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A medicina portuguesa em 1958

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CONGRESSO

MENTAL

PORTUGUESA

ASSOCIACk0

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Centro Editor Livreiro da Orden dos Módkos, SocIedade Unipesseal, da.

SEDE AvAlmIrante Gago Coudnho, 151 1749-084 Lhasa • Tel.: 218 427 100

SUM A R I 0

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• •• • ••• Ano 26 - N.° 109 - Marco/Abril 2010 PROPRIEDADE: Redatoto, Product° e Services de Publicidade:

Av. Almirame Gago. Caution°, 151 1749-084 Lisboa odornaomcne.pt Tel.: 258 437 750 - Fax: 218 437 751 Director. Pedro Nunes Directores•djuntos:

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PerIodicidade: Mensal

Tiragem: 40.500 exemplar (I I n6meros anuais)

Isento de registo no ICS nos termos do if I, alinea a do arcigo 12 do Decreto Regulamentar e 8/99

EDITORIAL If IFORITACAO

CNE confirms nio existirem irregularidades nas viagens a Madrid

08

ACTUALIDADE

Tribunal espanhol di razio AMA

09 IV Congresso da CMLP e IV Congresso da ASMELP em Maputo

16 111FORI,-nCAO

Admissio por consenso — Ginecologia OncolOgica 17 Confederacio Lusefona de Urologia (CLU) I7 Exarne de Medicina I ntensiva 22 Plataforma de GestAo Integrada da Doenca Renal Cr6nica

24 Pedido de perito medico

25 Profissional de Satide para efeitos do Estatuto do Medicamento

28 MGF exercida por nAo especialistas

30

OPHIA0

De quem sio os artigos publicados na Revista? por Rosalvo Almeida

31 Fotografia

por H. Carmona da Moto

32 In Memoriam: Jaime Celestino da Costa por Fernando Paredes

34 Psicossomitica estrutural por Jaime Milheiro

38 A Satide Urbana e a Satide PUblica por Lticio Meneses de Almeida

42 Carta ao Presidente da Reptiblica

por Manuel Pinto Coelho 44 Reflexfies sobre filhos

«legitimosn e «naturais» e fertilizacao in vitro por Maria Teresa Nato

46 A Psiquiatria a uma Ciencia? por Candid° Ferreira

50 0 novo C6digo Deonto16-gico e a sonda nasogistrica, em doentes em final de vida

por Tiago Tribotet de Abreu

52 Etica e ensaios clinicos luz da Declaracio de Helsinquia por Antonio Jose de Barros Veloso

58 A diaspora dos Hospitais Civis de Lisboa por Antonio Josè de Barros Veloso

62 Desfacatez

por Carlos Costa Almeida

64 Congresso National de Medicina da OM, ou do Service National de Saticle?

por Passos Gonsalves

66 Apresentacio do livro Contributos para a

HistOria do Hosp. Geral de Santo Antonio

por Ernesto Carvalho

CULTURA

HISTORIAS DA HISTORIA

A Medicina em Portugal em 1958 04

S

07 69 71

Nota da redaccjo: Os artigos de opiniao e outros artigos assinados sae da inteira responsabilidade dOs . . • - . . . . .

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HISTORIAS da HISTORIA

A MEDICINA EM

PORTUGAL EM 1958*

No convite que me foi formulado para participar na sessio comemorativa do cinquentenirio da inauguracio do ac-tual edificio do Instituto de Higiene e MedicinaTropical,foi-me solicitado que me debrucasse sobre a situacio da Me-dicina em Portugal nesse ano de 1958, ano que representa um marco impor-tante na vida desta Instituicio cente-niria, criada em 1902 por Carta de Lei do Rei D. Carlos, sob a denomina-cio de Escola de MedicinaTropical,ano em que foi igualmente criado em Lis-boa o entio chamado Hospital Colo-nial. Essas inauguracees sucederam numa epoca em que os paises euro-peus, sentindo a necessidade de pro-curar resolver ou pelo menos atenuar as questOes sanitirias existentes nas suas colOnias, fundaram as suas Esco-las de Medicina Tropical. Deve realcar-se que a histOria do Instituto de Higie-ne e Medicina Tropical, o quarto cria-do na Europa, foi sempre rodeada de urn enorme prestigio e qualidade, quer na prestaCao de servicos is comuni-dades das antigas colOnias, onde de-senvolveu papel pioneiro no combate a virias das endemics ai prevalentes, tais como a malaria, a doenca do sono, a febre amarela e a lepra, entre tantas outras, actividade feita away& de mal-tiplas missiles cientificas, desenvolvidas paralelo corn o seu papel relevante `de formacio de especialistas em pato-logia tropical, alêm de se creditar como

