Seçíto: Veterinária
BOTULISMO EM AVES NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 1
WILIIELM BRADA , JEROME LANCENEGGER 3 e CI1ARLOTTE IIUBINCERLANGENEGCER 4
Sinpsc
Foram diagnosticados dez surtos de botulismo em pequenas criações de galinhas e patos nianti-dos soltos nos quintais de propriedades rurais du Estado do Rio de Janeiro.
A presença da toxina botulínica foi comprovada no sôro sangüineo das aves doentes e nas culturas do conteúdo do inglúvio, do intestino e do triturado do figaclo. A toxina foi identificada, pelo teste da sôro-proteção em camundongos, como sendo do tipo C, o que vem a ser a primeira confirmação do botulismo em aves no Brasil.
Os autores recomendam incluir nos exames de rotina, a pesquisa da toxina botulínica nos soros das aves doentes com sintomatologia de hotulismo.
INTRODUÇÂO
O botulismo é intoxicação especifica, resultante da absorção, pela mucosa digestiva, da toxina produzida
por Ciostridiuna botuiinum.
A doença foi descrita pela primeira vez, no homem, há mais de 200 anos, por médicos do sul da Me-manha e que designaram por botulisnso a síndrome de paralisia flácida progressiva, dilatação pupilar, di-ficuldade de deglutir e de falar, e alta letalidade, freqüentemente observada em indivíduos após a in-gestão de salsichas estragadas (botulsvi - salsicha). A etioloia desta doença foi descoberta por van Erxnengen que isolou em 1894 Clostridiunr
botuU-num e obteve a toxina em culturas.
Hoje são conhecidos seis tipos toxicogênicos, os tipos A, B, C, D, E, e F.
Os esporos de Ci. botuUnum são altamente resis-tentes e encontrados ubiqüitriamente no solo em rias partes do mundo. Podem desenvolver-se em vá-rios substratos, desde que haja anaerobiose e tempe-ratura adequada, como por exemplo: nos cadáveres, em poças ou lagoas com água estagnada e material orgânico, em conservas enlatadas, e também em de-pósitos de alimentos, em latões ou barris, onde as
Recebido 18 mal. 1970, aceito 15 jun. 1910. Biologista do Setor de Ornitopatologia do Instituto de Pesquisas e Experimentaçâo Agropecuárius do Centro-Sul (IPEACS). Era 41, Rio de Janeiro, GB. ZC-26. Bolsista do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq. 10.744/68).
' Veterinário do Setor de Microbiologia do IPEACS e bolsista dQ Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq. 7.1151 /68).
Veterinário do Setor de Microbiologia do ]PEACS, bol-sista do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq. 10.751168).
formas vegetativas produzem a toxina altamente le-tífera.
O botulismo das aves foi descrito pela primeira vez nos Estados Unidos, por Dickson (1917), que demonstrou ser a sindroma conhecida por "liusber-neck" (pescoço flácido), causado pela intoxicação botulinica. Posteriormente a doença foi diagnosticada em muitas espécies, em diferentes países, e oriunda de várias fontes de infecção, predominando o tipo C, como mostra o Quadro 1.
Os sintomas cio botulismo em aves aparecem des-de algumas horas até um a dois dias des-depois da ingestão da toxina.
Nos casos graves, sobressai a paralisia flácida da musculatura das pernas, asas e pescoço. As aves não conseguem andar mais, permanecem prostradas com as asas caídas e com o pescoço e cabeça deitados no chão. Apresentam-se sonolentas com as pálpebras semicerradas e plumagem arrepiada, sendo que as penas se destacam fàcilmente. Não têm febre, re-cusam alimentos, entram em estado coniatoso e mor-rem dentro de horas. Em casos mais leves, manifes-tam apenas paresia dos membros, instabilidade ao moverem-se e sonolência. Estas podem recuperar-se e freqüentemente a recuperação se dá ao fim de 3 a 4 dias.
