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Inspeção sanitária em caça maior

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Academic year: 2021

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Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Inspeção Sanitária em Caça Maior

Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária

Rui Pedro Areal Miranda

Orientadora: Prof.ª Doutora Maria Madalena Vieira-Pinto

Coorientador: Dr. João Manuel Quirino Serejo Proença

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Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Inspeção Sanitária em Caça Maior

Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária

Rui Pedro Areal Miranda

Orientadora: Prof.ª Doutora Maria Madalena Vieira-Pinto

Coorientador: Dr. João Manuel Quirino Serejo Proença

Composição do Júri

Presidente:

Prof.ª Doutora Cristina Maria Teixeira Saraiva

Vogais:

Prof.ª Doutora Alexandra Sofia Miguéns Fidalgo Esteves

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O conteúdo apresentado neste trabalho é da exclusiva responsabilidade do autor.

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“Conservation is a state of harmony between men and land.” Aldo Leopold

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AGRADECIMENTOS

À Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), a instituição que escolhi para estudar e que me proporcionou boas condições para a minha formação académica, e em especial aos docentes e técnicos que participaram na minha aprendizagem enquanto aluno de Medicina Veterinária;

À Professora Doutora Madalena Vieira-Pinto que me orientou durante este trabalho, sempre com rigor, frontalidade e profissionalismo, pela sua permanente disponibilidade, pelos conhecimentos que me transmitiu, pelos conselhos que me deu, pela sua amizade e carinho;

Ao Dr. João Serejo Proença, meu coorientador, pelos conhecimentos que me transmitiu da sua experiência como médico veterinário, nomeadamente na execução da avaliação sanitária de caça maior, e pela sua amizade;

Ao Professor Luis E. Fidalgo da Universidade de Santiago de Compostela pela sua ajuda neste trabalho, mas também ao Professor Doutor Jesús M. Pérez da Universidade de Jaén pelo que me ensinou relativamente à identificação morfológica das larvas de dípteros, essencial para este estudo, e pela sua excelente hospitalidade;

Ao Professor Doutor Carlos Venâncio, pela incansável disponibilidade na colaboração com este projeto, e pela amizade;

Ao Professor Doutor José Aranha pela ajuda e paciência na realização dos Sistemas de Informação Geográfica (SIG);

Ao Laboratório de Histologia e Anatomia Patológica da UTAD, em especial à Professora Doutora Isabel Pires por toda a dedicação e paciência;

Ao Professor Doutor Jorge Colaço pelo seu contributo na análise estatística;

À Direção do HV-UTAD, nomeadamente à Professora Doutora Isabel Dias, por autorizar o estudo imagiológico, e em especial ao Professor Doutor Mário Ginja, responsável pela obtenção das imagens de TC;

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Ao ICNF, em particular ao Sr. Armando Pereira, e às médicas veterinárias oficiais, Dr.ª Alcina Rodrigues e a Dr.ª Ágata Martins, pela colaboração na recolha de amostras a norte do país;

À Associação de Estudantes de Medicina Veterinária (AEMV-UTAD), que me permitiu desenvolver novas competências a nível profissional e pessoal, e me trouxe grandes amizades;

À Andreia Garcês pela amizade, e por contribuir com o seu talento para as ilustrações científicas no enriquecimento desta dissertação;

À Dr.ª Helena Serejo e família, por me terem recebido de forma tão hospitaleira em Idanha-a-Nova, pela amizade e pelo carinho;

Aos meus amigos;

À minha família;

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RESUMO

A sanidade da fauna selvagem é uma preocupação crescente devido à sua importância na saúde pública, na saúde animal, no ambiente e na conservação das espécies selvagens. A caça devidamente regulada é um bom instrumento que pode ser usado em prol da conservação, mas também uma mais valia para o conhecimento e controlo das doenças das espécies cinegéticas, sendo para tal necessária uma maior intervenção do médico veterinário no setor. O consumo de carne de caça tem vindo a aumentar a nível europeu, por esse motivo, é essencial averiguar o estado sanitário dos animais abatidos, com especial atenção aos agentes zoonóticos. Atualmente mais de 90% do território português está ordenado para caça, sendo que a atividade cinegética tem assumido um papel importante na economia de algumas regiões do país. A área de estudo deste trabalho, Idanha-a-Nova, é um dos concelhos mais representativos dessa importância. Durante a época venatória 2015/2016, acompanhou-se os procedimentos do veterinário oficial no âmbito da avaliação sanitária de caça maior, em 14 zonas de caça. Os objetivos deste trabalho consistiram essencialmente no estudo das principais causas de rejeição de caça maior no âmbito das montarias e das miíases nasofaríngeas em veados. Foram presentes à avaliação sanitária um total de 1171 animais caçados, incluindo maioritariamente veados (Cervus elaphus) e javalis (Sus scrofa), mas também gamos (Dama dama) e muflões (Ovis ammon). Rejeitaram-se 126 carcaças (10,76%), sendo que a principal causa de rejeição foram as lesões compatíveis com tuberculose. Os restantes casos foram rejeitados por caquexia, mordeduras excessivas ou por ausência de vísceras no momento da avaliação sanitária. Relativamente ao estudo das miíases nasofaríngeas em veados, algo que ainda não tinha sido feito em Portugal, verificou-se que a prevalência de infestação com um intervalo de confiança de 95% foi de 50,6 ± 7,61% (n=166). A intensidade média de parasitismo e respetivo desvio padrão foi de 11,38 ± 10,47 larvas por hospedeiro afetado. Esta parasitose consiste na infestação da nasofaringe do hospedeiro por larvas de dípteros, sendo que no caso do veado pode ocorrer por duas espécies, Pharyngomyia picta e Cephenemyia auribarbis. Ambas as espécies foram encontradas neste estudo, sendo que a prevalência de P. picta foi significativamente superior à de C. auribarbis. Nos 84 indivíduos afetados encontraram-se 21 infeções concomitantes, e os machos apresentaram uma prevalência superior relativamente às fêmeas. Apesar de não ter sido o principal objetivo deste estudo, conseguimos ainda avaliar alguns efeitos que esta parasitose pode provocar no hospedeiro. Pelas imagens de tomografia computorizada verificou-se o potencial obstrutivo das larvas ao nível da nasofaringe, e pela análise histopatológica os seus efeitos ao nível da mucosa

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do hospedeiro (erosões, ulcerações e presença de infiltrado inflamatório). As larvas L2 e L3 destes parasitas parecem ter uma predisposição para se alojarem ao nível dos recessos retrofaríngeos e a capacidade de os dilatar, formando umas bolsas ao nível da nasofaringe. É necessário recolher mais dados para avaliar com maior acuidade a prevalência, distribuição geográfica e os efeitos desta parasitose na população de veados.

Palavras-chave: Avaliação Sanitária, Javali, Veado, Tuberculose, Miíases nasofaríngeas,

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ABSTRACT

The health of wildlife is a growing concern because of its importance in public health, animal health, environment and wildlife conservation. Properly regulated hunting is a good tool that can be used for conservation purposes, but also an added value for the knowledge and control of game species’s diseases, requiring greater intervention by the veterinarian in the sector. The consumption of game meat has been increasing in Europe, so it is essential to check the health’s state of slaughtered animals, with particular attention to zoonotic agents. Currently, more than 90% of portuguese territory is ordered for hunting, and hunting activity has assumed an important role in the economy of some regions of the country. The study area of this work, Idanha-a-Nova, is one of the most representative counties of this importance. During the hunting season 2015/2016, the procedures of the official veterinarian were followed in the context of the sanitary evaluation of big game hunting, and it took place in 14 hunting areas. The objectives of this work were essentially to study the main causes of rejection of larger game hunting and nasopharyngeal myiasis in red deer. A total of 1171 hunted animals were present to veterinary evaluation, including mostly red deer (Cervus elaphus) and wild boar (Sus scrofa), but also fallow deer (Dama dama) and mouflons (Ovis ammon). A total of 126 carcases (10.76%) were rejected, and the main cause of rejection were tuberculosis-compatible lesions. The remaining cases were rejected due to cachexia, excessive bite or lack of viscera at the time of the sanitary evaluation. In relation to the study of nasopharyngeal myiasis in deer, something that had not been done in Portugal before, it was verified that the prevalence of infestation with a 95% confidence interval was 50.6 ± 7.61% (n = 166). The mean intensity of parasitism and its standard deviation was 11.38 ± 10.47 larvae per affected host. This parasitosis consists on the infestation of the nasopharynx’s host by diptera larvae, and in the case of the red deer can occur by two species, Pharyngomyia picta and Cephenemyia auribarbis. Both species were found in this study, and the prevalence of P. picta was significantly higher than it was for C. auribarbis. In the 84 affected individuals, 21 concomitant infections were found, and males had a higher prevalence relative to females. Although it was not the main objective of this study, we also were able to evaluate some effects that this parasitose can provoke in the host. Computed tomography images revealed the obstructive potential of the larvae at the nasopharynx’s level, and histopathological analysis showed their effects on the mucosa of the host (erosions, ulcerations and presence of inflammatory infiltrate). L2 and L3 larvae of these parasites appear to have a predisposition to lodge at the level of the

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More data are needed to more accurately assess the prevalence, geographic distribution, and effects of this parasite on the deer population.

