em 1810, o qual abordava exatamente a questão da escravidão. Ocorre que os Ingleses não tiveram sucesso, e os resultados ficaram aquém do esperado, o que levou a uma nova pressão inglesa, que resultou na aprovação de uma lei brasileira contra o tráfico em 7 de novembro de 1831, a qual ficou conhecida como lei de Diogo Feijó. Essa lei ratificava a extinção de tráfico de escravos e determinando em seu art. 1º, que “todos os escravos, que entrarem no território ou nos portos do Brasil, vindos de fora, ficam livres” (BONJOVANI, 2004).

Apesar disso, essa disposição normativa não alcançou êxito, e mesmo com as normas proibitivas que previam sanções criminais a quem infringisse a lei, grandes quantidades de escravos continuaram a vir da África até 1855. Ocorre que verdadeiro objetivo dessa lei era de dar uma explicação internacional, principalmente

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para a Inglaterra, e não erradicar de fato o tráfico de pessoas.

Novamente em função da intensa pressão inglesa em face do “Bill Aberdeen”1, foi aprovada uma outra norma brasileira contra o tráfico; a “Lei Eusébio de Queiroz”. Esta lei dava plenos poderes para que fosse apreendida qualquer embarcação, tanto brasileira quanto estrangeira, que tivesse transportando escravos, ou ainda que indicasse terem se destinado ao tráfico de escravos (art. 1º). Essa repressão ao tráfico negreiro continuou acontecendo, e em 05 de junho de 1854 foi aprovada uma terceira lei, a qual dava ainda mais poderes contra os importadores de escravos da África. Assim, com toda essa repressão, o último desembarque de escravos no Brasil data de 13 de outubro de 1855 (BONJOVANI, 2004).

Damásio de Jesus (2003) entende que o tráfico de seres humanos está diretamente ligado a história brasileira, isso porque ao longo de 300 anos, milhões de pessoas foram trazidas em navios negreiros para desempenharem principalmente funções no trabalho agrícola, que por vezes se estendia aos trabalhos domésticos, e ainda à exploração sexual como também exploração e violações físicas.

Neste sentido, Rodrigues (2013) explica que mesmo que a prostituição não fosse “o intuito primeiro do tráfico de negros, aqui chegando muitas negras foram exploradas sexualmente por seus senhores e também obrigadas a se prostituir” (RODRIGUES, 2013, p. 59).

No final do século XVIII e início do século XIX, com o término da escravidão, o fluxo de pessoas que vinham da Europa para o Brasil, tornou-se intenso e contínuo. Foram milhares de pessoas que vieram da Europa para países do Novo Mundo, esperando encontrar oportunidades e condições de vida melhores, com mais abundância e livres das perseguições que sofriam em seus países de origem (BONJOVANI, 2004).

1

Lei Unilateral da Coroa Inglesa que autorizava qualquer nação a reprimir o tráfico de escravo, por ser entendido como crime que fere os direitos das gentes, equivalente à pirataria (BONJOVANI, 2004).

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Com a vinda dos europeus surgiu uma nova espécie de tráfico: o tráfico de mulheres brancas, ou seja, eram mulheres das mais diversas idades que eram trazidas de países Europeus para serem exploradas sexualmente.

Sobre este aspecto, Rodrigues (2013, p. 59) informa que “a partir do final do século XIX, já abolida a escravidão de negros, a preocupação passa a ser com o tráfico de escravas brancas para fins de exploração sexual.” E segue:

Das últimas décadas do século XIX às primeiras décadas do século XX, Buenos Aires e Rio de Janeiro foram as capitais do tráfico internacional de mulheres na América do Sul e constituíam a porta de entrada para as demais cidades do continente (RODRIGUES, 2013, p. 60).

A exploração sexual de mulheres não era uma atividade nova durante o século XIX e início do século XX, porém neste período passou ter uma caracterização diferente, pois com o avanço do capitalismo e da expansão europeia, a vida urbana acabou assumindo novos contornos, sobretudo no que se refere ao processo de europeização do mundo, que trouxe consigo a mulher como um produto de exportação da Europa para os demais continentes (RODRIGUES, 2013).

No caso do Brasil, Rodrigues (2013) traz dados estatísticos levantados do período de 1914, em São Paulo, por Guido Fonseca (1982) que expressam uma grande quantidade de mulheres de nacionalidades como Rússia, França e Polônia, o que indica claramente a ação do tráfico, já que era bastante incomum a imigração desses povos para o Brasil.

O crescente movimento de tráfico internacional de mulheres visando a prostituição obrigaram os Estados a se reunir, para debater a questão e assim, elaborar acordos internacionais, visando prevenir e punir esse crime. A evolução desses debates e ações está expressa no quadro a seguir:

Quadro 01: Evolução da Legislação Internacional

Período Ação

1885 Debates no Congresso Penitenciário de Paris

1899 Congresso Internacional sobre o Tráfico de Escravas Brancas 1902 Conferência de Paris, com a participação do Brasil

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Mulheres Brancas, promulgado no Brasil pelo Decreto n. 5.591 de 13/07/1905

1910 Assinada a Convenção Internacional relativa à Repressão do Tráfico de Escravas Brancas, promulgado no Brasil pelo Decreto n. 4.756 de 28/11/1923 e pelo Decreto n. 16.572 de 27/08/1924

1921 Assinada a Convenção Internacional para a Repressão do Tráfico de Mulheres e Crianças, promulgada no Brasil pelo Decreto n. 23.812 de 30/01/1934

1933 Firmou-se o novo documento, a Convenção Internacional relativa à Repressão do Tráfico de Mulheres Maiores (a última sob o patrocínio da Liga das Nações), promulgada no Brasil pelo Decreto n. 2.954 de 10/08/1938

1950 Assinada Convenção para a Repressão do Tráfico de Pessoas e do Lenocínio (sob a égipe da ONU), promulgada no Brasil pelo Decreto n. 46.981 de 08/10/1959

2000 Aprovado o Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em especial Mulheres e Crianças, promulgado no Brasil pelo Decreto n. 5.017 de 12/03/2004

Fonte: Baseado em Rodrigues (2013, p. 61-62).

Considerando estes acordos e convenções internacionais, observa-se que a questão estava atraindo a atenção de toda a comunidade internacional, além de que, outros tantos tratados internacionais foram firmados com o mesmo objetivo, comprovando que o tráfico era (e ainda é) um problema de difícil solução.

Ocorre que este panorama foi se modificando, neste sentido, Rodrigues (2013) destaca que no século XX houve uma inversão dos fluxos migratórios, isso porque no início do século XX a preocupação estava voltada para o tráfico de europeias que eram trazidas para a prostituição nas capitais sul-americanas, enquanto que no final do século XX se verifica uma mudança nesse padrão, pois “o que se vê são países pobres e subdesenvolvidos como fornecedores de pessoas para a exploração sexual em nações ricas, especialmente para o mercado europeu-ocidental.” (RODRIGUES, 2013, p. 63).