A necrópsia não revela lesões dignas de nota. Às vézes se encontram larvas de môscas no inglúvio e na moela e o conteúdo do trato digestivo superior emana cheiro desagradável (Biester & Scbwarze 1959).
O diagnóstico se baseia na sintomatologia e na comprovação da presença da toxina botulínica no con-
Pesq. egropec. bras., Sér. Vet., 6:27-32. 1971 27
28 W. BRADA J. LANGENEGGER e C. H. LANGENEGCER
QUADRO 1. Aspectos cpizootiológicos doo surtos dc botuliomo em ores
Espéciee de aves Aves que Fonte de intoxicatóo Tipo da Local abu pais Referéncias
morreram toxina Galinhas Fatos Gansos FaisOen Perus Aeotru Aves ís'witjças e/ ou silveetreu
4surtoe(± 100) Eulatadoa de milho, vagem e 1 Califórnia, U.S.A. abricó
643 Conserva eetrngada de vagem 3 Califórnia, U.S.A. 70 Reato de comida do restaurante A Illinois, U.S.A. Moitas Cadáveres de aves e larvae de 3 (excluidos Indiana, U.S.A.
coSera AuB)
104 3 O Illinois, U.S.A.
Muit-oe E.aç5o doe frangos A Fuenoe Aires, Argentina 30 Acesso aérea alagada com vege- (1 Western, Austrália
tais em deconipoeiç5o
68 Cabeça de sumo fervida que O Vitória, Austrália ficou no moio ambiente
Alguns Conserva estragada de ervilha 3 França 170 Lagoa artificial coco água esta.. Uruguai
gisada
10 Restos de cosinha 3 Inglaterra 50 Cadáveree de ratos 1) França
Frettria, África do Sul 13 Resto de cozinha 1 Inglaterra
218 Carsaça de coelho com larvas C Suécia de Cuifiphra e Lteciha
8.000 Nova York, U.S.A.
10.600 Carraças do faisles e larvas O Winconein, U.S.A. de mOscas?
4.000 Larvas de mOsca (LgiUa illus- O Wiseossin, U.S.A. trio)
Carcaça e larvas de mOsca? C (alfa) Ilha Nicholson, Canadá Mais de 100 Poças de égua estagnada O U.S.A.
Alguns ResIna de narcaças, fragmentos ? Pretória. África do Sul
de ouso
18 Poça d'água no jardim zoológico C de Pretória
Grande onurtan- Lago coco matéria orgánica, C dado água alcalina
Altaroortandade Idem, em várioe logoe C Idesu, cio virios lagos
Mais de 8,000 Idem, coo logo O Multou Pálitano cern 9000 e limo, sege- O
taie podres
130 Área alagada, em época quente Milhares Lago coou águas pacads, perin. O
do quente
Muitue Lago coou vegetais em decoio- 1 poeiçlo
rerteno alagado com carraças C (alfa) de aves
5.000 Lago? + E
1.500 Poças ris água em parquca O
1.000 Lagoas? C Dirkson (1917) IfarI (1920) Grnhani e Schwarze (1921) Dople (1923) Grabam e Roughton (1023) Psgonde e Sardi (1067) Gardiner (1967) Pullar (1033) Daclut (1945) Snyfre ei sI. (1948) Cunning (1950) Rossi e Berujon (1950) Martiçáglla (1937) Cunning (1950) Disuter e lCtull (1054) Cliesdum et aI. (1057) Vadlamudi cl ei. (1959) Lee ei sI. (1962) Fishi ei ai. (1907) Coburn e Querirup (1938) Theiler (1927)
Pretória, África do Sul Rubicano (1920) Califórnia, U.S.A. Giltner e Couch (1930) U.S.A. Gunninon e Colcruan (1932) Utab, U.S.A. Kabmbach e Grinderson (1034) Vitória, Austrália Pullar (1934)
New South Waleu, Austrália Rose (1934) Alberta, Canadá Shaw e Sinipein (1930) Austrália Fsrleigh (1949) Austráii Grubb (1964) Michigen, U.S.A. Kaufuuanzr e Fay (1964) MalssiS, Suécia 4ilehsn e Johsassusen (1965) Dinamarca MOlier (1967)
BOTULISMO EM AVES NO ESTADO DO R1Q DE JAtEIRO 29
teúdo do tubo digestivo e/ou nos alimentos suspei-tos, mediante a inoculação de filtrados em animais de experimentação, Segundo Quortrup e Sudheimer (1943), a toxina botulínica se encontra em grande concentração no sangue de patos selvagens doentes, sendo assim possível usar o sAro dêles para inoculação em camondongos e reprodução do botulismo nestes animais.
