C A PIT U L O 13
SIG NA A V A L IA Ç Ã O DO IMPACTO A M B IE N T A L POR A G R O Q U Í M I C O S
M arcos C orrêa N eves Marco Antônio Gom es Alfredo José Barreto Luiz Cláudio Aparecido Spadotto
13.1 Introdução
A agricultura m oderna, voltada para a produtividade, é altam ente tecnificada e dependente em insum os agrícolas. O uso de agroquím icos nestes sistem as de pro dução geram um tipo de poluição que se caracteriza pela baixa concentração de contam inantes em extensas áreas. Este tipo de poluição é classificada com o não pontual ou difiisa. N os últim os anos, vem aum entando a preocupação com os im pac tos que esta poluição pode causar no am biente e principalm ente nos m ananciais de água superficial e subterrânea. Em razão deste fato, m uitos trabalhos vêm sendo desenvolvidos no sentido de estabelecer a relação entre os sistem as de produção agrícola e a degradação do ambiente.
O s im pactos que os agroquím icos podem causar resultam das interações en tre as suas propriedades inerentes de aplicações, as particularidades do local, as con dições clim áticas e ainda o sistem a de produção em que são aplicados. A considera ção conjunta destas condições altam ente variáveis dificulta a análise e a previsão dos efeitos am bientais.
A quantidade e a natureza das condições, que variam no tem po e espaço, indicam q ue a utilização de Sistemas de Informações G eográficas (SIGs) com o ferra m enta básica pode auxiliar na análise dos im pactos am bientais provocados pelos agroquím icos. Neste capítulo, apresentarem os uma proposta de uso do SIG no pro cesso de avaliação de im pacto ambiental pelos agroquím icos.
13.2 D e se n v o lv im e n to de um método
im pacto ambiental. Tais procedim entos apresentam diferenças m arcantes quanto aos fatores que consideram em sua análise e tam bém em função de diferentes níveis de com plexidade. A utilidade de cada um depende do objetivo da avaliação, m as todos apresentam potencialidade e limitações. Levitan et al. (1995) apresentaram uma co m p araçã o en tre d ife re n te s m éto d o s p ara a v a lia ç ã o de im p acto s a m b ie n ta is p o r agroquím icos. Tais m étodos buscam em geral um a m aneira de com parar os riscos envolvidos no uso dos produtos, possibilitando a escolha de práticas que ofereçam m enores impactos.
Com o desenvolvim ento dos SlG s, vários trabalhos de integração com m ode los am bientais têm sido propostos (H aan et al., 1993; M aidm ent, 1993; Tim & Jolly,
1994; Jankowskí & Haddock, 1996). Aqui apresentam os um a alternativa baseada na utilização de SIG com um m odelo em pírico, baseado na coexistência espacial de fato res relevantes. Este m étodo está sendo desenvolvido pela E m b rap a-C N P M A ', com o ferramenta de auxílio na avaliação de impactos ambientais provocados por agroquím icos (Luiz et al., 1996).
A idéia básica deste m étodo é utilizar as inform ações am bientais para deter m inar a tendência do com portam ento da água em toda a área estudada. A im portân cia atribuída a água se deve ao fato dela ser o principal veículo de transporte dos agroquím icos no am biente. O m étodo usa com o dados de entrada as infonnações de fácil aquisição, para que possa ser aplicado dentro da realidade encontrada no país. A área em estudo é dividida em pequenas células e para cada célula é estabelecido um potencial de infiltração e escoam ento superficial. Estes potenciais são detem iinados a partir de um a m atriz de relacionam ento lógico envolvendo infonnações de solo, com o condutividade hidráulica por exem plo, e declividade do terreno. Para cada célula da área tam bém são verificados os produtos aplicados e a oferta de água.
A Figura 13.1 ilustra o relacionam ento global entre as infonnações que são analisadas no método proposto. O passo inicial é a definição do compartimento ambiental a ser analisado (água superficial, subsuperficial ou solo), já que as relações entre os fatores variam de acordo com o com partim ento a ser analisado. O lado esquerdo do diagram a m ostra o procedim ento para se obter o plano de infonnação de potencial de infiltração e escoam ento superficial.
Para a detenninação qualitativa da condutividade hidráulica são consideradas as variáveis textura, estrutura, estabilidade de agregados e profundidade de solo. Com a com binação destas quatro variáveis sé chegou a três grupos de condutividade hi dráulica: alta, m édia e baixa. Esta classificação é apresentada com detalhes por G o mes et al. (1996a). A relação entre os principais solos brasileiros e sua classificação quanto à condutividade hidráulica é m ostrada na Tabela 13.1.
As declividades de terreno são agrupadas tam bém em três classes: baixa,
suave e alta, contendo respectivam ente declividades m enores que 3%, de 3 a 8% e de 8 a 20% . As áreas com declividade acim a de 20% são de uso restrito para a agricul tu ra m as, para efeito de cálculos no presente trabalho, tam bém são consideradas com o áreas de alta declividade.