O tráfico de pessoas para fins sexuais se origina nos países mais pobres e menos desenvolvidos e se destina aos países ricos. Considerando o caso brasileiro, observa-se no final do século XIX e início do século XX, a migração de mulheres e meninas que vinham da Europa para o Brasil, situação esta que se modificou ao longo dos anos, de modo que, atualmente, o que acontece é a migração de

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mulheres latinas para o Brasil, além da mobilidade de mulheres e meninas brasileiras de cidades do interior para as cidades de médio e grande porte, assim como para as fronteiras; e também a ida de mulheres brasileiras para a Europa para fins de trabalho sexual, as quais são submetidas a uma séria de violências e também a cárcere privado, constituindo-se, em muitos casos, em tráfico (JESUS, 2003).

Conforme expresso nos parágrafos acima, no início, Brasil e Argentina eram países receptores do tráfico internacional de mulheres para fins de exploração sexual, no entanto este panorama vai se transformando ao longo do século XX, até que, a partir dos anos 1970, países desenvolvidos, como os da Europa Ocidental, os Estados Unidos e o Japão assumem a posição de países receptores deste tipo de tráfico.

Castilho (2007) comenta que com o advento da Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, o tráfico de mulheres parece ter diminuído além de adquirido uma maior invisibilidade. Porém, a partir dos anos 1990, com o fim do regime socialista no leste europeu e do colapso da União Soviética, o tráfico de mulheres acabou ganhando um novo impulso e retornou ao cenário de discussões internacionais.

Em 1996, logo após a Conferência Mundial dos Direitos Humanos (1993), a ONU lançou o “Programa de Ação da Comissão de Direitos Humanos para a Prevenção do Tráfico de Pessoas e a Exploração da Prostituição” e, em 2000, foi lançado o “Protocolo Adicional da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional”, que ficou conhecido como “Protocolo de Palermo”, o qual em seu artigo terceiro incluiu o tráfico de pessoas, citando mulheres e crianças, como parte do crime organizado transnacional (CASTILHO, 2007, p. 12-13).

Mesmo com todos os esforços no sentido de coibir esta prática criminosa, o tráfico de mulheres ainda se mostra, nos dias atuais, sendo uma afronta aos direitos humanos das mulheres.

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1.2 Características do crime e perfil das vítimas

De acordo com o expresso no Protocolo para Prevenir, Suprimir e Punir o Tráfico de Pessoas, Especialmente Mulheres e Crianças, encontra-se a seguinte definição:

Tráfico de pessoas deve significar o recrutamento, transporte, transferência, abrigo ou recebimento de pessoas, por meio de ameaças ou uso da força ou outras formas de coerção, de rapto, de fraude, de engano, do abuso de poder ou de uma posição de vulnerabilidade ou de dar ou receber pagamentos ou benefícios para obter o consentimento para uma pessoa ter controle sobre outra pessoa, para propósito de exploração. Exploração inclui, no mínimo, a exploração da prostituição ou outras formas de exploração sexual, trabalho ou serviços forçados, escravidão ou práticas análogas à escravidão, servidão, ou a remoção de órgãos (JESUS, 2003, p. 8).

Para os especialistas, essa definição ampla procura garantir que a vítima do tráfico de pessoas não acabe sendo tratada como se fosse criminosa, e ao mesmo tempo busca responsabilizar, penalmente, os traficantes (JESUS, 2003, p. 9).

Apesar de os moldes deste crime terem sofrido alterações, algumas de suas características tem sem mantido ao longo dos tempos, sendo que Menezes (2005 apud RODRIGUES, 2013, p. 63-64) destaca: “caráter transnacional; vítimas vulneráveis; engodo durante o aliciamento; situação de escravidão por dívida no local de destino, etc.”

Menezes (2000) explica que o tráfico é caracterizado como um “processo migratório marginal”, pois acompanha os grandes fluxos internacionais, variando em suas rotas e impulsos, porém conservando um elemento básico propulsor: as crises internas que aquecem os movimentos populacionais sejam elas de ordem política, econômica ou social.

Sobre este crime, Silva (2010, p. 202) argumenta que:

O tráfico de pessoas é um fenômeno transnacional, extremamente lucrativo para seus autores, e está intimamente ligado às organizações criminosas e à prática de outros crimes, como a falsificação de documentos, raptos, favorecimento da prostituição, trabalhos forçados; com redução à condição análoga à de escravo.

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Segundo Jesus (2003), algumas das principais causas do tráfico de seres humanos e também do fluxo imigratório estão relacionadas à ausência de direitos ou a baixa interpretação das regras internacionais de direitos humanos; a discriminação de gênero; a violência contra a mulher; a pobreza; a desigualdade de oportunidades e de renda; a instabilidade econômica; as guerras; os desastres naturais e a instabilidade política.

Isso porque, normalmente os aliciadores do tráfico de mulheres se deslocam para países que apresentam sérios problemas sociais além de acentuada pobreza, já que nestes locais as vítimas são bem mais vulneráveis, pois muitas vezes vivem em situações precárias, desempregadas ou quando trabalham estão na informalidade e recebem baixos salários, que deixam a desejar no sustento dos seus filhos e suas famílias, assim, essas mulheres são facilmente iludidas com promessas de trabalho como modelos, dançarinas, garçonetes, baby-sitter e até com propostas de casamentos com homens considerados bem de vida (SILVA, 2010).

O Escritório das Nações Unidas contra Droga e Crime (UNODC) tem levantado estatísticas sobre o tráfico de pessoas, constatando que “84% das vítimas traficadas para a Europa ocidental e central são destinadas à exploração sexual” (RODRIGUES, 2013, p. 65). Salientando que das vítimas com origem na América do Sul, o número de brasileiras oriundas de regiões pobres, cresce cada vez mais.

O Protocolo de Palermo determina claramente quando determinada situação enquadra-se no tráfico de pessoas, pois traz uma definição bem tipificada, abrangendo diversas situações de exploração, isso porque o número de pessoas vítimas do tráfico é bastante alto, assim o amparo legal é essencial, visto que ajuda a esclarecer e descobrir situações de exploração antes desconhecidas pela humanidade, além de oferecer redes de proteção, em face da diversidade que o crime organizado utiliza para mascarar e dificultar a descoberta do tráfico de pessoas (SOARES, 2010).

No âmbito internacional, em 2005, com a publicação do relatório “Uma Aliança Global Contra o Trabalho Forçado”, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estimou que, aproximadamente, 2,4 milhões de pessoas foram traficadas em todo o mundo, 43% das quais destinadas à exploração

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sexual, e 32% destinadas a outros tipos de exploração econômica. (ANDREUCCI, 2010, p. 251).

Tomando por base estas informações, verifica-se um quadro assustador, em função do grande número de pessoas que são exploradas e traficadas em todo o mundo para os mais diversos fins.

