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MEDIANDO A VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS PÚBLICAS DE BELÉM

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Academic year: 2021

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MEDIANDO A VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS PÚBLICAS DE BELÉM

Paulo Rogério de Souza GARCIA1 (FIBRA)

Resumo: O presente artigo trata do projeto de extensão da FIBRA junto à

Escola Mário Barbosa no ano de 2012 a fim de prestar serviço de mediação da violência nas escolas públicas de Belém. Participaram do projeto, docentes e alunos do Curso de Direito, em duas etapas: preparação e mediação. Os conflitos eram encaminhados pela direção da escola aos mediadores para mediação por meio do diálogo e do entendimento. Foram registrados, no período, quinze casos de conflito. A maioria dos casos ocorreu entre alunos do ensino fundamental, entre adolescentes de 13 a 14 anos, com maior incidência de conflitos envolvendo ameaça. A experiência sugere a necessidade de uma gestão escolar democrática e comunitária focada na “convivialidade”. A habilidade em solucionar conflitos requer conhecimento do problema e aproximação dos sujeitos envolvidos e isto foi o maior diferencial da experiência, em termos metodológicos e epistemológicos.

Palavras-Chave: Conflito. Mediação. Valores.

INTRODUÇÃO

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O projeto foi concebido como serviço de responsabilidade social com caráter de extensão para aproximar os discentes do Curso de Direito em relação às escolas públicas de Belém localizadas em áreas sensíveis no sentido de possibilitar aos alunos, sob a supervisão docente, o papel de mediadores em relação aos membros da comunidade escolar. A mediação concilia o conhecimento do fenômeno da violência escolar com o estudo dos direitos constitucionais, da infância e da juventude. Com isso, potencializa-se o ensino-aprendizagem através do binômio teoria-prática em que a observação do problema permite a compreensão do fenômeno jurídico estudado. O projeto teve nuances de uma pesquisa-ação tendo em conta a intervenção na realidade social através da interação pesquisador-pesquisado (Prestes, 2012, p. 29) no trato do problema da violência escolar.

MATERIAL E METODOLOGIA

Foram realizados treinamentos com os alunos da FIBRA para análise da legislação. Houve uma palestra ministrada por um agente do policiamento escolar, bem como a ambientação dos extensionistas na escola Mário Barbosa, antes do atendimento como mediadores. No período de 2012, 14 alunos do Curso de Direito participaram do projeto. Semanalmente, os alunos mediavam os conflitos buscando o entendimento entre os envolvidos, assim como foram desenvolvidas atividades para ocupar o tempo dos alunos como a projeção de vídeos e leitura de textos paradidáticos. Os mediadores organizaram um seminário sobre meio

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ambiente com apoio da polícia ambiental e demonstração de exemplares da fauna amazônica. Foram preenchidas fichas de atendimento tendo inclusive um aluno do curso de Direito aplicado o material na construção de seu trabalho de conclusão de curso. Estabeleceu-se um diálogo entre a direção da escola e a coordenação do projeto para a atuação dos mediadores, conforme o fluxograma abaixo:

Fluxograma: Estrutura do projeto – 2012. Fonte: elaborado pelo autor.

Os casos mais graves deveriam ser encaminhados ao Conselho Tutelar2 ou à DATA3, pela direção da escola. No período, não se registrou nenhum encaminhamento dessa natureza. Apenas um caso registrado foi encaminhado à direção, a pedido do responsável do aluno, para fins de transferência. Quando os mediadores solucionavam o conflito, julgava-se o caso como mediado, sem necessidade de encaminhamento à direção. Vale ressaltar que a mediação não foi concebida como conciliação, pois o problema não é situacional, mas de natureza convivial para satisfação dos

2

Em se tratando de criança, 0 a 12 anos de idade incompletos, conforme o artigo 2º do ECA. 3

Quando há envolvimento de adolescente, 12 a 18 anos incompletos (art. 2º do ECA), o envolvido

conflito direção mediação

direção

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interesses e das necessidades dos envolvidos no conflito (SAMPAIO; BRAGA NETO, 2007, p. 19).

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Procedeu-se a um controle de variáveis como idade, sexo, tipo de ensino, ano que está cursando, turno, tipo de conflito, por meio de fichas de atendimento. Com relação à variável idade, os casos mais frequentes envolveram adolescentes de 13 e 14 anos, e alunos de 11 anos, respectivamente, conforme o Gráfico 1:

Gráfico 1: Idade dos alunos em situação de conflito. Fonte: Elaborado pelo autor.

