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P.º R. Co. 5/2008 DSJ-CT

Sumário: Deliberação sociais. Reflexos de eventuais vícios nos registos. Poderes de qualificação do conservador. Alteração do contrato social. Título para registo.

Relatório:

1 – Em 10 de Dezembro de 2007, a coberto da ap.9, foi introduzido na Conservatória

do Registo Comercial …, o pedido de alteração do contrato social da sociedade «… International, Lda».

Para instruir o pedido foi apresentada fotocópia certificada da acta n.º 4, lavrada em 4 de Dezembro de 2007, e o pacto actualizado, subscrito por um dos gerentes.

Resulta do requerimento para registo por transcrição (Modelo 1) que as alterações do contrato respeitam, especificamente, ao artigo 5.º.

2 – O registo foi lavrado como provisório por dúvidas1 por faltar legitimidade às

sócias para deliberar a alteração do pacto social.

Com efeito, além de ter sido autorizada a cessão das quotas detidas pela sociedade «…Sociedad Limitada» para a sociedade «O… », foi deliberada a alteração do contrato social sem que para tal houvesse quórum – n.º 1 do artigo 265.º do CSC.

O facto de já se encontrarem registadas as referidas quotas a favor da cessionária e de as sócias e quotas figurarem no registo nos termos em que consta deliberado para o artigo 5.º do pacto não legitima a dispensa de deliberação tomada posteriormente à aquisição das quotas pela sociedade O….

1 A Senhora Conservadora esclarece que não desencadeou o processo de suprimento

de deficiências porque o requerente foi previamente esclarecido das dúvidas suscitadas, mas como já tinha apresentado registos nestes moldes sem que tivesse surgido qualquer obstáculo, insistiu na apresentação.

No caso em apreço nos autos, uma vez que a Conservatória tinha já informado o apresentante das deficiências de que padecia o pedido de registo e das quais aquele discordava, desencadear o processo de suprimento de deficiências previsto no artigo 52.º do CRC traduzir-se-ia na prática de um acto inútil, que à partida não possibilitaria a resolução do problema, tendo especialmente em conta que o suprimento, na óptica da recorrida, passava pela apresentação de documento comprovativo da deliberação tomada em data posterior à da cessão de quotas a favor da sociedade O…, com a intervenção positiva desta.

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3 – Este despacho, não mereceu concordância da ora recorrente que, inconformada,

o impugnou nos termos e com os fundamentos que aqui se dão por integralmente reproduzidos, dos quais destacamos, particularmente, os seguintes:

3.1 – Da acta n.º 4 da Assembleia Geral consta, por um lado, o consentimento da

sociedade à cessão das quotas e, como consequência desta deliberação, a alteração do artigo 5.º do pacto social por forma a reflectir a alteração da titularidade das quotas que passariam a ser detidas pela cessionária.

3.2 – Não faz sentido exigir-se que a deliberação da actualização do pacto seja

tomada após a formalização do contrato de cessão de quotas pela cessionária em vez de ser tomada em simultâneo com o consentimento da sociedade à referida cessão.

3.3 – A cessionária não podia comparecer na Assembleia Geral, nem votar, porque

ainda não era sócia. No entanto, após o registo da transmissão das quotas a favor da O…, a Conservatória poderia verificar o preenchimento da condição a que se encontrava sujeita a deliberação de alteração em causa, não se justificando a exigência de nova deliberação sobre a matéria.

Solicita, por isso, que o seja ordenada a elaboração do registo nos termos requeridos.

4 – Os argumentos expendidos pela recorrente não convenceram a Senhora

Conservadora que proferiu despacho de sustentação aduzindo os argumentos que aqui se dão por integralmente reproduzidos.