Keywords: Sanitary evaluation, Wild boar, Red deer, Tuberculosis, Nasopharyngeal myiasis,

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ÍNDICE

1. INTRODUÇÃO ... 1

1.1 Objetivos deste Trabalho ... 1

2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ... 3

2.1 Breve História da Caça ... 3

2.1.1 Caça versus Conservação ... 4

2.1.2 Atividade Cinegética em Portugal - Caça Maior ... 7

2.2 Monitorização das Doenças da Fauna Selvagem ... 10

2.3 Inspeção Sanitária em Caça Maior ... 12

2.4 Tuberculose Bovina na Caça Maior ... 14

2.5 Miíases Nasofaríngeas (Ordem Diptera: Família Oestridae: Subfamília Oestrinae) ... 15

2.5.1 Géneros Pharyngomyia e Cephenemyia ... 18

2.5.2 Ciclo de Vida - Subfamília Oestrinae - Cervídeos ... 20

2.5.3 Patogenia e Sintomatologia ... 22

2.5.4 Tratamento ... 23

3. MATERIAL E MÉTODOS ... 25

3.1 Descrição da Área de Estudo ... 25

3.2 Avaliação Sanitária in loco ... 28

3.2.1 Avaliação Externa da Carcaça... 28

3.2.2 Avaliação Interna da Carcaça ... 29

3.3 Pesquisa de Larvas de Dípteros na Nasofaringe de Veados ... 30

3.3.1 Método de Pesquisa ... 30

3.3.2 Amostragem ... 31

3.3.3 Identificação das Larvas ... 31

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3.4 SIG (Sistemas de Informação Geográfica) ... 33

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO ... 35

4.1 Avaliação Sanitária em Caça Maior ... 35

4.1.1 Amostragem ... 35

4.1.2 Carcaças Rejeitadas ... 37

4.2 Pesquisa de Larvas de Dípteros na Nasofaringe de Veados ... 41

4.2.1 Identificação Morfológica das Larvas ... 41

4.2.2 Prevalência, Abundância e Intensidade Gerais ... 42

4.2.4 Efeito do Género e Idade ... 49

4.2.5 Efeito das Infeções Concomitantes ... 52

4.2.6 Informação Complementar ... 52

5. CONCLUSÃO ... 59

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 61

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ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 1 - Relação entre caça e conservação ... 5

Figura 2 - Distribuição geográfica das ZC em Portugal... 8

Figura 3 - Área epidemiológica de risco de Tuberculose ... 13

Figura 4 - Diagramas com os representantes das quatro subfamílias da família Oestridae. ... 17

Figura 5 - Ciclo de vida de Cephenemyia auribarbis nos veados (Cervus elaphus) ... 21

Figura 6 - Enquadramento geográfico do conselho de Idanha-a-Nova ... 25

Figura 7 - Sala de evisceração ... 28

Figura 8 - Inspeção das vísceras de um veado e mesa de trabalho com os selos da DGAV ... 29

Figura 9 - Nível do corte para acesso à nasofaringe ... 30

Figura 10 - Bolsa faríngea; Larvas recolhidas; Frascos numerados e álcool 96% ... 31

Figura 11 - Mapa com o número de veados e javalis caçados em cada ZC (SIG) ... 36

Figura 12 - Veados rejeitados com LCT em cada ZC (SIG) ... 39

Figura 13 - Javalis rejeitados com LCT em cada ZC (SIG) ... 40

Figura 14 - Distribuição geográfica das prevalências de Oestrose pelas várias ZC (SIG) ... 43

Figura 15 - Prevalência e intensidade em cada mês ... 45

Figura 16 - Prevalências de P. picta e C. auribarbis em cada ZC (SIG) ... 47

Figura 17 - Intensidade de P. picta e C. auribarbis em cada ZC (SIG) ... 48

Figura 18 - Prevalência e intensidade em função do género ... 49

Figura 19 - Prevalência e intensidade em função das idades ... 50

Figura 20 - Intensidade de cada espécie nos 2 tipos de infeção ... 52

Figura 21 - Corte sagital da cabeça de uma fêmea de veado com Oestrose ... 53

Figura 22 - Imagens de tomografia computorizada em cabeças de veado ... 54

Figura 23 - Perfuração e inflamação da mucosa ao nível da nasofaringe de um veado ... 55

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ÍNDICE DE TABELAS

Tabela 1 - Doenças da fauna selvagem ... 11

Tabela 2 – Variação geográfica de prevalências de infestação por Pharyngomyia e Cephenemyia ... 19

Tabela 3 - Diferenças morfológicas entre as larvas de P. picta e C. auribarbis ... 32

Tabela 4 - N.º de veados e javalis abatidos em cada ZC e respetivos “hunting bags” ... 35

Tabela 5 - Carcaças rejeitadas por apresentarem LCT nas várias ZC ... 38

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ÍNDEX DE ABREVIATURAS, ACRÓNIMOS E SÍMBOLOS

C. auribarbis - Cephenemyia auribarbis

CDB - Convenção sobre Diversidade Biológica CMT - Complexo Mycobacterium tuberculosis DGAV - Direção Geral de Alimentação e Veterinária ex. - Exemplo

FAO - Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura ha - Hectares

ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas IC 95% - Intervalo de Confiança a 95%

L1, L2 ou L3 - primeiro, segundo ou terceiro estadio larvar LCT - Lesões compatíveis com Tuberculose

ln(n) - Linfonodo(s)

M. bovis - Mycobacterium bovis

M. tuberculosis - Mycobacterium tuberculosis P. picta - Pharyngomyia picta

SARS - Síndrome Respiratória Aguda Grave σ (Sigma) - Desvio Padrão

TBb – Tuberculose bovina ZC - Zona(s) de Caça

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1. INTRODUÇÃO

Esta dissertação de mestrado desenrola-se no âmbito da inspeção sanitária de caça maior. Para melhor se entender o conteúdo deste trabalho é fundamental fazer o enquadramento geral do tema. Inicialmente apresenta-se uma pequena abordagem à relação da caça com o desenvolvimento da humanidade ao longo dos tempos, fazendo uma ressalva sobre o tópico da conservação, tão em voga nos dias de hoje, e descrevendo a realidade atual da atividade cinegética em Portugal. Depois fala-se da importância da monitorização das doenças que afetam a fauna selvagem, da inspeção sanitária propriamente dita, e destaca-se aquela zoonose que é a maior causa de rejeição de carcaças no âmbito da inspeção sanitária de caça maior em Portugal, a tuberculose. Por fim, contextualizar outro assunto que também foi alvo de estudo, as miíases nasofaríngeas em veados (Cervus elaphus).

1.1 Objetivos deste Trabalho

- Compreender o setor da atividade cinegética em Portugal;

- Ampliar os conhecimentos na área da patologia de espécies cinegéticas (caça maior);

- Ampliar a experiência prática relativa aos procedimentos de avaliação sanitária de caça maior no local da caçada e registo dos dados desta atividade na época venatória 2015/2016 em várias zonas de caça (ZC) do concelho de Idanha-a-Nova;

- Adquirir e melhorar conhecimentos no âmbito da epidemiologia associada às doenças de caça maior identificadas no decurso da inspeção sanitária;

- Estudo das miíases nasofaríngeas em veados no mesmo contexto das montarias, com tratamento estatístico de dados epidemiológicos.

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2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

2.1 Breve História da Caça

A caça acompanha a história do Homem desde as suas origens. Os primeiros hominídeos eram provavelmente frugívoros ou omnívoros. No entanto, existem evidências de que mesmo antes de surgirem os Homo sapiens, as nossas espécies ancestrais, inclusivamente os australopitecos, utilizavam animais de grande porte para sua subsistência (Gaudzinski, 2004; Rabinovich et al., 2008). Há quem defenda que a caça aliada à produção de instrumentos, e eventualmente ao controlo do fogo, foram dos fatores predisponentes mais importantes para o aparecimento do género Homo. A verdade é que para os povos recolectores, no Paleolítico, a caça era um elemento crucial. Estas comunidades dependiam totalmente do que a natureza lhes dava, o que as obrigava ao nomadismo. Dos animais aproveitavam a carne para consumo, as peles para se protegerem do frio (vestuário, calçado e tendas) e os ossos para produzir instrumentos ou construir a armação dos seus abrigos (Steinberg, 2002).

