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Monumenta Histórica: o Ensino e a Companhia de Jesus (séculos XVI a XVIII): 1540-1580

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Academic year: 2021

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Teresa Maria Rodrigues

da Fonseca Rosa

O Ensino e a Companhia de Jesus

(séculos

xvi

a

xviii

)

Volume I

(1540-1580)

(2)

Este estudo de investigação que agora se publica, enquadra-se numa segunda fase do projeto de Pós-Doutoramento subordinado ao tema: “O Ensino Jesuíta em Portugal no Antigo Regime: Documentos, Figuras e Instituições (Séculos XVI a XVIII)”, com o apoio de uma bolsa de formação avançada de Pós-Doutoramento SFRH/BPD/77318/2011, da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Tendo como Instituição de acolhimento a UIDEF — Unidade de Investigação e Desenvolvimento em Educação e Formação do Instituto da Educação da Universidade de Lisboa, decorre sob a orientação do Professor Doutor Justino Pereira de Magalhães, Professor Catedrático.

Ficha Técnica

Título:

Monumenta Historica

O Ensino e a Companhia de Jesus (séculos xvi a xviii)

Volume I (1540-1580)

Autoria / Coordenação ………... Teresa Maria Rodrigues da Fonseca Rosa Edição ………... Instituto de Educação da Universidade de Lisboa 1.ª edição …...………... Dezembro de 2015

Coleção ...………... Estudos e Ensaios Composição e arranjo gráfico ...…..…... Fragoso Pires Disponível em ...………... www.ie.ulisboa.pt Copyright ...………... Instituto de Educação

da Universidade de Lisboa

ISBN ...………... 978-989-8753-19-9 ISBN (Obra completa) ... 978-989-8753-18-2

(3)

9 29 31 35 37 43 43 54 67 71 74 75 82 87

A Companhia de Jesus e a instituição educativa moderna

Prólogo

PARTE I I. Introdução

1. Critério adoptado na transcrição dos documentos

2. Descrição sumária

II. História breve da Companhia de Jesus

1. A Fundação da Companhia de Jesus 2. Os Órgãos Gerais da Companhia de Jesus 3. As Categorias atribuídas aos Jesuítas 4. Os primeiros Ratio de Nadal, Coudret,

Ledesma e Borgia

5. O Ratio Studiorum do Padre Claudio Aquaviva

6. A Educação em Portugal antes dos Jesuítas: primeira metade do século XVI 7. O Estabelecimento da Companhia de

Jesus em Portugal e os Colégios criados até meados até meados do século XVIII 8. O aumento do número de membros da

Ordem desde a sua fundação

PARTE II I. Documentos:

1. Ordenação para os estudantes da Universidade de Coimbra, sobre os criados, bestas, trajos e outras coisas, ano de 1539, (ANTT, Série preta N.º 3550, Doc. 25, ref. 1047-A

2. Regimento que hão-de guardar os Lentes das Artes no Colégio Real da Cidade de Coimbra, no qual El-Rei aprovou e manda que se cumpra, ano de 1552, (ANTT, Armário Jesuítico, Livro N.º 29, fólios 8)

3. Instruções do Padre Inácio de Loyola dirigida aos Reitores e Superiores da Companhia de Jesus, ano de 1552,

(ARSI, Lus. N.º 84 I (VII), Fundationes –

Collegi Conimbricensis, fls. 35-36)

4. Coisas que devem guardar os Estudantes da Universidade de Évora, ano de 1560, (Academia das Ciências de Lisboa, Série Vermelha, N.º 833, fólios 24) 101 103 103 106 112 116

(séculos

xvi

a

xviii

)

Volume I

(1540-1580)

(4)

134 139 148 160 178 181 190 192 197 202 206 210 214 228 230 233 Conimbricensis, fls. 115-116v.)

6. Proibição por parte da Companhia de Jesus para que os Religiosos dela, não tenham no Mundo cousa própria, nem esperança de a poderem algum tempo alcançar, ano de 1562, (ANTT, Cartório Jesuítico, Maço 71, Doc. 231)

7. Papéis vários pertencentes ao Collegio dos Porcionistas que fez o Cardeal Dom Henrique em Évora, anos de (1562 a 1576), (Academia das Ciências de Lisboa, Série Azul, N.º 45)

8. Rol dos livros que neste Reino se proíbem pelo Sereníssimo Cardeal Infante Inquisidor Geral, nestes Reinos e Senhorios de Portugal: com as regras do outro rol geral que veio do Santo Concílio, ano de 1564, (BNP, Reservados 1414//2)

9. Alvará sobre a aprovação dos Estatutos, provisões e regimentos do Colégio das Artes de Coimbra e Estatutos do Colégio das Artes (1565), (ARSI, Lus. N.º 84 I (VII),

Fundationes – Collegi Conimbricensis,

fls. 95v.-104v.)

10. Provisão do Cardeal Infante D. Henrique contra os que falam nos votos da Companhia de Jesus, ano de 1568, (ANTT, Cartório Jesuítico, Maço 71, Doc. 226) 11. Informação sobre a fundação do

Colégio da Companhia de Jesus na Ilha da Madeira, e dote do Colégio, ano de 1569/1599, (ANTT, Cartório Jesuítico, Maço 64, Doc. 64)

12. Colégio da Ilha da Madeira, ano de 1572, (ANTT, Cartório Jesuítico, Maço 34, Doc. 6) 13. Treslado da carta de um conto e

duzentos mil reis que o Colégio de Jesus de Coimbra recebe anualmente das rendas da Universidade, ano de 1572,

(ARSI, Lus. N.º 84 I (VII), Fundationes –

Collegi Conimbricensis, fls. 41-42)

Regimento e exercícios que se fazem no Colégio de Jesus em Coimbra, ano de 1572, (ARSI, Lus. N.º 84 I (VII),

Fundationes – Collegi Conimbricensis,

fls. 43-43v.)

15. Memorial das Escolas de Coimbra, ano de 1572, (ARSI, Lus. N.º 84 I (VII),

Fundationes – Collegi Conimbricensis,

fls. 55-56)

16. Renda de seiscentos mil réis que El Rei deu para a fundação do Colégio do Funchal, no ano de 1572 (ARSI,

Lus. N.º 85 (VIII) Fundationes: Collegi

Elvense – Portuense – Funchalense,

(fls. 89-90)

17. Carta dos seiscentos mil reis em cada ano da dotação e doação aos Padres da Companhia Jesus na Cidade de Angra, ano de 1572, (ARSI, Lus. N.º 79,

Fundationes II – Collegi Almiratinum Brigatinum, fls. 127-127v.)

18. História da fundação do Colégio do Funchal, ano de 1574, (ARSI, Lus. N.º

85 (VIII) – Fundationes: Collegi Elvense

– Portuense – Funchalense, fls.

269v.-270)

19. Treslado da Provisão de El Rei sobre a mudança do Colégio de Santo Antão entre os anos de 1574/1580, (BA, Cód. 54-X-17, N.º 47, fólios 10)

20. Doação das Casas e Igreja do Colégio de Angra, ano de 1575, (ANTT, Cartório Jesuítico, Maço 32, Doc. 21)

21. Alvará sobre a impressão e venda da Arte da Gramática do Padre Manuel Álvares, ano de 1575, (ARSI, Lus. N.º 80,

Fundationes III – Collegi Eborensis, fl.

260 c)

22. Estatutos do Colégio da Purificação que mandou fazer el-Rei D. Henrique, ano de 1579, (ANTT, Cartório Jesuítico, Maço 104, Doc. 7, fólios 21)

(5)

286 296 300 302 305 314 318 320 326 329 337 342 370 392 409 417 422 680 704 Cartório Jesuítico, Maço 39, Doc. 67)

24. Visitação do Padre Fernão Guerreiro ao Colégio de Angra, ano de 1592, (ARSI,

Lus. N.º 71, Epistolae Lusitaniae (1591-

1592), fls. 198-201v.)

25. Lista de las Missas y oraciones y deuotiones que los Padres y Hermanos de la Compagnia de Iesu de la Prouincia de Portugal hazen por las necessidades de la Iglesia. Seha en principio de Hebrero

de 1595, (ARSI, Lus. Nº 73, Epistolae

Lusitaniae (1595-1596), fls. 6-6v.)

26. Alvará concedido novamente por sua Majestade aos Padres da Companhia de Jesus do Colégio de Évora sobre a Arte da Gramática do Padre Manuel Álvares, ano

de 1596, (ARSI, Lus. N.º 80, Fundationes

III – Collegi Eborensis, fl. 260 b).

