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1998NILS CHRISTIE
~Tradução de Luis Lciria
Universidade de Oslo
A INDÚSTRIA
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A caminho dos GULAGs
em estilo ocidental
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Pril1/cd in Braz!!
Proibiela a reproelução total ou parcial, incluinelo a reproeluçãO ele apostilas a partir eleste livro, ele qualquer forma ou por qualquer meio eletrônico ou mecânico, inclusive através de processos xerográficos, de fotocópia e ele gravação, sem permissão expressa elo Eelitor, (Lei nO5,988, ele 14.12,1973,)
A violação ele direito autoral constitui crime, passlvel ele pena de detenção eletrês meses a um ano ou multa, Se houver reprodução, por qual. quer meio da obra intelectual, no toeio ou em parte, sem autorização ex-pressa do autor, com intuito de lucro, a pena será de reclusão de um a quatro anos, e mulla. Incorre"na mesma pena quem vende, expúe àvenda, aluga, introduz no país, adquire, ocu1la, empresta, troca ou tem em depósito, com intuito de lucro, obra intelectual, importanelo assim via laça0 de direito au. toral. Na prolação ele sentença condenatória, o juiz determinará a elestrui-ção da proeluelestrui-ção ou reproeluelestrui-ção criminosa, (Ar!. 184 elo Cóeligo Penal bra-sileiro, com nova reeiação daela pela Lei na 8,635, de 16,03,1993,)
A EDITORA FORENSE não se responsabiliza por conceitos dou-trinários, concepções ideológicas, referências indevidas e possfveis desatualizações da presente obra, Todos os pensamentos aqui exaraelos são de inteira responsabilielade do autor,
Reservaelos os direitos ele propriedade desta eelição pela COMPANHIA EDITORA FORENSE
Av.Erasmo Braga, 299 - ]°,20 e 10 andares - 20020-000 - Rio eleJaneiro.RI Rua Senaelor Feijó, 137 - Centro - O1006-00 I - Sao Paulo.SP Rua Guajajaras, 1.934 - Barro Preto - 30180-10 I - Belo Horizonte-MG
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1. Crime e criminosos - Aspectos sociais - Estados Unidos. 2. Crime e criminosos - Aspectos econômicos - Estados Unidos. 3. PrisOc5- Estados Unidos. I, Título.
Christic, Nils
A indústria do controle do crime: a caminho dos GULAGs
em estilo ocidental! NUs Christie; traduçno de Luis Lciria.
Rio de Janeiro: Forense, 1998. Traduçao de: Crime cantrol as industry
ISBN 85.309.0392.1 ISBN 0.415. t2539.1 91.t 100 C419i
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"",,::, j'~\
5,3 O controle das drogas como controle de classe "",; 58"'''êt!','~
5.4 E~ropa fortificada, Ocidente dividido """""""""''''''" 66
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5,5 Dinheiro em escravos ""'"'''''''',''''''' """ " " """ "" " " 69 ..••.•.,~,""'~ '5.6 Traços de um futuro "",,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,""'''''''''' 71' ";,~"', .
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Capítulo 4 Por que há tão poucos presos? 4,1 Esperando a dor
4,2 Tolerância vinda de cima
4,3 Entre o Leste e o Oeste da Europa '"'''''''''''',',,''''''' 4.4 Os estados de bem-estar social em crise '''''''''''''''' 4,5 Quanto vai durar?
Capítulo 3 Níveis de dor intencional
3,1 Medidas de dor ""'''''''' """ " ""T " '"'' """ " " " """'" "
3.2 Os bons velhos tempos? """"""",,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, 3,3 Europa Ocidental
3.4 Tendências mundiais '"'''''''''''''',,'''''''''''''''''',,''''''''' 3,5 A importância das idéias
Prefácio
Capítulo 2 O olhar de Deus 2,1 Completamente sozinho 2.2 O estranho
2.3 Onde o crime não existe 2.4 Uma oferta ilimitada de crimes Capítulo 1 Eficiência e decência
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179 181 184 186 203 203 206 210 212 214 SUMÁRIO EII 11.3 Limites ao crescimento? 11.4 Matança industrializada 11.5 A matança médica 11.6 A matança legalizadaCapítulo 12A cultura do controle do crime 189
12.1 O núcleo comum 189
12.2 Qual o lugar do Direito? 194
12.3 Uma quantidade apropriada de dor 198
Capítulo 13 Pós-escrito
13.1 Anos de crescimento 13.2 O que está por vir? ... 13.3 Irmãos no encarceramento 13.4 O significado de atos indesejados 13.5 Os freios sumiram
A INOÜSTRIA DO CONTROLE DO CRIME
Capítulo 8 A modernidade e asdecisões 133
8.1 4.926 candidatos 133
8.2 Gargalos 135
8.3 Manuais de decisão sobre a dor 136
8.4 Justiça purificada 140
8.5 Cooperação do réu 143
8.6 Despersonalização 146
Capítulo 9 Uma justiça empresarial? 149
9.1 A ju stiça da aldeia 149
9.2 Justiça representativa 151
9.3 Justiça independente 154
9.4 A revolução silenciosa 156
9.5 Comportamento expressivo 160
Capitulo 10 Lei penal e psiquiatria: irmãs no controle 163 10.1 Um manual para decisões sobre distúrbios mentais 163
10.2 Um manual para a ação 167
Capítulo 11 Modernidade e controle de
comportamento 171
11.1 Filhos da modernidade 171
11.2 A máscara do diabo 176
Capitulo 6 O modelo 79
6.1 A quem se ama, se castiga 79
6.2 O grande confinamento 80
6.3 De estado em estado 85
6.4 O estado das prisões 87
6.5 As explicações para o crime 92
Capítulo 7 O controle do crime como produto 95
7.1 O mercado do controle do crime 95
7.2 O estímulo do dinheiro 101
7.3 Penitenciárias privadas 102
7.4 Polícia privada 107
7.5 O estímulo privado 113
7.6 O estímulo tecnológico 117
7.7 Matéria-prima para o controle 121
7.8 A grande tradição norte-americana 123
7.9 O modelo 129 )
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Prefácio
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boa hora editado no nosso País, o conhecido e reconhecido
criminólogo norueguês Nils Christie, que antes já havia
publi-cado, dentre outros, o primoroso
Los JIIlJites dei doJor,'designadamente uma proposta de intervenção mínima do
Di-reito Penal, que significa, em última análise, "diminuição da
dor", apresenta-nos um aprofundado e fecundo estudo do
sis-tema de controle penal nos Estados Unidos, conferindo
espe-cial atenção, como não poderia ser diferente, ao subsistema
prisional, que, na década de oitenta, simplesmente dobrou o
número de encarcerados (chegando a mais de um milhão e
duzentos mil).
