Patricia Leal Di Nizo
U
M ENSAIO SOBRE O CINISMO
:
DISTORÇÕES E REAPROPRIAÇÕES PERFORMATIVAS NAS PRÁTICAS DISCURSIVAS CONTEMPORÂNEAS
Campinas 2019
U
M ENSAIO SOBRE O CINISMO
:
DISTORÇÕES E REAPROPRIAÇÕES PERFORMATIVAS NAS PRÁTICAS DISCURSIVAS CONTEMPORÂNEAS
Tese apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Doutora em Linguística.
Orientador: Professor Doutor Lauro José Siqueira Baldini
Este exemplar corresponde à versão final da Tese defendida pela aluna Patricia Leal Di Nizo e orientada pelo prof. Dr. Lauro José Siqueira Baldini
Campinas 2019
Di Nizo, Patricia Leal,
D615e DiUm ensaio sobre o cinismo : distorções e reapropriações performativas nas práticas discursivas contemporâneas / Patricia Leal Di Nizo. – Campinas, SP : [s.n.], 2019.
DiOrientador: Lauro José Siqueira Baldini.
DiTese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem.
Di1. Cinismo. 2. Discursos. 3. Ideologia. 4. Performatividade (Filosofia). 5. Psicanálise. I. Baldini, Lauro José Siqueira. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Estudos da Linguagem. III. Título.
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: An essay on cynicism : performative distortions and reappropriations in contemporary discursive practices
Palavras-chave em inglês: Cynicism Speeches Ideology Performativity (Philosophy) Psychoanalysis
Área de concentração: Linguística Titulação: Doutora em Linguística Banca examinadora:
Lauro José Siqueira Baldini [Orientador] Daniel do Nascimento e Silva
Paulo Sérgio de Souza Júnior Mónica Graciela Zoppi Fontana Marcos Aurélio Barbai
Data de defesa: 28-08-2019
Programa de Pós-Graduação: Linguística
Identificação e informações acadêmicas do(a) aluno(a)
- ORCID do autor: https://orcid.org/0000-0002-3836-7110 - Currículo Lattes do autor: http://lattes.cnpq.br/7110854998837897
Monica Graciela Zoppi Fontana
Marcos Aurélio Barbai
Daniel do Nascimento e Silva
Paulo Sergio de Souza Junior
IEL/UNICAMP 2019
Ata da defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertação/Tese e na Secretaria de Pós Graduação do IEL.
Les non-dupes errent. Jacques Lacan
À Helena Poesia, música, alegria
AGRADECIMENTOS
Desejo expressar meus agradecimentos a todos aqueles que, de alguma forma, participaram desse meu percurso. Agradeço, em primeiro lugar, ao meu orientador, Lauro, pelo afeto, pela escuta atenta de minhas palavras e meus silêncios, por sua implicação no trabalho e por ter me incentivado a seguir o caminho apontado pelo meu desejo. À Renata que, com uma rara escuta, singular delicadeza e admirável generosidade, me ajudou a superar o pânico. Ao Daniel, pela abertura, pela orientação e trocas para além de seu compromisso carinhosamente assumido como orientador do meu trabalho de qualificação de área em Semântica e Pragmática, cujo texto contou com a leitura cuidadosa e os importantes apontamentos de Flávia e Paulo Sérgio. Ao Paulo Sérgio, agradeço também pelas riquíssimas intervenções e sugestões feitas durante o debate ocorrido na ocasião da qualificação deste trabalho, agradecimento extensivo à Mónica, pelas provocações sempre pertinentes, pelas críticas pontuais e tão construtivas, pelas dicas valiosas e pelas carinhosas palavras de incentivo. À Aline, pelas trocas, pelos conselhos, pelo ombro amigo, pelos momentos de felicidade, de angústia e incertezas que compartilhamos ao longo desses anos. Ao Fábio, pelas palavras doces e confortantes. Aos queridos Léo, Thales, Karine e Elisa, por todas as discussões levantadas durante nossos encontros semanais na salinha de estudos da física, pelas conversas nos corredores do IEL e pelos bate-papos e gargalhadas no Messenger, bandejão e Barão Geraldo afora. Ao Bruno, pela cuidadosa revisão do texto, pelas sugestões e preciosas intervenções, pela paciência e prontidão em esclarecer todas as minhas dúvidas em relação à ABNT, em resolver os pepinos do Word e em tomar para si todos os problemas surgidos em decorrência de minha inabilidade informática. Aos professores e funcionários do IEL, pela competência e ajuda tão essencial e também a todos os amigos e colegas que se implicaram de algum modo neste trabalho. Ao Luiz Fernando, pelo apoio financeiro. À minha irmã Paula, pela torcida. Ao meu querido Alexandre, por ter me trazido serenidade e leveza. À minha amada Helena que chegou chegando e abalando a religião do sentido. Revolucionando. Subvertendo a ordem. Muito obrigada por me encher de carinho, de abraços e beijinhos. Obrigada por me iluminar a vida e aquecer o coração. Obrigada por saber esperar, por ter paciência, por compreender minhas ausências e celebrar comigo cada pequena grande conquista. Amo você, minha florzinha.
RESUMO
DI NIZO, P.L. Um ensaio sobre o cinismo: distorções e reapropriações performativas nas práticas discursivas contemporâneas. 2019. 224f. Tese (Doutorado) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2019.
Este trabalho é voltado para uma reflexão sobre o cinismo sendo praticado discursivamente como forma de captura, esvaziamento de sentido e reapropriação performativa da potência criativa e subversiva do cinismo antigo (kynismos) pelo discurso do poder. O percurso teórico-analítico aqui traçado é pautado por um diálogo entre a análise de discurso materialista, a teoria crítica e a pragmática discursiva, atravessado pela psicanálise. Resultante de análises envolvendo materiais recolhidos entre 2013 e 2019, o trabalho foi realizado nas fronteiras que ao mesmo tempo ligam e separam o triplo real da língua, da história e do inconsciente, apresentando-se como um ensaio dividido em três partes. A fim de compreender a prática discursiva cínica na contemporaneidade, inicia-se com uma interpretação sobre a progressão do cinismo ao longo da história, partindo do kynismos de Diógenes, deslocando-se ao cinismo romano e chegando ao par antitético kynismos-cinismo coabitando em um mesmo funcionamento enunciativo. A partir da análise do corpus, em um segundo momento, questiona-se se os mecanismos descritos por Pêcheux como forma de resistência não estariam sendo reapropriados por uma posição cínica como ferramenta de dominação, o que apontaria para um caráter parasitário das reapropriações performativas. E finalmente, em um terceiro momento, analisa-se o excesso da enunciação, um mais além do enunciado que se dá em ato por meio de uma performatividade cínica que está sempre pondo em jogo a dimensão da verdade, verdade que, do ponto de vista da pragmática e da psicanálise, pressupõe uma construção. Intermediadora entre o falante e o real e referente básico dos laços sociais, segundo Lacan, a verdade falou em cada materialidade discursiva analisada neste trabalho. Um trabalho sobre o cinismo, este também se apresentou como um trabalho sobre a verdade e, portanto, um trabalho sobre o real, ou seja, o impossível, aquilo que não cessa de não se escrever, segundo Lacan, e aquilo que, de acordo com Badiou, sempre se revela na ruína de um semblante.
ABSTRACT
DI NIZO, P.L. An essay on cynicism: performative distortions and reappropriations in contemporary discursive practices. 2019. 224p. Thesis (Doctorate) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2019.
