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Território e territorialidade: revisando conceitos diante da complexidade da sociodiversidade

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Território e territorialidade: revisando conceitos diante da complexidade da sociodiversidade

PRINTES, Rafaela Biehl1

Resumo

Nas últimas décadas tem sido crescente os movimentos de povos autóctones/originários pela garantida de direitos à retomada de terra e território. Nesse contexto, discussões sobre os conceitos de território e territorialidade tem acompanhado variados processos voltados a legitimar as demarcações de terras, conforme orientam os procedimentos legais nacionais. Neste trabalho, parte-se de uma revisão teórica dos conceitos de território e territorialidade no âmbito da Geografia e Antropologia, em interface com a Ciência Política, a fim de compreender como os mesmos contribuem para explicar a situação de uso e ocupação do espaço por povos autóctones, como Mbyá-Guarani na contemporaneidade, em meio às relações resultantes do contato interétnico. Dá-se ênfase a temporalidade e a noção de mobilidade e os reflexos dessa dinâmica sobre os lugares nos quais os Mbyá estabelecem suas aldeias (tekoa). Considerando que os espaços de vida Mbyá foram secularmente colonizados, evidenciam-se às dificuldades enfrentadas por eles no Rio Grande do Sul para viverem no Yvy Rupa (território originário/terra/mundo), situação que exige lutas e estratégias em constante atualização, em meio aos esforços de manterem parcerias com aliados não indígenas, a fim garantirem seus direitos reconhecidos na CF 1988 e demais legislações indigenistas, em busca da afirmação de autonomia e autodeterminação.

Palavras-chave: território, territorialidade, Mbyá-Guarani, terra indígena.

Territory and territoriality: reviewing concepts in view of complexity of social diversity

Abstract

In the last decades, the movement of autochthonus/ indigenous people has increased due to rights guarantee to land and territory. In this context, discussions on the concepts of territory and territoriality have followed various processes intending to legitimate land demarcation. This is in agreement with the National legal procedures. In this work, it is first presented a theoretical review on the concepts of territory and territoriality in the fields of Geography and Anthropology in interface with Political Sciences. From this review, it is intended to comprehend how these concepts can contribute to explain the contemporary situation of space use and occupancy by indigenous people, such as Mbyá-Guarani, in the middle of relationships resulting from interethnic contact. It is emphasized the temporality and the perception of mobility and the reflex of this force do define the places where the Mbyá establish their villages (tekoa). The Mbyá living space have been colonized for centuries; thus, it becomes apparent the difficulties faced by them in Rio Grande do Sul to live in the Yvy Rupa (originary territory). This situation demands for fights and strategies under constant adjustments, in middle of efforts to maintain partnerships with non-indigenous ally. This is to guarantee their constitutional and additional legal rights in search of affirmation of autonomy and self-determination.

Key-words: territory, territoriality, Mbyá-Guarani, indigenous land

1

Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR), Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora Assistente da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). Pesquisadora do Núcleo de Estudos em Desenvolvimento Rural Sustentável e Mata Atlântica (DESMA).

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1 Introdução

Nas últimas décadas a luta pela garantia de direitos sobre a terra e o território está entre as demandas prioritárias de diversos povos autóctones/originários que secularmente padeceram (e ainda padecem) diante das invasões decorrentes de projetos de colonização e mais recentemente pela imposição de modelos de desenvolvimento hegemônico. Decorre disso, o dilema vivenciado por estes povos de constante tencionamento pela retomada de seus espaços de vida, expressando territorialidades específicas, em contextos de dominação pela imposição de poder para configuração e manutenção das fronteiras territoriais dos Estados nação. Pois, por meio de lógicas de ordenamento territorial nacional se subverteram lógicas endógenas, diferenciadas de uso material e simbólico do espaço geográfico (ACSELRAD, 2013).

No Brasil, desde a década de 1980, tem crescido a luta indígena pela retomada dos seus espaços de vida originários, usurpados pelos mais variados mecanismos de poder. A demarcação de Terras Indígenas (TIs) é garantida pela Constituição Federal de 1988 (CF 1988), no artigo 231 e por outras legislações que regulamentam a Constituição. Disso decorre o seguinte cenário: no Brasil as TIs (em suas diferentes modalidades2) com limites já definidos ocupam uma superfície total de 12,90% da extensão do território nacional. Deste total, em termos de extensão mais de 90% destas terras estão localizadas na Amazônia Legal (AL) e em menor porcentagem entre o nordeste, centro-oeste, sudeste e sul (RICARDO; RICARDO, 2011; FUNAI, 2015). O último censo do IBGE (2010) revelou que 817.963 pessoas se autodeclararam indígenas, e estão presentes em todas as regiões do país, sendo a região norte a que concentra aproximadamente 37% do total. Existe ainda a referência de 69 grupos indígenas isolados, ainda não contatados nas florestas remanescentes do bioma Amazônico (FUNAI, 2015).

Nesse sentido, apesar da categoria Terra Indígena (TI) não representar o espaço geográfico e social suficiente, equivalente ou ideal daquele que seria digno de retomada pelos povos originários, ainda nestas condições se expressam territorialidades e se afirmam territórios, em meio a negociações, interações e conflitos.

