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Análise de métodos de territorialização em saúde

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Academic year: 2021

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JESSICA DOMINGUES

ANÁLISE DE MÉTODOS DE TERRITORIALIZAÇÃO EM SAÚDE

FLORIANÓPOLIS (SC)

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA JESSICA DOMINGUES ANÁLISE DE MÉTODOS DE TERRITORIALIZAÇÃO EM SAÚDE FLORIANÓPOLIS (SC) 2014 Monografia apresentada ao Curso de Especialização em Linhas de Cuidado em Enfermagem – Opção Doenças Crônicas Não Transmissíveis do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina como requisito parcial para a obtenção do título de Especialista.

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FOLHA DE APROVAÇÃO

O trabalho intitulado ANÁLISE DE MÉTODOS DE TERRITORIALIZAÇÃO EM SAÚDE de autoria do aluno JESSICA DOMINGUES foi examinado e avaliado pela banca avaliadora,

sendo considerado APROVADO no Curso de Especialização em Linhas de Cuidado em Enfermagem – Área Doenças Crônicas Não Transmissíveis.

_____________________________________

Profa. Ms. Emiliane Silva Santiago

Orientadora da Monografia

_____________________________________

Profa. Dra. Vânia Marli Schubert Backes

Coordenadora do Curso

_____________________________________

Profa. Dra. Flávia Regina Souza Ramos

Coordenadora de Monografia

FLORIANÓPOLIS (SC)

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DEDICATÓRIA

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AGRADECIMENTOS

Agradeço aos tutores do curso, especialmente à Professora Adriana Eich Kuhnen, pela sua delicadeza, paciência e persistência.

Agradeço à orientadora Emiliane Silva Santiago por ter respeitado meus tempos e confiado no meu trabalho.

Ao Odonel, pela companhia durante as leituras, parceria no fazer do dia-a-dia, pelas discussões que sempre me fazem repensar a realidade (e a teoria...)

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SUMÁRIO

Sumário

1 INTRODUÇÃO 1 1.1 JUSTIFICATIVA 2 1.2 OBJETIVOS 4 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 4 2.1 TERRITÓRIO 6 2.2 TERRITORIALIZAÇÃO 9 3 MÉTODO 10 4 RESULTADOS E ANÁLISE 11 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 24 REFERÊNCIAS 25 ANEXO I 29

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LISTA DE QUADROS

Quadro 1. Descrição dos métodos de territorialização encontrados nas publicações

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RESUMO

A Estratégia Saúde da Família propõe uma organização mais estruturada do território, definindo áreas de responsabilidade de cada Unidade Básica de Saúde e, por sua vez, de cada equipe e Agente Comunitário de Saúde. Tal estruturação abre novas possibilidades de trabalho, favorecendo o vínculo e seguimento longitudinal dos moradores da área mas, em si, não garante que tipo de olhar far-se-á à comunidade. O objetivo deste trabalho foi realizar uma revisão da literatura sobre métodos de territorialização; identificar os métodos que mais se adequam ao referencial teórico escolhido e realizar uma síntese organizadora que possa reorientar a prática de territorialização e que sirva como tecnologia de administração para o trabalho do enfermeiro dentro da Estratégia Saúde da Família. Trata-se de uma Pesquisa Convergente-Assistencial, cujo produto é uma tecnologia de administração para o trabalho do enfermeiro dentro da Estratégia Saúde da Família. O produto – resultado deste trabalho – se deu a partir de um levantamento bibliográfico nas bases LILACS, CidSaúde, BDENF, Respostas em Atenção Primária, CVSP, Coleciona SUS, BBO, HISA, SES SP e Index Psi usando a palavra-chave territorialização, sem filtro de data, no mês de março de 2014. Resultaram 37 publicações, destas 14 descreviam métodos de territorialização e deram base para formação de uma síntese que pode colaborar na constituição de um novo processo de trabalho na ESF.

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1 INTRODUÇÃO

Com a implantação do Sistema Único de Saúde no Brasil e a definição das diretrizes da regionalização e descentralização, surgem novos desafios para os serviços de saúde. O “Programa Saúde da Família” é então implantado numa busca de se viabilizar também estes princípios e propõe uma organização mais estruturada do território, definindo áreas de responsabilidade de cada Unidade Básica de Saúde e, por sua vez, de cada equipe e Agente Comunitário de Saúde.

Tal estruturação abre novas possibilidades de trabalho, favorecendo o vínculo e seguimento longitudinal dos moradores da área mas, em si, não garante que tipo de olhar far-se-á à comunidade, se o foco será dado às patologias que as pessoas têm, suas limitações espaciais e áreas de risco, entre outros ou se até, de forma mais dramática, não se terá olhar algum para o local e simplesmente será realizado atendimento às pessoas de acordo com o que elas demandarem mais objetivamente do serviço, reproduzindo modelos assistenciais pontuais, curativos e sem planejamento.

Analisar dada comunidade, o local em que vive, suas necessidades complexas e estabelecer com isso base para um planejamento em saúde da equipe, não é tarefa fácil. A dificuldade se inicia pela escolha teórica que pode embasar a análise. São inúmeras as teorias acadêmicas e modos de ver a vida no mundo. Dependendo da escolha, também são eleitos diferentes instrumentos ou ferramentas que possam auxiliar nesse processo.

Aparentemente esta dificuldade poderia se resumir apenas a um problema epistemológico mas, num contexto em que se pretende implantar um sistema de saúde regionalizado e descentralizado, numa visão de saúde-doença em que as condições de vida e trabalho são determinantes neste processo (saúde-doença), passa a ser um problema prático também, do cotidiano do trabalhador.

O território ou lugar – conceitos que serão discutidos adiante – é, ao mesmo tempo, parte/ alvo e contexto do objeto de trabalho na Estratégia. Não buscar analisar este lugar, enxergar a dinâmica da vida do morador/ trabalhador da área de abrangência, pode tornar o trabalhador como reprodutor de técnicas, entrando na engrenagem da reprodução social, sem enxergar para o quê está contribuindo, a favor de quais interesses e talvez esperando resultados que não serão atingidos nesta atuação “circular”. É como medicar sem saber a doença que se está tratando.

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Iniciar este processo de investigação dará base para um planejamento em saúde numa equipe de Saúde da Família de uma Unidade Básica de Saúde de São Paulo. Territorializar para assistir, é tanto princípio da Atenção Básica e, portanto, da Estratégia Saúde da Família no Brasil, como tem sido apontado como forma de compreender mais profundamente as necessidades de dado local.