27. Rendimentos e despesas dos Colégios da Província de Portugal no século XVI,

(ARSI, Lus. N.º 78, Fundationes: I (b) –

Collegi Ulissiponensis, fls. 49-50)

28. Apontamentos sobre o ofício de Vice-Provincial das Ilhas, no século XVI,

(ARSI, Lus. N.º 78, Fundationes: I (b) –

Collegi Ulissiponensis, fls. 212-215)

29. Notícia da Casa da Companhia de Jesus na Cidade do Porto, no século XVI, (ARSI, Lus.

N.º 85 (VIII) – Fundationes: Collegi Elvense

– Portuense – Funchalense, fls. 271-273)

30. Propriedades do Colégio de Angra, século XVI, (ANTT, Cartório Jesuítico, Relação II, Maço 57, Doc. 14, fls. 5v.-6) 31. Declaração das terras, vinhas e

casas que o Colégio de Angra da Ilha Terceira tem, século XVI, (ANTT, Cartório Jesuítico, Relação II, Maço 57, Doc. 68) 32. Rendas dos Colégios da Companhia de

Jesus, século XVI, (BPADE, Cód. CV/2-15 II) 33. Leis dos Reverendos Padres Gerais,

Visitadores e Provinciais, século XVI, (ANTT, Cartório Jesuítico, Maço 96, Doc. 3)

35. Sobre os Estados da Companhia de Jesus, séc. XVI, (ANTT, Armário Jesuítico, Livro N.º 4, fls. 252-253v.)

36. Algumas coisas que se têm experiência aproveitarem para reger qualquer classe, século XVI, (ANTT, Manuscrito da Livraria, N.º 1838, fólios 30)

37. Se convém haver muitas Escolas no Reino, século XVI, (ANTT, Cartório Jesuítico, Maço 56, Doc. 11, fólios 20) 38. Acerca dos estudos que nos queriam

tirar, século XVI, (ANTT, Cartório Jesuítico, Maço 56, Doc. 12, fólios 16). 39. Respondendo à proposta dos

procuradores dos Prelados e Cabidos deste Reino se offrecem as rezões seguintes por parte do Collegio de Coimbra, ano de 1606, (A.N.T.T., Cartório Jesuítico, Maço 40, Doc. 55, (fols. 78-83v.)

40. Rendimento das propriedades dos Colégios, séculos XVI/XVII, (ANTT, Cartório Jesuítico, Relação II, Maço 57, Doc. 86)

41. Estatutos da Universidade de Évora, séculos XVI/XVII, (BNP, Cód. 1814 – microfilme F. 1465, fólios 356)

42. Bibliotheca em que se apresentam os Escritores da Companhia de Jesu, que moram neste collegio, e imprimiram Liuros e os escreueram, pera os imprimir (BPADE, Cód. CIV/1-40 (fls. 253-276v.); Cód. CXXX/1-14 (fls. 165v.-187)

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SIGLAS

Abreviaturas

— A.C.: Academia das Ciências de Lisboa.

— A.N.T.T.: Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa). — A.R.S.I.: Archivum Romanum Societatis Iesu (Roma). Lus.: Lusitânia.

Cong.: Congregationes Generales et Provinciales. F.G.: Fondo Gesuitico.

— B.A.: Biblioteca da Ajuda.

— B.N.P.: Biblioteca Nacional de Portugal. RES: Reservados

— B.P.A.D.E.: Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Évora.

Outras

cf. confronto cfr. conferir cód., códs. códice, códices Comp. Companhia Cx. Caixa

dir. dirigido por ou direcção de doc. documento

ed. edição

Ejercicios Ejercicios EspiritualesDalmases e Manuel Ruiz Jurado), Madrid, BAC, 1991., in Ignacio de Loyola, Obras, (ed. de Ignacio Iparraguirre, Cándido

etc. et caetera fasc. fascículo fig. figura figs. figuras Fl. fólio fls. fólios F.r Frei

ibidem no mesmo lugar

idem o mesmo Ir. Irmão n.º número

(7)

p. página pp. páginas P.e Padre PP. Padres S. São séc. século s.d. sem data seg. seguinte segs. seguintes

sic transcrição exacta s.n. sem numeração trad. tradução v. verso vol. volume vols. volumes

Sinais

(8)
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(11)

Prólogo

A história dos Jesuítas é transversal aos Estados Modernos e indissociável da hegemonia cultural do Ocidente. A Companhia de Jesus expandiu-se pelas missões e conservou-se pela instituição educativa, tendo na cultura escrita difundida, mediada e formalizada pela escola um meio de desenvolvimento e normalização. O núcleo fundante do Jesuitismo residiu na conciliação entre os Exercícios Espirituais, as

Constituições da Companhia e o Ratio Studiorum. Os Exercícios Espirituais, assim

designados por analogia com os exercícios corporais, eram desafios e percursos interiores, para serem cumpridos pelo próprio, iluminados pela leitura e pela escrita, e devidamente orientados por um director espiritual. Há neste tirocínio um efeito educativo, com conteúdo, mediação pedagógica e transformação (conversão). Também, as Constituições contêm um programa educativo composto por uma sequência de experiências individuais a ser realizada pelos admitidos. Na Parte Quarta das Constituições são apresentados o quadro pedagógico e o currículo escolar, devidamente articulados com o ideário da Companhia. A componente pedagógica, como racional e ordem dos estudos, complexo (in)formativo, bem como a componente didáctica, cognoscente e de aprendizagem, integrada e progressiva, estruturada sob a forma de currículo, estavam devidamente apresentadas e descritas no Ratio Studiorum. A escrita foi o principal meio de comunicação e de transformação objectiva e organizativa, utilizado e praticado, pelos membros da Companhia, que, entre outros aspectos, cultivaram uma epistolografia regular, pragmática e devidamente formalizada.

Gabriel Compayré que, em final de Oitocentos, elaborou uma sistematização da pedagogia ocidental, apresentando um contraste entre o tradicional e a inovação, referiu que a pedagogia jesuítica continha os aspectos estruturais da institucionalização. Ao conciliar as Constituições da Companhia com o Ratio

Studiorum, Compayré fez ressaltar o binómio fundante do Jesuitismo: a missão e

a escola. Conversão e prática religiosa e, de modo análogo, educação e instrução, são integrantes de um mesmo ideário e de um mesmo desígnio de expansão e perenidade, mas foi a constituição escolar que conferiu a tal evolução um sentido instituinte.

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Uma Congregação sedimentada na comunicação escrita

Aos três elementos escritos constituídos pelos Exercícios Espirituais, as

Constituições, o Ratio Studiorum, já referidos, a Companhia de Jesus acrescentou a

escrita autográfica e epistolar. Cultivada por Inácio Loiola que deixou mais de 7.000 cartas, a epistolografia foi uma das principais manifestações da Ars Scribendi, matéria que mereceu particular atenção por parte de Juan Polanco, primeiro Secretário da Companhia, em Roma. A escrita epistolar foi regulamentada nas Constituições e era uma prática de externalização e sociabilidade, mas também um contributo fundamental à edificação, consistência, identidade e expansão da Companhia. Foi um pilar de institucionalização. Desde o ingresso na Companhia que o Jesuíta praticava o exercício epistolar.

Nas Constituições (VIII, 1, 8, 9), 1547-1550), ficou estabelecido que «ajudará a comunicação de cartas entre os inferiores e os superiores, e o saber a miúdo uns de outros, vendo as novas que de umas e outras partes vem, do que terão encargo os superiores, em especial o geral e os provinciais». Como Secretário, Juan Polanco tinha enviado uma circular a toda Companhia, contendo as razões para uma correspondência regular. A prática epistolar promovia a união entre os membros da Ordem, encorajando e auxiliando a um bom governo da Companhia e à boa distribuição dos missionários. Favorecia o bom nome da instituição, o surgimento de vocações e a ajuda por parte dos simpatizantes. De modo mais específico, havia regras que deviam ser observadas nas cartas enviadas pelos membros da Sociedade, que se encontravam fora de Roma. Tais regras incidiam sobre a organização, a ordem do conteúdo, o número de cópias a extrair e enviar para Roma. Na Província portuguesa, as cartas para o Oriente circulavam através da Carreira das Índias. Os missionários, em viagem, deveriam anotar diariamente matérias de edificação, pondo-as em memória para no final da viagem fazerem com elas uma longa carta a remeter para Lisboa1.

As cartas que se destinavam à publicidade deveriam ser edificantes. Os outros assuntos e problemas deveriam ser reservados para as cartas dirigidas ao Geral

1 Tal recomendação constava da Instrução do Padre Provincial Torres para o Padre Manuel Álvares (Lisboa, 1560) (Dl, IV, p. 551, doe. n° 16. citado em J. Wicki, relações de viagens dos Jesuítas na

Carreira das naus da índia de 1541 a 1598, separata de II Seminário Internacional de História Indo -Portuguesa. Actas, Lisboa, 1985, p. 8.

