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Educação dos sentimentos: um caminho para a paz*

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Academic year: 2021

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○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Educação para a paz S y n o p s i s R e s u m e n R e s u m o

O conflito é uma forma natural de manifestação humana. É resultado dos sentimentos, das forças que movem as pessoas a se relacionarem umas com as outras. Este artigo mostra a importância de se reconhecer a existência da agressividade e do conflito no ser humano, a necessidade do conhecimento de si mesmo, possibilitando assim um diálogo sobre valores, aspirações e a busca do sentido de quem se deseja ser.

Unitermos: educação; paz; conflitos.

Conflict is a natural form of human manifestation. It is a result of the emotions, of the forces which move people to relate to one another. This article points out the importance of recognizing the existence of aggressiveness and of conflict within human beings, the need of getting to know oneself, thus enabling a dialogue regarding values, aspirations and the search for the meaning of whom one wishes to be.

Terms: education; peace; conflicts.

Educação dos sentimentos:

um caminho para a paz*

The education of the

emotions: a path to peace

Luciene Regina Paulino Tognetta

LPG – Laboratório de Psicologia Genética; FE – Faculdade de Educação; UNICAMP – Universidade de Campinas; LEDA – Laboratório de Estudos do Desenvolvimento e da Aprendizagem; IP – Instituto de Psicologia; USP – Universidade de São Paulo

[email protected]

* TOGNETTA, L. R. P. Educação do sentimento: um caminho para a paz. Anais do XXI Encontro Nacional de Professores do Proepre: educar para a paz. Campinas, SP: Faculdade de Educação, Unicamp, 2004, p. 67-73.

El conflicto es una forma natural de manifestación humana. Es resultado de los sentimientos, de las

fuerzas que mueven las personas a relacionarse unas con las otras. Este artículo muestra la importancia de que sea reconocida la existencia de la agresividad y del conflicto en el ser humano, la necesidad del conocimiento de sí mismo, posibilitando así un diálogo sobre valores, aspiraciones y la búsqueda del sentido de quien se desea ser.

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“Eu só peço a Deus, que a guerra não me seja indiferente, que a morte não me encontre um dia, solitário sem ter feito o que eu queria...”

U

m dos grandes antônimos que podemos encontrar para paz, aquela que tanto arden-temente desejamos em nosso meio, poderia ser uma palavra que nos assusta com o horror de sua significação: a guerra. No en-tanto, a guerra nos desafia a pen-sarmos numa dimensão im-prescindível do humano: a guerra enquanto sinônimo de conflito. Horrores à parte, a idéia do conflito nos parece traduzir a mais normal das imperfeições humanas: o conflito como um desacordo, um mau funciona-mento das relações entre o Eu e o outro, ou o Eu consigo mesmo.

Muitos autores se dedicaram a traduzir a ambivalência da palavra em questão (SASTRE & MORENO, 2002; VINHA, 2004) e designar uma significação que encontramos, por exemplo, na língua chinesa: ao mesmo tempo que conflito significa perigo, vai significar também oportunidade.

Por certo, “uma relação não violenta, não pressupõe um mundo sem conflitos. Este não é tão pouco o objetivo que ela procura” (GAGNAIRE et al, 2000). A não-violência, ou se queremos, a paz, considera o conflito como estando no coração das relações entre as pessoas e

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entre os grupos humanos. É dessa forma que podemos fazê-la presente: olhando o conflito primeiro como forma natural de manifestação de uma energia que move o homem a uma busca incessante, caracterizada por duas faces distintas.

A primeira delas, e não dis-tante da segunda, é a busca por um entendimento de si – o que me leva ao conflito é de minha natureza. Estamos a falar dos sentimentos enquanto forças que movem o homem a se relacionar consigo e com os outros. Diria Winnicott (1999) que uma grande parte das raivas e das crises de cólera da infância gira em torno de uma luta decisiva entre a rea-lidade interior e a rearea-lidade exterior. Em suas palavras, “a agressividade que dificulta seriamente o trabalho da pro-fessora, é quase sempre essa dramatização da realidade inte-rior que é ruim demais para ser tolerada como tal” (ibid).

