LIBERDADE, PRIVACIDADE, PERSONALIDADE: OS DIREITOS FUNDAMENTAIS NA LGPD

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LIBERDADE, PRIVACIDADE, PERSONALIDADE: OS DIREITOS FUNDAMENTAIS NA LGPD

Thiago Abdelmajed Chiquita Acadêmico de Direito da UNICURITIBA Estagiário de Justen, Pereira, Oliveira e Talamini Com orientação de Fernão Justen de Oliveira Mestre e Doutor em Direito pela UFPR Sócio de Justen, Pereira, Oliveira e Talamini

Art. 1º Esta Lei dispõe sobre o tratamento de dados pessoais, inclusive nos meios digitais, por pessoa natural ou por pessoa jurídica de direito público ou privado, com o objetivo de proteger os direitos fundamentais de liberdade e de privacidade e o livre desenvolvimento da personalidade da pessoa natural.

Parágrafo único. As normas gerais contidas nesta Lei são de interesse nacional e devem ser observadas pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios.

1. Introdução: os bens de vida tutelados pela LGPD

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD – Lei 13.709/18) alterou o Marco Civil da Internet (Lei 12.965) para instituir um regime jurídico com inspiração no Regulamento Geral de Proteção de Dados da União Europeia (RGPD).

A LGPD regulamenta a Constituição no tocante aos direitos que recaem sobre bens jurídicos fundamentais: liberdade, privacidade e personalidade. A lei reconhece a proteção de dados como direito inerente ao indivíduo, portanto essencial para o desenvolvimento pessoal e coletivo, seja virtual ou presencial.

Para tutelar tais direitos fundamentais, a LGPD estabelece a exclusividade da disposição de dados pelo seu respectivo titular, abrangendo todo uso, proteção ou transferência de dados pessoais no território nacional. Prevê os destinatários de condutas preconizadas, bem como suas responsabilidades e sancionamento.

1.1 Liberdade

O direito à liberdade é um direito fundamental garantido pela LGPD, em consonância com a Constituição Federal. A doutrina generalizadamente reputa que a liberdade, conjuntamente com vida, igualdade, propriedade e segurança constituem um conjunto de direitos tão essenciais que fundamenta a própria República.

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No que se refere à proteção de dados, tal garantia visa a manter sob a tutela do indivíduo a decisão de compartilhar tais dados e em qual extensão. O acesso e disposição desses dados pessoais a terceiros encontra-se na órbita de poder potestativo do seu titular –não podendo ser constrangido a fornecê-los, exceto em circunstâncias excepcionantes da liberdade como regra geral.

1.2 Privacidade

A privacidade recebe prestígio constitucional de direito fundamental. A LGPD protege a privacidade em face do desenvolvimento de tecnologias pelas quais os dados pessoais são cada vez mais compartilhados e a informação passa-se a ser organizada.

Diante da facilitação do monitoramento da vida privada pelo advento da internet, os direitos à privacidade ficaram cada vez mais vulneráveis, necessitando de proteção do legislador, para que não ocorram violações ao direito.

Ainda existem pontos a serem explorados pelo Direito, como até onde a invasão de privacidade seria admissível. Por ora, a legislação entende que a base legal para essa “invasão” é o consentimento, desde que clara, simples e espontânea.

1.3 Personalidade

Assim como o direito à liberdade e à privacidade, o direito ao livre desenvolvimento da personalidade torna-se ameaçado pelo universo virtual – que mapeia a “personalidade virtual” dos indivíduos, armazenando e processando seus afazeres, o que gostam ou não, os desejos de consumo, com o uso frequente dessas informações alheias para gerar receita própria, sem o conhecimento e menos ainda anuência do titular.

Em tal caso, o desafio da LGPD é de adequar o consentimento dos dados fornecidos à internet, fornecendo maior transparência aos usuários.

2. Conceito da LGPD sobre “dados pessoais”

Para compreender a aplicação da LGPD, precisamos entender o que a legislação veio a tutelar. Além dos conceitos colacionados pelo art. 5, I e II, é válido destacar que o RGPD conceitua “dado pessoal” como qualquer informação referente uma pessoa, física ou jurídica, o qual denomina-se “titular de dados”. O “titular de dados” é a “pessoa natural a quem se referem os dados pessoais que são objeto de tratamento” (art. 5.º, incs. I e V).

Todavia, a lei classifica os dados como “dado pessoal” e “dado pessoal sensível”, diferenciando-os. Estabelece que dado pessoal é qualquer informação referente à pessoa natural. Quanto ao dado pessoal sensível, exemplifica: raça, religião, opinião política, dados em relação à saúde e genéticos, que certamente merecem uma maior atenção do regulador.