A Política Nacional de Atenção Básica (MS, 2012) estabelece como atribuições comuns a todos os profissionais a participação do processo de territorialização e mapeamento da área de atuação da equipe, identificando grupos, famílias e indivíduos expostos a riscos e a contínua atualização dessas informações, priorizando as situações a serem acompanhadas no planejamento local.

O uso de metodologias de reconhecimento do território, nas dimensões demográfica, epidemiológica, administrativa, política, tecnológica, social e cultural, como instrumento de organização dos serviços de saúde, é considerado primordial na Política Nacional de Promoção da Saúde (MS, 2006).

Por outro lado, as políticas norteadoras do processo de trabalho na Atenção Básica orientam a realização de ações para grupos específicos como: criança, adulto, idoso, mulher, trabalhador. Isto contribui para a fragmentação das ações na rotina dos serviços, que têm sido organizados priorizando a assistência, com ações programáticas, com pouco enfoque na integralidade da atenção e na promoção da saúde, embasada na compreensão ampliada de saúde e de território (PESSOA et al, 2013).

1.1 JUSTIFICATIVA

Unglert (1999) coloca que a existência de uma base territorial no trabalho em saúde possibilita a concepção da saúde-doença como processo determinado socialmente, orientação para problemas e sua hierarquização referidos a uma população e espaço determinados, verificação do impacto das ações sobre os níveis de saúde, planejamento local para e pela população e profissionais da área e estabelecimento da responsabilização entre os serviços de saúde e a população.

A apreensão e a compreensão do território, apesar de complexa, além de permitir a caracterização das populações e de seus problemas de saúde, permitem a avaliação do impacto

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dos serviços sobre os níveis de saúde, abrindo espaço para o desenvolvimento de práticas voltadas para a realidade cotidiana das pessoas (SANTOS; RIGOTTO, 2011).

As ações de saúde são implementadas sobre uma base territorial com delimitação espacial determinada, portanto a territorialização representa importante instrumento de organização dos processos de trabalho e das práticas (MONKEN; BARCELLOS, 2005).

O reconhecimento do território pelos profissionais de saúde, principalmente os que têm seu trabalho no contato direto com as comunidades e realizando intervenções junto a elas, é o passo básico para um adequado planejamento. Permite também o desenvolvimento do vínculo entre os profissionais e a população, através de práticas orientadas por categorias de análise de cunho geográfico. As desigualdades sociais e a dificuldade de acesso a melhores condições de vida pela população, justificam intervenções no âmbito mais ampliado do que apenas as doenças (MONKEN, 2003).

Autores (JUNQUEIRA, 1997; FEUERWERKER; COSTA, 2000) concordam que a base populacional e geográfica permite que se identifique problemas e soluções em direção à qualidade de vida e constituição de sujeitos sociais.

A pesquisa de Rocha et al. (2009) demonstra que, de modo geral, os enfermeiros de Unidades Básicas com Estratégia Saúde da Família implantada, realizam menos do que as outras ações previstas ao profissional, o mapeamento e territorialização da área de abrangência da equipe, registrada raramente por 33(35,1%) profissionais. A elaboração do diagnóstico situacional das famílias cadastradas para identificar os problemas mais frequentes, foi citado como realizado frequentemente por 45(47,9%) enfermeiros, o que anuncia a necessidade de reforço teórico e prático em direção à estas práticas.

Este trabalho pretende iniciar uma reflexão sobre esta complexa temática, iniciando com uma escolha teórica e realizando uma breve revisão da literatura sobre quais as formas que têm sido desenvolvidas para se analisar dado território.

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1.2 OBJETIVOS

- Realizar uma revisão da literatura sobre métodos de territorialização.

- Identificar os métodos que mais se adequam ao referencial teórico escolhido.

- Realizar uma síntese organizadora que possa reorientar a prática de territorialização e que sirva como tecnologia de administração para o trabalho do enfermeiro dentro da Estratégia Saúde da Família.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Neste trabalho, a Teoria da Determinação Social do Processo Saúde-Doença (DSPSD) foi eleita para embasar a análise dos resultados. Esta teoria busca no materialismo histórico-dialético a explicitação da determinação essencial do processo.

Apesar de esta última teoria ter sua origem no século XVIII nos movimentos da patologia social e da medicina social, as discussões que a permeavam se intensificaram com a crise econômico-política do final da década de 60 na América Latina, que é caracterizada por lutas sociais e populares que reivindicavam, de formas diferentes, a satisfação das necessidades da população trabalhadora no âmbito da saúde (DOMINGUES, 2006).

O materialismo histórico-dialético é usado como referencial teórico de análise e a saúde-doença são vistas, então, como um fenômeno social, expressão da forma como a sociedade está organizada. Neste sentido, tem especial importância o desenvolvimento das forças produtivas com seus meios de produção e força de trabalho e as relações sociais de produção que geram formas de trabalho e condições de vida específicos e de forma diferenciada entre os grupos sociais, gerando potenciais de risco e benefício que, numa relação dialética, configuram-se em diferentes perfis saúde-doença, conforme a síntese das forças envolvidas nesse processo (DOMINGUES, 2006).

Processo, segundo Demo (1981), envolve o conceito de historicidade, a realidade de conflito, mutação e movimento constantes. Tal realidade processual é inacabada e fragmentária, mas há relativa persistência temporal nas fases da realidade histórica, ocorrendo uma relação

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dialética entre perene ou passageiro. Não significa progresso, podendo também incluir o retrocesso.

O processo saúde-doença, para Laurell (1983), que compartilha da visão de Breilh (1981)

É determinado pelo modo como o homem se apropria da natureza em um dado momento, apropriação que se realiza por meio de processo de trabalho baseado em determinado desenvolvimento das forças produtivas e relações sociais de produção. (p.157).

O homem é visto como um ser social e histórico e, para Laurell (1983), “o próprio processo biológico humano é social (...) na medida em que não é possível focalizar a normalidade biológica do homem à margem do momento histórico” (p.152) e por isso tem caráter histórico em si mesmo.

Tais contradições se operam nas dimensões estrutural, particular e singular. Cada uma destas dimensões mantém relação dialética com a outra. De forma geral, a dimensão estrutural se compõe dos processos de desenvolvimento da capacidade de produzir e das relações sociais que ocorrem no contexto onde há dado perfil epidemiológico. A particular é formada pelos processos relativos à forma de produzir e consumir de cada grupo sócio-econômico e a singular se compõe dos processos que, em última instância, sustentam a vida e a saúde ou conduzem ao adoecimento e morte.

O perfil epidemiológico (perfil típico de saúde-doença), para Breilh (1981), resume a essência deste complexo processo, que é histórico e manifesta-se diferentemente nos perfis reprodutivos das classes sociais.