Os conflitos psíquicos da in-fância ressurgem e mais violentos por muitas vezes terem sido mal resolvidos. Quando não nos co-nhecemos, não temos controle sobre os próprios sentimentos. Eles se manifestam em forma de uma agressividade latente frente àqueles mais íntimos (pais, ir-mãos) e se fortalecem quando atingem os que de uma forma ou de outra, nos mostram o que ainda não somos e, portanto, às vezes, atinge a si próprio (en-quanto falta de confiança em si, autodestruição). A paz, considera o conflito como estando no coração das relações entre as pessoas e entre os grupos humanos Estamos a falar dos sentimentos enquanto forças que movem o homem a se relacionar consigo e com os outros

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Agressividade, enquanto um sentimento natural, faz parte de outros sentimentos primários como a alegria, a dor, a raiva, a curiosidade, o medo Falamos de agressividade. Tal termo é por nós sugerido co-mo antônico-mo de paz. Por certo, as condutas violentas carregam uma carga de agressividade, con-siderando que esta última seja uma dimensão psicológica da violência. Poderíamos concordar com Juska (1995) que agressivi-dade assim seria traduzida: “um processo comportamental, no qual alguém ou grupo de indi-víduos saem prejudicados, a par-tir de um ato praticado por outro alguém ou por outro grupo de indivíduos”.

Ou ainda poderíamos nos re-meter a Bee (1986), que divide a agressividade em duas condutas. A primeira delas é o que chama de agressividade instrumental – para conseguir algo, mas não re-sultando diretamente na intenção de causar sofrimento ao outro (quando a criança tira o brinque-do de outra a intenção não é ferir o outro e sim conseguir o que deseja). A segunda delas poderia ser chamada de agressividade hostil: tem como finalidade acometer intencionalmente uma segunda pessoa. O fato que nos parece evidente é que mesmo com tal separação, o resultado de ambos os tipos será um conflito ao menos para quem sofre a ação. Necessariamente, parece-nos que agressividade, enquanto um sentimento natural, faz parte de outros sentimentos primários co-mo a alegria, a dor, a raiva, a cu-riosidade, o medo. Assim sendo, agressividade em si, não seria boa e nem ruim. Toda pessoa

poderia então ser agressiva, pois esta seria uma tendência pri-mária do ser humano. O que podemos afirmar é que a ausên-cia de controle dessa tendênausên-cia é que pode levar ao ato violento. Por certo, sabemos que:

Existem certas características na natureza humana que se podem encontrar em todas as crianças e em todas as pessoas de qualquer idade, há constatações abran-gentes a respeito do desenvolvi-mento da personalidade humana, desde os primeiros anos de vida até a independências adulta, que são aplicáveis a todos os seres humanos, independente de sexo, raça, cor da pele, credo ou sição social. As aparências po-dem variar, mas existem denominadores comuns nos problemas humanos. Pode ser que uma criança tenda para a agressividade e outra dificil-mente revele qualquer sintoma de agressividade, desde o prin-cípio, embora ambas tenham o mesmo problema. Acontece sim-plesmente que essas duas crian-ças estão lidando de maneiras distintas com suas cargas de im-pulsos agressivos” (Palacios & Hidalgo, 1995, p. 103).

Portanto, como manifestamos os nossos “impulsos” ou a nossa “energia“ (PIAGET, 1945; 1952) pode nos levar a condutas mais ou menos violentas. Se crescer é entrar em conflito, a primeira busca pode ser assim definida: é pela manifestação daquilo que me

Há constatações abrangentes a respeito do desenvolvimento da personalidade humana, desde os primeiros anos de vida até a independências adulta

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Quando aprendemos a falar de nós, para nós mesmos e para o outro, aprendemos que há outras formas mais evoluídas de mostrar as nossas raivas, os nossos descontentamentos

move que posso promover a não-violência. Por certo, temos então a importância da manifestação de sentimentos: tomar consciência deles, pela reconstituição de fatos que me levaram a agir de tal forma, é também provocar em mim um sentimento de estima porque “sou tão importante que meus sentimentos precisam ser ditos”. É possibilidade assim de exercer um controle sobre si mesmo, sobre aquilo que me faz agir com raiva, com angústia, com indignação. Nas palavras de Moreno & Sastre (2002):

