Processo
22628/18.2T8SNT.L1-1
Data do documento
2 de junho de 2020
Relator
Amélia Sofia Rebelo
TRIBUNAL DA RELAÇÃO DE LISBOA | CÍVEL
Acórdão
DESCRITORES
Ampliação da matéria de facto > Sociedades
comerciais > Administrador > Remuneração > Boa-fé > Destituição > Indemnização
SUMÁRIO
I – O art. 5º, nº 1 do CPC limita o ónus de alegação das partes, e consequente preclusão, aos factos essenciais identificadores da causa de pedir ou das exceções invocadas identificadora do tipo legal por elas convocado; ónus e preclusão que não estende aos factos que, ainda que essenciais, são complementares e/ou concretizadores dos factos inicialmente alegados e que, resultando da instrução da causa, devem ser considerados pelo tribunal em sede de fundamentação de facto da decisão, independentemente de terem sido ou não alegados.
II - Como albergue lógico do novo paradigma dos poderes cognitivos do juiz na descrição processual do ‘pedaço de vida’ trazido a juízo - na busca pela decisão legal mais ajustada às concretas particularidades e vicissitudes que singularizam o caso -, a enunciação dos temas de prova deve ser elaborada em termos amplos e flexíveis (nas antípodas da atomização e pormenorização, do facto a facto isolado e desgarrado em que se materializava a tradicional condensação da matéria de facto), com a virtualidade de conter as questões de facto que, sendo relevantes para a decisão da causa, carecem de instrução, tendo como limite apenas os inerentes à causa de pedir e às exceções invocadas, por referência aos pressupostos do tipo legal normativo que aquelas e os pedidos deduzidos convocam.
III - A ampliação que nos termos do art. 662º, nº 2, al. c) do CPC seja determinada pela Relação não determina a anulação da sentença recorrida (para que sobre os factos aditados seja produzida prova) se a matéria dela objeto foi oportunamente alegada pelas partes, sujeita ao contraditório, integrada nos temas de prova, e, por isso, no objeto da instrução, mas foi omitida a sua seleção e julgamento pelo tribunal recorrido em sede de fundamentação de facto da sentença.
IV – Se, na ausência de prova em contrário, da obrigação da prestação de contas que recai sobre o órgão da administração da sociedade se impõe considerar que o que delas consta é do conhecimento das pessoas que o integram, já da aprovação das contas apenas é possível extrair que a assembleia geral da sociedade aceita ou concorda que as despesas que nelas constam inscritas foram realizadas, não que aceita ou concorda que as mesmas sejam realizadas.
V – Por referência ao art. 399º, nº 1 do CSC, atribuir remuneração e fixar remuneração são questões de facto e de direito distintas: atribuir reconduz-se ao direito dos administradores à contra-prestação pela atividade material e/ou intelectual (de gestão e representação orgânica) que prestam à sociedade; fixar reconduz-se à quantificação ou determinação do respetivo montante, sendo que apenas a esta realidade se reporta o citado art. 399º, nº1 do CSC, do qual o que a contrario se retira é que não está na disponibilidade do administrador fixar o montante da sua própria remuneração.
VI - Ainda que admita convenção em contrário entre os interessados, o direito dos administradores à remuneração corresponde a direito inerente ao cargo, dependendo da assembleia geral, não a sua atribuição, mas apenas a fixação do seu montante, que é questão de facto e de direito distinta da primeira. VII – Impondo o art. 399º, nº 1 do CSC que o montante da remuneração seja fixado/determinado pela assembleia geral de acionistas, apenas é suscetível de ser provado através da respetiva ata mas, Faltando a acta mas não sendo contestada a validade da nomeação (…), o administrador tem direito a remuneração segundo a quantidade, natureza e qualidade do seu trabalho, remuneração esta que deve ser fixada judicialmente (…) sendo de presumir que a fixada ao longo de vários anos é a que corresponde a tais factores.
VIII - Nas circunstâncias do caso, a invocação da nulidade da remuneração efetivamente paga a administradores com vista à sua desconsideração, nomeadamente, para efeitos de indemnização nos termos previstos pelo art. 403º, nº 5 do CSC, seria ao arrepio de um mínimo de coerência (de condutas e efeitos reais pelas mesmas produzidas nas esferas de cada uma das partes) apta a consubstanciar o exercício abusivo de direito, na modalidade de supressio, por colidir com a expectativa que o conjunto daquelas circunstâncias e condutas (por ação e omissão) são objetivamente idóneas a criar no espírito dos recorrentes, ou de quaisquer outros no seu lugar, no sentido de neles criar a convicção e confiarem que, perante a inércia, ‘permissividade’ ou ausência de oposição ou de qualquer outra reação dos demais administradores e acionistas ao longo de pelo menos cerca de três anos, a sociedade se iria abster de invocar a nulidade da remuneração que durante todo aquele tempo, e ‘quem de direito’, sabia ser paga pela ré aos recorrentes.
IX - No caso, a invocação da nulidade da remuneração auferida pelos autores como fundamento impeditivo, in totum, do direito à indemnização a que se arrogam com fundamento no art. 403º, nº 5 do CSC, para além de atentar: contra a boa fé, que se presume da banda de ambas as partes perante o estado de coisas que entre elas e com o conhecimento de quem de direito se prolongou e perdurou durante mais de um mandato; contra os bons costumes, por atentar contra um direito (à remuneração) que a realidade jurídico-empresarial tem como inerente ao cargo de administrador; mais atentaria contra o fim social ou económico do direito de invocar tal nulidade, posto que a norma em que se fundamenta (art. 399º, nº 1 do CSC) não visa a negação do exercício do direito previsto pelo art. 403º, nº 5 do CSC, mas sim obstar a que o montante da remuneração a pagar pela sociedade aos administradores fique na inteira disponibilidade e critério destes, à margem do controlo, sindicância e poder de ajustamento da mesma pelos titulares do capital da sociedade obrigada ao seu cumprimento.
X – Ainda que a obrigação de indemnização se apresente dogmaticamente como contrapartida do direito da sociedade à livre destituição dos seus administradores (ad nutum), é consensual, na doutrina e
jurisprudência, que o art. 403º, nº 5 do CSC não estabelece o montante da indemnização devida na falta de estipulação contratual, nem tão pouco a prevê como consequência ou efeito automático da destituição; apenas fixa o limite máximo (dos danos patrimoniais sofridos).
XI - A perda da remuneração que, não fosse a destituição, o administrador iria auferir até ao temo do mandato, consubstancia por si só consequência direta e imediata da destituição mas, à perda dessa remuneração não corresponde inevitavelmente redução de rendimentos, precisamente porque, ao menos em teoria, da consequente cessação dessas funções decorre correspondente disponibilidade para o exercício de outras atividades geradoras ou fonte de rendimentos; questão é que as mesmas se lhe apresentem como possibilidades viáveis e reais, ao alcance da sua decisão, de as exercer ou não, e de as mesmas gerarem rendimento.
XII - Na ponderação desta questão, ainda que se entenda, como entendemos, que à indemnização prevista pelo art. 403º, nº 5 do CSC tem de se aplicar os princípios gerais da responsabilidade civil - porque para eles remete o segmento nos termos gerais de direito nele contido -, há que conceder na presunção natural da perda do lucro cessante que decorre da perda da retribuição auferida na sociedade, presunção que faz recair sobre esta a contra-prova de que o destituído obteve ou vai obter rendimentos de outra fonte ou que os poderia ter obtido se assim o quisesse.
TEXTO INTEGRAL
Acordam no Tribunal da Relação de Lisboa:
I - RELATÓRIO
NJ.., com o NIF .., e NR.., com o NIF --, instauram ação declarativa comum contra S… – SGPS, S.A., NIPC …, com sede em Avenida da ……Alcabideche, pedindo seja esta condenada no pagamento de indemnização, a cada um deles, do montante de €64.500,00, a título de lucros cessantes decorrentes da destituição de ambos do Conselho de Administração, e do valor correspondente aos subsídios de férias e de natal dos anos de 2017 a 2020, alegando não terem sido pagos, acrescidos de juros de mora, vencidos e vincendos, até integral e efetivo pagamento.