A caça aos poucos e poucos foi-se enraizando na cultura das populações e nas atividades sociais. Começa por ser representada nas figuras rupestres, e com a instituição da linguagem torna-se tema de histórias e mitos. Torna-se parte integrante de rituais de carácter religioso (Steinberg, 2002) ou mesmo na arte da dança. À medida que as populações se vão fixando (sedentarismo) cresce a necessidade de eliminar os animais que ameaçavam diretamente a vida do Homem (Machalek, 2003). No período Neolítico, com o desenvolvimento da agricultura e da domesticação de animais, esta prática manteve-se intricada nos costumes das sociedades, continuando a ser um recurso indispensável para os povos mais marginais (Steinberg, 2002). Era utilizada para controlo dos animais que destruíam as culturas (ex.: ratos e pássaros) e eliminação dos predadores que atacavam animais domésticos (ex.: raposa e lobo) ou que competiam pela caça grossa (Machalek, 2003).

Ao longo do tempo o Homem foi aprimorando as suas técnicas de caça, criando instrumentos especializados, desde a lança até às armas de fogo, preparando armadilhas e usando camuflagem. Para além disso, vislumbrou potencial em várias espécies animais, tendo treinado

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diversas raças de cães para rastrear presas, agilizado cavalos para auxiliar na perseguição da caça e utilizando uma antiga arte chinesa, a falcoaria. (Steinberg, 2002)

No início da Europa moderna as sociedades já possuíam um sistema agrícola e comercial mais harmonioso, sendo que a caça passa a ter um papel secundário como fonte nutricional. Ainda assim acresce o seu valor em termos económicos por via da instauração das monarquias. Nesta altura são atribuídas terras às classes sociais mais elevadas, sendo que nestas áreas a caça assumiu um papel mais recreativo e um privilégio acessível apenas aos reis e à aristocracia. A caça converte-se também num palco importante para testar a bravura e a habilidade com armas, servindo de treino de batalha em tempos de paz. Naturalmente, vão se gerando conflitos de poder entre os nobres e o povo, principalmente porque os monopólios proibiam as pessoas comuns de caçar por alimento ou para proteção das suas colheitas. No final do século XVIII a caça deixou de ser apenas um privilégio para a aristocracia, começando a ser acessível também a todos os cidadãos. (Theibault, 2004)

Nas sociedades contemporâneas surgem divergências politicas e sociais sobre o ponto de vista ético e moral desta atividade (Machalek, 2003). A preocupação crescente com a conservação gera um tópico fraturante (Steinberg, 2002; Machalek, 2003). Por outro lado, ocorre uma consciencialização de que a saúde animal está intimamente relacionada com a saúde humana (conceito “one health”), acrescendo a necessidade de monitorizar e controlar as doenças que circulam na fauna selvagem e que podem afetar o Homem direta ou indiretamente (Steinberg, 2002; McNamara, 2016). A caça foi um recurso indispensável no início da história da humanidade, e sempre esteve presente ao longo dos tempos. O seu futuro depende agora da maneira como a sociedade irá lidar com todas estas questões.

2.1.1 Caça versus Conservação

A caça descontrolada pode de facto ser extremamente danosa para as populações selvagens ameaçadas. Muitos animais estão a tornar-se localmente extintos e mundialmente em perigo em certas áreas do globo. Na história da humanidade são vários os casos reportados de espécies

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que foram caçadas até à extinção. O mamute (Mammuthus spp.) na pré-história, por exemplo, e muitos outros, como o dodó (Raphus cucullatus), o pombo-passageiro (Ectopistes migratorius) ou o dugongo-de-steller (Hydrodamalis gigas) (Steinberg, 2002). No entanto, há quem defenda que a caça bem regulamentada pode paradoxalmente beneficiar as populações selvagens, e inclusivamente, por vezes ser a única maneira de assegurar a sua persistência (Loveridge et al., 2009).

Na convenção sobre diversidade biológica (CBD) de 2003, onde participaram representantes de centenas de países, definiu-se que os objetivos da conservação moderna visam reduzir o risco de extinção, manter os processos ecológicos essenciais, preservar a diversidade genética e assegurar que o uso de espécies e ecossistemas é sustentável. Poderá a caça ter um papel importante no cumprimento destes parâmetros? A Figura 1 ilustra de forma esquemática a relação entre a caça desportiva e a conservação.

Figura 1 - Relação entre caça e conservação Adaptado de Loveridge et al. (2009)

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Um dos argumentos a favor da instrumentalização da caça em prol da conservação prende-se com o volume de receitas que esta atividade é capaz de gerar. O crescimento das economias locais pode funcionar como um estímulo para motivar as pessoas e coletivos a conservar, e também ser uma fonte de financiamento para os governos investirem na conservação (Loveridge et al., 2009). Contudo, este argumento pode ser falacioso visto que a conservação visa defender o valor intrínseco da natureza e não o seu valor utilitário (Loveridge et al., 2009). Tudo depende da forma como são obtidos esses rendimentos, por exploração desgovernada dos recursos ou através de uma gestão ecológica sustentável. Por exemplo, o argumento mais forte para a caça de trofeus é precisamente o facto de poder render volumes monetários avultados, no entanto é uma atividade altamente seletiva, pelo que é necessário avaliar os seus efeitos ecológicos e evolucionários nas populações cinegéticas (Loveridge et al., 2009; Leader-Williams e Bradshaw, 2016; Minin et al., 2016).

Por outro lado, o sector da caça tem fomentado a criação de parques e reservas naturais, através da sensibilização dos governos, alertando para a necessidade de proteção das áreas sujeitas a destruição desregulamentada. Ao se preservar o habitat para as populações cinegéticas está-se também a conservar as espécies coabitantes (Loveridge et al., 2009). Infelizmente, por causa da lei da oferta e da procura, o furtivismo torna-se exponencialmente lucrativo consoante o número de animais para caçar vai diminuindo (Steinberg, 2002). A regulamentação e controlo desta atividade nestes espaços pode contribuir para combater o furtivismo. Para além do mais, a caça pode ter um papel importante para o conhecimento das dinâmicas populacionais e assim desenvolver metodologias que contribuam para a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas. Fornecer, por exemplo, material para estudos científicos sobre a ecologia das espécies e monitorização das doenças que afetam as populações, e desse modo planear ações para garantir a preservação das diferentes espécies procurando não interferir na sua natureza biológica (Shepard, 1973; Loveridge et al., 2009; Leader-Williams e Bradshaw, 2016; Minin et al., 2016).

Outro ponto importante prende-se com o controlo de densidades animais em zonas onde os predadores naturais estão ausentes (Loveridge et al., 2009). Um estudo feito recentemente em Espanha sobre caça desportiva em javalis (Sus scrofa), alega que esta atividade tem grande capacidade extrativa, podendo assim contribuir para o controlo de espécies problema (Quirós-Fernández et al., 2016). Acreditam os autores que desta forma se celebra um importante serviço

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para o ecossistema e para a sociedade, alertando para a necessidade de haver uma mudança na perceção social sobre o caçador.

Existem diversas opiniões antagónicas relativamente a este tema, principalmente no que toca à moral e à ética. Paul Shepard, um caçador naturalista, defende que a arte da caça é uma atividade que expressa um profundo respeito e admiração pela natureza e pelos seres vivos (Shepard, 1973). É da nossa responsabilidade preservar a natureza para que as gerações futuras a possam contemplar da mesma maneira que nós ainda o podemos fazer. É necessário um esforço global para terminar com as extinções derivadas da sobrexporação das espécies cinegéticas, assegurar a biodiversidade de espécies, e nesse sentido, colocar a caça a laborar em prol da conservação.

2.1.2 Atividade Cinegética em Portugal - Caça Maior

A revolução de 1974, que depôs o regime ditatorial do estado novo em Portugal, teve consequências problemáticas. A nacionalização das terras levou à abolição das coutadas (zonas privadas de caça). A par disto, o aumento do poder de compra e a facilidade de aquisição de transporte próprio, deu lugar a um acréscimo substancial de caçadores. Consequentemente, a falta de ordenamento e a excessiva pressão cinegética conduziram não só à diminuição das populações cinegéticas, mas também de outras espécies, principalmente as que sofreram com a diminuição da disponibilidade de presas. Por esta altura as populações de caça maior eram escassas. As populações de javali (Sus scrofa) e veado (Cervus elaphus), espécies mais emblemáticas da caça maior em Portugal, estavam circunscritas a pequenos grupos, maioritariamente perto da fronteira com Espanha e em algumas reservas nacionais. Ao javali ainda acresceu o problema da peste suína africana entre as décadas de 1960 e 80 (KaciPesca, 2008).