um centro de investigacio de renome internacional. Na epoca a que nos re-portamos, cinquenta anos atris, entre tantas outras figuras de renome inter-nacional, pontificavam nomes como Raga de Azevedo, Francisco Cambour-nac, Cruz Ferreira e Guilherme farm A realizagio do VI Congresso Internaci-onal de Medicina Tropical e da

em Lisboa, em Setembro de 1958, bem prova do elevado prestigio ci-entifico que sempre caracterizou a

Ins-Henrique Lecour**

tituicio alvo desta homenagem. Gos-taria alias, de citar ainda, os Anais do Instituto, publicacio que durante mais de quarenta anos foi uma referenda national e internacional nesta area da patologia tropical. Lembro-me de mui-tas vezes os ter consultado, sempre com enorme proveito, tanto mais que vi-via-se numa epoca em que a biblio-grafia media national nit) abundava. Falar sobre a Medicina Portuguesa em 1958 é para mim, mere figura secun-dada desta epoca, nio mais do que um recordar de acontecimentos e fac-tor, pois, jovem medico, acabava nesse ano o Internato Geral no Hospital Geral de Santo Antonio e iniciava a minha carreira docente na Faculdade de Me-dicina do Porto.

A Medicina Portuguesa vivia nessa epoca o marcado atraso em que o Pais se encontrava, caracterizado por bai-xos indices de desenvolvimento sOcio-econinico, cultural e sanitirio. A po-pulacio, dado o seu elevado grau de pobreza, mostrava marcada debilida-de dos seus niveis debilida-de saCkle. Grandebilida-de parte da populacio vivia em meios rurais e apoiada numa economia de subsistfincia. Condit es habitacionais deficientes, carincias alimentares, rasa disponibilidade de igua potivel e de saneamento basico, elevada taxa de al-coolismo, auséncia de programas de imunizacio, falta de uma adequada proteccio a maternidade e a crianca, e notOria insuficiéncia das estruturas de saade e de apoio medico, justifica-vam as elevadas taxas de mortalidade global, de mortalidade infantil e de mortalidade materna emit) registadas. As tans de mortalidade e de morbili-dade de varias doencas infecciosas evi-taveis pela imunizacio eram igualmen-te um estigma que nos envergonhava perante os paises europeus.

A titulo de exemplo, refiram-se alguns indices reveladores do atraso

saniti-rio do Pais: a esperanca de .vida era nessa epoca de 60,7 anos pan os ho-mens e de 66,4 anos pan as mulhe-res, em acentuado contraste com a verificada em 2007, de 75,2 anos pan os homens e de 81,6 anos para as mu-Iheres, ou seja um ganho de cerca de quinze anos, a mortalidade global era entio de 10,7/1000, sendo presente-mente de 9,6/1000, a mortalidade in-fantil baixou de uma maneira radical de 84 por 1000 nado-vivos, para 3,3 por 1000, e a mortalidade materna re-duziu de 12,1 por 100 000 para 2,7 em 2006. Naturalmente que a redu-cio do nómero de partos sem assis-téncia de 87,2% em 1958, para menos de I% em 2007, justifica essa acentua-da diminuicio acentua-da mortaliacentua-dade mater-na e neo-mater-natal. Ainda a marcar a defi-ciente cobertura media. do Pais, refi-ra-se que cerca de 20% dos Obitos eram certificados por medico, percen-tagem que em muitos concelhos ru-rais do interior atingia valores de mais de 70 %.