O cruzam ento dos dois planos de infom iação, condutividade hidráulica e clas ses de declive, dão origem a um terceiro plano denom inado de potencial de infiltração/ escoam ento superficial. A m atriz de relacionam ento em pregada é m ostrada na Tabe la 13.2. O potencial de infiltração é definido a partir da relação entre a condutividade e a declividade. O potencial de escoam ento superficial tem com portam ento oposto, isto é, onde o potencial de infiltração é alto o de escoam ento é baixo e vice-versa.
O resultado prático deste cruzam ento de inform ações de declividade do solo e condutividade hidráulica é a definição, para cada célula, da tendência relativa do com portam ento da água, ou escoar superficialm ente ou infiltrar no perfil de solo. Uma vez definida e classificada a área em função dos parâm etros am bientais considera dos, o próxim o passo é verificar as características próprías dos produtos e a variação da oferta de água no am biente.
Para avaliar as propriedades dos produtos, faz-se prim eiram ente o levanta m ento de quais produtos são utilizados na área e com o são aplicados (época, concen tração e cultura). Estes dados são referenciados espacialm ente usando o m apa de uso da terra. Para os produtos analisados são avaliados parâm etros de m obilidade, persistência, concentração e outros mais específicos do objeto da análise, por exem plo, toxicidade humana. N este ponto, pode-se optar em fazer um a hierarquização, levantando som ente os produtos usados sobre as áreas mais expostas do ponto de vista am biental e desconsiderando os produtos que oferecem m enos riscos ao com partim ento analisado.
O regim e pluviométrico é usado para estabelecer a oferta de água na área em estudo, classificando os meses em chuvosos, secos e intermediáríos. Em áreas exten sas onde ocorre a variação espacial significativa da chuva e consegue-se estim ar esta variação pelas estações m eteorológicas existentes, poder-se-ia construir mais um pla no de infonnação, que representaría esta variação no espaço. O esquem a geral apre sentado na Figura 13.1 é para áreas relativam ente pequenas, tais com o m icrobacias, onde a oferta de chuva é considerada constante para todas as células da área.
A análise finai é feita considerando os locais onde ocorrem sim ultaneam ente fatores que agravam o risco, com o m apa final indicando as áreas que m erecem m aior atenção. N este ponto, tem os um visão abrangente da área em estudo, os locais mais vulneráveis do ponto de vista am biental, um a classificação dos produtos usados na área e os lugares onde há maiores chances de estar havendo contam inação do com partim ento analisado. Estes são os produtos ou a contribuição que este método pode dar ao processo geral da avaliação.
N esta análise final está em butida uma matríz de relacionam ento não explicitada no diagram a. Estas relações são definidas em função dos objetivos finais da avaliação
e pode variar em com plexidade dependendo do núm ero de produtos usados na área e as propriedades dos produtos que se deseja considerar.
C la s s e de S o lo T extura D o m in a n te E strutura D o m in a n te E stab ilid ad e de A greg a d o s P rofu n d id ad e C o n d u tlv l- (H o riz. A + B ) dade H id ráu lica L a to s s o lo R oxo A rg ilo sa B lo co s A ngulares a sub-angulares E stáv el P ro fu n d o A lta L atossolo V erm elho E scuro
A rgilosa B locos sub- angulares
Estável Profundo A lta
A rgilo-A renosa G ranular Pouco E stável Profundo M édia A renosa G ranular Pouco Estável Profundo M édia Latossolo
V erm elho A m arelo
A rgilosa B locos sub- angulares
Estável Profundo A lta
A rgilo-A renosa G ranular Pouco Estável Profundo M édia A renosa G ranular Instável Profundo M édia L atossolo
A m arelo
A rgilosa B locos sub- angulares
E stável Profundo M édia*
A rgilo-A renosa B locos sub- angulares
Estável Profundo Média*
A renosa B locos sub- a n g u la re s
Estável Profundo M édia*
Terra Roxa E struturada
A rgilosa B locos A ngulares
Estável Profundo A lta
Podzólico V erm elho Escuro
A rgilosa B locos sub- angulares
E stável Relativamente M édia P rofundo
A rgilosa B locos sub- angulares
Estável Relativamente M édia Profundo
Podzólico Vermelho A m arelo
A rgilosa B locos sub- angulares
Estável Relativamente M édia P rofundo
Podzólico A m arelo
A rgilosa B locos sub- angulares
Estável Relativamente M édia P rofundo
* O L a lo ss o io A m a re lo a p re s e n ta p ro b le m a s d e p c m ie a b ilid a d e r e s trita e in ílltra ç à ü len ta , d e v id o s o b re tu d o ao a d e n s a m e n to q u e e x is te n o h o r iz o n te A B o u B A (O liv e ira e t a i.. 1992, c ita d o s p o r G o m e s e t a l.,1 9 9 6 a ), c o n s titu in d o - s e e m e x c e ç à o n o m é to d o d e c la s s ific a ç ã o a d o ta d o .