4.1 – Acrescenta, nesta fase2, mais um argumento apoiada nos ensinamentos de

Raúl Ventura, que relativamente ao n.º 1 do artigo 85.º do CSC salienta que o mesmo deve ser interpretado no sentido de que as alterações subjectivas do contrato respeitantes à composição pessoal da sociedade não se incluem naquela expressão, uma vez que mais não são do que o resultado de simples factos jurídicos, acrescendo ainda que o disposto no n.º 3 do artigo 59.º do CRC assegurava por si só que o texto do pacto depositado na pasta da sociedade por quotas se mantivesse actualizado no que respeita aos sócios.

Após as alterações introduzidas no Código do Registo Comercial pelo Decreto-Lei n.º 76-A/2006, de 29 de Março, não só o referido n.º 3 foi eliminado como a transmissão de quotas entre vivos passou a ser simplesmente reduzida a escrito (n.º 1 do artigo 228.º do CSC) e a ingressar no registo por mero depósito.

4.2 – Ora, sendo intenção da sociedade alterar o pacto na sequência da autorização

da cessão de quotas, a deliberação correspondente tem de ser tomada pelos actuais sócios,

2 A motivação que não tenha sido aduzida no despacho impugnado não pode ser tida

em conta em sede de recurso, uma vez que a sua apreciação deve, em regra, conter-se nos limites das questões inicialmente suscitadas – cfr. os pareceres constantes dos proc.ºs n.ºs 2/96R.P.4 e 315/2002DSJ-CT, in BRN n.ºs 5/96 e 1/2004, II, pág. 6 e 2, respectivamente.

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não fazendo qualquer sentido intervir nessa deliberação o ex-sócio que já nada tem a ver com a titularidade das quotas nem com a vida da sociedade.

5 – O processo é o próprio, as partes têm legitimidade3, o recurso é tempestivo e

inexistem questões prévias ou prejudiciais que obstem ao conhecimento do mérito do recurso.

A posição deste Conselho vai expressa na seguinte

Deliberação

1 – A alteração do contrato de sociedade só pode ser deliberada pelos sócios, salvo

quando a lei permita atribuir cumulativamente essa competência a algum outro órgão, por força do prescrito no n.º 1 do artigo 85.º do Código das Sociedades Comerciais (CSC)4.

2 – As deliberações dos sócios são provadas pelas actas das assembleias ou, quando

sejam admitidas deliberações por escrito, pelos documentos donde elas constem, em face do disposto nos artigos 54.º, n.º 1, e 63.º, n.ºs 1 e 4, ambos do CSC5.

3 O acto de registo impugnado foi requisitado pelo gerente da sociedade, por isso, o

advogado subscritor da petição de recurso hierárquico não tinha legitimidade para intervir no processo ao abrigo do disposto no n.º 2 do artigo 30.º do CRC, sendo necessária a apresentação de procuração bastante para o efeito.

4 A parte final do n.º 1 do artigo 85.º do CSC, permite atribuir cumulativamente a

competência para a alteração do contrato a outro órgão, mas em caso algum permite que ela seja retirada aos sócios.

Portanto, a competência dos sócios para a alteração do contrato é exclusiva e,

excepcionalmente, é cumulativa, mas nunca falha. – Vd. RAÚL VENTURA, in Alterações do

Contrato de Sociedade, 1986, pág. 38.

Consabidamente, nas sociedades comerciais por quotas a alteração do contrato social depende exclusivamente de deliberação dos sócios, por força do prescrito na alínea h) do n.º 1 do artigo 246.º do CSC.

5 A deliberação, segundo PINTO FURTADO, in Curso de Direito das Sociedades, 1983,

pág. 238, pode definir-se como a afirmação de vontade imputável a um ente colectivo, residualmente integrada pelo conteúdo comum do feixe de declarações receptícias paralelas (votos) que formam o seu núcleo mais numeroso (deliberação maioritária).

Estas deliberações correspondem a um processo verbal que é imprescindível verter em documento que as testemunhe. Ora, o documento no qual são consignados os factos ocorridos na reunião do órgão colegial é designado por acta.