Por outro lado, virias doencas preve-niveis pela imunizacio ou curiveis corn um diagnOstico e um tratamento pre-coces, eram ainda endémicas, de que eram particular exemplo, o sarampo, a difteria, a poliomielite, a tuberculose, o tracoma e a lepra.

A tuberculose era emir) uma doenca com elevada prevaléncia no Pais, facto fundamentalmente justificado pela po-breza existente e pela falta de organi-zacio na sua luta, quer no 'ambit° do diagnOstico precoce e do abandono do tratamento, quer no rastreio de casos secundarios nos familiares dos doen-tes.Tudo isso explica que nesse ano o total de novos casos fosse de mais de 19.000, o que correspondia I elevada taxa de 215 casos por 100.000 habi-tantes, em marcado confronto corn a taxa de 22 novos casos em 2007, ape-sar de ser ainda o valor mais elevado

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HISTORIAS da HISTORIA

registado nos paises da Europa Oci-dental. Havia antic) 43 hospitais da es-pecialidade, vulgarmente designados por sanatorios, que dispunham de 7636 camas, e 96 dispensaries anti-tuber-culosos, em centros urbanos dispersos pelo Pais, sob a &tide do Institute de Assistincia National aos Tuberculoses (IANT), que nas &acacias de 60 e 70 do seculo passado teve um papal prepon-derante e de grande valia na redid° da incidencia da doentt.

O ano de 1958 fica ainda, marcado pela pandemia da gripe asiatica, que atingiu Portugal nos finais de 1957, estendendo-se ate a Primavera de

1958, e por uma epidemia de poliomi-elite que afettou fundamentalmente o Grande Porto, dadas as deficientes con-ditties sanitirias ai existentes. Mas sur-tos de febre tifeide e de gastro-ente-rites, de hepatite infecciosa, como era entao designada a hepatite A, de me-ningite, de brucelose, de sarampo e de outras doencas infecciosas, eram en-tio comuns. Nesse ano registou-se o Ultimo caso de malaria autoctone, que uma campanha anti-sezonatica bem conduzida tinha !evade I sua

das principais bacias hidrograficas do Pais, mas durante alguns anos fo-ram ainda mantidos em funcionamen-to os II posfuncionamen-tos anti-sezonaticos que existiam nessas ireas.A titulo de curio-sidade, cite-se ainda, que em 1958 fo-ram vacinados contra a variola 169 000 individuos, nos 481 postos de

vacina-cio anti-varielica que entio existiam espalhados pelo Pais, pois embora o Ultimo caso da doenca registado em Portugal tivesse ocorrido em 1954, a vacinagito era ainda obrigateria, so ten-do passaten-do a ser facultativa em 1977, pars pouco depois ter cessado com a declaracio de erradicacio da variola em 1980. Refira-se, a finalizar este olhar sobre a importincia que as afeccees de causa infecciosa tinham na epoca como causa de morbilidade e de mor-talidade, a existancia de 246 postos anti-difterices, onde nesse ano foram vaci-nados 36.935 individuos, pois na ape-ca a difteria grassava endemiape-camente no Pais, tendo lido notificados em 1958, 1830 casos e 151 Obitos por essa cau-sa, na sua grande maioria em criancas. Outro apontamento a sublinhar os deficientes indices sanitarios da situa-cio que entio se vivia, era ainda, a pre-senca de becio endemico e de elevada percentagem de individuos corn atra-so mental em zonas rurais do interior, por caréncia de iodo e de nicotinamida na sua alimentacio.

