Investidura do Hábito Monástico dos Irs. Emílio e Carlos 21 de março de 2015.

Texto

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Investidura do Hábito Monástico dos Irs. Emílio e Carlos

21 de março de 2015. Caríssimos Irmãos:

NPS.Bento, iniciante na busca de Deus, terá o monge Romano, do Mosteiro do abade Adeodato, qual dom do Altíssimo em sua vida.

Conforme a verdadeira Tradição Monástica, ninguém se faz mon-ge; sê-lo-á feito por um outro. É preciso, pois, que alguém lhe atire o manto, como Elias o lançou sobre Eliseu para transmitir-lhe seu espírito. Vida Monástica, portanto, é transmissão de uma Tradição, que se faz na dinâmica de um discipulado.

Assim como o jovem Samuel teve o sacerdote Heli (1Sm 3,1-11), Eliseu o profeta Elias (1Rs 19,19), assim também, São Bento o monge Ro-mano.

Hoje, estamos reunidos solenemente na Sala Capitular para dar continuidade a essa Tradição: iniciar nossos postulantes Emílio e Carlos na vida monástica beneditina, um espaço eclesial de “Sequela Christi”.

Pelas mãos do Abade, todos os já consagrados vestirão ambos os irmãos, prolongando no tempo o gesto de Romano ao conceder o hábito do monaquismo a São Bento, e este como abade, a seus monges, che-gando até nós.

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Conhecemos bem a história de São Bento enquanto vivia na gruta em Subiaco, contemplado pelo olhar misericordioso do Contemplador Supremo e sob a solicitude de Romano, que fazia descer-lhe numa cesti-nha, através de uma corda, o pão cotidiano. O bom monge atacara à cor-da uma sineta para que soasse enquanto baixava o alimento a seu discí-pulo. “Ao ouvir-lhe o toque, soubesse que era a hora de baixar o alimento, e saís-se a tomá-lo”.

“Um dia, porém, o antigo inimigo, invejando a caridade de um e a refei-ção do outro, quando viu descer o pão, jogou uma pedra e quebrou a campainha. Romano, não obstante, não desistiu de prestar por meios aptos o seu serviço”. Romper o vínculo da caridade que une os homens é trabalho do demô-nio, sobretudo àqueles que buscam “agradar somente a Deus”.

Diz São Gregório: “Romano não desistiu de prestar por meios aptos o seu serviço”. Saíram vitoriosos por causa do coração e da inteligência de Romano.

O tempo do noviciado, de alguma forma, será sempre uma expe-riência análoga a de São Bento em Subiaco.

O Abade e a comunidade fazem chegar até o noviço o pão da Tra-dição que herdaram, qual dádiva descida do céu.

A cada dia, oferecem-lhe o pão da Palavra de Deus nas celebra-ções litúrgicas e no exercício cotidiano da lectio. Em sala de aula, o pão do conhecimento da fé cristã e dos Sacramentos, da Santa Regra, da vida

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de São Bento, da história e Tradição monásticas e de outras disciplinas necessárias ao amadurecimento humano. No trabalho, o pão do ensina-mento prático para executar bem e responsavelmente os diversos ofícios e encargos. No convívio fraterno, o pão da docilidade no relacionamento com pessoas tão diversas pela idade, educação e cultura. Na cela, o pão da paciência ao desfrutar da sadia e necessária solidão, qual preparação fundamental para o conhecimento de si próprio e à comunhão com os demais. Nos dias livres, o pão do justo equilíbrio na distribuição do tem-po para o laser, descanso e participação ativa nos encontros fraternos in-formais. Nos colóquios, o pão do diálogo instrutivo entre mestre e discí-pulo, provocado pela leitura de livros e textos selecionados. Nas Colações comunitárias, o pão da palavra do Abade, dos irmãos, dos visitantes e, também, da escuta da boa literatura apropriada à formação humana, cristã e monástica. Enfim, tudo que a “conversatio” do Mosteiro oferece, devem os noviços contemplar como alimento descido do céu – dom de Deus – exatamente como São Bento experimentara na gruta em Subiaco.

Entretanto, o antigo inimigo continua sua astúcia para impedir o bem entre aqueles que desejam “agradar somente a Deus”.

Incansável – aquele a quem renunciamos às suas obras e sedu-ções em nosso Batismo e a renovamos anualmente na Vigília Pascal – persevera arremessando pedras de muitas e variadas formas, impedindo,

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assim, o noviço de se alimentar da sabedoria cristã, monástica e humana que lhe convém indispensavelmente.

Sucedendo-se tal calamidade, ou seja, quando Romano – o Abade e os monges – desiste de “prestar por meios aptos esse serviço”, ou porque o iniciante na vida monástica torna-se surdo ao som da sineta, gradativa-mente, vai se perdendo com pensamentos, esgotando-se com suas lutas, desesperando-se com sua solidão, esvaziando-se com suas distrações e, vacilantes, fugirá logo, “tomado de pavor, do caminho da salvação, que nunca se abre senão por estreito início.”

Outras vezes, poderá acontecer do antigo inimigo, por meio de ir-mãos fragilizados espiritualmente, deitar sorrateiramente na cestinha, ao lado do pão da formação, bilhetinhos ou pequenos recados: “não leve muito a sério o que escuta”; “esse tempo passa logo”; “o que se exige dos forman-dos, ninguém o faz”; “abertura do coração, nem pensar”, “o conteúdo das aulas é só para o noviciado”, etc, etc, etc. Isso ocorrendo, estará comprometida a caminhada do noviço, e se permanecer no Mosteiro, sua vida de monge.

Caros Emílio e Carlos, jamais se deixem vencer pelas artimanhas do demônio. Como Romano, nós nos comprometemos, com a graça de Deus, em continuar oferecendo aos formandos, por meios aptos, o es-sencial para alcançarem a consagração monástica.

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Por outro lado, estejam atentos. O pão da formação monástica que nosso Mosteiro lhes oferece precisa ser acolhido com fé, assimilado, degustado e transformado em vida, para o bem de toda a Igreja.

Emílio, a partir de hoje, seu padroeiro será seu grande intercessor na luta contra o mal e no fortalecimento de todo seus bons propósitos. O pp. São Dâmaso, que iniciou a reforma litúrgica de Roma no século IV, traduzindo-a do grego para o latim, língua de compreensão do povo, sa-bia o quanto era importante guardar no coração a Palavra de Deus e os textos litúrgicos, porque “lex orandi, lex credendi”.

Carlos, a pedido de São Dâmaso, seu padroeiro traduziu a Sagrada Escritura para o latim, a chamada Bíblia Vulgata. São Jerônimo, em obe-diência ao papa, juntamente com as monjas de Jerusalém, não mediu es-forços nessa obra laboriosa por amor a todo o povo de Deus de tradição latina.

O mesmo espírito que animava São Dâmaso e São Jerônimo os anime na vida monástica de nosso Mosteiro, um espaço eclesial, para juntos sermos um contínuo e eloquente “maranathá vivente”.

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