O conhecimento dos sentimentos e das emoções requer um tra-balho cognitivo, posto que implica uma tomada de cons-ciência dos próprios estados emocionais, de suas causas susceptíveis de provocar cada uma e suas conseqüências, isto é, de como reagimos quando es-tamos sob a influência de uma emoção determinada. Este é o passo mais importante para o autoconhecimento, sem o qual nos será difícil poder prever nossos próprios estados de ânimo inclusive descobrir porque experimentamos determinado sentimento, como por exemplo, porque nos colocamos de mau humor, ou porque realizamos uma mudança emocional e respondemos inesperadamente de forma brusca a uma pessoa que não tem nada a ver com a pro-blemática que realmente nos preocupa ( p. 53).

Em uma palavra: a primeira busca, pela manifestação de sen-timentos, é um caminho de se tornar autoridade sobre si mes-mo. É pelo falar de si, de suas próprias experiências morais que o homem pode repensar sua pró-pria moral e se tornar melhor para promover a paz. Tornando-se autoridade sobre si ele pode ter domínio sobre suas ações e os próprios sentimentos causadores ou conseqüentes de uma ação antes de torná-la violenta. Quan-do aprendemos a falar de nós, para nós mesmos e para o outro, aprendemos que há outras formas mais evoluídas de mos-trarmos as nossas raivas, os nos-sos descontentamentos.

No entanto, se procuramos compreender a natureza do con-flito enquanto impossibilidade de levar a paz, a nossa primeira busca seria insuficiente. Certamente, é rica do ponto de vista psicológico porque dá ao sujeito que age a possibilidade de re-significar, pela verbalização, pela representação – quando fala de si, quando dese-nha, quando escreve ou joga sim-bolicamente sobre o que sente – o poder de se autogovernar. Porém, um criminoso pode muito bem ter um autocontrole tal capaz de passar por inúmeras situações de risco de sua própria vida. Por tal motivo, para que o conflito possa se tornar oportunidade e não violência, é preciso que passemos para a nossa segunda busca: não distante da primeira e sim resul-tado dela, para vencer o conflito, é preciso que pensemos novamente

A primeira busca, pela manifestação de sentimentos, é um caminho de se tornar autoridade sobre si mesmo

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numa busca de todo aquele que é humano. Diria Paul Ricouer (1993): “mais que a justiça, mais que o amor, o que o homem busca é um sentido para a vida”. Buscar um sentido para a vida é buscar a superação. Isso significa que cada um de nós tem uma identidade própria que aspira por vir a ser: a psicologia moral tem se esforçado por com-preender a identidade enquan-to um conjunenquan-to de repre-sentações de si que busca encontrar-se enquanto “quem eu sou” e “quem eu quero ser” para responder à pergunta que fazemos “como sermos melho-res” (DAMON, 1993; TAYLOR, 1998; LA TAILLE, 2002).

Entendamos melhor o que queremos dizer com “re-presentações de si”: é o que corresponde ao “quem sou Eu?”. Enquanto representa-ções de si, a identidade é uma construção única de cada ser possível a partir de um des-dobramento de diferentes ma-neiras de “como eu me vejo” e “como quero que os outros me vejam” (BARIAUD, 1997). Por isso, as representações são plural: no contato com o ou-tro, são construídas mais de uma representação de si que me permite ter algumas ima-gens de mim mesmo – de co-mo eu ajo e de coco-mo eu gos-taria de agir, de como eu sou – o que gosto, o que sinto raiva, o que me deixa triste, e como eu gostaria de ser. São

sempre imagens reais as que eu possuo e imagens ideais, aque-las que eu busco em minha vi-da, ou seja, aquelas que dão sentido à minha existência.