A organizacito dos services prestadores de cuidados de satide obedecia a Lei 2011, datada de 2 de Abril de 1946, es-tando os services no imbito da Dirac-cio Gera! da Assistencia, sob a tutela de urn Subsecrettirio de Estado da Assis-tencia dependente do Ministerio do In-teriorA lei em referencia estabelecia que a rede hospitalar compreendia yes es-calees de hospitais gerais: hospitals sub-regionals ou concelhios, hospitais regio-nals ou distritais, e hospitais centrals, estes nos grander centros urbanos. A prestacio dos cuidados de saide era da competfincia do sector ptiblico, do sector social e do sector privado, ten-do como meios pars a sua concretiza-cio os hospitais gerais e especiais (ma-ternidades, sanaterios, hospitais psiqui-itricos, hospitais pediatricos, de doen-cas infecciosas, incluindo o Hospital Co-lenia Rovisco Pais, onde eram intema-dos compulsivamente os doentes corn lepra), o Institute Portuguas de Onco-logia (sediado apenas em Lisboa), e outras instituicaes, e os services ambu-laterios, de que se relevavam as estru-turas pertencentes ao Estado, aos

or-ganismos corporativos e de previdOncia, Is misericerdias, Is associacees de so-corros mtituos e a entidades privadas. A rede hospitalar compreendia urn to-tal de 45 014 camas, das quaffs 19 488 correspondiam a 131 hospitals do Es-tado ou a organismos afins, 15 742 a 270 hospitals pertencentes a MisericOr-dias e 9784 a instituicaes privadas, que dispunham de urn total de 136 hospi-tals. Pode assim, ver-se o papal relevan-te que as MisericOrdias antic) desem-penhavam na assistincia hospitalar, particularmente no interior do Pais e nas localidades de menor dimensio, onde o Estado nao estava presente. A lei em questfto considerava ainda, a criaclo de centros de convalescenca e de readaptacio, de hospicios, desti-nados a doentes cm:mites ou incuri-veis, e de postos de consulta e socor-ros pars doentes em ambulaterio. Diversas estruturas, nio se pertencen-tes ao Estado e aos organismos corpo-rativos e de previdencia, mas tambem is MisericOrdias e entidades privadas, como a Banca e as Seguradoras, ti-nham a seu cargo os cuidados em am-bulatorio, que eram prestados nas con-sultas dos hospitals, nos postos dos Services Medico-Socials da Federacio das Caixas de Previdencia, estes na egi-de do Ministerio das Corporaciies e vulgarmente denominados por aCai-xas», nos postos medicos das Casas do Povo, existentes nas areas rurais, e das Casas dos Pescadores, nas zonas piscaterias, nos railtiplos dispensaries, quer do 1ANT, quer ainda, do Institute Maternal e do Institute de Higiene So-cial estes (demos tendo a seu cargo a luta contra as enact chamadas doen-cas venereas. Permito-me ainda, des-tacar o papal desempenhado pelas as-sociaceles de socorros mtituos, algu-mas com mais de um seculo de axis-tencia, que na sua malaria estavam li-gadas a actividades profissionais. Havia ainda, a medicina escolar, cujo trabalho estava longe do que deveria ser a sua cabal funciio, a area da saOde pUblica, estruturada nos delegados e sub-delegados de nude, os primeiros com accio a nivel distrital e os se-gundos de fimbito concelhio, carreira

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HISTöRlAS da HISTORIA

pan a qual era requerida a aprovacito de urn curso realizado na Escola Naci-onal de SaCide Publics, e ainda, os en-d.) designados por medicos municipais, cujo papel na assistencia prestada nas areas rurais era de enorme valia, ja que alem de outras tarefas, tinham a seu cargo os postos de consulta existentes em cada uma das povoacOes do con-celho em que exerciam as suas funcees, desde que estas tivessem mais de cem logos ou casais, e onde tinham de rea-lizar uma consulta semanal, alem da obrigatoriedade de prestar assistencia gratuita aos pobres do concelho, tudo isto em troca de uma magra remunera-cio e de dificuldades de coda a ordem dada a falta de apoios, o que fazia corn que muitas vezes o trabalho do medico municipal fosse o de urn verdadeiro Joao Semana, deslocando-se por caminhos e veredas s6 possiveis de percorrer de bicicleta ou a cavalo.