Consoante sua viSão,pouco otimista, esse exagerado
incremen-to na utilização da prisão teria estreita conexão com o sistema
de economia de mercado, típico do ocidente industrializado, e
representaria um novo holocausto. Menos intenso que o
resul-tante do emprego difuso da morte e da tortura (tal qual o
na-zista), mas de qualquer modo preocupante, porque agora
uti-liza-se a privação ~a liberdade em larga extensão, não apenas
como uma forma de repartição intencional de dor e recruta.
mento da população desocupada e potencialmente perigosa,
senão, sobretudo, como mais um "produto" da complexa e
ga-nanciosa economia de mercado, que não se detém diante de
IFondo de Cultura Ecnnómica,M~xjco,1984.
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limites éticos e culturais, desde que os lucros resultem
devida-mente assegurados.
No Prefácio que Eugenio Raúl Zaffaroni escreveu para a
edi-ção argentina do livro agora traduzido para nosso idioma,'
acentuou-se que o determinante para essa massiva intervenção '
penal não é a "modernidade", resultante da rapidez das
con-denações, bem como da fixação das penas (que tém por base
o consenso do acusado - pJea bargaüJing -, assim como as
Tabelas de Determinação da Pena), senão o "racismo", que
pretende impor a superioridade das pautas de conduta de um
determinado grupo. Sociedade industrial mais racismo, em
suma, na visão do emérito penalista argentino, seria a
combi-nação de onde decorre o "cerco às minorias", à "civilização
inferior". Nisso, aliás, residiria a explicação dos interacionistas
do labelJjng approach
Jde que a intervenção
penal é
desenganadamente seletiva e, muitas vezes, discriminatória.
Seja por razões "racistas", seja por qualquer outro tipo de
motivação, consoante nosso JUÍzo, na base dessa exagerada
intervenção
penal
está,
para
além das "exigências"
mercadológicas, que se tornaram prementes desde o
momen-to em que cessou a "guerra fria", a inmomen-tolerãncia, o não aceitar
o outro diferente, particularmente o menos aquinhoado com
a distribuição (desigual) da riqueza e do trabalho, o de cor
diferente, o de língua diversa.
E seria universalizante (globalizante) esse sistema -
norte-americano - de "campos de concentração" (Gulags)? Toda
so-ciedade industrializada estaria propensa à sua adoção? Para
Nils Christie a resposta é preocupantemente positiva, porque
2y' La Industria dei Control dei Dclüo,Editores dei Porto, Buenos Aires, 1993, p. 14 e
S5. .
)Sobre as bases dessa teoria, que estudou o sistema de controfe do'deiito. v. Antonio . Gan::la.Pablos de Molina e Luiz Aávio Gomes, Cnininologia,RT, SP, 2a ed., 1997,
p.219 e ss.
SUMÁRIO
trata-se de um sistema de controle economicamente
vantajo-so para todos (excluídos, evidentemente, os que padecem a dor,
a aflição do encarceramento). De outro lado, não falta ejamais
faltará "matéria prima" para esse "produto", visto que não só
aumentam as classes sociais mais baixas, como cada vez mais
pode-se ampliar o raio de incidência penal sobre seus atos (hoje
é o uso de drogas, amanhã pode ser o uso de álcool, depois
vem a sua simples presença nas ruas etc.). Considere-se, ade.
mais, o aspecto "democrático" da intervenção, pois a maioria
bem situada pode eleger govcrnantes que se comprometam
• exatamente a colocar detrás das grades as minorias
"socialmen-te perigosas".
Feita a combinação de alguns fatores (economia de mercado,
tecnologia avançada, classes sociais baixas potencialmente
"perigosas"
e teorias
científicas
que justificam
o
encarceramento) chega-se, sem muito custo, ao "holocausto da
industrialização",
que é a prisão expandida, ou melhor, os
modernos "campos de concentração", os quais não só são úteis
para a profilaxia sociál (é preciso esconder a miséria e
Iivrar-se dos riscos que ela implica), Iivrar-senão, sobretudo, para o bom
desempenho do mercado. Juízes e Promotores, nesse
contex-to, nenhum obstáculo representariam porque, no fundo, não
passam de "ferramentas" dos políticos (que, por sua vez,
con-tam com o apoio da maioria). O Direito, por sua vez, passa a
integrar a categoria da "produção", não a cultural, valorativa,
ética e humanista. Tudo se instrumentaliza em função da
lim-peza (higienização) das ruas, assim como do markelsyslelll.
Até este momento, em nenhum outro país industrializado tal"
nou.se possível ~onstatar outra realidade semelhante à norte.
americana. Nenhuma nação sequer se aproxima do elevado
número de presidiários dos Estados Unidos (mais de um mio
Ihão e duzentos mil, como vimos), com índice de 500 presos
para cada 100.000 habitantes (no Brasil a média
éde 95
pre-sos para cada 100.000 habitantes; na Europa, 80 prepre-sos),
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A INOt,JSTRIA DO CONTROLE DO CRIME
Não que no nosso País e nosso entorno faltem teorias
"cientí-ficas" justificadoras
do confinamento
indiscriminado
dos
"indesejados sociais" (tal como verificou-se, recentemente, com
a operação "Tolerãncia Zero"), A (relativa) impossibilidade de
adoção dos panópticos "campos de concentração" deriva de
outras causas: economia de mercado pouco desenvolvida,
inexistencia de tecnologia avançada, falta de dinheiro etc,
De qualquer maneira, isso não significa que a situação que
vivenciamos seja distinta de um verdadeiro holocausto, O
nos-so, no âmbito do controle penal, não se caracteriza tanto pela
quantidade (alto número de presos), senão, primordialmente,
pela "qualidade" da "repartição intencional da dor", decorrente
de políticas criminais paliorrepressivas, do abarrotamento das
prisões, que leva
àtortura, crueldade e, com certa freqüência,
à
morte, especialmente
via "Aids", seleção claramente
discriminatória, corrupção etc,
Nos Estados Unidos, hoje, quando se fala em prisão,
pensa-se em dinheiro, mesmo porque o volume de encarceramento
não configura nenhum reflexo de qualquer aumento real da
criminalidade;já a realidade brasileira e, pode-se dizer,
latino-americana em geral, é outra, pois prisão é sinõnimo de
cruel-dade, desumanicruel-dade, tortura e morte. Lá as prisões
identifi-cam-se com os "campos de concentração";
aqui com os
"campos de extermínio"; lá a moeda de troca do prisioneiro é,
exclusivamente, a liberdade, aqui, para além da liberdade
in-dividual, entram em jogo a integridade física, a privacidade, a
vida. A "indústria das prisões" no nosso entorno é, na
verda-de, indústria da tortura, da morte. E tudo isso independe do
ato "delituoso" que foi cometido, pois nosso sistema prisional
não é capaz de distinguir um pequeno infrator de um grande
criminoso. Todos correm os mesmos riscos, pouco
importan-do se é um preso civil, provisório, menor etc.