Essas representações de si serão sempre valorativas (PER-RON, 1993; LA TAILLE, 2002). Cada sujeito incorpora a si um conjunto de valores aos quais seguir e esses dependem de fato das imagens que ele faz de si mesmo. Digamos que um sujeito que espanca, que agride, não se envergonharia de suas ações e mesmo seria um admirador de si por aparecer nas primeiras páginas de um jornal. Podemos afirmar que a imagem que se tem de si é fortemente determinada pelo degrau de sucesso, pela ação das pessoas significativas e pelas experiências de vida. Nesse sentido, podemos dizer que o ‘outro’ joga um papel muito importante na cons-trução da imagem de si porque as ações do sujeito admirado correspondem aos valores que ele poderá integrar em sua identidade. Resta-nos, dessa afirmação, pensar sobre a gran-de responsabilidagran-de gran-de educa-dores que somos substanciados em “outros significativos”.

Isso posto, temos ainda al-gumas considerações a fazer: é preciso pensar que há mais variáveis numa ação moral e, portanto, os sentimentos aos quais chamamos morais (ver-gonha, respeito, culpa, honra, entre outros)1, nem sempre o

Cada um de nós tem uma identidade própria que aspira por vir a ser

Resta-nos, dessa afirmação, pensar sobre a grande responsabilidade de educadores que somos substanciados em “outros significativos”

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serão. Por certo, estamos con-victos de que os sentimentos estarão presentes na ação dos sujeitos exatamente pelo fato de que são investimentos de valor (PIAGET, 1945). São essas catego-rias distintas da afetividade, os sentimentos, que nos possibi-litarão a chave para ampliarmos essa discussão. Piaget intuiria que na autonomia o medo é de decair aos olhos da pessoa res-peitada e, portanto, a vergonha, como um sentimento penoso de falta de valor que corresponderia à imagem de si, ali estaria (LA TAILLE, 2002).

De fato, quem sente vergonha sente vergonha do que é e, portanto, se vergonha é um auto-juízo negativo, é fácil entender porque quando as pessoas agem mal, atribuímos a elas o rótulo de sem vergonha exatamente porque quando assim agem, demonstram que seus valores não são morais (LA TAILLE, 2002).

Isso nos leva a entender o que muitas vezes não percebe-mos: talvez muitos de nossos adolescentes sintam vergonha de não serem violentos exatamente

porque os valores de sua iden-tidade que compõem as imagens que têm de si não correspondem aos valores morais. Por outro lado, a dignidade, ou o orgulho em agir bem, pode ser exata-mente seu contrário: orgulhar-se por agir de forma violenta, por ter um poder que o outro não dispõe para quem sabe, sentir-se um pouco melhor e dar sentido a sua vida.

Agora vejamos, estamos falando dessa busca : o homem procura um sentido para vida. Estaria por certo, nas represen-tações ou se ainda quisermos, nas imagens de si, carregadas de valores (advindos dos sentimen-tos que experimentamos – culpa, vergonha, indignação, auto-res-peito etc.) uma explicação para as condutas violentas ou con-trárias a paz?

Há um estudo sobre antropo-logia e gênero realizado por uma pesquisadora da UERJ que pode nos dar a dimensão de complexi-dade dessa nossa segunda busca. Quando questionada sobre as possíveis causas da violência ligada às questões socioeconomi-cas ou às questões sociais, Zaluar afirma que a pobreza e a desigualdade nas grandes cida-des não seriam os responsáveis isolados pela violência. Diria ela que há algo mais, no sentido de que a “ostentação” assegura: se-gundo ela, há um “etos da hipermasculinidade” que leva alguns jovens do sexo masculino a se envolverem no tráfico de drogas – arriscar a vida em

no-1. Concordamos com Piaget (1952) quan-do este autor caracteriza o desen-volvimento afetivo implicando a moral: a evolução da afetividade desde as primeiras sensações de prazer e des-prazer do início da vida aos sen-timentos morais no início da adoles-cência (e que se tornarão sentimentos ideais) levará à formação de uma “personalidade” a qual nos referimos enquanto um outro conceito, a nossos olhos mais complexo: as represen-tações de si. A pobreza e a desigualdade nas grandes cidades não seriam os responsáveis isolados pela violência Por certo, estamos convictos de que os sentimentos estarão presentes na ação dos sujeitos exatamente pelo fato de que são investimentos de valor