Toda esta actividade estava cornpre-endida sob a designacio da medicina organizada, por oposicio I clinica li-vre, permitida em quase todas essas funcOes, mas nas zonas do interior ru-ral, corn baixo nivel econtimico, pou-co sobrava pars o exercicio da clinica remunerada. De resto, era aceite pelo Estado e mesmo pelas populacOes, que a prestacio gratuita e misericordiosa dos cuidados de saUde devia ser uma pritica quotidiana do medico. O Pais enfrentava uma situacio de ca-rencia de medicos, ja que o total dos profissionais entao inscritos na Ordem era de 6627, o que dava um ratio de I medico por 1343 habitantes, em franco contraste corn os 38.399 medi-cos registados ern 2007, o que corres-ponde ao ratio de 1 medico por 276 habitantes.A feminizaclo da classe nio tinha ainda ocorrido, pois apenas cer-a de 10% do totcer-al ercer-am medicos, cer-ao inves do que hoje se regista, ern que as mulheres sio ja 47,2% do total dos medicos, sendo mesmo maioritirias nas geraccies mais jovens.

As dificuldades do exercicio da profis-sio nos meios rurais, fazia corn que ja nessa epoca fosse desigual a sua disuibui-ciio, corn a maioria dos medicos exercen-do a sua actividade nos centros urbanos.

O desenvolvimento cientifico-tecnolte gico da Medicina da epoca explica que existissem entio apenas 20 especiali-dades, em marcado contraste corn as 47 especialidades hoje reconhecidas, a que se juntam ainda, as sub-especia-lidades e as competencias.

Os medicos recem-formados sentiam grande desilusäo quando encaravam o seu futuro profissional, ja que eram limitadas as possibilidades de uma car-rein que estimulasse o exercicio da sua actividade.A formacio pOs-gradu-ada era escassa e mal remunerpOs-gradu-ada. Em Lisboa o internato dos Hospitals Civis tinha perdido algo do seu traditional prestigio e no Porto s6 ern 1955 tinha lido criado o Internato Geral no Hos-pital Geral de Santo Antrinio, institui-ca.° pertencente I MisericOrdia da ci-dade. 0 quadro da carreira hospitalar era escasso e mal remunerado, limita-do ao director limita-do servico e aos 1 e 2° assistentes hospitalares, todo o resto sendo completado pelos estagiarios, a titulo gracioso, em troca do seu treino pan a especialidade. Dada a marcada carfincia de medicos, thou-se ent5o, mas apenas nos Hospitals Civis, a figura do interno graduado, mas tambem sem seguranca de carreira, nem reforms. A abertura do end° chamado Hospital Escolar de Santa Maria em 1954, levou I contrataciio de medicos hospitalares, pois o ntimero de docentes das areas clinical era insuficiente pan as necessi-dades. Surgiu assim, a figura do medico tarefeiro, igualmente sem garantias de carreira, e que devia cumprir urn total de 42 horns semanais, 24 das quais ern escala no servico de urgencia, a troco de uma remuneracio mensal baba, em-bon bem superior a de urn interno ge-ral ou a urn interno complementar, que por horario identico, recebiam bem menos, carreira que de resto, apenas existia nos Hospitals Civis de Lisboa e no Porto, no Hospital Geral de Santo Antonio. Alias, os vencimentos dos di-rectores de servico e dos assistentes hos-pitalares nos hospitals estatais e nos das MisericOrdias, era de valor similar, pelo que o pagamento dos medicos tarefeiros no Hospital de Santa Maria foi como que uma pedrada no charco.

Quanto I clinica privada praticada nos grandes centros urbanos, estava nas mios de prestigiados professores ou de grandes clinicos, não sendo ficil pars urn recem-licenciado iniciar a sua carreira profissional, pelo que the res-tan abrir consulted° na periferia das cidades ou procurar urn lugar de me-dico numa das mUltiplas associacees de socorros mütuos, tambem corn es-cassos salirios, ja que as vagas dos servicos medico-sociais eram poucas e os destinatirios muitas vezes esta-vam ja escolhidos por criterios que nio de qualidade profissional.

Os medicos que se decidiam pela vida nos meios rurais, enfrentavam igual-mente mss condicOes de trabalho, fal-ta de recursos e baixas remuneracees, o que os levava a procurarem ocupar todas as estruturas de assistencia exis-tentes no seu concelho e por isso sal-tando no seu dia a dia de lugar pars lugar, sem esperanca de progressio ou formacio profissional.