Para Laurell (1983), a forma como a sociedade está organizada, condiciona uma visão de saúde-doença predominante na sociedade e, no caso da sociedade capitalista, predomina a visão centrada na biologia individual, expropriando o seu caráter social, por expressar as necessidades da classe dominante, cujo corpo deve estar saudável o suficiente para o trabalho. Apesar disso, não se anula o conhecimento do funcionamento biológico. Este é necessário, porém não suficiente para intervir nas suas raízes para se ter uma atuação diferenciada.

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O modo específico pelo qual ocorre no grupo o processo biológico de desgaste e reprodução, destacando como momento particular a presença de um funcionamento biológico diferente com consequência para o desenvolvimento regular das atividades cotidianas, isto é, o surgimento da doença. (p.151).

Nesta concepção de saúde-doença, as propostas de atuação para seu enfrentamento deveriam reconhecer a complexidade do fenômeno e sua relação com as outras dimensões da sociedade, assegurando respostas permanentes e conjunturais efetivas nas três dimensões, segundo prioridades que só podem ser estabelecidas em dado terreno histórico.

2.1 TERRITÓRIO

Observa-se que há, nas práticas de saúde, distintas visões sobre o território. Essas concepções têm correspondência com os diferentes olhares sobre o processo saúde-doença-intervenção e com as forças e interesses em disputa, gerando resultados nem sempre coerentes com a proposta da Constituição de 1988 (OLIVEIRA; FURLAN, 2008).

O conceito de território é fundante deste trabalho, pois a partir dele é que se pode realizar escolhas entre os diferentes métodos ou formas de se ‘ler’ ou mapeá-lo. Esta conceituação que se propõe é coerente com a Teoria da Determinação Social do Processo Saúde-doença que é a base que instiga o setor saúde numa busca de alternativas que o libertem do modo flexneriano1 de

pensar e atuar.

Neste estudo optou-se por uma visão de território como construção, produto da dinâmica de forças sociais, suas tensões e conflitos e, portanto é tomado como algo dinâmico e que jamais se conforma definitivamente. Ao mesmo tempo que território é um resultado, é também condição

1 Nome relacionado ao Relatório Flexner de 1910, realizado pela Fundação Carnegie, cujas recomendações

receberam investimento financeiro de 300 milhões de dólares por 20 anos de fundações americanas privadas. O paradigma flexneriano se expressaria por elementos como: mecanismo (corpo humano como máquina), biologismo (reconhecido apenas o aspecto biológico da doença), individualismo (atenção individual como objeto da saúde),

especialização (profundidade do conhecimento em dimensões específicas em detrimento do todo), tecnificação (como forma de mediação entre os profissionais e a doença) e curativismo (processo fisiopatológico é prestigiado em detrimento da determinação) (MENDES, 1996).

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para que as relações sociais se concretizem, influencia e é influenciado pelas forças sociais. É historicamente determinado, pertence a uma dada sociedade, de um dado local, que articula as forças sociais de uma determinada maneira (Carvalho apud MENDES; DONATO, 2003).

Importante discriminar os conceitos de espaço, território e lugar, muitas vezes usados como sinônimos. “Os espaços são conjuntos de territórios e lugares onde fatos acontecem simultaneamente, e suas repercussões são sentidas em sua totalidade de maneiras diferentes. Cada fato é percebido com maior ou menor intensidade de acordo com a organização sócio-espacial, cultural, político e econômica de cada população que habita e produz cada um desses lugares” (GONDIM et al, 2008).

O espaço geográfico é definido por Santos citado por Monken (2003), como um “conjunto indissociável de sistemas de ações e objetos”. Os objetos, para ele, “são esse extenso, essa objetividade, isso que se cria fora do homem e se torna instrumental de sua vida, tal como uma cidade, barragem, estradas de rodagem, portos, florestas, prédios, indústrias, hospitais, plantações, lagos, relevos etc. São do domínio tanto da geografia física quanto da geografia humana que, através da história desses objetos, da forma como foram produzidos e mudam, essas geografias se encontram”.

O homem em sociedade, forma instrumentos e meios sociais com os quais realiza sua vida, e, com isso, cria e transforma o espaço. Essa concepção considera todos os objetos existentes numa extensão contínua, como sistemas e não como coleções. A utilidade dos objetos, vem do seu uso pelos grupos humanos que os criaram ou que os herdaram, desempenhando inclusive um papel simbólico para o homem (MONKEN, 2003).

O território “é também um espaço, porém singularizado: sempre tem limites que podem ser político-administrativos ou de ação de um determinado grupo de atores sociais; internamente é relativamente homogêneo, com uma identidade que vai depender da história de sua construção, e o mais importante, é portador de poder – nele se exercitam e se constroem os poderes de atuação tanto do Estado, das agências e de seus cidadãos” (GONDIM et al., 2008).

O território contém inúmeros lugares. O lugar é uma porção do espaço onde se desenvolve a trama das relações sociais de cada indivíduo e que produz identificações e identidades. “O significado de cada lugar é dado pelo seu uso: lugar de produzir ou lugar de consumir; lugar de adoecer e lugar de curar; lugar de amar e lugar de lutar.” (MENDES; DONATO, 2003)

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Lugar é definido por Santos (1994) como “a extensão do acontecer homogêneo ou do acontecer solidário e que se caracteriza por dois gêneros de constituição: uma é a própria configuração territorial, outra é a norma, a organização, os regimes de regulação”.

O termo lugar deve ser associado não só à localização mas também pela sua temporalidade, É nos lugares onde se dá o encontro das atividades de rotina das pessoas, onde as características do espaço são usadas rotineiramente para construir significados da interação. “A rede territorial de conexões dessas interações humanas, ao se intensificar coletivamente, revela-se em fluxos, nos quais uma certa tipologia se institucionaliza, ditando regras, comportamentos e funções”. Os objetos (fixos) e as ações (fluxos) no espaço produzem elementos para a vida cotidiana, que concretizam a relação da pessoa com o mundo, formando “conexões materialísticas” de uma pessoa com a outra (MONKEN; BARCELLOS, 2005).

O território é “quadro de vida” das pessoas, dá forma ao cotidiano, e seu entendimento e reconhecimento, seu resgate, pode afastar a alienação e a perda do sentido da existência individual e coletiva (SANTOS, 2002). Koga (2003) coloca que a complexidade das condições de vida das pessoas pode ser conhecida a partir do conhecimento e análise do lugar e do território, podendo ser o ponto de partida para as políticas públicas. Tais políticas públicas, para Carvalho (2004), devem ter a finalidade de corrigir a desigualdade sócio-espacial.

