Viva o Centro a Pé
O 4º Distrito de
Porto Alegre
Leila Nesrala Mattar
Porto Alegre teve, desde cedo, uma grande ligação com o Guaíba, visto que foi o principal porto exportador e importador do Estado. Nessa época, o meio básico de operação era por via fluvial e lacustre. Esse foi um fator muito importante para a compreensão da importância comercial e industrial assumida pelo 4º Distrito de Porto Alegre, que teve como eixo estruturador a Rua Voluntá-rios da Pátria, antigo Caminho Novo. A proximidade com o Guaíba, elemento dominante da paisagem local, criou estreitos vínculos que ficaram expressos de maneira peculiar nas vivências e nas funções que ali se desen-volveram, como as relativas ao comércio atacadista, depósitos e indústrias.
Cenário de atividades produtivas importantes da capital, a área foi ponto de atração de grande massa de traba-lhadores e imigrantes que ali formaram comunidades, estabeleceram vínculos, relações e construíram suas referências e representações.
As primeiras intervenções nessa área, que se tem notícia, ocorreram no início do século XIX. Ao longo do Guaíba, na então mata existente, um caminho foi desbravado e chamado pela população de Caminho Novo, constituindo-se em um dos primeiros da cidade e que, durante muito tempo, funcionou como elo entre a região central, as chácaras situadas à beira do Guaíba e a Várzea do Gravataí.
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a base do desenvolvimento de Porto Alegre, e a Rua Vo-luntários da Pátria, por sua proximidade com o Guaíba e facilidades junto ao transporte fluvial, constituiu-se importante locus das trocas coloniais. O estabelecimento de ligações com os novos povoados acarretou a construção de estradas de ferro. A primeira delas foi a que ligou a ca-pital a São Leopoldo, implantada ao longo da Voluntários da Pátria e cuja estação, edificada em 1874, localizava-se na esquina com a Rua Conceição.
O crescimento da oferta de emprego e a condição de morar próximo das fábricas levou a um processo de desmem-bramento de antigas chácaras, abertura de ruas e ao lançamento de loteamentos, justificando-se a formação de um bairro operário de múltiplas etnias. As restrições de mobilidade ainda faziam com que moradia e trabalho não fossem segregados e, em subúrbios adjacentes à área central, era possível a construção de casas de diversos padrões, inclusive chalés de madeira, cuja tipologia sofria restrições em determinadas áreas urbanas.
O progressista setor industrial
Certas edificações fabris podem ser reconhecidas como pontos importantes no contexto geral da área, pois foram elementos de atração para trabalhadores, influenciaram outros setores e também o próprio modo de viver daquela comunidade, que, de certa forma, or-bitava em seu entorno. Algumas tornaram-se marcos do 4º Distrito, seja pela sua intensa atividade econô-mica, ou pela força da sua imagem e capacidade de servir de referencial na paisagem local. Em torno de alguns exemplares fabris, ou nas suas adjacências, foi construída uma série de edificações residenciais,
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evidenciando-se a relação de proximidade existente entre moradia e trabalho.
Diversos foram os estabelecimentos industriais cujas manufaturas tornaram-se conhecidas em todo o país, como a fábrica de pregos Pontas de Paris, perten-cente a João e Hugo Gerdau. Em 1922, já era citada como um dos grandes estabelecimentos no gênero, cuja produção era capaz de substituir os até então importados. João Gerdau, e posteriormente seu filho Walter, foram proprietários de uma fábrica de cadei-ras, pioneira no uso de madeira vergada a vapor, tipo Vienense, tornando-se uma das mais importantes do país. Sua tradicional sede localizava-se no quarteirão compreendido entre a Voluntários, Brasil e Missões. Outra indústria importante para a cidade, no ramo da metalurgia, foi a Wallig. A edificação instalada nos quarteirões que compreendiam as ruas Voluntários, Almirante Barroso e Câncio Gomes, ocupava-se da fabricação de fogões, cofres, camas, móveis de ferro e artigos afins.
Na esteira do desenvolvimento da agricultura, o cultivo do arroz também teve seu beneficiamento garantido nos engenhos, como o Kessler, também localizado na Voluntários; bem como o trigo, através dos tradicionais Moinhos Rio-Grandense (1916) e o Moinho Chaves (1921). No tocante aos aspectos arquitetônicos, as edificações referentes aos dois moinhos representam singulares exemplares fabris, graças aos seus avan-ços em relação à modernidade. Numa época em que o decorativismo das fachadas era a tônica, inovaram através da adoção de materiais padronizados, utili-zação do concreto armado, concepção baseada em estrutura independente, conceitos de planta livre e soluções quase destituídas de adereços, sendo em
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tempo precoce, prenúncio de postulados que seriam
aceitos posteriormente.1
Dois outros importantes estabelecimentos industriais marcaram a história do bairro, as indústrias Renner, ligada ao setor do vestuário, e a fábrica de chocolates
Neu-gebauer, uma das suas pioneiras. Convém salientar que
o ramo têxtil foi muito importante para o local, sendo que as três maiores indústrias, Renner, Fiateci e Rio Guahyba, localizadas na Voluntários da Pátria e proximidades, na década de 1940, representavam ¼ do total de operários e de capital de toda a indústria da capital.