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me do reconhecimento e da im-posição do medo. Mas o que seria para nós esse etos de hiper-masculinidade? E o que seria, portanto, esse “algo mais”? A autora nos responderia:

Parece-me o fato de que alguns se deixam seduzir por uma ima-gem da masculinidade que está associada ao uso da arma de fogo e à disposição de matar, ter dinheiro no bolso e se exibir para algumas mulheres. A partir de entrevistas que minha equipe fez com jovens traficantes, definimos isso como um etos da hipermas-culinidade. Esse é um fenômeno que está sendo muito estudado nos EUA e na Europa e diz res-peito a homens que têm alguma dificuldade de construir uma imagem positiva de si mesmos. Precisam da admiração ou do respeito por meio do medo imposto aos outros. Por isso se exibem com armas e demonstram crueldade diante do inimigo” (Folha de São Paulo, 12 de julho de 2004).

Sem que desconsideremos as causas que a Sociologia poderia nos apresentar, ou mesmo aque-las que as Neurociências pode-riam também sugerir e, se assim acreditarmos que um dos fatores responsáveis pela violência entre nós é de fato determinado pelas imagens que temos e por aquelas que buscamos, não estaria a vio-lência então relacionada com o ideal de vida que a pessoa tem e com a construção de sua

iden-tidade? A pergunta a ser feita não seria então “que vida eu quero viver?” Essa mesma per-gunta levaria a afirmação de si mesmo: “quem eu quero ser?” e portanto, quais representações eu quero de mim? (LA TAILLE, 2004; TOGNETTA, 2004). Torna-se evidente para nós a busca do sentido para a vida quando fala-mos nas imagens reais e ideais que temos e queremos de nós.

Agora vejamos que, em posse de tais teses, podemos dizer que a tarefa de uma educação para a paz é exatamente contribuir para com essas duas buscas.

Para que um sujeito possa construir sua identidade é preciso levar em conta, portanto, seus desejos e seus sentimentos. Freqüentemente, nós acreditamos que os sentimentos de cólera, de tristeza, de raiva da criança são inaceitáveis. O que não podemos aceitar são os atos agressivos, mas nos parece que ainda não conseguimos separar dois con-textos diferentes: o fato da criança sentir e o fato da criança agir. É pela experiência do conflito, permitindo que as crianças mani-festem o que sentem, exprimindo sua raiva, sua chateação em pala-vras que estaremos contribuindo para a formação de sua identida-de. “Eu sou tão importante que minha professora/ou minha mãe pede que eu diga ao outro o que eu sinto” – é para a estima de si, como já o dissemos, que estare-mos contribuindo. Ao mesmo tempo, quando dizemos, por exemplo: “Há outra maneira de

Esse é um fenômeno que está sendo muito estudado nos EUA e na Europa e diz respeito a homens que têm alguma dificuldade de construir uma imagem positiva de si mesmos

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seu amigo/irmão saber que você está com raiva sem bater, porque não se bate nas pessoas”, as crianças podem construir para si o valor do respeito ao outro.

Quando ajudamos as crian-ças a falar de si mesmas, nós as ajudamos a tomar consciência de sua existência e a construir suas representações de si. Quando falam, as crianças têm possibilidade de re-significar os sentimentos e emoções presentes em si e comunicando aos outros, ou mesmo à professora ou aos pais, têm possibilidades de se autocontrolar e de se auto-conhecer. Essa é a importância da expressão dos sentimentos: poder transformar seus senti-mentos em palavras e con-quistar uma boa estima de si, capaz de me fazer pensar “eu posso dizer o que sinto” “o que sinto é valor”. Em que sentido nós nos estimamos e nos res-peitamos? No sentido de que somos capazes de nos designar como os locutores de nossas ações, das narrativas que con-tamos sobre nós mesmos. Por certo, quando conhecemos os nossos sentimentos e, portanto, quando estabelecemos um diá-logo conosco mesmos, sobre nossos valores, somos capazes de definir ao que aspirar.

