Leitor iniciante
Leitor em processo
Leitor fluente
NILTON TORNERO
Um detetive muito louco
ILUSTRAÇÕES: RICARDO GIROTTO
PROJETO DE LEITURA
Maria José Nóbrega
“Andorinha no coqueiro, Sabiá na beira-mar, Andorinha vai e volta, Meu amor não quer voltar.”
De Leitores e Asas
MARIA JOSÉ NÓBREGA
N
uma primeira dimensão, ler pode ser entendido como de-cifrar o escrito, isto é, compreender o que letras e outros sinais gráficos representam. Sem dúvida, boa parte das ativida-des que são realizadas com as crianças nas séries iniciais do Ensino Fundamental têm como finalidade desenvolver essa capacidade. Ingenuamente, muitos pensam que, uma vez que a criança te-nha fluência para decifrar os sinais da escrita, pode ler sozite-nha, pois os sentidos estariam lá, no texto, bastando colhê-los.Por essa concepção, qualquer um que soubesse ler e conheces-se o que as palavras significam estaria apto a dizer em que lugar estão a andorinha e o sabiá; qual dos dois pássaros vai e volta e quem não quer voltar. Mas será que a resposta a estas questões bastaria para assegurar que a trova foi compreendida? Certa-mente não. A compreensão vai depender, também, e muito, do que o leitor já souber sobre pássaros e amores.
Isso porque muitos dos sentidos que depreendemos ao ler de-rivam de complexas operações cognitivas para produzir inferências. Lemos o que está nos intervalos entre as palavras, nas entrelinhas, lemos, portanto, o que não está escrito. É como se o texto apresentasse lacunas que devessem ser preenchidas pelo trabalho do leitor.
Se retornarmos à trova acima, descobriremos um “eu” que as-socia pássaros à pessoa amada. Ele sabe o lugar em que está a andorinha e o sabiá; observa que as andorinhas migram, “vão e
voltam”, mas diferentemente destas, seu amor foi e não voltou.
Apesar de não estar explícita, percebemos a comparação entre a andorinha e a pessoa amada: ambas partiram em um dado mo-mento. Apesar de também não estar explícita, percebemos a opo-sição entre elas: a andorinha retorna, mas a pessoa amada “não
quer voltar”. Se todos estes elementos que podem ser deduzidos
pelo trabalho do leitor estivessem explícitos, o texto ficaria mais ou menos assim:
Sei que a andorinha está no coqueiro, e que o sabiá está na beira-mar. Observo que a andorinha vai e volta,
mas não sei onde está meu amor que partiu e não quer voltar.
O assunto da trova é o relacionamento amoroso, a dor-de-cotovelo pelo abandono e, dependendo da experiência prévia que tivermos a respeito do assunto, quer seja esta vivida pessoalmente ou “vivida” através da ficção, diferentes emoções podem ser ativadas: alívio por estarmos próximos de quem amamos, cumplicidade por estarmos distantes de quem amamos, desilusão por não acreditarmos mais no amor, esperança de encontrar alguém diferente...
Quem produz ou lê um texto o faz a partir de um certo lugar, como diz Leonardo Boff*, a partir de onde estão seus pés e do que vêem seus olhos. Os horizontes de quem escreve e os de quem lê podem estar mais ou menos próximos. Os horizontes de um leitor e de outro podem estar mais ou menos próximos. As leitu-ras produzem interpretações que produzem avaliações que reve-lam posições: pode-se ou não concordar com o quadro de valores sustentados ou sugeridos pelo texto.
Se refletirmos a respeito do último verso “meu amor não quer
voltar”, podemos indagar, legitimamente, sem nenhuma
esperan-ça de encontrar a resposta no texto: por que ele ou ela não “quer” voltar? Repare que não é “não pode” que está escrito, é “não quer”, isto quer dizer que poderia, mas não quer voltar. O que teria provo-cado a separação? O amor acabou. Apaixonse por outra ou ou-tro? Outros projetos de vida foram mais fortes que o amor: os estu-dos, a carreira, etc. O “eu” é muito possessivo e gosta de controlar os passos dele ou dela, como controla os da andorinha e do sabiá?
___________
* “Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam.” A águia e
a galinha: uma metáfora da condição humana (37a edição, 2001), Leonardo Boff, Editora
Quem é esse que se diz “eu”? Se imaginarmos um “eu” mascu-lino, por exemplo, poderíamos, num tom machista, sustentar que mulher tem de ser mesmo conduzida com rédea curta, porque senão voa; num tom mais feminista, poderíamos dizer que a mulher fez muito bem em abandonar alguém tão controlador. Está instalada a polêmica das muitas vozes que circulam nas prá-ticas sociais...