O teste da sôro-proteção permite reconhecer o tipo da toxina botulínica. As aves são resistentes para o tipo 13 (Graham & Schwarze 1921).
Na literatura brasileira Reis e Nobrega (1956) e Bueno et a. (1962) fazem referência ao botulismo em aves, registrando sete casos em galinhas, diag-nosticados clinicamente no período de 1920 a 1960, no Instituto Biológico de São Paulo.
Tivemos oportunidade de diagnosticar dez surtos de botulismo em galinhas e patos domésticos. No pre-sente trabalho será relatada a identificação da doen-ça, o que constitui a primeira confirmação do bote-lismo em aves no Brasil.
MATERIAL E MÉTODOS
Procedcmncia das aves
As aves examinadas eram oriundas de pequenas eriaçes de galinhas e patos domésticos, mantklos sol-toS em tôrno das residências. Procediam dos muni-cípios vizinhos do nosso Instituto', no Estado cio Rio de Janeiro.
Exames clínico e andf orno-patológico
Consta'am, êstes exames, de anamnese, exame clí-nico, necrópsia das aves mortas ou doentes e coleta de material para as pesquisas complementares. Era puncionada a maior quantidade possível de sangue. O conteúdo do ínglúvio e do intestino e o fígado eram colhidos para exame bacteriológico; o muco traqueal, o baço e o encéfalo eram coletados para exame virológico.
Pesquisa de toxina botulmnica no sôw san güíneo das aves
A presença de toxina foi comprovada pela inocula-ção do sAro das aves doentes em camundongos. O sôro era inoculado em grupos de 3 ou 4 camundon-gos, por via intraperitoneal, nas doses de 0,5 e 0,25 mI. Um grupo foi injetado com o sAro los
na-tura, outro grupo com sAro inativado a 56°C du-rante 30 minutos e um terceiro grupo foi inoculado com as mesmas doses de sAro de galinha normal.
' Instituto de Pesquisas e Experimentaçlo Agropecuárias do Centro-Sul (IPEACS), situado nu mumcípio de Itagual.
Obtençélo de culturas com toxina botulínica
Culturas do conteúdo do inglúvio e do intestino e de triturado de fígado, em caldo de Wright (1933), após aquecimento a 70-75°C, durante uma hora, fo-ram incubadas a 37°C durante 5 dias. No filtrado destas em Seitz era evidenciada a toxina botulínica pela inoculação, intraperitoneal, em camundongos, também nas doses de 0,5 e 0,25 mI. O caldo de Wright foi assim preparado:
Canie moída de bovino 500 g
Água destilada 1.000 sul
Fosfato m000potssico (1CH21`04) 1.4 g Fosfato digsldico (Na:HPO4) 0,9 g Peptona marca Difeo 11,0 g
A mistura foi fervida durante 90 minutos e o p11 acertado para 7,44,6. As partículas de carne foram separadas e colocadas em tubos de ensaio, tamanho 20 x 200, até a altura de 3 cm. Aos mesmos tubos foi adicionado posteriormente o caldo até atingir a altura de 9 cm. Depois de autoclavados, durante uma hora a 121°C, foram acrescidos, a cada tubo, 1 ml de solução a 10% de dextrose o 1 ml de sAro de eqüino.