This work is a reflection on the cynicism practiced discursively as a form of capture, deflation of meaning and performative reappropriation of the creative and subversive power of ancient cynicism (kynismos) by the discourse of power. The theoretical-analytical path outlined here is guided by a dialogue between materialist discourse analysis, critical theory and European continental pragmatics, crossed by psychoanalysis. Resulting from analyzes of materials collected between 2013 and 2019, the work was carried out at the borders that simultaneously bind and split the triple real of language, history and the unconscious, presenting itself as a three-part essay. In order to understand the cynical discursive practice in contemporary times, it begins with an interpretation of the progression of cynicism throughout history, starting from Diogenes’ kynismos, moving to Roman cynicism and arriving at the antithetical pair Kynismos-cynicism cohabiting in a same enunciative functioning. From the analysis of the corpus, in a second moment, it is questioned if the mechanisms described by Pêcheux as a form of resistance were not being reappropriated by a cynical position as a tool of domination, which points to a parasitic feature of performative reappropriations. Thirdly, an analysis of the surplus of the utterance is carried out. Surplus understood as something beyond the utterance that occurs in act by a cynical performativity that is always putting into question the dimension of truth. From the point of view of pragmatics and psychoanalysis, the truth presumes a construction. Mediator between the speaker and the real, and a basic referent of social ties, according to Lacan, the truth spoke in each discursive materiality analyzed in this work on cynicism, which also presented itself as a work on the truth and, therefore, a work on the real, i.e. the impossible, this that does not stop not to being written, according to Lacan, and this that, according to Badiou, always reveals itself in the ruin of a semblant.
RÉSUMÉ
DI NIZO, P.L. Un essai sur le cynisme: distorsions et réappropriations performatives dans les pratiques discursives contemporaines. 2019. 224p. Thèse (Doctorat) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2019.
Ce travail présente une réflexion sur le cynisme pratiqué discursivement comme une forme de capture, de vidage de sens et de réappropriation performative de la puissance créatrice et subversive du cynisme ancien (kynismos) par le discours du pouvoir. Le parcours théorique et analytique ici proposé est orienté par un dialogue entre l’analyse du discours matérialiste, la théorie critique et la pragmatique discursive traversé par la psychanalyse. Issu d’analyses portant sur des matériaux collectés entre 2013 et 2019, le travail a été mené aux frontières qui à la fois relient et séparent le triple réel du langage, de l’histoire et de l’inconscient, se présentant comme un essai divisé en trois parties. Pour mieux comprendre la pratique discursive cynique à l’époque contemporaine, on commencera par une interprétation de la progression du cynisme au cours de l’histoire, à partir du kynismos de Diogène, passant par le cynisme romain, pour arriver au couple antithétique kynismos-cynisme cohabitant dans le même fonctionnement énonciatif. De l’analyse du corpus, dans un second temps, on se demandera si les mécanismes décrits par Pêcheux comme une forme de résistance n’ont pas été réappropriés par une position cynique comme outil de domination, ce qui indiquerait un caractère parasitaire des réappropriations performatives. Et enfin, dans un troisième temps, on analysera l’excès de l’énonciation cynique, un au-delà de l’énoncé qui se produit en acte à travers une performativité cynique qui met toujours en jeu la dimension de la vérité, une vérité qui, du point de vue de la pragmatique et de la psychanalyse, suppose une construction. Intermédiaire entre l’être parlant et le réel, et référent fondamental des liens sociaux, selon Lacan, la vérité a parlé dans chaque matérialité discursive analysée dans ce travail. Parti d’un travail sur le cynisme, celui-ci s’est aussi présenté comme un travail sur la vérité et, par conséquent, un travail sur le réel, c’est-à-dire, l’impossible, ce qui ne cesse pas de ne pas s’écrire, selon Lacan, et ce qui, selon Badiou, s’avère dans la ruine d’un semblant.
L
ISTA DEF
IGURASFigura 1 Quatro lugares fixos que compõem a estrutura dos quatro discursos. ... 55 Figura 2 Formalização do discurso do mestre. ... 56 Figura 3 Formalização dos outros três discursos realizada por meio de rotações de um quarto
de giro no sentido horário ou anti-horário a partir da fórmula do discurso do mestre. ... 56 Figura 4 Formalização do discurso capitalista a partir de uma “pequeníssima inversão” de
dois elementos no discurso do mestre e uma diferente disposição das flechas. ... 60 Figura 5 V de Vinagre trazendo a memória da série de histórias em quadrinhos V de
Vingança (MOORE; LLOYD, 1982-1989) adaptada para o cinema sob a direção de James McTeigue (2005). ... 86 Figura 6 Jogo V de Vinagre criado como sátira à detenção de manifestantes por porte de
vinagre. ... 87 Figura 7 Liberté, Égalité, Fraternité – Vinagré trazendo a memória do lema da República
Francesa, tendo como pano de fundo a pintura A liberdade guiando o povo (DELACROIX, 1830). ... 88 Figura 8 Legalize já! retoma a memória discursiva da discussão acerca da legalização da
maconha e do aborto ... 89 Figura 9 Retomada de V de vinagre a partir de uma posição ideológica identificada com uma
certa vertente supostamente “patriota” da direita. ... 90 Figura 10 Bandeira da URSS. ... 91 Figura 11 Martelos cruzados apresentados como símbolo gráfico nazifascista na ópera rock
The wall (1979) e no filme Pink Floyd the wall (1982). ... 92 Figura 12 Manifestação pacífica de caráter festivo realizada na cidade de São Paulo, em
março de 2015.. ... 119 Figura 13 Manifestação pacífica de caráter festivo realizada na cidade do Recife, em março
de 2015. ... 120 Figura 14 Manifestação contra a PEC 37 realizada na Avenida Paulista, em 22 de junho de
2013. ... 127 Figura 15 Protesto de promotores contra a PEC 37 realizado em São Paulo, em 12 de abril de
2013. ... 127 Figura 16 Brasil 8 ou 80. Uma possível paráfrase iconográfica da perversidade inerente ao
Figura 17 Trabalho escravo nunca mais! (Esq.) Ato de protesto realizado por juízes federais, em março de 2018, solicitando uma “remuneração justa”. (Sup.) Maquete de estátua a ser erguida no Hyde Park, Londres, em homenagem aos escravizados africanos cujas vidas foram perdidas durante o comércio de escravos. ... 166 Figura 18 Paternité, Maternité, Diversité. Cartaz erguido durante manifestações contra o
casamento homoafetivo, em janeiro de 2013, em Paris. ... 172 Figura 19 Cartazes empunhados durante manifestações contra o casamento homoafetivo. . 173 Figura 20 Meme de declaração atribuída a Morgan Freeman. ... 175 Figura 21 Quadros da vídeo-montagem produzida e exibida pelo Petit Journal em 19 de
setembro de 2013. ... 184 Figura 22 On est chez nous ! Cartaz divulgado pelo Front National... 186 Figura 23 Gigante pela própria natureza. Cartaz divulgado pelo Movimento Muda Brasil. ... 187 Figura 24 O ditador Adenóide Hynkel e o barbeiro judeu, personagens de O grande ditador,
de Charles Chaplin.. ... 188 Figura 25 O “bebê ariano ideal”. ... 189
S
UMÁRIOIntrodução ... 14
I O CINISMO DE CORRENTE FILOSÓFICA A PRÁTICA DISCURSIVA ... 20
Capítulo 1 O cinismo ao longo da história ... 21
Capítulo 2 A ambivalência do par antitético kynismos-cinismo coabitando em um mesmo funcionamento enunciativo ... 32
Capítulo 3 O discurso: de Pêcheux a Lacan e um retorno ... 47
3.1 A análise de discurso materialista ... 47
3.2 O discurso ... 52
3.3 A “teoria dos quatro discursos” ... 54
II O CINISMO COMO PRÁTICA DISCURSIVA NA CONTEMPORANEIDADE ... 67
Capítulo 1 Uma “distorção performativa paradoxal” ... 68
Capítulo 2 Da ressignificação à reapropriação performativa ... 81
Capítulo 3 O cinismo e o caráter parasitário das reapropriações ... 101
3.1 Um “cartaz patriota” ... 105
3.2 Do “vandalismo” inicial às manifestações pacíficas, festivas e “patriotas” ... 112
3.3 A luta contra a corrupção ... 122
3.4 Democracia: um objeto paradoxal ... 136
III A ANÁLISE DE DISCURSO PARA ALÉM DE SUAS FRONTEIRAS ... 151
Capítulo 1 Um diálogo possível entre a análise de discurso e a pragmática discursiva ... 152
Capítulo 2 Um excesso da enunciação sobre o enunciado ... 163
2.1 Trabalho escravo nunca mais ... 166
2.2 Paternité, Maternité, Diversité ... 171
2.3 Dia da Consciência Humana ... 175
Capítulo 3 Verdade irmãzinha do gozo ... 179
Considerações finais ... 200
Referências bibliográficas ... 212
Introdução
“Considerar o discurso do adversário”: é sustentá-lo, apreendê-lo, invertê-lo, tomá-lo ao pé da letra? Michel Pêcheux
Janeiro de 2013. Caminho pelas ruas de Paris, na região de Montparnasse, quando, de repente, sou arrastada por uma gigantesca onda humana “azul, branca e rosa”. Lembro-me do frio glacial. Era de doer os ossos, afinal, estávamos em pleno inverno no hemisfério norte. Lembro-me também da quantidade imensa de casais jovens, de adolescentes, de famílias com crianças pequenas, inclusive bebês, agitando bandeiras, empunhando faixas e levantando cartazes impressos com slogans bem peculiares. Fazendo alusão aos valores tradicionais da família, à “família legítima” composta por um homem e uma mulher, tais slogans também eram fervorosamente entoados. Paternité, Maternité, Diversité, slogan cujo pano de fundo seria o lema da República francesa Liberté, Égalité, Fraternité, chamou particularmente minha atenção, do mesmo modo que as cores do movimento fazendo alusão às cores estampadas como símbolo desse lema na bandeira do país. O azul, branco e vermelho da bandeira deslizaram para azul, branco e rosa, fazendo série com aquilo que se diz e se crê por aí: “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”. Azul, branco e rosa e Paternité, Maternité, Diversité...