Se levamos alguns anos para aprender a decifrar o escrito com autonomia, ler na dimensão que descrevemos é uma aprendiza-gem que não se esgota nunca, pois para alguns textos seremos sempre leitores iniciantes.
DESCRIÇÃO DO PROJETO DE LEITURA
UM POUCO SOBRE O AUTOR
Contextualiza-se o autor e sua obra no panorama da literatura para crianças.
RESENHA
Apresentamos uma síntese da obra para permitir que o pro-fessor, antecipando a temática, o enredo e seu desenvolvimento, possa considerar a pertinência da obra levando em conta as ne-cessidades e possibilidades de seus alunos.
COMENTÁRIOS SOBRE A OBRA
Procuramos evidenciar outros aspectos que vão além da trama narrativa: os temas e a perspectiva com que são abordados, cer-tos recursos expressivos usados pelo autor. A partir deles, o pro-fessor poderá identificar que conteúdos das diferentes áreas do conhecimento poderão ser explorados, que temas poderão ser discutidos, que recursos lingüísticos poderão ser explorados para ampliar a competência leitora e escritora do aluno.
PROPOSTAS DE ATIVIDADES a) antes da leitura
Ao ler, mobilizamos nossas experiências para compreendermos o texto e apreciarmos os recursos estilísticos utilizados pelo au-tor. Folheando o livro, numa rápida leitura preliminar, podemos antecipar muito a respeito do desenvolvimento da história.
[
[
]
]
]
As atividades propostas favorecem a ativação dos conhecimen-tos prévios necessários à compreensão do texto.
Explicitação dos conhecimentos prévios necessários para que os alunos compreendam o texto.
Antecipação de conteúdos do texto a partir da observação de indicadores como título (orientar a leitura de títulos e subtítulos), ilustração (folhear o livro para identificar a loca-lização, os personagens, o conflito).
Explicitação dos conteúdos que esperam encontrar na obra levando em conta os aspectos observados (estimular os alu-nos a compartilharem o que forem observando).
b) durante a leitura
São apresentados alguns objetivos orientadores para a leitura, focalizando aspectos que auxiliem a construção dos significados do texto pelo leitor.
Leitura global do texto.
Caracterização da estrutura do texto.
Identificação das articulações temporais e lógicas responsá-veis pela coesão textual.
c) depois da leitura
Propõem-se uma série de atividades para permitir uma melhor compreensão da obra, aprofundar o estudo e a reflexão a respei-to de conteúdos das diversas áreas curriculares, bem como deba-ter temas que permitam a inserção do aluno nas questões con-temporâneas.
Compreensão global do texto a partir da reprodução oral ou escrita do texto lido ou de respostas a questões formula-das pelo professor em situação de leitura compartilhada. Apreciação dos recursos expressivos mobilizados na obra. Identificação dos pontos de vista sustentados pelo autor. Explicitação das opiniões pessoais frente a questões polêmicas. Ampliação do trabalho para a pesquisa de informações com-plementares numa dimensão interdisciplinar ou para a pro-dução de outros textos ou, ainda, para produções criativas que contemplem outras linguagens artísticas.
LEIA MAIS...
do mesmo autor sobre o mesmo assunto sobre o mesmo gênero
Um detetive muito louco
NILTON TORNERO
UM POUCO SOBRE o AUTOR
Nilton Tornero nasceu em 1945, em Bauru, estado de São Paulo. Na década de 1960 (século XX), fez o curso de medicina, em Ribei-rão Preto, e foi ser professor de universidade. Depois, abandonou a medicina e passou a dedicar-se a uma antiga paixão: ser bom-beiro, profissão na qual se sente realizado. Sobre o livro Um
dete-tive muito louco, assim se pronuncia: “Os méritos desta história,
caso tenha algum, cabem aos meus filhos Maurício e Marisa. En-tretanto, assim como meus filhos, também conheci Luigi e com ele convivi. Posso dizer até, com uma ponta de orgulho, que depois desta história nos tornamos amigos. Luigi é completamente imprevisível, usa um raciocínio somente dele, mas que funciona. Basta ver a facilidade com que resolveu esse caso. Ainda que te-nha em torno de sessenta anos, Luigi é uma pessoa juvenil e, cá entre nós, parece mesmo uma criança. Acho que foi por isso que ele e os meus filhos se deram tão bem. Sua alegria e bom humor são contagiantes. Isso me faz lembrar quando lhe demos um novo pedaço de corda para substituir o antigo, já gasto, que ele usava como cinto. Luigi, de alegria, deu cambalhotas e, como não podia deixar de ser, enroscou-se no guarda-chuva, soltou uns maledetti e saiu com a careca esfolada. Mas contente. Esse é o Luigi que nós conhecemos e aprendemos a gostar e respeitar. Espero que você também pense assim. Até a próxima ocasião. Tchau, ou ciao, como prefere o Luigi”.