Em regra, as deliberações são tomadas em assembleias nas quais participam os sócios, presencialmente ou por representação. Todavia, a lei prevê para todos os tipos legais de sociedades a tomada de deliberações não presenciais, unânimes e por escrito, e, ainda, tratando-se de sociedades em nome colectivo ou de sociedades por quotas, a

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3 – Para o registo de alteração do contrato social é suficiente a acta que contenha a

respectiva deliberação, salvo se esta, a lei ou o contrato exigirem outro documento, como flui da conjugação do disposto nos n.ºs 3 e 4 do artigo 85.º do Código das Sociedades Comerciais, na redacção introduzida pelo artigo 2.º do Decreto-Lei n.º 76-A/2006, de 29 de Março.

4 – Enfermando a deliberação de vícios que a lei sancione com o regime da nulidade

nos termos do disposto no artigo 56.º do CSC6, estes determinam que o correspondente

acto de registo seja recusado, tratando-se de nulidade manifesta ou ostensiva, ao abrigo do prescrito na alínea d) do n.º 1 do artigo 48.º do Código do Registo Comercial7.

tomada de deliberações por correspondência – artigos 189.º, n.º 1, e 247.º do CSC, respectivamente.

Nas sociedades unipessoais por quotas, a lei refere-se a decisões do sócio e, desde que revistam natureza igual às deliberações da assembleia geral, à necessidade de serem registadas em acta por ele assinada – artigo 270.º-E do CSC.

6 A lei pretende dar estabilidade às deliberações e aproveitá-las quanto possível, não

permitindo também que se prolonguem por muito tempo situações indefinidas. Por isso, o seu regime base é o da anulabilidade.

A nulidade das deliberações é reservada para situações muito graves que não podem ser deixadas na disponibilidade das partes.

O regime da nulidade obedece ao princípio da tipicidade, devendo caber numa das quatro categorias previstas no n.º 1 do artigo 56.º do CSC.

Dentro destas há ainda que distinguir os casos em que a nulidade resulta de vícios procedimentais (e que são excepcionais, pois dispõem contra a regra segundo a qual os vícios de procedimento implicam a anulabilidade das deliberações), que se encontram consignados nas alíneas a) e b), dos casos de nulidade substancial ou de conteúdo contemplados nas alíneas c) e d).

A grande diferença entre os vícios de procedimento e os de substância reside na natureza sanável dos primeiros (n.º 3 do artigo 56.º).

Daí que, em rigor, se diga que não se trata aqui de verdadeiras nulidades ou

nulidades puras. Cfr., sobre o ponto, MENEZES CORDEIRO, in Manual de Direito das

Sociedades, 2007, págs. 719 e segs.

7 Não é qualquer nulidade que determina a recusa do registo – esta tem, com efeito,

de ser manifesta ou ostensiva.

A matéria respeitante aos vícios das deliberações sociais é deveras complexa assim como os reflexos destes nos registos.

No caso configurado nos autos importa apurar se o acto de registo peticionado com base na aludida acta deve ser qualificado como provisório por dúvidas, por ilegitimidade de uma das sócias (como entende a recorrida) ou se deve ser lavrado em termos definitivos,

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dado que a alteração do pacto social estava condicionada à conclusão do negócio jurídico que lhe subjaz – a cessão de quotas, que já se realizou (como sustenta a recorrente).

Ora, não obstante se reconheça que existe contradição patente na afirmação, por um lado, de que a O… não era sócia da sociedade «… International, Lda.» ao tempo da deliberação de alteração do pacto social e que, portanto, não podia participar da assembleia geral, e, por outro, fazê-la já constar, como tal, do artigo 5.º do referido pacto, o registo em causa, peticionado imediatamente a seguir ao registo da cessão das quotas, com base na deliberação consignada na acta n.º 4 (apesar da inexactidão do seu teor reportada aquela data) deve ser efectuado em termos definitivos, visto que aquela deliberação não atenta contra preceitos que protejam nem interesses de ordem pública nem de terceiros.