13.3 Aplicação do método
M ostrarem os alguns resultados alcançados com este m étodo, que está sendo aplicado na m icrobacia do córrego Espraiado, localizada na região de Ribeirão Preto, estado de São Paulo. N esta região encontra-se o im portante aqüífero Botucatu. O abastecim ento da cidade de Ribeirão Preto é feito quase em sua totalidade utilizando a água deste aqüífero. A região apresenta um agricultura intensiva, com o predom ínio da cultura da cana-de-açúcar. D evido a estas características, a E m brapa-C N P M A prom ove uma série de estudos com o objetivo de desenvolver m étodos para avaliar e m onitorar os im pactos am bientais negativos da agricultura. A m icrobacia possui um a área de 4.463 ha, dentro dela existe um a zona de recarga do aqüífero, localizada em sua parte m ais ao norte (Leite, 1993). Nesta m icrobacia, a cultura de cana-de-açúcar cobre cerca de 67% da área. Ela apresenta ainda algum as áreas irrigadas (7% ), pasto e alguns outros usos agrícolas m enos expressivos em área.
O SIG usado para o processam ento e análise dos dados foi o Idrisi. Este SIG é um sistem a de processam ento de im agem e inform ação geográfica baseado em grade, desen volvido na G raduate School o f G eography da C lark U n iv ersity de M assachusetts, USA (Eastm an, 1992). As principais vantagens do Idrisi em relação a outros sistem as é o seu baixo custo e baixa exigência de hardware. C onsiderando que as funções utilizadas neste SIG estão presentes na m aioria dos sistem as existentes, acreditam os que este método possa ser aplicado independente do sistem a usado.
O plano de inform ação descrevendo a ocorrência de níveis de condutividade hidráulica foi obtido a partir de um m apeam ento dos solos da área, resultado de um detalh am en to efetuado sobre o m apa de solos 1:100.000 (lA C , 1991), u san d o fotografias aéreas, escala 1:25.000 e trabalho de cam po (D onzelli, 1996). E ste detalham ento conferiu m aior precisão espacial aos limites das unidades de solos e s e p a ro u a lg u m a s u n id a d e s . E s ta s in fo rm a ç õ e s fo ra m a p lic a d a s à s c a r ta s planialtim étricas do IGC (1992), e posteriorm ente digitalizadas. A partir do m apa de solos e da classificação apresentada em G om es et al (1996b), chegou-se ao Plano de
In fo n n açã o C ondutividade Hidráulica, apresentado na Figura 13.2.
Figura 13.2 - C lassificação quanto à condutividade hidráulica dos solos.
A s cartas planialtimétricas, escala 1:10.000 (IGC, 1992), foram usadas tam bém com o fonte de inform ação para extração do modelo num érico de terreno, passo interm ediário para o cálculo das declividades para cada célula da m icrobacia. Para se chegar ao plano das classes de declive, realizou-se o seguinte processo: prim eiro foram digitalizadas as inform ações de altim etria. Estas inform ações, de natureza v eto rial, fo ram rasterizad as. P o sterio rm en te u tilizo u -se um a interp o lação para preencher as células sem inform ação de altimetria, gerando um m odelo num érico de terreno para a microbacia. Finalmente foram calculadas as declividades e agrupadas nas três classes pretendidas (Figura 13.3).
O cruzam ento das inform ações dos planos acim a, seguindo a m atriz de relacionam ento apresentada na Tabela 13.1, produziu o m apa de potencial de infiltração apresentado na Figura 13.4. A representatividade das classes alto, m édio e baixo potencial são 19%, 41 % e 40% respectivam ente, em relação ã área total da m icrobacia.
Figura 13.3 - C lassificação quanto à declividade do terreno.
Os produtos utilizados na área foram levantados e suas propriedades de m obilidade, persistência e concentração determ inados. C om o nesta m icrobacia o objetivo é detectar a presença dos produtos no perfil de solo para que possam os validar o m étodo, estas caracteristicas são suficientes. Se o interesse fosse outro, com o por exem plo envolvendo a saúde hum ana, a toxicid ade aguda poderia ser tam bém considerada ou ser usada como uma restrição para a elim inação ou priorização de alguns produtos.
13.4 Conclusão
N a análise dos im pactos am bientais provocados por agroquím icos estão envolvidos diversos fatores que possuem variação espacial e tem poral. O uso de SIG com o um a ferram enta traz um significativo auxilio na representação espacial e no processam ento deste dados. O m étodo apresentado neste capitulo teve o objetivo de estabelecer um procedim ento para ser executado com o um prim eiro passo dentro da avaliação dos im pactos causados pelos agroquím icos, identificando espacialm ente as áreas com m aiores risco de contam inação do ponto de vista am biental e as áreas com um m aior risco considerando os produtos e alguns aspectos da sua aplicação, produzindo, com isto, um a visão espacial da situação da área.
A
1 k m A lto p o te n c ia l d e in filtra ç ã o e b a ix o p o te n c ia l d e e s c o a m e n to .. M é d io s p o te n c ia is d e in filtra ç ã o e e s c o a m e n to . B a ix o p o te n c ia l d e In filtra ç ã o e a lto p o te n c ia l d e e s c o a m e n to .Figura 13.4 - Potenciais de infiltração e escoam ento superficial.
13.5 Referências
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