Identifiquei ali algo no mínimo contraditório, na medida em que, embora estivesse inserido em uma manifestação declaradamente reacionária, tal slogan trazia a memória do maior símbolo revolucionário daquele país e, sobretudo, empregava a palavra diversidade, tão cara aos movimentos LGBT, na sequência das palavras paternidade e maternidade. Infiltrada na manifestação, descubro logo que nosso destino seria o Champ-de-Mars, em frente à Torre Eiffel, ponto de encontro das passeatas convocadas por um certo movimento La Manif pour tous que reivindicava para si o papel de “lutar pelo bem de todos”, principalmente daqueles “mais vulneráveis”, “as crianças”, prezando pelo respeito às suas necessidades que estariam sendo “ameaçadas” por reformas sociais inspiradas na “ideologia de gênero”. À l’avant-garde dos movimentos reivindicatórios, La Manif por tous reuniu cerca de 340 mil pessoas, que teriam se deslocado das diversas regiões francesas à capital do país em um cinza e gélido domingo de inverno, para lutar não pelos seus direitos, mas contra a aquisição de certos
direitos por parte de alguns, uma vez que se protestava contra a aprovação de um projeto de lei favorável ao casamento homoafetivo.
De volta ao Brasil, acompanho pelos jornais e redes sociais as repercussões acerca de uma truculenta ação policial na cidade de São Paulo contra manifestantes e jornalistas durante um protesto organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL) em oposição ao aumento da tarifa de transporte público. De acordo com o que se divulgou na época, além de reprimir o protesto por meio da violência física e do lançamento de bombas de gás lacrimogêneo, a polícia realizou centenas de detenções, muitas das quais ocorreram devido ao porte de vinagre. Esse acontecimento produziu uma reação satírica expressa nas ruas e redes digitais por meio de cartazes e memes ironizando a excessiva ação policial. Dentre as materialidades discursivas propagadas em decorrência do acontecimento que ficou conhecido como “revolta da salada”, um cartaz verde e amarelo chamou particularmente a minha atenção. Misturando elementos que circulavam no movimento de protesto lançado com um tom de crítica jocosa à violência policial – tais que o enunciado V de vinagre trazendo a memória da série de histórias em quadrinhos V de Vingança, criada pelo anarquista Alan Moore –, o cartaz verde e amarelo parecia-me, paradoxalmente, promover a violência por meio de um discurso que, com características patrióticas e fascistas, fomentava uma luta que brotava naquele momento: o combate à corrupção.
Na ocasião, estou cursando como aluna especial uma disciplina introdutória à análise de discurso oferecida pelo departamento de linguística do IEL/Unicamp. Durante uma das aulas ministradas por Lauro Baldini, comento ter percebido em tais manifestações de junho de 2013 um modo peculiar de desvio pelo “discurso do adversário” da pauta política reivindicada nos protestos iniciais. Relato que tal fato havia sido observado através de materialidades discursivas, entre as quais o “cartaz patriota” surgido em meio à “revolta da salada” que, a meu ver, apresentava características muito similares com as que eu havia identificado durante a manifestação conservadora e reacionária realizada no início daquele ano em Paris. Observo que, do mesmo modo que a palavra diversidade inserida na sequência das palavras paternidade e maternidade no slogan propagado na manifestação reacionária avessa ao casamento homoafetivo, o enunciado V de vinagre inserido no cartaz com características patrióticas e fascistas aparece como uma certa forma de captura, esvaziamento e inversão de sentido produzido em materialidades discursivas já significadas historicamente. Revelando-se como algo estranhamente familiar que, de certa forma, me afetava muito particularmente, esses dois acontecimentos pareciam evocar o funcionamento do cinismo, questão em que eu
acabara de me adentrar a partir de dois textos de Baldini (2009; 2012a) e que resultou em um trabalho conjunto posterior (BALDINI; DI NIZO, 2015).
Ainda em 2013, observo o tom sarcástico de um programa de “infodiversão” exibido no Canal+ da França, Le Petit Journal, acerca do slogan On est chez nous (“A casa é nossa”) entoado durante uma reunião dos líderes e militantes do Front National, partido político de extrema-direita francês. Tomado ao pé da letra, tal slogan é cotejado a imagens extraídas de um vídeo promocional do partido intitulado La France est belle, protégeons-la (“A França é bela, protejamo-la!”), algumas das quais foram apontadas pelo apresentador do programa como provenientes de outros países. Por uma razão diferente daquela que me levou a interpretar os dois primeiros acontecimentos como possivelmente estando relacionados ao funcionamento do cinismo, esse terceiro acontecimento, também chamou a minha atenção principalmente pela irreverência performática do apresentador e, por isso, também entrou na lista de recortes que eu preparava para me lançar oficialmente, em 2014, à execução de um projeto de doutorado que eu havia submetido ao departamento do IEL linguística em julho de 2013.
Filiada à análise de discurso materialista (AD), procurei fundamentar-me em alguns trabalhos realizados no campo da filosofia, entre os quais Crítica da razão cínica (1983), de Peter Sloterdijk, “Como Marx inventou o sintoma?” (1989) e Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia (1990), de Slavoj Žižek e Cinismo e falência da crítica (2008a), de Vladmir Safatle, a fim de tentar pensar essa questão pelo viés ideológico, atuando nas fronteiras que ao mesmo tempo ligam e separam o triplo real da língua, da história e do inconsciente. Por meio das indicações do próprio Michel Pêcheux, busquei ampliar as reflexões da AD não apenas considerando o pensamento de Lacan, mas também a possibilidade de um diálogo entre esse campo teórico, cujas bases epistemológicas foram formuladas pelo grupo de pesquisa do filósofo da linguagem no final dos anos 1960, e a pragmática em sua vertente discursiva.
O resultado desse trabalho apresenta-se como um ensaio que, dividido em três partes, está pautado por um diálogo entre a AD, a teoria crítica e a pragmática discursiva, atravessado pela psicanálise. Analisando materiais recolhidos entre 2013 e 2019, proponho uma reflexão sobre o cinismo sendo praticado discursivamente como forma de captura, esvaziamento de sentido e reapropriação performativa da potência criativa e subversiva do cinismo antigo (kynismos) pelo discurso do poder.
A primeira parte desse meu percurso teórico-analítico é intitulada “O cinismo de corrente filosófica a prática discursiva” e conta com um capítulo que, baseado no trabalho de
Sloterdijk (1983) e algumas pinçadas nas aulas de Michel Foucault (2008/2010; 2009/2011), traz uma interpretação a respeito da progressão do cinismo ao longo da história. Do trabalho do filósofo alemão, interesso-me particularmente pelo par antitético kynismos-cinismo que descreve os antagonismos existentes entre o cinismo enquanto prática de resistência ao poder destinada a desmascarar e desqualificar suas contradições (kynismos) e o cinismo enquanto prática provinda do poder para destruir qualquer arma crítica, uma vez que já incorpora a própria crítica que poderia ser feita, ou seja, o cinismo enquanto reação irônica do poder à crítica subversiva kynika (zynismos ou “razão cínica”, aqui considerado como cinismo em oposição ao kynismos).
