R A
CURSO DE
GRADUAÇAO
EM
CIENCMS ECONOMICAS
UMA
ANÁLISE
DA
LEGISLAÇÃO
E SEUS EFEITOS
SOBRE
A
EVOLUÇÃO
DO
_
SETOR
ELÉTRICO
BRASILEIRO
I
Monografia
submetida ao departamento de
ciênciaseconômicas
para obtenção de carga
horária
na
disciplinaCNM
5420
-
Monografia
Por
Fabíolade
Bona
SartorOrientador: Prof.
Edvaldo
Alvesde
Santana, Dr.UNIVERSIDADE
FEDERAL DE
SANTA
CATARINA
cURso
DE
GRADUAÇÃO
EM
CIÊNCIAS
EcoNôM1cAs
A
banca examinadora resolveu atribuir a nota 7 ,O (sete) à aluna Fabíola deBona
Sartorna
disciplina
CNM
5420
-
Monografia,
pela apresentação deste Trabalho.Banca
Examinadora:Prof.
Édva
do
Alvesde
SantanaPresidente
Pmf.
silviocano
/
Membro
Prof.
Fernando
Seabra¡
AGRADECIMENTOS
|
Agradeço
aDeus
por ter iluminadomeus
passos a cadamomento
de
incerteza e dificuldadena
vida acadêmica.Começar
foi fácil,mas
prosseguir foi dificil, e paranão
fracassar aprendique
é necessário que sevá acostumando
a transformarem
fáceis as coisasque
aparentemente são dificeis.
Aos meus
pais e irmão - Vicente deBona
Sartor, MarliMaria
deBona
Sartor e Flamarionde
Bona
Sartor -que
em
todos osmomentos
dessacaminhada souberam compreender
ecompaitilhar de todos os acontecimentos felizes e dificeis dessa caminhada.
Ao
meu
noivo - Luiz Ricardo Espíndola-
que demonstrou
seu verdadeiroamor
porcompartilhar cada
segundo da minha
vida, incentivando e estimulandoo
meu
sucesso,sacrificando muitas vezes
momentos
de lazer e diversão para ajudar na elaboração desse trabalho.Aos meus
avós -Maria
José dos Santos eManoel
Lourenço
dos Santos ~'que sempre
seorgulharam e incentivaram os estudos de sua neta, tanto
no
Curso de Direito,como
naEspecialização e
no Curso
de Economia.Ao
Professor Dr.Edvaldo
Alves de Santana, pelo apoio e pela orientação na elaboraçãodessa
monografia, por
tercompreendido
e ajudadoem
todos os obstáculos existentes.A
todosmeus
amigos
e familiaresque
diretaou
indiretamente acreditaramno
meu
1
SUMÁRIO
I
CAPÍTULO
I_
INTRODUÇÃO
01
1.1-
ProblemáticaO2
1.2-
Objetivos04
1.2.1-
Objetivo GeralO4
1.2.2-
Objetivo Específico04
1.3-
MetodologiaO4
1.4-
Estruturado
trabalhoO6
CAPÍTULO
II -ENERGIA;
SEU
CONCEITO
E
HISTÓRICO
oõ
2.1
-
Considerações iniciais07
2.2. - Conceito fisico e
econômico
de energiaO8
2.3
- Uso
econômico
da energia na históriaO9
CAPÍTULO
III -LEGISLAÇÃO E
EVOLUÇÃO DO
SETOR DE
ENERGIA
ELÉTRICA
NO
BRASIL
(1930-1964) 123.1
-OPeríOdo
de 1930-1945 123.1.1 -
O
Código
dasÁguas
-1934
153.1.2-O
Código
deMinas
163.2
-
O
Periodo de 1946-1964 173.3
-
O
Período pós-
64
193.4
-
Considerações finais 21CAPÍTULO
IV -
A MATRIZ
LEGISLATIVA E
O DESEMPENHO
DA
INDÚSTRIA
22
4.1
-
Os
principaismarcos
legais22
CAPÍTULO
V
-
CONSOLIDANDO
A
REFORMA
RECENTE
5.1
-
Considerações Iniciais5.2
~
O
novo modelo
~
Lei 9648/985.3
-
Aspectos jurídicos e regulamentares5.4
-
A
ANEEL
~
o Órgão reguladorCONCLUSÕES
E
RECOMENDAÇÕES
REFCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
Referências Bibliográficas Utilizadas Referências Bibliográficas GeraisANEXO
31
3132
34
36
40
42
42
4345
1
1
CAPÍTULO
1 ~l
INTRODUÇÃO
Dentre as reformas previstas nos setores de infra-estrutura
do
Brasil, ado
setorelétrico é a
que
estáem
estágio mais avançado.Um
dos objetivosda
reestruturação desse setor é,em
tese,promover
competiçãoem
mercados
contestáveis.A
idéia básica é a deque
acompetição estimula as inovações de
forma
a alavancar eficiência das companhias.H
Uma
vezmudadas
as regras de funcionamentodo
mercado, cabe às empresas se reestruturarem na busca deum
gerenciamentoadequado
que procure moldar a visãoda
companhia, a organização interna, os
métodos
de planejamento, a formulação de estratégias ea cultura organizacional aos
novos
desafiosdo
ambiente externo.Em
um
ambiente incerto, asorganizações
devem
procurar transformar asameaças
em
Oportunidades, visando cniarvantagens competitivas
em
relação aos concorrentesl. _Enfim,
diante o exposto, é apresentado neste trabalhouma
contribuição; para o debate acercada
reforma institucionaldo
setor elétrico brasileiro, analisandoO que
aconteceucom
a indústria de energia elétrica nosmeados
da década de 90, sobretudono que
se refereao
seumarco
institucional e ao sistema reguladori
Na
indústria de energia elétrica,no
Brasil eem
outras partesdo mundo,
asmudanças
que estão
em
cursoenvolvem
uma
série demodificações no
arcabouço legal, Oque
implica a discussão dasmudanças
com
os diversos segmentos da sociedade.Logo,
ao contráriodo que
ocorre, por exemplo, na indústria de papel e celulose,onde
as decisõesdependem
quaseque
exclusivamente das empresas,
no
setor de energia asmudanças no
padrão de competição e dei
crescimento é função, sobretudo, de alterações,
ou
de limites regulatórios, quedependem
deleis, isto é,
do
Congresso Nacional.' `
Os
aspectos legaisdo
setor elétrico abrange diversos fatores, destacando-se: as formas de concessões, autorizações e permissões; os regulamentos para a licitação deuma
concessão;a legislação que define os limites de concentração
do
mercado; a obrigatoriedadede
desverticalização; as modalidades de energia e as formas de comercialização, as regras
tarifárias; e outros aspectos.