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da Companhia. Em conformidade com as Constituições, se não houvesse assuntos urgentes, na Europa, os reitores dos colégios, os propósitos e os provinciais deveriam escrever semanalmente ao provincial. Cada três meses escreveriam ao Geral, em Roma. Os provinciais deveriam responder aos seus subordinados, cada três meses e ao Geral mensalmente. Este devia, cada dois meses, responder aos Provinciais e, de seis em seis meses, aos Reitores dos colégios e Propósitos. Para que as cartas pudessem circular, os subalternos de um Provincial, pertencentes a casas ou colégios, deveriam escrever, em princípio, de quatro em quatro meses, uma carta, contendo somente coisas de edificação. Uma dessas cartas seria escrita em língua vulgar da província respectiva, dela sendo feita uma versão em latim. Também deveriam remeter ao Provincial os duplicados de uma carta e de outra. Este deveria enviar ao Geral, uma cópia em latim e outra em vulgar, acompanhadas de uma carta sua, onde contasse o que havia de notável ou de edificação e que não dissesse respeito a particulares. Da primeira destas cartas, deveria fazer tantas cópias quantas bastassem para dar notícia aos outros membros da sua província.

Para que não houvesse perda de tempo em enviar estas cartas ao Provincial, podiam os locais e reitores enviar as cartas em latim e em vulgar, directamente ao Geral. Sempre que lhe parecesse ajustado, podia o Provincial encarregar alguns dos locais para avisarem os demais da sua província, enviando-lhes cópia das cartas que escrevesse ao provincial. Para que o que se passava numa província fosse conhecido na outra, deveria o Geral ordenar que das cartas enviadas das províncias, fossem feitas cópias que bastassem para prover todos os outros Provinciais. Estes fá-las-iam copiar para os da respectiva província. Quando houvesse muito comércio de uma província para outra, como sucedia entre Portugal e Castela, e entre Sicília e Nápoles, o Provincial de cada uma delas poderia enviar, à outra, cópia das cartas que enviava ao Geral2.

Regime de educabilidade e orgânica escolar

Fundada no quadro histórico da Reforma Tridentina e como resposta ao Reformismo Protestante, a Companhia de Jesus cultivou a leitura e a escrita como conhecimento, informação, comunicação, ordem, dispositivo de acção. A escrita

2 «Constitutiones cum declarationibus, textus D. 1594», P. VIII, c. I, semelhante às versões do texto B (c. 1556), mas ainda não explicitado nos textos anteriores (cf. Ml, 3a série. II, 621-623).

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permitiu a síntese humanista, filosófica e científica, constante dos documentos estruturais. Como processo participado, a escrita possibilitou que a elaboração e a aprovação das Constituições e do Ratio Studiorum tivessem beneficiado da reescrita e de revisões sucessivas. A estrutura e a expansão da Companhia assentaram na escrita, desenvolvida nas principais modalidades: o impresso e o autográfico. A capacitação literácita e o labor letrado eram factores de inclusão e hierarquia, pelo que, do exame geral aos candidatos, fazia parte o item: «Se aprendeu algum ofício manual. Se sabe ler e escrever; e no caso afirmativo, examine-se como é que lê e escreve, a não ser que isso seja previamente conhecido» (Requisito 43). A formação letrada era intrínseca ao perfil e à hierarquia dos jesuítas, dividindo-se estes em quatro categorias: letrados, coadjutores, escolásticos, indiferentes. Sempre que necessário e possível, a Companhia não deixou de atender à alfabetização, mas era regra que a admissão recaísse sobre os alfabetizados e com idade não inferior a catorze anos.

Os Exercícios Espirituais, as Constituições, o Ratio Studiorum eram Regulamentos para serem lidos, comunicados e cumpridos, com os quais os Jesuítas deveriam estar familiarizados. A autografia, manifesta na regularidade de escrita e leitura e no envio sistemático de missivas, era no entanto uma prática literácita e uma modalidade discursiva cujo principal objectivo residia na informação, comunicação e acção. Os membros da Companhia deveriam escrever para os superiores e para outros membros, particularmente para os colocados em locais distantes, dando notícia de acontecimentos, informando sobre as particularidades locais, apelando a um mesmo desígnio de missionação e edificação da Companhia. A autografia era uma prerrogativa habitual, como meio de comunicação institucional e colectiva, e menos como componente subjectiva e factor de identidade. O exercício espiritual e a exortação assentavam fundamentalmente na leitura. Esta pragmática da escrita e de certo modo a escrita pragmática deveriam ser cultivadas por todos os membros da Companhia. Todavia, em sede académica, como exercício letrado e como exortação estética, havia lugar e incentivo à composição e à criatividade literária e científica.

A congruência entre os desígnios da Companhia e o perfil do jesuíta era obtida através da capacidade e da progressão escrita. A leitura e a escrita eram determinantes para o acesso ao conhecimento e para agir sobre os outros, tornando consequente o preceituado de que «o fim da Companhia não é somente ocupar-se, com a graça divina, da salvação e perfeição das almas próprias, mas com esta mesma graça, esforçar-se intensamente por ajudar a salvação e perfeição das do

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próximo» (Constituição, 8.3). A escrita era um meio. A cultura escrita foi o elemento agregador entre missionação e escolarização. A cultura escrita e a instituição escolar foram base e meio para a formalização da Companhia e para a concretização de pragmáticas e modos de acção.

A escrita pedagógica dos Jesuítas constitui uma sistemática da escola como instituição, conteúdo, racionalidade, método, disciplina escolar. A racionalidade educativa constante das Constituições e do Ratio Studiorum e que enforma a escrita pedagógica e formaliza a escrita didáctica obedecia a uma mesma disposição discursiva: apresentação sumária da missão da Companhia e da autoridade máxima; modo de admissão e exame geral, prévio, dos candidatos; descrição e caracterização dos aspectos formais, nomeadamente a regularidade escolar; meios e organização dos estudos; cursos; professores; matérias e compêndios (métodos); exames; modalidades de ensino. A componente pedagógica e a componente didáctica estavam associadas. Beneficiavam de escrituração impressa e manuscrita devidamente formalizada e adequada, nos planos discursivo e instrumental. A Parte IV das Constituições ficou reservada ao essencial da pedagogia e, em boa parte, à escrita didáctica. Esta distinção e esta associação surgem alocadas, quer aos Colégios, quer às Universidades.

Distintamente, a componente educativa dá substância aos Exercícios Espirituais; reificação e significado às Experiências do admitido (enunciadas nas Constituições); materialidade, sentido e progressão à instituição pedagógica e didáctica, apresentada na parte IV das Constituições e constituída no Ratio Studiorum. O programa resultante da integração destes distintos documentos configura um regime de educabilidade. Devidamente orientados, os Exercícios Espirituais continham, uma primeira parte que correspondia ao percurso individual de conversão e que incluía a aprendizagem, a capacidade e a prática do exercício espiritual. Os Exercícios Espirituais continham três outras partes: três Exercícios de meditação e subjectivação, plasmados na Vida de Cristo, o último dos quais era a Ressurreição como vitória sobre a morte. Era esperado que a Vida de Cristo, devidamente meditada e vivenciada, fosse (re)encarnada em cada Jesuíta. Os Exercícios Espirituais constituíam uma primeira transformação – a conversão que, articulada com as restantes experiências probatórias, correspondia a uma metamorfose (transfiguração).

Da componente educativa do Jesuíta fazia também parte a sucessão de experiências-provação, que constam do capítulo das Constituições, denominado «Alguns Pontos que mais convém saber aos que entram na Companhia sobre o

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que nela devem observar». Assim, «antes ou depois da entrada numa casa ou num colégio, exigem-se seis experiências principais (...). Estas experiências poderão antecipar-se, retardar-se, moderar-se, ou mesmo, em certos casos, substituir-se por outras, por ordem do Superior, conforme as circunstâncias das pessoas, tempos e lugares» (Constituições, 64.9). Uma vez concluídos a admissão e o Exame

Prévio Geral, os admitidos eram exortados à sucessão de experiências pessoais,

obrigatórias e probatórias, ainda que não tendo de ser realizadas nem de uma só sequência, nem de forma continuada. A primeira experiência eram os Exercícios

Espirituais; a segunda consistia em servir durante um mês nos hospitais; a terceira

era peregrinar, mendigando, durante um mês; a quarta consistia em exercitar todos os ofícios menores da casa; a quinta consistia em expor publicamente a crianças e a pessoas incultas toda ou parte da Doutrina Cristã.