Em síntese, alegam que são acionistas da requerida e que desde a sua constituição, em 31.12.2008, dela foram administradores por mandatos que foram sendo renovados, o ultimo dos quais para o quadriénio de 2016/2019 e inscrito no registo em 26.01.2017, que no âmbito de Assembleia Geral Extraordinária realizada em 27.06.2017 foi deliberada a sua destituição sem justa causa, deixando cada um dos autores de auferir a remuneração que até aí auferiam, no montante de €1.500,00, que a ré é proprietária de outras empresas nas quais os autores tinham o cargo de vogal nos respetivos Conselhos de Administração, dos quais também foram destituídos em junho de 2017 à semelhança do que ocorreu na ré, deixando os autores desprovidos de rendimento. Mais alegam que, porque a designação para o quadriénio 2016/2019 apenas foi registada em 26 de janeiro de 2017, deverá entender-se que o seu mandato apenas terminaria
em janeiro de 2021, calculando por isso o valor da indemnização de julho de 2017 a janeiro de 2021 (43 meses) à razão mensal de € 1.500,00, a que acrescentam os valores correspondentes aos subsídios de férias e de natal de 2017 a 2020 que deixaram de receber.
Juntaram documentos, arrolaram testemunhas, e requereram a notificação da ré para juntar aos autos o registo das respetivas ações, e os recibos de vencimentos dos autores relativos ao período de 12 meses que antecedeu as suas destituições.
A ré contestou, por exceção, arguindo a incompetência material do Juízo de Comércio para apreciação e tramitação da presente ação, a ineptidão da petição inicial, o abuso de direito, na modalidade da supressio, com fundamento no facto de posteriormente à destituição e durante os dois anos seguintes os autores terem instaurado várias ações contra a ré e empresas do grupo sem que tenham reclamado o direito à indemnização pela destituição do cargo de administradores da ré, criando nesta a expectativa de que não o iriam exercer, e a nulidade da atribuição e do pagamento de remuneração aos autores por falta de deliberação em Assembleia Geral nesse sentido; por impugnação alegando que o mandato do quadriénio 2016/2019 termina(ou) em 31 de Dezembro de 2019 e não, conforme os autores alegam, em 2021, que os valores por estes auferidos não era a título de remuneração pelo exercício do cargo de administradores, que foram convocados para a assembleia e a mesma ocorreu com o seu conhecimento, e que não alegam nem provam ausência de rendimentos desde a data da sua destituição até à instauração da presente ação, antes, desde julho de 2017 até ao presente despenderam €18.462,00 em taxas de justiça por eles pagas nas (14) ações que nesse período instauraram contra a ré, demais administradores e grupo económico da mesma, o autor NJ..devia ter apresentado informação do Centro Nacional de Pensões relativamente à pensão por invalidez de que beneficia, e do extrato de remunerações referentes ao autor NR… constam outros rendimentos no valor de pelo menos €680,00, não bastando, para atribuição da indemnização emergente da destituição sem justa causa a simples invocação da perda da remuneração devida pelo exercício da administração; mais impugna o pedido do pagamento dos subsídios de férias e de natal, porque os autores não alegam que alguma vez tenham exercido funções na ré ao abrigo de contrato de trabalho e porque a retribuição de administrador da sociedade anónima rege-se pelas normas de direitos das sociedades e não como trabalhador subordinado.
Requereu a condenação dos autores como litigantes de má fé com fundamento em deturpação de factos sobre os quais tiveram responsabilidade direta e omissão de factos.
A ré mais deduziu pedidos reconvencionais pedindo a condenação:
- de ambos os autores no reembolso do montante de € 18.000,00 a título de remunerações por eles indevidamente recebidas por falta de deliberação em assembleia geral de atribuição de remuneração a administradores, que os autores alegam ter recebido através da apresentação dos documentos 5 e 6 juntos com a petição;
- do autor NR no reembolso da quantia de € 19.171,32 que a ré lhe pagou sem causa, no convencimento de lhe ser devida a título de reembolso de prestações acessórias de capital social por ele prestadas à ré. Juntou documentos, requereu a notificação dos autores para junção das declarações de IRS dos anos de 2016, 2017 e 2018, requereu declarações de parte, e arrolou testemunhas.
moral, na alegação de que as remunerações não foram validamente pagas, abuso que suportam no facto de a ré ser uma empresa familiar (pai, filho, filha e companheiro desta) e de todas as decisões tomadas pela administração da empresa serem decisões tomadas pelos acionistas uma vez que havia identidade entre estes e os administradores, e que desde o ano de 2008 as remunerações eram pagas a todos os administradores, autores, J… e M…, sem que alguma vez tenham sido contestadas porque quem o podia fazer foi quem decidiu o seu pagamento.
Notificados para, querendo, pronunciarem-se sobre as exceções de incompetência material do tribunal e de ineptidão da petição inicial, os autores responderam com novo articulado.
Em sede de saneamento da ação foi admitido o pedido reconvencional deduzido contra ambos os autores e rejeitado, por inadmissível, o pedido reconvencional deduzido contra o autor NR…, e julgadas improcedentes as exceções da incompetência material do Juízo de Comércio e de ineptidão da petição inicial.
Identificado o objeto do litigio, foram fixados os temas da prova, nos seguintes termos:
· Apurar da existência de pagamentos a título de remuneração dos AA. aquando de exercício de funções de administradores da R. e seu montante;
· Apurar da existência de direito à remuneração dos AA. aquando de exercício de funções de administradores da R.;
· Apurar da existência de danos causados aos AA.;
· Apurar se os mesmos advieram da destituição sem justa causa;
Produzida a prova requerida, o tribunal a quo proferiu sentença decidindo nos seguintes termos:
Com fundamento em todo o exposto, o Tribunal decide absolver a Ré S.. – SGPS, SA do pedido de condenação
a) Ao Autor NJ a quantia de €64.500,00 (Sessenta e quatro mil e quinhentos euros), como indemnização pelos lucros cessantes, em virtude da destituição do autor do Conselho de Administração, sem justa causa; b) Ao Autor NJ o valor correspondente aos subsídios de férias e de natal dos anos de 2017 a 2020, que não foram pagos;
c) Ao Autor NR, a quantia de €64.500,00 (Sessenta e quatro mil e quinhentos euros), como indemnização pelos lucros cessantes, em virtude da destituição do autor do Conselho de Administração, sem justa causa; d) Ao Autor NR o valor correspondente aos subsídios de férias e de natal dos anos de 2017 a 2020, que não foram pagos;
e) Juros de mora vencidos, à taxa legal, bem como os vincendos até integral e efetivo pagamento, a ambos os AA.;
f) Custas e demais encargos e digna procuradoria;
Decide-se também absolver os Autores do pedido de condenação como litigantes de má fé, assim como, aquele na condenação na restituição à Ré do valor de € 18.000,00 acrescido de juros de mora vencidos e vincendos, contados à taxa supletiva legal vigente e este na condenação na restituição à Ré do valor de € 19.171,32 acrescido de juros de mora vencidos e vincendos, contados à taxa supletiva legal vigente. Inconformados, os autores apresentaram recurso, requerendo que na procedência do mesmo seja [r]evogada a Douta Sentença, dando lugar a outra onde julga a ação de condenação procedente,
condenando a Recorrida no pedido, assim se fazendo a costumada JUSTIÇA!
Juntaram alegações que, não obstante formalmente subdivididas em ‘Motivações do Recurso” e “Conclusões”, estas, longe de o serem, não cumprem o ónus de sintetização imposto pelo art. 639º, nº 1 do CPC porque (com exceção da transcrição de segmentos dos depoimentos que consta da motivação e na qual fundamentam a impugnação à decisão da matéria de facto) mais não correspondem senão do que à reprodução, ipsis verbis, mas agora numerada, da narrativa contida nos parágrafos da motivação sobre o recurso de facto e de direito pelo que, suprindo a referida deficiente prestação processual dos recorrentes[1], sintetizam-se as conclusões do recurso no seguinte:
1. Insuficiência da matéria provada considerada na sentença recorrida para uma boa decisão da causa, com consequente pedido de ampliação da mesma para dela constarem como factos provados, por determinantes para a análise do possível abuso de direito da recorrida, os seguintes:
i) Aprovação das contas da ré referentes aos anos de 2014, 2015 e 2016.
ii) Pelo menos nos últimos anos os recorrentes recebiam retribuição da recorrida, o que era do conhecimento e tinha a aprovação de todos os acionistas.