1
_.._. _ z- ~ ___
Desse
modo,
analisar osmarcos
legaisque
nortearam o desenvolvimentoda
indústriaelétrica
no
Brasil e discutir asmudanças que
estão ocorrendo é, na verdade,uma
pesquisa denatureza econômica,
dado
que trataria, de maneira especial, da dinâmica de organizaçãoda
indústria. _
1.1
-
Problemática
Desde
os primórdios,o
serviço de energia elétricano
Brasil se caracterizou deforma
pioneira, sendo que sua implementação foi realizadaquase
que
simultaneamentecom
a dospaíses mais adiantados da
Europa
e nos Estados Unidos,no
finaldo
século'
_
Na
medida
queo
Brasil ingressavana
fase de industrialização, oçfornecimento deenergia elétrica passou a
desempenhar
um
papel fundamental eum
requisito intrínseco à própria necessidade de se atingir o desenvolvimento sustentável.Com
a crescente urbanização, a necessidade de infra-estrutura de grande porte ecom
o
desinteresse
do
capital privado-
que
voltou-se para outros setores da economia, poisnão
encontrava suficientes atrativos na indústria de energia elétrica,
dado
o regime tarifário-
osetor foi cada vez mais sendo estatizado e
foram
criados os Sistemas Interligados,que
resultaram
em uma
maximização
dos beneficios energéticos.Como
no
Brasil convivia-secom
um
ambiente políticomarcado
por princípiosestatizantes,
em
1962
é criada a Eletrobrás, através de lei,que
assumia as funções desupridora de área, através da Eletrosul, Furnas,
Chesf
e Eletronorte, a coordenação dossistemas interligados
ea
função de banco defomento
para o setor.O
setor elétrico buscou recursosno
exteriorcomo
formade
fazer frente àdemanda
crescente de energia elétrica, iniciando a construção de grandes obras de geração.
Em
decorrência deste fato,aumentou
significativamente seu endividamento extemo, sujeito às variaçõesda
taxa de juros internacionais e à política. cambial estabelecida pelo governo.Nos
anos70
e 80, os objetivosdo
governo era descentralizar industrialmenteo
país,incentivar a exportação,
promover
a substituição de importações e de absorção de preçospelas
camadas
popularesda
sociedade. Dentro deste enfoque, as tarifas de energia elétricaforam concebidas de forma equalizada (igual
em
todoo
país), os serviços foram centralizadose o capital estatal
tomou-se
majoritário.Tudo
isto foi feito através demudanças no
aparato3
Com
o
objetivo de sustentar este modelo, criou-se acâmara
decompensação
denominada
de “Reserva Global de Garantia~
RGG”,
posteriormentechamada
de ReservaNacional de
Compensação
daRemuneração
-RENCOR.
Nesta fase, a forte influênciagovernamental era representada pela função normativa e, principalmente, pelo rígido controle
da política tarifária.
Como
as tarifaseram
muito baixas, aUnião
acabouficando
com
uma
dívida muitoelevada (mais de
US$
15 bilhões,em
março
de 1993), a qual era contabilizadaem uma
rubrica
denominada
deConta
de Resultado aCompensar -
CRC.
A
fase seguinte,da metade
da década de80
atémarço
de 1993, foimarcada
pelaacentuada
queda
da rentabilidade das empresasem
face da violenta contençãode
preçospúblicos.
Sem
recursos para expansão,com
taxas' de remuneração dos investimentosinsuficientes e baixa geração intema de recursos e receitas, o setor passou a apresentar
desequilíbrio econômico-financeiro, culminando
com
inadimplência intrasetorialgeneralizada.
A
O
quadro pioroucom
a Constituição Brasileira de 1988 que alterou e ampliou osencargos e taxas sobre serviços de energia elétrica, criando, por exemplo, a Contribuição
Financeira pelo uso dos recursos hídricos.
A
conjugação dos fatos já levantados,determinam o
aprofundamentoda
criseeconômico-financeira das concessionárias e serve de
pano
de fundo para a edição da Lei8.631/93, o
marco
legal da fase seguinte. Esta lei trouxeuma
certa revoluçãono modelo
institucional.
Com
ela foi eliminada a equalização tarifária e derrubava-seo
principioda
prestação
do
serviçocom
a remuneração garantida,uma
das fontes de ineficiênciado
setor.Um
acordo entre concessionárias .eo
Governo
Federalno
âmbitoda
regulamentação(Decreto 774), possibilitou a recuperação tarifária e,
com
isto, a volta da credibilidadedo
setor. Definiam-se, assim, os primeiros contornos de
uma
relativa autonomia empresarial emaior flexibilidade de gestão, que posteriormente não se
confirmaram.
VDesse
modo,
com
anova
legislação de 1993 (Lei 8.631) as empresasgeradoras/distribuidoras saíram
da
fase de controles rígidos de preços, sendo possível, desdeentão, a busca da otimização das contas intrasetoriais e a identificação de sua estrutura ótima
de capital. _
Com
a Lei 9.074/95 regulamentou-se o dispositivo constitucional da Licitação deConcessões dos Serviços Públicos de Energia Elétrica,
com
o objetivo de introduzir acompetição
no
setor.Com
a Lei 9648/98 surge oMAE
- Mercado
deAtacado
de Energia,com
os objetivosde estabelecer
um
preço que reflita o custo marginal e que possa ser utilizado para balizar contratos bilaterais de longo prazo.As
medidas
constantes de tal lei_são talvez, as maisimportantes desde a publicação
do Código
de Águas, na década de 30. Ela obriga a desverticalização das empresas,modifica
o papel da Eletrobrás, tirando-lhedo
centro das decisões e, sobretudo, estabelece osmecanismos
para a criação deum
ambientede
competição,
no
casoMAE.
Neste sentido, a indústria de energia é parte de
um
segmento econômico
em
que
aevolução, sob os diversos pontos de vista, é fortemente
marcada
por intervençõesno marco
regulatório. Foi
uma
indústria que nasceu privada, foi estatizada na década de60
com
osurgimento da Eletrobrás e desde
meados
dos anos90
vem
passando por profundastransformações institucionais,
na
qual a privatização e a 'criação deum
ambiente competitivosão as principais marcas.
1.2 '- Objetivos
1.2.1
-
Objetivos geraisDada
a problemática acima,o
objetivo geral deste trabalho é analisar deque
formas aevolução
do
arcabouço legal afetou a estrutura, a conduta eo
desempenho do
setor de energiaelétrica.
1.2.2
-
Objetivo específicoEste
tem
aindaum
objetivo específicobem
abrangenteo
qual consisteem
analisarmais detalhadamente as
mudanças
e beneficios ocorridoscom
o passar dos anosem
relaçãoao aprimoramento da legislação referentes as empresas de eletricidade,
chegando
até a análiseda lei que cria a
ANEEL.
