concepções do processo saúde-doença mental
no decorrer da história da humanidade
Universidade de São Paulo Escola de Enfermagem
Disciplina ENP 0253: Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiátrica
ana luisa aranha e silva
Texto de referência: Aranha e Silva AL, Fonseca RMGS da . Os nexos entre concepção do processo saúde/doença mental e as tecnologias de cuidados. Revista Latino-Americana de Enfermagem (Ribeirão Preto), v. 11, n. 6, p. 800-806, 2003.
As concepções do “processo saúde-doença mental” no
decorrer da história da humanidade
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
Relacionadas à:
1. Forma de organização social, econômica e política
2. Estágio de desenvolvimento das condições materiais de vida 3. Relação de uma dada realidade com as estruturas sociais mais
O que são as concepções do “processo saúde-doença
mental” no decorrer da história da humanidade ?
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
1. São as formas como compreendemos o fenômeno e a forma de expressão da loucura nos diferentes recortes temporais
2. Cada recorte temporal da história possibilita uma compreensão deste fenômeno
3. As compreensões não se suprimem nem são descartadas completamente, ao contrário, se acumulam e se superam, mantendo algumas qualidades das concepções anteriores
O que são as tecnologias de cuidados no decorrer da
história da humanidade ?
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
1. São as formas que inventamos, ao longo da história da humanidade, para cuidar do fenômeno da loucura nos diferentes recortes temporais
2. Cada recorte temporal da história possibilita o desenvolvimento de tecnologias que correspondem ao seu estágio de desenvolvimento social, econômico e político
3. As tecnologias não se suprimem nem são descartadas completamente, ao contrário, se acumulam e se superam, mantendo algumas qualidades das tecnologias anteriores
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
formação social e política: tribal
forma de produção social: agrícola rudimentar, resposta a necessidades imediatas de sobrevivência, distribuição eqüitativa da produção ou extração
concepção de processo saúde-doença mental: mágico-religiosa
tecnologia de cuidados: mediada pelo xamã ou sacerdote, com rituais de expulsão, rezas e benzimentos
formação social e política: castas
forma de produção social: agrícola, fabrico de metais, comércio marítimo exterior
concepção do processo saúde-doença mental: relação totêmica com os deuses, politeísmo o mal (natural ou sobrenatural) que toma o corpo humano, a cura pode estar em outra dimensão
tecnologias de cuidados: complexas, reduziam fraturas ósseas, supunham a importância do coração, das propriedades terapêuticas de determinadas drogas e tinham noção de farmacodinâmica, orações, plantas, pequenas operações
referência no tempo: Egito - 3500 aC
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
formação social e política: democracia dividida em classes (homens livres, artesãos, escravos e mulheres)
forma de produção social: agrícola e trocas marítimas
concepção de processo saúde-doença mental: a doença é uma reação espontânea e natural ao desequilíbrio, um estado não neutro, o equilíbrio será alcançado por meio da compreensão e adesão às regras verdadeiramente naturais
tecnologia de cuidados: buscar o equilíbrio, imitar e favorecer a natureza para encontrar o caminho do esforço bem sucedido, clínica hipocrática, massagens corporais, passeios, viagens, dietas, fumegações
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
formação social e política: oligarquia, república, império.
forma de produção social: agrícola e trocas marítimas
concepção de processo saúde-doença mental: causas naturais e humorais, desequilíbrio dos aspectos da vida cotidiana, culto doméstico dos espíritos, identificação com a Grécia. Cristianismo
tecnologia de cuidados: médicos formados em escola pública -formação paga pelo Estado - atitude ativa de investigação de anatomia, fisiologia, patologia e cirurgias, clínica hipocrática. Galeno (cerca de 150 d.C.): atividade
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
formação social e política: feudalismo e absolutismo - feudalismo estruturado e início dos estados-nação
forma de produção social: agrícola, substituição do escravismo pela servidão e, posteriormente, mercantilista
concepção de processo saúde-doença mental: a lei natural - senhor e escravo - seria superada na vida eterna. O equilíbrio da diferença de lugar social viria com o exercício da caridade para os senhores e submissão para os escravos
tecnologia de cuidados: Inquisição (louco errático) e Nau do Loucos (louco pobre); abandono da clínica hipocrática e retração de todas as áreas do conhecimento, centralização do saber pela Igreja, início da investigação de teorias explicativas de epidemias resultantes da circulação de seres humanos e mercadorias (Cruzadas)
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
formação social e política: passagem do feudalismo ao capitalismo
forma de produção social: agropecuária, artesanato e comércio
concepção de processo saúde doença-mental: inadaptabilidade ao processo de urbanização e expansão dos campos do saber e fazer. Cogito cartesiano: razão e desrazão. Animalidade
tecnologia de cuidados: teoria miasmática e hospital geral (Paris, 1656) cuja finalidade era exclusão de pobres, mendigos, indigentes e o controle econômico e social, vigilância, punição, coerção, disciplina: banhos, correntes, supressão da luz solar, isolamento, roda
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
formação social e política: capitalismo em consolidação e expansão
forma de produção social: artesanato, comércio e industrialização
concepção do processo saúde doença-mental: médico-moral
tecnologia de cuidados:Tratamento Moral: trabalho e disciplinarização de corpos e do espaço institucional. Tríade Pineliana. Pinel (1793).