Aditamento que fundamentam em segmentos dos depoimentos das testemunhas (..)que surgem transcritos na motivação do recurso), na certidão permanente da ré, nos recibos de vencimentos juntos aos autos pela ré, e no facto de das atas desta resultar que, até à destituição dos recorrentes, os seus administradores foram sempre os mesmos, e que havia total identidade entre estes e os acionistas. 2. De todas as legais disposições aplicáveis, diretamente (art. 399º do CSC), por remissão (art. 1158º, nº 1 do CC) ou por analogia (arts. 192º, nº 5 e 255º do CSC, e artigo 177 § único do antigo Código Comercial), resulta que, nada sendo dito em contrário, presume-se que os administradores são remunerados, sendo que pelo menos desde 2012 que a retribuição dos administradores é totalmente omissa nas atas das assembleias gerais nas quais foi deliberada a sua nomeação para os quadriénios 2012/2015 e 2016/2019, presumindo-se assim que os autores eram remunerados, sendo que nos presentes autos não se discute a fixação da remuneração, pois que a recorrida não coloca em causa o valor pago aos recorrentes, mas apenas a validade da mesma.
3. Da aprovação das contas anuais anteriores decorre aprovação tácita da remuneração dos administradores, pois as mesmas tinham que obrigatoriamente constar na contabilidade e no relatório de gestão e nunca foram postas em causa por nenhum dos acionistas, e não o foram porque não só eram do seu conhecimento como todos os acionistas estavam de acordo com o seu pagamento, conforme é inclusivamente referido pelo tribunal na sentença recorrida, face às ligações familiares entre estes assim como à concentração do capital social entre um pequeno conjunto de pessoas e por fim, devido à posição activa e predominante que os restantes membros em questão têm junto desta sociedade...”
4. Conjugando os descritos elementos deve entender-se que a remuneração era legalmente paga, e que deverá ser levada em conta na análise e aplicação do regime da indemnização dos Administradores aquando da sua destituição sem justa causa, nos termos do n.º 5 do artigo 403.º do CSC.
5. Mas mesmo que assim não se entenda, considerando que a recorrida nunca colocou em causa o valor da retribuição, nem antes dos factos, nem em juízo, mas única e exclusivamente a legalidade da sua atribuição por falta de manifestação expressa e escrita em assembleia geral, que durante anos os
recorrentes receberam a retribuição pela administração da recorrida, que havia uma total identidade entre os acionistas e os administradores, que todas as empresas do grupo eram o centro profissional dos recorrentes, que aquele foi criado pelos recorrentes e pela J.., filha e irmã dos recorrentes, e que na mesma altura estes foram destituídos dos lugares de administração da ré e de todas as empresas do grupo, não pode o Douto Tribunal deixar de considerar que o reclamado pela recorrida era um total abuso de direito, como aliás veio a considerar aquando do julgamento da reconvenção deduzida pela recorrida, pedindo a devolução, pelos recorrentes, dos valores das remunerações que aos mesmos tinham sido pagos.
6. Conclusões que os recorrentes finalizam alegando que [O]ra, perante toda a conjuntura aqui apresentada, e julgada provada, acrescido das presentes alegações, salvo melhor opinião, o Douto Tribunal errou ao julgar legitima o pedido de nulidade das remunerações pagas por inúmeros anos aos Recorrentes. A ré apresentou contra-alegações, pugnando pela manutenção da sentença recorrida, articulando extensa motivação e não menos prolixas conclusões que, na síntese que aquelas também estão longe de cumprir, no essencial, se resumem à seguinte argumentação:
1. À pretendida ampliação da matéria de facto obsta o princípio do dispositivo previsto pelo arts. 5º e 552º, nº 2, al. d) do CPC, na medida em que os recorrentes não alegaram os factos que agora pretendem sejam considerados e julgados provados.
2. Sendo a obrigação de prestação de contas “estruturalmente uma obrigação de informação, a aprovação de contas não implica aprovação expressa, tácita, explícita, implícita de atribuição de remuneração aos administradores, pois que, no limite, e uma vez que o recorrente NJ. detinha os códigos bancários (conforme segmentos de depoimentos que a ré identifica e localiza), poderia ter auto-atribuído essa remuneração a si e ao seu filho, recorrente NR.., sem que os demais acionistas tivessem conhecimento. 3. A atribuição de remuneração aos administradores ocorre, imperativamente por deliberação expressa dos acionistas em assembleia geral, nos termos do art. 399º, nº1 do CSC, deliberação que só a ata poderá provar, sendo que esta não existe.
4. Acresce, ainda que, a livre valoração da prova decorre do princípio ínsito no artigo 607º do CPC, e não é sindicável em recurso (veja-se a este propósito o Ac. TRL proferido no processo n.º 0092259, em 20-12-2001).
5. De acordo com as regras do ónus da prova e os pressupostos do direito a que se arrogam, previstos pelo art. 403º, nº 5 do CSC, era aos recorrentes que incumbia demonstrar: a deliberação de atribuição da remuneração enquanto administradores da recorrida, o montante da remuneração, que em virtude da destituição perderam esse rendimento, que para além da remuneração que supostamente auferiam não dispunham de qualquer outro rendimento, e os danos que supostamente sofreram após a sua destituição; prova que os recorrentes não fizeram.
6. Conclusões que a recorrida finaliza alegando que, [S]e as quantias que os recorrentes receberam da recorrida não obedeciam aos trâmites e formalismos legais da norma imperativa do artigo 399º do CSC e do artigo 25º dos Estatutos da Recorrida, desde logo nenhuma remuneração lhes era devida e, por isso, a partir daí, o silogismo em que assenta a sua argumentação é falível.
II – OBJETO DO RECURSO
incide sobre o mérito da crítica que vem dirigida à decisão recorrida, é balizado pelo objeto do processo, tal qual como o mesmo surge configurado pelas partes de acordo com as questões por elas suscitadas, e destina-se a reapreciar e, se for o caso, a revogar ou a modificar decisões proferidas, e não a criar soluções sobre temas de facto e/ou questões jurídicas que não foram sujeitas à apreciação do tribunal a quo e que, por isso, se apresentam como novas, ficando vedado, em sede de recurso, a apreciação de novos pedidos, bem como de novas causas de pedir em sustentação do pedido ou da defesa. Acresce que o tribunal de recurso não está adstrito à apreciação de todos os argumentos produzidos nas alegações das partes mas, conforme já referido, apenas das questões de facto ou de direito suscitadas que, contidas nos elementos essenciais da causa, se configurem como relevantes para conhecimento do respetivo objeto, sendo o tribunal livre na determinação e interpretação das normas jurídicas aplicáveis.
Considerando o teor da sentença recorrida e das conclusões enunciadas pelos recorrentes, são as seguintes as questões que neste recurso cumpre apreciar:
A) De Facto:
Ampliação, por insuficiência, da matéria de facto considerada pela sentença recorrida para decidir do mérito da causa e, na positiva, se os autos contêm elementos para o seu julgamento pelo tribunal ad quem.
B) De Direito:
Direito dos autores à indemnização a que se arrogam sobre a ré por terem sido destituídos sem justa causa do respetivo conselho de administração, que passa pela apreciação das seguintes questões:
a) Direito dos recorrentes a receber remuneração da ré, e validade da que por esta lhes era paga.
b) Caso não resulte prejudicada pela solução dada à questão supra, abuso de direito na invocação, pela ré, da nulidade das remunerações pagas aos recorrentes.
c) Consequências produzidas pela destituição no património dos recorrentes e atendibilidade das mesmas no âmbito do art. 403º, nº 5 do CSC.
III – FUNDAMENTAÇÃO A) DE FACTO
1. Conforme consta da sentença recorrida, o tribunal a quo proferiu a seguinte decisão de facto: A. Os acionistas NJ… e NR.., detêm na Ré, respetivamente, ações no valor de 23% e 12%.
B. Os Autores foram administradores da sociedade Ré desde a sua constituição, em 30 de Dezembro de 2008.
C. Os mandatos dos administradores, e aqui Autores, foram sendo renovados, tendo o último mandato, inscrito na Ap. 177 de 26 de Janeiro de 2017.
D. Tal mandato foi deliberado no dia 29 de Novembro de 2016, para o quadriénio de 2016/2019.
E. A Presidente da Mesa da Assembleia da Ré realizou a convocatória para uma Assembleia Geral Extraordinária, através da plataforma publicações MJ, o site https://publicacoes.mj.pt.