Andreucci (2010, p. 251) traz números alarmantes no que se refere aos rendimentos que o tráfico de pessoas proporciona, informando “o lucro total anual produzido com o tráfico de seres humanos chega a 31,6 bilhões de dólares.”

O tráfico de pessoas está camuflado entre outros crimes que ocorrem todos os dias, como o tráfico de drogas e o tráfico de armas, e em função disso o seu combate, a repressão ao tráfico de pessoas, é ainda mais complicado. (ANDREUCCI, 2010).

Em se tratando da forma como o aliciamento acontece, Jesus explica que: “O recrutamento e o aliciamento acontecem das maneiras mais diversas. Uma carta, um bilhete, um anúncio, um e-mail podem ser o começo de uma longa jornada de explorações.” (JESUS, 2003, p. 129).

Ainda buscando traçar o perfil dos aliciadores, utilizou-se as informações contidas na “Pesquisa sobre Tráfico de mulheres, crianças e adolescentes para fins de Exploração Sexual Comercial (PESTRAF)”, o qual especifica que:

O perfil do aliciador está relacionado às exigências do mercado de tráfico para fins sexuais, isto é, quem define o perfil do aliciador e da pessoa explorada pelo mercado do sexo, é a demanda, que se configura através de critérios que estão relacionados a classes sociais, faixa etária, idade, sexo e cor (PESTRAF, 2002, p. 64).

Como todo tipo de comércio, a procura e características específicas da demanda auxiliam para o bom funcionamento do „negócio‟, tais como a idade, a etnia, a cor da pele são preponderantes. Desta forma, alguns aspectos são levados em conta no momento da escolha dessas vítimas, isso porque alguns clientes do tráfico exigem um determinado perfil da vítima na hora de comprar, como uma boa aparência, pouca idade, e em função disso muitas vezes o crime organizado

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disponibiliza do auxílio de book eletrônico com fotos das garotas (RODRIGUES, 2013).

As vítimas do tráfico relatam que são abordadas com falsas promessas. No caso do Brasil, Hoffmann (2004) menciona que pesquisadores destacam dois tipos de aliciamento: o que ludibria as mulheres com propostas tentadoras de trabalho no exterior e aquele que capta mulheres que já trabalham como profissionais do sexo.

No primeiro caso, as vítimas do tráfico não são prostitutas. São mulheres humildes, normalmente com baixa escolaridade, residentes em bairros periféricos, por vezes separadas ou mães solteiras, desempregadas ou que recebem baixos salários. Os aliciadores se aproximam das mulheres nessa situação lhes fazendo propostas tentadoras de bons trabalhos e altos salários no exterior, através dos quais elas poderão melhorar de vida e ainda enviar dinheiro para ajudar suas famílias. Neste caso, as mulheres não sabem que irão trabalhar na indústria do sexo (HOFFMANN, 2004).

No segundo caso, ainda conforme Hoffmann (2004), os aliciadores se dirigem a cidades consideradas destino para turismo sexual, geralmente cidades litorâneas, e contatam mulheres em situação social similar ao grupo anterior, ou seja, vulneráveis, mas que já trabalham como profissionais do sexo. Neste caso, as promessas se referem à alta lucratividade que terão trabalhando nas casas de prostituição do Exterior.

O estudo feito pelo Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) com o Ministério da Justiça, com o título “Conheça o perfil do Tráfico de Seres Humanos no Brasil”, traz um perfil das vítimas do tráfico internacional de pessoas:

O baixo nível de escolaridade das vítimas influi na decisão das vítimas, pois muitas são aliciadas por falsas promessas de emprego e de melhoria nas condições de vida. Entretanto, parte das vítimas é formada por profissionais do sexo que entram em contato com as redes de tráfico por meio dessa atividade (Em: http://crimetransnacional.blogspot.com.br/2009/05/trafico-de-seres-humanos.html. Acesso em 20 mai. 2014).

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Ainda sobre as vítimas, Ribeiro (2010, p. 88) explica que:

A pobreza é uma realidade e, portanto, a busca de melhores condições de vida faz parte do cotidiano das pessoas submetidas a tal realidade. Na maioria dos casos, apenas uma promessa de emprego é suficiente para gestar no imaginário dos grupos vulneráveis perspectivas de futuro e melhoria da qualidade de vida.

Neste sentido, Damásio de Jesus (2003, p.18-19) afirma:

As mulheres que entram em países de forma ilegal, ou ultrapassam o período estipulado em seus vistos, são particularmente vulneráveis à exploração. O padrão é similar em muitos países: mulheres jovens que procuram trabalhos legítimos são ludibriadas por agentes especializados em tráfico de pessoas.

As vítimas acabam em uma situação bastante complicada, já que se encontram num país estrangeiro, na maioria das vezes nem sequer sabem o idioma e assim mal conseguem se comunicar, estão sem dinheiro, sem documentos e sem contato com amigos ou familiares, completamente a mercê das organizações criminosas que às levaram.

Ao chegar ao país de destino, têm seus documentos confiscados e são forçados a trabalhar em condições miseráveis, mediante pagamento irrisório a pretexto de que devem quitar uma dívida pretensamente contraída com passagens, roupas entre outros objetos. Em breve espaço de tempo percebem que jamais irão conseguir pagar tais dívidas, transformando-se em verdadeiras escravas dos aliciadores, inclusive impedidas de sair do local em que se encontram confinadas, bem como proibidas de manter qualquer tipo de comunicação com amigos e/ou familiares (RIBEIRO, 2010, p. 92).

Na realidade, se constata que uma vez traficadas, existem poucas alternativas para essas mulheres, de modo que “muitas acabam aceitando a vida a que são submetidas, transformando-se em adictas, suicidam-se, são assassinadas ou morrem de doenças como a AIDS.” (RODRIGUES, 2013, p. 146).

Tomando como base o trabalho realizado pela Organização Internacional do Trabalho – OIT, (OIT, 2006, p. 57):

Uma parte dessas vítimas é completamente enganada, embarcando com a crença de que encontrará trabalho digno e com boa remuneração. Já outra parcela tem consciência de que foi arregimentada para a indústria do sexo ou para algum tipo de trabalho braçal. Estas vão descobrir ao chegar que as

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condições de trabalho, o pagamento e o grau de liberdade pessoal não são os mesmos que haviam sido combinados.

Sobre o perfil das vítimas, Damásio de Jesus afirma: “As mulheres, em geral, têm baixo grau de escolarização e passam por dificuldades de ordem financeira.” (JESUS, 2003, p.127).

Ou seja, é um conjunto de fatores como a baixa instrução, falta de conhecimento e uma situação financeira fragilizada, que contribuem para que a abordagem por parte dos aliciadores alcance sucesso, já que estas vítimas acabam se entusiasmando com a perspectiva de uma vida melhor, o que muito lhes influência no momento de tomar a decisão e cair nas mãos dessas quadrilhas especializadas.