Para refletir sobre estas situações o texto está estruturado em quatro seções, sendo a primeira esta introdução. A segunda seção explica as opções metodológicas para elaboração do presente trabalho. A terceira seção resgata referenciais teóricos que discutem conceitos de território e territorialidade no âmbito da Geografia e Antropologia, em interface com a Ciência Política, a fim de compreender como os mesmos contribuem para explicar a situação do “uso do espaço” por povos

2

Conforme os termos da legislação vigente (Lei 6.001/1973 - Estatuto do Índio CF/1988, Decreto nº 1.775/1996) as TIs são classificadas em modalidades distintas, tais como: Terras Indígenas tradicionalmente ocupadas; Reservas Indígenas; Terras Dominiais; Interditadas (proteção de povos e grupos indígenas isolados) (FUNAI, 2015).

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autóctones, como Mbyá-Guarani na contemporaneidade, em meio às relações resultantes do contato interétnico. Esta seção também aborda sobre a temporalidade no modo de usar e ocupar os espaços pelos Mbyá-Guarani, dando ênfase a noção de mobilidade e os reflexos dessa dinâmica sobre os lugares nos quais os Mbyá estabelecem suas aldeias - tekoa3 - lugar onde é possível viver a partir do

modo de ser guarani, compreendido através da junção de diversas esferas, como a social, econômica, política, geográfica, ambiental e espiritual. Partindo do pressuposto de que os espaços de vida Mbyá foram secularmente colonizados, serão feitas considerações em relação às dificuldades enfrentadas pelos guarani no RS para viverem no Yvy Rupa (território/terra/mundo), situação que exige lutas e estratégias em constante atualização, em meio aos esforços de manterem parcerias com aliados não indígenas, a fim garantirem seus direitos definidos na CF 1988 e demais legislações indigenistas, na busca da afirmação de autonomia e autodeterminação. Por fim, são feitas considerações finais.

2 Opções Metodológicas

Para elaboração deste texto foi realizada revisão bibliográfica referente aos conceitos de território e territorialidade, com ênfase em autores da Geografia e Antropologia, bem como se incorporou na discussão reflexões das conversas formais e informais com os Mbyá, obtidas em meio às reuniões e caminhadas guiadas realizadas durante os trabalhos de etnomapeamento das novas terras adquiridas no âmbito da compensação e mitigação dos impactos da duplicação da rodovia BR-116/RS sobre os Mbyá-Guarani.

3 Resultados e Discussão

3.1 Revisando conceitos de território e territorialidade

Em meio à emergência de demandas oriundas da afirmação de direitos territoriais pelos movimentos sociais, especialmente desde meados da década de 1980, tem sido frequente a ênfase dada às categorias território e territorialidade. Nesse contexto, tais categorias são operadas conceitualmente para além da Geografia, na Antropologia (em relação às populações e seus vínculos simbólico-espaciais) e na Ciência Política (fazendo referencia ao Estado – no que diz respeito a fronteiras fechadas e espaços dominados pelo poder estatal) (HAESBAERT, 2004).

Partindo da perspectiva da Geografia, Sack (2011, p. 77-78) argumenta que o território pode ser um “tipo de lugar”, mas quando assim definido deve ser distinguido enquanto tal de outros tipos de lugares, já que os territórios requerem esforços para mantê-los. Esses esforços “resultam de

3

Tekoa (aldeia): teko abrange os significados de ser, estar, sistema, lei, cultura, norma, tradição, comportamento, costumes, e a significa lugar (GARLET, 1997).

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estratégias para afetar, influenciar e controlar pessoas, fenômenos e relações. ” Apenas “circunscrever coisas no espaço, por meio de mapas, não cria por si um território, pois essa delimitação somente se torna um território quando seus limites são usados para afetar o comportamento ao controlar o acesso”. Território não só contém ou restringe, mas também exclui, sendo que os indivíduos que exercem o controle não precisam estar fisicamente dentro do território, pois as “coisas” (objetos) e “relações” (ações) de uma área passam a ser controladas no estabelecimento da territorialidade (SACK, 2011, p. 78).

Desse modo, a territorialidade pode ser compreendida como uma “estratégia geográfica” com a qual “se controla pessoas e coisas através de controle de áreas”, sendo em termos práticos usual expressar a territorialidade por meio de “territórios políticos e propriedades privadas” (SACK, 2011, p. 63). Sack, (2011, p. 63) afirma que “territorialidade é uma expressão geográfica primária de poder social. É o meio pelo qual espaço e sociedade estão inter-relacionados”, desse modo, “as mudanças da territorialidade auxiliam a entender as relações históricas entre sociedade, espaço e tempo”. Ainda de acordo com Sack (2011, p 76) “pensar em territorialidade somente como controle de área é uma definição reduzida”, pois a mesma envolve a “tentativa por parte de um indivíduo ou grupo de influenciar ou afetar as ações de outros, incluindo não humanos”. Sack (2011, p. 76) define a territorialidade como “a tentativa, por um indivíduo ou grupo, de afetar, influenciar ou controlar pessoas, fenômenos e relações, ao delimitar e assegurar seu controle sobre certa área geográfica”, que passa a ser chamada de território.