Em
SUMÁRIO .
Transformada a prisão em algo economicamente proveitoso (e
uma das vias preferidas para a extração de lucros consiste,
evidentemente, na privatização dos presídios - privatização da
construção, da administração ou do fornecimento de
equipa-mentos) -,já não se vislumbram barreiras para o amplo
recru-tamento da população "perigosa" (Formada, basicamente, pela
legião de desempregados), A punição (penal) do uso dc
entor-pecente, que não chega a ofender bens jurídicos alheios,
cons-titui um marcante exemplo dessa intcrvcnção cxcessiva do
pon-to de vista político-criminal, mas necessária do ponpon-to de vista
mercadológico, Como se não bastasse a inesgotável "matéria
prima" natural das prisões (classes sociais baixas
"potencial-mente perigosas"), de um outro artifício também se faz uso
difuso: mais de quatro milhões de norte-americanos estão sob
controle, sob vigilância constante (livramento condicional,
li-berdade sob palavra, probation etc.), Muitos desses
"libera-dos", com freqüencia, pelos seus atos indesejados (uso de
dro-ga ou de álcool, por exemplo), voltam para os GuJags, É uma
"reserva de mercado" apreciável. E agora, para complctar, cs..
tão descobrindo que as prisões não só sâo economicamente
ativas, como podem se transformar numa "fonte de produçâo":
é o que está acontecendo na Califórnia com a utilização da mão
de obra do preso para a recuperação de computadores usados'
Dentre tantos outros méritos deste livro de Nils Christie,
des-taca-se induvidosamente a configuração empírica e, portanto,
criminológica do "modelo americano de controle social", Tem
força expansiva? Para o autor a resposta seria
positiva,'Ocor-re que a "indústria das prisões" não é fruto tão-somente de
avanço tecnológico e do mercado sofisticado, No fundo, é uma
questão cultural.
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cultura não se exporta facilmente, Cada país
conta com sua realidade própria, Na nossa, por exemplo,
nes-4\1.Gilberto Dimcnstein, Falh.? de S. Paulo, de 20.07.97, pp. ]-28.
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te momento, constata-se um misto de intervenção penal
exces-siva, com uma política despenalizadora importante, que adveio
com a Lei nO9.099/95 (Lei dos Juizados Especiais Criminais).
Estamos construindo um novo cenário, distinto do
norte-ame-ricano, propício não para "campos de concentração", mas para
a não intervenção penal. Nunca entre nós se falou tanto em
penas alternativas como agora. E esse nos parece o caminho
correto.
O discur,o das penas alternativas, em síntese, embora se
sai-ba que elas isoladamente não significam a soluçãO para o
gra-ve problema carcerário, é muito atual e importante, porque o
Brasil, que as aplica para apenas 2% dos condenados, está
in-comparavelmente atrás da Alemanha, Cuba e JapãO (que
im-põem tais penas em 85% dos casos), Estados Unidos (68%),
Inglaterra (50%) etc. Países com melhores condições
econô-micas adotam difusamente as penas alternativas e o índice de
reincidência é de 25%. No nosso pobre e equivocado modelo
penitenciário, que deposita fé no encarceramento de todos os
criminosos, a taxa de reincidência é de 85% e ainda nos damos
ao "luxo" de gastar cerca de quinhentos reais por mês com cada
um dos cerca de 45 mil presos não violentos, cujos delitos
cau-saram prejuízo médio de cem reais. Isso significa punir não só
o "desviado", senão principalmente o contribuinte
5Não
fos-se por humanitarismo, razôes econômicas já fos-seriam o
bastan-te para uma profunda e radical mudança de atitude e de
men-talidade.
Épreciso racionalidade! Não tem nenhum sentido
pagarmos caro para transformar, nos presídios que
temos,jo-vens e primários em criminosos violentos.
Que as penas alternativas são melhores e mais dignas que a
prisão é algo indiscutível; que podem contribuir para a
atenua-ção do grave problema carcerário brasileiro não se nega. De
~v.Julita Lemgruber, VEIA. de 16.07.97, p. 9.
SUMÁRIO
qualquer modo, como observação final, não podemos nos
es-quecer que são "penas", são "castigos" que, no fundo, como
assinala o próprio Nils Christie, significam "distribuição de dor,
de sofrimento, de anição". Todo nosso esforço contra a
difu-são do modelo norte-americano que acaba de ser
diagnosti-cado e em favor dessas alternativas
àprisão é indiscutivelmente
válido, em razão do seu contelido ético-humanitário, mas náo
é tudo, porque na verdade o melhor mesmo é prevenir o
deli-to, com programas sérios, tanto em nível primário (ir às
cau-sas mais profundas, às raízes do crime), secundário (criação
de obstáculos ao delito) quanto terciário (recuperação do
de-linqüente, visando a sua não reincidêneia), A
política-criminal-mente correIa, em conclusão, não nos parece a implantação de
extensos "campos de concentração", senão a construç,io de
mais escolas, mais creches, mais centros sociais, mais
hospi-tais, mais centros de salide e de lazer etc.
São Paulo, julho de 1997
Luiz Flávio Gomes
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\ \ 1Capítulo 1
Eficiência e decência
Este livro é um a!Crta contra ns tendências recentes no campo do eontro!c do crime. O tema é simp!cs. As soeiedndes de tipo oeidental enfrentam dois problemas principais: a distribuição desigual da riqueza e do trabalho assalariado. Os dois problc-mas são fontes potenciais de intranqüilidade. A indústria do controle do crime destina-se a enfrentá-los. Esta indústria for-nece lucro e trabalho e, ao mesmo tempo, produz o controle so-bre os que de outra forma pode~iam perturbar o processo social. Comparada com a maioria das'outras indüstrias, a do contro-le do crime ocupa uma posição privicontro-legiada. Não há falta de matéria-prima: a oferta de crimes parece ser inesgotável. làm-bémnão tem limite a demanda pelo serviço, bem como a dis-posição de pagar pelo que é entendido como segurança. E não existem os habituais problemas de poluição industrial. Pelo contrário, o papel atribuído a esta indústria é limpar, remover os elementos indesejáveis do sistema social.
São muito r8ras as ocasiões em que aqueles que trabalham nesta ou para esta indústria dizem que seu tamanho é apro-priado: "Hoje somos suficientemente grandes, estamos bem es-tabelecidos, não ~ueremos crescer mais." A necessidade da ex-pansão faz parte do pensamento industrial, quanto mais não seja para evitar ser tragado pela concorrência. A indüstria do controle do crime não é exceção. Mas ela tem vantagens espe-ciais ao fornecer armas para o que é visto como uma luta
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A INDÚS"TAIA 00 CONTROLE DO CRIME
manente contra o crime. A indústria do controle do crime lem-bra os coelhos na Austrália ou o mink selvagem na Noruega-ambos têm muito poucos inimigos naturais.~ .•.