Mas há relatos de mulheres com perfis completamente diferentes: mulheres com formação em nível médio para cima, com trajetória de emprego anterior e, muitas vezes, com expectativa de retorno breve ao Brasil, acabando nas mãos de quadrilhas internacionais (JESUS, 2003, p.127).

Considerando essas informações, percebe-se que não existe um alvo determinado, isso porque, apesar da maioria das vítimas terem um padrão sócio cultural mais aquém, em alguns casos acontece de terem certo conhecimento sócio cultural, são alfabetizadas, e mesmo assim acabam sendo alvo do tráfico de pessoas, algumas buscam melhores condições de vida nesse caminho árduo e difícil.

E sobre isso, Damásio de Jesus conclui que (2003, p.129):

Em resumo, há dois perfis de mulheres traficadas: o da mulher que viaja a procura de um emprego com bom salário, mas que na verdade é enganada, pois o objetivo real da viagem é a exploração; e o da mulher que já estava inserida na prostituição antes mesmo de fazer a viagem ao exterior.

Assim como as vítimas do tráfico tem um perfil traçado, os aliciadores também apresentam características comuns. O Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) com o Ministério da Justiça realizou um estudo que está expresso sob o título “Conheça o perfil do Tráfico de Seres Humanos no Brasil”, onde traça o perfil dos aliciadores, indicando que:

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Grande parte dos aliciadores é composta por empresários que atuam em diferentes negócios, como casas de shows, comércio, agências de encontro, bares, agências de turismo e salões de beleza. O bom nível de escolaridade dos réus se explica pelo fato de que eles necessitam estabelecer conexões em diferentes países e transitar fora do Brasil. Os países latinos (Espanha, Itália e Portugal) são os principais destinos das vítimas, que também são enviadas para a Suíça, Israel, França, Japão e

Estados Unidos (Em:

http://crimetransnacional.blogspot.com.br/2009/05/trafico-de-seres-humanos.html. Acesso em 20 mai. 2014).

Avellano (2010, p. 48) cita o UNODC (2003) afirmando que:

Mulheres são as principais aliciadoras e o convite é feito por meio da propaganda „boca a boca‟ de intermediários. Na maioria das vezes, esses intermediários são membros da família, amigos e/ou conhecidos das vítimas ou de suas famílias. O recrutamento é feito em casa ou na vizinhança.

Sendo que neste sentido, Hoffmann (2004) menciona que existem dois tipos: aqueles considerados de primeiro grau, que geralmente pertencem às redes de tráfico ou o principal contato desses grupos no país. E os aliciadores de segundo grau, neste caso trata-se de pessoas do bairro da vítima, que as conhece e em função disso acabam tendo maior poder de convencimento, em função da proximidade. São essas pessoas que apresentam as propostas e fazem o contato da vítima com o aliciador de primeiro grau, o qual se encarrega de todos os tramites.

Rodrigues (2013, p. 146) explica que esses criminosos podem “se enquadrar no conceito de quadrilha ou bando, que por si só já constitui crime.”

Assim, muitos envolvidos no crime de tráfico de pessoas são indivíduos que já foram ou estão sendo investigados, já que de acordo com Rodrigues (2013, p. 146) “o lucro do negócio pode virar objeto de crime econômico, como „lavagem‟ de dinheiro, evasão fiscal, etc.”

A globalização também é vista como fator de estímulo ao tráfico. A facilitação do uso de novas tecnologias de comunicação contribuiria para a organização da rede do crime e para a fuga do capital empregada no negócio (JESUS, 2003, p. 20).

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Outras formas de recrutamento relacionam-se mais diretamente com a presença de aliciadores em casas de prostituição, boates, hotéis e, sobretudo, para a exploração de meninas, bares e restaurantes de beira de estrada. Em muitos casos, o aliciamento ocorre de boca em boca, por intermédio de mulheres que foram traficadas para trabalhar em boates no exterior e retornam com a incumbência de fornecer vítimas ao negócio. Em muitos casos, os aliciadores procuram “consentimento” dos próprios familiares para o início da empreitada, sem revelar os muitos detalhes sórdidos e perigosos da oportunidade.

As redes de tráfico providenciam os passaportes dessas mulheres vítimas, que muitas vezes são falsos, e também lhes dão o dinheiro necessário para a viagem. Inclusive, Avellano (2010, p. 49) informa que “se houver familiares envolvidos na fase de recrutamento, os aliciadores normalmente „adiantam‟ o salário” para estes familiares.

Como “os empregos prometidos são de empregada doméstica ou vendedora, [...] atendentes ou „silbidoras’ em bares de videokê (AVELLANO, 2010, p. 49) somente ao chegarem aos países de destino, é que as vítimas percebem que exercerão atividade bastante diferente daquela prometida.

No estudo realizado pela OIT, “Tráfico de pessoas para fins de exploração sexual” (OIT, 2006, p. 52), demonstra alguns meios utilizados pelos aliciadores para intimidar as vítimas:

Para que a operação criminosa seja bem-sucedida, o traficante precisa manter controle sobre a vítima. O medo é uma das armas usadas para forçar sua submissão, o que é conseguido por meio de violência, tortura, estupro e intimidação. Além disso, as ameaças, que em muitos casos são apenas veladas, podem ser feitas a familiares e amigos das vítimas, que se veem obrigadas a obedecer aos traficantes para proteger as pessoas que amam. Para tornar as possibilidades de fuga ainda menores, os traficantes confiscam os documentos da vítima e procuram desestimular tais planos contando histórias de violência policial, prisão e deportação.

Sobre esta situação Rodrigues (2013, p. 108) assevera:

A vítima de tráfico de pessoas que sofre exploração sexual é manipulada, torturada, coagida, chantageada, violentada, humilhada. Além de todo sofrimento físico, há o sofrimento psíquico. Em regra, ao chegar ao destino, a vítima é privada de seu passaporte, passando a ficar sob a guarda de outrem, às vezes confinada em locais de onde não pode fugir, sujeita a maus tratos, obrigada a consumir drogas.

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É fácil perceber que os avanços tecnológicos, como o uso da internet, de sites de relacionamento, usados por diversas pessoas, principalmente jovens e também crianças que cada vez mais cedo tem acesso a esses meios, facilita muito o acesso e a comunicação do crime organizado do tráfico de pessoas com as futuras vítimas (RODRIGUES, 2013).

Como já mencionado anteriormente, esta é uma prática que movimenta grandes quantias de dinheiro. “Em termos comparativos, o tráfico de mulheres é a terceira maior fonte de renda do crime organizado transnacional, atrás apenas do comércio ilegal de armas e drogas.” (JESUS, 2003, p. 73).