Raffestin (1993), outro geógrafo, enfatiza a essencial compreensão de que o espaço é anterior ao território, pois este último é formado a partir do espaço, por meio de uma ação conduzida. Um espaço apropriado passa a ser um espaço “territorializado”. Nesse sentido, o território pode ser compreendido a partir de uma leitura lefebvreana, na qual o espaço é produzido em território por meio de relações intencionais e de poder. Assim, o espaço é matéria prima, preexiste antes de qualquer ação. Desse modo, território não é espaço, mas simplesmente se apoia neste. Raffestin (1988, p. 143-144) afirma que todo território é produzido a partir do espaço, sendo uma representação inscrita num “campo de poder”. É importante considerar que entre as sociedades existem distintas formas de expressar o poder, assim como diferentes “formas de organizações geográficas e concepções de espaço e lugar”, influenciando na mudança de paisagens e significados conforme se modificam as sociedades (SACK, 2011, p.88).

Diferentemente, o território na perspectiva da Ciência Política é reduzido à materialidade, dentro da leitura marxista (materialismo histórico) de uma visão parcial e relacional do território, em que se privilegia o sentido econômico ou de produção. Por outro lado, Haesbaert (2004) citando

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Godelier (1984, p.114), enfatiza a perspectiva idealista e cultural do território, em que a apropriação simbólica se dá na medida em que a reivindicação de um território por uma sociedade se relaciona ao acesso, controle e uso, tanto do visível quanto do invisível, em condições de interdependência entre a vida humana e dos recursos dos quais esta vida depende.

Apesar da pouca ênfase dada ao “simbólico” ao se conceituar território na Geografia, encontramos Bonnemaison (2002) dentre as exceções. Esse geógrafo tropicalista (cujas pesquisas se deram na Oceania com povos melanésios e nômades) escreve que o conceito de território para os humanos não necessariamente está vinculado a um fechamento e nem mesmo a um tecido espacial unido, bem como a um comportamento estável. Antes de representar a fronteira, um território é um conjunto de lugares hierarquizados, conectados a uma rede de itinerários. Entre as etnias habitantes das ilhas na Oceania o território se fundamenta com as dinâmicas mantidas no espaço e ao mesmo tempo com as áreas que divide, em um sistema de vaivém entre enraizamento e viagens. Existem povos que não tem noção sobre o significado de fronteira, porém isso não significa o desconhecimento do seu território. Assim, a cultura também se traduz em termos de uso do espaço, não se separando da ideia de território, pois na existência da cultura se criam os territórios (BONNEMAISON, 2002, p. 102).

A noção de territorialidade para Bonnemaison (2002, p. 101-102) pode ser compreendida pela relação social e cultural mantida pelos grupos na trama de lugares e itinerários relacionados à mobilidade, constituindo dessa forma um território. Conforme o mesmo autor, “da etnia emana a territorialidade que é antes de tudo a relação culturalmente vivida entre um grupo humano e uma trama de lugares hierarquizados e interdependentes, cujo traçado no solo constitui um sistema espacial – um território” (BONNEMAISON, 2002, p. 97). Os contornos desses territórios são fluidos, porém também não deixam de apresentar “pontos fortes/fixos/de reconhecimento” conforme a expressão cultural e intencional sobre o espaço, que podem ser apresentados por elementos do ambiente (rochas, árvores, desníveis em terrenos, etc.). Entre os povos autóctones, a noção de território se alterna entre fechamento e abertura, ou seja, na fluidez da mobilidade. Pensar o território enquanto “fronteira” e “demarcação” faz parte de uma visão moderna, vinculada a questões geopolíticas dos Estados nacionais. O território para as sociedades tradicionais (autóctones) remete a noção de “núcleo”, de “vínculos afetivos e culturais com a terra”, contrariamente da ideia de apropriação e exclusão (BONNEMAISON, 2002, p. 100), características do território na compreensão da ciência política.

Assim, a conceituação de Bonnemaison (2002) sobre território parece se aproximar de perspectivas contemporâneas da antropologia sobre esse conceito, discutível se inexiste e/ou

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desconhecido entre os coletivos indígenas. Estudos antropológicos evidenciam as diferentes lógicas espaciais indígenas, bem como suas distintas formas de organização territorial, calcadas em noções abertas e fluidas de viver e usar o espaço (GALLOIS, 2004; LADEIRA, 2008). Nesse sentido, uma das evidencias da ausência da noção de território e territorialidade entre povos autóctones/indígenas estaria na dinâmica da mobilidade espacial. As lógicas espaciais indígenas passaram a ser confrontadas a partir do contato, de modo que, o ato de pensar a noção de território sob uma perspectiva de fechamento está vinculado às imposições restritivas dos processos de regularização fundiária criadas pelo Estado. Porém, conforme Gallois (2004, p.40) “nenhuma sociedade existe sem imprimir ao espaço que ocupa uma lógica territorial” e assim também os “diferentes grupos indígenas imprimem sua lógica territorial ao seu espaço”.