Em seguida, penso o cinismo contemporâneo como o resultado do entrecruzamento entre kynismos e cinismo estando principalmente presente nas contradições do par antitético kynismos-cinismo coabitando em um mesmo funcionamento enunciativo. E, nesse sentido, apresento e ilustro o funcionamento desse par antitético na contemporaneidade como uma rotação cíclica e ininterrupta entre a potência criativa da fonte original, popular e combativa do cinismo (kynismos) e a captura deste movimento pelas esferas do poder (cinismo), ou seja, do cinismo operando como uma contradição no interior da divisão ideológica dominação/resistência, segundo a tradição marxista. Tal reflexão me leva a questionar se os mecanismos descritos por Pêcheux em “Delimitações, inversões, deslocamentos” (1982a) como forma de resistência não podem ser reapropriados por uma posição cínica como ferramenta de dominação.
No último capítulo da primeira parte, dedico-me a pensar o discurso de Pêcheux a Lacan, partido da tripla asserção lançada pelo filósofo francês de que: Há um real da língua. Há um real da história. Há um real do inconsciente. Profundamente afetado pela psicanálise lacaniana, entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980, Pêcheux ao considerar o conceito de real, chega a esboçar reflexões acerca do atravessamento entre ideologia e inconsciente, embora não faça nenhuma alusão explícita ao trabalho do psicanalista francês. Esse atravessamento foi levado em conta nas análises que desenvolvi ao longo do trabalho.
“O cinismo como prática discursiva na contemporaneidade” é o título que proponho à segunda parte desse trabalho que se inicia com um capítulo dedicado a uma reflexão sobre o funcionamento simultâneo da lei do supereu (a fantasia) e da lei simbólica. Compreendido, na esteira de Safatle, como uma distorção performativa paradoxal entre o procedimento de justificação e a dimensão da ação, o cinismo é apontado como uma contradição posta que aparece como uma contradição resolvida, sustentada por uma paradoxal discordância legitimada e por um duplo movimento no qual saber e não saber podem existir conjuntamente.
Esse duplo movimento aparece expresso por meio da fórmula que sintetiza a lógica da renegação fetichista: Eu sei bem, mas mesmo assim... (MANNONI, 1969).
Em seguida, partindo dos mecanismos descritos por Pêcheux (1982a) como forma de resistência e do conceito de performatividade de gênero proposto por Judith Butler (1990), por meio do qual a filósofa pensa a prática da ressignificação como um modo de resistência frente a padrões hegemônicos, analiso os jogos de linguagem suscetíveis de irromper no palco das disputas de sentido não apenas como forma de resistência, mas também, e principalmente, como forma de repressão/dominação. A partir de imagens e dizeres irônicos surgidos em decorrência da truculência policial contra manifestantes e jornalistas, incluindo a detenção daqueles que portassem vinagre durantes os atos de protestos realizados na cidade de São Paulo, em junho de 2013, proponho pensar o cinismo contemporâneo, praticado a partir do lugar do poder, como uma forma de reapropriação performativa de qualquer discurso com potencial subversivo e transgressor ou de algo já (res)significado historicamente.
No último capítulo dessa segunda parte, prossigo minha reflexão acerca do acontecimento de junho de 2013, analisando a participação das mídias corporativas e digitais na captura e desvio da pauta do MPL durante a onda de protestos desencadeada no Brasil. Observo que lideranças de direita passam a mobilizar e a organizar as manifestações por meio das mídias digitais, além de pautar os protestos com demandas vazias e de cunho moral. Observo ainda que tais demandas não apenas silenciaram o debate político como também plantaram a semente daquilo que germinaria e se desenvolveria de forma progressiva durante as Jornadas de Junho, tornando-se a pauta por excelência das manifestações pacíficas, festivas e “patriotas” iniciadas em 2014: o combate à corrupção. Retomo uma das materialidades discursivas analisadas no capítulo precedente, justamente o cartaz verde e amarelo produzido na ocasião da “revolta da salada”, por meio do qual penso o cinismo como prática discursiva resultante de um movimento de reapropriação performativa irrompendo como forma de dominação. Partindo de tal materialidade, desenvolvo uma reflexão a respeito do caráter parasitário das reapropriações performativas. Minha análise se realiza por meio de um constante e crescente movimento em espiral, cujas voltas se dão em torno da questão central que envolve este capítulo: a luta contra a corrupção.
Na terceira e última parte desse trabalho, intitulada “A análise de discurso para além de suas fronteiras”, proponho um diálogo entre a AD e a pragmática discursiva atravessado pela psicanálise. Tal diálogo baseia-se em dois pontos fundamentais levantados por Shoshana Felman, em seu texto originalmente escrito em francês, em 1980, e ainda não oficialmente traduzido em português: Le scandale du corps parlant – Don Juan avec Austin ou la
séduction en deux langues. O primeiro diz respeito à assimetria entre enunciado e enunciação tratada por John L. Austin, e o segundo concerne as duas “concepções antagonistas” de linguagem apontadas por Felman a partir de sua análise do conflito da peça Don Juan, de Molière.
No segundo capítulo dessa última parte, retomo a questão da assimetria entre enunciado e enunciação para analisar três dizeres que, observados a partir de suas condições de produção e da posição-sujeito projetada no discurso, revelam-se exemplares do excesso da enunciação cínica sobre o enunciado: Trabalho escravo nunca mais, Paternité, Maternité, Diversité e Dia da Consciência Humana.
Por fim, no último capítulo, partindo do enunciado On est chez nous (“A casa é nossa”), discorro sobre o cinismo com base na dimensão da verdade, que, do ponto de vista da psicanálise, pressupõe uma narrativa e, portanto, uma estrutura de ficção que emoldura o universo simbólico do sujeito a partir de uma realidade psíquica, cuja materialidade não é a mesma das determinações sócio-históricas. Dissociada da “verdade dos fatos”, a verdade, segundo Lacan, é sempre enunciada por um semidizer mantendo com a mentira uma relação de interimplicação. Trata-se, do ponto de vista da psicanálise, de uma construção, implicando, portanto, uma performatividade.
Intermediadora entre o falante e o real e referente básico dos laços sociais, segundo Lacan, a verdade falou em cada materialidade discursiva aqui analisada. Nesse sentido, este trabalho sobre o cinismo como prática discursiva na contemporaneidade, também se revelou como um o trabalho sobre a verdade e, portanto, um trabalho sobre o real, ou seja, aquilo que “sempre se revela na ruína de um semblante” (BADIOU, 2015, p. 22).
I
Capítulo 1
O cinismo ao longo da história
Estou à procura de um homem. Diógenes de Sínope, ao ser perguntado o que fazia andando pelas ruas atenienses empunhando uma lanterna acesa em plena luz do dia.
Um estudo envolvendo o cinismo no funcionamento discursivo contemporâneo requer que remontemos à Grécia Antiga e lancemos um olhar sobre o cinismo enquanto corrente filosófica fundada por Antístenes, discípulo de Sócrates, no final do século V a.C. Considerado como uma das maiores correntes filosóficas da Antiguidade, o cinismo percorreu todo o pensamento ocidental, seus preceitos tendo sido recuperados, ressignificados e reapropriados por diversos movimentos político-ideológicos ao longo de nossa história, como, por exemplo, as manifestações de inclinação satírico-intelectual que surgiram durante o auge do Império Romano, o asceticismo cristão da Idade Média, as práticas revolucionárias dos séculos XIX e XX, a literatura e a arte moderna. Assim, no decorrer de mais de dois milênios de transformações, o cinismo passou de um movimento filosófico a uma prática discursiva que tem encontrado grande ressonância e se tornado cada vez mais hegemônica em nossas sociedades contemporâneas.