1.3
-
Metodologia
0
método
utilizado foio
analítico-empírico, eo
levantamento bibliográfico de dadose teorias 'foram efetuados nos acervosda
Biblioteca Central da Universidade Federal de Santa5
Catarina e na Divisão de
Mercado
de Energia Elétrica e Divisão de ViabilidadeEconômica
das Centrais Elétricas de Santa Catarina S.A.
+
CELESC,
alémda
busca constantede
outras fontes secundárias, taiscomo
teses, dissertações entre outras obras.O
relatóriodo
grupo deconsultores
que
recomendou
ao governo asmudanças
mais recentes foi outra importante fontede dados e informações. Destaque-se, ainda,
que
estamonografia
desenvolvidano
âmbitodo
Núcleo
de Estudos deEconomia
da Energia,onde
outros trabalhos (de teses e dissertações) estava sendo elaborados.Assim, torna-se interessante discutir de que maneiras a estrutura
de
governançavem
sendo (legalmente) modificada ie mostrar a importância disso para a evolução
de
diversosaspectos (preço, produção de energia, tipo de propriedade etc) da indústria de energia elétrica.
Devido
à própria naturezado
objetivo geral proposto, 0mesmo
foi abordado deuma
forma
histórica.O
tratamento teórico-empíricodo
problema foi efetuado a partirdo modelo
Estrutura-Conduta-Desempenho, segundo o qual a conduta das empresas
de
uma
dada
indústria é fiinção da estrutura.
Por
essemesmo
princípio teórico odesempenho
das empresasdependeria de suas condutas,
onde
se incluem as estratégias de preçosou
as formas decompetição.
O
diagrama a seguir caracteriza omodelo
de Estrutura-
Conduta
-
Desempenho.
Estrutura -)
Conduta
-)Desempenho
L
Políticas Públicas
Conforme
definidoem
Konz, a estrutura da indústria seriafimção
de diversos fatores,como:
a existência e o grau das barreiras à entrada, o limite da tecnologia, dos efeitos daseconomias
de escala e escopo e atémesmo
da naturezado
produto. Assim, caberia às políticas públicasum
papelextremamente
importante,o
qual estaria relacionado a sua capacidade decriar
mecanismos
regulatórios para eliminar osmonopólios
eimpor
condutas (ou estratégias)que
levem
aoaumento
da eficiênciasem
prejuízos para os consumidores.Desse
modo,
este trabalho trata,em
última instância, da análise históricado
papeldo
poder público
na
criação demecanismos
legais e dos efeitos destes sobre o setor elétricobrasileiro.
Sob
o ponto de vistada
relaçãométodo da
pesquisa e resultados da pesquisa, aprincipal limitação
do
trabalho são ospoucos
dados utilizados paracomprovar
os resultados.2
KON,
A
EconomiaNa
verdade, a consolidaçãodo
volume
de dadosque
seriam necessários para toda a análisehistórica tomaria
um
tempo
bem
maiordo que o
que se dispõe para a elaboraçãoda
monografia.
Este limite,no
entanto,não
prejudicaram os resultadosdo
trabalho,de
maneira especialno que
diz respeito ao seu objetivo geral.Outra limitação importante
da
monografia é que a pesquisana
legislaçãodo
setorelétrico
não
foi feita de fomra exaustiva, dando-se ênfase apenas às leis principais,sem
maiores preocupações
com
a hierarquia das leis.Ou
seja, nãoforam
analisados os decretos eas portarias, que são as formas mais praticadas de regulamentação das leis.
Por
último, não foi feitauma
análise mais abrangentedo
modelo
de Estrutura-Conduta-Desempenho,
o que tomaria o trabalho cientificamente mais consistente. Contudo,tal
modelo
é bastante conhecido e, além disso,no
seusegmento que
foi utilizado neste trabalho as relações são bastante óbvias,sem
maiores necessidades deaprofundamento
teórico.
1.4
-
Estruturado
trabalhoO
trabalho está estruturadoda
seguinte maneira:no
segundo capítulo tratada
revisãoda parte conceitual e histórica da energia.
No
terceiro capítulo é analisada a legislação sobre energia elétricano
Brasil,no
periodo de 1930 a 1996.No
quarto capítulo é discutida a matriz legislativado
setor de energia elétrica.No
quinto capítulo o sistemade
regulaçãodo
Setor Elétrico Brasileiro, enfocando aANEEL
- onovo
órgão regulador; Por último, o capítulo seisl
i
CAPÍTULO
n
I
EN1‹:RGIAz
SEU
coNcEITo
E
HISTÓRICO
2.1
-
Considerações IniciaisNestecapítulo é realizado
um
levantamento sucintodo
conceito e histórico de energia,além
de apresentar sua utilizaçãoeconômica no
decorrerdo
tempo.O
objetivo aquinão
é realizaruma
análise completa e minuciosa da indústria,mas
sim alocar de forma pontual a sua evolução.A
questão energética vislumbra-se entre as principais preocupações das ciências ligadas ao estudoda
vida social eeconômica na
década de 70.A
princípiotema
defilosofia
e depois da fisica, a questão da energia é hojetema
de discurso político, dos centros de pesquisatecnológica,
econômica
e social.Apareceu
como
preocupação mundialquando
aconteceu aelevação
do
preço internacionaldo
petróleo nos fins de 73, demonstrando condensar asprincipais questões econômicas, sociais e políticas
da
atualidade: relações entre os países detentores de matérias-primas e os industrializados, concentraçãoou
descentralizaçãodo
poder, preservação
do meio
ambiente, futuro das cidades, entre outros.De
1974 para cá,uma
massa
impressionante de artigos, livros, relatórios etc. foiintroduzida e publicada. V
A
politizaçãodo
assunto futuro energético, tantono
plano das relações internacionais,quanto dentro das fronteiras nacionais de cada pais, é
um
dosmarcos
mais visíveis da históriacontemporânea3.
A
questão energética revelou-se planetária, porque afeta diretamente todos os paisesdo
globo, capitalistas e comunistas, desenvolvidos e subdesenvolvidos, produzindoem
cadaum
deles efeitos específicos, e porque envolve a própria civilização industrial nosmoldes
em
que
ela se desenvolveu desde aRevolução
Industrialdo
finaldo
séc. XVIII.A
seguir, é reunidaalgumas
observações sobreo
conceito de energia e sobre os principaismarcos
de sua utilizaçãoeconômica
ao longo da história.3
COTTRELL,
W. F. Energy and Society: the relation between energy, social change and economic2.2 - Conceito físico e
econômico
da
energiaUma
das exigências importantesda
problemática energética de nossos dias é a deque
se conheça melhor o papel representado pela energia
no
processo econômico,buscando
um
conceito de energia que incorpore
o
conhecimento básico produzido pela fisica eque
seja referido ao universo da atividade econômica.A
definição dada pela fisica é a deque
a energia representa a capacidade de realizar trabalho, este, por sua vez, é definidocomo
o
fator responsável poralgum
tipo demudança
em
relações flsicas (forma,tempo ou
lugar).Associada à
noção
de energia, imprescindível parauma
primeira aproximaçãodo
realsignificado da energia
na
vida econômica, é anoção
de conversão.Conforme
observa Cottrell4, todoo problema
de carência de energia enfrentado pelohomem
reside na questão da sua habilidade para converter a energia incidente e aarmazenada
na natureza
em
energia útildo
ponto de vista de suas necessidades. Para que osfluxos
deenergia que constituem as condições naturais de sua existência
possam
ser aproveitadoseconomicamente, isto é,
como
valores de uso, pelohomem,
é necessária a intervençãodo
conversor de energia.