Genericamente o conceito de território indígena na antropologia tem sido trabalhado “enquanto espaço físico, onde determinada sociedade desenvolve relações sociais, políticas e econômicas, segundo suas bases culturais, isto é, o espaço suficiente para o desenvolvimento de todas as relações e vivências definidas pelas tradições e cosmologias” (LADEIRA, 2008, p. 87). Conforme Ladeira (2008, p. 84) entre as sociedades indígenas o termo território não é usual. Delimitações territoriais foram historicamente fixadas conforme “estratégias de poder e controle político do Estado”, de modo que a noção de “território indígena” e “terra indígena” representam “espaços dominados que forçam os índios a firmar um pacto eterno com o Estado”. Para a autora a política indigenista opera por meio da contradição na qual a “dinâmica de expropriação – concessão de terras e limites induz a crença de se estar propiciando liberdade e exercício de gestão para os índios”.

Para Ladeira (2008) a demarcação de terras – Terras Indígenas - realizada pelo Estado estão longe de garantir todo do espaço necessário para viverem conforme seus usos, costumes e tradições. Segundo a autora, as TIs são territórios normativos que não incluem a noção de territorialidade indígena, configurando-se como espaços de confinamento e opressão. Diferentemente do contexto amazônico, as TIs de uma mesma etnia no sul e sudeste além de serem pequenas são descontínuas, configurando territórios normativos fragmentados e entremeados pelas mais diversas ocupações da sociedade não indígena, como é o caso da situação territorial Mbyá-Guarani.

Verificamos nessa breve e sintética revisão teórica que os conceitos de território e territorialidade são complexos e conforme as correntes de análise em que estão vinculados carregam em si interpretações diversas, juntamente com o poder terminológico estabelecido pelas palavras, que forçam a encaixar uma porção do espaço em uma categoria de análise. Mas são conceitos em constante construção, desconstrução, reconstrução, pois refletem as relações sociais estabelecidas no

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espaço, expressando as dinâmicas das relações humanas. Os conceitos de território e territorialidade no âmbito da Geografia, Antropologia e Ciência Política mostram-se complementares para se explicar à situação dos povos autóctones na contemporaneidade diante dos processos de retomada territorial pelo quais estes passam.

3.2 Aspectos da produção do espaço em território pelos Mbyá-Guarani

Os Mbyá, juntamente com os Nhandeva e Kaiová, são integrantes de um grande conjunto sociocultural da família linguística Tupi-Guarani do tronco Tupi. Trata-se de três parcialidades étnicas que apresentam diferenças linguísticas e socioculturais (SCHADEN, 1974). Atualmente no Brasil se estima que juntas se destaquem entre as maiores populações indígenas no país, porém com menos terras regularizadas (FUNAI, 2015). A presença Mbyá é mais expressiva nas regiões sudeste4 e sul, sendo que no atual território do Rio Grande do Sul (RS) estão há pelo menos 2.000 anos, habitando de preferência em áreas florestadas nas margens das áreas lacustres, rios e do mar (NOELLI, 1993; GARLET, 1997). Mbyá, assim se autodenominam, pelo ponto de vista linguístico e como “uma identidade genérica contemporânea” (GOBBI et al., 2010, p.19).

Os Mbyá estão em meio de um processo histórico de reconhecimento de direitos, principalmente através da demarcação de TIs, apontando para tempos de reterritorialização. Para Little (1995, p.11) a reterritorialização seria uma “relocalização no espaço”, que se dá, em parte, “pela manipulação múltipla complexa da memória coletiva no processo de ajustamento ao novo local”. No caso dos Mbyá estes, forçados pela ocupação não indígena, partem de suas terras originárias em um movimento migratório, buscando espaços para se relocalizar. Essa relocalização se dá de forma planejada e de acordo com as “demandas da cultura, envolvendo os aspectos sócio-econômico-religiosos” (GARLET, 1997, p.55).

Yvy Rupá, “a terra onde pisamos, uma só terra” (MORINICO, 2010) é o termo usado pelos

Mbyá para referenciar o seu território a partir do seu ponto de vista e de conhecimentos específicos e “cosmo-ecológicos” dos ambientes que usufruem e que expressam “parte da sua territorialidade continental”. Na cosmo-ecologia Mbyá, a Região Platina se expressa em “quatro grandes unidades geográficas, que vão do interior do continente ao litoral atlântico: Yvy Mbité (centro do mundo – Paraguai); Para Miri (mesopotâmia Paraná-Uruguai, atual Província de Misiones, Argentina); Tape (caminho tradicional - parte oriental do rio Uruguai); Pará Guaçu (oceano Atlântico) ” (CATAFESTO DE SOUZA, 2008, p. 23). Morinico (2010, p. 21) complementa que os Mbyá ao

4

Com exceção de Minas Gerais. Nos estados do Pará (Reserva Indígena Nova Jacundá) e Tocantins (Terra Indígena Xambioá) também habitam populações Mbyá-Guarani.