De acordo com Andrade (2002) o conceito de território está relacionado à ideia de domínio ou gestão de determinada área e, portanto, está relacionado à ideia de poder, seja ele público, estatal ou vinculado a empresas. Vários autores têm associado o território à ideia de poder (SOUZA, 2002; GEIGER, 2002; CORRÊA, 2002; NEVES, 2002), de área de ação (NEVES, 2002), podendo também assumir uma dimensão afetiva, em consequência das ações de grupos que consolidam identidades relativas à renda, raça, religião, idade, sexo ou outros (CORRÊA, 2002). Para Corrêa (2002) “o território é o espaço revestido da dimensão política, afetiva ou ambas” (p.251) e para Silva (2004), é uma construção social.

O território não é apenas uma dimensão político-operativa do setor saúde, mas caracteriza-se por uma população singular, vivendo em tempo e espaço determinados, com problemas sanitários objetivos, mas com base na determinação social que emerge de um plano mais geral. Além de uma delimitação espacial, apresenta um perfil histórico, demográfico, epidemiológico,

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administrativo, tecnológico, político, social e cultural estando, por estas razões, em permanente construção (MIRANDA et al., 2008)

Oliveira e Furlan (2008) ressaltam que cada vez mais os serviços de saúde atendem pessoas com problemas que expressam a realidade social dos territórios, propondo uma ampliação do olhar sobre os mesmos, para que as ações sejam mais eficazes.

Barcellos citado por Monken e Barcellos (2005), destaca que “podemos afirmar que a doença é uma manifestação do indivíduo e a situação de saúde é uma manifestação do lugar, pois os lugares e seus diversos contextos sociais, dentro de uma cidade ou região, são resultado de uma acumulação de situações históricas, ambientais, sociais, que promovem condições particulares para a produção de doenças” (p.181) .

Conforme coloca Santos (2002) “É o uso do território, e não o território em si mesmo, que faz dele objeto da análise social (...) Seu entendimento é, pois, fundamental para afastar o risco de alienação, o risco da perda da existência individual e coletiva” (SANTOS, 2002, p. 15)

O território utilizado, suas formas de uso, deveria ser o elemento essencial da análise nos processos de territorialização, tendo em vista os conceitos aqui apresentados.

2.2 TERRITORIALIZAÇÃO

A territorialização é um dos pressupostos da organização do trabalho em saúde, que parte de uma delimitação territorial previamente determinada. Tal ação vem sendo preconizada por diversas políticas, estratégias e programas de saúde como a Estratégia Saúde da Família (ESF), a Vigilância Ambiental, a proposta de Cidades Saudáveis e pela própria descentralização prevista como princípio organizativo do Sistema Único de Saúde (SUS) (MONKEN; BARCELLOS, 2005).

No entanto, na prática, esta estratégia, muitas vezes, reduz o conceito de espaço/ território mais complexo e dinâmico, a uma questão administrativa, para a gestão física dos serviços de saúde, simplificando e reduzindo o valor de uma abordagem mais ampliada (MONKEN, 2003). Percebe-se a preocupação de operacionalizar o conceito de território sem refletir, discutir, os seus vários sentidos (SANTOS; RIGOTTO, 2011).

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Na ESF, a territorialização é um dos pressupostos básicos do trabalho e, nesta Estratégia, adquire sentido de “demarcação de limites das áreas de atuação dos serviços; de reconhecimento do ambiente, população e dinâmica social existente nessas áreas; e de estabelecimento de relações horizontais com outros serviços adjacentes e verticais com centros de referência” (PEREIRA; BARCELLOS, 2006, p. 48).

Monken e Barcellos (2005) destacam que a territorialização pode ser utilizada para a organização dos processos de trabalho e das práticas de saúde, mas é necessário reconhecer o território e seus contextos de uso, uma vez que os problemas de saúde e as interações humanas materializam-se de forma singular em diferentes contextos, bem como as ações que devem ser sustentadas na intersetorialidade.

A criação de divisões territoriais para fins administrativos, para facilitar a organização do trabalho, tem sido uma constante nos diferentes setores de governo. Pelo fato desses territórios serem fixos, não se considera a dinâmica social e política inerente aos territórios (PEREIRA; BARCELLOS, 2006). Territórios estão conectados por redes em que pessoas, informações e materiais circulam, não são fixos (MONKEN; BARCELLOS, 2005).

A delimitação estanque dos territórios e seu mapeamento devem ser apenas um momento inicial, sendo a territorialização um processo contínuo de análise das dinâmicas de cada lugar. A introdução de novos processos produtivos e tecnológicos, por exemplo, podem representar numerosas possibilidades de geração de riscos ou benefícios, incluindo novos danos e agravos à saúde ou prejuízos ao ecossistema local (SANTOS; RIGOTTO, 2011) e/ ou geração de renda e emprego.

3 MÉTODO

Este trabalho trata-se de uma Pesquisa Convergente-Assistencial, cujo produto é uma tecnologia de administração para o trabalho do enfermeiro dentro da Estratégia Saúde da Família. O produto – resultado deste trabalho – se deu a partir de um levantamento bibliográfico nas bases LILACS, CidSaúde, BDENF, Respostas em Atenção Primária, CVSP, Coleciona SUS, BBO, HISA, SES SP e Index Psi usando a palavra-chave territorialização, sem filtro de data, no mês de março de 2014.

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O termo territorialização não é considerado descritor de assunto mas, pelo fato de ser amplamente utilizado na área de Saúde Pública e na prática dos serviços, optou-se por aplicá-lo às buscas, correndo o risco de encontrar textos que apenas citavam o termo, pois o localizador bibliográfico, ao encontrá-lo, seja entre as palavras do título ou resumo, o seleciona.

Após a leitura das publicações na íntegra, foram eliminadas as duplicadas e aquelas que apenas citavam a territorialização sem aprofundar a discussão a respeito.

As publicações foram organizadas por ordem cronológica e descritas conforme sua coerência com o objetivo deste trabalho, ou seja, trabalhos que apresentavam ou analisavam propostas de “leitura” do território. O foco de análise escolhido foi especificamente a metodologia aplicada para realizar a territorialização. Estas propostas foram analisadas à luz da fundamentação teórica deste estudo e foi feita uma discussão sobre as aquelas que mais se adequariam à escolha teórica e que poderiam ser aplicadas à realidade da Unidade Saúde da Família.

4 RESULTADOS E ANÁLISE

Com o termo territorialização resultaram 63 publicações. Após a eliminação das duplicidades, textos que não se relacionavam ao assunto e/ ou aqueles que só citavam a territorialização como elemento importante, sem aprofundar na discussão, restaram 37 (100%) publicações. Destas não foi possível localizar o trabalho na íntegra em 9 (24,32%) publicações e o resumo não esclarecia sobre a inserção do tema deste trabalho.