O regime de educabilidade, que prosseguia pela formação letrada e para alguns também pela formação teológica, continha, no essencial, um tirocínio pessoal, probatório e de transfiguração. Era um processo devidamente assistido de que fazia parte a conversão interior através dos Exercícios Espirituais e que culminava na experiência pedagógica e didáctica de missionação e formação de outros. Deste regime de educabilidade faziam parte o currículo escolar que conformava um perfil letrado e que tinha início na Gramática e prosseguia pela Teologia. Este percurso escolar estava descrito nos domínios pedagógico e didáctico, de que faziam parte os compêndios e apostilas, mas integrava também a socialização proporcionada pelas Academias de estudantes. As Academias, uma formada por estudantes de Teologia e de Filosofia, outra formada pelos Estudantes de Retórica e Humanidades e uma terceira por Estudantes de Gramática, eram agremiações de estudantes, com órgãos e regulamentos próprios, que funcionavam em assembleias sessões coletivas para aplicação de conhecimentos e incentivo à criatividade e à argumentação.

Uma administração escrita

Tomando como referência os documentos estruturais já referidos e como fonte os documentos que formam a Monumenta Historica, nomeadamente este primeiro volume, observa-se que para além da escrita epistolar, a Companhia praticava uma escrita administrativa, uma escrita contabilística, uma escrita pedagógica, uma escrita didáctica e, pouco a pouco, foi sendo constituída uma escrita arquivística

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e historiográfica. Neste I volume, há um conjunto de documentos que reportam a alvarás, compras e vendas, inventários, relações de bens, contratos diversos, orçamentos. Há um conjunto de documentos que reportam a Colégios e também um outro conjunto de documentos formado por regulamentos pedagógicos, normas e processos didácticos e por fim um conjunto de documentos que são memoriais, catálogos e sínteses para que constem e para que sejam balanço e arquivo. Há pareceres. É uma escrita formalizada e bem cuidada, que contém registos descritivos, registos quantitativos, com utilização das unidades monetárias, pesos e medidas de época.

Os Jesuítas e a constituição escolar

A principal incidência pedagógica da Companhia foi nos ensinos secundário e médio, como ciclos autónomos e como preparação para a Universidade. A pedagogia dos Jesuítas incluiu também a Universidade, onde era realizado o Curso de Teologia, com a duração de 4 anos. A Universidade Teológica estava reservada apenas aos letrados que se houvessem revelado excepcionais na Filosofia. Em cada ano e em conformidade com o total de estudantes de Filosofia, o Provincial deveria escolher, dois, três ou mais escolásticos, para prosseguirem os Estudos em Teologia. A Universidade Teológica de Évora serviu os Jesuítas e outras Congregações.

No entanto, a estrutura escolar privilegiada pelos Jesuítas foi o Colégio, em regime de internato, aberto à frequência de externos – Colégios de Artes e Humanidades e Colégios Menores. Os Colégios das Artes e Humanidades asseguravam um ciclo de Estudos, constituído pelo Curso de Filosofia, que mediava entre os Estudos Menores e a Universidade. Concediam bacharelato em Filosofia e licenciatura em Artes. Cumpridos os Estudos Menores e uma vez examinados, os estudantes passavam à Filosofia, com duração de três anos. As Artes eram necessárias à Filosofia, assim os escolásticos cursavam Matemática no 2º ano do curso filosófico. Todos os alunos que, no primeiro exame, se revelavam pouco dotados para a Filosofia, eram enviados ou para [as lições] de casos (Casos de Consciência), ou para o Ensino (Ratio Studiorum, 19.4). Recebiam uma formação para Coadjutores do Espiritual.

Os Jesuítas tornaram-se responsáveis pelo Colégio das Artes, em Coimbra, tendo introduzido uma reestruturação pedagógica que tornou o Curso Filosófico, um curso integrado, em que as Artes Liberais, ainda que não perdendo a vertente profissional,

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ocuparam lugar secundário, remetidas ao estatuto de auxiliares. Os lentes jesuítas tiveram um papel determinante nos destinos do Curso Teológico da Universidade de Coimbra, mas foi em Évora que a instituição educativa-escolar, formada pela constelação de Colégios Menores, espalhados na cidade e por concelhos da região, pelo Colégio Preparatório onde era ministrado o curso de Filosofia, e pela Universidade Teológica, que dava consistência à geografia escolar e à hierarquia formativas, se tornou modelo. A Universidade Teológica de Évora resultou da elevação do Colégio do Espírito Santo. O Curso de Artes tinha, em Évora, a duração de quatro anos. A academia jesuítica de Évora era constituída por estudantes de humanidades, estudantes de artes, estudantes de casos, estudantes de teologia.

Os Colégios Menores acolhiam os estudantes durante cinco anos: três de Gramática, um de Humanidades e um de Retórica. O total de classes poderia no entanto variar em conformidade com a frequência de cada Colégio. Os estudantes que no final do primeiro exame de Gramática revelassem dificuldades em prosseguir passavam à categoria de Coadjutores do Temporal. Para além de Colégios e Universidades, a missão Jesuítica incluía residências e casas de comunidades. A Companhia chegou a Portugal em 1540, no mesmo ano em que, com data de 27 de Setembro, foi aprovada pela Bula Regimini Militantis Ecclesiae, emanada pelo Papa Paulo III. Data de 1542, a fundação, em Lisboa, da casa da comunidade de Santo Antão-o-Velho. Esta foi também a primeira casa da Companhia no mundo. No mesmo ano de 1542, foi fundada, em Coimbra, a primeira casa de formação de jovens Jesuítas.

Em poucos anos, a Companhia ficou instalada nos principais centros administrativos e culturais, para além de Lisboa, Coimbra e Évora, onde criou vida própria. Assim, em 1542 fixou-se em Lisboa (Santo Antão de Lisboa), Residência, em 1542, Aulas Públicas, em 1553. No mesmo ano, de 1542, fixou-se em Coimbra; em 1551, em Évora; em 1560, no Porto; em 1561, em Bragança; em 1562, em Braga; em 1570, em Angra (Ilha Terceira); em 1570, no Funchal (Ilha da Madeira). Em final do século XVI, a Província da Companhia de Jesus, de Portugal e Ilhas contava quinhentas e quarenta e três pessoas, não contando moços de soldada, e oficiais necessários, que eram em bom número. (Cf. infra)

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Uma escrita educacional

A Companhia de Jesus era uma estrutura total, desde os colégios e os locais pedagógicos e escolares até a centralização e a autoridade máxima, sedeada em Roma. Essa estrutura vertical e uniforme estava contemplada na disposição dos principais regulamentos, também eles ordenados do mais graduado para o mais simples, ou seja do fim para o princípio.

A Companhia patrocinou compêndios escolares comuns, transversais aos diferentes países. A principal autoridade residia no Geral, com sede em Roma. Cada província estava confiada a um Provincial. O elemento escrito foi estruturante da Companhia de Jesus, como comprova a Monumenta de que se aqui se publica o Volume I. Trata-se de uma escrita formalizada e fruto de sucessivos traslados, mas que contém uma paleografia cuidada. No campo da escrita, a Ars Scribendi de que uma parte foi formalizada por Juan Polanco e incluída nas Constituições e a De Institutione

Grammatica de Manuel Álvares, Jesuíta português, constituíram método e asseguraram

uniformidade. A De Institutione Grammatica, editada em 1572 e adoptada como compêndio oficial da Companhia, foi sucessivamente reeditada e posteriormente ampliada com um glossário.3 Foi também adoptada por outras Congregações.

O termo educação, como o termo pedagogia e mais especificamente o termo didáctica não fizeram parte do léxico fundante da Companhia de Jesus. O campo educacional está assinalado, mas não há, nos documentos estruturais, distinção explícita entre o que constituiria domínio educativo, domínio pedagógico, domínio didáctico. Há uma constelação lexical em torno do escolar, de que fazem parte, entre outros, os termos método, matérias, classes, lição, exame, estudante, aluno, lente, mestre, professor, livro, matéria, disputa. São termos que, não sendo de um mesmo domínio, determinam a tónica e determinam o campo do educacional, tal como está presente na constituição e na acção dos Jesuítas.

3 Cuide o provincial de que os nossos professores adoptem a Gramática de Manuel [Álvares] e se em algum lugar o seu método parecer demasiado exigente para o entendimento dos alunos, faça então adoptar a gramática romana, ou compor outra gramática que seja semelhante – depois de consultar o Superior Geral. Seja porém, respeitada a autoridade de todas as regras de Manuel [Álvares], e o seu carácter específico. (Ratio Studiorum, I.23)

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A análise do conjunto de documentos que constitui este Volume I da Monumenta

Historica revela no entanto que há três níveis e, a seu modo, três grandes categorias

de escrita na documentação da primeira fase do Jesuitismo. Há uma escrita educativa constituída pelos Exercícios Espirituais e pelas Experiências probatórias, onde a tónica reside na conversão, na edificação e na transformação do indivíduo. Há uma escrita pedagógica – uma parte das Constituições e o Ratio Studiorum. Há uma escrita didáctica formada pelos compêndios, pelas normas de ensinar e de examinar, pelas diversidade e complementaridade de exercícios, modalidades de apresentação dos conhecimentos, modos de leitura e de escrita, escrituração de presenças, premiações, aconselhamentos. Estas escritas ficaram associadas a profissionais e a especialistas, como foram os compêndios e as cartas/ apostilas das lições, mas também foram extensivas a prefeitos dos estudos e a coadjutores. Uma das funções que dá nota de uma escrituração formalizada foi a de bedel, que registava as presenças, a pontualidade e a disciplina e que comunicava, escrevendo, ao prefeito ou ao reitor. Haveria um livro de matrículas devidamente formalizado e actualizado no registo de cada estudante.