Outro dado relevante refere-se ao tipo de ensino que o aluno estava cursando. De acordo com Gráfico 2, a maioria dos alunos envolvidos cursava o ensino fundamental.

18% 9% 18% 36% 9% 9% 11 anos 12 anos 13 anos 14 anos 15 anos 17 anos

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Gráfico 2: Tipo de ensino dos alunos em situação de conflito. Fonte: Elaborado pelo autor.

Já o Gráfico 2.1, sugere que a maioria dos alunos em situação de conflito cursava o quinto e o sexto ano do ensino fundamental, seguido dos que estavam no oitavo ano.

GRÁFICO 2.1: Alunos do ensino fundamental em situação de conflito. Fonte: Elaborado pelo autor.

Ao se observar a variável idade e ensino percebe-se que os conflitos são mais frequentes entre os alunos de 13 e 14 anos de idade que estavam no quinto e sexto ano do ensino fundamental. Os dados confirmam um

79% 21% Fundamental Médio 47% 20% 6% 27% 5º ano 6º ano 7º ano 8ºano

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problema frequente no Pará que é a distorção idade-série (SANTOS; FARIAS JUNIOR, 2009, p. 30).

Quanto ao tipo de agressão, os dados revelaram uma maior frequência de casos de ameaça, conforme Gráfico 3. Os casos de ameaça remetem à reflexão acerca da natureza humana na adolescência em que hormônios e neurônios estão em pleno desenvolvimento. A impaciência e o sentimento de invulnerabilidade dos alunos nos conflitos revelaram a necessidade de se trabalhar com a parte emocional dos adolescentes (BEANE, 2011, p. 160).

Gráfico 3: Tipo de conflito.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Em relação à variável sexo, 52% dos envolvidos eram do sexo feminino e 48% do sexo masculino. Não há tendência em função do sexo. Quanto ao turno, 59% dos casos ocorreram pela manhã e 41% pela parte da tarde, não havendo também uma tendência em razão do turno. Por fim, vale ressaltar a visão dos próprios mediadores em relação ao ambiente

28% 43% 7% 7% 14% agressão fisica ameaça bulling furto ofensa

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institucional. Era comum observar a maioria dos alunos nos corredores durante o horário de aula devido à ausência do educador na sala de aula.

Diante disso, os mediadores tentavam ocupar o tempo dos alunos com atividades paradidáticas. Outro fator que chamou a atenção foi a ausência da participação dos pais e responsáveis na vida escolar. Estes só compareciam à escola para resolver problemas dos alunos, ou seja, de modo reativo. A possibilidade de intervenção em uma organização complexa como a escola requer integração, colaboração, participação e compromisso de todos os integrantes da escola para maior comunicação e melhor convivência entre alunos, professores, diretores e pais (SAMPAIO; BRAGA NETO, 2007, p. 108).

CONCLUSÃO

Pode-se concluir que houve um avanço no ambiente escolar com o engendramento de valores através do diálogo e do entendimento percebido com a redução dos conflitos no decorrer do período. Outra evidência foi a mudança de atitude dos alunos que passaram a tomar a iniciativa de comunicar antes à direção as situações de conflito, sem recorrer, a priori, a expedientes agressivos. Contudo, ressalta-se a necessidade de uma gestão escolar com direcione o comprometimento dos educadores com a educação, a educação de valores e civilidade, e o ensinamento dos alunos. A instituição se mostrou dependente do projeto sem se preocupar em institucionalizar uma cultura da mediação de modo sustentável. Quanto aos alunos de Direito, o projeto significou um processo de amadurecimento

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pessoal e a percepção de que as normas jurídicas tem uma dimensão maior quando se está diante da realidade e dos problemas sociais.

REFERÊNCIAS

BEANE, Allan L. Proteja seu filho do bulling. 2. ed. Rio de Janeiro: Best

Seller, 2011.

PRESTES, Maria Luci de Mesquita. A pesquisa e a construção do

conhecimento científico: planejamento aos textos, da escola à academia. 4.

ed. São Paulo: Rêspel, 2012.

SAMPAIO, Costaldi; BRAGA NETO, Adolfo. O que é mediação de

conflitos. São Paulo: Brasileiense, 2007.

SANTOS, Anilson Robinson Pinheiro; FARIAS JUNIOR, Raimundo Sérgio de. O direito de aprender na era dos direitos. In: SANTOS, A. R. P.; FARIAS JUNIOR, R. S. de; GIORDANO, Rosi. (Re)Tratos da infância e

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