No início dos anos 80 as populações de javalis começaram a recuperar, muito derivado ao abandono do mundo rural. Os veados também começaram a prosperar, devido às reintroduções, mas também por migração de indivíduos das populações espanholas junto da fronteira. Em 1986 teve início o ordenamento cinegético através da Lei n.º 30/86, de 27 de agosto (Lei da Caça),

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passando a ser criadas condições para a existência de coutos geridos por entidades privadas (Pinho, 1994). No entanto, apenas se efetivou em agosto de 1988, com a criação oficial da primeira ZC em Portugal. No início do século XXI já havia javalis a ser caçados por todo o território português (Lopes e Borges, 2004), e os veados apesar de não terem uma distribuição tão abrangente também se tornaram num

ícone da caça maior portuguesa.

Atualmente mais de 90% do território está ordenado para caça, com 4 820 ZC em Portugal Continental. A tipologia mais comum corresponde às ZC Associativas (ZCA), seguida das Turísticas (ZCT) e Municipais (ZCM), sendo que as ZC Nacionais, Militares e do Ministério da Justiça representam um número ínfimo do total (Santos et al., 2015). Na Figura 2 apresentam-se os dados do ICNF relativos ao tipo legal e localização das ZC em Portugal a novembro de 2014. Apesar de toda esta área disponível para a caça, o número de caçadores (avaliado em função do número de licenças emitidas anualmente) diminuiu de forma galopante ao longo da última década.

Isto não se prende apenas com o fator do poder de compra estar a diminuir, e disso resultar uma dificuldade por parte dos caçadores na obtenção das licenças. A questão é muito mais complexa. Os caçadores sentem-se desmotivados devido à dificuldade na integração no regime ordenado, bem como na criação de ZC, e pela diminuição da qualidade das populações de caça menor, principalmente de coelho com o problema da Doença Vírica Hemorrágica. Esta situação em nada favorece a sustentabilidade económica da caça, afetando de forma sensível, a capacidade do estado de financiar projetos de desenvolvimento no sector. Ao Estado compete, nos termos da Lei da Caça, promover a participação dos caçadores no ordenamento cinegético tendo como

Figura 2 - Distribuição geográfica das ZC em Portugal Adaptado de Santos et al.,2015

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propósito cumprir as finalidades sociais da atividade: gerar riqueza, conservar a biodiversidade e valorizar o mundo rural.

Em contrapartida, no seio dos caçadores nota-se uma alteração das preferências de caça. Apesar da diminuição do número de caçadores, há um aumento da procura pela caça maior (observado pelo aumento das licenças especiais emitidas anualmente para a caça maior). Isto pode ser explicado essencialmente pelo aumento de densidades em veados, mas maioritariamente pelo grande aumento do número de javalis, que para além do impacto negativo que vão gerando na agricultura começam também a chegar às cidades. Relativamente às restantes espécies de caça maior existentes, a sua expressão em número é muito inferior aos veados e javalis. O gamo (Dama dama) e o muflão (Ovis ammon) surgem apenas em ZCT. O corço (Capreolus capreolus) para além de existir nas ZCT, tem começando a surgir em alguns parques naturais, nomeadamente na região de Trás-os-Montes e Beira Alta, derivado aos esforços que têm sido feitos para reintroduzir este pequeno cervídeo.

A atividade da caça e a gestão cinegética são reguladas pelo Decreto-lei n.º 201/2005 de 24 de novembro de 2005, e por um conjunto de diretivas legais. De destacar a Diretiva Anual, que define que espécies podem ser caçadas em cada época venatória, e a diretiva que regula a reprodução e manutenção das espécies cinegéticas em cativeiro. Este Decreto-lei define os vários métodos de caça legalmente aplicáveis, sendo que o método mais comummente usado no âmbito da caça maior são as montarias, onde o caçador espera pela presa num local previamente designado, enquanto as matilhas de cães juntamente com os batedores espantam a caça no terreno. As montarias, muitas delas associadas ao ecoturismo, têm um forte impacto no crescimento económico e desenvolvimento de várias regiões de Portugal.

De agora em diante é preciso limar vários pontos para se poder zelar pela conservação dos recursos cinegéticos e incentivar a sua gestão sustentada. Agilizar tarefas de licenciamento e fiscalização de caçadores e ZC; fazer a monitorização dos recursos cinegéticos e controlo sanitário; formar gestores de caça em termos administrativos e técnicos; e fomentar a investigação e desenvolvimento (Santos et al., 2015).

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2.2 Monitorização das Doenças da Fauna Selvagem

A sanidade da fauna selvagem é uma reconhecida preocupação da sociedade devido à sua importância na saúde pública, na saúde animal, no ambiente e na conservação das espécies selvagens (DGAV, 2015). As doenças infeciosas das populações de mamíferos selvagens podem ter um impacto económico significativo, pode comprometer a saúde humana e da pecuária (Artois et al., 2001), pode afetar o bem-estar e a conservação das espécies cinegéticas (Gortazar et al., 2006) e espécies de elevado valor para a conservação (Cleaveland et al., 2002).

Cerca de 75% das novas doenças emergentes que afetaram humanos durante os últimos 10 anos foram causados por agentes patogénicos originários de um animal ou de produtos de origem animal (Taylor et al., 2001), estando maioritariamente os animais selvagens na raiz do problema (ex.: SARS, Ébola) (Artois et al., 2009). Uma ampla variedade de espécies animais, sejam domésticos ou selvagens, funcionam como reservatórios para estes agentes, podendo ser vírus, bactérias ou parasitas (Meslin e Formenty, 2004). Na Tabela 1 apresentam-se discriminadas algumas doenças que são partilhadas entre a fauna selvagem e os animais domésticos, sendo também assinalado o seu caracter zoonótico. Todas as doenças apresentadas neste quadro já ocorreram em Portugal, inclusivamente em Idanha-a-Nova (concelho alvo deste estudo). Algumas ainda continuam a ocorrer, nomeadamente a tuberculose bovina (TBb), que irá ser relatada mais à frente no contexto da caça maior.

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Tabela 1 - Doenças da fauna selvagem (Adaptado de: Alberto, 2009; Navarro-Gonzalez et al., 2016.)

A dinâmica das doenças em meio selvagem é complexa e difícil de avaliar. O desenvolvimento de programas de vigilância e monitorização das doenças nas populações selvagens está se a tornar cada vez mais necessário (Artois et al., 2009). As Diretivas 92/45/CEE e 2003/99/CE assim como a Decisão 2010/367/EU de 25 de junho, obrigam os Estados-Membros da União Europeia a investigarem o estado sanitário das espécies selvagens, em especial no que respeita aos agentes de doença transmissíveis ao Homem (DGAV, 2015). Equipas multidisciplinares de cientistas, veterinários, gestores de caça e conservacionistas têm de trabalhar em conjunto na vigilância da saúde e doença da fauna selvagem (Artois et al., 2009).

Doença Agente Animais Selvagens

Afetados Animais Domésticos Afetados Transmissão Zoonose Peste Suína Africana Vírus da peste

suína africana Javali Suínos

Contacto direto ou indireto; Água ou alimentos contaminados; Vetor (carraças). Não Doença de Aujesky Herpesvírus

suíno I (HVS-1) Javali; Raposa.

Suínos; Carnívoros.

Via aérea; Contacto direto

ou indireto. Não

Peste Suína Clássica

Vírus da peste

suína clássica Javali Suínos

Contacto direto ou indireto; Água ou alimentos contaminados. Não Tuberculose Aviária Mycobacterium avium Pássaros e Cabras Selvagens; Coelhos; Lebre; Veado; Javali. Aves de Capoeira; Bovinos; Ovinos; Caprinos. Inalação de aerossóis; Manipulação de material infetado; Alimentos/água contaminados. Sim Tuberculose Bovina Mycobacterium bovis Cervídeos; Javali; Carnívoros (Texugo; Cusu; Lince Ibérico; Raposa). Bovinos; Caprinos; Suínos; Inalação de aerossóis; Manipulação de material infetado; Alimentos/água contaminados. Sim

Brucelose Brucella spp. Ungulados

Bovinos; Caprinos; Ovinos; Suínos. Contacto direto; Alimentos/água contaminados. Sim

Raiva Vírus da Raiva

Raposa; Guaxinim; Javali; Doninha;

Morcego…

Todos Saliva dos animais

infetados. Sim

Doença da

Língua Azul Orbivirus Veado; Gamos.