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falarem de espaço estão falando “da vida, do conviver, do modo de ser e do caminhar, que faz parte desse modo de ser”, do Yvy Guatá (Yvy = terra; Guatá = andar/caminhar) que é uma forma de viver, de livre circulação, assim como a “água que não pára, como o sol como a lua”. O Yvy Rupá é formado por incontáveis pontos de passagens, acampamentos e centenas de tekoa (aldeias) interligadas por redes de parentesco, implicando constante reciprocidade entre as famílias (LADEIRA, 2008). A configuração do território Mbyá e mantida pela localização das suas aldeias em um vasto espaço geográfico transfronteiriço, que transpassa as atuais fronteiras nacionais entre o Paraguai, Argentina, Uruguai, Brasil. Porém a ideia de território para os Mbyá supera os limites físicos das aldeias, pois a configuração do território se dá pelas as “relações multiétnicas” estabelecidas em meio ao “compartilhamento dos espaços” (LADEIRA, 2004, p. 8).

Conforme Raffestin (1993 apud Ladeira, 2008. p. 86) “toda sociedade necessita de um campo operatório de ação e a prática espacial induzida por um sistema de ações e de comportamentos, se traduz por uma porção territorial que faz intervir tessitura, nó e rede”. Nessa leitura pode-se exemplificar a situação dos Mbyá que estabelecem suas “redes a partir de sistemas de ações que envolvem seus tekoa (aldeias) ” (LADEIRA, 2008, p.87).

Nesse contexto, a ideia de mover-se, ou melhor, a mobilidade (GARLET, 1997) é o termo apropriado para explicar a dinâmica de uso do espaço pelos Mbyá, pois, a “mobilidade e a reciprocidade permitem a apreensão do espaço físico e do espaço social, sendo a base de intercâmbios de sementes, plantas, matérias-primas, rituais, mutirões, etc.” (LADEIRA, 2008, p. 104), pois nenhum espaço é abandonado definitivamente, já que em constante movimento os Mbyá tecem, constroem e modelam os caminhos por onde passam, manejando os recursos da biodiversidade que lhes servem de suporte físico e espiritual no mundo.

Ladeira (2008, p.86) discute a dinâmica do espaço geográfico Mbyá-Guarani para esclarecer como compreender o “Yvy Rupa – onde se assenta o mundo” em relação às categorias territorialidade e território em articulação com os estudos da Geografia e Antropologia. Para os Mbyá “a noção de território se associada à noção de mundo, manutenção de um mundo, vinculado a um espaço geográfico onde desenvolvem relações que definem um modo de ser, um modo de vida” (LADEIRA, 2008, p. 97). As inúmeras dificuldades enfrentadas pelos Mbya no exercício de viver no seu mundo, o território Yvy Rupá (Yvy = terra/Rupá = assento e suporte), exigem estratégias em constante atualização. Na contemporaneidade mobilizam esforços em parceria com aliados não indígenas, a fim garantir seus direitos, almejando a autonomia e autodeterminação em relação ao uso e ocupação do espaço.

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O quadro 1 apresenta algumas terras Mbyá-Guarani no RS a partir de dados disponibilizados no site da FUNAI no Sistema de Terras Indígenas (FUNAI/STI, 2015) e pelo Centro de Trabalho Indigenista em seu recém lançado Atlas das Terras Guarani no Sul e Sudeste do Brasil (SALLES et al., 2015) no que tange à situação da demarcação, em que se encontram terras Declaradas5; Regularizadas6; as em fase de estudos de identificação e delimitação7; adquiridas pelo Estado ou por doação8; além daquelas “sem providência”9.

Quadro 1: Situação das terras Mbyá-Guarani no RS

Terra Indígena (nome em português)

Tekoa (aldeia) Município Superfície

em hectare (ha)

Fase de procedimento

Acampamento Araçaty Capivari do Sul 1 Sem providências

Água Grande Ka'a Mirïdy Camaquã 165,34 Em processo de

Desapropriação. OBS: Apenas 100 hectares foram

desapropriados

Arroio do Conde Takuaty Eldorado do

Sul/Guaíba

0 Em estudo

Cacique Doble Camboim Cacique Doble,

São Jose do Ouro

4.426,2833 Regularizada

Cacique Doble Cacique Doble,

São Jose do Ouro

0 Em Estudo

Caminho Sagrado Tape Porã Barra do Ribeiro/ Guaíba

153.0364 Adquirida

Campo Bonito Nhüu Porã Torres 94,8300 Regularizada

Cantagalo Jataity Viamão/Porto

Alegre

283,6761 Homologada Capivari (Granja

Vargas)

Yryapu Palmares do Sul 43,3215 Regularizada

Charqueadas Guajáyvi Charqueadas 263 Em processo de

desapropriação

Coxilha da Cruz* Porã Barra do Ribeiro 202,11 Em processo de

desapropriação

Estiva Nhuundy Viamão 7 Área cedida

Estiva Nhuundy Viamão 0 Em estudo

Estrela Velha Ka'aguy Poty 0 Em estudo

Figueira Guapoy Barra do Ribeiro 103.0618 Adquirida

Flor da Serra Yvy ã Poty Camaquã 111,1 Adquirida

Flor da Terra Yvy Poty Barra do Ribeiro 100.0000 Adquirida

Flor do Campo Nhu'u Poty Barra do Ribeiro 4 Área cedida por

5

São aquelas que obtiveram a expedição da Portaria Declaratória pelo Ministro da Justiça e estão autorizadas para serem demarcadas fisicamente, com a materialização dos marcos e georreferenciamento (FUNAI, 2015).