A escrita pedagógica e a escrita didáctica incluem registo, tradição e inovação. Foi a escrita que permitiu a inovação como ressalta do documento trigésimo sexto, infra incluído na Monumenta Historica. Há tradição e inovação e eram a escrita pedagógica e a escrita didáctica que as sustentavam. Cabia ao bedel ler e dar a ler as regras de funcionamento das lições. Cada Academia deveria elaborar e afixar um regulamento. Os actos académicos deveriam ser devidamente publicitados. Como infra fica noticiado, a experiência foi tomada em consideração para a formalização de regras didácticas e de preceitos pedagógicos.

Monumenta Historica

A Monumenta Historica, de que agora se publica o Volume I, é uma recolha sistemática e, dentro do possível, exaustiva da documentação dos Jesuítas da Província Portuguesa. Inclui os aspectos gerais nos planos educativo, pedagógico, didáctico, incidindo fundamentalmente em relatórios e visitas. São documentos conservados em Arquivos nacionais e no Archivum Romanum Societatis Jesu. Foram deixados para recolhas posteriores, documentos de carácter específico, assim os relativos ao estado da economia ou às finanças de cada Colégio. De um modo geral,

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não foram introduzidos nesta Antologia os documentos de carácter particular, assim epístolas e cartas-ânuas e os documentos que respeitavam à história específica de cada Colégio.

Os documentos foram transcritos na íntegra, respeitando a grafia original. A principal finalidade desta Monumenta Historica é constituir um arquivo cronologicamente organizado, sobre a Educação e o Ensino dos Jesuítas, reconstitutivo de uma narrativa documental, independentemente do tema e do arquivo em que tais documentos estão preservados. Sempre que foram encontradas mais que uma versão do mesmo documento, foi dada preferência à mais legível e foi feita menção das restantes cópias. Foi privilegiada a publicação de documentos inéditos, no entanto nos casos em que a versão disponível era mais completa que a versão já publicada, foi decidido que o documento fosse de novo publicado.

Há, nesta Monumenta, diferentes séries de documentos, parte significativa dos quais reporta à Universidade de Évora e aos Colégios, mas que apresentam uma perspectiva generalizável. A maior parte desses documentos respeita uma mesma estrutura discursiva, combinando o cronológico e o narrativo: fundação, caracterização, funcionamento. Há documentos que se referem ao perfil e ao comportamento dos Membros da Companhia.

Este volume da Monumenta Historica é composto por 42 documentos. O primeiro data de 1539 e o último é um Inventário de autores de obras escritas por Jesuítas. É um inventário geral que contém dados para os séculos XVI e XVII, mas também alguma informação sobre o século XVIII. Para não repartir o documento e porque há informação importante para o século XVI, optou-se por inclui-lo neste Volume I. Os dois primeiros documentos transcritos reportam ao período imediatamente anterior à chegada dos Jesuítas a Coimbra. O primeiro é o regulamento dos Estudantes da Universidade de Coimbra, assinado por D. João III, quando da transferência da Universidade para Coimbra. O segundo documento contém as obrigações dos lentes no Curso de Artes do Colégio das Artes. A inclusão destes documentos na Monumenta

Historica deve-se à relevância dos temas e a ter-se concluído que o primeiro destes

regulamentos se manteve em vigor depois que os Jesuítas assumiram a direcção do Colégio das Artes. Dali passaram a enviar Estudantes à Universidade. O segundo documento contém o Regulamento imediatamente anterior à entrega do Colégio das Artes aos Jesuítas.

O terceiro documento é o primeiro que reporta exclusivamente aos Jesuítas. Contém os capítulos e as instruções de visitação, que deveriam ser aplicados em

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todas as províncias. Foram dirigidos ao Reitor da Casa de Coimbra e ao Provincial. O quarto documento transcrito é o Regulamento da Universidade Teológica de Évora, assinado pelo Cardeal D. Henrique em 1560. Foi actualizado em 1603 e em 1644. Dele constam o regulamento das matrículas, regras de conduta académica e bons costumes, regras de frequência e aprovação nos Cursos, orientação para as lições e para os Lentes, regras para os estudantes que beneficiam de prebendas na Universidade.

O quinto documento contém um acordo entre a Universidade de Coimbra e o Colégio das Artes para que a verba que a Universidade haveria de pagar ao Colégio pela leccionação dos lentes jesuítas, ficasse dependente da variação do total de cadeiras por eles asseguradas. Em virtude deste acordo, a verba original de três mil cruzados foi reduzida para seiscentos mil maravedis.

O sexto documento contém uma autorização régia para que os Religiosos da Companhia de Jesus não possuíssem bens próprios e pudessem dispor deles, logo após dois anos de ingresso na Companhia, mesmo que com idade inferior a vinte e cinco anos (idade consignada nas Ordenação régias).

O sétimo documento contém vários pequenos documentos sobre os Porcionistas da cidade de Évora. Um deles reporta à fundação, pelo Cardeal D. Henrique do Colégio dos Porcionistas.

O oitavo documento não está directamente articulado com a Companhia de Jesus, mas abrange a Companhia. Contém as Regras de censura, impressão e comércio de livros impressos e manuscritos, nos termos do Concílio de Trento, bem como o Rol de livros proibidos.

O nono documento contém o Alvará sobre a aprovação dos Estatutos, provisões e regimentos do Colégio das Artes de Coimbra e Estatutos do Colégio das Artes, 1565. Os estudantes deveriam aprender letras e aprender a respeitar os bons costumes. Haveria no Colégio das Artes dez classes, nas quais eram ensinados latim e retórica, haveria uma lição de grego, com duração de uma hora. Estas aulas eram abertas a quem as quisesse ouvir. Haveria uma aula de Hebraico, também com uma hora. Esta poderia funcionar no Colégio de Jesus. Haveria mais quatro lentes de Artes, começando cada ano um curso e haveria uma classe para ensinar a ler e escrever. Não haveria escolas privadas na cidade de Coimbra, com excepção de mestres de ler e escrever. As outras congregações poderiam ter classe próprias. Haveria um livro de matrículas. Os estudantes vindos de fora seriam submetidos a exames e, na sequência, enviados

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à Universidade. Do documento constam também os modos de examinar, as disputas, as regras e quebras de disciplina, os órgãos e respectivos poderes.

Documento décimo – Provisão do Cardeal D. Henrique contra os que falaram sobre o cumprimento dos votos feitos na Companhia de Jesus.

O documento décimo primeiro contém informação sobre a fundação do Colégio de Jesus na ilha da Madeira e sobre a renda para manutenção do mesmo.

Documento décimo segundo - Carta do Infante D. Henrique, enviada a Bernardo Fernandes Tinoco, que se encontrava na Ilha da Madeira às ordens do Cardeal, dando a conhecer que D. Sebastião tinha mandado edificar na Cidade do Funchal um Colégio para a Companhia de Jesus, dotando com 600$000 réis de renda anual. O Infante solicitava informação sobre como assegurar esse rendimento.

Décimo terceiro - Traslado de uma carta do rei D. Sebastião, sobre o acordo entre a Universidade de Coimbra e a Companhia de Jesus, referente ao pagamento por parte da Universidade

Décimo quarto - Traslado de uma carta do rei D. Sebastião, dando ordem para que nos novos Estatutos da Universidade de Coimbra, não fosse incluído nada do que respeitava ao Regimento do Colégio de Jesus, nomeadamente os actos, os exercícios e lições que nele se liam, porque o Colégio tinha Estatutos próprios e ordens particulares. Em consequência, o que fosse escrito nos Estatutos da Universidade sobre matérias específicas do Colégio teria de ficar sem efeito.

Documento décimo quinto - Memorial das Escolas de Coimbra, elaborado pela Companhia de Jesus. É referido que há 13 Casas de Congregações em Coimbra e que estas Congregações procuravam ter ali os melhores lentes. No entanto, os Jesuítas continuavam a ser vulgarmente conotados como Gramáticos, sendo os lentes de Teologia, ao tempo, ainda muito pouco conhecidos.