3. O “tratamento de dados” como categoria jurídica

O tratamento de dados mencionado pelo legislador é referente toda operação realizada com dados pessoais. A lei demonstra um rol exemplificativo

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sobre as atividades que são consideradas como tratamento de dados pessoais: “toda operação realizada com dados pessoais, como as que se referem a coleta, produção, recepção, classificação, utilização, acesso, reprodução, transmissão, distribuição, processamento, arquivamento, armazenamento, eliminação, avaliação ou controle da informação, modificação, comunicação, transferência, difusão ou extração.” (Art. 5º, V).

Para esse tratamento, é inevitável o envolvimento de terceiros, os quais necessitam consentimento do titular para que haja a captura dos dados.

4. Incidência subjetiva

A lei determina, a partir do artigo 17, os direitos subjetivos conferidos aos titulares em face dos controladores, operadores.

Ademais, define os sujeitos encarregados de realizar o tratamento de dados. Estes são: controlador - pessoa natural ou jurídica, de direito público ou privado, a quem competem as decisões referentes ao tratamento de dados pessoais, e operador - pessoa natural ou jurídica, de direito público ou privado, que realiza o tratamento de dados pessoais em nome do controlador.

4.1 O interesse nacional da federação

O parágrafo único do art. 1º dispõe: “As normas gerais contidas nesta Lei são de interesse nacional e devem ser observadas pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios”, observa-se, portanto, a abrangência em todas as unidades federativas, demonstrando preocupação nacional acerca do tema, visto que não são abarcados expressamente pela Constituição.

Por interesse nacional, compreende por assuntos de competência privativa da União para legislar sobre a matéria.

4.2 Pessoas privadas

A proteção de dados não se dá apenas a pessoa física, pois a proteção conferida a determinados direitos de personalidade pode abranger também pessoas jurídicas. Muitas companhias privadas têm suas atividades diretamente ligadas ao tratamento de dados, podendo ser empresas que buscam o resguardo dos mesmos para conferir segurança a outra entidade.

É necessária a extensão da LGPD para proteção de dados das pessoas jurídicas, dado que possuem uma série de dados sigilosos que necessitam de proteção, por serem igualmente titular de direitos, bem como as pessoas físicas, já abrangidas pela lei.

4.3 Pessoa jurídica de direito público

As pessoas jurídicas de direito público, por possuírem extrema importância no tratamento de dados, foram contempladas com um capítulo particular a elas em seu capítulo IV, artigos 23 a 32, possuindo regras próprias que visam cumprir as finalidades do serviço público. O Estado acaba tendo uma abrangência maior, pois detém uma quantidade bastante relevante de dados em sua posse, sejam eles por meio de seus entes da Administração Direta ou Indireta.

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5. O desafio do ciberespaço

O meio digital contém uma enorme concentração de dados pessoais sobre finanças, saúde, litígios, informações trabalhistas, previdenciárias.

A aplicação desafiadora da LGPD demanda uma série de medidas a serem tomadas pelos agentes de tratamento, tanto públicos quanto privados. Porém, todas essas medidas necessariamente passam pela regulação incidente sobre o ciberespaço.

5.1 Disciplina brasileira sobre o meio digital

O conceito digital é recente na doutrina brasileira. Passou a ser tratado com maior atenção após o advento do Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014), onde trouxe disposições acerca de alguns direitos de um cidadão conectado à web.

Apesar de a Constituição ter assegurado como direito fundamental o acesso à informação, não se referiu ao acesso à internet, cabendo ao legislador adequar o ordenamento com a realidade social, quando da contemplação do acesso à internet como um direito social.

5.2 Indução da LGPD a automação de sistemas

Para realizar a adequação a forma exigida em lei, é necessário a utilização de mecanismos que realizem o tratamento de dados de forma automática.

A implementação de sistemas de processos e gestão será essencial para o tratamento de dados coerentes com os deveres definidos na LGPD.

6. Conclusão: o horizonte de aplicação da LGPD

A universalização da conexão em rede se caracteriza pela exposição da pessoa ao ambiente virtual – onde permanecem identicamente protegidos os atributos inerentes a toda pessoa, reconhecidos pela Constituição como direitos fundamentais.

A facilidade de acesso a dados pessoais pode resultar em violação desses direitos fundamentais, cujo uso e disposição cabem somente ao seu titular.

A LGPD se aplica a toda empresa que realize qualquer tipo de tratamento de dados desses titulares terceiros apontados pela lei: coleta, uso, processamento e mesmo a mera conservação.

O tratamento de dados disseminou-se entre os setores da economia, não apenas empresas de serviços virtuais. Todos esses gestores de dados alheios estão sujeitos à aplicação da LGPD. Ainda que o tratamento de dados não se dê exclusivamente com terceiros alheios à empresa, continua sendo aplicável na armazenagem das informações dos colaboradores.

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Informação bibliográfica do texto:

CHIQUITA, Thiago Abdelmajed; OLIVEIRA, Fernão Justen. Liberdade, Privacidade, Personalidade: os direitos fundamentais na LGPD. Informativo Justen, Pereira, Oliveira e Talamini, Curitiba, nº 163, setembro de 2020, disponível em http://www.justen.com.br, acesso em [data].

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