RESENHA
Estranhos acontecimentos assustam um bairro da cidade de Bauru: ao que parece, fantasmas atacam as pessoas, principalmente as meninas adolescentes de cabelos compridos. Sempre que são atacadas, elas desmaiam ou são adormecidas à força; quando acor-dam, estão com a cabeça raspada. O presidente da Sociedade Amigos do Bairro e seus filhos, Maurício e Marina, vão em busca de Luigi, o maior detetive de todos os tempos. Luigi trabalha no Circo Pepão, onde fascina o público decifrando os mais intrincados casos apresentados pela platéia. Luigi concorda em ir a Bauru e, depois de mil peripécias, que incluem disfarces, lutas e, é claro, a ajuda das crianças, acaba descobrindo que o culpado é Pepão, o dono do circo, que precisa dos cabelos para fabricar as bonecas mais perfeitas do mundo. Enquanto tudo acontece, Marina escre-ve um livro, que resolescre-ve chamar Um detetiescre-ve muito louco.
COMENTÁRIOS SOBRE A OBRA
O aspecto mais saliente nesta história de detetive é o non sense. A trama é recheada de idas e vindas, de surpresas e deduções, lógicas ou ilógicas. O herói — ou seria anti-herói? — é um personagem que mistura sabedoria e loucura, mas acaba sempre conseguindo o que quer: o triunfo do bem. Pela diversidade das situações e dos persona-gens, aconselha-se uma leitura acompanhada a cada capítulo.
Áreas envolvidas: Língua Portuguesa Temas transversais: Ética
Público-alvo: leitor fluente
PROPOSTAS DE ATIVIDADES Antes da leitura:
1. Pergunte à classe quem gosta de histórias policiais. Como tem
contato com esse gênero? Livros, revistas, filmes? Faça um levan-tamento de quais são os preferidos da turma.
2. Apresente a capa do livro que vão ler. Que tipo de história de
percebam que o traço de Girotto lembra caricaturas, sugerindo que o tema terá um tratamento humorístico.
Durante a leitura:
1. Antecipar aos alunos que a narrativa é recheada de situações
insólitas, surreais, ou, dizendo de outro modo, de non senses. Peça que anotem algumas delas.
2. O livro traz uma trama de mistério. Peça que tentem seguir
algumas pistas e descobrir o culpado ou o motivo do crime antes do final da leitura.
3. A obra se compõe de catorze capítulos. Uma boa maneira de não
se perder o fio da meada é encarregar a cada dia um aluno de resu-mir para a classe o capítulo lido.
Depois da leitura:
1. Assegure-se de que os alunos entenderam a trama toda,
per-guntando-lhes quem, afinal, era o culpado, quais eram seus moti-vos e quem eram seus cúmplices.
2. Para tirar suas conclusões, o detetive seguiu algumas pistas e usou
a lógica; outras deduções são completamente ilógicas. Peça que refa-çam o percurso do raciocínio de Luigi, separando o lógico do ilógico. Vocês podem fazer isso coletivamente, fica mais fácil.
3. Abra um debate com a classe: Quem gostou desse tipo de
nar-rativa policial? Quem prefere o tradicional?
4. Marina escreve um livro sobre o caso misterioso que está
viven-do. Pergunte aos alunos quem já viveu um caso assim. O mistério foi resolvido? Como? Por quem? Organize a classe em grupos e proponha que cada um escreva uma das histórias relatadas pelos colegas.
5. Uma brincadeira que toda criança gosta de fazer é aquela de
escrever coletivamente, sem saber o que o colega escreveu. Cada um escreve uma parte: quem, com quem, quando, onde, fazendo o que etc. Geralmente resulta uma seqüência engraçada, sem pé nem cabeça. Adapte a brincadeira para uma seqüência de misté-rio, por exemplo: o que aconteceu (o mistério), com quem, onde, quem foi (o culpado), por que, uma pista etc. A partir das seqüên-cias resultantes, proponha que escrevam um conto de mistério. Os textos podem formar um livrinho para a classe se divertir.
6. As situações absurdas podem gerar desenhos bem divertidos.
Proponha que os alunos ilustrem os contos que escreveram.
LEIA MAIS... 1. DO MESMO AUTOR
• Os caminhos da Cólera — São Paulo, Editora Moderna
2. SOBRE O MESMO ASSUNTO
• Juca Jabuti, Dona Leôncia e a Superonça –– Orígenes Lessa,
São Paulo, Editora Moderna
• O mistério do Paço das Hortênsias –– Teresa Noronha, São
Paulo, Editora Moderna
• O sumiço das palavras –– Nelson de Oliveira, São Paulo,
Editora Saraiva
• Lelé da Cuca, detetive especial –– Antônio Carlos Vilela,