Além
do
corpo ohomem
contacom
dois tipos de conversores de energia:0 conversores orgânicos: animais domésticos para o transporte, lenha cortada para
o
fogoetc.
0 conversores inorgânicos:
máquina
a vapor, usina hidrelétrica, abomba
atômica, etc.A
história da energiatem
mostradouma
tendência à substituição dos conversores orgânicos, que ohomem
encontrou na natureza, pelos inorgânicos, criados pelohomem
ecapazes de absorver fontes de energia até então
pouco
utilizáveis. Issopode
ser constatadoatravés da invenção da
máquina
a vapor.O
conhecimento e a capacidade que ohomem
adquiriucom
ofim
de controlar asforças
da
natureza, transformando-asem
valores de uso para a satisfação das necessidadeshumanas, eram
vistos por Freudãcomo
sendo a principal tendência da civilização.O
conversor de energia é o equipamento atravésdo
qual ohomem
transformaem
energia útil a energia solar de
alguma
maneira absorvida pela natureza.4
ia, ibid.
5
9
2.3 -
Uso
econômico da
energiana
históriaNos
primórdiosda
existênciado
homem
sobre a Terra, todoo
seuconsumo
de energiaera constituído pelos alimentos e, mais tarde, pelo fogo utilizado
em
seu cozimento. AGrécia e
Roma
antigas assinalam a existência dos primeirosmoinhos
dӇgua deque
setem
notícia.O
fluxo
das águas foi aproveitadocomo
meio
de transporte.O
adventodo
moinho
associa-se à utilização da energia hidráulica para fins industriais.Em
relação à Idade Média, procura-se mostrar a decisiva importânciada
tecnologia criada nos séculos XI, XII e XIII para o adventoda Revolução
Industrial do século XVIII.Graças as inovações técnicas, o rendimento
melhorou
eforam
descobertas novas formas deenergia.
Numerosas
tarefas executadas amão
passaram a ser confradas a máquinas.A
partirdo
séculoXV, uma
grande série depequenos
inventos e melhorias técnicastransformaram, progressivamente, estas
máquinas
(moinhos) que continuam utilizando aágua
como
principal fonte de energia.A
Revolução
Industrialdo
finaldo
séculoXVIII
constitui o principal marco,verdadeiro divisor de águas,
em
relação à estrutura deconsumo
de energia na atividadeeconômica.
'
A
PrimeiraRevolução
Industrial apresentacomo
característica apassagem
damanufatura (significa
o
trabalho manual) para a indústria.Com
aRevolução
Industrial ocorrea substituição das
mãos
do
trabalhador e sua ferramenta poruma
máquina-ferramenta eempurrando~o para a função de vigia enquanto o
mantém
como
força motriz, origemdo
movimento.
A
Revolução
Industrial transforma-senuma
revolução energética de profundas e ~duradouras implicaçoes.
Com
a introdução das máquinas-ferramentas se efetivam,com
a substituiçãoda
energia fisica muscular limitadado
trabalhador pela energia solar concentrada, armazenêfda nanatureza sob a
forma
do
carvão mineral.À
máquina-ferramenta se alia a força propulsora damáquina
a vapor,nova forma
de força motriz.A
Revolução
Industrialdo
séculoXVIII
transforma-senuma
revolução energética.O
carvão, através
do
conversor de energiachamado
máquina
a vapor, encontrava pela primeiravez
uma
utilidadeem
grande escala.A
grandemáquina
motrizda
PrimeiraRevolução
Industrial foi amáquina a
vapor.Até
O
uso da força hidráulica, principal fonte inanimada de energia de aplicação industrialaté o surgimento da
máquina
a vapor, estava limitado pela natureza técnicado
conversor deenergia
que
alimentava.I
As
estradas de ferro constituem outromarco
daRevolução
Industrialdo
fim
do
séculoXVIII.
Sua
invenção e desenvolvimento estão -duplamente ligados à indústriado
carvão.Por
um
ladoconsomem-no
como
força motriz damáquina
a vapor.Por
outro, é a própria necessidade de transportar quantidades crescentes desse mineral que será omóvel
imediatodo
seu surgimento e generalização.
A
industrialização e a generalizaçãodo
transporte ferroviárioprovocam
a definitiva transferênciado
centro de gravidadeda
economia
para as cidades.A
concentração nas cidades repercute na estrutura deprodução
econsumo
de
energia, principalmente aquela destinada à~
funçao de
bem
deconsumo
doméstico e público.A
Segunda Revolução
Industrial, iniciada na segundametade do
séculoXIX,
viria reforçar ainda mais a tendênciaem
basear a industrialização sobreo
consumo
de energiaacumulada. Nesta fase
que
se manifestam e depois seimpõem
as novas técnicasque
proporcionarão ao século
XX
os fatores deum
prodigioso desenvolvimento industrial.A
década de 1870 inauguraum
período de rápidamutação do
processo produtivo.A
civilização
do
carvão, damáquina
a vapor e da estrada de ferrocomeça
a dar lugar ádo
petróleo,
do motor
a explosão edo
automóvel: acesso anova
fonte via inovaçãodo
conversore revolução dos transportes.
A
eletricidade encontracaminho
para sua utilização industrial.Como
ocorreraquando
da PrimeiraRevolução
Industrial, eporque
não dizer de todo avançosignificativo
na
produção de riquezas, encontrou-seno
cerne daSegunda Revolução
Industriala transformação da
equipagem
conversora de energia.É
também
na Segunda Revolução
Industrial que sedesenvolvem
conversoreshidráulicos competitivos e instalam-se as primeiras centrais hidráulicas (Suíça);
O
desenvolvimento da eletricidade permitiu, assim
o
aproveitamento deum
enorme
potencial deenergia das aguas.