referência no tempo: Século XVIII – Revolução Francesa e Industrial
1. Um saber: a nosografia - corpo conceitual de base científico-positiva. Inscreveu a loucura nas categorias médicas e lhe impôs o estatuto de doença mental, diferenciando-a da ociosidade e excluindo-a da normalidade social produtiva
2. Uma relação específica de poder entre o médico e o doente: o primeiro pode dizer a verdade da doença e submetê-la, pelo poder do seu saber sobre o doente
3. Um lugar para o exercício deste poder: o manicômio - lugar onde a medicina pode descobrir a verdade da doença, afastando tudo o que pode mascará-la, confundi-la ou dar-lhe formas bizarras (barros,1996; aranha e silva, 2003)
referência no tempo formação social e política forma de produção social concepção processo sdm tecnologia de cuidados
povos primitivos tribal agrícola rudimentar mágico-religiosa agente: xamã instrumento: rituais antiguidade greco-romana complexa: democracia a oligarquia agrícola e trocas marítimas desequilíbrio de processos naturais agente: médico
instrumento: clínica hipocrática
idade média feudalismo agrícola, mercantilismo religiosa agente: igreja
instrumentos: inquisição e nau do loucos
renascimento pré-capitalismo artesanato e comércio moral: cogito cartesiano
agente: corpo jurídico instrumento: internação
revolução pineliana
capitalismo em expansão
comércio e indústria médico-moral agente: médico
instrumento: tratamento moral
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
história da psiquiatria: pós advento da medicina científica Pinel: 1793
1. vertente médico-biológica: o tratamento moral, a nosologia e os anatomistas
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
história da psiquiatria: pós advento da medicina científica Freud: 1900
2. vertente psicodinâmica: a relação entre atores no processo terapêutico (terapeuta, paciente e rede de relações)
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
a. nosografia de tradição racionalista e empirista: esquirol (1772-1840), kraeplin (1804-1884: curso natural da doença), jaspers (1883-1969: psicopatologia de origem fenomenológica) e bleuler (1911 – esquizofrenia)
b. vertente biológica: somatistas franceses: falret (1794-1870), baillarger (1809-1890), tours (1804-1884: farmacologia), bayle (1799-1858), morel (1809-1873: degenerescência), magnan (1835-1868: hereditariedade), anatomista alemão: Griesinger (1817-1868)
c. neurociências e o CID-X
modelos teóricos
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
1. vertente médico-biológica: o tratamento moral, a nosologia e os anatomistas
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
o setor francês
2. vertente psicológica ou psicodinâmica
as comunidades terapêuticas
a psiquiatria comunitária americana
modelos operacionais
uma ruptura paradigmática: a desinstitucionalização
concepção basagliana do processo saúde-doença:
fenômenos humanos em constante relação de antagonismo e
de unidade – equilíbrio e desequilíbrio dos contrários, os pólos
dialéticos da realidade que se movem entre a vida e a morte
concepção do processo saúde-doença mentalconcepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
a concepção basagliana do processo saúde-doença
na cultura ocidental o processo saúde-doença está associado a uma
norma: participação na vida produtiva
• na lógica capitalista a norma (participação na vida produtiva) provoca a valorização absoluta da saúde
• nesta lógica a norma não é a vida, mas a saúde que é constantemente minada pela doença
• desta forma, a doença é compreendida como a suspensão da norma
• se o processo de tratamento não se traduz em eficiência e participação produtiva, a doença fica identificada com a morte e com incapacidade
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
concepção do processo saúde-doença mental e as tecnologias de cuidados
desinstitucionalização
modelo operacional
1. cuidado no centro de atenção psicossocial III: políticas públicas de saúde mental do SUS
2. cuidado no contexto de vida das pessoas: intervenção nas formas de morar, trabalhar e nas redes sociais de apoio
3. cuidado na rede de serviços de saúde: articulação de políticas públicas intersetoriais