Quanto ao restante, 14 (37,84%) abordavam sobre métodos de territorialização e estão relacionadas no Quadro 1; em 13 (35,13%) publicações, territorialização emergiu apenas como categoria de análise ou como referencial teórico sem discutir a questão dos seus métodos (ALMEIDA et al, 2013; RIBEIRO, 2007; GADELHA et al, 2011; MADUREIRA et al, s/d; ALEXANDRE et al, 2010; NASCIMENTO, 2009; OLIVEIRA, 2009; QUINTINO, 2009; RESER; BARROS, 2009; OLIVEIRA, 2009; VECCHIA, 2006; SAITO, 2004; SILVA; GARNELO; GIOVANELLA, 2010); 1 (2,70%) usou como técnica de pesquisa a territorialização (como aproximação ao espaço da rua), mas não detalha este método (ALBERTO, 2010).

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ANO AUTORES/ TÍTULO REFERENCIAL TEÓRICO

MÉTODO UTILIZADO, PROPOSTO OU ANALISADO DE TERRITORIALIZAÇÃO 2013 PESSOA V.M. et al. Sentidos e métodos de territorialização na atenção primária à saúde. DSPSD, Participação Social, Teorias de aprendizagem e problematização de Paulo Freire

Pesquisa-ação, técnicas participativas, mapas falantes e mapas vivos, foco na saúde ambiental e do trabalhador. Oficinas de 8 horas, a cada 21 dias (total 44h). Sujeitos escolhidos pela representatividade local nos segmentos de políticas públicas, poder público e movimentos sociais. Discurso foi analisado como um produto coletivo.

Passos:

1)Utilização de questões norteadoras (qual a utilidade e finalidade da territorialização para a comunidade e para a APS?)

2)Exposição oral com fotos do passado e presente do território pelos sujeitos;

3)Elaboração de mapas representativos da dinâmica social, ambiental e do trabalho do território em subgrupos;

4)Submissão à análise crítica dos mapas aos outros sujeitos

5)Problematização pelo pesquisador, após esgotamento das considerações do grupo, dos mapas apresentados: como se relacionam os elementos de cada mapa entre si e com a saúde2

2012 GENOVEZ P.F.;

VILARINO M.T.B.;

CAZAROTTO J.L. Entre o moderno e o rústico: a territorialização da medicina preventiva no médio Rio

Antropologia interpretativa de Clifford Geertz; análise sobre territorialidade de Robert Sack.

Método historiográfico; pesquisa em documental histórico3 e coleta de testemunhos

(funcionários e contemporâneos não-funcionários) do período histórico analisado; análise de um processo de territorialização da saúde com foco nas transformações ocorridas a

2 Exemplos citados pelos autores “transformações ambientais e a relação com a saúde; mudanças no modo de vida e

implicações na saúde; transformações no trabalho e alterações na saúde, desenvolvimento econômico e a relação com a qualidade de vida” (PESSOA et al., 2013, p. 2256).

3 Exemplos de documentos utilizados: documentação existente na Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz

(COC/Fiocruz), no Centro de Documentação e Arquivo de Custódia/Univale e periódicos (Revista do Serviço Especial de Saúde Pública, o semanário Voz do Rio Doce e o Diário do Rio Doce).

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Doce. partir da implantação do Serviço Especial de Saúde Pública. Baseou-se nos registros sobre o quê o serviço declara que fez e o que a população declara ter recebido e internalizado. 2012 DIAS E.C.; SILVA T.L.;

ALMEIDA M.H.C. Desafios para a construção cotidiana da Vigilância em Saúde Ambiental e em Saúde do Trabalhador na Atenção Primária à Saúde. DSPSD atrelada aos campos da Saúde Ambiental e do Trabalhador.

Foi realizada uma revisão bibliográfica e, entre outros pontos discutidos, foram propostos alguns elementos a serem incluídos no mapeamento das equipes para ampliar sua atuação sobre a DSPSD:

a) os processos produtivos ali instalados e analisadas as possíveis repercussões sobre a saúde dos trabalhadores e da população em geral, bem como os impactos sobre o ambiente. A simples identificação da atividade produtiva não é suficiente, uma vez que o significado da presença dessas atividades necessita ser decodificado pela equipe e traduzido na identificação dos possíveis fatores de risco para a saúde e o ambiente potencialmente gerados. b) ficha A (ficha de cadastro que os Agentes Comunitários de Saúde utilizam) não contempla informações importantes, como a construção das casas em áreas contaminadas por resíduos industriais, sobre os processos produtivos instalados no território e os possíveis riscos à saúde relacionados, bem como os impactos no ambiente. É importante que se identifique o perfil de trabalho desenvolvido nos espaços domiciliares e peridomiciliares, bem como os riscos e perigos para a saúde do trabalhador envolvido, dos outros membros da família e até mesmo da vizinhança no espaço reservado para observações (ficha A).

c) registrar na ficha D os atendimentos específicos de acidentados no trabalho.

d) Incluir siglas AT (acidente de trabalho) e DRT (doença relacionada ao trabalho) no campo de doenças ou condições referidas na ficha A.

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e) identificar perfil ocupacional e trabalhadores mais vulneráveis (desempregados, trabalho infantil, trabalho domiciliar, entre outros). f) Notificar agravos da Saúde do Trabalhador Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).

g) Analisar da situação de saúde dos trabalhadores para definição de ações prioritárias.

h) Realizar orientações e ações educativas. i) Produzir articulação intrasetorial para a vigilância dos processos e ambientes de trabalho.

2011 BRANDÃO P.S. Avaliação da qualidade da assistência aos estados reacionais em Hanseníase na Atenção Primária: o caso da AP 5.3 no município do Rio de Janeiro. Teorias de avaliação de programas de saúde.

Avaliada, entre outros elementos, a territorialização realizada no município do Rio de Janeiro – TEIAS – Territórios Integrados de Atenção à Saúde. Neste caso, a territorialização foi aplicada como método de análise do acesso e distribuição de serviços e gerados mapas através do “Google Earth”.

A construção do TEIAS se deu através de: - reuniões entre profissionais de saúde, gestores de unidades básicas, gestores da rede e conselho distrital de saúde.

- foram considerados os vazios sanitários da área e incorporadas às características sócio-culturais. - iniciado o processo de georeferenciamento através do “Google Earth”, com o levantamento dos códigos postais e visitas e diálogos com os representantes locais.

- georeferenciamento permitiu a divisão da AP em oito macro-territórios denominados complexos. Estes complexos não são estruturas oficiais para a SMSDC e sim uma forma que a coordenação da área utilizou para organizar as demandas, a supervisão e as referências locais.