É
naSegunda Revolução
Industrial que verificamos a definiçãodo
padrão deconsumo
de energia ainda hoje vigente.Da
Segunda Revolução
Industrial para cá,uma
inovação importante,no que
diz respeito á tecnologia dos conversores de energia, é a tecnologia nuclear. Celso Furtado enfocaa problemática atual da energia nuclear
remontando
a suas origens,ou
seja, ao contexto dasguerra mundiais e da corrida armamentista. Essa tecnologia nasceu diretamente
do
empenho
ll
Ao
problema
dos resíduos atômicos,com
seu potencial radiativo apresentandoextrema periculosidade a vida
humana,
atéaproximadamente 600
anos após sua estocagem,soma-se ainda a questão da segurança dos próprios reatores, envolvendo problemas
que vão
desde a falibilidade dos sistemas de refrigeração até a incerteza quanto às condições
geológicas sob as quais operará tão poderoso, e potencialmente perverso, conversor de
energia.
Um
outro aspecto importanteno
histórico da energia estaria associado às formas deorganização das empresas de energia
bem
como
aforma
de organização da indústria.Desde
aorigem
do
setor, isto é, desde quanto a energia foi encaradacomo
uma
atividade econômica,verifica-se que as empresas prestadoras
do
serviço de energia são públicasou
privadas,no
primeiro caso federal, estadualou
municipal.Quanto
à predominância das diversas formas, observa-se que isto variaem
cada país.Porém, no
geral, as empresas nasceram privadas,cresceram
com
a ajudado
Estado e, nos dias atuais, estão sendo,em
muitos casos,como
no
Brasil e
no Reino
Unido, transferidos parao
capital privado.No
que se refere ao arranjo da indústria, de energia, istotambém tem
variado muito.Independentemente de as empresas serem privadas
ou
estatais, a energia elétrica era,no
iníciodo
século, quasesempre
supridapor
monopólios.As
empresas eram,em
geral, responsáveis pelo fornecimento de energia para pequenas localidades e os sistemas elétricoseram
isolados.Ou
seja,não haviam
ligações regionais, entre estadosou
pior ainda, entre países.~ ~
As
novas tecnologias de produçao de eletricidade e possibilidade de interligaçao desistemas a grandes distâncias,
provocaram
grandesmudanças no
formato das indústrias,como
asque
estão sendo implementadasno
Brasil e que jáforam
implantadas na Argentina,no
Chile,
na
Inglaterra,na
Espanha
ena
Noruega.A
criação deum
ambiente de competiçãovem
sendo a principal
marca
dessas grandes mudanças. Para isto, as empresas estão sendoobrigadas a se desverticalizarem e
têm
sido impostas sérias regras contra concentraçãodo
mercado
e contra as participações cruzadas.Em
outras palavras, a energia elétrica éum
caso típicoem
que asmudanças
tecnológicas proporcionaram modificações importantes
no
formato da indústria.O
foco deste trabalho,como
será visto nos capítulos seguintes, é mostrar deque
maneira as legislações,no
Brasil, estão sendo adaptadas para isto.,
CAPÍTULO
111ii
LEGISLAÇÃO
E
EVOLUÇÃO DO
SETOR
DE ENERGIA ELÉTRICA
NO
BRASIL
(1930
z
1964)No
Brasil,O
Estadosempre
teve a função de ordenar o setor elétrico, desde aelaboração de Códigos reguladores da exploração dos recursos naturais até a constituição de
empresas vinculadas a essas atividades.
O
propósito desta partedo
trabalho é mostrar a evolução institucionaldo
setor energético atémeados
de 1964,dando
ênfaseno
capítulo posterior às últimasmudanças
ocorridas até a Lei 9648/98, que institui o
MAE
e cria o ambiente-de competição.3.1 -
O
períodode 1930-1945
No
período de 1930-1945 ocorre o avançodo
processo de industrialização,que
se ligaà crise
do
setor exportador decorrente da depressão mundial dos anos 30.Há
amudança
do
setor primário-exportador para a indústria, que desenvolvia a produção de bens de
consumo
não duráveis e
caminha
para a indústria de base e de bens deconsumo
duráveis.A
energia elétrica éO
primeirosegmento do
setor energético que adquire importância naeconomia
brasileira, cuja expansão decorredo
desenvolvimento da indústria edo
processo de urbanização.O
reflexodo
surgimento e crescimento da capacidade instalada deprodução
de eletricidade sobre
o
resto daeconomia
éum
fato marcante,conforme argumentado
em
Santanaó.
V
A
primeira usina,em
Minas
Gerais,no
finaldo
século passado, surgiu nessepanorama.
Era
uma
usina hidroelétrica que era utilizada prioritariamente para supriruma
fábrica de tecidos.
Assim
aconteceu outras usinas, o que mostra, desde o início a relação entre energia e industrialização.Com
o
uso da energia elétrica para iluminação e para traçãoelétrica (bondes, por exemplo), tornou-se cada vez mais importante as interferências
do
poderpúblico,
uma
veznão
só issocomo
a produção de eletricidade quasesempre
resultaem
6
SANTANA,
Edvaldo Alves de.O
planejamento da geração de energia elétrica através deuma
metodologia de análise hierárquica por similaridadecom
as restrições do sistema. Florianópolis, 1994,13
externalidades (positivas e negativas).
Além
disso, avenda
de energia para a população (deforma
geral) exigia regulação econômica, tendoem
vista que, naquela época, questionava-se (muito) os monopólios privados de fornecimento de eletricidade, os quais, além de praticarempreços muito elevados, não
expandiam
a capacidade instalada deforma
compatívelcom
a snecessidades
da
demanda. Foi dentro deste cenário quecomeçou
a ganhar corpo as intervenções mais organizadasdo
Governo
Federal.A
consolidação jurídicado
setor culminacom
a aprovaçãodo Código
deÁguas
em
julho de 1934, que constituiu
um
dos principaismarcos
institucionaisdo
setorde
energiaelétrica, regulamentando a propriedade das águas e sua utilização, dispondo sobre a outorga
de autorizações e concessões para exploração dos serviços de energia elétrica, inclusive o
critério de determinação das tarifas destes serviços públicos e a competência dos estados
na
execução
do
próprio Código7.Neste período,
merecem
destaque os seguintes aspectos (veja detalhes da legislaçãono
anexo):
_ .
0 transformação de repartições federais, estaduais e municipais que exercessem atividades
relacionadas
com
asdo
Conselho Nacional deÁguas
e Energia Elétrica,em
seus Órgãosauxiliares; e .
0 a obrigatoriedade
do pagamento
deuma
taxa sobre a potência concedidaou
autorizada porconcessionários de energia hidrelétrica, que
pode
representar ogerme do
futuro impostoúnico sobre energia elétrica.