As accees de actualizacio ou forma-cio pOs-graduada eram de resto, es-cassas, fundamentalmente limitadas a alguns cursos organizados por hospi-tals dos grandes centros urbanos e pela Ordem dos Medicos, sob o titulo de cursos de actualizacio e de aperfeico-arnento, e a durac.io de uma semana. Hi no entanto, urn aspecto que julgo merecedor de ser frisado: a formacio medica era na epoca fundamentada numa preparacio clinica cuidada, ern que a relacio corn o doente, e a sua observarrao e histOria, eram elementos essenciais pars a formulacio do diag-nOstico, sendo os meios auxiliares do diagnOstico apenas meros names sub-sidiirios, por isso assim chamados, fosse qual fosse a sua importincia, em muitas ocasicies ate essential pars o diagnOsti-co e tratamento da situacio. Hoje, diagnOsti-corn os avancos da biotecnologia e o apoio da informitica, a relacio human e a vino holistica do doente perderam muito do seu valor, por vezes o medico olhan-do mais pars o monitor, onde ester a in-formacio clinica, do que pan o doente que a ele recorre e the pede ajuda. A falta de perspectivas no Pais fazia corn que muitos se decidissem pela

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HISTbRIAS da HISTORIA

carreira no Ultramar, pan o que era necessiria a frequencia e a aprovacio . de urn curso anual no end° designa-do Instituto de Medicina Tropical, cur-so muito prestigiado na epoca, de gran-de exigencia e caracterizado por urn marcado cariz pratico, corn objectivo de preparar os medicos pan as difi-culdades que seguramente iriam en-contrar nas end° colOnias.

0 descontentamento motivado pela falta de condicOes pan o exercicio da actividade profissional comecava a grassar nas camadas mais novas, que não vislumbravam perspettivas de pro-gressio na sua carreira.A situacio que se vivia no Pais no campo da sal:1de era preocupante e desanimadora, a maio-ria dos hospitais tinha escassez de pes-soal de saticle, ainda pan mais mal re-munerado, o seu apetrechamento era deficiente e a articulacio corn a rede em que estas instituicOes se inseriam era quase inexistente, o mesmo suce-dendo com as estruturas de cuidados ambulatOdos, tambem sem capacidade de resposta e corn identicas carencias. Essa crescente insatisfacio levou a que ern 1958 a Comissio Preassociacio dos Estudantes da Faculdade de Medi-cina de Lisboa organizasse urn ciclo de conferencias no Hospital de Santa Ma-ria, sob o titulo de «Problemas da Me-dicina em Portugal», que decorreu entre Marco e Abril desse ano, e em que personalidades medicos de relevo debateram corn jovens medicos a situ-ace° que enter) se vivia, naturalmente corn os constrangimentos que a con-juntura polltica portuguesa impunha. A importincia de todo esse debate motivou que em Junho seguinte o Con-selho Geral da Ordem dos Medicos apresentasse as conclusees ao Presi-dente Salazar, numa audiencia histeri-ca pelo seu ineditismo.

A finalizar esta face do processo reali-zou-se ern Lisboa, ern 29 de Julho, no Sale° Nobre do Hospital dos Capu-chos, uma Assembleia Regional Extra-ordinaria da Seccio Regional do Sul da Ordem dos Medicos. Foi notivel essa reunilo, que teve a participacio de mais de sete centenas de medicos. Apes inemeras intervencOes, foi eleita

74 RevisIa ORDEM DOS MEDICOS • Margo/Abnl 2010

uma comissio de 21 medicos encar-regada de elaborar urn Relaterio so-bre as Carreiras Medicas.

Surgiu assim, o chamado Movimento dos Novos, gerador de inOrneras reunifies e de debates em todo o Pais, e de art-gos virios, quer no Boletim da Ordem, onde de recto foi criada a «Regina dos Novos», quer noutras publicaceies, re-velando as debilidades e insuficiencias das estruturas da merle existentes e propondo solucOes diferentes das ofi-ciais. 0 regime politico vigente come-cou end° a considerar essas activida-des como potencialmente subversivas, Canto mais que coincidiam com urn tern-po de grande agitack tern-politics do Pais, em que a campanha eleitoral do Gene-ral Humberto Delgado foi o moment° mais marcante. Muitos dos intervenien-tes no Movimento vieram por isso a ter alguns dissabores no desempenho das suas carreiras profissionais.