Teste de sós-o-proteção
Nos últimos três surtos de botulismo (372/69, 11/ 70 e 53/70), foi possível realizar o teste da sAro-proteção com soros anti-botulínicos dos tipos C e D, gentilmente cedidos pelo Instituto de Pesquisas Ve-terinárias de Onderstepoort, Africa do Sul. Consis-tiu na imunização passiva de grupos de 3 ou de 4 camundongos com os soros tipos C e D, administra-dos por via intraperitonesl, na administra-dose de 0,25 mI, e, 3 horas depois, a inoculação do material suspeito: sAro sangüineo das aves doentes e filtrado das cul-turas do conteúdo do inglúvio e do intestino e do triturado do fígado. Êste foi aplicado por via sub-cutânea na dose de 0,25 ml.
RESULTADOS
A anamnese foi muito semelhante em todos os surtos. Os proprietários eram surpreendidos, de um dia para outro, com o achado de várias aves mortas e/ou doentes. Em nenhum caso pôde ser elucidada a fonte de contágio. Tudo indicava tratar-se de ca-dáveres de outras aves ou de animais silvestres nos casos em que foram encontradas larvas de mAsca no inglúvio. Em outros, a fonte da toxina poderia ser oriunda de poças de água com lama, pois váda galinhas apresentavam os metatarsos enlameados. A mortalidade era variada. -
30 W. BRADA, J. LANGENEGGER e C. H. LANGENEGGER
O exame clínico das 23 aves trazidas ao labora-tório revelou sintomas de paresia e paralisia dos mem-bros, das asas e do pescoço. Nos casos menos evo-luidos, os animais tinham dificuldade de andar e de ficar de pó. Permaneciam prostados, com as pálpe-bras semicerradas, mas respondiam espontâneamente a estímulos sensoriais. Não apresentavam febre, mas também não se alimentavam. Nos casos mais graves, notava-se que as penas se desprendiam fàcilmente. A evolução da doença variava de poucas horas a 3 dias. A morte era precedida por coma, mais ou me-nos longo. Algumas aves, com sintomas leves como sonolência e dificuldade de andar, sobreviveram, re-cuperando-se ràpidamente depois de 3 a 4 dias de enfôrmas.
O exame antomo-patológico não revelou les6es dignas de nota. A presença de larvas de mósca e o odor pútrido do conteúdo do inglúvio eram
suges-tivos para a intoxicação botulinica.
A comprovação da toxina botulínica no sôro san-güineo das aves doentes foi feita por inoculação em camundongos, em confronto com o mesmo sôro ina-tivado e sôro de galinha normal, como mostra o Qua-dro 2.
A tipificação da toxina botulinica pôde ser feita nos últimos três surtos, por meio do teste de sôro-proteção. A toxina foi identificada como sendo do tipo C, presente no sôro sanguineo das aves doen-tes, como demonstra o Quadro 3.
Nas culturas em caldo de Wright, semeadas com material do conteúdo do inglúvio, do intestino e do triturado do fígado, desenvolveu-se Clostridiuns bo-tulinuin, produzindo toxina em alta concentração. A toxina também foi identificada como sendo do tipo C, por meio do teste da sôro-proteção em ca-mundongos, segundo mostra o Quadro 4.
QUADRO 2. Resultado da comprovaçllo da toxina btidmnica no adro sangoineo das aves doentes pela inocula ç5o em camundongos
Registro o.°
N.° de aves examinadas
S9ro suspeito (nSú aquecido)
N.° de DoSe
ramuodongos inoculada Bultado (ml)
SSro SuSpeito (inativa‹lo)È
N° de Dose
camundongos lnoouIda Resultado (sol)
SSro de aves I1Õti1)5i8
0.° de Dose
camundongos inoculada Resultado (sol)
9502 4 gui. 4 0,25 mortos 4 025 vivos 4 0,25 vivos
09/60 1 gui. 3 0,25 mortos 3 0,25 vivos 3 0,25 vivos
176186 3 gal. 4 025 mortos 4 0,25 vivos 4 0,25 vivos
294/60 2 gui. 4 0,25 mortos 4 0,25 vivos 4 0.25 vivos
2 patos
310/68 1 gal. 3 0,25 mortos 3 0,25 vivos 3 0,25 vivos
341/60 2 gal. 4 0,25 mortos 4 0.25 vivos 4 0,25 vivos
17169 2 gui. 4 0,25 mortos 4 0,25 vivos 4 025 vivos
1 polo
O s3ro suspeito foi inativailo e 50-°Cl, durante 30 minutos.