6 São as que após o decreto de homologação, foram registradas em Cartório em nome da União e na Secretaria do

Patrimônio da União (FUNAI, 2015). 7

Realização dos estudos antropológicos, históricos, fundiários, cartográficos e ambientais, que fundamentam a identificação e a delimitação da terra indígena (FUNAI, 2015).

8 Estas poderão ser registradas posteriormente como Reservas Indígenas, se destinando à posse permanente dos povos

indígenas (FUNAI, 2015).

9

No quadro 1 não constam as “antigas áreas de uso ou áreas esbulhadas”, conforme identificadas no Atlas das Terras Guarani no Sul e Sudeste do Brasil do Centro de Trabalho Indigenista (SALLES et al., 2015).

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proprietário

Gruta Maquiné Sem providências

Guarani Araça'i** 2.721,00 Declarada

Guarani Barra do Ouro Campo Molhado Maquiné, Riozinho, Caraá

2.268,6045 Regularizada

Águas Brancas Arambaré 230 Declarada

Guarani Votouro Guabiroba Benjamim

Constant do Sul 717,3770 Regularizada Guarita Gengiva/Toldo/ Guajuvira/Gamelinhas Erval Seco, Redentora, Tenente Portela 23.406,8684 Regularizada

Ilha da Lagoa Palmares do Sul Sem providências

Inhacapetum Ko'enju São Miguel da

Missões 236,33 Desapropriada (Reivindicação de Identificação) Interlagos-Estrada do Mar

Sol Nascente, Imbé, Casqueiro, Doze Tribus

Osório 45 Adquirida

Irapuá Yva'aty Caçapava do Sul 222,0000 Delimitada

Itapuã Pindó Mirim Viamão 0 Em estudo

Itapuã Pindó Mirim Viamão 25 Sem providências

Lami Pindo Poty Porto Alegre 2 Sem providências

Lami Pindo Poty Porto Alegre 0 Em estudo

Lomba do Pinheiro Anhetenguá Porto Alegre 25 Uma parte

adquirida por doação e outra comprada pelo Município

Lomba do Pinheiro Anhetenguá Porto Alegre 0 Em estudo

Mato Bonito Ka'aguy Porã Barra do Ribeiro 112, 679162 Adquirida

Mato Preto Arandu Vera Erechim,

Erebango, Getulio Vargas

4.230,0000 Declarada

Morro do Coco Viamão 0 Em estudo

Nonoai / Rio da Várzea Aldeias Limeira/Passo Sete/Rio do Mel

16.415,44 Regularizada

Nonoai Aldeias Mbaraká

Mirim/Ka'aguy Poty/Prata

Rio dos Índios, Nonoai, Planalto, Gramado dos Loureiros

19.830,0000 Declarada

Nova Coxilha Mirim Mariana Pimentel 73,9 Adquirida

Nova Kapi’i Ovy Guajayvi Poty Canguçu 129,5 Adquirida

Nova Passo Grande Tenondé Camaquã 99,8 Adquirida

Pacheca Yyguá Porã Camaquã 1.852,2050 Regularizada

Passo Grande Barra do Ribeiro 0 Em estudo

Pequena Ruína Tava'i Cristal Cedida pelo

Estado do RS/2014

Petim Arasaty Guaíba 0 Em estudo

Pinheiro Maquiné Sem

Providências

Ponta da Formiga Barra do Ribeiro 0 Em estudo

Reserva Indígena Cachoeira do Sul

Piquiri 96 Em processo de

desapropriação

Rio Capivari - Porãi Capivari do Sul 0 Em estudo

Riozinho Riozinho 24,4424 Adquirida

Riozinho 2 Itapoty Riozinho 12 Sem providências

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Santa Maria Guaviraty Porã 101.85 Em processo de desapropriação