Proponho traçar aqui um percurso expondo as transformações do cinismo ao longo da história, partindo da distinção realizada entre kynismos1 (cinismo antigo) e zynismos ou razão
cínica (cinismo moderno), para evidenciar a ambivalência do cinismo (SLOTERDIJK, 1983). Remetendo histórica e filosoficamente a uma doutrina e forma de vida pautadas pelo escândalo da verdade e o rompimento com o modelo intelectualista de filosofia, o kynismos diz respeito à insolência popular contra a ideologia dominante, praticada por meio da liberdade de fala, do despudor público, do sarcasmo, da paródia, do escárnio ou de qualquer ato de dessacralização dos ritos e valores morais que sustentam os laços sociais. Em contrapartida, o zynismos é a recepção na modernidade do kynismos e de seus desdobramentos
1 O termo grego Κυνισμός tem origem em Κυνικός, que designa aquilo ou aquele que concerne ao cão ou que se
assemelha a um cão (BAILLY, 1935, p. 1152). Para efeito de simplificação da leitura, utilizei grafias latinizadas: kynismos para Κυνισμός, e kyniko para Κυνικός. Ainda visando a uma melhor leitura, optei por utilizar as desinências do português – o, a, os, as – para indicar gênero e número em vez das desinências gregas ή, όν [ῠ] que indicam, além de gênero e número, os casos em que o vocábulo se articula na sentença. Essa padronização estendeu-se aos vocábulos em citações de terceiros.
históricos, recepção marcada principalmente pela relação com o Esclarecimento. Exercendo uma profunda influência sobre os filósofos iluministas, sobretudo em seu modo de crítica polêmico, o zynismos configurou-se como resposta da ideologia dominante à provocação e subversão kynika.
Considerado como o maior representante do movimento cínico e parresiasta2 da
Antiguidade, Diógenes de Sínope praticou como ninguém o escândalo da verdade. Preferindo enfrentar a morte ao invés de renunciar à parresía3 – virtude pautada pela coragem, pela
sinceridade e pela liberdade do dizer verdadeiro em uma situação de risco –, Diógenes “em vez de produzir longos discursos, edificou sua ‘obra’ na praça do mercado de Atenas” (SLOTERDIJK, 1983, p. 212). Cagando, literalmente, para as normas, esse “tipo selvagem, espirituoso, astuto” (SLOTERDIJK, 1983, p. 220), que “pertencia ao grupo dos filósofos da vida, para os quais esta é mais importante que a literatura” (SLOTERDIJK, 1983, p. 222), fazia aparecer a verdade pelo escândalo. Como um cão, Diógenes defecava, urinava, masturbava-se e praticava sexo em espaço público. Conforme aponta Goldenberg, o discurso de Diógenes “intervém sobre o discurso dominante da Polis grega” operando performativamente “com o intuito de virá-lo pelo avesso” (GOLDENBERG, 2002, p. 64-65).
Entre cinco e seis séculos após Diógenes, mais precisamente no segundo século do primeiro milênio, a semente do proto-kynismos brotou na região do Império Romano. Foi justamente nesse período que o papel cômico do kyniko antigo cedeu lugar ao papel trágico do kyniko romano tardio. Este momento histórico também se caracterizou por uma ruptura com o cinismo enquanto crítica oral exercida às esferas do poder e pelo início de um movimento intelectual de sátira literária dirigida aos cínicos. Foi, portanto, a partir deste momento que o kynismos antigo – enraizado “numa cultura urbana do riso, nutrida por uma mentalidade aberta à espirituosidade, ao humor, ao escárnio e ao salutar desprezo pela estupidez” – foi
2 Aquele que usa a parresía, ou seja, o franc-parler (FOUCAULT, 2009), que geralmente é traduzido como
franco falar, falar franco ou falar francamente. Tendo surgido como o ápice da crítica, a parresía não está relacionada ao conteúdo da verdade, mas à maneira de dizê-la, muitas vezes por meio do escândalo público, como fazia Diógenes e seus seguidores. Conforme apontado por Vieira (2013, p. 3), a palavra parresía foi utilizada primeiramente na literatura grega, com Eurípides, por volta do século IV a.C., e recuperada e desenvolvida como conceito por Michel Foucault no estudo do cinismo em quatro momentos de sua trajetória intelectual: nos dois cursos ministrados no Collège de France – A hermenêutica do sujeito (1981-1982) e O Governo de si e dos outros (1982-1983) –, no seminário Coragem e Verdade, ministrado nos Estados Unidos, na Universidade de Berkeley, em 1983 e, em 1984, momento em que retorna a Paris para ministrar o seu último curso, publicado como A coragem da verdade (2009).
3 A grafia do termo varia. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, elaborado pela Academia Brasileira
de Letras registra apenas o termo parrésia. Na edição brasileira de A hermenêutica do sujeito (2006), publicada pela Martins Fontes, optou-se por parrhesía. Nas edições de O governo de si e dos outros (2010) e A coragem da verdade (2011), editados em português pela mesma editora, a opção foi por parresía. Em nota, o editor justifica o uso de parresía argumentando que assim se mantém a forma grega transliterada (παρρησία), mesma opção encontrada no original francês. É desta última maneira que grafarei o termo.
suplantado pelo kynismos romano tardio, que se dividiu, de um lado, em “uma tendência existencialista” e, de outro, em “uma tendência satírico-intelectual” (SLOTERDIJK, 1983, p. 239). Foram, precisamente, os escritos satíricos de Luciano de Samósata que introduziram o cinismo no mundo romano, porém, não mais como insolência popular, mas como sátira dirigida àqueles que resistiam e afrontavam o poder. A morte do Peregrino, uma impiedosa sátira de Luciano ao suicídio do filósofo grego Peregrinus Proteus, líder de uma seita kynika que se lançou numa pilha de fogo em um protesto contra o Império – performance realizada com o intuito de ensinar os homens a não temerem a morte –, retratou os kynikos como moralistas trágicos. Segundo Sloterdijk (1983, p. 240), “o que Peregrinus, o kyniko suicida convicto, mostra aos seus espectadores como exemplo de sabedoria e de heroico desprezo pela morte não passa, para Luciano, de uma ridícula deformação exibicionista”. O fragmento a seguir mostra o desprezo de Luciano pela forma de vida dos desprezadores dos costumes e da própria morte ao fazer troça de seus atos:
Foi por essa época que ele [Proteu] aprendeu a fundo a maravilhosa doutrina dos Cristãos, associando-se, na Palestina, aos seus sacerdotes e escribas. [...]; e eles veneravam-no como um deus, recorriam a ele como legislador e intitulavam-no seu protetor, juntamente com aquele que ainda hoje veneram, ou seja, o homem que foi crucificado na Palestina [Cristo], por ter introduzido esta seita no mundo. […] Na verdade, estes desgraçados estão convictos de que serão absolutamente imortais e viverão para todo o sempre, e por isso desprezam a morte, e muitos até se lhe entregam voluntariamente. Além disso, o seu primeiro legislador [Moisés] persuadiu-os de que passariam todos a ser irmãos uns dos outros, logo que, tendo mudado de religião, renegassem os deuses gregos e passassem a adorar o celebre sofista [que foi] crucificado [Cristo] (SAMÓSATA, 2013, p. 133-134).
Na ausência de um personagem espirituoso do lado dos kynikos, Luciano assumiu o papel de humorista satírico e, adotando a lógica “dos senhores”, passou a hostilizar “os homens lábeis e ressentidos, os mendigos e curadores da moral, os marginais e carentes de apoio narcísico” (SLOTERDIJK, 1983, p. 240), que compunham as seitas kynikas durante o Império Romano. “Se os kynikos são os desprezadores do mundo de sua época, Luciano, por sua vez, é o desprezador dos desprezadores, o moralista dos moralistas” (SLOTERDIJK, 1983, p. 240), pronunciando-se como “ideólogo cínico, que denuncia como loucos ambiciosos os críticos do poder entre os poderosos e cultivados” (SLOTERDIJK, 1983, p. 242). E é dessa maneira que “a crítica troca de lado”, isto é, que há “a conversão do impulso kyniko”, ou seja, a transformação de “uma crítica cultural plebeia e humorística” em uma “cínica sátira de senhores” (SLOTERDIJK, 1983, p. 242-243).