Documento décimo sexto – Carta Régia em que ficou estipulada a Renda de 600 réis destinada ao Colégio do Funchal, fundado para nele residirem «estudando e lendo latim conforme as suas constituições e modo de proceder».

Documento décimo sétimo – Carta Régia, estipulando a Renda de 600 réis destinada ao Colégio de Angra do Heroísmo, fundado em 1571, com duas classes de Humanidades e uma de Casos de Consciência.

Documento décimo oitavo - História da Fundação do Colégio do Funchal, em Fevereiro de 1574. O Cardeal D. Henrique pediu à Companhia de Jesus que enviasse missionários para acompanhar e confessar os soldados que seguiram para a

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Ilha da Madeira, que tinha sido saqueada por marinheiros franceses e ingleses. Ficaram durante cerca de um ano em missão, voltando a Portugal para regressarem posteriormente e fundarem o Colégio.

Documento décimo nono - Traslado de uma Provisão de D. Sebastião para negociação e compra de terrenos para que fosse efectuada a mudança do Colégio de Santo Antão para o Campo de Sant’Ana. Do processo constam vários outros documentos: cartas, avaliações, embargos.

Documento vigésimo - Escritura de doação à Companhia de Jesus, das casas e Igreja [Nossa Senhora das Neves], pertencentes a João da Silva do Canto, para instalação do Colégio na cidade de Angra, da Ilha Terceira.

Documento vigésimo primeiro - Alvará de Sua Alteza pelo qual a Arte de Gramática de Manuel Álvares não pudesse ser impressa ou vendida sem aprovação dos Padres da Companhia de Jesus da cidade de Évora (1572).

Documento vigésimo segundo – Estatutos do Colégio da Purificação de Nossa Senhora, em Évora (1579) destinado aos Teólogos. Este Colégio tal como o Colégio do Espírito Santo estavam integrados na Universidade. O Reitor da Universidade era também Reitor do Colégio da Purificação. O Colégio comportaria cinquenta estudantes, dos quais quarenta seriam cursantes que assistiriam às lições na Universidade e dez seriam «passantes», que estivessem a estudar no Colégio e a preparar-se para fazerem seus autos e tomarem grau. Os Colegiais (teólogos) não poderiam ter menos de vinte anos de idade e deveriam ter as Ordens Menores. Para serem admitidos deveriam ter o curso de Artes e serem nele, mestres ou licenciados.

Documento vigésimo terceiro – Traslado de uma Carta Régia outorgada pelo rei D. Manuel e de novo outorgada pelo Rei Filipe I, sobre isenções e privilégios vários associados à Universidade de Coimbra.

Documento vigésimo quarto - Instruções deixadas pelo Padre Fernão Guerreiro ao Colégio da Ascensão de Angra no ano de 1592.

Documento vigésimo quinto - Lista de orações e missas que os Padres, Irmãos e noviços da Companhia de Jesus fazem pelas necessidades da Igreja (1595).

Documento vigésimo sexto - Alvará Régio de novo concedido (1596), ao Padre Provincial e restantes Padres da Companhia de Jesus, sobre a obra do Padre Manuel Álvares De Institutione Grammatica (Lisboa, 1572), ordenando que ninguém possa imprimir ou vender a referida Arte de Gramática.

Documento vigésimo sétimo - Rendimentos e despesas dos primeiros Colégios fundados no século XVI.

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Documento vigésimo oitavo - Apontamento do Padre Matias de Sá da Companhia de Jesus, sobre o ofício de Vice Provincial das Ilhas, sublinhando as razões principais para a existência deste cargo.

Documento vigésimo nono - Notícia da Casa da Companhia de Jesus na Cidade do Porto, onde decorreram missões no ano de 1546. O Colégio veio a ser fundado em 1560, depois de um demorado e controverso processo político.

Documento trigésimo - Relação das propriedades e rendimentos que o Colégio dos Jesuítas da Cidade Angra possuía na Ilha Terceira depois da reabertura do Colégio.

Documento trigésimo primeiro - Declaração das terras, vinhas e casas que o Colégio de Angra da Ilha Terceira possui por compra e por doação.

Documento trigésimo segundo – Renda de cada um dos Colégios da Companhia de Jesus desta Província de Portugal no século XVI. A Companhia de Jesus tinha na Província de Portugal e Ilhas, quinhentas e quarenta e três pessoas. Este total não inclui moços de soldada, e oficiais necessários, que eram em bom número. Foram apenas contados os religiosos; dos quais se tiraram sessenta que estavam em São Roque, que por ser Casa Professa não podia ter renda. Ficaram nos colégios que podiam ter renda, quatrocentos e oitenta e três religiosos.

Documento trigésimo terceiro – Regras e procedimentos definidos pelos Padres, Visitadores Provinciais para a Província no que respeita à passagem dos religiosos de um para outro colégio.

Documento trigésimo quarto - Doutrina que o Padre mestre Francisco fez para os Padres da Companhia que andavam por fora na conversão dos infiéis a ensinar os cristãos novamente convertidos. Contém um conjunto de Orações.

Documento trigésimo quinto - Sobre os Estados da Companhia de Jesus, é referido que havia diferentes categorias e diferentes estados de Religiosos. Havia professos e coadjutores - coadjutores espirituais formados e coadjutores temporais, também formados. Havia professos de quatro votos solenes. Não podiam ter este grau, senão os Letrados que pudessem pregar e tivessem suficiência para ler Artes, e Teologia.

Documento trigésimo sexto – Método pedagógico praticado nos Colégios de Évora. O método refere-se às 7 classes e foi estabelecido a partir da experiência. O método é constituído por um conjunto de regras, algumas comuns às diferentes classes e outras variáveis em conformidade com as classes e as matérias. O cuidado com a ortografia mantém-se ao longo das classes.

Documento trigésimo sétimo – Memória sobre “Se convém muitas escolas a um Reino”. O autor toma primeiro em consideração os argumentos de que da abundância

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de escolas resultam prejuízos para os ofícios mecânicos. Apresenta depois uma longa argumentação de ordem humanística, científica, pedagógica, económica. As Matemáticas são convenientes à Filosofia e à Teologia. O autor traça a evolução das universidades e planos pedagógicos, compostos pelas Artes Liberais, e Humanidades e glosa, como motivo a favor da existência de muitas escolas, a sentença de Clemente Alexandrino de «que a sabedoria, he o Pedagogo, ou Ayo do homem».

Documento trigésimo oitavo – Retomando o argumento geral de que as Escolas eram sinal de Estado próspero, este documento com o título “Duvida-se se convém haver tantas Escolas em Portugal e em que forma se deva nisso proverem” pretende demonstrar a conveniência e as vantagens de mais escolas, mesmo sendo Portugal um Reino pequeno.

Documento trigésimo nono - Alegações dos Padres da Companhia de Jesus do Colégio de Jesus em Coimbra, relativas às respectivas despesas e à recolha do dízimo, em resposta à proposta dos procuradores dos Prelados e Cabidos do Reino sobre o mesmo imposto.

Documento quadragésimo - Relação dos rendimentos de cada uma das propriedades com rendas pertencentes ao um conjunto de Colégios (séc. XVI/XVII)

Documento quadragésimo primeiro - Estatutos da Universidade de Évora ordenados pelo Cardeal Infante D. Henrique (com autoridade do Santo Padre Paulo 4.º revistos e reformados por ordem do Reverendo Padre Mutio Vitelleschi, Prepósito Geral da Companhia de Jesus)

Documento quadragésimo segundo - Biblioteca em que se apresentam os Escritores da Companhia de Jesus, que ensinaram e viveram no Colégio do espírito Santo de Évora. Ali imprimiram Livros ou os escreveram para serem impressos.

Perfil do Jesuíta

A observação de mais de meio século da Companhia de Jesus, informada pelos documentos fundantes e pela Monumenta Historica, autoriza um balanço e algumas conclusões. Os documentos estruturais foram sendo produzidos e reescritos a partir da reflexão e da experiência, fruto de conciliações várias e da informação recolhida através de um intenso processo epistolar. A colecção de documentos aqui organizada dá nota dessa memória e daquele movimento e é um arquivo crítico e depurado, produzido de modo oficioso, pela própria Companhia. Está-se em face de

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um empreendimento total, colhendo todos os benefícios da aculturação, da ciência e da racionalidade escritas.