Som dos Pássaros Guyra Nhandu Maquiné Sem providências

Três Bicos Guavira Poty Camaquã Em processo de

desapropriação

Varzinha Caraá, Maquiné 776,2761 Regularizada

* OBS: Apenas cerca de 100 hectares foram desapropriados

**OBS: Comunidade removida por força de ação judicial, enquanto tramita o processo de demarcação.

Recentemente ocorreram aquisições de terras por meio de medidas de mitigação e compensação do empreendimento de duplicação da rodovia BR 116/RS10. Diante de um contexto adverso, em que forças econômicas e políticas ampliam os obstáculos para demarcação de terras, o “licenciamento passou a ser visto como um mecanismo possível de viabilizar a conquista das terras” (GOBBI, 2014, p.73), pois após longa espera e decisões institucionais sobre aquisições de terras para fins de compensação, ao final de 2014 os Mbyá receberam, por meio do Subprograma Fundiário, o total de 834 hectares divididos entre 8 TIs, possibilitando algumas famílias melhores espaços para viverem, após décadas vivendo em beira de estradas, faixas de domínio ao longo das rodovias do RS (GOBBI, 2014). Soma-se a esse processo de aquisição de terras o Subprograma de Gestão Territorial e Ambiental Mbyá-Guarani, que, dentre outras atividades, está realizando o etnomapeamento11 das áreas adquiridas, que são antigas fazendas cujas atividades produtivas preexistentes (monocultivos de arroz, soja, eucaliptos, acácia negra, pecuária, açudes artificiais, etc.) descaracterizaram profundamente os ecossistemas originais de campos, banhados e matas nativas que integram essa região de transição entre os biomas Mata Atlântica e Pampa. Através do etnomapeamento busca-se apoiar no reconhecimento do território reconquistado pelos indígenas, facilitando um diálogo de saberes, mediado por mapas, imagens de satélite e observações in loco, planejando a reconfiguração, recuperação ambiental desses espaços a partir do manejo indígena sobre o ambiente.

Desse modo, mesmo assumindo a luta pela garantia de um território normativo, nas bases jurídicas de demarcação de terras contemporâneas, os Mbyá mantêm a perspectiva da “manutenção do seu mundo” Yvy Rupá. Apesar da situação de descontinuidade das atuais TIs garantidas pela União, o Yvy Rupa (território) dos Mbyá mesmo nestas condições é considerado um espaço de uso em construção não fragmentado, pois suas aldeias não sobrevivem isoladas uma das outras. O modo de vida Mbyá mantém uma dinâmica sociocultural que se desenvolve em toda sua dimensão territorial. Nesse sentido, a “configuração atual de um território como dos Mbyá-Guarani não é

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Empreendimento associado à aceleração do crescimento econômico do país (PAC II) e consequências no que tange a valorização das terras na região.

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O etnomapeamento é uma ferramenta de diagnóstico (Art. 2º/Decreto 7.747) para representar espacialmente territórios conforme classificações indígenas do espaço, auxiliando em planejamentos futuros de gestão dos seus territórios.

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determinada por limites geográficos, mas pelas relações entre as aldeias” (LADEIRA, 2008, p. 97-100).

Nessa dinâmica de mobilidade entre as aldeias em que ocorrem “casamentos, mortes, visitas de parentes, atritos políticos”, etc. também se configuram as “regras, costumes e tradições”. Nesse sentido, os Mbyá se organizam “social, política e economicamente dentro de uma configuração espacial que envolve todas as partes do seu mundo, onde é preciso movimentar-se para conservá-lo”. A movimentação dos Mbyá é operada em um “continuum em que relações sociais antigas e novas interagem-se, integrando o passado e o futuro como condição do presente” (LADEIRA, 2008, p. 105-106), demonstrando a temporalidade no uso do espaço.

O conceito de temporalidade é analisado por Saquet (2011), que explica que o tempo é duração e movimento, descontínuo, com saltos e superações, a unidade destes tempos está na relação espaço-tempo. Para Saquet (2011, p.79) as temporalidades se expressam nos ritmos lentos e rápidos, nas desigualdades econômicas e nos distintos objetivos cotidianos, em concomitância com distintas percepções de fenômenos e processos, leituras de mundo específicas feitas por meio “dos ritmos da sociedade e da natureza”. As desigualdades e as diferenças ocorrem em meio a estas temporalidades, que também se expressam em processualidades históricas encontradas no presente, pois segundo o autor “vivemos temporalidades passadas, presentes/coexistentes e futuras”.

De acordo com Saquet (2007 apud SAQUET, 2011, p. 80), “território é o conteúdo da relação e a relação mesma do homem com seu-ser-outro, que é ele mesmo próprio, ou seja, é resultado e condição das territorialidades e temporalidades efetivadas entre os sujeitos sociais e destes com sua natureza exterior em cada relação espaço-tempo-território”. Um território só se efetiva quando existe “relação entre indivíduos (animal-humano-ambiente), com interação plural, multidimensional, multiforme e unidade na diversidade”. Existe então “movimento no e do território, numa continua luta no e pelo espaço e pelo território-lugar”.

Nessas condições expressas por Saquet (2007) é possível vislumbrar a dinâmica do território Mbyá, no qual estabelecem suas aldeias, por eles denominadas de tekoa. Conforme Ladeira (2008, p. 161) “teko abrange os significados de ser, estar, sistema, lei, cultura, norma, tradição, comportamento, costumes, e a significa lugar”. Assim, tekoa é o lugar onde é possível viver a partir do modo de ser Guarani, que deve ser compreendido através da “junção de diversas esferas, como a social, econômica, política, geográfica, ambiental e espiritual. São as divisões naturais do ambiente que configuram os espaços de uso no tekoa” (LADEIRA, 2008, p. 161).