Bovino;

Ovino. Vector (Culicoides) Não Hidatidose Echinococcus granulosus Javali; Carnívoros (Lobo; Raposa; Guaxinim; Chacal) Cães; Gatos; Ovinos;

Contacto direto ou indireto;

Alimentos contaminados. Sim

Triquinelose Trichinella spp. Mamíferos incluindo o Javali; Aves; Répteis. Suínos; Outros. Carne de animais infetados. Sim

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2.3 Inspeção Sanitária em Caça Maior

A carne de caça é uma boa fonte nutricional e de elevada qualidade, apresentando baixo teor em gordura e tecido conjuntivo (Atanassova et al., 2008; Paulsen e Winkelmayer, 2004). É um produto com um estatuto especial visto que os animais são abatidos no terreno, sendo fundamental ter boas práticas de higiene logo desde o momento da caçada para minimizar a contaminação das partes edíveis (Codex, 2005). Para Atanassova et al. (2008) a qualidade da caça depende, entre outros fatores, da perícia e atitude do caçador. Nos animais alvejados no abdómen, caso não morram de imediato, a disseminação bacteriana por via sanguínea compromete a qualidade da carne. Outros pontos críticos apontados são o manuseamento das carcaças in loco, o tempo decorrente antes da refrigeração, o transporte e o tratamento da carne. Apesar de não ser comparável ao volume de produtos proveniente da indústria pecuária, o consumo de carne e produtos (curados, fermentados e secos) de caça tem vindo a aumentar na Europa (Navarro-Gonzalez et al., 2016), tendo chegado às 78.000 toneladas por ano só na Alemanha (Atanassova et al., 2008). Assim sendo, torna-se cada vez mais importante regular o sector para assegurar a máxima qualidade e salubridade da carne de caça, bem como a rastreabilidade dos produtos que entram no mercado.

O Regulamento (CE) 178/2002 é importante ter em consideração pois determina os princípios e normas gerais da legislação alimentar. Por outro lado, existe uma série de melhoramentos à legislação relativa à higiene dos alimentos com os regulamentos (CE) 852, 853 e 854 de 2004, surgindo regras mais específicas para todos os géneros alimentares, incluindo também os produtos de origem cinegética. De acordo com o Regulamento (CE) 853/2004, de 29 de abril, que estabelece regras específicas de higiene aplicáveis aos géneros alimentares de origem animal, toda a carne de caça maior selvagem, para que possa ser colocada no mercado, tem de possuir a correspondente Marca de Salubridade, após ser realizada a Inspeção Sanitária pelo Médico Veterinário Oficial numa Sala de Tratamento de Caça, devidamente aprovada. Para além disto, este documento também prevê que as carcaças dos animais abatidos possam ser sujeitas previamente a um exame inicial in loco pelo caçador, desde que devidamente formado. Para o efeito, o operador deve ter conhecimento da anatomia, fisiologia e comportamento normais dos animais caçados, e ser capaz de identificar alterações comportamentais e patológicas causadas

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por doença, contaminação ambiental ou outros fatores que possam afetar a saúde humana após consumo. O exame inicial deve ser realizado o mais rápido possível após o abate e deve-se atingir uma temperatura em toda a carne não superior a 7ºC. Nestas circunstâncias, não é necessário exigir aos caçadores com essa formação que entreguem todas as vísceras ao estabelecimento de manuseamento de caça para exame post mortem, se aqueles, tendo procedido ao exame inicial, não tiverem detetado anomalias ou riscos.

A carne de caça pode ter um perfil de higiene e qualidade, com um risco para o consumidor semelhante ao da carne proveniente dos animais domésticos (Atanassova et al., 2008). Contudo, até ao momento, nem todos os animais de caça maior abatidos em Portugal são inspecionados oficialmente. A legislação comunitária apenas diz respeito à carne de caça maior selvagem que tem como fim a colocação no mercado, não

abrangendo o autoconsumo. Como tal, existe uma “brecha” legal que não obriga a realização de inspeção hígio-sanitária oficial a essas carcaças, existindo apenas uma exceção definida pelo Edital n.º 1, publicado pela DGAV em 2011. Esta entidade, perante os dados epidemiológicos da TBb em Portugal, elaborou um Plano de Controlo e Erradicação da Tuberculose em Caça Maior (DGAV, 2010), e definiu uma área epidemiológica de risco (Figura 3), em especial para as populações selvagens de javalis e veados. Abrange uma grande área geográfica, incluído o conselho onde decorreu o presente estudo, Idanha-a-Nova. Com o referido edital, passa a ser obrigatória a execução do exame inicial por um Médico Veterinário Autorizado, a todos os animais de caça maior abatidos na área epidemiológica de risco. Tem efeito no decurso de

batidas, montarias ou ações de correção de densidade populacional com recurso a utilização de cães, com exceção dos abatidos em esperas noturnas. Para além disto, este documento veio

Figura 3 - Área epidemiológica de risco de Tuberculose (DGAV, 2011)

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fixar uma série de novas obrigações que as Entidades Gestoras das ZC, compreendidas na região epidemiológica referida, passam a dever cumprir (ver Anexo I).

Posto isto, cabe então ao médico veterinário seguir todas estas normativas e trabalhar com todo o seu saber, no sentido de garantir a higiene e segurança dos produtos com origem na caça maior. É também importante, sensibilizar e incentivar os intervenientes na atividade cinegética a adotarem medidas no sentido de se garantir a máxima qualidade da carne ao longo de todo o processo, desde o abate até ao prato. No ato da avaliação sanitária propriamente dita, deve efetuar uma inspeção detalhada das carcaças, com palpação e incisão das potenciais lesões (Tato, et al., 2001).

2.4 Tuberculose Bovina em Caça Maior

A TBb é uma doença infetocontagiosa que afeta um vasto número de espécies animais assim como o Homem. Faz parte das doenças de declaração obrigatória nacional desde 1953. Resulta da infeção por Mycobacterium bovis (M. bovis), uma bactéria gram-positiva, álcool-ácido resistente, aeróbia e que não produz esporos (CFSPH, 2005). Este agente é capaz de subsistir vários meses no meio ambiente, preferencialmente em ambiente frio, húmido e sem luminosidade (CFSPH, 2005). Pertence ao Complexo Mycobacterium tuberculosis (CMT) a par de mais sete espécies (Skoric et al., 2007). Os membros deste grupo são muito semelhantes, sendo que M. bovis partilha cerca de 99,95% do genoma com Mycobacterium tuberculosis (M. tuberculosis), a espécie que causa a maioria das infeções nos humanos (Garnier et al., 2003). Segundo os dados existentes, a tuberculose encontra-se presente nos animais de caça maior no território nacional, sendo a TBb a forma mais prevalente, podendo ocorrer em menor percentagem infeções por Mycobacterium avium (tuberculose aviária).

O M. bovis é um agente zoonótico que está relacionado com 1% dos casos de tuberculose em humanos na Europa (EFSA e ECDC, 2014). As infeções com origem na fauna selvagem podem ocorrer principalmente por exposição direta a animais selvagens ou aos seus produtos, ou seja, caçadores, veterinários, investigadores, gestores de caça e consumidores de carne de caça têm

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um maior risco de adquirirem a doença nesse contexto (Navarro-Gonzalez et al., 2016). Contudo, as infeções no Homem por M. bovis estão maioritariamente relacionadas com o consumo de carne contaminada ou leite provenientes da pecuária, ou mesmo por contacto direto com o gado.

A tuberculose é uma doença que afeta um amplo espetro de hospedeiros, e uma vez endémica nas espécies selvagens torna-se muito mais difícil controlar e erradicar comparativamente às espécies domésticas (Fitzgerald, 2011). Classicamente a tuberculose dissemina-se através de aerossóis, mas a contaminação dos alimentos, do ambiente e o consumo de carcaças infetadas são vias importantes de infeção nas espécies selvagens (Fitzgerald, 2011). Na Europa, os principais reservatórios selvagens de M. bovis incluem os ungulados (principalmente o javali, veado e bisonte europeu) e o texugo euroasiático (Navarro-Gonzalez et al., 2016). Na Península Ibérica, as elevadas densidades de ungulados de aptidão cinegética (veados e javalis) e o crescente maneio artificial (vedações; alimentadores; bebedouros) tem conduzido ao aumento da prevalência e transmissão de M. bovis (Vicente et al., 2006; Vieira-Pinto et al., 2011). Tem-se registado prevalências de lesões compatíveis com tuberculose (LCT) em javalis na ordem dos 100% na região centro-ibérica (Vicente et al., 2013). Estas prevalências elevadas nas populações selvagens aumentam o risco de transmissão de M. bovis às espécies domésticas (Martínez-López et al., 2014), e constituem também um problema de saúde pública.