Com efeito, como salienta LOBO XAVIER, in Anulação de deliberação social e

deliberações conexas, págs. 152 e segs., na determinação de deliberações nulas devemos

ter em conta os preceitos que se destinem a proteger interesses que não são os dos sujeitos legitimados para a impugnação das deliberações sociais – ou por outra, interesses que não são interesses dos sócios. Estão neste caso as disposições que tutelam directamente o interesse público e também as que estabelecem uma tutela autónoma de terceiros.

Parece deste modo bem claro, prossegue o Mestre, que só face à violação de preceitos que não protejam directa e especificamente terceiros ou o interesse público (stricto sensu), mas sim o interesse dos associados, é susceptível de ter aplicação o regime da anulabilidade.

Dentro, porém, da zona do direito das sociedades agora aludida há também normas imperativas ou cogentes que não podem ser arredadas nos estatutos primitivos nem pela vontade unânime dos sócios.

Sobre o ponto veja-se, também, PINTO FURTADO, in Deliberações dos Sócios, 1993,

págs. 291 e segs.

Acresce, ainda, que a ilegitimidade dos sócios é aferida no momento da tomada da deliberação, sendo indiscutível que, ao tempo, as sociedades que intervieram no processo deliberativo eram as únicas sócias da sociedade ora recorrente. – Cfr. JOSÉ DE OLIVEIRA

ASCENSÃO, in Direito Comercial, Vol. IV, 1993, pág. 275.

Mas ainda que assim não fosse, não compete ao conservador aferir da veracidade do conteúdo das actas da assembleia geral das sociedades, nem lhe competindo, designadamente, verificar a qualidade de quem interveio na deliberação nem a qualidade e as participações dos sócios presentes ou representados, sendo tais incumbências da responsabilidade da assembleia geral.

Vejam-se, neste sentido, os pareceres proferidos nos proc.ºs n.ºs R.Co.130/2001DSJ-CT, in BRN n.º 6/2003, II, pág. 29, e R.Co.32/2006DSJ-CT onde se reafirmou o entendimento de que os poderes de qualificação do conservador não são

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5 – As deliberações sociais que padeçam de mera anulabilidade por força do disposto no artigo 58.º do CSC8, não obstam à elaboração do registo do acto em termos definitivos9.

Em conformidade com o exposto, e considerando que as quotas cedidas à sociedade O… já se encontram registadas e que a deliberação consignada na acta n.º 4 apresentada para titular o registo de alteração do contrato social não se encontra ferida de nulidade manifesta ou ostensiva, é entendimento deste Conselho que o presente recurso

hierárquico merece provimento.

Lisboa, 23 de Julho de 2008

Deliberação aprovada em sessão do Conselho Técnico de 23 de Julho de 2008. Isabel Ferreira Quelhas Geraldes, relatora.

Esta deliberação foi homologada pelo Exmo. Senhor Presidente em 29.07.2008.

extensíveis ao controlo da legalidade da reunião de sócios em assembleia geral, que pertence ao presidente e à própria assembleia.

8 Este preceito concentra a anulabilidade das deliberações dos sócios. Traduzem-se

em três categorias: deliberações ilegais [alínea a)], abusivas [alínea b)] e não precedidas do mínimo de informação [alínea c)]. Cfr., para mais desenvolvimentos sobre as situações abrangidas pelo referido preceito, PEDRO PAIS DE VASCONCELOS, in A Participação Social nas Sociedades Comerciais, 2.ª edição, pág. 184.

9 Este Conselho já por diversas vezes teve oportunidade de se pronunciar sobre esta

questão tendo, invariavelmente, concluído que a mera anulabilidade das deliberações sociais não constitui só por si obstáculo ao registo definitivo. – Vejam-se, entre outros, os pareceres proferidos nos proc.ºs n.ºs 75/87R.P.3, in Pareceres do Conselho Técnico, Vol. I, pág. 347, e 55/88R.P.3, in Pareceres, Vol. II, pág. 301, R.Co.202/2002DSJ-Ct, in BRN n.º 10/2002, II, pág. 17.

Referências

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