Dados como esses acima relatados demonstram que apesar do tráfico de pessoas ter forte envolvimento com o tráfico de drogas e de armas, hoje já é visto como um crime independente, sendo inclusive a terceira atividade ilícita mais rentável, gerando um lucro a mais para o crime organizado.

Após realizar esta breve abordagem sobre um crime tão amplo e de tantas faces, pode-se verificar que apesar de sua origem ainda na Antiguidade, é nos dias atuais que ele tem sido praticado com maior intensidade, o que tem acarretado em muitas medidas por parte de diferentes países para inibi-lo, de modo que no próximo capítulo será abordado o artigo 231 do Código Penal Brasileiro, considerando suas alterações, tratando de como esse crime vem sendo abordado no Brasil.

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2 O TRÁFICO DE PESSOAS NO DIREITO COMPARADO E NO DIREITO BRASILEIRO

Neste capítulo faz-se uma abordagem de como diversos países do mundo tem se organizado no sentido de coibir a prática do tráfico internacional de pessoas; em seguida aborda-se a legislação brasileira, dando ênfase, sobretudo, às alterações do artigo 231 do Código Penal; e para finalizar apresenta-se uma breve análise jurisprudencial deste crime.

2.1 O tráfico de pessoas no direito comparado

A preocupação com o tráfico de pessoas não é exclusividade do Brasil, até porque como afirma Rodrigues (2013, p. 69) “seja como país de origem ou de destino, a maior parte das nações está envolvida por esse fenômeno.” Assim, muitos outros países, até mesmo antes que o Brasil, têm expresso em suas leis mecanismos para combater esta prática.

O texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos garante igualdade entre os povos, direito de ir e vir, dignidade da pessoa humana, proibindo expressamente todas as formas de escravidão, bem como de práticas degradantes; contendo ainda uma lista dos países que se estão de acordo com essas normas de proteção aos direitos da pessoa humana (QUEIJO; RASSI, 2010).

Esses países, além de fazerem parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos, também vêm ratificando inúmeras outras Convenções no que refere ao tráfico de pessoas, determinando assim, em suas legislações tipos penais específicos para punir devidamente os indivíduos que neles se enquadram (QUEIJO; RASSI, 2010).

Martínez (2011) refere que em setembro de 2011, foi realizada em Santiago, no Chile, a 2ª Cúpula Ibero-americana Contra o Tráfico de Seres Humanos, na qual se estimou que as vítimas do tráfico de pessoas gira em torno de 700 mil pessoas somente na América Latina. Este autor (MARTÍNEZ, 2011) destaca que este número pode ser ainda maior em função da dificuldade de estabelecer estatísticas precisas

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quanto ao número de pessoas que figuram no polo passivo do delito.

Na América do Sul, por exemplo, tem-se o Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas o qual demonstra que praticamente todos os países adotaram em seus textos legais, uma abordagem específica sobre o tráfico de seres humanos. Destacando que “as vítimas oriundas desta região tendem a ser destinadas a diversos países europeus.” (UNODC, 2009, p.31).

Neste sentido Rodrigues (2013, p. 74) comenta que “o continente americano segue os padrões mundiais sobre o tráfico de pessoas.”

De acordo com o Ministério Público Federal, a Argentina tem sido fonte tanto de origem quanto de destino de pessoas traficadas, participando ainda como rota de trânsito internacional de mulheres latino-americanas com destino à Europa. Além disso, se destaca, com o predomínio do tráfico interno, e mesmo tendo norma específica que dispõe sobre o tráfico de pessoas2, ainda assim é ampla a impunidade por parte do governo quanto aos sujeitos envolvidos no delito (AVANÇA, 2011, s.p.).

Marcia Carmo (2012, s.p.) explica que nas Províncias de Córdoba e de Tucumán está vedado funcionamento de prostíbulos, sendo que o governo oferece passagens para que as pessoas que ali atuavam possam retornar para sua origem, se assim quiser, sendo esta uma medida de combate ao tráfico humano.

A Argentina, assim como os demais membros do Cone Sul, também ratificou a Convenção de Palermo e seus Protocolos com a Lei n. 25.632/2002, criando ainda inúmeros programas como o “Programa Nacional de Prevenção e Erradicação do Tráfico de Pessoas e Assistência às Vítimas” e a “Prevenção e Punição do Tráfico de Pessoas e Assistência a suas Vítimas”, todos de prevenção ao delito aqui abordado (RODRIGUES, 2013).

2

Lei 26.364, de 29-4-2008: além de trazer disposições próprias, altera o art. 145 do Código Penal argentino incluindo os arts. 145 bis que dispõe sobre o tráfico de maiores, e o 145 ter que trata sobre os menores de dezoito anos. (RODRIGUES, 2013, p. 81).

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Sobre este aspecto, Rodrigues (2013, p. 82) esclarece que:

A Argentina, desde a ratificação do Protocolo de Palermo em 2002, tem

implementado medidas visando à prevenção ao crime, como

desenvolvimento de campanhas de conscientização de agentes

governamentais, organizações da sociedade civil, agentes comunitários, sindicatos, estudantes universitários e secundários, entre outros. Além disso, foram firmados convênios interministeriais e com organizações internacionais, como OIM, UNICEF e UNODC. Contudo, ainda não existem estatísticas oficiais centralizadas, e há preocupação com o fortalecimento das organizações criminosas e o aumento estimado do número de casos de tráfico de pessoas.

Conforme expresso pela OIT (2008, p. 58), tanto a Cooperação quanto a Coordenação Policial no MERCOSUL3 e Chile voltada ao Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas destacam que assim como a Argentina, todos os demais países do MERCOSUL também são signatários do Protocolo de Palermo e aderiram aos termos do protocolo em legislações internas, apesar de cada um tratar de modo particular o assunto, isso em função da dificuldade de se ter harmonia no que se refere ao direito penal entre os integrantes do MERCOSUL, tanto em função da grande quantidade de envolvidos, assim como pela fragilidade do assunto.

Assim como o Brasil e a Argentina, também o México é signatário de diversos tratados e leis anti-tráfico. Apesar disso, este país foi eleito pela Oficina das Nações Unidas para o Controle de Drogas e a Prevenção do Delito (ONUDD) como sendo uma das principais rotas do tráfico para fins sexuais (PITTS, 2011, s.p.).

Em função do aumento do número de casos deste delito, foi aprovado por unanimidade no México, em 2011, uma lei que pune com mais rigidez o tráfico de pessoas e o lenocínio. Por meio desta lei especificou-se a definição de tráfico e a impossibilidade de exclusão do crime diante do consentimento da vítima, foi aumentada de 5 a 12 anos de detenção para 8 a 25 anos, além de multa (QUEIROZ, 2011, s.p.).

O Peru, assim como diversos outros integrantes da América Latina, conta com ações de Políticas Públicas para enfrentar o mal do tráfico humano. Conforme

3

Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela. E pelos Estados associados Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru, que participam das reuniões, porém sem poder de voto.