'
Segundo
Calabis, alguns autoresargumentam que
oCodigo
deÁguas
éum
documento
da mais alta sabedoria e honra tanto os seus autores
como
o governo que o adotou epromulgou; explicando que
em
menos
de 17 anos a potência instaladano
Brasil duplicou.Portanto, através de interferências legais o governo equacionou, naquela época,
uma
enorme
fatia
do
mercado, a qual desestimulavaou
nao incentivava a expansaodo
sistema elétrico.As
críticas estavam ligadas ao problema das tarifas, baseadasno
custo históricoou no
custo
do
serviço, gerandouma
polêmica que caminharia até a década de 60.No
caso, os7
CALABI, A. S. et ali.
A
Energia e a Economia Brasileira - Estudos Econômicos. Fipe/ São Paulo: Pioneira,1983 (cap. 1, p. 116-179). 8
nacionalistas
reclamavam que
a tan`fa, calculada de acordocom
o princípioda remuneração
garantida, era muito elevada,
com
lucros exorbitantes para os monopolistas privados.De
outro, as empresas
argumentavam que
a tarifa era\baixa e, por causa disso,não conseguiam
recursos suficientes para os
novos
investimentos.A
questãodo
petróleo (1930-1945) reveste-se não só de caráter político,como
écondicionada por circunstâncias externas, a
exemplo
daSegunda
Guerra Mundial.A
diretrizimplícita na política brasileira de petróleo
começou
a adquirir nitidezno
decursoda
depressãoeconômica
mundial de 1929.Na
publicaçãodo Código
de Minas, outrodocumento
importante para o setor elétrico,prevaleceram as concessões de jazidas
que
estivessem sendo exploradas, o quenão
era o casodas jazidas de petróleo.
O
problema
do
balanço depagamentos
também
motivariauma
certa preocupaçãocom
o carvão. Essa fonte energética era considerada,com
o álcool-motor eo
petróleo,como
capaz de levar o pais a tornar-se independenteem
matéria de combustíveis.Ao
finalda
década de 30,o
Presidenteda
,República ressaltouo aumento
de produçãodo
carvão nacional,em
conseqüência das dificuldades de abastecimento
do
carvão europeu, que contribuía para amaior parte
do
consumo
intemo.Os
aspectos institucionais relativos ao carvão nacional,no
período entre 1930-1945,abrangem
desde os Códigos de Minas, de1934
e 40, passando pelo estabelecimento e elevaçãoda
cota obrigatória deconsumo
do
carvão nacional, financiamento às empresascarboníferas, articulação
com
aComissão
Executivado
Plano Siderúrgico Nacional,em
1940,e distribuição controlada pelo
govemo,
de acordocom
o plano de emergênciaem
vigordurante a grande guerra.
Sinteticamente, pode-se dizer que
o Código
deMinas
éuma
organização jurídicada
pesquisa e exploração das riquezas minerais, entre elas aparecendo o carvão.A
esse respeito,o destaque legislativo
do
periodo é que,em
1931,o
governo decreta a suspensão de quaisqueroperação de alienação e/ou oneração de jazidas minerais,
bem como
de terrasem
que
se sabia15
3.1.1 _
0
Código
dasÁguas
-1934
O
Código
deÁguas
surgeem
1934, quaseque
.simultaneamentecom
apromulgação
da
nova
Constituição, introduzindo o conceito de intervenção estatal na exploração de riquezas naturais,como
minas e quedas d'água.Em
lO de julho de 1934, o presidente GetúlioVargas assinou 0 decreto 26.234,
promulgando
oCódigo
de Águas,que
regulamentouo
setorde águas e energia elétrica.
O
Código
atribuía ao poder público o controle sobre as concessionárias de energiaelétrica, determinando a fiscalização técnica e contábil destas empresas. Esta cláusula visava
atingir às empresas estrangeiras atuando
no
Brasil,em
especial a Light, acusada de auferirgrandes lucros, via tarifa,
além
de transferir esses lucros parao
exterior. Este fatomarcava
uma
vitória das forças nacionalistasem
defesa deuma
política restritiva às açõesdo
capital estrangeiro.Tal instrumento regulatório permitiu ao Poder Público controlar e incentivar
o
aproveitamento industrial dos recursos hídricos, deixando a cargo
do
Ministério daAgricultura a execução
do
Código.A
parte geral dispõe sobre a questão jurídica das águas e sua propriedade.Após
a definição de propriedade das águas,o Código
estabeleceo
caráter deutilidade pública, o
que
corresponde à separação entre a propriedade e a utilização dosrecursos hídricos.
Quanto
à regulamentação da energia hidrelétrica,o Código
dasÁguas
dispõe sobre osaproveitamentos de quedas d”água, considerados de utilidade pública, e sujeitos à concessão
naquelas fontes de energia hidráulica
com
potência superior a150
kW
e aproveitamentosdestinados a serviços de utilidade pública.
A
propriedade privada de quedas d”ág1a só era possível nos casosem
que
os cursosdӇgua
eram
definidoscomo
comuns
ou
particulares, nos termosdo
Código.Em
relação àsconcessões, estas seriam outorgadas por decreto
do
Presidente da República, referendadopelo Ministério
da
Agricultura e válidos pelo prazo normal de30
anos, prorrogável para até50.
As
tarifas defomecimento
de energia elétrica seriam estabelecidas exclusivamenteem
moeda
correntedo
país e revistos de 3em
3 anos. _O
Código
deÁguas
foium
elemento determinante para a evoluçãodo
setor elétrico.As
medidas regulatórias constantesdo Código
alteravam deforma
significativa a estrutura, aremuneraçao da empresas,
acabou aumentando
onúmero
de empresas participantesda
oferta,de maneira especial através
do
aparecimento de empresas municipais e estaduais.Da
mesma
forma, tais medidas regulatóriastambém
provocou
grandes modificaçõesnas estratégias das empresas, sobretudo
no
que se refere à formaçãoda
tarifa e ao padrão decrescimento, que
começou
a daruma
maior ênfase às usinas hidrelétricas de grande porte.O
desempenho, no
entanto, não foi dos melhores.O
limite da remuneraçãoem
fiinção dosinvestimentos
em
serviços, resultouem
sobre-investimentos, oque
leva aum
baixo ídice de eficiênciano
uso das instalações e, muitas vezes, à necessidade de maiores níveis de tarifas.3.1.2 -
O
Código de
Minas
Ao
mesmo
tempo que o
setor elétrico se consolidava, havia a necessidadeda
consolidação da legislação que regulava a indústria extrativa mineral, cujo desenvolvimento
estaria na dependência de medidas que facilitassem, incentivassem e garantissem a
participação da iniciativa privada
na
pesquisa dessas riquezas.O
usodo
cawão
edo
petróleo para a produção de eletricidade era a principal ligação entreo Código
deÁguas
e oCódigo
de Minas.No
contextodo Código
deMinas
o aproveitamento das jazidas seria feito pelo regime de autorizações e concessões, que seriam precedidas deuma
série de exigências,cabendo
aogoverno central a decisão final.