2011 SANTOS A.L.; RIGOTTO

R.M. Território e

Paradigma da

Promoção da Saúde e

Para os autores, é de fundamental importância que a equipe de saúde responsável pelo território

(23)

territorialização:

incorporando as relações produção, trabalho, ambiente e saúde na Atenção Básica à Saúde.

da Produção Social da Saúde; campo da Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador

esteja atenta e capacitada para reconhecer: - os processos produtivos nele instalados – relações de produção - bem como os que se situam em seu entorno, ou mesmo remotamente, e identificar suas relações com o ambiente e com a saúde dos trabalhadores e dos moradores.4

- processos produtivos no território e suas relações com o ambiente e a saúde locais - observar também as relações do território com o sistema-mundo, a fim de não perder de vista que no contexto da globalização e do capitalismo tardio, os territórios são

predominantemente ‘territórios-rede’,

permeados por fluxos de diversas naturezas, externos a suas fronteiras, que o conectam ao mesmo tempo a inúmeras redes também externas ao seu espaço.

Passos:

1) O que já se sabe sobre este lugar? – história do lugar – ajuda a reconhecer identidade territorial, potencialidades, tradições, cultura, hábitos, valores, conflitos de poder, ocupação de solo, étnicos, ambientais; dados da população (sexo, idade, escolaridade, ocupação, morbi-mortalidade, saneamento, mapas...)

2) “Pondo o pé no chão e a mão na massa”5

-4Esse processo implica conhecer a história de ocupação de um espaço tanto humanas ou por fauna/ flora que pode

ser até um ponto de disputa e conflito no território. Implica acessar o consumo de água, energia e combustíveis fósseis que envolvem o transporte de matérias-primas, impactando no volume de tráfego em estradas e vias públicas, com a possibilidade de aumento de acidentes – atropelamentos, colisões – ou de contaminação do ambiente com substâncias químicas perigosas. O processo produtivo pode ser fonte de renda e de bem-estar, oportunidade de socialização e realização, mas também pode ser espaço de exploração, sofrimento, contaminação e acidentes, a depender das relações, condições e formas da organização do trabalho. Como resultado desse processo produtivo, estão as mercadorias, os serviços ou as infraestruturas que podem exigir vigilância; além disso, é possível que suas embalagens disseminem riscos para outros territórios. Pode haver também resíduos sólidos, efluentes líquidos e emissões atmosféricas, os quais, se não forem tratados e destinados adequadamente, podem vir a contaminar águas superficiais e subterrâneas, o solo, o ar e os alimentos no território da comunidade, causando impactos na saúde, na segurança alimentar, nas atividades econômicas de subsistência etc. As unidades produtivas podem ser geradoras e difusoras de uma cultura diferente daquela da comunidade, não só no que diz respeito às noções de tempo, disciplina, hierarquia nas relações sociais e consumo, mas também a valores, como a competitividade, que vão influenciar os modos de subjetivação do grupo social, as identidades coletivas etc (SANTOS; RIGOTTO, 2011)

5As questões abordadas nos itens 1 e 2 podem ser investigadas com base em diferentes instrumentos: dados

(24)

entrar em contato com atores com interesses distintos; estruturar um grupo de estudo sobre o território (profissionais, moradores, lideranças); o grupo deve estruturar quais perguntas querem responder e como vão buscar essas respostas6

2010 SILVA JÚNIOR E.S. et al.

Acessibilidade geográfica à atenção primária à saúde em distrito sanitário do município de Salvador, Bahia. Conceito de acessibilidade – síntese de diversos autores. Acessibilidade foi compreendida como as características da organização da oferta dos serviços de saúde que contribuem para uma maior ou menor

utilização dos

mesmos por parte dos usuários do sistema.

Estudo transversal, descritivo, sobre acessibilidade geográfica aos serviços de Atenção Básica.

a) acesso da população, contemplando os critérios distância percorrida, tempo de deslocamento, forma de deslocamento (incluindo a disponibilidade de meios de transportes), presença de barreiras geográficas, custo do deslocamento e a distribuição geográfica das áreas cadastradas;

b) processo de territorizalização Passos:

1)Entrevistas com gerentes e enfermeiros das equipes.

2) Entrevistas com médicos, enfermeiros e ACS (utilizado roteiro com perguntas abertas abordando questões norteadoras relacionadas à acessibilidade geográfica, à descrição do processo histórico de territorialização destas áreas e à lógica que norteou esse processo). 3)Utilização da ferramenta EpiMapa.

4) Análise da distribuição territorial a partir dos mapas produzidos, das áreas cobertas pelas equipes de PACS e PSF e sua relação geográfica com as unidades de saúde de referência das equipes.

2009 CIRINO D.C.S.; ALBERTO

M.F.P. Uso de drogas entre trabalhadores precoces na

Diversas teorias

explicativas sobre trabalho precoce/

A territorialização foi utilizada como uma das técnicas de pesquisa para compreender a relação entre trabalho precoce de malabares na condição temas, entrevistas com informantes-chave, elaboração de mapas pelos moradores etc (SANTOS; RIGOTTO, 2011).

6 São sugeridos alguns temas que podem ser contemplados no estudo do território: A comunidade humana e as

políticas públicas, O ‘ambiente’: ecossistema(s) e paisagem(ns) modificados, Processos de produção no território (e os fluxos que o perpassam), Os conflitos socioambientais e a percepção da comunidade – todos eles são detalhados no trabalho dos autores (SANTOS; RIGOTTO, 2011).

(25)

atividade de malabares. infantil das áreas de

psicologia e

sociologia.

de rua e drogadição. Territorialização como técnica específica de aproximação ao espaço de rua – local de domínio dos sujeitos, com a finalidade de facilitar o contato com eles. a)territorialização propicia o início dos contatos e realização de observação do contexto no qual a criança e o adolescente se encontram inseridos.

b)Permite percepção sobre os pesquisadores, quem são e dias e horários em que estão na rua. c)Permite percepção sobre o melhor dia, horário e local para encontrá-los, seus nomes (verdadeiros ou não), suas atividades e seu modo de viver na rua.

2005 MONKEN M.; BARCELLOS C. Vigilância em saúde e território utilizado: possibilidades teóricas e metodológicas. Teoria sobre “constituição do território” de Milton Santos e teoria de “constituição da sociedade” de Anthony Giddens.