2.5 Miíases Nasofaríngeas (Ordem Diptera: Família Oestridae: Subfamília Oestrinae)

O termo miíase (do grego myĩa, “mosca”) foi proposto por Hope em 1840 para descrever a infestação de animais por larvas de dípteros. Foi sendo usada por diversos autores, mas nem sempre com as mesmas restrições. No Glossário de Entomologia, por exemplo, o conceito é definido como uma “doença ou ferida causada pelo ataque de larvas de dípteros” (De la Torre-Bueno, 1989). Já outros autores desvalorizam as manifestações clínicas e dão mais importância ao aspeto biológico, ou seja, apesar de ser espectável que os parasitas desencadeiem uma reação patológica no hospedeiro, não descartam os indivíduos que não desenvolvam doença. A definição mais usual surge com Zumpt em 1965: “infestação de animais vertebrados e humanos com larvas de dípteros as quais, pelo menos durante um período de tempo, se alimentam dos

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tecidos vivos ou mortos do hospedeiro, líquidos corporais ou alimentos ingeridos”. (Zumpt, 1965; Colwell et al., 2006)

Embora não seja muito frequente, algumas espécies podem produzir miíases específicas, semiespecíficas ou acidentais em humanos (Mehlhorn, 2007; Milán et al., 1997). As famílias Calliphoridae, Sarcophagidae e Oestridae incluem espécies de dípteros que provocam miíases. Estes grupos diferem entre si relativamente à natureza da relação parasita-hospedeiro. Nas famílias Calliphoridae e Sarcophagidae a relação com o hospedeiro é facultativa, ou seja, as moscas não necessitam do hospedeiro para completar o seu ciclo de vida, podendo tanto se desenvolver em matéria orgânica putrefacta como nos tecidos necróticos do hospedeiro. Por outro lado, todas as espécies da família Oestridae são parasitas obrigatórios dos mamíferos, sendo que as larvas necessitam de hospedeiros vivos e dos respetivos tecidos e secreções para se poderem desenvolver com sucesso. (Colwell, 2001)

Wood (1987) organizou a família Oestridae em quatro subfamílias: Oestrinae, Hypodermatinae, Cuterebrinae e Gastrophilinae (Colwell, 2001). Estes grupos taxonómicos diferenciam-se pelos seus distintos comportamentos de oviposição, morfologia larvar e lugar onde decorre o seu desenvolvimento no hospedeiro, tal como se pode observar na Figura 4. Na Península Ibérica as espécies das subfamílias Hypodermatinae e Oestrinae são as causadoras da maioria das miíases em ungulados selvagens e domésticos (Espinosa, 2014).

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Figura 4 - Diagramas com os representantes das quatro subfamílias da família Oestridae. Adaptado de Colwell, D.D. 2006

As miíases nasofaríngeas são provocadas pelas larvas das moscas pertencentes à subfamília Oestrinae e afetam Artiodáctilos e Equídeos. Uma das espécies mais vulgarmente conhecidas e estudadas é Oestrus ovis devido aos prejuízos que gera na produção pecuária (Angulo-Valadez et al., 2010). Existem nove géneros neste grupo taxonómico, mas apenas dois afetam os cervídeos: Cephenemyia e Pharyngomyia. Este tipo de parasitose está normalmente associado a prevalências elevadas e a cargas parasitárias muito altas. Entre as espécies suscetíveis a este

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tipo de parasitose encontram-se todas as espécies de ruminantes de aptidão cinegética existentes em Portugal, nomeadamente, o veado, o gamo, o muflão e o corço (Pérez et al, 1997). Adicionalmente esta parasitose também pode afetar a cabra montês (Capra pyrenaica), que ao contrário de Espanha, em Portugal ainda não é possível caçar, apesar das populações estarem a crescer principalmente ao nível do Parque da Peneda-Gerês.

2.5.1 Géneros Pharyngomyia e Cephenemyia

Os géneros Cephenemyia e Pharyngomyia encontram-se distribuídos pelas regiões do Holárctico e Paleártico respetivamente (Angulo-Valadez et al., 2010). As larvas destas moscas são frequentemente encontradas em cervídeos dos géneros Cervus, Capreolus, Alces, Dama, Rangifer e Odocoileus (Bennett e Sabrosky, 1962; Zumpt, 1965). Na Tabela 2 encontram-se os valores de prevalência de diferentes países em algumas espécies de cervídeos relativamente às infestações por larvas destes dois géneros.

Importa reter que as espécies de larvas que afetam o veado (Cervus elaphus) são a Cephenemyia auribarbis e a Pharyngomyia picta. Apesar do veado ser o hospedeiro principal, ambas as espécies podem afetar o gamo (Dama dama), e no caso de P. picta também o corço (Capreolus capreolus) (Colwell et al., 2006). Como se pode ver pela Tabela 2, a prevalência a nível europeu de P. Picta no veado varia desde 100% na Polónia (Drózdz, 1961) e Espanha (Gil Collado et al., 1985), até 13% na Hungria (Sugar, 1974). Relativamente à prevalência de C. auribarbis observa-se um intervalo que vai dos 100% na Escócia (Cameron, 1932) até aos 8% na Áustria (Leitner et al., 2016). Em termos de prevalências gerais no veado, encontram-se valores na bibliografia que variam desde os 94,3% (Ruiz et al., 1993) e os 35,2% (Vicente et al., 2004). A par destes valores de prevalência, vários autores demonstraram que C. auribarbis ocorre menos frequentemente no veado comparado com P. picta (Vicente et al., 2004). Também existem registos sobre a ocorrência de infestações concomitantes com C. auribarbis e P. picta (Sugar, 1974; Martínez e Palomares, 1993; Bueno-de la Fuente et al., 1998).

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Tabela 2 - Variação geográfica de prevalências de infestação por Pharyngomyia e Cephenemyia

Parasita Hospedeiro(s) Prevalência

(%) Local Referência

C. auribarbis Cervus elaphus 100 Escócia, RU Cameron, 1932

Cephenemyia Odocoileus hemionus 25 Nova York, EUA Cheatum, 1951

C. jellysoni Odocoileus hemionus 75 Montana, EUA Capelle e Senger, 1959

P. picta Cervus elaphus 100 Olsztyn, Polónia Drózdz,1961

C. phobifera Odocoileus virginianus 62 Ontario, Canadá Bennett, 1962

C. stimulator Capreolus capreolus 49 Diversos,

Checoslováquia Dyk, 1965

C. stimulator Capreolus capreolus 86 Diversos, Polónia Dudzinski, 1970

Cephenemyia Odocoileus virginianus 74 Texas, EUA Samuel et al., 1971

P. picta

Cervus elaphus Dama dama

Capreolus capreolus

5-13 Budakeszi, Hungria Sugar, 1974

C. auribarbis

Cervus elaphus Dama dama

Capreolus capreolus

80-90 Budakeszi, Hungria Sugar, 1974

P. picta Cervus elaphus 97 Diversos, Hungria Sugar, 1976

C. auribarbis Cervus elaphus 97 Diversos, Hungria Sugar, 1976

P. picta Cervus elaphus

Dama dama 100 Toledo, Espanha

Gil Collado et al., 1985

C. auribarbis Cervus elaphus

Dama dama 58 Toledo, Espanha

Gil Collado et al., 1985

Cephenemyia Odocoileus hemionus 100 Utah, EUA McMahon e Bunch, 1989

P. picta Cervus elaphus 89 Córdoba, Espanha Gutierrez et al., 1991

P. picta Cervus elaphus 90 Jaén, Espanha Martínez e Palomares, 1993

C. auribarbis Cervus elaphus 24 Jaén, Espanha Martínez e Palomares, 1993

P. picta Cervus elaphus

Dama dama 100 Jaén, Espanha Ruiz et al., 1993 C. auribarbis Cervus elaphus 81 Jaén, Espanha Ruiz et al., 1993

C. auribarbis Dama dama 59 Jaén, Espanha Ruiz et al., 1993

P. picta Cervus elaphus 77 Diversos, Espanha Bueno-de la Fuente

et al., 1998 C. auribarbis Cervus elaphus 46 Diversos, Espanha Bueno-de la Fuente

et al., 1998 P. picta Cervus elaphus 55 Diversos, Áustria Leitner et al., 2016

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2.5.2 Ciclo de Vida - Subfamília Oestrinae - Cervídeos

O ciclo de vida das espécies da subfamília Oestrinae podem resumir-se numa série de etapas, algumas das quais podem diferir entre espécies. Todos os ciclos apresentam uma etapa adulta, três estadios larvares e uma fase de pupa (Colwell, 2006). Somente as larvas têm um modo de vida parasitário no sentido restrito (Pérez, 1997).