F. Tendo como a ordem de trabalhos, única e exclusivamente a destituição sem justa causa dos Autores. G. Tal Assembleia Geral extraordinária veio a ocorrer no dia 27 de Junho de 2017.
H. Tendo os acionistas presentes deliberado sobre a destituição sem justa causa dos Autores, fundamentando-se para tanto que “...atendendo à situação da Sociedade e por forma a assegurar o normal
funcionamento da mesma e a regular prossecução da sua actividade, defende que se torna conveniente proceder a uma reorganização do órgão da administração...”.
I . A destituição dos Autores do Conselho de Administração foi registada na Conservatória do Registo Comercial, sob a Ap. 163 no dia 27 de Junho de 2017.
J. A Ré é uma empresa que é a proprietária e controla diversas empresas, nomeadamente: 1(…)
K. Em todas as empresas indicadas, os Autores tinham o cargo de vogal no Conselho de Administração em cada uma delas.
L. Os Autores foram designados para o quadriénio 2016/2019, para vogais do Conselho de Administração em 29 de Novembro de 2016, tendo apenas sido registado em 26 de Janeiro de 2017.[2]
Da prova produzida e analisada em audiência de julgamento:
M. Os mandatos dos administradores, e aqui Autores, foram sendo renovados, tendo o último mandato, inscrito na Ap. 177 de 26 de Janeiro de 2017.[3]
N. Tal mandato foi deliberado no dia 29 de Novembro de 2016, para o quadriénio de 2016/2019.[4] O. Cada Autor auferia €1.500,00 (mil e quinhentos euros).
P. Em virtude da destituição, os Autores deixaram de auferir a sua retribuição, a partir do mês de Julho de 2017.
Q. Ou seja, após a destituição sem justa causa dos Autores.
R. Em todas as empresas indicadas, os Autores tinham o cargo de vogal no Conselho de Administração em cada uma delas.[5]
S. E viram a sua cessação de funções em Junho de 2017, à semelhança do que ocorreu no seio do Conselho de Administração da Ré.
T. A Ré e as empresas indicadas, fazem todas parte de um grupo económico criado pela família dos Autores, juntamente com a J.., filha e irmã, respetivamente, dos Autores.
U. Todas estas empresas, nomeadamente a Ré eram o centro profissional dos Autores.
V. O primeiro mandato – 2008/2011 – teve início no momento da Assembleia Geral constitutiva da Ré, em 30 de Dezembro de 2008.
W. O segundo mandato - 2012/2015 - teve início na Assembleia Geral da Ré que teve lugar em 21 de Dezembro de 2011.
X. O mandato dos órgãos sociais da Ré - 2016/2019 – teve início na Assembleia Geral da Ré que teve lugar em 29 de Novembro de 2016.
Y. Na Assembleia Geral da Ré de 29 de Novembro de 2016, que elegeu os Autores como administradores, não se deliberou sobre a atribuição de qualquer remuneração, para o quadriénio de 2016/2019, aos Autores ou aos demais administradores da Ré.
Z. Nem tal aconteceu posteriormente.
AA. A 22 de Maio de 2017, o accionista M… requereu à Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Ré a convocatória de Assembleia Geral, com a seguinte ordem de trabalhos: “Ponto Um: Deliberar sobre a destituição sem justa causa do Administrador NJ. Ponto Dois: Deliberar sobre a destituição sem justa causa do Administrador NR.”.
da Ré convocou a Assembleia Geral. O aviso convocatório foi publicado no Portal do Ministério da Justiça, disponível em: https://publicacoes.mj.pt.[6]
CC. A Assembleia Geral da Ré realizou-se a 27 de Junho de 2017, tendo comparecido os accionistas J.. e M.. [7]
DD. Os Autores, ainda que convocados para o efeito com a antecedência superior a um mês, não compareceram.
EE. A Assembleia Geral da Ré reuniu a 27 de Junho de 2017.
FF. Tendo os accionistas presentes, por unanimidade dos votos emitidos deliberado e aprovado as destituições dos Autores dos respectivos cargos de administradores da Ré.
GG. Porque entenderam que, atendendo à «situação da Sociedade e por forma a assegurar o normal funcionamento da mesma e a regular prossecução da sua atividade social» era conveniente «proceder a uma reorganização do órgão de administração».[8]
HH. No extracto de remunerações referente ao Autor NR, verifica-se a existência de outros rendimentos, pelo menos no valor de € 680,00 (seiscentos e oitenta Euros) mensais entre Maio e Dezembro de 2018. II. A empresa sempre pertenceu à Sr.ª J.. e Sr. NR, ambos filhos do Sr.ª N...
JJ. Por isso, o capital da Ré e a administração da mesma sempre esteve concentrada nas mesmas pessoas durante muitos anos, nomeadamente na família Santos.
KK. Desta forma, todas as decisões tomadas pela Administração da empresa, eram na altura tomadas pelos acionistas, pois havia identidade entre Administradores e acionistas.
O Tribunal não considerou como provados os seguintes factos:
1. Sem o conhecimento dos Autores, a Presidente da Mesa da Assembleia da Ré realizou a convocatória para uma Assembleia Geral Extraordinária, através da plataforma publicações MJ, no site https://publicacoes.mj.pt.
2. Com a destituição dos Autores do Conselho de Administração da Ré, os mesmos deixaram de ter qualquer outra forma de rendimento, tendo tal destituição apanhado completamente de surpresa os Autores.
3. O grupo económico liderado pela Ré e completado pelas empresas indicadas, tiveram uma faturação a rondar os €10.000.000,00 (dez milhões de euros) e tiveram um resultado líquido superior a €700.000,00 (setecentos mil euros) em 2016.
4. Pelo menos, desde o ano de 2008 que as remunerações eram pagas a todos os administradores, 5. Não só aos Autores, mas também à administradora J.. e ao administrador M….
2. Da insuficiência/ampliação da matéria de facto considerada pela sentença a) Enquadramento da questão
Sob a epígrafe Modificabilidade da decisão de facto, prevê o art. 662º do CPC que, 1 - A Relação deve alterar a decisão proferida sobre a matéria de facto, se os factos tidos como assentes, a prova produzida ou um documento superveniente impuserem decisão diversa.//2 - A Relação deve ainda, mesmo oficiosamente: a) (…); b) (…); c) Anular a decisão proferida na 1.ª instância, quando, não constando do processo todos os elementos que, nos termos do número anterior, permitam a alteração da decisão proferida sobre a matéria de facto, repute deficiente, obscura ou contraditória a decisão sobre pontos
determinados da matéria de facto, ou quando considere indispensável a ampliação desta; (…).
Reputando os factos considerados pelo tribunal recorrido como insuficientes para a boa decisão da causa, os recorrentes requerem sejam considerados e julgados provados os seguintes:
i) Aprovação das contas da ré referentes aos anos de 2014, 2015 e 2016.
ii) Que pelo menos nos últimos anos os recorrentes recebiam retribuição da recorrida, o que era do conhecimento e tinha a aprovação de todos os acionistas.
A esta pretensão recursiva a ré contrapõe que aqueles factos não foram alegados pelos recorrentes e que, enquanto factos constitutivos do direito a que se arrogam, sobre eles recaía o ónus da respetiva alegação, estando o tribunal impedido de os conhecer e considerar para fundamentar a decisão de mérito, sob pena de violação dos limites da sentença, por excesso de pronuncia.
Sob a epígrafe Ónus de alegação das partes e poderes de cognição do tribunal, traduzindo uma das manifestações do princípio do dispositivo, quanto à atuação das partes, e dos princípios da colaboração e do inquisitório, quanto à atuação do juiz (em benefício da maior aproximação da verdade processual à realidade dos factos e, assim, da maior adequação a decisão à realidade, própria da justiça material), dispõe o art. 5º que:
1 - Às partes cabe alegar os factos essenciais que constituem a causa de pedir e aqueles em que se baseiam as exceções invocadas.
2 - Além dos factos articulados pelas partes, são ainda considerados pelo juiz: a) Os factos instrumentais que resultem da instrução da causa;
b) Os factos que sejam complemento ou concretização dos que as partes hajam alegado e resultem da instrução da causa, desde que sobre eles tenham tido a possibilidade de se pronunciar;
c) Os factos notórios e aqueles de que o tribunal tem conhecimento por virtude do exercício das suas funções.