Resta-nos afirmar que a se-gunda busca, a do sentido para a vida, faz-nos pensar em nós, em nossos desejos, em nossos obje-tivos e em nossas esperanças. Educar sujeitos para a paz é pro-mover a constituição de “quem

eu sou” e “quem eu desejo ser”. Por isso é tão importante falar de si e ao mesmo tempo, falar daquilo que me faz homem, das experiências que se pode fazer pela paz. Se quisermos pessoas que tenham um sentido para a vida, é preciso que a educação não se descuide de sua própria função: permitir o conflito e, a partir dele, possibilitar que diferentes caminhos sejam encontrados, diferentes soluções sejam propostas, diferentes sen-timentos sejam expressos.

Um exemplo de ações que a escola pode realizar é a discussão de dilemas morais, bem como as reflexões tomadas a partir de di-ferentes situações em que per-sonagens fantasiosos podem vivenciar, traduzem-se em opor-tunidades para a evolução dos juízos entre crianças e adoles-centes. Eles podem então, colo-cando-se no lugar dos perso-nagens, pensar em diferentes possibilidades de resolução dos problemas apresentados e, ao mesmo tempo, estando atentos aos seus estados de ânimo, sentirem o que sentem.

As personagens das histórias e mesmo dos dilemas agem mo-vidas também por uma “ener-gia”. As questões que apresen-tamos às crianças/adolescentes devem ser, portanto, numa pers-pectiva deontológica – das ações devidas – dos deveres: O que fica melhor fazer? Por quê? E teleo-lógica – dos desejos ou dos senti-mentos presentes: Como você acha que a personagem se

sen-Quando conhecemos os nossos sentimentos e, portanto, quando estabelecemos um diálogo conosco mesmos, sobre nossos valores, somos capazes de definir ao que aspirar

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tiu? Quando as crianças/ado-lescentes podem pensar nos sentimentos dos outros, passam a estar mais atentas a “coisas” que não são vistas aparentemente.

Quando proporcionamos mo-mentos em sala de aula em que as crianças podem pensar sobre a falta das virtudes ou as situações de violência, contrárias à paz, estamos oferecendo-lhes oportuni-dades de evoluírem em seus juízos e quem sabe, em suas ações.

Se quisermos ter um sentido para a vida, o sentido da escola precisa ser também o de quem dela participa: não é à toa que temos procurado, incessante-mente, compreender a importân-cia da participação efetiva dos alunos no planejamento das ações cotidianas da escola e na avaliação3, das mesmas ações,

também realizadas pelos alunos e ainda na consolidação das assembléias que podem, além de contribuir para o “sentido da

vida” fortalecer o “sentimento de pertencimento” que faz mais do que ver o que nos diferencia, ver o que nos une.

Costumeiramente temos ou-vido professores exaustos por vivenciar situações de desenten-dimento, menosprezo e maltratos entre os alunos (o fenômeno de

bullying, por exemplo), quando as

diferenças entre eles são acentua-das. Quando se promove em ambientes escolares a possibi-lidade de pensarem no que os une, nos problemas que têm e nas formas que podem resolver, podemos contribuir para que o grupo se fortaleça e que dimi-nuam as necessidades de ser me-lhor ou pior que os outros.

A busca maior, diria Aristó-teles, é pela felicidade (ARISTÓ-TELES, 1996). Se quisermos pes-soas mais felizes, é preciso que as ajudemos a construir o valor delas mesmas, o valor da superação de seus próprios limites e desejos.

3. O Proepre (Programa de Educação In-fantil e Ensino Fundamental) desenvol-vido pela Profa. Dra. Orly Z. Manto-vani de Assis, que discute a prática das assembléias – em que se planeja e avalia o dia de aula, há muito tempo tem viabilizado esse trabalho.

Quando as crianças/ado-lescentes podem pensar nos sentimentos dos outros, passam a estar mais atentas a “coisas” que não são vistas aparentemente

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Referências

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