Os
pontos relevantesno Código
deMinas
eram: a preferência pelo proprietário dejazida
no
momento
da
concessãoda
lavra, e a concessão da lavra estaria sujeita a resultadosatisfatório de pesquisa, o
que
emprestava a esse departamentouma
importância fundamentalnessas decisões.
Tanto
no Código
deMinas
quantono Código
das Águas, não existia tantapreocupação
com
o aspectodo
suprimento energético:o
objetivoda
legislação eramais
amplo
que _o problema energético, e a questão da oferta de energia não constituía
um
problema
dosmais graves na época
em
questão.A
partir de 1938,com
o regime de jazidas petrolíferas e a criaçãodo
ConselhoNacional
do
Petróleo(CNP),
fazcom
que o petróleo passe a ocuparum
lugar de destaqueno
cenário das decisões govemamentais. Nesta época foi incorporado ao
Código
deMinas
um
17
modo,
passam
a pertencer àUnião ou
aos estados as jazidas de petróleo e gás natural,porventura existentes
no
território nacional.O
CNP,
organismoautônomo
e subordinado ao Presidenteda
República, tinhaamplas
incumbências,
como
por exemplo, pensar toda a políticado
Estadono
setor de petróleo. Istoincluiria os incentivos, estatísticas sobre o
consumo,
pesquisa e consultas sobre o setorpetrolífero, além de opinar sobre a conveniência
da
outorga de autorizações de pesquisa econcessões de lavra de jazidas de petróleo, gás natural, e outros.
3.2 -
O
períodode 1946
-
1964
No
ambientemacroeconômico o
Brasil contava,no
início deste periodo,com
uma
estrutura industrial avançada, sustentada
em
indústrias de bens deconsumo
duráveis eindústrias de base. Essa época caracteriza-se por
uma
atividade politico-partidária intensa epor algumas crises.
O
setor energético apresenta algumas definições e algumas novidades,como
a criação, através de leia específicas da Petrobrás,da
Comissão
Executivado
Planodo
Carvão
Nacional, daComissão
Nacional de Energia Nuclear e a constituição da Eletrobrás.O
Presidente da República, Getúlio Vargas, ressaltavaque
a eletricidade,como
elemento de progresso e desenvolvimento industrial, não deveria ser apenas barata,
mas
abundante,
devendo
a oferta de energia preceder e estimular a própria demanda.A
questãoque
mais gerou polêmica foi ado
petróleo.O
pós-grerra foimarcado
porum
movimento
de revisão da política nacionalista que procuraria reduzir a interferênciagovernamental
em
todo o setor energético.No
periodo de 1946-64 o álcool seria praticamente esquecido. Entre os fatoresque
contribuíram para a
pouca
importância ao álcool,no
pós-guerra, estão:0 baixo preço
do
petróleono mercado
intemacional,0 a politica de construção de refinarias para o refino
do
petróleo nacional e importado, e 0 tratamento especial dispensado aos preçosdo
petróleo e seus derivados.Estes fatores
também
contribuíram para aqueda
da participação do carvãono
balançoenergético brasileiro,
no
período pós-guerra, aexemplo do
que aconteceucom
o álcool.Em
relação ao carvão mineral, após aSegunda
GuerraMundial
a indústria carbonífera nacional enfrentou grave crise. Dizia Getúlio Vargas que todos lutavam pelo combustívelem
abundância.
O
Presidente aponta amédio
prazouma
solução para a indústria carbonífera: os proprietários das minas deveriampromover
a nacionalizaçãoda
lavra, a elevaçãoda produção
por
homem/dia,
e a mecanização das operações e dosmétodos
delavagem
do
cawão.No
caso da energia nuclear, esta teve sua origem na criação,também
por lei específica,do
Conselho Nacional de Pesquisas,quando
se decidiu incentivar a pesquisa e a prospeção demateriais destinados ao aproveitamento de energia atômica.
A
questão dos minérios atôrnicos era regulada basicamente por três documentos:0 a lei
que
criou o Conselho Nacional de Pesquisas- CNPq;
0 o
Código
de Minas; e M0 as Diretrizes Governamentais para a Política Nacional de Energia Nuclear.
Assim, pelo visto acima,
o
aparato legaldo
periodoprovocou
importantesmudanças
no
setor energético (de maneira geral) eno
setor elétrico (deforma
particular). Entre osprincipais
marcos
legais, destacam-se:0 a Constituição de 1946; 0 Estatuto
do
Petróleo-
1948,0 a criação
do
Conselho Nacional de Pesquisas e aRegulamentação
de Pesquisa eLavra
deMinerais Radioativos
-
1951;0 Plano
do Carvão Nacional-
1953,0 a criação da Petrobrás
~
1953;0 a regulamentação dos Serviços de Energia Elétrica
-
1957 ; e0 a criação da Eletrobrás - 1961.
No
geral, foitambém
durante este periodoque
a participaçãodo
governono
setorenergético deixou de ser apenas regulatório, passando a ser
também
empresarial,o que
se dava, por exemplo, através da Eletrobrás (e suas controladasChesf
eFumas)
e da Petrobrás.Foi
também
nesteque
surgiram as grandes estaduais de energia elétrica, concentrando grande parteda
ofertade
energia .em empresas estatais, principalmente federais .e estaduais. Nesteperíodo,
não
ocorreram grandes efeitos sobre a condutaou
sobre odesempenho
das empresas.19
3.3 -
O
período pós-64Este período se inicia
com
recessão econômica, pela conjugação de inúmerosproblemas derivados da própria industrialização brasileira e
do
caráter cíclicoque
caracterizava a economia.
A
inflação é apontadacomo
maior responsável pela crise de crescimentoda
economia
brasileira,
o que
leva o governo militar queassume
em
abril de 1964 apromove
uma
série dereformas
tributária, tarifária, fiscal e financeira e a tentar realizarum
cortede
gastos.Essa política levou ao aprofundamento da crise,
comredução
do
crescimento econômico,com
~
quedas substanciais na taxa de inflaçao. _
Esta política é alterada pelo
govemo
Costa e Silva,em
1967.O
objetivo, agora, eraapontar as novas saídas para o
combate
à inflação e recuperaçãodo
crescimento. Procurava-seestabelecer
mecanismos
de recuperação da capacidade ociosa vigente de várias maneiras,destacando-se, concessão de subsídios, incentivos fiscais e realização de investimentos públicos (projetos de eletrificação, por exemplo).