Norma que enuncia os critérios delimitadores dos poderes cognitivos do juiz, sempre balizados pelo objeto do processo, tendo como antecedentes legais mais próximos os arts. 264º e 664º do CPC de 1961, com as alterações introduzidas pela revisão de que foi objeto através do Decreto Lei nº 329-A/95 de 26.06, antecâmara dos objetivos expressamente prosseguidos pelo atual CPC. Neste, previa o art. 511º do CPC que o juiz (da 1ª instância) fixava a base instrutória – o thema probandum -, selecionando a matéria/questões de facto relevantes para a decisão da causa e que, segundo as várias soluções plausíveis de direito, deva considerar-se controvertida. A seleção e enunciação das bases ou questões de facto era feita por referência aos factos articulados pelas partes, em obediência aos arts. 264º, nº 1 e 664º do CPC, seleção que podia ser ampliada em sede de julgamento, cfr. art. 650º, nº 2, al. f)[9]. Já na fase da formalização da sentença o art. 659º, nº 3 impunha que na sua fundamentação o juiz tomasse em consideração os factos admitidos por acordo, provados por documentos ou por confissão reduzida a escrita, e os que o tribunal deu como provados, reportando-se estes últimos aos factos integrantes da base instrutória. Para além destes era-lhe ainda permitido considerar na decisão, independentemente de alegação, os factos notórios ou dos quais tivesse conhecimento ex officio (cfr. art. 514º), e os factos essenciais à procedência da ação complementares ou concretizadores de outros oportunamente alegados e resultantes da instrução da causa, impondo neste caso a manifestação de vontade das partes nesse
sentido (cfr. art. 264º, nº 3). Em sede de fundamentação da decisão de facto – ou seja, de fundamentação do julgamento dos factos integrantes da causa de pedir invocada – o tribunal era livre de atender aos factos instrumentais que resultassem dessa mesma instrução (quer na modalidade de ‘factos probatórios’ dos quais os factos essenciais se deduzem, quer de ‘factos acessórios’ permissivos ou impeditivos dessa mesma dedução) independentemente de os mesmos terem sido ou não objeto de alegação.
Na visão de Paulo Pimenta sobre as linhas orientadoras da revisão nesta matéria operada pelo Dec. Lei nº 329-A/95, Assim, em face do disposto no art. 264º, e sem que isso possa corresponder à diminuição do rigor da alegação, desde que a matéria alegada assegure a identificação do tipo legal de que a parte pretende prevalecer-se, qualquer eventual insuficiência, incompletude, imprecisão ou inexactidão, enfim, qualquer imperfeição da alegação pode (e deve) ser sanada no normal decurso da instância. Findos os articulados, se o juiz entender que está perante uma imperfeição fáctica que, a manter-se, é susceptível de pôr em risco a pretensão ou a excepção deduzidas, o caminho é o convite ao aperfeiçoamento fáctico previsto no nº 3 do art. 508º (e não mais, como era prática na vigência do CPC de 1939 e de 1961, a prolação de despacho saneador julgando improcedente a acção ou a excepção, com fundamento nessa mesma imperfeição da alegação) 32. Se, por circunstâncias, o juiz não proferir esse despacho de convite ao aperfeiçoamento, o que sempre implicará o prosseguimento dos autos para as fases subsequentes ao saneamento, fica então aberta a possibilidade de eventuais insuficiências ou imprecisões da alegação (não detectadas ou, pelo menos, não consideradas pelo juiz) virem ainda a ser colmatas em face da prova produzida nessa acção. É que, no regime decorrente da Reforma de 1995/96, e tal como prevêem os nºs 2 e 3 do art. 264º, o juiz haverá de considerar na decisão quer factos instrumentais quer factos essenciais que complementem ou concretizem os inicialmente alegados, quando uns e outros resultem da instrução ou discussão da causa. Mais à frente acrescenta, Daqui resulta que a decisão sobre a matéria de facto, não deixando de cumprir a função que lhe é própria, poderá e deverá apresentar o recorte que cada processo concreto justifique. Acresce que a circunstância de esta decisão poder conter a dita versão integral do quadro fáctico litigioso terá uma enorme vantagem. É que a simples leitura (ainda em privado) dessa decisão logo permitirá ao juiz a quem coube a apreciação da prova verificar se o quadro fáctico aí explanado é coerente e sustentado, se é verosímil, se é compatível com o que terá acontecido na realidade da vida. Quando assim não for, isto é, quando esse quadro fáctico suscitar dúvidas, tiver falhas ou incongruências, poderá ser sinal de que algo falta esclarecer ou de que algo terá escapado ao tribunal. Nessa situação, o aconselhável será voltar à sala da audiência, ordenando o que for adequado à descoberta da verdade, dentro dos limites legais, conforme prevê a segunda parte do nº 1 do art. 653º (subl. nossos).[10]
É indiscutível que o tribunal só pode basear-se nos elementos constantes do processo, mas indiscutível também é que, em matéria de facto e, de iure constituto, desde pelo menos a revisão de 1995 à lei do processo civil que esta não limita o conhecimento do tribunal ao que foi originariamente alegado (do que são expressão os arts. 264º e 650º, nº 2 al. f) do CPCV). No âmbito do atual CPC, aprovado pela Lei nº 41/2013 de 26.06, o supra citado art. 5º, nº 1, tal qual como o pretérito art. 264º, limita o ónus de alegação das partes, e consequente preclusão, aos factos essenciais identificadores da causa de pedir (ou das exceções invocadas) identificadora do tipo legal por ela convocado. Ónus e preclusão que não estende aos
factos que, ainda que essenciais, são complementares e/ou concretizadores dos factos inicialmente alegados e que, resultando da instrução da causa, devem ser considerados pelo tribunal em sede de fundamentação de facto da decisão, independentemente de terem sido ou não alegados. Correspondem estes a factos da mesma natureza e que completam a causa de pedir individualizada na petição, em relação à qual originariamente não foram alegados todos os factos necessários à integração da previsão da norma invocada. Numa ampliação da oficiosidade e dos poderes cognitivos do juiz, a consideração de factos essenciais complementares ou concretizadores dos inicialmente alegados não depende agora de manifestação da vontade das partes nesse sentido, exigência que o NCPC deixou ‘cair’.
A respeito da definição e distinção dos factos essenciais e, de entre estes, os ‘meramente’ complementares e concretizadores, refere Paulo Câmara que [N]o âmbito dos factos essenciais, é possível distinguir dois planos, isto é, factos essenciais nucleares e factos essenciais complementares e concretizadores. Os “nucleares” constituem o núcleo primordial da causa de pedir ou da excepção, desempenhando uma função individualizadora ou identificadora, a ponto de a respectiva omissão implicar a ineptidão da petição inicial ou a nulidade da excepção. (…). Assim, os factos complementares são os completadores de uma causa de pedir (ou de uma excepção) complexa, ou seja, uma causa de pedir (ou uma excepção) aglutinadora de diversos elementos, uns constitutivos do seu núcleo primordial, outros complementando aquele. Por sua vez, os factos concretizadores têm por função pormenorizar a questão fáctica exposta sendo, exactamente, essa pormenorização dos factos anteriormente alegados que se torna fundamental para a procedência da acção (ou da excepção).[11]
Como albergue lógico do novo paradigma dos poderes cognitivos do juiz na descrição processual do ‘pedaço de vida’ trazido a juízo - na busca pela decisão legal mais ajustada às concretas particularidades e vicissitudes que singularizam o caso -, a enunciação dos temas de prova deve ser elaborada em termos amplos e flexíveis (nas antípodas da atomização e pormenorização, do facto a facto isolado e desgarrado em que se materializava a tradicional condensação da matéria de facto), com a virtualidade de conter as questões de facto que, sendo relevantes para a decisão da causa, carecem de instrução, tendo como limite apenas os inerentes à causa de pedir e às exceções invocadas, por referência aos pressupostos do tipo legal normativo que aquelas e os pedidos deduzidos convocam. No limite, pode dizer-se que haverá tantos temas da prova quantos os elementos integradores do tipo legal em causa, o que implica que o juiz e os mandatários das partes atentem nisso. Os temas de prova correspondem assim a enunciados flexíveis, amplos, das questões de facto que integram a causa de pedir e as exceções - entendendo-se por questões as concretas controvérsias centrais a dirimir - de molde a permitir [a] livre investigação e consideração de toda a matéria com atinência para a decisão da causa. Quando, mais adiante, o juiz vier a decidir a vertente fáctica da lide, aquilo que importará é que tal decisão expresse o mais fielmente possível a realidade histórica tal como esta, pela prova produzida, se revelou nos autos.[12]
Finalmente, no epílogo de toda a atividade produzida nos autos pelas partes e, em matéria de instrução, da oficiosamente ordenada pelo juiz, em sede de elaboração de sentença, e conforme determina o art. 607º, nº 4 do CPC, o juiz, para além dos factos dos temas da prova que julga provados, deve tomar em consideração os factos que estão admitidos por acordo, provados por documentos ou por confissão reduzida a escrito, compatibilizando toda a matéria de facto adquirida e extraindo dos factos apurados as
presunções impostas pela lei ou por regras de experiência.