A crença de que existe uma guerra ê uma das principais forças motrizes do seu desenvolvimento. A outra é a adaptação ge-neralizada às formas industriais de pensar, organizar-se e com-portar-se. A instituiçãO da lei está em processo de transforma-ção. Seu antigo símbolo era uma mulher com olhos vendados e com uma balança na mão. Sua tarefa era equilibrar um gran-de número gran-de valores opostos. Essa tarefa gran-desapareceu. Uma revoluçãO silenciosa ocorreu no seio da instituiçãO da lei, uma revolução que permite à indústria de controle do crime mais oportunidades de crescimento.
Criou-se uma situação que torna inevitável um grande aumento do número de presos. Isto já pode ser observado nos Estados Unidos, que em 1991 atingiu o número, inédito até então, de mais de 1,2 milhão de presos ou 504 por cada cem mil habi-tantes. Esta cifra é tão elevada que não pode ser comparada ã de nenhum país industrializado do Ocidente. Mas por que ape-nas 1,2 milhão? Por que não dois, três, ou cinco milhões? E, tendo em vista as tcntativas de criar uma economia de merca-do na antiga União Soviética, por que não reativar também o uso dos Gulags? Diante disso, os estados de bem-estar social europeus, que estão em declínio, conseguirão resistir aos tenta-dores modelos das duas potências hoje transfonnadas em innãs? Existem, porém, força contrárias em a ão Como será
de-monstrado, há enormes discrepâncias no número de presos de países que ,sob outros aspectos, sâo relativamente semelhan-tes. Tambêm nos deparamos com "inexplicáveis" variações, dentro de um mesmo país, em épocas diferentes. O número de presos pode diminuir em períodos em que, de acordo com as estatísticas criminais, as condições materiais e a economia,
deveriam ter aumentado; e podem aumentar quando, pelas mesmas razões, deveriam ter diminuído. Por trás destes
movi
-EFICIêNCIA E DECENC1A
.
mcntos "Irregulares", encontramos idéias sobre o que se con-sidera um tratamento cOlTeto e justo de outros seres !mmanos, idéias que contrariam as soluções econõmico-industriais "ra-cionais" . O primeiro capítulo deste livro documenta os efei-tos destas forças contrárias.
Do exposto, chego à seguinte conclusão: na situação atual, tão extraordinariamente propícia ao crescimento, é particularmente importante compreender que o tamanho da população carcerária é uma questão normativa. Somos ao mesmo tempo livres e obrigados a tomar urna dccisão. l': necessário colocar limites ao crescimento da indústria carccrária. A situação exi-ge uma discussão séria sobre os limites de crcscimento do sis-tema formal de controle do crime. Pensamentos, valores, étic~ - e não o impulso industrial- devem determinar os limites do controle, o momento em que este já é suficiente. O tamanho da população carcerária é conseqüência de decisões. Temos li-berdade de escolha. Só quando não temos consciéncia desta liberdade é que as condições econõmicas e materiais reinam livremente. O controle. do crime é uma indústria. Mas as in-dústrias têm que se manter dentro de certos limites. Este livro trata da expansão da indústria carcerária, mas também das forças morais contrárias a csta cxpansáo.
,
Nada do que foi dito significa que a proteção da vida, da inte-gridade física e da propriedade nito sejam motivo dc preocu-pação na sociedade moderna. Pclo contrário, viver em socie-dades de grande escala vai significar por vczes vi~cr em ambientes onde os representantes da lei e da ordem são vistos C0l1101I111agarantia essencial para a segurança. Não se pode deixar de levar se'hamente em conta este problema. 'lbdas as sociedades modernas terão que fazer algo em relação ao que se designa em telTl10sgerais como o problema dO.crime. Os Es-tados devem controlar este problema; têm que investir dinhei-ro, pessoas e edifícios. O trabalho que se segue não é uma
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fesa do regresso a um estágio da vida em sociedade em que não
exista controle formal. 1:: a defesa de uma rellexão sobre os seus
limites,
*
Por detrás de minha advertência contra estas tendências está
latente a sombra de nossa história contemporânea,
Estudos
rcccntes sobrc os campos de eonccntraçâo
e os Gulags nos
deram uma nova compreensüo sobrc cles, As velhas qucstõcs
estavam mal formuladas, O problcma nüo é: como puderam
acontecer?
É:por que não aconteceram mais freqüentemente?
E também quando, onde e como vâo ocorrer no futuro?' O
li-vro de Zygmunt Bauman (1989)
Modemidade
e
o Holocausto
é um marco deste pensamento,
Os modernos sistemas de controle do crime podem
transfor-mar-se em Gulags de tipo ocidental. Com o fim da guerra fria,
numa situação de profunda recessao econômica, c quando as
mais importantes nações industriais não têm mais inimigos
ex-ternos contra quem se mobilizar nao parece improvável que a
guerra contra os inimigos internos reccba prioridade máxima,
seguindo conhecidos precedentes históricos, Os Gulags de tipo
ocidental não irão exterminar as pessoas, mas têm a
possibili-dade de afastar da vida social, durante a maioria de suas
vi-das, um grande segmento de potenciais causadores de
proble-mas, Têm o potencial de transformar
o que poderia ser o
período mais ativo da vida destas pessoas numa existência que
não vale a pena ser vivida, lembrando
a cxpressão alemã,
IPode ser dilo com segurança: aqucst50 nâo équando ou onde o próximo
Holocausto vai acontecer. Já está acontecendo. As políticas financeira c industrial do Ocil1ente provocam a cada dia morte c destruição 110lerceiro Mundo, Apesar dis-so, limitrlrci minha atenção neste livro ~ situaç3.o do mundo industrializado. O con. tro\c do crime no Ocidente éum microcosmos. Se compreendermos o que esta
<lCOll-tecendo em alguns destes pulses, conseguiremos nos aproximar de uma compreensão dofenOm~nodo Terceiro Mundo.