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expresso no relatório do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (2011, p. 2) o Peru possui um Sistema de Registro e Estatística do Delito de Tráfico de Pessoas e Afins (RETA) o qual apresenta diversas modalidades deste delito, destacando a grande incidência de tráfico interno neste país.

O Relatório do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (2011, p. 3), ainda menciona que o governo peruano utilizou o Protocolo de Palermo como base para outras normas, dentre elas “a estipulação da pena referente ao ilícito entre 8 e 25 anos e a tipificação penal do crime de apologia ao tráfico de seres humanos aplicada nos casos de ocultamento real e pessoal, além da obstrução da justiça.”

O Relatório sobre o Tráfico de Pessoas elaborado pelo governo norte-americano apresenta categorias (tiers) de 1 a 3, que se referem aos esforços realizados por cada um dos países, sendo assim, todos são avaliados na mesma medida e com os mesmos critérios utilizados para avaliar os Estados Unidos (RODRIGUES, 2013).

Conforme Rodrigues (2013) a maioria dos países da América Latina é tida como tier 2, inclusive o Brasil. Considerando esta escala e suas categorias, Tatiana Félix (2011, s.p.) informa que o Peru encontra-se no nível 2, semelhante a Bolívia. Salienta-se a necessidade de medidas apropriadas para que os Estados consigam atingir o nível 1 da escala, como é o caso da Colômbia.

A Colômbia está neste nível em função das medidas que vem adotando no que se referente ao comércio de pessoas e seus mecanismos de proteção às vítimas, por meio da Lei 985, de 2005 (RODRIGUES, 2013)

Rodrigues (2013, p. 80) informa que “embora haja problemas graves relacionados ao tráfico na Colômbia, o governo deste país cumpre plenamente os padrões mínimos para a sua eliminação”.

Conforme expresso pelo Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (2011, p.3) “a estrutura jurídica colombiana permite a execução de

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ações talhadas à prevenção, proteção e assistência das vítimas e, não obstante, o combate de organizações criminosas visando à punição daqueles que incorrerem no referido delito.”

No caso da Venezuela, Rodrigues (2013, p. 80) afirma que este país é

[...] signatário de todos os acordos internacionais relacionados no Relatório. Em 2011 a atitude o governo venezuelano foi considerada insuficiente no cumprimento dos padrões mínimos, sem nenhuma manifestação de melhora nos últimos 4 anos, enquanto o país estava no tier 2.

Quanto a Cuba, este é um país bastante fechado, “sendo que durante o período de elaboração do Relatório, não divulgou informações sobre as medidas do governo para enfrentar o tráfico. Além disso, o país não é signatário do Protocolo de Palermo, o que justificaria o tier 3.” (RODRIGUES, 2013, p. 80).

No que diz respeito aos demais países do mundo, como os países europeus, por exemplo, Rodrigues (2013) esclarece que “em especial o centro-ocidental, tem grande preocupação com o tráfico de pessoas, pois é conhecida como local de destino para a exploração sexual e a prostituição de pessoas traficadas”.

No caso dos países do Leste Europeu, mesmo enfrentando problemas gravíssimos relacionados ao tráfico sexual, aparecem com tier 2, com raras exceções (RODRIGUES, 2013).

Ou seja, mesmo com as medidas adotadas nestes países, no sentido de coibir o tráfico de pessoas para fins sexuais, ainda assim esta tem sido uma prática que continua a acontecer de modo intenso.

A Alemanha, por exemplo, em seu Código Penal do Reich, de 1871, na seção 13, dispunha sobre os crimes contra a moralidade, sendo que este Código perdurou inclusive durante o regime nazista, estando pautado no direito penal do autor. Com a reforma penal, durante o pós-guerra, em 1952, iniciaram-se as primeiras perspectivas de reforma, sendo que esta culminou dez anos após, com um projeto do governo, nada inovador, ao contrário, mantendo caráter conservador. Em

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oposição a esse modelo, um grupo de penalistas publicou o Projeto Alternativo, o qual continha aspectos liberalizantes, sobre tudo no que se refere ao direito penal sexual, sendo que este ideário culminou na 1ª Lei de Reforma Penal, em 1969. Desde então, diversas reformas ocorreram, sendo que em 2005 ocorreram alterações nos crimes contra a liberdade (RODRIGUES, 2013).

Assim, na esteira do Protocolo de Palermo, o governo alemão fez adaptações ao delito de tráfico de pessoas, incluindo além da exploração sexual, a laboral também. Atualmente o Código Penal alemão possui uma seção específica para tutelar os crimes contra a liberdade, estando inseridos os delitos de tráfico de seres humanos para fim de exploração sexual. A pena-base do tráfico de pessoas para fim de exploração sexual é prisão, de 06 meses a 10 anos, para aquele que tira proveito de uma situação de vulnerabilidade da vítima, ou quando esta for menor de 21 anos (RODRIGUES, 2013).

Na Espanha, a legislação penal sexual, de modo semelhante ao Brasil, tutelava a honestidade como bem jurídico. Com a reforma de 1989, passou a tutelar a liberdade sexual, bem jurídico este corroborado pelo Novo Código Penal espanhol de 1995 (RODRIGUES, 2013).

Rodrigues (2013) explica ainda que em 2010, o Código Penal espanhol sofreu grande alteração pela Lei Orgânica n. 5, diferenciando os conceitos de tráfico de pessoas para fim de exploração sexual e tráfico ilegal de migrantes. Esta Lei incluiu um novo Título no Código Penal espanhol, dispondo sobre o tráfico de pessoas nos moldes do Protocolo de Palermo, incluindo a exploração sexual, do trabalho e a extração ou comercialização de órgãos.

A pena para o crime é de 5 a 8 anos de prisão, podendo ser aumentada conforme as causas previstas como a situação pessoal do sujeito passivo, ou a participação do sujeito ativo em organização criminosa (RODRIGUES, 2013).

A legislação penal italiana influenciou a brasileira, como o Código de Zanardelli, de 1889, e o Código de Rocco, de 1930. No que refere as questões sexuais, apenas em 1996, embora criticada, foi aprovada no País a nova lei sobre

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violência sexual, pautada na noção de liberdade sexual. Em 1998, outra lei foi aprovada, agora referente a questões sexuais envolvendo menores de idade (RODRIGUES, 2013).

Rodrigues (2013), explica que em 2003, a Lei n. 228 alterou alguns artigos do Código Penal italiano, referente ao tráfico de pessoas, proporcionando instrumentos mais adequados para o combate ao fenômeno. O crime previsto no Código Penal italiano pune com prisão de 08 a 20 anos aquele que pratica tráfico de pessoas.