Com relevância para o caso, e por referência ao ultimo segmento do citado nº 4, cumpre relembrar que, cfr. art. 349º do CC, presunções são as ilações que a lei ou o julgador tira de um facto conhecido para firmar um facto desconhecido.
As presunções de que aqui se trata – judiciais, naturais ou de facto – não são meios de prova nem regras legais de decisão, mas sim raciocínios a que o juiz recorre para apreciar os factos que não são objeto de prova direta (ou cuja presunção não se encontra legalmente prevista), de forma a sobre eles formular a sua convicção; consistem em inferências lógicas ou declarações – partindo do facto conhecido para o desconhecido,- baseadas nas máximas da experiência, no conhecimento do decurso das coisas ou como elas naturalmente sucedem. Em suma, são conclusões sobre a realidade dos factos principais, extraídas de factos instrumentais. Enquanto elementos integrantes do processo mental de raciocínio lógico-dedutivo da decisão/julgamento de factos controvertidos essenciais à decisão da causa (e objeto de prova não vinculada), as presunções enquadram-se no princípio da livre apreciação da prova pelo julgador, como se encontra previsto do artigo 351º do Código Civil.
A crítica que pelos recorrentes vem dirigida à decisão de facto não vem estribada na imputação de erro de julgamento, qua tale, da matéria nela descrita, ou seja, não alegam errónea ou incorreta valoração/interpretação da prova produzida pelo Juiz a quo, nem requerem a alteração do sentido dos factos que por este foram julgados como provados e não provados. Corresponde antes e apenas a imputação de decisão de facto lacunosa por entender que, para além dos factos provados, e em aditamento aos mesmos, o tribunal deveria ter consignado como provados outros factos que resultaram da prova produzida e que os recorrentes enunciam – aprovação das contas da ré, e conhecimento e aprovação da remuneração por esta paga aos recorrentes.
Cumpre por isso apreciar da admissibilidade da requerida ampliação, aferindo se a mesma cumpre o princípio do dispositivo, por um lado, e se os concretos factos pretendidos aditar correspondem a factos relevantes ou essenciais para a decisão de mérito na qualidade de factos concretizadores dos pressupostos constitutivos do direito a que os autores se arrogam, por contraposição com os factos de natureza instrumental que, nos termos supra aduzidos, e conforme da própria designação resulta, apenas relevam para fundamentar raciocínios lógicos-indutivos que concluam ou não pela existência dos próprios factos fundamentadores do direito (tarefa esta que tem o seu lugar próprio na valoração ou julgamento da matéria de facto).
Vejamos então se assim é.
b) Da admissibilidade da requerida ampliação
Pelos presentes autos os recorrentes pedem o reconhecimento de direito de indemnização a cargo da ré e a condenação desta no seu pagamento. Da mera leitura da petição inicial resulta que em fundamento do pedido os recorrentes alegaram que foram administradores da ré desde a sua constituição, em 30 de Dezembro de 2008, até 27 de junho de 2017, que nesta data foi deliberada a respetiva destituição sem justa causa, que eram administradores remunerados, nos termos do n.º 2 do artigo 25º dos Estatutos da ré, que cada um deles auferia €1.500,00 (mil e quinhentos euros), e que a destituição do cargo lhes alterou a vida profissional, económica e financeira, e reduziu os respetivos rendimentos. Os factos alegados, e o
pedido que com fundamento nos mesmos vem formulado pelos recorrentes, identificam as questões de facto e reconduzem-se aos pressupostos normativos do art. 403º, nº 4 do CSC, correspondente ao fundamento legal por eles invocado. Resulta assim identificada a causa de pedir invocada, que, nuclearmente, se traduz na detenção da qualidade de administradores da ré, na destituição sem justa causa desse mesmo cargo, na redução dos rendimentos que até aí auferiam, na imputação dessa redução à destituição do cargo de administradores da ré e consequente perda da remuneração que nessa qualidade auferiam, perda que para cada um computam pelo período temporal que imputam ao remanescente do mandato em curso à data da destituição, à razão mensal de € 1.500,00 e no montante total individual de € 65.000,00, acrescido dos subsídios de férias e de natal que nesse mesmo período deixaram de auferir. Conforme concluiu o tribunal recorrido na apreciação da exceção da ineptidão inicial invocada pela ré, a petição apresentada pelos autores caracteriza [d]e modo minimamente satisfatório o núcleo factual essencial integrador da causa petendi, e [N]o caso dos autos, não estamos perante petição inicial em que o objeto do processo não se logre apurar, como aliás resulta do teor da contestação apresentada.
Com efeito, a formulação do pedido de indemnização e os factos em que os autores o suportam contém implícita não só a pressuposta ‘validade’ do que lhes era pago pela sociedade, bem como o conhecimento, pela sociedade, de que esse pagamento era feito e a título de remuneração – tanto que pela ré foram processados e nela constam documentados como retribuição do cargo social de administradores que detinham. Nesse contexto, aqueles factos não surgem como novidade e complementam o núcleo essencial dos factos constitutivos da pretensão que formulam contra a ré, pretensão que tem como prius o reconhecimento, pela sociedade, do direito dos autores à remuneração que dela recebiam e cujo pagamento os autores imputam, no mínimo, ao conhecimento desta.
Ainda que se entendesse pela deficiência da petição inicial por ausência de concretização do concreto fundamento do valor da remuneração alegada - que surge evidenciada perante os termos da contestação (excetiva) que à mesma foi deduzida pela ré -, ter-se-ia por suprida com a alegação que os recorrentes articularam na resposta ao pedido reconvencional que contra eles foi pela ré deduzido com fundamento na nulidade da remuneração que opôs ao pedido dos recorrentes (com fundamento na ausência de ata comprovativa de deliberação social de atribuição da remuneração aos autores), relativamente à qual, configurando exceção material perentória por impeditiva do direito por aqueles pretendido ver reconhecido nos autos, sempre caberia aos autores direito de resposta nos termos do art. 3º, nº 3 do CPC. Direito que, pela identidade de fundamentos da exceção e da reconvenção que com fundamento naquela foi deduzida pela ré, impõe-se considerar exercido pelos termos da resposta que os autores deduziram à reconvenção[13]. Na referida resposta alegaram os recorrentes, em síntese, que a decisão de pagamento das remunerações por eles recebida foi tomada por todos os acionistas da ré que, na altura, coincidiam com os seus administradores, alegação que, pela natureza e alcance do termo decisão, contém inerente a alegação do conhecimento e da aprovação, por todos os acionistas da ré, do pagamento da remuneração aos recorrentes, factos que, com a amplitude e flexibilidade supra assinalada aos temas de prova, e por referência ao ponto que o precede (Apurar da existência de pagamentos a título de remuneração dos AA. aquando de exercício de funções de administradores da R. e seu montante), se integram no ponto 2 dos enunciados pelo tribunal recorrido: Apurar da existência de direito à remuneração dos AA. aquando de
exercício de funções de administradores da R.;.
Com o que se conclui, não só pela admissibilidade, mas também pela necessidade da ampliação da matéria de facto, para nela serem incluídos os factos ‘Conhecimento e aprovação, por todos os acionistas, da remuneração de €1.500,00 paga pela ré aos autores’, na qualidade de factos complementares do núcleo essencial da causa de pedir invocada pelos recorrentes que, de resto, foi por eles expressamente alegada na fase dos articulados, mas que não foram selecionados pelo tribunal recorrido em sede de fundamentação de facto da sentença, posto que deles não há referência nem no julgamento positivo nem no julgamento negativo da decisão de facto que a integra e, por isso, não foram nem por ela podiam ser considerados na decisão final proferida.