~-EFICIt:NCIA E DECêNCIA
"", não existe nenhum tipo de nação-estado
no mundo
con-temporáneo completamente
imune ao perigo de ser
submeti-do a um governo totalitário", diz Anthony Giddens (1985, p,
309), Gostaria de acrescentar: os maiores perigos do crime nas
sociedades modernas não vêm dos próprios crimes, mas do
fato de que a luta contra eles podc levar as sociedades a
go-vernos totalitários,
*
A presente análise é profundamcnte
pcssimista e, como tal,
contrasta com o que acredito ser minha atitude básica em
re-lação a quase tudo na vida,
Étambém uma análise de
particu-lar importáncia para os Estados Unidos, um país cm j'clação
ao qual me aproximo por muitas razões, Discuti parte das
mi-nhas análises com colegas americanos cm seminários e
pales-tras dentro e fora dos Estados Unidos, e sei que eles ficaram
descontentes,
Não que necessariamente
discordassem,
pelo
contrário, mas não gostaram de ser vistos como
representan-tes - que são - de um país com um particular potencial para
che-gar a situações como as que delineio, Nestas circunstáncias, é
desconfortável saber que são grandes as chances de a Europa
se-guir, mais uma vez, o exemplo de seu grande irmão do Oeste,
Mas um alerta é também um ato de algum otimismo, Uma
advertência significa acreditar nas possihilidades dc mudança,
Este livro é dedicado a Ivan lIIich, Seu pensamento está por
de trás de muito do que foi formulado aqui, e ele também
significa muito para mim, pessoalmente, lIIich náo eséreve
so-bre o controle do crime como tal, mas percebeu as origens do
que está aconte~endo atualmente; os instrumentos que criam
a dependência, o conhecimento adquirido pelos especialistas,
a vulnerabilidade das pessoas comuns quando são levadas a
acreditar que as respostas para seus problemas estáo nas
ca-beças e nas máos de outras pessoas, O que ocorre no campo
do controle ,industrializado do crime
éa manifestação
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) ) )A INDÚSTRIA 00 CONTROLE DO CRIME
ma de tendências contra as quais Ivan l11ichfreqüentemente
advertiu. Incluo referências a algumas de suas principais obras
na bibliografia, apesar de não seremmcncionadas
diretamen-te no diretamen-texto. Apesar disso, elas estão presendiretamen-tes.'
Algumas observações finais sobre as minhas intenções, sobre
a linguagem e a forma:
o
que se segue
éuma tentativa de cnar uma compreensão
coe-rente baseada numa ampla gama de fenõmenos que são, na
maior parte das vezes, abordados em separado. Alguns
capí-tulos poderiam ter se transformado em livros distintos, mas o
meu interesse foi de apresentá-los juntos e abrir. assim, a
pos-sibilidade de busca de suas inter-relações. raço uma tentativa
de ajudar os leitores a encontrar eles mesmos estas relações,
sem aprofundar muito a minha interpretação. O material que
apresento pode também dar origem a interpretações
muito
diferentes das minhas. Isso seria ótimo. Não quero criar
inter-1Além da dívida intelectual com lvao lllích e oulros eil3dos no texto, recebi uma im-portante ajllda de inúmeros colegas e amigos. Dos EUA, James Aust;n, Alvio Brollstcin, Stephcn Cartcr, Marc Mauer c Margo Pieken conlribllímm com novas idéias c dados particularmente úteis. Numa segunda revisão do m:lnusCrilo, recebi impor-tantes crilicas de Bill Chamblis$ c Harold Pcpinsky. Do C<lnadá veio uma excepcio-nal ajuda de Maeve McMahon cOle Ingstrup. Na Grã-Bretanha, Vivian Stern me deu Ulll<lgentil ajud3, bem como Sebasti3n Schcerer n3 Alemanh3, Louk Hulsman e René vau Swaaningen na Holanda. Monika Platek enviou dados da Polônia, bem como a crítica de um primeiro rascunho do manuscrito. Da Rússia, recebi contri-buições valiosas de Svetbna PolubinskaY<l e de Alcxander V••kovlev, bem como de Kawlin GOnczól da Hungria. Da Esc:.mdinávia, recebi inspiração e críticas COllslnl-tiv<ls ao manuscrito de Johs Andenaes. F1emming Balvig, Kjcrsti Ericsson, Hedd<l Giertsen, Cecilie 1I0igi'trd. Thomas Mathiesen, Angelika Schafft, Kristin Skjorten e !.ill Scherdin. A Scandinavi:ln UnivcrsilY Press - personificada em Jon Haarberg e Anne Tumer _ me ajudou e encorajou durante todo o processo. Petcr Hilton e Anne Turner ajudaram a adaptar meu inglês js normas dessa Ilngua, mas não podem ser
responsabilizados pelos pontos em que insisti em preservar formas e rormulaç6es que mc parecer::lm lll:ÚS próximas ao ritmo do meu norueguês. fieril B1indheim, Turid Eikvmn, Frade Rod e Grethe Aar::las me deram assistência em diversos estágios e June Hansen fez um trabalho excepcional, pondo o m<llluscrito em ordem. A Asso-ciaço.o dos Escritores e Tradutores de Não-ficção Noruegucses tornou possíveis as viag,cns durante a preparaça.o do livro.
••
EFICIÊNCIA E DF(;~NC1A
pretações fechadas nem barreiras, mas abrir novas pcrspeeti-.
vas na procura infinita de um significado.
Quanto
ãlinguagem e
ãforma: o jargão sociológico é
rechea-do de conceitos latinizarechea-dos e estruturas de frases complicadas.
É
como se o uso de palavras e frases comuns pudesse
dimi-nuir a confiabilidade dos argumentos c do raciocínio. Detesto
essa tradição. A sociologia que me agrada pouco precisa de
termos técnicos e de frases floridas. Ao escrever, tenho em
mente "minhas tias favoritas", imagens fantásticas de pessoas
comuns que gostam de mim o suficiente para tcntar ler o
tex-to, mas não ao ponto de aceitarem tcrmos c frases
complica-das que fariam o texto parecer mais científico.
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'jCapítulo 2
O
olhar de Deus
2.1 Completamente sozinhoManhã de domingo. O centro da cidade de Oslo está deserto.
Os portões do jardim que circunda a Universidade estavam
fe-chados quando cheguei. O mesmo acontecia com a entrada cio
Instituto e a porta do meu escritõrio. Tenho a certeza de que
sou a única pessoa em todo o complexo. Ninguém pode me vef:
Estou livre de todas as espécies de controle, exceto os internos.
Historicamente, esta situação é bastante especial. Não ser
vis-to por ninguém, excevis-to por mim mesmo. Nunca aconteceu
durante a vida de meus avós, ou de minha mãe, pelo menos
completamente. E quanto mais para trás me transporto, mais
certeza tenho: eles nunca estiveram sozinhos; sempre estavam
sendo vigiados. Deus estava lá. Pode ter sido um Deus
com-preensivo, que aceitasse alguns desvios, considerando a
situa-çãocomo um todo. Ou era um Deus clemente. Mas
selTJprees-lava por perto.
Da mesma form!l que os produtos humanos de Sua criação.