QUADRO 3. Resultados do teSte da ôro-proteç5o. Tipijicaçs90 do ouro doo oves doersteo
Sôrou antiljcitulinitos 1 tOXina do saro dc aves decotes Testemunhas
Registro N.° de aves N.° de
n.' examinadas camuudongos Siro Toxina SSro Toxina N.e do Toxina
O suspeita Resultado D suspeita Resultado camundongos suspeita Resultado
(ml) (ml) (ml) (ml) (ml)
37269 2 cal. 3 0,25 0,25 vivas 0,25 0,25 mortos 3 0,25 mortos
11/70 2 gal. 3 0,25 0,25 vivos 0.25 0,25 mortos 3 0,25 mortos
53/70 2 gal. 5 0,25 0,25 vivos 0,25 0.25 mortos 3 0,25 mortos
BOTULISMO EM AVES NO ESTADO DO RIO DE lANEIRO si
QUADRO 4. Resultado do teste da adro-proteção. Tipo grou da toxina obtida em culturas
Registro
50
Csliiira N,° à, de órgãos camundongos
SOros antibetulinico x toxina de filtrado de culturas
-
Sôo Toxh.a SOro Toxina
C suspeita Reultw0o D susPeita BeulLado (no» (ml) (mi) (sul)
N.' de camundongos TesLemuoh, Toxina suspeita Resultado (sul)
372/9 Ingidvio 4 0,25 0,25 vivos 0,25 0,25 morba 4 0,25 mortos Intestino 4 0,25 0.25 vivos 0.25 0,25 mortos 4 0,25 mortos FígadO 4 0.25 0,25 vivos 0.25 0,25 mortos 4 0.25 mortos 11170 Ingliivio 4 0,25 0,25 vivos 0,25 0,25 mortos 4 0,25 mortos Intestino 4 0,25 0,25 vivos 0,25 0,25 mortos 4 0,25 mortos Fígado 4 0,25 0,25 vivos 0,25 0,25 mortos 4 0,25 mortos 53.70 Inglúvio 4 0,25 0,25 vivos 0,25 0,25 mortos 4 0,25 mortos Intsst no 4 0,25 0,25 vivos 0.25 0,25 mortos 4 0,25 mortos Fígado 4 0.25 0,25 vivos 0.25 0,25 mortoo 4 11,25 mortos
DISCUSSÃO
A ocorrência de botulismo em aves, segundo mos-tram as nossas observaçóes, parece ser mais freqüen-te entre nós do que se admitia. Na lifreqüen-teratura brasi-leira, excluindo os casos clínicos referidos por Reis e Nobrega (1956) e por Bueno et d. (1962), diag-nosticados no Instituto Biológico de São Paulo entre 1930 e 1960, não há referências sóbre esta doença no Brasil.
No período entre 1954 e 1961, tivemos oportu-nidade de suspeitar intoxicaçães, semelhantes ao bo-tulismo, em 15 casos. Foi comprovado quimicamente que três dêstes eram causados por envenenamento por arsênico e dois casos provocados por intoxicação por DDT (confirmado também por tete biológico com mêscas). Dez casos no foram etiológicamente escla-recidos, embora o quadro clínico e a anamnese nos levassem a suspeitar de botulismo. Os novos casos que surgiram, a partir de então, foram examinados visando o diagnóstico de botulismo.