Solução distinta merece o facto ‘aprovação de contas da ré’, posto que não se apresenta como facto integrante das questões de facto que constituem os pressupostos da previsão normativa correspondente ao tipo legal individualizado pela causa de pedir alegada e pelo pedido formulado na petição inicial. Circunstância que não invalida ou prejudica a sua consideração/valoração no âmbito do julgamento dos factos ora aditados, na qualidade de facto instrumental probatório, ao que, conforme antes exposto, também não obsta o facto de não ter sido oportunamente articulado pelos recorrentes.
c) Consequências da ampliação da matéria de facto considerada na sentença recorrida
Conforme resulta do art. 662º, nº 2, al. c) do CPC, a ampliação da matéria de facto determinada pela Relação só implicará anulação da decisão proferida na 1.ª instância se os factos tidos como assentes e a prova produzida não permitirem o seu julgamento, com consequente alteração da matéria de facto em conformidade.
No caso, a ampliação admitida não determina a anulação da sentença recorrida (para que sobre os factos aditados seja produzida prova), desde logo porque a matéria dela objeto foi oportunamente alegada pelos autores, sujeita ao contraditório, integrada nos temas de prova, e, por isso, no objeto da instrução (a ela se tendo referido as partes, designadamente, a ré, em sede de alegações de facto e de direito prestadas em audiência de julgamento, conforme se constata pelo respetivo registo áudio). ‘Apenas’ foi omitida a sua seleção e julgamento pelo tribunal recorrido em sede de fundamentação de facto da sentença.
No contexto descrito, os autos contêm todos os elementos que permitem o seu julgamento por este coletivo, julgamento que se faz pela positiva quanto ao conhecimento, pelos acionistas da ré, do pagamento da remuneração aos autores, e pela negativa quanto à aprovação (expressa ou tácita), pelos acionistas e demais administradores da ré, desse mesmo pagamento, conforme se passa a justificar. Conforme supra exposto, na ausência de meios de prova direta sobre os factos objeto de instrução (cenário que ocorre na maioria dos casos), o juízo positivo que sobre os mesmos é formulado corresponde ao resultado de raciocínios lógico-indutivos e/ou dedutivos, assentes na consideração de factos conhecidos dos quais, por recurso a regras de experiência, usos ou senso comum, é possível extrair os factos objeto de instrução – as designadas presunções de facto ou naturais. Nas palavras de Abrantes Geraldes, [a]s presunções judiciais tanto podem assentar em factos essenciais que tenham sido considerados provados ou que resultem plenamente dos autos, como em factos de natureza puramente instrumental que resultem do processo ou da instrução da causa, tenham ou não tenham sido alegados pelas partes.//Relativamente aos factos que apenas sirvam de suporte à afirmação de outros factos por via de presunções judiciais, para
além de não se mostrar necessária a sua alegação (art. 5º, nº 2, al. a))) e de poderem ser livremente discutidos na audiência fina. (arts. 410º e 516º), nem sequer terão de ser objecto de um juízo probatório específico na 1ª instância[14].
No caso, os factos (instrumentais ou probatórios) conhecidos nos autos são: i) a simultânea qualidade de administradores dos acionistas da ré, a identidade dos mesmos desde a constituição da ré até à destituição dos autores do cargo de administradores, e a aprovação das contas da ré ao longo de todos os exercícios; factos que resultam documentados pelo teor da certidão permanente do registo comercial da ré (das quais resulta que a ré procedeu ao registo das contas referentes aos anos de 2008 a 2017, e que as referentes aos anos de 2013, 2014, 2015 foram inscritas no registo em 18.07.2014, 24.07.2015 e 01.08.2016, respetivamente), e pelo teor das atas das assembleias universais por esta juntas aos autos (das quais resulta que, até à destituição dos recorrentes, os administradores da ré foram sempre os mesmos, que havia total identidade entre os seus acionistas e os seus administradores, e que reuniam em assembleia geral com dispensa de convocatória); ii) o pagamento de remuneração aos autores pela ré e pelo valor de € 1.500,00, factos que o tribunal recorrido julgou demonstrados (cfr. als. O. e P.), aos quais acresce o facto de o pagamento da remuneração aos autores ocorrer desde pelo menos 2013, conforme foi declarado pelas testemunhas Ana Cristina Silva[15] e Gisela Vasconcelos, por dele terem conhecimento no exercício das suas funções profissionais ao serviço da ré nas qualidades de, respetivamente, contabilista certificada e funcionária do departamento de contabilidade da ré, sendo a testemunha Gisela Vasconcelos ininterruptamente desde pelo menos 2013; e iii) a emissão, pela ré, de recibos de vencimento de cada um dos autores que, nos meses de janeiro de 2016 a junho de 2017, o foram pelo referido valor mensal individual ilíquido de €1.500,00.
Os factos desconhecidos, objeto da matéria aditada e ora do thema probandum, correspondem ao alegado conhecimento e à alegada aprovação, por todos os acionistas, das remunerações pagas pela ré aos autores.
Na valoração dos conhecidos, e sob a perspetiva dos desconhecidos, acresce a consideração de regras e usos, agora de natureza jurídico-legal, a saber, a responsabilidade legal e inerente conhecimento funcional dos administradores pelas contas da sociedade que gerem e representam, e que estão obrigados a prestar, e a natureza e função das contas e de todos os documentos que acompanham as devidas prestar pela administração da sociedade que, conforme alegado, e bem, pela ré/recorrida, consubstanciam [e]struturalmente uma obrigação de informação dos elementos que delas constam e que, por maioria de razão, presumem-se do conhecimento de quem as está obrigado a prestar – o conselho de administração da sociedade -, sendo certo que nada em contrário vem por esta alegado e que, enquanto os autores se mantiveram no cargo de administradores, existiu identidade entre os elementos do conselho de administração e os acionistas da ré. De entre outros elementos, das contas constam as despesas realizadas pela sociedade em cada exercício a que respeitam (conta 6, destinada a inscrição dos gastos, conforme Código de Contas aprovado pela Portaria nº 218/2015 de 23.07 aplicáveis a todas as entidades sujeitas ao Sistema Nacional de Contabilidade), designadamente, os gastos com pessoal (conta 63) e, mais especificamente, os realizados a título de remunerações dos órgãos sociais (conta 631, destinada à inscrição das remunerações dos órgãos sociais e de gestão).
Se a obrigação da prestação de contas recai sobre o órgão da administração da sociedade e, por isso, nada sendo dito em contrário, impõe-se considerar que o que delas consta é do conhecimento das pessoas que o integram, já da aprovação das contas apenas é possível extrair que a assembleia geral da sociedade aceita/concorda que as despesas que nelas constam inscritas foram realizadas, não que aceita/aprova que as mesmas sejam realizadas. Ou seja, da aprovação das contas em assembleia geral não decorre, por si só ou por inerência da mesma, uma qualquer aprovação/concordância expressa, tácita, explícita, implícita com a realização das despesas que nela constam inscritas, apenas que elas foram realizadas, sendo que a respeito da alegada aprovação/concordância com a remuneração paga aos autores nenhuma prova foi produzida.
Conforme exposto, conclui-se:
Provado que desde 2013 a ré pagava remuneração aos autores, e que tal facto era do conhecimento dos demais administradores e acionistas da ré, facto que se impõe aditar aos factos provados nos termos que infra se descrevem.
Não provado que o pagamento da remuneração aos autos foi decidida/aprovada pelos demais administradores e acionistas da ré, facto que como tal e sob o nº 6 se adita ao rol dos factos não provados. d) Da ampliação oficiosa da matéria de facto
Da conjugação dos arts. nº 1 e 2 do art. 662º nº 2 e 663º, nº 2 do CPC, que remete para o art. 607º[16], resulta que os poderes cognitivos da Relação em matéria de julgamento de facto abrange o poder-dever de, oficiosamente, proceder a ampliação da matéria de facto necessária ou, pelo menos, pertinente à boa decisão do mérito da causa, se do processo constarem elementos que o permitam[17].