Nos finais do século XI, a Inquisição estava presente na
Fran-ça. Alguns dos protocolos dos interrogatórios incrivelmente
detalhados ainda estão preservados no Vaticano, e Ladurie
(1978) usou-os para reconstruir a vida de uma aldeia nas
mon-tanhas, Montaillou, entre
J294 e 1324. Ele descreve o cheiro,
oOLHAR OE DEUS 1
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• Todos os tipos de crimes registrados
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soai caíram substancialmcnte nos últimos 35 anos - em nll'
meros absolutos de I, 100 para 700.
Gráfico 2.1-1 Todos os tipos de crimes registrados e investigados por mil habitantes, e crimes de calúnia e difamação investigados por cem mil habitantes. Noruega1gS6-1991
O
A minha interpretação dcstes númcros
étrivial. Não
éque as
pessoas sejam hoje mais gentis ulIlas com as outras, ou mais
respeitadoras ela honra alheia. De maneira gera! se podc
di-zer, simplesmcnte, que não há tanto a perder. A honra não
é4Q 30
"[
50 20 10 , lIIiJI,
2.2o
estranhoFoi em Berlim, no ano de 1903, que Georg Simmel publicou o
seu famoso ensaio "O estranho"- "Exkurs über den Fremden",
Para Simmel, o estranho não é a pessoa que chega hoje e vai
embora amanhã, O estranho é aquele que chega hoje e não se
vai amanhã, talvez nunca se vá, mantendo porém,
permanen-temente, a possibilidadc dc partir, Mesmo que não vá embora,
não abandona de todo a liberdade de partir. Ele tcm
consciên-cia disso, assim como os que o cercam. Ele é participante,
émembro, mas menos do que as outras pessoas. Os que o
ro-deiam não podem inlluenciá-Io completamente.
Georg Simmel teria gostado do
Gráfico 2./-1.A linha ascendente nos dá o número por mil habitantes de
to-dos os tipos dc crime investigato-dos pela polícia da Noruega de
1956 até 1989, Esse crescimento
ésemelhante na maioria das
sociedades industrializadas. Em números absolutos, significa
um aumento de 26 mil para 237 mil casos, A outra linha -
cri-mes por ccm mil habitantes e não por mil habitantes, como a
anterior, já que os números são menores - mostra os registros
de crimes contra a honra, calúnia e difamação, atos que ainda
são vistos como delitos no meu país. Como observamos, a
ten-dência aqui
éoposta
àanterior. Os crimes contra a honra
pes-A INDÚSTRIpes-A DO CONTROLE DO CRIME
".,
os sons e a transparência, As moradias não permitiam
priva-cidade alguma, Não haviam sido construídas para isso, em
par-te devido a limitações mapar-teriais, mas também porque a
priva-cidade não era tão importante, Se o Todo-Poderoso via tudo,
por que se preocupar em afastar-se dos vizinhos? A cste
con-ceito se juntava uma antiga tradição, O próprio termo
"priva-do" vem do latim
privare -
que está relacionado com perda,
com ser roubado -, ser privado de algo, Estou aqui, no
domin-go dc manhã, "privado", completamente só atrás dos portões
fechados da Universidade.
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A INDUSTRIA DO CONTROLE DO CRIME
mais tão importante a ponto de levar à polícia uma pessoa que
se sinta ofendida. As sociedades modernas têm uma
abundân-cia de mccanismos - alguns intencionais, outros nem
tanto-que fazem com tanto-que as pessoas já nâo se importem tanto com
as outras quanto se importavam antes. Nosso destino ê
estar-mos sós - privados - ou rodeados de pessoas que só
conhece-mos limitadamente, se é que realmente conhececonhece-mos. Ou
estar-mos cercados de pessoas que podem partir facilmente, que nos
deixarâo com a mesma facilidade dos estranhos. Nesta
situa-çãO, a perda da honra não parece ser tão importante. N inguêm
vai nos conhecer no próximo estágio de nossa vida. Mas, com
esse mesmo sentimento,
as pessoas que nos rodeiam
tam-bém perdem um pouco da inOuência sobre nós, e a linha de
todos os crimes registrados ganha um novo impulso para
cima.
2.3 Onde o crime não existe
Uma das formas de encarar o crime é entendê-lo como uma
espécie de fenômeno básico. Alguns atos são considerados
intrinsecamente
criminosos. O caso extremo são os crimes
naturais, atos tão errados que virtualmente se autodefinem
como crimes, ou pelo menos são vistos como tal por qualquer
ser humano razoável. Este ponto de vista provavelmente em
muito se aproxima ao que a maioria das pessoas sente
intuiti-vamente, pensa e diz sobre crimes graves. Moisés desceu da
montanha com os mandamentos, Kant usou os crimes
natu-rais como base para seu pensamento jurídico.
Mas os sistemas onde prevalecem estes pontos de vista
tam-bém colocam certos limites às tendências criminalizadoras.
O mecanismo subjacente é simples. Pense numacriança,
seu
filho ou de outrem. A maioria das crianças age, por vezes,
de uma forma que a legislação poderia considerar criminosa .
#
oOLHAR DE DEUS
Pode desaparecer dinheiro dc lima bolsa. Seu filho não diz a
verdade, ou pelo menos toda a verdadc, sobre ondc passou a
noite. Ele bateu no irmão. 1\1as, ainda assim, não aplicamos
nesses casos as categorias do direito penal. Não chamamos
uma criança de criminosa, nem seus atos de crimes.
Por quê?
Apenas porque não parece certo fazê-lo.
Por que não')
Porque sabemos demasiado. Conhecemos o contexto: o filho
estava desesperado por arranjar dinheiro, estava apaixonado
pela primeira vez, o irmâo o irritou mais do que alguém
pode-ria suportar - seus atos não tiveram significado, nada
,)C.res-centaria vê-los à luz do direito penal. E conhecemos tâo bem
nosso próprio filho. Com tanto conhecimento, uma categoria
legal seria muito estreita. Ele pegou o dinheiro, mas
lembramo-nos de todas as vezes em que ele generosamente partilhou seu
dinheiro, ou seus doces ou carinho. Bateu no irmão, mas
mui-tas outras vezes o consolou; mentiu, mas continua sendo um
garoto em que se pode confiar.
Isso é verdade. Mas não se aplica nccessariamcnte ao garoto
que acabou de se mudar para o outro lado da rua.
Atos não São, eles s tornam alguma coisa. O mesmo
aCOIHe-ce com o crime •...
O ~rime não existe. ~ cnado. Primeiro,
exis-tem atos. Segue-se depois um longo processo de
atribui"rsigni-ficado a esses atos. A distância social tem uma impor.tância
particular. A distã.ncia aumenta a tendência de atribuir a
cer-tos acer-tos o significado de crimes, e às pessoas o simples
atribu-to dc criminosas. Em outros ambientes - e a vida familiar é
apenas um de muitos exemplos - as condiçôes sociais sâo tais
que criam resistências a identificar os atos como crimes e as
pessoas como criminosas.