Em Portugal, até o advento do Código Penal de 1982, a legislação portuguesa sobre direito penal sexual esteve arraigada em valores morais e religiosos. Ocorre que o Código atual, trouxe questões discutidas no projeto alternativo alemão dos anos 60. Em 2007, a Lei n. 59 fez alterações profundas no Código português, esta reforma se deu em atendimento à Convenção de Varsóvia do Conselho da Europa e ao Protocolo de Palermo. A pena, após a reforma, passou a ser de prisão de 03 a 10 anos (RODRIGUES, 2013).

Como se percebe, a Europa tem se mobilizado no sentido de combater este crime, buscando, através de constantes reformas em sua legislação, a melhor adequação no combate a esta prática.

No que se refere à África e Ásia, Rodrigues (2013) menciona que o tráfico de pessoas é um problema gravíssimo, que assola todo o continente asiático, onde, muitas vezes, se convive pacificamente com o total desrespeito aos direitos humanos de suas meninas e mulheres, e também de meninos, apesar de ser em menor número.

A África sofre incontáveis mazelas, dentre elas o tráfico de pessoas para todas as finalidades de exploração, seja sexual, para trabalho escravo, ou extração de órgãos. Conforme a UNICEF (apud RODRIGUES, 2013, p. 94) “a maior preocupação do continente africano é o tráfico de menores.”

A Nigéria foi o único país africano avaliado com tier 1 em 2011. Já no Relatório do ano de 2012, nenhum país africano conseguiu atingir o tier 1

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(RODRIGUES, 2013).

Esta classificação baixa, ou seja, nenhum país africano alcançou o tier 1, é resultado direto da falta de comprometimento dos governos desses países em se posicionar através de dispositivos legais contra a prática de tráfico de pessoas para fins sexuais.

A situação da Ásia é muito semelhante, havendo compra e venda de meninas de famílias miseráveis e desesperadas, em pequenos vilarejos. Estas meninas são exploradas, e muitas vezes forçadas a servir até mais de 20 homens por dia. Se tentam fugir, são espancadas e mortas, para que sirvam de exemplo para as demais na mesma situação (RODRIGUES, 2013).

A autora explica que “a rota mais intensa de tráfico sexual com destino à Índia é entre o Nepal e Mumbai, via Varanasi. Contudo, nenhum dos países se mostra empenhado em pôr um fim a essa realidade.” (RODRIGUES, 2013, p. 98).

A Índia, por exemplo, é signatária do Protocolo de Palermo, sendo que a legislação utilizada para combater o tráfico é de 1956, tendo sido alterada em 1986, sendo que as penas são mínimas, chegando a 03 anos de prisão e multa (US$ 44). Já a legislação do Nepal é de 1986, sendo alterada em 1999, a qual se mostrou mais rigorosa que a norma indiana estabelecendo penas de até 20 anos de prisão, além de multa (US$ 2.666), apesar disso, tem pouca aplicação, sendo baixo o número de processos por ano (RODRIGUES, 2013).

A Tailândia, tier 2, no Relatório 2011 e 2012, aparece como país de origem, destino e trânsito para o crime de tráfico de pessoas, seja para fins sexuais ou de trabalho escravo (RODRIGUES, 2013).

Como se pode observar, cada país ao elaborar a sua legislação de repressão ao tráfico humano, sobretudo para fins sexuais, aborda o assunto de modo diferente e particular, levando em conta suas referências culturais, sociológicas e doutrinárias. Cabe aqui citar Rodrigues (2013, p. 99) que esclarece: “não se pode enxergar e julgar os países asiáticos e africanos com olhos ocidentais”, em função das questões

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culturais. Mesmo assim, apesar de suas diferenças, verifica-se que as diferentes leis acabam convergindo para o mesmo objetivo, ou seja, a preservação da liberdade e a garantia dos direitos do ser humano.

2.2 Análise do tipo penal do artigo 231 do CP e suas alterações

O tráfico internacional de pessoas para fim de exploração sexual, juntamente com o tráfico interno de pessoas para o mesmo fim, está previsto como tipo penal no artigo 231 e 231-A do Código Penal Brasileiro.

O Brasil, para enfrentar o problema de modo mais eficaz, alterou o artigo 231 do Código Penal, cuja nova redação foi dada pela Lei 11.106, de 2005, que tipifica o tráfico de seres humanos como “promover, intermediar ou facilitar a entrada, no território nacional, de pessoa que venha exercer a prostituição ou a saída de pessoa para exercê-la no estrangeiro.” (CAPEZ; PRADO, 2010, p. 126).

Com isso, “O Código Penal Brasileiro, que se referia apenas ao tráfico internacional de mulheres para fins de prostituição, criminaliza, desde março de 2005, explicitamente o tráfico interno de pessoas, aplicando-se também para homens e crianças” (RIBEIRO, 2010, p. 71). Isso porque, a Lei 11.106 de 28 de março de 2005 modificou consideravelmente a redação original do artigo 231 do CP, de modo que a infração penal em estudo passou a ser chamada de tráfico internacional de pessoas, sendo que após esta Lei entrar em vigor, homens e mulheres passaram a figurar como sujeitos passivos do delito que antes era somente as mulheres. Com essa redação, o artigo 231 separou quem promove o deslocamento da pessoa daquele que agencia ou intermeia o tráfico.

Neste sentido Rodrigues (2013, p. 104) menciona “a modificação do sujeito passivo com o advento da Lei n. 11.106, de 2005 - de „mulher‟ passou a „pessoa‟.” Com isso, a Lei 11.106/05 estendeu a tutela penal, antes voltada somente às mulheres, à proteção das vítimas do sexo masculino, passando a incriminar o tráfico em duas modalidades: o tráfico internacional de pessoas no artigo 231 e o tráfico interno de pessoas no artigo 231-A.

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Ou seja, a Lei 11.106/05 introduziu dentre suas alterações, o termo “internacional” ao delito de tráfico de pessoas, a partir de então, no Código Penal brasileiro constam duas modalidades de tráfico de pessoas: o tráfico interno e o internacional (CAPEZ; PRADO, 2010).

As mudanças do dispositivo legal buscaram ir ao encontro de uma nova visão que surgia, pois conforme Ribeiro (2010, p. 71) “as mudanças introduzidas pela Lei n. 11.106 [...] foram feitas um ano depois de o Brasil ratificar o Protocolo Antitráfico Humano”, defendendo-se que não só mulheres poderiam ser vítimas desse crime. Conforme constava anteriormente no dispositivo, as vítimas seriam somente mulheres, até porque na época em que havia sido formulado, era remota a ideia e possibilidade de que homens viessem a exercer a prostituição. No entanto, a evolução do crime indicou a necessidade de se proteger também o sexo masculino, os quais passaram a ser possíveis vítimas desse crime, e assim a falta de proteção implicaria na ofensa aos princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade (RIBEIRO, 2010).

Dando continuidade às alterações legislativas, a Lei 12.015/09 deu nova redação ao dispositivo, mantendo as condutas de promover ou facilitar o deslocamento de alguém dentro do território nacional para o exercício da prostituição ou outra forma de exploração sexual, acrescendo novas condutas ao §1º, quais sejam, aliciar, agenciar, vender, comprar a pessoa traficada, transportá-la, transferi-la ou alojá-la. Essas últimas seriam condutas punidas por extensão da própria norma.