Conforme acabo de apontar, o insolente e bem-humorado filósofo das ruas cede lugar a dois personagens: ao filósofo trágico e moralista e ao intelectual satírico que zomba e ri das
práticas adotadas pelo filósofo trágico e moralista. Nesse sentido, pode-se dizer que o kynismos romano apresenta-se como uma reapropriação do kynismos antigo, na medida em que captura, a partir do lugar do poder, a sua potência criativa servindo-se dela para esvaziar e ridicularizar o próprio movimento que lhe deu origem. Não mais veiculado como crítica ao poder, mas como sátira aos críticos do poder, o kynismos romano pode ser considerado o momento inicial do processo de sobreposição de diversos movimentos políticos-ideológicos que culminarão no cinismo moderno.
Vale ressaltar que a transformação do impulso kyniko do contrapoder no cinismo do poder, realizada por meio da sobreposição de discursos, torna-se mais profunda a partir da conversão de Constantino ao cristianismo e do início da cristianização do poder. Segundo Sloterdijk:
Desde Constantino, a história política da Europa é essencialmente a história do cinismo político cristianizado que, depois dessa mudança de lado epocal, não cessou de dominar e de atormentar a reflexão política como ideologia esquizoide dos senhores (SLOTERDIJK, 1983, p. 317).
Essa ideologia esquizoide dos senhores de que fala Sloterdijk está relacionada ao fato de que o cinismo tenha se tornado uma prática discursiva antitética, conectando sentidos opostos a uma mesma mensagem, principalmente em decorrência da cristianização do Império Romano e da gradativa incorporação da crítica satírica pelo discurso do poder, como observado nos escritos de Samósata. Articulando um pensamento duplo, a partir do qual surge a doutrina dos dois reinos, o reino de Deus e o reino terreno, representados pela Igreja Católica e o Império Romano, respectivamente, os herdeiros cristãos do kynismos expurgaram-no de todas as metáforas orgânicas e corporais.
Vale também salientar que, embora o cinismo antigo não tenha encontrado muito espaço na filosofia, esta tendo sido constituída ao longo da história como prática intelectual e erudita, ele influenciou muitas manifestações políticas, artísticas e culturais no mundo ocidental, seja na sátira medieval, na paródia carnavalesca, no folclore alemão, nos movimentos revolucionários do século XIX, na arte moderna etc.
Conforme observa Vieira, Foucault alerta quanto à “importância do cinismo para além da Antiguidade”, apontando “três elementos que transmitiram, na história da Europa, o modo cínico de existência: o ascetismo cristão, os movimentos revolucionários do século XIX e a arte moderna” (VIEIRA, 2013, p. 88). A autora ressalta que, para o filósofo, “a revolução no mundo europeu moderno não foi simplesmente um projeto político, mas foi também uma
forma de vida” (VIEIRA, 2013, p. 88), baseada em um “militantismo”4 que tomou três formas
na Europa. “Na primeira delas, a vida revolucionária é entendida sob a forma da sociedade secreta” que “na maioria dos casos, não publiciza os seus combates, muito diferente do que ocorre com os cínicos, que faziam do escândalo da vida verdadeira em praça pública sua principal forma de agir” (VIEIRA, 2013, p. 89). Na segunda, “o militantismo aparece sob a forma da organização visível, reconhecida, instituída, que procura fazer valer seus objetivos e sua dinâmica no campo social e político”, manifestando-se principalmente “nas organizações sindicais ou nos partidos políticos revolucionários” (VIEIRA, 2013, p. 91). A terceira diz respeito a um “militantismo como testemunha pela vida, sob a forma de um estilo de existência, que está em ruptura com as convenções, os hábitos e os valores da sociedade”, portanto, a uma “forma específica de militância muito semelhante à dos cínicos, exatamente por ter no modo de vida contra as convenções seu principal ponto de apoio” (VIEIRA, 2013, p. 93). Na esteira de Foucault, a autora afirma que:
Esse aspecto de testemunho pela vida, do escândalo da vida revolucionária como escândalo da verdade, foi dominante nos movimentos que aparecem em meados do século XIX. Nesse sentido, para Foucault, Dostoievski e o niilismo russo deveriam ser estudados; e depois o anarquismo europeu e americano; e igualmente o problema do terrorismo e a maneira pela qual o anarquismo e o terrorismo, como prática de vida até à morte pela verdade (a bomba que mata aquele que a coloca), aparecem como um tipo de passagem ao limite, dramática ou delirante, dessa coragem pela verdade que havia sido colocada pelos gregos (VIEIRA, 2013, p. 93).
Esse “tipo de passagem ao limite” da “coragem pela verdade” exercida pelos cínicos da antiguidade aparece, portanto, na origem dos movimentos anarquistas e terroristas. Segundo Foucault: “Ir ao encontro da verdade, manifestar a verdade, fazer explodir a verdade até perder a vida ou derramar o sangue dos outros, é algo cuja longa filiação pode ser
encontrada através do pensamento europeu” (FOUCAULT, 2009, p. 170-171)5.
No que diz respeito aos partidos políticos socialistas e comunistas franceses, Vieira ressalta as duras críticas apontadas por Foucault aos “modos de vida” que eles adotaram no século XX, “invertendo completamente o sentido revolucionário do cinismo” (VIEIRA, 2013, p. 97). A autora observa que: “Ao invés da crítica aos modos de vida tradicionais e a proposta
4 Do francês, militantisme (FOUCAULT, 2009, p. 169, apud. VIEIRA, 2013, p. 88), ou seja, “a maneira pela
qual se definiu, caracterizou-se, organizou-se a vida como uma atividade revolucionária, ou elaborou-se a atividade revolucionária como vida consagrada, total ou parcialmente, à Revolução” (VIEIRA, 2013, p. 88-89).
5 « Aller à la vérité, manifester la vérité, faire éclater la vérité jusqu’à y perdre la vie ou faire couler le sang des
autres, c’est bien quelque chose dont on retrouve la longue filiation à travers la pensée européenne. » Saliento que esta e também as outras traduções de citações dos textos consultados em língua estrangeira são de minha autoria, salvo indicação contrária. Como neste caso, reproduzirei os trechos originais em língua estrangeira em nota de rodapé.
de criação de novos modos de existência, [...] os partidos revolucionários do século XX se apoiaram na retomada dos esquemas mais convencionais que a moral liberal e burguesa tinha produzido” (VIEIRA, 2013, p. 97). Nas palavras de Foucault:
Na situação atual, todas as formas, todos os estilos de vida que poderiam ter o valor de uma manifestação escandalosa de uma verdade inaceitável foram banidos, mas o tema do estilo de vida permanece, entretanto, absolutamente importante no militantismo do Partido comunista francês, na forma da injunção, de certa maneira invertida, de ter que retomar e fazer valer, em seu estilo de vida, obstinadamente e visivelmente, todos os valores recebidos, todos os comportamentos mais habituais e os esquemas de conduta mais tradicionais. De modo que o escândalo da vida revolucionária – como forma de vida que, em ruptura com toda vida aceita, faz aparecer a verdade, testemunha a favor dela – inverte-se agora, nessas estruturas institucionais do Partido comunista francês, [com] a implementação dos valores recebidos, dos comportamentos habituais, dos esquemas de conduta tradicionais, em oposição ao que seria a decadência da burguesia ou a loucura esquerdista (FOUCAULT, 2009, p. 171).6
Esse recorte no estudo de Foucault a respeito da fonte original, popular e subversiva do cinismo nos movimentos revolucionários do século XIX e da supressão de qualquer manifestação escandalosa no militantismo dos partidos socialistas e comunistas do século XX parece-me fundamental para a reflexão que desenvolvo neste trabalho, na medida em que o cinismo como prática discursiva na contemporaneidade também implica um tipo de inversão no sentido revolucionário do cinismo. Nessa perspectiva, considero que o escândalo da vida revolucionária que se inverte nas estruturas institucionais dos partidos de esquerda do século XX, devido à implementação dos valores burgueses, produz efeitos de sentido contraditórios nas práticas discursivas desses partidos e que tais efeitos são absorvidos pela ideologia dominante, esta se encarregando de perverter o escândalo e o sentido do próprio cinismo.