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A INDÚSTRIA DO CONTROLE DO CRIME
2.4 Uma oferta ilimitada de crimes
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~- i 3.1 Medidas de dorA quantidadc de punição aplicada pelo sistema jurídico de cada
país pode ser medida de diversas formas. Apresentarei
princi-palmente dados atualizados sobre número de presos. Depois
da morte, o encarceramento é a maior demonstração do
exer-cício do poder à disposição do Estado. Todos somos
submeti-dos a alguma forma de sujeição: forçasubmeti-dos a trabalhar para
so-breviver, a nos submetermos às ordens dos superiores, presos
em classes sociais ou salas de aula, aprisionados no núcleo
fa-miliar... Mas com exceção da pcna capital e da tortura
física-quc são usadas de forma muito limitada na maioria dos
paí-ses que discutimos neste livro - nada
étão completo, em
ter-mos de constrangimento, degradação, c de dcmonstração de
poder quanto a prisão.
Para medir o uso do encarceramento na sociedade, us~rei
da-dos relativos, isto é, o número diário de presos por cem mil
habitantes. Não é um indicador preciso, mas é o melhor que
podemos usar pa~a comparar nações. Steenhuis e
colaborado-res (I 983) criticam seu uso. Uma cifra rclativa baixa,
argumen-tam, pode ser resultado de muitos presos com pcnas pequenas,
ou de apenas alguns com sentenças de prisão perpétua. Mas
não me convenceram. Independentemente da distribuição
en-tre sentenças curtas e longas, parece razoável dizer que um país
que tem 500 presos por cem mil habitantes usa níveis de dor
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Capitulo 3
.
Níveis de dor intencional
IID
IQuando punem o criminoso não são responsáveis. A responsabilidade repousa nos
ombros da pessoa que cometeu o que pode ser chamado de "crime natural". Este qua. dro Tc-ativo - em contraste com o pró-ativo - fornece uma proteç:l.o considerável <lOS que administram o sistema. Arespon.sabilidade pelo que acontecer mais tarde é apenas da pessoa que cometeu o crime. Ele/ela atuam, e as autoridades são forçadas a Tc-agir. Quem começou (oi quem violou a lei; as autoridades apenas restauram o equilíbrio .
Nas sociedades que pouco criminalizam os atos, e onde a
maioria desses atos é evitada apenas pelo olhar de Deus, pela
presença dos vizinhos ou por restrições circunstanciais, a lei
pode ser vista como o receptáculo do que sobrou, do pouco
que escapou à primeira linha de controle, e chegou à atenção
das autoridades. Nesta situação, não existe nem espaço nem
necessidade de discutir a seleção de casos. Os juízes têm que
aceitar o que lhes é apresentado. Têm que reagir.'
Mas, como vimos, não é essa a nossa situação. O sistema
so-cial mudou e hoje existem menos restrições a considerar até
mesmo pequenas transgressões como crimes e seus autores
como criminosos. Ao mesmo tempo, as velhas defesas contra
os atos indesejados desapareceram e foram criadas novas
for-mas técnicas de controle. Deus e os vizinhos foram
substituí-I~
r/J ~<::~ela eficiência mecãnic.a.d~smodernas formas de
vigilân-. {j/'
cla. Vivemos a situação concreta do CrImecomo fenõmeno de
'" lO~
mãssa.
A fúria e a ansiedade - provocadas por atos que
tam-bém poderiam ser facilmente considerados crimes naturais nas
sociedades modernas - se tornam a força motriz da luta
con-tra
todasas espécies de atos deploráveis.
Esta nova sjtuação, que compreende uma ofeI1a ifjmjtada de atos que podem ser de-finjdos como cnInes, Clia também possibjjjdades JJjnútadas de travar uma gueITa contra todas as espéáes de atos jndesejáveis.A tradição ainda viva do período em que os únicos crimes eram
os naturais, aliada a uma oferta ilimitada do que é hoje visto
como crime, preparou o terreno. O mercado do controle do
crime aguarda seus "entrepeneurs".
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intencionais superiores a uma sociedade que tem 50 presos por cem mil habitantes.'
Mais problemática é a interpretação destas diferenças. O nú-mero de presos pode ser visto como um indicador da quanti-dade de crimes cometidos no país. Esta perspectiva condiz com a visão tradicional dos crimes naturais num contexto de reação. O criminoso começa, o judiciário reage. Um aumen-to no número de prisóes é visaumen-to como um indicador de que o número de delitos cometidos aumentou, enquanto a tendên-cia para a queda indica que a situação mudou para melhor. No mesmo momento histórico, sociedades com alto nível de pu-niçãO são vistas como tendo também uma alta taxa de criminalidade, enquanto as que têm índices mais baixos são provavelmente lagos tranqüilos num mundo turbulento. Esta é a forma tradicional de interpretar os dados.
1\ .
),yMas esta interpretação não condiz com a perspectivaapresen-\} j
tada noCapítulo
2. ~le, mostramos uma situação em queI
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existe uma oferta ilimitada de atos que odem ser defimdosj .
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1como cnmes. en o es e o caso, uma mterpretação aternat,-\\ \. ,lp'" - va do número de presos seria vê-lo como produto final de uma ~ miríade de influências: o tipo de estrutura social, a distãncia
ry
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social, as revo!uçóes ou distúrbios políticos, o tipo de sistema • ~., legal, o interesse económico e o nível industrial. ~quilo quesempre é visto como crime também terá seu papel. E uma for-ça entre outras. Mas é uma perspectiva muito estreita olhar o número de presos apenas como um indicador do número de crimes. E não condiz com os dados que se seguem. Deixem-me coDeixem-meçar em casa:
IMuitas vezes sugere-se que o número de admissões às prisões seja usado como
in-dicador. Sua utilizaç~o, porém, leva ao problema de definir o que éuma admissão. A permanência numa cela por quatro, oito ou 24 horas deve ser contada? Ou sÓ de-vem ser contabilizadas as prisões realizadas com ordem judicial? Em algumas juris-dições, a ordem deve ocorrer num prazo de 24 horas. Noutras, a policia pode espe-rar algumas semanas antes de levar a pessoa a um juiz, e só a partir daI a pris~o passa a ser considerada como tal.
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NíVEIS DE Ilon INTENCIONAL
3.2 Os bons velhos tempos?
O Cinífico 3.2-1 contém o nlllllero de presos por cem mil ha-bitantes na Noruega desde 1814, o ano de aprovação da nos-sa Constituição, até o presente. O gráfico tem a forma de uma montanha muito alta sobre a metade do século passado, se-guida de uma população carcerária pequcna c relativamente estável neste século. Os ültimos 15 anos mostram Ulll
contí-nuo crescimento, mas os nümeros relativos não chegaram ao nível da grande depressão dos allOS.10.