Capez e Prado (2010, p. 127) explicam que “as inovações não pararam por aí, pois com o advento da Lei n. 12.015/2009, o crime em estudo foi objeto de substanciosas alterações, tendo sido acrescentado ao seu título a finalidade de exploração sexual.” Com isso, o tipo penal modificado por esta Lei, passou o delito por ele previsto a ser conhecido como tráfico internacional de pessoas para fim de exploração sexual.

Esta Lei ampliou a tutela jurídica dos crimes contemplados no Capítulo V, do Código Penal brasileiro, mencionando qualquer outra forma de exploração sexual,

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não sendo somente a prostituição (CAPEZ; PRADO, 2010).

Rodrigues (2013, p. 104) traz que “foi acrescida a exploração sexual, além da prostituição, como finalidade do tráfico.”

Esta alteração contempla o disposto no art. 3º do Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças, quando trata do crime de tráfico de pessoas, que o define como:

[...] o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou uso da força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins de exploração. A exploração incluirá, no mínimo, a exploração da prostituição de outrem ou outras formas de exploração sexual, o trabalho ou serviços forçados, escravatura ou práticas similares à escravatura, a servidão ou a remoção de órgãos (apud CAPEZ; PRADO, 2010, p. 128).

Este Protocolo marcou a criação de medidas para o enfrentamento ao tráfico de pessoas, conforme seu artigo 9°, que trata da prevenção:

Os Estados Partes estabelecerão políticas abrangentes, programas e outras medidas para: a) Prevenir e combater o tráfico de pessoas; e b) Proteger as vítimas de tráfico de pessoas, especialmente as mulheres e as crianças, de nova vitimação. [...] 5. Os Estados Partes adotarão ou reforçarão as medidas legislativas ou outras, [...] inclusive mediante a cooperação […]. (ONU, PROTOCOLO PARA PREVENIR, SUPRIMIR E PUNIR O TRÁFICO DE PESSOAS).

A Lei 12.015/09 referiu ainda o crime, na forma singular, entendendo que para que esse se configure, a pluralidade de vítimas é desnecessária. Além disso, apresentou outra inovação no Título VI, quando esse crime passou a ser tratado como contra a dignidade sexual, ao substituir a expressão “Dos crimes contra os costumes” por “Dos crimes contra a dignidade sexual”, o que alterou o foco da proteção jurídica (CAPEZ; PRADO, 2010).

Apesar desta mudança de diretriz, no Brasil, alguns doutrinadores como Bitencourt (2009); Cunha (2009); Delmanto (2007), dentre outros, afirmam que a norma do artigo 231 do CP se destina a proteção da moralidade pública sexual e

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também dos bons costumes. Esse entendimento é também o de Damásio de Jesus, que indica como o bem jurídico protegido a moral sexual pública internacional (JESUS, 2003, p. 82).

Assim, com esse dispositivo penal buscaria combater o comércio sexual exercido por meio das prostitutas e que essa atividade afronta os bons costumes das sociedades envolvidas (GOMES; CUNHA; MAZZUOLI, 2009, p. 254).

Apesar de muitos doutrinadores entenderem deste modo, esse posicionamento tem sido amplamente criticado, ao que se argumenta que essa visão acaba sendo preconceituosa para com pessoas envolvidas na prostituição.

Nesse viés, observa-se o posicionamento de Lilian Rose Lemos Soares Nunes (2005), que afirma que no tráfico de pessoas se ofende um bem jurídico genérico, qual seja a dignidade humana. E de modo semelhante, também se afastando da corrente doutrinária majoritária tem-se Daniel de Resende Salgado, que entende que se falar em moralidade sexual como bem jurídico tutelado seria violar as garantias constitucionais da liberdade, expressa na atual questão como liberdade sexual, da não discriminação e do livre exercício laboral.

Assim, segundo Nucci (2009), o bem jurídico protegido da pessoa traficada é a própria condição humana, a dignidade da pessoa. Os sujeitos desse crime podem ser ativo (qualquer pessoa) ou passivo (qualquer pessoa: homem, mulher ou criança, e/ou a coletividade). A pena prevista para o tráfico internacional de pessoas existe nos preceitos secundários, juntamente com a pena privativa de liberdade e a multa, independentemente da finalidade do agente ser a obtenção de lucro.

Com isso, fica evidente que a dignidade da pessoa humana do ponto de vista moral e seus direitos inerentes é o que está protegido. Além disso, também protege a moralidade pública, de forma que, apesar de a prostituição não ser crime, mas como a sua prática representa um risco direto aos valores da família, por este motivo é compreensível para que o Estado busque evitar essa prática através do tráfico.

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tutelado pelo art. 231 do Código Penal é a dignidade humana dos trabalhadores sexuais, a liberdade da pessoa, o direito à sexualidade, que deve ser protegida de qualquer exploração.”

Como se percebe, a maior dificuldade enfrentada pelo dispositivo está em definir o que é considerado como crime de tráfico de pessoas, ficando a encargo do direito penal a função social de tutelar bens jurídicos, de modo a preservar o desenvolvimento da sociedade de forma pacífica e sadia.

Ressalta-se ainda que a indicação de “crimes contra a dignidade sexual” pelo legislador, não implica que os outros interesses jurídicos não poderão ser resguardados (CAPEZ; PRADO, 2010).

Sobre isso, Rodrigues (2013, p. 104) explica que: “o bem jurídico tutelado deixou de ser os costumes para ser a dignidade sexual” (grifo do autor).

Assim, partindo do princípio de que a dignidade humana é base para o direito como um todo, o direito penal, ao tratar sobre os crimes tráfico internacional de pessoa para fins de exploração sexual no artigo 231 e tráfico interno de pessoa para fim de exploração sexual no seu artigo 231-A, busca intervir nessa situação que é tida como de importância fundamental para toda a sociedade. “Agindo em consonância com a Constituição Federal [...] de forma que assuma especial importância, não os padrões ético-sociais, os bons costumes, mas a dignidade do indivíduo que é colocada em risco” (CAPEZ; PRADO, 2010, p. 131).

Desta forma, se observa que a ideia da proteção conferida à vítima do tráfico internacional é a mesma da do tráfico interno. Até porque, a preocupação com o tráfico interno de pessoas tem aumentado consideravelmente no Brasil em função do turismo sexual, que tem se tornado cada vez mais comum em cidades turísticas, sobretudo naquelas localizadas na Região Nordeste, e destacadamente nos meses de férias (RODRIGUES, 2013).

Outra situação que merece ser mencionada refere-se aos megaeventos esportivos que o Brasil sediou e sediará, como a Copa do Mundo de Futebol (2014)

Referências

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