O percurso que tenho desenvolvido a partir de minha leitura de Sloterdijk (1983) também se apresenta como relevante, na medida em que expõe as inversões e absorções do cinismo por diversos movimentos ao longo da história. No que diz respeito ao cinismo moderno, conforme dito anteriormente, este é o resultado de um processo de desdobramento e
6 « Dans la situation actuelle, toutes les formes, tous les styles de vie qui pourraient avoir la valeur d’une
manifestation scandaleuse d’une vérité inacceptable ont été bannis, mais le thème du style de vie reste tout de même absolument important dans le militantisme du Parti communiste français, sous la forme de l’injonction, en quelque sorte inversée, d’avoir à reprendre et à faire valoir, dans son style de vie, obstinément et visiblement, toutes les valeurs reçues, tous les comportements les plus habituels et les schémas de conduite les plus traditionnels. De sorte que le scandale de la vie révolutionnaire – comme forme de vie qui, en rupture avec toute vie acceptée, fait apparaître la vérité, témoigne pour elle – s’inverse maintenant, dans ces structures institutionnelles du Parti communiste français, [avec] la mise en œuvre des valeurs reçues, des comportements habituels, des schémas de conduite traditionnels, en opposition avec ce qui serait la décadence de la bourgeoisie ou la folie gauchiste. » Minha opção por propor eu mesma a tradução desse fragmento deve-se a uma discordância entre o texto original e a tradução oficial no que diz respeito às palavras inversée e s’inverse, traduzidas, respectivamente, por revertida e se reverte. Na edição brasileira dessa obra de Foucault, publicada em 2011, esse fragmento encontra-se na página 163.
sobreposição de discursos iniciado durante o auge do Império Romano, acentuado após a cristianização do poder, durante o período de declínio e decadência desse império e transformado ao longo da história.
Configurado como resposta da ideologia dominante à irreverência e subversão kynika, o cinismo na modernidade exerceu uma importante influência sobre os iluministas. Entre os filósofos iluministas que foram relacionados ao cinismo, sobretudo em seu modo de crítica polêmico, muitas vezes mordaz e sarcástico, destacam-se Rousseau, Voltaire, d’Alembert e Diderot. Segundo Niehus-Pröbsting (2007), Diderot não apenas praticou o cinismo moderno, mas também refletiu sobre ele. E é isso que o diferencia dos outros filósofos. Em uma das obras mais importantes do cinismo moderno, O Sobrinho de Rameau, Diderot desenvolve a problemática da desprezibilidade, a partir do humor e da sátira.
Lançando mão de um exemplo extraído da literatura, Sloterdijk observa que o cinismo moderno “associa um rigoroso cinismo dos meios a um igualmente rígido moralismo dos fins” (SLOTERDIJK, 1983, p. 266, grifo do autor). Partindo de uma “ótica cínica da inversão”, o filósofo aponta o Grande Inquisidor, personagem central da obra Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, como sendo o protótipo do cinismo moderno, aquele que, a fim de dominar, “usa a verdade para mentir” (SLOTERDIJK, 1983, p. 265).
Essa afirmação de Sloterdijk a respeito da utilização da “verdade para mentir” evoca uma verdade que não diz respeito à parresía, ou seja, ao escândalo da verdade que consiste em uma virtude pautada pela coragem, pela sinceridade e pela liberdade do dizer verdadeiro em uma situação de risco. Tampouco concerne à verdade na psicanálise que, pressupondo uma narrativa, corresponde a uma realidade psíquica, segundo Freud (1900; 1913; 1917), estando, portanto, desvinculada da “verdade dos fatos”, ou seja, de uma realidade material. O conceito de realidade psíquica desenvolvido por Freud será abordado mais adiante neste trabalho, juntamente com o conceito de verdade que, elaborado por Lacan (1966a; 1969-1970; 1971; 1971-1972) a partir de Freud, implica tanto um semidizer quanto a mentira justamente por ter estrutura de ficção. Quanto à verdade evocada por Sloterdijk, esta também parece não fazer alusão à visão da verdade na pragmática que, conforme será abordada mais adiante, implica uma construção social. Ao chamar atenção aos enunciados performativos, aqueles que não funcionam segundo condições de verdade, mas sim segundo condições de felicidade, Austin (1962) problematiza a própria concepção lógica de verdade, que está no cerne dos enunciados constativos. Vale notar que, após o abandono da dicotomia constativo-performativo, o filósofo britânico considera que mesmo no enunciado constativo há uma
dimensão performativa e que, portanto, há uma dimensão de ato na verdade que extrapola o conhecimento semântico produzido sobre a verdade.
Voltando a Sloterdijk, estaria este autor fazendo alusão à verdade enquanto representações da realidade, ou seja, à verdade relacionada a uma correspondência entre linguagem e mundo, a partir da semântica lógica (cf. Frege, Wittgenstein, Russell etc.), ou a uma concepção outra de verdade? Conforme acabo de assinalar, as diversas correntes de pensamento que mobilizo neste trabalho não adotam as mesmas concepções de verdade, embora todos os autores por mim acionados convoquem essa questão em suas reflexões teóricas a respeito de temas relevantes às minhas hipóteses sobre o cinismo como prática discursiva na contemporaneidade. Nesse sentido, a verdade tanto como conceito psicanalítico, lógico ou pragmático quanto como palavra “ordinária” que, ao corresponder aos fatos, opõe-se à mentira, encontra-opõe-se preopõe-sente de forma flutuante nas reflexões que deopõe-senvolvo neste trabalho.
Por ora, retomo o percurso histórico do cinismo a partir do ponto interrompido por esse breve parêntese. Tratado aqui como funcionamento ambivalente, o cinismo moderno encontra, em sua origem, um embaralhamento entre discursos de resistência – ligados a uma forma de vida baseada na parresía e no estilo retórico performativo que perdurou no cerne do cinismo até a captura desse movimento pelos romanos durante o auge de seu império e que foi recuperado ao longo da história por movimentos políticos, artísticos e culturais – e discursos de repressão. Segundo Sloterdijk, a partir do momento em que o cinismo começa a ser incrustado no âmbito do poder, surge o par antitético kynismos-cinismo: “um par que corresponde significativamente ao par resistência e repressão”7. (SLOTERDIJK, 1983, p.
294).
Essa ambivalência kynika-cínica pode ser observada por meio do personagem Mefisto, da obra Fausto, de Goethe: “com seu lado de grande senhor, bem como com sua inclinação pela grande teoria, ele [Mefisto] é um cínico; com seu lado plebeu, realista e sensualmente alegre, orienta-se em direção ao kynismos” (SLOTERDIJK, 1983, p. 248). Segundo Sloterdijk, um dos paradoxos de Mefisto, esse “mundano e ordinário diabo” é o fato de ele ser “o verdadeiro esclarecedor (Aufklärer)” (SLOTERDIJK, 1983, p. 248), ou seja, de ter “o perfil de um kyniko esclarecedor”, revelando “um saber que só é conquistado por quem corre o risco de um olhar moralmente livre para as coisas” (SLOTERDIJK, 1983, p. 251).