A fêmea adulta larvípara aproxima-se das narinas do hospedeiro e deposita grupos de larvas de primeiro estadio (L1). Estes aglomerados podem conter várias larvas (2-20 larvas segundo Colwell, 2006; 3-35 larvas segundo Matos et al., 2013), e estão envoltos numa pequena quantidade de fluído que lhes permite aderir ao pelo do hospedeiro e proteger-se da dessecação (Cogley e Anderson, 1981; Colwell, 2006). Para Cephenemyia spp. encontra-se reportado que os parasitas adultos parecem ser atraídos pelo CO2 expelido pelo hospedeiro (Anderson e Olkowski, 1968; Anderson, 1989). Cogley e Anderson (1981) sugerem também que existe uma dependência das espécies deste género da anatomia do focinho do hospedeiro para que possa ocorrer a invasão das larvas. O primeiro estadio larvar é muito dependente das condições ambientais, necessitando da exposição ao ar e do contacto com a temperatura corporal do animal para se ativar (Matos et al., 2013). Para além disso, as larvas L1 apresentam um termotropismo positivo e um fototropismo negativo que as impele a progredirem para o interior das cavidades nasais/orais do hospedeiro (Cogley e Anderson, 1981). Utilizando as suas espículas e ganchos evitam ser expelidas pelos movimentos e espirros do hospedeiro (Angulo-Valadez et al., 2010; Matos et al., 2013), e deslocam-se até à região da nasofaringe onde se vão desenvolver em L2 e posteriormente em L3 (Foreyt et al., 1994; De la Fuente et al., 2000; Schuler et al., 2005). Os vários estadios larvares alimentam-se das proteínas plasmáticas, anticorpos que passam através da mucosa nasal durante o processo inflamatório, mucinas e colagénio. As larvas L3 quando completam o seu desenvolvimento migram para o exterior, onde procuram um lugar fresco e seguro no solo para poderem continuar a sua ontogénese até se converterem em pupa. Angulo-Valadez et al. sugere que no género Pharyngomyia a pupa surge ainda nas cavidades nasais do hospedeiro. Finalmente passadas umas semanas o ciclo fecha-se com a eclosão dos indivíduos adultos. Os adultos têm um período de vida curto porque não têm um aparelho bucal funcional, pelo que não se alimentam, subsistindo apenas com as reservas energéticas acumuladas pelas

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larvas L3 (Matos et al., 2013). Para além das suas boas aptidões de voo, possuem olhos grandes para facilmente poderem encontrar um hospedeiro e um companheiro para acasalar. Esta etapa do ciclo está exclusivamente destinada à fecundação e postura dos ovos ou larvas, sendo que as fêmeas adultas saem da pupa já com os ovos prontos para a fertilização. Na Figura 5 aparece esquematizado o ciclo de vida destes parasitas no veado.

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O período de desenvolvimento das larvas no hospedeiro pode ser muito variável, podendo fazer-se um ou dois ciclos por ano. As larvas podem entrar em hipobiofazer-se consoante as condições ambientais, sejam favoráveis ou não para o seu desenvolvimento. As larvas L1 são as mais sensíveis e as que mais usam este mecanismo, mas também das pupas só eclode o adulto quando as temperaturas são mais quentes. Os adultos tendem a ficar ativos nos meses mais quentes (Bueno-de la Fuente et al., 1998). Para além disto, o período de desenvolvimento das larvas com origem no mesmo parasita adulto pode ser diferente. Isto é motivado pela sobrelotação de larvas num espaço limitado, nomeadamente ao nível dos recessos faríngeos, tendo as larvas que competir pelo espaço que ocupam, e também é mediado pela resposta imunitária do hospedeiro à presença das larvas (Colwell, 2006). De la Fuente et al. (2000) fez um estudo continuado ao longo de um ano em Toledo (Espanha), e verificou que os estadios larvares têm um perfil de inverno, de novembro a março, sendo que o período de maior intensidade ocorreu de dezembro a fevereiro. P. picta poderá eventualmente ter feito dois ciclos, visto ter apresentado dois picos de larvas L3, um em janeiro e outro em julho, já a C. auribarbis apenas apresentou um pico de L3 em janeiro. Noutro estudo em Espanha (Vicente et al., 2004) verificou-se que em maio não houve registos de preverificou-sença de larvas nos hospedeiros, e que larvas da espécie C. auribarbis só ocorreram entre dezembro e fevereiro.

2.5.3 Patogenia e Sintomatologia

A patogenia e a sintomatologia encontram-se melhor descritas nas espécies domésticas como é expectável, visto que causam prejuízos à produção pecuária sendo a monitorização destas parasitoses mais fácil do que nas espécies selvagens (Angulo-Valadez et al., 2010).

As larvas ao progredirem para o interior das cavidades nasais com o auxílio das suas espículas e ganchos, e ao se fixarem ao nível da nasofaringe através do seu aparelho bucal, acabam por lesionar a mucosa e desencadear uma resposta inflamatória no hospedeiro (Foreyt et al., 1994).

A intensidade dos sinais clínicos associados a esta parasitose está relacionada com a sensibilidade de cada espécie de hospedeiro. O melhor exemplo comparativo são as ovelhas e

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as cabras, que sendo ambas as espécies afetadas por Oestrus ovis, as ovelhas apresentam manifestações clínicas muito mais exuberantes do que as cabras, bem como valores de prevalência e intensidade superiores (Angulo-Valadez et al., 2010). Nas ovelhas é possível observar alterações de comportamento, como o aumento da agitação/nervosismo dos efetivos e a tendência para se aglomerarem com o focinho para baixo. Também aparecem com evidentes escorrências nasais e aumento da frequência de espirros, associadas a rinites e sinosites severas. Em algumas raças de ovelhas surgem tumores (adenocarcinoma da mucosa pituitária) associadas à infestação por dípteros, e é muito frequente surgirem também pneumonias ou mesmo pasteurelose com hipertermia e tosse (Angulo-Valadez et al., 2010).

Nos cervídeos estão descritos alguns efeitos adversos associados à infestação pelas larvas. A perda de peso e o desconforto são dos principais efeitos narrados (Cogley e Anderson, 1981; Martínez e Palomares, 1993), mas também é possível causar a morte do hospedeiro, sendo que há quem sugira que há possivelmente um efeito subletal nos veados (Vicente et al., 2004). Para além disto, existem várias referências à presença de sintomatologia nervosa derivada de migrações erráticas das larvas, com andar em círculos, descoordenação motora e desorientação (Foreyt et al., 1994).

2.5.4 Tratamento

As repercussões desta parasitose no setor da caça ainda não são bem conhecidas, nem se sabe se é necessário fazer algum tipo de intervenção. A verdade é que é difícil o seu controlo nas populações selvagens, mas é possível tratar os animais cercados. Vários autores referidos por Colwell (2006) sugerem que o tratamento com lactonas macrocíclicas, como é o caso da ivermectina, é eficaz no tratamento de miíases causadas por Cephenemyia spp., sendo que não há estudos realizados relativamente à sua eficácia sobre o género Pharyngomyia. No caso de se procurar este tipo de tratamentos é necessário prestar atenção às subdosagens e à frequência de administração, para se evitar resistências a estes antiparasitários, bem como aos intervalos de segurança para a carne.

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3. MATERIAL E MÉTODOS

3.1 Descrição da Área de Estudo

O estudo teve lugar no concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, localizado no este da região Centro de Portugal e sub-região da Beira Interior Sul. É limitado a norte por Penamacor, a noroeste pelo Fundão, a oeste por Castelo Branco e tem fronteira com Espanha (Extremadura) definida a este pelo rio Erges e a sul pelo rio Tejo. Na Figura 6 podemos ver o enquadramento geográfico do concelho. É dos maiores municípios do país, constituído por 13 freguesias, e com uma extensão de 1416 km2 (ANMP, 2016). Em contrapartida, é dos concelhos mais despovoados a nível nacional (PDI, 2012), apresentando uma densidade demográfica de 6,9 habitantes/km2 (ANMP, 2016) para uma média nacional de 112,5 habitantes/km2 (INE, 2015).