O aumento da populaçao carcerária desde 1814 é muito fácil de explicar. Sair do século XVIII significava deixar atrás um grande nümero de penas capitais, bem como açoites, identifi-caça0 de criminosos com marcas a ferro na testa, cortes de dedos e outras mutilaçóes. A transição do tormento físico para a perda da liberdade foi estabelecida e regulamentada numa lei de 15 de outubro de 1815'
Gráfico 3.2-1. NLlmero de presos por cem mil habitantes na Noruega 1814a1991
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[ MDIO GráfICo 3.3-1 baseia-se nas estatísticas carcerárias elo Con-selho da Europa, Mostra dados sobre a população carccrária por ccm mil habitantes, a maioria dos quais ele 1990,
O quc mais chama atenção neste eliagrama é a extrcma 'IariJ-ção entre estas nações européias. No extremo supcrior, encon-tramos os vários países do Reino Unielo: a lielerança é da Ir-landa elo Norte, mas a Escócia está próxima, Durante muito tempo, a Turquia estava perto do Reino Unielo, mas atualmente está muito atrás. Luxemburgo está hoje perto elo topo. No ou-tro extremo do gráfico encontramos a pequena Islânelia e Chipre, mas também, surpreendentemente, a Holanela. A Grécia vem perto ela Holanda, seguida ela Noruega, Itália, República ela Irlanela e Suécia.
NíVEIS DE DOR INTENCIONA\...
Se compararmos os dois gráficos, podemos ver que o número relativo de pessoas declaradas culpadas permanece estável durante a maior parte do século XIX, enquanto o número re-lativo ele presos cai para um quarto do nível ele 1844. O gran-de aumento elo número ele pessoas declaraelas culpadas só co-meça em 1960, Mas isto não influencia o número ele prisões até os últimos anos - 35 anos elepois ele começar o aumento,
3.3 Europa Ocidental
Intuitivamente, o fato ele a Islânelia estar na base do gráfico parece correto. É um país distante ele muitas influências, e tem uma populaçâo tão pequena que "a maioria elas pessoas" se conhece - e talvez mesmo precisem umas elas outras. O con-ceito de honra pode ainda ser importante, Chipre pode ser in-fluenciado pelos Illesmos fatores, Mas logo vcm a Holanda, altamente industrializada e densamente povoada, com gran-des minorias étnicas e onde o acesso às drogas é mais fácil do que em qualquer outro lugar. Se as pop~.lações carcerárias fos-sem vistas como uma medida do número de delitos cometidos, a Áustria e países situados em pontos mais altos do gráfico
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Gráfico 3.2-2 Pessoas declaradas culpadas de crimes por cem mil ha-bitantes, Noruega 1835-1990
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Em vez da perda de uma mao, prisao por dez anos; em vez de trespassar e dilacerar a mao, dois anos de prisao, e em vez de trespassar a mão, um ano de prisao,
Mas esta transição criou novos problemas, O primeiro, e mais importante, foi a pressão que exerceu sobre o sistema carcerário, Em vez de ser uma entre muitas formas de punição, a prisão passou a ser a principal reação ao crime, As peniten-ciárias e outras instituições penais se encheram ao ponto de estourar, De 1814 a 1843, o número diário de presos na Noruega subiu de 550 para 2.325, Isto representou um aumento de 61 para 179 por cem mil habitantes, triplicando no curso de 30 anos, Até que algo de novo ocorreu, Desde 1842 até a virada do século uma série de emendas ao código penal apontou para a redução das penas ou para evitar o encarceramento. Demo-rou cerca de 60 anos para a taxa retornar aos níveis de 1814. Desde então, a taxa de encarceramento na Noruega vem-se mantendo relativamente estável.
Estes acontecimentos não parecem ter uma relação direta com o número de pessoas declaradas culpadas na Noruega. O
Grá-fico 3.2-2 registra os números por cem mil habitantes de 1835 a 1990.
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504 1991 1979 1989 URSS Rússia 660 353 Polônia 300 107 Hungria 134 Canadá 100 111 EUA 230 426 3.4 Tendências mundiaisTabela 3.4-1 Número de presos por cem mil habitantes na URSS (mais tarde Rússia), Polônia, Hungria, Canadá e EUA 1979-1991
A Tabela ],4-1 mostra diferenças dramáticas entre os países e através do tempo. Em 1979, a URSS liderava, com 660 presos por cem mil habitantes. A Polônia vinha em seguida, depois os Estados Unidos com 230 por cem mil c o Canadá no final com números semelhantes ao padrão da Grã-Bretanha.
Olhando os números de 1989, encontramos uma situação com-pletamente mudada. Em dez anos, a população carcerária da Polônia caiu de 300 para 107, e a Hungria caiu de um pico desconhecido para 134.2
A avaliação dos clados da URSS é particularmente complica-da. Durante anos, lutei para conseguir uma visão clara cio la-manho de sua população carcerária. Até a data em que escrevi este livro, o número de presos ainda era considerado segredo de estado. Como mostra a tabela, minha estimativa éde,que tenha caído de 660 em 1979 para 353 por cem mil habitantes dez anos depois.
Minha estimativa se-baseia no seguinte:
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NíVEIS DE DOR INTENCIONAL
2Estes numeros se baseinm em estimativas de colegas, panicularrncl1te Monika
Platek, e tenho todas as razões para acreditar que s110exatos. O mesmo ocorre com os dados da Hungria, fornecidos por Katalin GônczoJ de Budapeste. Sua estimativa
ede que o mlmcro de presos da Hungria IJmhém caiu bnstanle.
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teriam mais de duas vezes o número de crimes da Holanda. Não pode ser.
A ausência de relação entre o número de delitos registrados c a população carcerária se torna mais óbvia se sairmos da Eu~ ropa Ocidental.
Gráfico 3.3.1 Número de presos em palses europeus selecionados 1991. Por cem mil habitantes
Irlanda do Norte 106 Escócia 95 Reino Unido 92 Espanha 92 lnglalerrae Pais de Gales 91 Luxemburgo 90 Áuslna 88 Suiça 85 França 84 Turquia 82 Portugal 82 RepúblicaFederal da .aJemanha78 M~la 67 Dinamarca 66 Finlândia 62 Bélgica 61 Irlanda 60 Noruega 59 Iiâlia 56 Suécia 55 Grécia 50 Holanda 44 Islândia 39 Chipre 38 o 20 40 60 80 100 120
1. Fonte: Conselho da Europa: Boletim de IfJform,1ç,1o c.7fCer.1riil, 1992.
2. Fonte: Conselho da Europa: Boletim deIn{onmlçtJo07fcer,1ria, 1992, dados de 1989.
A INDÚSTRIA DO CONTROLE DO CRIME
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