Nas variadas situações em que se encontram as áreas habitadas pelos Mbyá na atualidade, como: desagregação espacial; moradias construídas de maneira improvisada, sem os elementos e

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recursos acessados diretamente nas matas (como Pindó etei– Jerivá12); baixa fertilidade dos solos e falta de espaços que dificultam o manejo da agricultura de modo tradicional; perda de algumas sementes originais, sendo um dos esforços atuais a manutenção das diversas variedades do avaxi

etei13, milho sagrado para os Mbyá; poucas áreas de florestas (ka'aguy); entre outros fatores, está

cada vez mais difícil essas áreas se expressarem como tekoa, dificultado muito o exercício do mbyá

rekó (“modo de ser e estar Guarani”) (LADEIRA, 2008, p. 161). Porém, uma aldeia mesmo em

condições precárias pode ser considerada tekoa, pois seu sentido não se restringe aos aspectos do espaço físico, mas às “inter-relações sociais, espirituais e ambientais” que determinam a “coesão social” necessária para manter o “comportamento Mbya na relação com os não-indígenas”, no esforço de “seguir princípios éticos e religiosos definidos pelo teko”, que também fundamentam uma

tekoa (LADEIRA, 2008, p. 161).

Conforme Ladeira (1992 apud LADEIRA, 2008, p. 161), a tekoa “deve reunir condições físicas e ambientais que lhes permitam compor, a partir de uma família extensa com chefia espiritual própria, um espaço político-social, fundamentado na religião e na agricultura de subsistência”. É preciso ter fontes de água pura (Yy porã), matas saudáveis (kagüy porã) com variedade de animais e pássaros, possibilidades de pesca e caça, em consonância com os ciclos da natureza que regem a vida Guarani14 (LADEIRA, 2008; GARLET, 1997). O formato de um espaço de vida como a tekoa é estabelecido por divisões naturais, como rios, montes e florestas, que possibilitam o estabelecimento de relações fundamentais de reciprocidade e intercâmbios (como trocas de sementes) inerentes a existência de um verdadeiro tekoa “que reúne as constantes ambientais e sociais” ideais (LADEIRA, 2008, p. 161). Outro aspecto fundamental que define a origem de um tekoa é que “ele precisa ser sonhado, assim como um novo ser precisa ser sonhado para que tome assento no útero materno” (GARLET, 1997, p. 156). No tekoa se associa “espaço-pessoa” e se somam condições “físicas e materiais” onde é possível viver dignamente e onde o “ecológico-econômico” estejam presentes provendo “relações com as divindades” (GARLET, 1997, p. 156). Assim, as tekoa (aldeias) são formadas a partir dos sonhos em que são revelados os espaços que possibilitam “reproduzir os

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Conforme Ladeira (2008, p.118) para os Mbya a palmeira Pindó etei é “verdadeira e sagrada”, e estão associadas à construção dos tekoa em termos “simbólicos e práticos”. Os Mbya aproveitam tudo o que essa palmeira oferece: “fruto, caule, fibras e folhas” servem para “alimentação, remédio, abrigo, artefatos”. E ainda seu caule quando em decomposição favorece o crescimento de uma larvinha, chamada Yxó, rica em nutrientes eu compõe um dos elementos da dieta alimentar Guarani.

13 Avaxi etei é o milho verdadeiro. Para além da alimentação ele é usado para realizar cerimônias como o batismo onde é

revelado o nome dos pequeninos após um ano de vida (nheemongarai). Além das sementes de milho, os Mbya também usam em cerimônias de benzimento a batata doce (jety), feijão guarani (kumanda), entre outras.

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Muitas das atividades diárias Guarani no tekoa são regidas pelas estações ara pyau (tempos novos/tempo do plantio – primavera/verão) e ara yma (tempos antigos/colheita - outono/inverno) e as fases da lua (jaxy). As estações e as fases lunares indicam as melhores épocas de caçar/fazer armadilha, pescar, coletar, cortar madeira, construir casa, plantio/colheita, etc. (LADEIRA, 2008).

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elementos e as condições que lhes permitam pertencer”, pois, “não são os lugares que lhes pertencem, mas eles que pertencem aos lugares” (LADEIRA, 2008, p. 114).

4 Considerações finais

O resgate dos referenciais teóricos e situações empíricas apresentadas contribuem para evidenciar a necessessidade de acessar diferentes conceitos de território e territorialidade para ampliar a compreensão de tais conceitos quando se lida com lógicas espaciais humanas cujas referencias incluem o imaterial, o simbólico, a mobilidade, a indissociabilidade entre sociedade-natureza, senso de apropriação de uso continuado/permanente do espaço, entre outros aspectos. As dinâmicas da expressão socioespacial indígena no Brasil evidencia um campo de estudos que oferece oportunidade para avançar na necessidade de articular conceitos que tratam de território e territorialidade no âmbito das diferentes ciências, pois somente uma é insuficiente para responder o processo de territorialização pelo qual tem passado certas populações, como a situação dos Mbyá-Guarani exemplificados nesse trabalho. Na ideologia da demarcação de Terras Indígenas delimita-se um território indígena para o Estado, pois para os indígenas o comportamento territorial não é métrico, mas sim tecido com base nas relações sociais ou socioambientais com e no espaço.

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