Ponto de partida: mapeamento dos percursos e fluxos diários, interações e malha de redes microgeográficas:

a) Percursos: objetos geográficos que propiciam ações e diversos fluxos de matéria e pessoas (estradas, vias de pedestres, linhas de transportes públicos, canais de navegação, ferrovias, ruas, becos).

b) Barreiras físicas ou margens: interrupções lineares de continuidade ou fronteiras físicas dos objetos, não utilizadas como percursos pelos indivíduos e grupos sociais, mas que canalizam ações (margens de rios, de grandes avenidas, de desenvolvimento de construções, prédios, muros e rugosidades naturais diversas do terreno). c) ‘Nós’7: pontos em direção aos quais e a partir

dos quais o indivíduo se movimenta – agem em fase de concentração (praça, esquina) e de conjunção (cruzamento de estradas, portos e aeroportos, etc)

d) Estação: “lugar ou ponto de parada onde a mobilidade física das trajetórias dos agentes e de

7 Pode ser compreendido como “ponto ou estação, onde as interações sociais convergem para objetos (fixos) que

(26)

materialidades é suspensa ou reduzida nas ocasiões sociais” (p.902); lugar onde acontece o ‘nó’, a intersecção de atividades de diferentes indivíduos (espaço para a produção, comércio ou serviços, lazer, cultura, religião...)

2004 MAFRA M.R.P.; CHAVES

M.N. O processo de territorialização e a atenção à saúde no Programa Saúde da Família.

Políticas e programas de saúde.

Analisado um processo de territorialização de uma Unidade de Saúde da Família. Resultados encontrados:

- mapeamento

- contagem de pessoas (inquérito ou arrastão - (re) divisão da área de abrangência

- apenas um sujeito do estudo referiu que é um processo contínuo

- território como área geográfica sem considerar sua dinâmica

- levantamento de problemas de saúde (HAS, DM, alcoolismo, drogadição, doença psiquiátricas) e alguns problemas estruturais (falta de saneamento, habitação irregular, miséria, fome, desemprego

- sugere fazer mapeamento social antes do mapeamento geográfico

2003 MONKEN M.

Desenvolvimento de

tecnologia educacional a partir de uma abordagem

geográfica para a aprendizagem da territorialização em vigilância em saúde. Teoria sobre “constituição do território de Milton Santos e teoria da estruturação da sociedade de Anthony Giddens; Planejamento Estratégico Situacional de Carlos Matus

A tese de doutorado deste autor objetivou desenvolver uma metodologia de ensino-aprendizagem sobre territorialização para Agentes de Vigilância à Saúde e produziu vários roteiros para o trabalho de campo dos alunos que organizam o processo de territorialização sugerido por ele. Tais etapas incluem desde registros fotográficos, obtenção da história local através de entrevistas e/ ou documentos, análise de indicadores de saúde, produção de mapas, entre outros. Os roteiros na íntegra estão no ANEXO 1.

2002 MELIONE L.P. Utilização de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde

para Vigilância

Epidemiológica e Avaliação

Políticas e sistemas de informação em saúde.

Cita uma experiência de territorialização na cidade para apoiar o planejamento em saúde e acompanhamento dos egressos de internações hospitalares.

(27)

de Serviços Ambulatoriais em São José dos Campos-São Paulo.

às unidades de saúde.

- Descartou-se a utilização do CEP como unidade de referência;

- a delimitação do território por bairros foi utilizada pois o objetivo das listagens foi delimitar as internações dentro da área de abrangência das unidades de atendimento ambulatorial.

- A localização dos pacientes nas microáreas de risco ocorreu nas unidades por busca ativa ou análise do endereço.

- Uma codificação de bairros foi implantada. - As unidades hospitalares próprias, filantrópicas e contratadas no município foram orientadas a digitar no campo NÚMERO os códigos de bairros.

- Passou a ser digitado juntamente com o nome do logradouro (campo LOGR-logradouro) o número da residência, que antes era digitado no campo NÚMERO – no SIH-SUS.

- Cada internação dos pacientes teve registrado o código do bairro do seu endereço de residência, podendo ser relacionado à UBS de abrangência.

2001 FERNADES B.M.;

RAMALHO C.B. Luta pela terra e desenvolvimento rural no Pontal do Paranapanema (SP) Os impactos sócio-territoriais são compreendidos pelas transformações ocorridas em determinados espaços geográficos, iniciadas pelas ações das famílias sem-terra, a partir da ocupação da terra e com a implantação dos assentamentos pelo Estado.

São processos que se

Trabalho que analisou a territorialização dos participantes do MST, através das seguintes categorias: latifúndio assentamento; exclusão-ressocialização; fome-produção de alimentos; analfabetismo-escolarização; melhoria nas condições de saúde; modificação na produção agropecuária; diferentes formas de organização do espaço; cooperativismo e associativismo; mobilização e participação política.

Os impactos sócio-territoriais representam uma continuação da luta pela terra, quando os assentados lutam para conquistar a infraestrutura necessária para viver nela.

A construção das escolas, dos postos de saúde, das estradas e pontes; a implantação da rede

(28)

desenvolvem em várias fases e que

resultam em

reorganização do território.

elétrica e de transporte, o estabelecimento de políticas agrícolas, por exemplo, são dimensões desses impactos.

Para isso usaram dados do IBGE, pesquisas da Fundação SEADE, uma base de dados chamada DATALUTA, além de outras fontes de pesquisa.

Montaram mapas com a distribuição dos assentamentos. Os outros dados foram analisados numericamente. 1999 UNGLERT C.V. Territorialização em Sistemas de Saúde. DSPSD; Políticas de Saúde

Territorialização não deve se constituir com base em procedimentos rígidos. Toma parte na metodologia do Planejamento Ascendente8.

O objetivo é a apropriação do território mas o objeto escolhido pode variar em cada realidade local, fruto de opção tomada por grupos que estejam motivados a analisar o território (mortalidade infantil, cobertura vacinal....) Pistas:

a) Mapa-base

b) Setor Censitário (seus limites geográficos podem ser utilizados)

c) Bairro (representa uma forma de apropriação espontânea do território pela população)

d) Barreira geográfica (obstáculos naturais ou gerados pela urbanização e que orientam a organização dos fluxos num local e determinam distâncias)

e) Movimentos sociais urbanos (revelam problemas prioritários para a população)

f) Adscrição de clientela (mapear no nível do domicílio)

Para divisão do espaço e construção do mapa: - respeitar limites dos setores censitários, dos distritos e subdistritos, as barreiras geográficas,

8 “(...) entendido como um processo de construção do Sistema Único de Saúde, baseado em distintas realidades

locais, onde atores sociais se transformam em autores de um processo, no qual se dá a apropriação do território numa lógica voltada à Saúde” (UNGLERT, 1999, p.225).

(29)

a organização e fluxo espontâneos da comunidade.