Assim, desde logo, conforme o já exposto e o alegado pelos autores sob o art. 11º da réplica, com vista à temporalização dos pagamentos descritos sob o ponto O. dos fundamentos de facto da sentença recorrida, e para além do facto supra aditado e julgado demonstrado, mais se acrescenta que aqueles pagamentos ocorreram desde pelo menos 2013, facto que resulta dos já referidos depoimentos das testemunhas Ana Dias Silva e Gisela de Castro, que declararam que os autores eram remunerados pela ré (deduzindo-se do declarado pela primeira – a saber, que os outros [administradores da ré] não recebiam remuneração desta [ré] empresa - que os demais administradores recebiam remuneração de outras empresas do grupo da ré), e tendo sido especificamente declarado pela testemunha Gisela de Castro que os autores receberam salário em todos os anos em que ela lá esteve a trabalhar, que foram por ela processados, precisão que relativamente a remunerações pagas pela ré se impõe restringir entre o ano de 2013 e a data em que os autores foram destituídos, considerando que a testemunha a fez depois de ter informado que trabalhou no grupo das empresas da ré a partir de 2001 mas que a determinada altura delas saiu porque aceitou outra proposta de trabalho, tendo posteriormente regressado à ré, onde se manteve ininterruptamente desde pelo menos 2013 até 2018.
Desta feita, reescreve-se o ponto O. da fundamentação de facto para constar com o seguinte teor:
O. Cada Autor auferia remuneração desde pelo menos 2013 que, desde pelo menos 2016, era no montante de €1.500,00, factos que eram do conhecimento dos demais administradores e acionistas.
Mais se aditam os seguintes factos, em conformidade com o teor dos documentos nº 6 a 9 juntos pela ré com o requerimento ref.ª: 31561329 (com data no histórico do processo informático de 15.02.2019),
recibos de vencimento dos autores juntos pela ré com o req. de 07.06.2019, e documentos que a requerimento da ré foram juntos com os req. de 07.06 e 22.07.2019 dos autores, correspondentes às respetivas declarações de rendimentos referentes aos anos de 2016, 2017 e 2018.
B.1. Do pacto social constitutivo da ré consta, sob a cláusula nº 19, que A administração da sociedade, com dispensa de caução, será exercida por um Conselho de Administração composto por quatro administradores eleitos em Assembleia Geral.; sob o art. 25º, nº 2, que As funções dos membros dos Conselhos de Administração e do Fiscal Único são remuneradas, cabendo a fixação das remunerações à Assembleia Geral ou a uma Comissão, eleita por aquela e composta por três accionistas.
B.2. A final do referido pacto mais consta que São nomeados para o quadriénio de 2008 a 2011 os seguintes membros dos corpos sociais:
Administradores://-(…).
B.3. Da ata nº 1 da ré consta que em Assembleia Geral da ré, então designada ‘Século das Luzes – SGPS, SA’, presidida por J, secretariada por M.. e com a presença dos aqui autores, em 31.12.2008, na sede social da ré, [E]m face das presenças, considerou-se estar constituída uma Assembleia universal, com dispensa de formalidades de convocatória (…) nos termos do artigo cinquenta e quatro do Código das Sociedades Comerciais, no âmbito da qual a acionista J.. fez menção que a constituição da sociedade foi realizada em 30.12.2008 na CRP do Porto e que foi dado o início de atividade no dia 31.12.2008, e [n]ão irão ser inicialmente remunerados, pelo facto de todos estes descontarem para a Segurança Social por outras entidades. Da respetiva lista de presenças constam inscritos, na qualidade de acionistas e com indicação do cargo de administradores, …e nº de ações (10.000) representativos da totalidade do capital social (€50.000,00).
C.1. Da ata nº 7 referente à Assembleia Geral da ré realizada em 21.12.2011, consta que [E]m face das presenças, considerou-se estar constituída uma Assembleia universal, com dispensa de formalidades de convocatória (…) nos termos do artigo cinquenta e quatro do Código das Sociedades Comerciais, no âmbito da qual, conforme ali proposto, e por unanimidade dos presentes, foi deliberada a nomeação do Conselho de Administração para o quadriénio 2012/2015 (…), sem qualquer menção à remuneração dos administradores. Da lista de presenças constam inscritos, na qualidade de acionistas e com indicação do cargo de administradores, (…) e nº de ações (10.000) representativos da totalidade do capital social (€50.000,00).
C.2. Da ata nº 17 referente à Assembleia Geral da ré realizada em 29.11.2016, consta que [E]m face das presenças, considerou-se estar constituída uma Assembleia universal, com dispensa de formalidades de convocatória (…) nos termos do artigo cinquenta e quatro do Código das Sociedades Comerciais, no âmbito da qual, conforme ali proposto, e por unanimidade dos presentes, foi deliberada a nomeação do Conselho de Administração para o quadriénio 2016/2019 (..), sem qualquer menção à remuneração dos administradores. Da respetiva lista de presenças constam inscritos, na qualidade de acionistas e com indicação do cargo de administradores… e nº de ações (10.000) representativas da totalidade do capital social (€50.000,00).
LL. A ré emitiu e detém os originais e duplicados dos recibos de vencimentos dos autores referentes aos meses de julho 2016 a junho de 2017, na categoria de sócios-gerentes, pelo montante mensal individual de
€1.500,00, com as legais deduções a título de contribuição para a segurança social e de imposto sobre o rendimento.
MM. Os recibos referentes ao mês de setembro 2016 mais incluem a quantia de €1.500,00 a título de subsídio de férias, e o referente ao mês de dezembro de 2016 a quantia de €1.500,00 a título de subsídio de Natal, sobre as quais incidiram as legais deduções.
NN. O autor NJ.. na declaração de rendimentos do ano de 2016 declarou rendimentos da categoria A -trabalho dependente e/ou pensões - no montante de € 11.440,02 (código 403, referente a pensões) pago pela pessoa coletiva nº 505 305 500, e no montante de € 21.000,00 (código 401, referente a trabalho dependente) pago pela ré; na declaração de rendimentos do ano de 2017 declarou rendimentos de trabalho dependente e/ou pensões, no montante de € 11.440,02 (código 403, referente a pensões) pago pela pessoa coletiva nº 505 305 500, e no montante de € 9.000,00 (código 401, referente a trabalho dependente) pago pela ré; na declaração de rendimentos do ano de 2018 declarou rendimentos de trabalho dependente e/ou pensões, no montante de € 12.311,74 (código 403, referente a pensões) pago pela pessoa coletiva nº 505 305 500.
OO. O autor NR.., na declaração de rendimentos do ano de 2016 declarou rendimentos da categoria A -trabalho dependente e/ou pensões - no montante de € 15.350,00 pago pela ré (código 401, referente a trabalho dependente), e mais declarou rendimentos da categoria F - rendimentos prediais - no montante de € 9.600,00, a título de rendas; na declaração de rendimentos do ano de 2017 declarou rendimentos de trabalho dependente e/ou pensões no montante de € 9.000,00 (código 401, referente a trabalho dependente) pago pela ré, e mais declarou rendimentos da categoria F - rendimentos prediais - no montante de € 8.800,00, a título de rendas; na declaração de rendimentos do ano de 2018 declarou rendimentos da categoria A - trabalho dependente e/ou pensões - no montante de € 5.440,00 (código 401, referente a trabalho dependente) pago pela pessoa coletiva nº 509 139 175, e mais declarou rendimentos da categoria B - rendimentos profissionais, comerciais e industriais - no montante de € 25.890,80 (ramo atividades hoteleiras), e rendimentos da categoria F – prediais – no montante de €9.600,00, a título de rendas pagas pela pessoa coletiva 509 139 175.
Na apreciação das demais questões do recurso vão considerar-se os fundamentos de facto descritos na sentença recorrida e os supra aditados aos factos provados, dispensando aqui a sua repetida reprodução. B) DE DIREITO
Sob a epigrafe Destituição preveem os nºs 1 e 5 do art. 403º do CSC que:
1 - Qualquer membro do conselho de administração pode ser destituído por deliberação da assembleia geral, em qualquer momento.
(…)
5 - Se a destituição não se fundar em justa causa o administrador tem direito a indemnização pelos danos sofridos, pelo modo estipulado no contrato com ele celebrado ou nos termos gerais de direito, sem que a indemnização possa exceder o montante das remunerações que presumivelmente receberia até ao final do período para que foi eleito.
No caso constitui matéria assente a destituição dos recorrentes do cargo de administradores da ré, sem justa causa.