7 Vale notar que a “repressão” referida no par antitético kynismos-cinismo é compreendia no sentido político, ou
Considerando os exemplos apresentados envolvendo os iluministas, seus diálogos filosóficos e também personagens-protótipos extraídos de obras literárias do século XVIII e XIX, aqui apresentados, é possível observar que na modernidade o cinismo, imbrincado tanto na cultura popular quanto no âmbito do poder, apresenta-se como uma “ironização radical da ética e da convenção social”, fazendo despontar “nos lábios dos que sabem das coisas” um “sorriso fatal e prudente”, do lado dos cínicos “poderosos” e “uma gargalhada satírica”, do lado dos cínicos “plebeus” (SLOTERDIJK, 1983, p. 32). Nas palavras de Sloterdik:
O solo moderno do cinismo encontra-se não só na cultura da cidade, mas também na esfera palaciana. As duas cunham um realismo maldoso, de onde os homens assimilam o sorriso oblíquo da franca imoralidade. [...] Vindos bem debaixo, da inteligência urbana desclassifica, e bem de cima, do topo da consciência política, sinais testemunham uma ironização radical da ética e da convenção social, como se, por assim dizer, demonstrassem que as leis comuns existem somente para os tolos e penetram o pensamento sério, enquanto nos lábios dos que sabem das coisas desponta aquele sorriso fatal e prudente. Mais precisamente: são os poderosos que sorriem assim, enquanto os plebeus kynikos fazem ouvir uma gargalhada satírica. (SLOTERDIJK, 1983, p. 32, grifo meu)
No que diz respeito à contemporaneidade, Sloterdijk observa que “o cínico apresenta-se como um tipo das massas: um caráter social medíocre na superestrutura elevada” (SLOTERDIJK, 1983, p. 32). De fato, tem sido cada vez mais comum observar no topo do poder o prevalecimento da “gargalhada satírica” sobre o “sorriso fatal e prudente”. O atual presidente da República, Jair Bolsonaro, pode ser considerado como protótipo do cinismo contemporâneo incorporado no escalão mais elevado do poder político, na medida em que encarna ao mesmo tempo a figura do rei e do bobo da corte em seu patético e burlesco personagem, revelando escancaradamente, por meio de sua “franca imoralidade” e de suas gargalhadas sarcásticas, “que as leis comuns existem somente para os tolos”.
Com base no percurso histórico aqui apresentado, acredito ser possível afirmar que o cinismo contemporâneo revela-se como o resultado de entrecruzamentos de diversos movimentos político-ideológicos que, partindo do kynismos antigo – corrente filosófica pautada pela insolência popular contra a ideologia dominante – e passando pelo kynismos romano – movimento de captura e reapropriação do kynismos antigo – culminou no cinismo moderno (zynismos), que é marcado por uma sobreposição entre características do cinismo como insolência popular e como resposta do poder à irreverência kynika. Acredito também ser possível defender que o cinismo, da maneira como se apresenta na atualidade, é um modo hegemônico de funcionamento ideológico e discursivo que tem se revelado por meio de embates kyniko-cínicos, entre resistência e repressão (coerção), estando principalmente
presente na ambiguidade do par antitético kynismos-cinismo coabitando em um mesmo funcionamento enunciativo.
Desse modo, suponho que os mecanismos utilizados pela crítica popular contra o discurso do poder, da mesma forma que aqueles empregados pela reação irônico-satírica do poder à crítica, se sobrepõem em um mesmo funcionamento enunciativo, embaralhando-se por meio de movimentos de sentido antagônicos realizados tanto no âmbito do poder quanto no âmbito popular em suas diversas formas de relação social. Nesse sentido, da mesma maneira que o escárnio, o riso, a insolência ou quaisquer outros atos kynikos, outrora reservados aos críticos do poder e da ideologia dominante, possam atualmente estar presentes na prática discursiva utilizada por um personagem político contemporâneo8, a “cínica sátira de
senhores”, que remonta ao Império Romano, também pode fazer parte da prática discursiva exercida pelas classes dominadas9. É o caso, por exemplo, do humor propagado nas ruas e
redes sociais, em que se percebe não apenas e tão somente uma irreverência típica dos contestadores, mas também e, sobretudo, uma maneira de reforçar velhos clichês contra as minorias, que se encaixa perfeitamente no funcionamento cínico da ideologia na contemporaneidade. A esse respeito, cito o documentário O riso dos outros, de Pedro Arantes (2012), no qual se distinguem dois modos de se fazer piada: por meio do humor que zomba do opressor, estabelecendo uma certa prática de resistência ao poder, um humor de contrapoder ou antipoder, que chamo de humor kyniko, e do humor que zomba do oprimido, reforçando velhos clichês e mesmo legitimando a violência contra as minorias sociais – negros, indígenas, mulheres, comunidade LGBT e outras coletividades que sofrem inúmeras formas de estigmatização, discriminação e preconceito – que chamo de humor cínico.
Portanto, o que pretendo aqui defender é que, se na Antiguidade o cinismo era uma atitude individual confinada a uma corrente filosófica de reduzida expressão, cujos adeptos criticavam as convenções sociais, na atualidade trata-se de uma prática discursiva que pode ser detectada nos mais diversos setores sociais, da cultura popular ao todo do poder. Nossa sociedade, herdeira dos intercâmbios estabelecidos pela burguesia entre o saber popular e o
8 Além de Jair Bolsonaro, destaco Donald Trump como um dos maiores expoentes do cinismo no âmbito do
poder contemporâneo.
9 Citando apenas um dentre as dezenas de casos exemplares que me vêm à cabeça neste instante, relato a fala
corriqueiramente debochada de um funcionário de um condomínio situado em uma região nobre de Campinas. Nordestino, negro, de origem humilde e com pouco estudo, o funcionário frequentemente zombava e fazia piadas impiedosas com o fato de os brasileiros – “povo sem cultura, sem educação, que não lê e não se informa” – terem elegido um presidente nordestino, de origem humilde, metalúrgico e “analfabeto”, considerando os primeiros inaptos ao exercício do voto e o segundo inapto ao cargo de chefe de Estado. Esse exemplo parece ilustrar perfeitamente a observação feita por Pêcheux de que as ideologias dominadas são, antes de tudo, dominadas por si mesmas, na medida em que se formam no interior e sob a dominação da ideologia dominante (PÊCHEUX, 1982a, p. 16).
erudito, testemunha e participa dessa conciliação firmada entre os dois extremos. Nesse sentido, o escárnio, o riso e a insolência encarnados pelo excêntrico Diógenes de Sínope, expoente máximo do kynismos antigo, são, atualmente, características que se revelam tanto na prática discursiva popular quanto erudita, ambas incorporadas na prática discursiva do poder. Do mesmo modo, a impiedosa sátira “dos senhores” para hostilizar o povo é, atualmente, constituída de características também presentes nas práticas discursivas populares. Nesse sentido, vale ressaltar que, de acordo com uma das hipóteses que defendo neste trabalho, não é possível delinear uma fronteira precisa entre o que supostamente poderia ser nomeado de prática discursiva kynika, de um lado, e prática discursiva cínica, de outro. É por isso que proponho, a seguir, uma breve reflexão a respeito do que eu defino como prática discursiva ambivalente, referindo-me ao par antitético kynismos-cinismo coabitando em um mesmo funcionamento enunciativo.
Capítulo 2
A ambivalência do par antitético kynismos-cinismo coabitando em um
mesmo funcionamento enunciativo
Chat privado entre procuradores da República vazado pelo site de notícias The Intercept Brasil
Propondo uma ampliação no debate sobre o cinismo como prática discursiva, dedico-me aqui a abordar o funcionadedico-mento do par antitético kynismos-cinismo, um par que, confordedico-me dito anteriormente, corresponde significativamente ao par resistência e repressão, fazendo alusão ao cinismo antigo e ao cinismo moderno, respectivamente. Evocando as diferenças existentes entre o cinismo enquanto prática sarcástica de resistência ao poder destinada a desmascarar e desqualificar suas contradições (kynismos), e o cinismo enquanto prática provinda do poder para desmantelar qualquer arma crítica, uma vez que já incorpora a própria crítica que poderia ser feita, ou seja, o cinismo enquanto reação irônica do poder à crítica irreverente e subversiva kynika (cinismo), o par antitético kynismos-cinismo parece funcionar como uma rotação cíclica e ininterrupta entre a potência criativa da fonte original, popular e revolucionária do cinismo e a absorção deste por meio da captura e do esvaziamento de suas virtudes.
É, portanto, como o resultado do entrecruzamento entre kynismos e cinismo que compreendo a prática discursiva na contemporaneidade, esta se revelando principalmente por meio da ambivalência do par antitético kynismos-cinismo coabitando em um mesmo funcionamento enunciativo. Dessa maneira, acredito que os mecanismos outrora utilizados exclusivamente pela crítica popular contra o poder embaralham-se àqueles que no passado também eram tão somente empregados pela reação irônico-satírica do poder à crítica, operando em um emaranhado de movimentos de sentidos sobrepostos em estruturas duais e profundamente contraditórias, produzindo, a partir de um mesmo funcionamento enunciativo, efeitos que oscilam entre possíveis formas de resistência e formas de dominação.