Naturalmente que nio pode deixar de considerar-se que Ludo isto contribuiu pan que, ern I 3 de Agosto desse mes-mo ano, fosse criado o Ministhrio da Sande eAssistencia,debcando os assun-tos da Saticle de estarem dependentes do Ministerio do Interior, atraves da sua Sub-Secretaria de Estado daAssistencia. Iniciava-se assim, urn novo ciclo na his-thria da organizacio da Saide em Por-tugal, sendo primeiro titular do novo ministerio o Dr. Martins de Carvalho. Um ano depois, ern 20 de Julho de

1959, uma nova Assembleia Gera! da Seccao Regional do Sul, foi realizada na Aula Magna da Faculdade de Medicina de Lisboa, sob a presidencia da figura insigne do Professor Job° Cid dos San-tos, corn a participacio de cerca de urn milhar de medicos e que apOs caloroso debate, aprovou, corn ligeiras alteracOes, o relatOrio elaborado pela comissio eleita no ano anterior, Recordo corn saudade essaAssembleia,que terminou aka madrugada, ja que tinham sido con-vidados alguns jovens medicos das Sec-gees Regionais do Norte e do Centro da Ordem, com objectivo de se dinami-zar urn movimento de ambit° national. A comissio encarregada de elaborar urn relaterio sobre a skunk, medica apenas tres anos mais tarde, ern Junho

de 1961, o apresentou, sob a denomi-nacio de Related° das Carreiras Me-dicas, ja que, por razOes Obvias, nio era possivel designi-lo como uma pro-posta de uma nova politico da saede. Foi urn document° impar na epoca, que o Governo de end° nio quis ou nee soube aproveitar. A despeito das decad-as possadas, e ainda hoje urn tes-temunho notivel que merece ter lido, pese embora as grandes mudancas so-dais que se registaram no lapso que nos separa desse tempo, podendo mesmo considerar-se ter sido o embrião do fu-turo Servico Nacional de Sande, instituido vinte anos mais tarde. Por isso mesmo felidto o nosso Bastonirio e o Conselho Nacional Executivo da Or-dem pela sua recente iniciativa de reedi-tar o Related° e distribui-lo I classe. A terminar, desejaria prestar homena-gem a todos aqueles que, de urn ou outro modo, participaram nessa e I memeria dos Professores Jorge Harm Bastonario na epoca, e Miller Guerra, relator do documento, que corn grande coragem e lucidez, desde o inicio apoiaram esse movimento.

Fontes Bibliogrificas

HistOria da saade e dos servicos de satide em Portugal — F. A. Gonsalves Ferreira. Edicio Fundacio Gulbenkian. Lisboa, 1990 Estatisticas de Seigle 1958 — Instituto Na-cional de Estatistica, Lisboa

Boletim dos Servicos de Sande PUblica — VolumeVI — N° 3 —Direccio-Geral da Sati-de. Lisboa, 1958

Elementos Estatisticos — SaUde, 2006. Dirccio-Geral da Saóde. Lisboa, 2008 RelatOrio sobre as Carreiras Medicas — Reedicio — Ordem dos Medicos/CELOM, Lisboa, 2007

As carreiras medicas em Portugal: Evoca-cäo e defesa — MM SI Marques,AntOnio C Gaihordas, Orlando Leidy:), Jorge Mantas e A. Luz e Silva. Sindicato dos Medicos da

Zona Sul/FNAM. Lisboa, 2007

*Text° reference I alocucio proferida na Sessäo Comemorativa do Cinquentenario

das novas instalacees do Instituto de Hi-giene e Medicina Tropical, em 12 de De-zembro de 2008

** Instituto de Ciencias da SaCide, Centro Regional do Porto, Universidade CatOlica Portuguesa

Referências

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