A cultura letrada era meio de inserção, comunicação, expansão e era um processo (in)formativo e estruturante da Companhia enquanto instituição e do perfil do Jesuíta enquanto cristão, missionário e mestre. Entrado na Companhia era submetido a um primeiro tirocínio educativo, constituído pelos Exercícios Espirituais. O processo interior de conversão prosseguia com experiências de exteriorização e acção social, enquanto simultaneamente prosseguia os Estudos Menores de Gramática, Humanidades e Retórica. Em face da incapacidade para prosseguir estudos cumpria a sua vida como Coadjutor Temporal, migrando de local, conforme as conveniências da Companhia. A conclusão dos Estudos Menores dava acesso à Filosofia e às Artes. Se em face do primeiro exame de Filosofia, fosse verificada a impossibilidade de prossecução de via letrada, por parte de alguns estudantes, estes eram encaminhados para os Casos de Consciência ou para o Ensino e tornavam-se Coadjutores do Espiritual. O Curso da Filosofia e de Artes conferia bacharelato e licenciatura e preparava para a Teologia, destinada aos melhores e cursada na Universidade.

A leitura era prática usual e fazia parte do quotidiano do Jesuíta. A autografia, designadamente através da prática epistolar, era uma prerrogativa de ser membro da Companhia. Mas o exercício cuidado e aperfeiçoado da escrita e da produção discursiva era matéria de correcção e melhoria nos sucessivos anos escolares e de curso para curso a complexificação e o desafio à qualidade eram uma exigência crescente. A escrita, como meio essencial à cultura letrada era factor de distinção e aperfeiçoamento.

O último documento transcrito neste Volume I da Monumenta Historica “Bibliotheca em que se apresentam os Escritores da Companhia de Jesu, que moram neste collegio, e imprimiram Liuros e os escreueram, pera os imprimir” ilustra e documenta o processo de aprofundamento, valorização e distinção através da escrita. Num universo provável de uns mil membros letrados da Companhia, no trânsito de Quinhentos, ressalta um escol de cento e vinte e seis autores, associados ao Colégio do Espírito Santo de Évora. O perfil letrado era inerente ao Jesuitismo e a instituição escolar moderna ficou a dever à Companhia de Jesus, uma escrita, uma orgânica, uma sistemática, uma hierarquia administrativa e letrada, que garantiram duração e universalidade.

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A Monumenta Historica de que se publica o Volume I é um contributo fundamental para a história dos Jesuítas da Província Portuguesa e para a Companhia de Jesus, em geral. A historiografia dos Jesuítas conta já com publicações desta natureza para a generalidade das Províncias. Aqui se inicia a publicação sobre Portugal, cuja relevância e significado cedo se fizeram assinalar. A Província Portuguesa foi a primeira a ser fundada. Nadal viajou a Portugal, em sede de visita geral, tendo deixado indicações que vieram a ser acolhidas por outras Províncias. Simão Rodrigues, que foi um dos membros do Grupo de Paris, veio para Portugal e ficou.

A Doutora Teresa Rosa tem vindo a realizar um trabalho tão meritório quanto titânico de recolha, transcrição, inventário crítico. Para facilitar o trabalho do leitor, acrescentou aos dados arquivísticos, uma ficha descritiva uniformizada de que constam o contexto histórico e o sumário. A opção por uma disposição cronológica dos documentos favorece a visão sequenciada e faz de cada documento um evento. Essa narrativa fica em parte indiciada, no resumo dos documentos. A recolha foi feita através da visita a cada um dos arquivos. Através desta Antologia pode historiar-se o movimento de expansão da Companhia em Portugal. Há documentação sobre o modo e ritmo como tal processo aconteceu, mas há também informação geral e a possibilidade de uma construção de sentido.

Lisboa, 16 de Maio de 2015

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I. Introdução ... 31

1. Critério adoptado na transcrição

dos documentos ... 35

2. Descrição sumária ... 37

II. História breve da Companhia de Jesus ... 43

1. A Fundação da Companhia de Jesus ... 43

2. Os Órgãos Gerais da Companhia

de Jesus ... 54

3. As Categorias atribuídas aos Jesuítas ... 67

4. Os primeiros Ratio de Nadal, Coudret, Ledesma e Borgia ... 71

5. O Ratio Studiorum do Padre Claudio Aquaviva... 74

6. A Educação em Portugal antes dos Jesuítas: primeira metade

do século XVI ... 75

7. O Estabelecimento da Companhia de Jesus em Portugal e os Colégios criados até meados

até meados do século XVIII ... 82

8. O aumento do número de membros da Ordem desde a sua fundação ... 87

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“(…) É a História que nos habitua a descobrir a relatividade das coisas, das ideias, das crenças e das doutrinas, e a detectar por que razão, sob aparências diferentes, se voltam a repetir situações análogas, se reproduz a busca de soluções parecidas ou se verificam evoluções paralelas. O historiador está sempre a descobrir no passado longínquo e recente o mesmo e o outro, a identidade e a variância, a repetição e a inovação (…)”.

(José Mattoso, A Escrita da História, 1997, pp. 14-17)

I. Introdução

A presente Monumenta Historica, que agora se publica, surge como resultado de vários anos dedicados à investigação, sobre a Companhia de Jesus em Portugal, cujo primeiro fruto adveio da pesquisa que desenvolvíamos para a preparação da Tese de doutoramento.

Em função da riqueza das fontes, foi possível ainda repensar e reactualizar a informação, partindo daquela Tese, e elaborar um segundo trabalho intitulado “A Universidade Teológica de Évora”, publicado pelo Instituto da Educação da Universidade de Lisboa, em 2013.

Desta forma, um dos objectivos principais deste trabalho, sobre a Companhia de Jesus, foi a transcrição de um corpus documental seleccionado, tendo por base os textos sobre o ensino Jesuíta e a vida das Instituições inacianas pertencentes à Província Portuguesa. Procurou-se produzir uma obra de referência clara, que contenha informações históricas fundamentais, acessíveis a todos os interessados e estudiosos de História, e que simultaneamente permita aos especialistas avançarem em estudos mais aprofundados sobre os primeiros Jesuítas.

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Embora alguns destes documentos tenham sido, já em parte, consultados e utilizados por investigadores, esta obra recolhe, no entanto, uma compilação arquivística, quase inédita na totalidade. É uma investigação exaustiva.

Até hoje, não existia em Portugal, um guia de documentação relevante para a História Religiosa e para a História da Educação da Companhia, em Portugal.

A Ordem inaciana continua a ser um terreno riquíssimo, mas praticamente “ermo” em termos de pesquisa e de análise crítica aprofundada na linha da historiografia mais actualizada sobre este tema.

Qualquer pesquisa que recorra essencialmente a fontes manuscritas, deve ter como premissa o facto incontornável de que a documentação disponível e acessível é apenas uma pequena parte de toda a documentação produzida.

Dada a vastíssima documentação criada ao longo dos séculos de História, em que os Jesuítas estiveram presentes em Portugal, até à sua expulsão em 1759 (cerca de duzentos anos) contando também com a produção nos momentos da sua acção enquanto instituição organizada e estabelecida no País, tornar-se-ia impossível abrangê-la na sua totalidade, tal obrigaria a um trabalho de muitos anos.

A forma como a Companhia de Jesus se organizou, assegurou a produção de um manancial de documentação escrita absolutamente extraordinária de grande riqueza informativa. Todo o tipo de acontecimentos se encontra registado e com elevado grau de pormenor.

No entanto, esta aparente abundância de registos, não deve ocultar a dificuldade por nós sentida, quando se trata de elaborar um corpus documental referente ao Ensino Jesuíta, pois tais informações, de uma maneira geral, encontram-se disseminadas na maior parte da documentação. Excepção para alguns textos referentes às visitações e orientações deixadas à Província Portuguesa, sobre as suas Instituições, aos Estatutos da Universidade de Évora e do Colégio da Purificação em Évora, o Regimento do Colégio das Artes em Coimbra, apontamentos dos visitadores, e em alguns Catálogos breves e trienais. Esta documentação encontra-se transcrita nesta Monumenta Historica que agora se publica.

Assim, a realização de uma colectânea documental deste género implica escolhas e decisões sobre o que reunir e excluir. Na verdade, muitos são os textos e documentos sobre a Companhia de Jesus que estão espalhados pelos Arquivos e Bibliotecas, e todos são importantes para a sua História. Muitos outros, se perderam no tempo.

Não ignoramos que apareceram recentemente estudos parcelares sobre esta Ordem religiosa. A maior parte deles, no entanto, consagram-se a Instituições

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isoladamente, ou a personagens determinadas. A dispersão temática, espacial e cronológica, assim como, a ausência de sínteses anteriores mostram que não são de modo algum suficientes para termos um conhecimento esclarecedor do verdadeiro papel histórico dos Jesuítas, e a maneira como actuaram no contexto da Sociedade no quadro do Portugal moderno.

Desta forma, importa referir que o trabalho de compilação e transcrição documental dos textos históricos sobre a Companhia de Jesus em Portugal não está feito.