Figura 6 - Enquadramento geográfico do conselho de Idanha-a-Nova Fonte: http://www.cm-idanhanova.pt/turismo/localizacao.aspx, 03/03/2016, 16:30

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Apresenta na generalidade um clima mediterrânico (Verão quente e seco e Inverno tépido e chuvoso) com características de climas continentais (menor pluviosidade e maiores amplitudes térmicas). No Verão a temperatura média das máximas encontra-se acima dos 29ºC e ocorrem mais de 100 dias com temperaturas superiores a 25ºC (Cunha, 2008). É um período de fraca precipitação e elevada evapotranspiração tendo consequentemente um grande défice de água associado (Cunha, 2008; PDI, 2012). O Inverno tende a ser mais frio, com uma temperatura média das mínimas entre 1 e 4ºC, apresentando 15 a 40 dias com temperaturas negativas (Cunha, 2008).

Idanha-a-Nova encontra-se integrada na bacia hidrográfica do Tejo. Os principais cursos de água do concelho são: o rio Tejo, o Erges, o Ponsul, bem como um rio secundário, o rio Torto. Destes rios derivam vários afluentes, com destaque para as ribeiras do Aravil, Toulica, Arades e Gavião. Acrescem ainda as três principais albufeiras: Marechal Carmona, Penha Garcia e Toulica (PDI, 2012).

É uma região de elevado interesse geológico, estando integrada no Geopark Naturtejo da Meseta Meridional, classificado como território UNESCO. Do ponto de vista estrutural, as rochas que suportam esta área e a sua paisagem são xistos e quartzitos, mas também surgem afloramentos graníticos, em maior quantidade na parte norte do concelho (PDI, 2012). Em termos de relevo, a norte temos a chamada Superfície de Castelo Branco com cotas na ordem dos 400-500 m, onde surgem pequenas elevações, como Monsanto (monte-ilha granítico) e Penha-Garcia (“pseudo-serra” de cristas quartzíticas) (Cunha, 2008). A sul, a paisagem sofre um rebaixamento de cerca de 300 m a partir da falha do Ponsul, passando-se para as Campinas de Idanha e onde tem início a Superfície do Alto Alentejo (Cunha, 2008). A título de curiosidade, no passado, o surto de língua azul que houve no concelho apenas afetou os rebanhos a sul desta falha.

De acordo com o esquema da Food and Agriculture Organization (FAO) para a Carta dos Solos da Europa existem na zona manchas de litossolos êutricos, cambissolos dístricos, luvissolos férricos e luvissolos órticos (PDI, 2012). Os litossolos êutricos, associados a luvissolos, predominam na região, sendo originários de xisto, quartzito e grauvaques. São solos incipientes, indiferenciados, com rocha a menos de 10 cm de profundidade (PDI, 2012), o que significa em

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termos práticos que o concelho é ocupado maioritariamente por solos de fraca qualidade produtiva.

A caracterização demográfica do concelho alterou o modo de vida agro-silvo-pastoril, sendo responsável pela atual falta de gestão na ocupação e uso do solo. A maior parte do território é ocupada por floresta (53%) e agricultura (32%) (PDI, 2012). As espécies arbóreas predominantes são a azinheira, com maior densidade a sul do concelho, e o eucalipto, em particular nas zonas de menor aptidão agrícola de Monsanto e Penha Garcia. Também ocorrem áreas de montado de pinheiro bravo, azinho, sobreiro, carvalho, bem como povoamentos mistos e de outras folhosas. A vegetação arbustiva é composta por áreas de matos de urzes, giestas e carquejas que têm sofrido um decréscimo derivado de incêndios e pelo desenvolvimento pouco controlado de ervas e rebentos de arbustos mais apreciados pelo gado.

Idanha-a-Nova é detentora de uma biodiversidade faunística excecional. O Parque Natural do Tejo Internacional e Zona de Proteção Especial (ZPE) do Tejo Internacional, Erges e Ponsul são parte integrante no concelho e onde a avifauna assume um destaque particular. A cegonha-preta (Ciconia nigra), o abutre-preto (Aegypius monachus) e a águia-real (Aquila chrysaetos) são espécies com estatuto de “em perigo” que ocorrem na região. Também se destaca por albergar a maior diversidade de espécies de anfíbios do país. Apresenta uma população de caça maior bastante considerável, principalmente de veado (Cervus elaphus) e javali (Sus scrofa), mas também é possível encontrar gamos (Dama dama) e muflões (Ovis amon musimon). Estas espécies cinegéticas partilham as pastagens com a pecuária local. O coelho (Oryctolagus cuniculus) e a perdiz (Alectoris rufa) também ganham destaque em termos de caça menor.

A atividade cinegética pode ser um forte impulsionador para a economia da região. Existem no concelho 13 ZCM, 49 ZCA e 54 ZCT, o que perfaz um total de 116 zonas de caça (ICNF, 2016). Ocupam no conjunto uma área superior a 120.000 ha, equivalente a 86,4% da área total do concelho. Este trabalho teve lugar em 14 ZC (3 ZCM, 6 ZCA e 5 ZCT), distribuídas de norte a sul do concelho, com uma área total de 30.130 ha o que representa cerca de 25,1% do território ordenado.

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3.2 Avaliação Sanitária in loco

Durante a época venatória 2015/2016, com início a 4 de setembro de 2015 e término a 4 de março de 2016, acompanhou-se os procedimentos do veterinário oficial no âmbito da avaliação sanitária de caça maior, em 14 ZC. Os trabalhos decorreram segundo as normas ditadas pelo Edital n.º 1, uma vez que a área de estudo está enquadrada na área epidemiológica de risco de tuberculose em caça maior. Utilizou-se sempre proteção individual, garantindo simultaneamente a higiene das carcaças, mas principalmente a proteção dos intervenientes no processo, ou seja, as pessoas que fazem a evisceração e a avaliação sanitária (macaco; galochas; fato-de-macaco descartável; protetores de galochas descartáveis; dois pares de luvas de latex.). Os procedimentos efetuados são descritos de seguida.

3.2.1 Avaliação Externa da Carcaça

Sempre que foi possível realizou-se um exame externo aos animais caçados, no quadro de caça ou no local de evisceração, para avaliar o estado geral dos indivíduos, da pele, dos membros e das extremidades (avaliação da condição corporal; presença de secreções nas cavidades; presença de alopécias, nódulos subcutâneos, ectoparasitas ou outras alterações na pele; tumefações

ganglionares ou articulares; ferimentos por tiro, mordida ou outros; fraturas e hematomas). Desta forma, pode-se poupar tempo, descartando à partida os animais que não estão aptos para consumo humano, ou deixar para o final da inspeção os animais com potencial risco sanitário.

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3.2.2 Avaliação Interna da Carcaça

Depois dos animais serem eviscerados, efetuou-se a avaliação sanitária de cada carcaça e respetivas vísceras (Figura 8A). Para além de se fazer um exame geral da carcaça, com visualização da superfície interna da carcaça (cor, cheiro, conspurcação), pesquisa de eventuais processos generalizados (tumores ou abcessos), parasitas e corpos estranhos não resultantes da caça, fez-se uma inspeção mais minuciosa de alguns linfonodos (lnn) e vísceras:

 Nos javalis - Incisão do ln submandibular, seguido da palpação e incisão dos pulmões e lnn brônquicos e mediastínicos, incisão no coração, incisão dos lnn mesentéricos e por fim incisão do fígado, baço e rins;

 Nos veados - Incisão nos lnn mesentéricos, seguido da palpação e incisão dos pulmões e lnn brônquicos e mediastínicos, observação das vísceras em geral, e por fim incisão dos lnn pré-crurais e lnn pré-escapulares.

 Nos gamos e muflões o protocolo foi semelhante ao utilizado nos veados.

As carcaças que apresentassem indícios de que o seu consumo ou manipulação constituíam um risco sanitário foram rejeitadas. As carcaças consideradas aptas para consumo foram marcadas com os selos amarelos emitidos pela DGAV (Figura 8B), conforme dita o Plano de Controlo e Erradicação da Tuberculose em Caça Maior (2011).

Figura 8 - Inspeção das vísceras de um veado (A) e mesa de trabalho com os selos da DGAV (B)

Imagem

Figura 1 - Relação entre caça e conservação  Adaptado de Loveridge et al. (2009)
Figura 2 - Distribuição geográfica das ZC em Portugal  Adaptado de Santos et al.,2015
Tabela 1 - Doenças da fauna selvagem (Adaptado de: Alberto, 2009; Navarro-Gonzalez et al., 2016.)
Figura 3 - Área epidemiológica de risco de  Tuberculose (DGAV, 2011)
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Referências

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