As
principaismudanças
institucionais oconidas a partir de abril de 1964 foram:0
Criação
da Comissão
de Desenvolvimento
Industrial- com
o
objetivo depromover
e orientar a expansãodo
parque industrialdo
país.0
Criação
da Comissão
de
Comércio
Exterior- com
0
objetivo depromover
e orientar aexpansão
do
intercâmbio comercialdo
país.0
Criação
do
Conselho Monetário
Nacional edo
Fundo
de
Financiamento para
Aquisição
de
Máquinas
eEquipamentos
Industriais(FINAME)
-
com
o objetivo deformular a política monetária
do govemo,
assegurando taxas de jurofavoráveis aos financiamentos que se destinassem a promover, entre outras coisas, à eletrificação rural.
O FINAME
seria destinado a financiar as operações decompra
evenda
~
de
máquinas
e equipamentos de produçao nacional. `Foi
também
neste período que foi criado o Ministério deMinas
e Energia, e mais: 0Comissão do
Planodo Carvão
Nacional;0
Companhia
Vale
do Rio
Doce;0 Petrobrás e subsidiárias; 0 Eletrobrás e subsidiárias,
Sociedades de
Economia
Mista daUnião
e autarquias, cujos objetivos fossem aprodução
e 0 comércio de energia
ou
de minerais.A
seguir é apresentado alguns traços principaisdo desempenho
dos setoresencarregados da energia elétrica, petróleo, álcool, carvão e energia nuclear.
Energia
Elétrica/pós-64: atendimento àdemanda
de energia elétrica; financiamentoda
expansão
do
setor e à questão tarifária.É
importante colocarque
as grandes empresasdo
setor de energia elétrica surgiram a partir de grandes projetos hidrelétricos.
A
interligaçãodos sistemas elétricos, foi
um
fator 'que propiciou estabilidade nas taxas de crescimentodo
consumo
de energia elétrica, permitindouma
oferta maior de energia.Petróleo - a produção nacional de petróleo não correspondeu à expansão das atividades
da
Petrobrás, muito
menos
às necessidadesdo
consumo
nacional.A
Petrobráspromove
aexploração de áreas petrolíferas
em
outros países, através da subsidiária na Colômbia.Produção
óleo de xisto, política empreendida pela Petrobrás.Álcool - até 70 o álcool,
como
fonte energética, não parece ter recuperado a importânciados anos 30.
A
alta dos preços intemacionaisdo
petróleo,em
1973, deveria colocar oálcool
em
outraordem
de prioridade. Criaçãodo
Programa
Nacionaldo
Álcool, tendoo
objetivo o atendimento das necessidades
do mercado
interno e externo eda
política decombustíveis automotivos.
Com
esteprograma
é visto a importânciado
álcool.Carvão
- neste período o setor carbonífero nãotem
mostrado sinais evidentes deum
desenvolvimento estável e seguro.
Em
termos de produção estadual de carvão utilizável,Santa Catarina
mantém
a liderança, seguida peloRio
Grande do
Sul e Paraná.A
Comissão
do
Planodo Carvão
Nacional foi a entidade responsável pela atividade carbonífera,durante a década de 60.
Mudanças
foram
trazidas pela Constituição de 1967,como
aextinção
do
direito de preferênciado
proprietáriodo
solo na exploração dos recursos minerais.Energia Nuclear
- é objeto de atençõesno
período pós-64 e a partir de 1973.Em
1967
21
do emprego
da energia nuclearno
Brasil, parafins
pacíficos ecomo
fonna
de contribuição para o desenvolvimento econômico. Criação de 2companhias
ligadas à energia atômica,entre
1969
e 1972, aCompanhia
de Pesquisa de Recursos Minerais(CPRM)
e aCompanhia
Brasileira de Tecnologia Nuclear(CBTN),
transformadaem
Nuclebrásno ano
de 1974.
No
ano seguinte ocorreu oAcordo
deCooperação
Nuclearcom
a RepúblicaFederal
da
Alemanha
, que visava obter as condiçõesque
se faziam necessárias paraimplantar a indústria nuclear
no
Brasil,como
porexemplo
recursoshumanos
e técnicos.3.4
-
Considerações finaisO
Código
deÁgua
e o arcabouço legalque
iniciou as condições para oaumento da
participação
do
Estadono
setor de energia(em
geral), através da criaçãoda
Petrobrás, Eletrobrás, MinistériodeMinas
e Energia e outras foram as principais açõesdo
poder públicono
período analisado.Os
efeitos disso sobre o setor elétrico foram determinantes demodificações importantes na estrutura
do
setor, na conduta eno desempenho
das empresas.As
empresas passaram a ser maiores, estatais, as tarifaseram
controladas pela remuneração,que
tinhaum
limite superior, e os resultados financeiros não permitiam a expansãoda
ofertade
forma
compatívelcom
o crescimentoda
demanda. Estes assuntos são discutidos deforma
|
_
E
CAPÍTULO
Iv
»A MATRIZ
LEGISLATIVA E
O DESEMPENHO
DA
INDÚSTRIA
O
Setor Elétrico Brasileiro, por tratar de atividade estratégica parao
Estado e consideradas as suas características, própriasde
um
Monopólio
Natural,como
no
casodo
segmento
da
distribuição de energia elétrica, é regido pormecanismos
eum
conjuntode
leisextremamente
peculiares. Neste capítulo é mostrado deque
maneira essas leis afetaramou
afetam
o
desempenho do
setor elétrico brasileiro.4.1 -
Os
principaismarcos
legaisCom
a edição da Lei 1.145, de 1903, regulamentada pelo Decreto-lei 5.407, de 1904, surgiuo
primeiro texto legal sobreo
Setor de Energia Elétrica, cujos principais tópicostratavam
do
prazo de concessão, reversão à União, regime tarifário etc.Portanto, a primeira interferência
do
Governo no
setor elétrico foi concretizada atravésde
um
arcabouço legal que visava a regulação econômica, criando instrumentosque
contemplavam
diretrizes gerais para controledo monopólio
- na época privada. `Na
década de 20, iniciou-seum
processo de concentração de capital, liderado pelosgrupos
LIGHT
(Canadense) eAMFORP
(Norte-americano),que
assumiram nosmercados
consumidores de energia elétrica mais importantes (principalmente capitais dos estados),
adquirindo sistemas isolados
em
todo País.Por
outro lado,no
interior, sobreviviamcom
algimas dificuldades, pequenas empresas municipais
ou
privadas, estas geralmente de capitalnacional.
Apesar da
importância das diretrizes definidasna
Lei 1145 de 1903, os incentivos criados nãoforam
suficientes para inibir a concentraçãodo
mercado.O
mais grave é que,no
Brasil, tal concentração se dava
em
duas únicas empresas, as quais centravam suas atividadesapenas
no
Centro-Suldo
Brasil, sobretudo nos Estadosdo Rio
de Janeiro e São Paulo.A
partirda promulgação do Código
de Águas, atravésdo
decreto-lei 24.643 de 1934, eleis subseqüentes, que vigoraram
sem
regulamentação formal poraproximadamente 20
anos,verificou-se