Conhecem-se alguns trabalhos de referência, como a obra do Padre Francisco Rodrigues A História da Companhia de Jesus na Assistência a Portugal, 4 Tomos (1931, 1938, 1944 e 1950) com um “apêndice documental” sobre a Província; as obras do Padre António Franco Ano Santo da Companhia de Jesus em Portugal e

a Synopsis Annalium Societatis Jesu in Lusitânia ab anno 1540 usque ad annum 1725; Monumenta Ignatiana; Monumenta Borgia; Fabri Monumenta; Monumenta Xaveriana; Bobalillae Monumentae; Polanco Historia Societatis Iesu; Monumenta Paedagogica. Sobre outras Províncias: a Monumenta Japoniae; Monumenta Mexicana; Monumenta Peruana; Monumenta Brasiliae, do Padre Serafim Leite.

Importa sublinhar, que algumas destas obras podem ser consultadas na página da internet do Arquivo Romano da Companhia de Jesus (ARSI), embora não exista obra do género sobre a Província Portuguesa.

No ordenamento das balizas cronológicas deste trabalho, urge realçar duas datas emblemáticas que a delimitam, fixando-se o texto no período que marca o reinado de D. João III, e o papel preponderante que desempenhou na instalação da Companhia de Jesus em Portugal e a consequente fundação da Ordem inaciana em 1540; e o reinado de D. José I e, consequentemente, a expulsão da Companhia de Jesus do território Português no ano de 1759.

A obra será composta por três volumes referentes aos séculos XVI, XVII e XVIII. Neste nosso primeiro volume da Monumenta Historica (1540-1580), iremos apenas consagrar a transcrição dos documentos seleccionados e de referência, que premeiam este período. Alguns textos, embora com data posterior, serão incluídos nesta obra por se tratar de treslados de documentos referentes a esta época.

No ordenamento cronológico, este período é relativo aos reinados de D. João III, D. Sebastião (incluindo as regências de sua avó D. Catarina e do seu tio-avô o cardeal D. Henrique) e ao reinado do cardeal-rei D. Henrique (até à sua morte, no ano de 1580). Inclui ainda o período conturbado do ano de 1580 e a consequente subida ao poder de D. Felipe I, após o triunfo sobre D. António, Prior do Crato, na batalha de Alcântara.

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As fontes consultadas e transcritas embora de natureza diversa, centram-se sobretudo nos documentos respeitantes ao ensino, à vida das Instituições inacianas (económica e religiosa), às suas fundações, às orientações e visitações dirigidas a alguns Colégios pertencentes à Província Portuguesa, a regulamentos dos lentes do Colégio das Artes em Coimbra e aos Estatutos da Universidade de Évora.

A recolha das fontes necessárias à consecução desta obra, incidiu particularmente nos fundos das bibliotecas e arquivos que passamos a nomear: Academia das Ciências de Lisboa; Arquivos Nacionais/Torre do Tombo; Biblioteca Nacional de Portugal/ Reservados; Biblioteca da Ajuda; Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Évora e, nomeadamente, no Arquivo Romano da Companhia de Jesus (A.R.S.I.).

Nos Arquivos Nacionais /Torre do Tombo incidiu, essencialmente, nos fundos do Armário e Cartório Jesuítico, que contêm documentos relativos aos Colégios; privilégios e respectivos pareceres e propostas; pareceres sobre a gente da nação; censuras relativas ao Santo Ofício; estatutos particulares sobre o Governo da Companhia e das missões; notícias de Roma; estatutos; previsões; privilégios; pareceres sobre diversos assuntos; receitas e despesas referentes aos Colégios. Neste mesmo Arquivo, importa lembrar ainda, outro fundo com documentação importante, os Manuscritos da Livraria.

Por último, importa destacar o Arquivo Romano da Companhia de Jesus, onde as fontes consultadas e transcritas se centraram, sobretudo, nos fundos referentes à correspondência Jesuítica, aos Catálogos breves e trienais, e ao Fundo Jesuítico.

Os documentos neste Arquivo encontram-se organizados segundo um critério territorial de localização de assistências, Províncias e missões. A correspondência epistolar está ordenada conforme a proveniência, e dividida: a) cartas enviadas de Roma; b) cartas enviadas de Roma para as Províncias (entre estas também as cartas destinadas às pessoas de fora da Companhia).

A correspondência de cada Província divide-se ainda em: a) cartas ao Geral; b) catálogos breves e trienais; c) história e acta; d) anuas; e) fundações; f) necrologia; g) obras manuscritas sobre a história dos Colégios, missões (no interior e ultramar), negócios das Províncias e tratados. No Fundo Jesuítico podemos analisar ainda, algumas visitações à Província de Portugal, privilégios e catálogos. Sublinharemos também, a documentação que se encontra no Arquivo e Biblioteca de Évora, respeitante aos Colégios e Universidade de Évora.

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O trabalho de leitura e transcrição não foi fácil. Com textos relativamente longos, que ofereceram vários problemas de leitura: em muitos exemplares que pudemos consultar, algumas páginas apresentavam manchas gráficas, onde a tinta quase desapareceu, quer pela erosão do tempo, quer pelo uso. Em alguns casos faltam mesmo fólios; folhas rasgadas; por vezes, encontram-se escritas com erros ortográficos, riscadas ou mesmo escritas por várias mãos.

Não havendo normas universais de transcrição de documentos, dentro das várias metodologias utilizadas por paleógrafos portugueses, tomou-se como referência as orientações gerais contidas em Avelino Jesus da Costa1 e algumas das normas

aconselhadas por Borges Nunes2.

No início de cada documento fez-se a respectiva identificação: com elementos cronológicos e com dados topográficos, com ordenação do ano, mês, dia e lugar, sempre que possível. Optou-se ainda, por incluir um pequeno sumário em cada texto, assim como, a contextualização.

1. Critério adoptado na transcrição dos documentos

Não havendo normas universais de transcrição de documentos, dentro das várias metodologias utilizadas por paleógrafos portugueses, consideraram-se as orientações gerais contidas em Avelino da Costa3 e algumas das normas aconselhadas por Borges

Nunes4, levando em conta que as utilizamos em documentos onde predomina o valor

histórico, posto que respeitar o valor literário implicaria outro tipo de transcrição paleográfica. Deste modo seguiram-se seguintes regras:

1 Costa, Avelino Jesus da, Normas Gerais de Transcrição e Publicação de Documentos e Textos

Medie-vais e Modernos, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2ª edição, 1982.

2 Nunes, E. Borges, Álbum de Paleografia Portuguesa, Faculdade de Letras da Universidade de Lis-boa, LisLis-boa, s.d.

3 Costa, Avelino Jesus da, op. cit., p. 78. 4 Nunes, E. Borges, op. cit., s.d.

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— No início de cada documento fez-se a identificação: com elementos cronológicos e com dados topográficos, com ordenação ano, mês, dia e lugar, sempre que possível. Quando não foi dado determinar o tempo ou o lugar, colocou-se, s.d. ou s.l.. Quando algum destes dados for inferido do texto, será indicado entre parênteses rectos.

— Indicou-se a mudança de folhas com o número entre parênteses curvos, em corpo carregado, ou o número de folhas correspondentes, em alguns casos. — Não se assinalaram as indicações de mudança de linhas do original, para simplificação de leitura.

— Fez-se a correspondência letra a letra, entre o original e a transcrição.

— Na transcrição de sinais de pontuação, conservou-se a pontuação original, mas reduziram-se as várias combinações de traços e pontos do original aos sinais topográficos disponíveis: ponto, dois pontos; traço ou vírgula.

— Quanto aos sinais diacríticos, conservaram-se apenas os de função fonética. — Desdobraram-se as abreviaturas, exceptuando as que são mais frequentes e não oferecem dúvidas, seguindo-se o critério utilizado pelo próprio escriba em formas extensas. Na resolução das abreviaturas não se destingiu graficamente as letras originais.

— A forma da conjugação copulativa e no original em maiúscula E, foi tomada como abreviatura tendo sido transcrita como e.

— Conservou-se o y, mas sem a plica original.

— Conservou-se o uso de maiúsculas e de minúsculas originais. — Indicou-se a nasalação com m, n e til.

— Não se fez distinção entre o s longo e o s de dupla curva.

— Manteve-se o uso do i e do j, do u e do v, do c e do ç conforme o documento. — Ligaram-se e desligaram-se as palavras de acordo com as suas formas correntes.

— Utilizou-se o apóstrofo para separar a preposição de das palavras que a precedem, ligadas no original.

— Esclarecimentos nossos foram colocados entre parênteses curvos ( ).

— As lacunas do suporte, devidas a rasuras, borrões, cortes, humidade, foram indicadas entre parênteses rectos [ ]: quando foi possível presumi-las, reconstituíram-se e indicaram-se entre os parênteses rectos; quando o não foi, colocam-se tantos pontos quantas seriam as letras pressupostas, dentro dos parênteses rectos [...].

Referências

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