1996 ASSIS M.M.A. et al. O processo de gestäo nas unidades básicas: limites e possibilidades de um novo agir em saúde. Produção Social da Saúde; Distrito Sanitário; políticas de saúde

- com base em mapa e instrumento pré-definido, pesquisadas barreiras geográficas e sociais; condições sócio-econômicas dos habitantes da área; equipamentos sociais existentes e suas características; dados epidemiológicos.

- organizada oficina de discussão entre equipe da UBS, docentes da EEERP-USP e lideranças da comunidade sobre a viabilidade de implantação de novas práticas de saúde com ações mais ampliadas, com conexões entre sujeitos e equipamentos diferentes, fora da UBS - identificação de questões de abrangência coletiva e social (características demográficas, geográficas, econômicas, sociais, culturais, epidemiológicas da população local)

- equipamentos sociais da área (escolas, creche, centro comunitário)

- núcleo familiar Depois:

- construção compartilhada de novo modelo de saúde centrado nas necessidades dos usuários - aprofundamento sobre os problemas levantados, priorizando ações na UBS, na Vigilância Epidemiológica e nos núcleos familiares.

- elaboração de proposta para o trabalho de campo.

Utilizados no processo elaboração de mapas de risco e Estimativa Rápida Participativa, discussões com a Comissão Local de Saúde, diversas oficinas de trabalho e discussão.

Algo notável é a diferença entre o uso do termo territorialização entre autores da área da saúde do quê para autores de áreas como Geografia ou História. No estudo de Fernandes e Ramalho (2001), territorialização não é uma prática técnica num dado local, mas um fenômeno

(30)

social de ocupação e transformação de um lugar. Mesmo no estudo de Cirino e Alberto (2009) da área da Psicologia Social, em que a territorialização é usada como técnica para aproximação dos sujeitos de pesquisa do trabalho de campo, o sentido é diferenciado, como se as autoras fossem se apropriando daquele lugar e participando do cotidiano junto com os adolescentes e não apenas como uma descrição do que é observado, como é feito muitas vezes nos programas de saúde.

Segundo Monken (2003) trata-se de um termo específico da saúde, não tendo referência conhecida na Geografia, a não ser sua compreensão como fenômeno, de territorialização/ desterritorialização e não como método. Na saúde, o conceito é entendido e aplicado de forma reducionista, limitando-se à elaboração de mapas baseados em indicadores, desconsiderando seu potencial de análise de categorias específicas da geografia como corpo de conhecimento próprio.

De acordo com Quintino (2009), a territorialização no SUS é realizada utilizando-se o conceito de regiões de saúde do Pacto de Gestão/ Saúde 2006, cujo conceito de espaço se relaciona ao esquadrinhamento de dado território para garantir acesso aos serviços de saúde, de acordo com diferentes culturas, condições sócio-econômicas, comunicação e transportes compartilhados. Na prática, os diagnósticos de condições de vida e de saúde são tratados desarticuladamente ao território analisado.

Uma proposta de saúde baseada no território deve considerar os sistemas de objetos naturais e construídos e identificar seus diversos tipos de ações e como eles são percebidos pelas populações, através de métodos que identifiquem suas singularidades e seus problemas de saúde e ambientais (MONKEN, 2003; SANTOS; RIGOTTO, 2011).

A operacionalização da categoria território apenas com finalidade administrativa limita as possibilidades de identificação de questões complexas de saúde e das correspondentes iniciativas de intervenção concreta na realidade cotidiana das coletividades humanas (SANTOS; RIGOTTO, 2011).

Dentre os textos analisados, várias são as contribuições que poderiam trazer inovações na administração do trabalho do enfermeiro dentro da Estratégia Saúde da Família, especialmente os estudos que agregam sugestões de análise dos processos produtivos no território e seus diversos detalhamentos práticos (DIAS; SILVA; ALMEIDA, 2012; SANTOS; RIGOTTO, 2011) e/ ou aqueles que proporcionam uma visão dinâmica na sua ‘leitura’, representada pela análise de fluxos e paradas, por exemplo. (MONKEN; BARCELLOS, 2005; MONKEN, 2003)

(31)

Várias metodologias participativas foram propostas e podem ajudar na concretização do processo de territorialização na prática do serviço da ESF como a discussão coletiva com representantes de diferentes grupos de interesses sobre o território (PESSOA, 2013; BRANDÃO, 2011), elaboração de mapas coletivos e sua análise pelos pares (PESSOA, 2013; MONKEN, 2003), utilização de fotos históricas e atuais para reflexão (PESSOA, 2013; MONKEN, 2003), análise de documental histórico (GENOVEZ; VILARINO; CAZAROTTO, 2012; MONKEN, 2003), problematização coletiva e estudo sobre achados no processo através de leituras, pesquisas e novas reflexões (PESSOA, 2013; SANTOS; RIGOTTO, 2011).

Métodos tão amplos de análise territorial levam a várias reflexões: é possível concretizar tal prática nos serviços de saúde com ESF implantado na forma como hoje estão organizados os serviços, com expressivo número de famílias sob responsabilidade de cada equipe, número padrão esse que desconsidera as peculiaridades de cada lugar e sua complexidade? O que se espera dos profissionais é o que está estabelecido nas metas do município e estas estão atreladas a uma avaliação quantitativa do trabalho que se traduz em número de consultas, visitas, grupos (e estes devem ter ao menos 10 pessoas participantes senão não são contabilizados como tal).

O trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde está focado na atuação sobre os grupos prioritários que, por sua vez, são definidos a partir dos Pactos pela Vida, Saúde e Gestão e estes a pactos internacionais. Grande parte da demanda do serviço está voltada a estas questões dadas a priori como prioritárias, desconsiderando o planejamento e gestão participativos no local.

A partir do apresentado, os resultados e sua discussão precisam ser apresentados aos pares no serviço de saúde com ESF implantado para análise e proposta de metodologia coletiva, pois tal empreendimento não se faz isoladamente, mas em equipe, bem como a superação das contradições levantadas.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

É importante que seja ampliada a busca bibliográfica para outros descritores ou palavras-chave, também bastante utilizados no setor saúde, tais como: mapeamento, cartografia, geoprocessamento, territorialidade. Também é necessário ampliar as bases de dados pesquisadas usando termos que sejam comuns em outros países para práticas semelhantes.

(32)

A discussão com equipe multiprofissional dos achados aqui expostos é parte essencial para que o objetivo de desenvolvimento de uma nova tecnologia de gestão se concretize, o que não foi possível finalizar neste trabalho.

(33)

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VECCHIA M.D. A saúde mental no Programa de Saúde da Família: estudo sobre práticas e

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ANEXO I

Roteiros de trabalho de campo para a prática de territorialização proposto por Monken (2003) para alunos do curso de Agentes de Vigilância em Saúde

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Referências

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