Nos primeiros experimentos comprovamos a pre-sença, no sôro das aves doentes, de uma substân-cia tóxica capaz de matar camundongos em poucas horas. O mesmo sôro, quando aquecido a 56°C, du-rante 30 minutos e injetado na mesma quantidade, não matava mais os camundongos. Êste fato, aliado ao histórico e ao resultado do exame clínico e anáto. mo-patológico, levou-nos à conclusão de que se tra-tava de toxina botulínica. Com êste . procedimento não foi possível a tipagem sorológica.
Com a obtenção dos soros antibotulínicos tipos C e D, conseguimos comprovar, nos três iiltimos sur-tos, tratar-se de botulismo e reconhecer o tipo C como responsável pela doença em nosso meio. Foi
possível demonstrar a toxina botulínica no sôro das aves doentes e nas culturas do conteádo do inglóvio e do intestino, bem como nas de triturado de fígado. A demonstração da toxina botulínica no sôro das aves permite diagnosticar o botulismo em menos de 24 horas, enquanto, nas culturas, a obtenção de to-xina requer pelo menos 4 dias.
A confirmação do diagnóstico, apenas pela de-monstração da toxina nas culturas, ou mesmo, o iso-lamento de Clostridiurn botulinunp seria pouco pm-dente, pois o esporo pode ser encontrado ocasional-mente no tubo digestivo - A obtenção da toxina de culturas do fígado já tem maior valor diagnóstico. A demonstração da toxina no sangue e sua tipagem, juntamente com a anamnese, sintomas e Iesies con-firmam seguramente o diagnóstico.
Além dos dez surtos de botulismo apresentados neste trabalho, queremos salientar que outras afec-çóes, clinicamente muito semelhantes ao botulismo, exigem diagnóstico diferencial cuidadoso. Registra-mos, em um caso, quadro clínico de intoxicação bo-tulínica em patinhos, cujo diagnóstico revelou em-pachamento do inglávio com alimento fibroso e in-festação maciça por Capillaria sp.; em outra oportu-nidade, uma galinha de 4 anos de idade, apresen-tando sintomatologia de botulismo, era apenas por-tadora de intensa infestação por cestódios.
O botulismo das aves assumiu aspectos epizootio-lógicos muito interessantes quando Kalmbach (1930) e Ciltner e Couch (1930) demonstraram que as grandes mortandades de aves aquáticas silvestres, da região ocidental dos Estados Unidos, ciam causadas por botulismo. Surtos semelhantes foram descritos no Canadá por Shaw e Simpson (1930) e na Aus-
W. BRADA, J. LANGENEGGER e C, H. LANGENECCER
trália por Puilar (1934), Rose (1934) Farleigh (1949), e por Nilehn e Johannsen (1965) e Müller (1967) nos países nórdicos. Verificou-se que a fon-te de intoxicação era a água de lagos, lagoas e pân-tanos com água estagnada e rica em matéria orgâni-ca, como fôlhas e vegetação, em decomposição, du-. rante períodos de grandes estiagens e temperaturas quentes. Nestas circunstâncias, criam-se condiçóes de anaerobiose que permitem o desenvolvimento de
Ci. botulinum e a produção da toxina pelas formas vegetativas.
Entre as aves domésticas, o botulismo assume cará-ter mais enzQótico ou apenas se constitui em surtos esporádicos. Os surtos por nós observados irrompe-ram esporàdicamente em propriedades rurais, e ao que tudo indica, a fonte de infecção deve ser atri-buida à ingestão de cadáveres, de diversas espécies, ou o acesso a poças d'água contaminadas.
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BOTULISM IN FOWLS IN TI-IE STATE OF RIO DE lANEIRO
Abstract
The diagnosis of ten outbreaks of botu!ism in home flocks of chickens and ducks, ranging free in rural areas of the State ol Rio de janeiro, is described.
The presence of botulinic toxin was confirmed in the bloocl serum of sick fowls, and iii cultures of crop and intestine contents and liver tissise. The toxin was identified as type C using the anti-toxin protection test in mice. This appears to be the first confirmed case of botulism in fowls in Brazil.
The authors recommend the use of the anti-toxin protection test in mice using senim of sick fowis, as a routine procedure in diagnostie work.