Cabe ainda mencionar o tipo de comercialização exercida através dos inúmeros armazéns instalados ao longo do Guaíba e suas adjacências. Essas edificações efetuavam compra e venda de mercadorias por atacado, oriundas de diversas localidades do interior, ou mesmo de outros estados. Alguns armazéns localizados na Voluntários da Pátria tinham tipologia adaptada aos diferentes fluxos de carga e descarga: do lado do Guaíba, contavam com de-pósitos construídos junto às extremidades dos trapiches, a fim de receberem as mercadorias via fluvial, e do lado que fazia frente para a rua, possuíam galerias cobertas no
pavimento inferior, junto à rua, onde circulava o trem.2
Seu valor deve-se ao fato de que, nesses anos, Porto Alegre exercia a função de entreposto comercial do Estado, como se evidencia através dos inúmeros atacadistas que havia no local e que desempenhavam o papel de intermediação
entre o produtor e a venda, ou entre o industrial e o lojista.
1 Ver: WEIMER, Günter. Arquitetura Modernista em Porto Alegre entre 1930 e 1945. Porto Alegre: Prefeitura Municipal de Porto Alegre/ Secretaria Municipal da Cultura/Unidade Editorial, 1998. 2 Ver: MATTAR,Leila Nesralla. Porto Alegre: Voluntários da Pátria e a experiência da rua plurifuncional (1900-1939). Porto Alegre, 2001. Dissertação de Mestrado em História, PUCRS, p.251.
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Um lugar singular
No contexto geral da capital, o 4º Distrito ficou conhecido através de representações ligadas a operários, imigran-tes, ao setor industrial e comercial, e aos principais aces-sos e ligações da cidade. Durante algum tempo, por sua estrutura e condição de autosuficiência no atendimento às necessidades do seus moradores, bem como aos da cidade, ficou conhecido como bairro-cidade.
A Avenida Presidente Roosevelt e suas adjacências foram as áreas de concentração dessas instituições, assim como um diversificado comércio local. Uma das grandes diversões dos moradores do bairro era o cinema, desde o tempo em que as projeções eram mudas, como o Navegantes,
cons-truído em 1921, em edificação ainda existente, de traços
historicistas, situada na esquina da Cairu com Rio Grande, e o Talia, na Presidente Roosevelt, cujo primeiro projeto é de 1917. Outras formas de lazer eram exercidas, merecendo especial atenção as sociedades e clubes desportivos, que, como os templos e educandários, refletiam os diversos grupos e identidades existentes na área, testemunhas da presença de estrangeiros no bairro. Nesse sentido, destaca-se a edificação de dois pavimentos da Sociedade Carnavalesca Gondoleiros existente até hoje, na esquina da Avenida Presidente Roosevelt com a Moura Azevedo. Sua fachada adota uma linguagem de características historicistas, repleta de adornos e elementos escultóricos de referências temáticas italianas, que se tornou um re-conhecido marco dessa avenida. Outras duas instituições muito atuantes foram a Sociedade Polonesa e a Sociedade Ginástica Navegantes São João.
Evidencia-se, também, a profunda religiosidade das diversas comunidades do distrito industrial, tal o
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mero de templos ali encontrados: a Igreja Evangélica Navegantes, na Sertório, posteriormente denomina-da de Igreja denomina-da Paz; as igrejas Luterana de Cristo; Metodista Institucional; e Nossa Senhora de Monte Claro, na Presidente Roosevelt; a Igreja São Geraldo, na Farrapos; e a tradicional Igreja Nossa Senhora dos Navegantes.
O remo, introduzido na cidade pelos alemães, tornou-se um dos esportes mais tradicionais do bairro, praticado nas águas do Guaíba também por italianos e polacos. Um grande número de alemães preferia o clube de regatas Almirante Barroso, enquanto os italianos frequentavam o Duque de Caxias (Canottieri Ducca Degli Abruzzi),
fun-dado por antigos remadores de origem italiana.3 Assim,
a vinda do remo para a região popularizou o lazer, os encontros e os prazeres à beira do Guaíba.
Outros eventos congregavam essa comunidade, como
os festejos do carnaval de rua, ou melhor, da Avenida
Eduardo, antiga denominação da Presidente Roosevelt. De todas as festas e comemorações populares do bairro, a mais tradicional sempre foi a Festa dos Navegantes, com a procissão do dia 2 de fevereiro.
Assim, o lugar adquiriu uma espécie de caráter pró-prio, que reforça o sentido dado à noção de singulari-dade que o distingue. Associa-se a esses referenciais, uma complexa organização baseada na mistura e na heterogeneidade, características de um ambiente plural.
3 MONDIN, Guido. Burgo sem água (reminiscências do 4º Distrito). Porto Alegre: Feplam, 1987,p.115.
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Permanências e transformações
Uma série de transformações ocorridas nesse territó-rio, associadas à ideia de modernidade e progresso, acarretaram alterações na sua morfologia urbana. Na época da sua implantação, a larga Avenida Farrapos ocasionou uma mudança radical na paisagem local, pois sendo traçada no centro do bairro industrial, de certa forma tornou-se um grande divisor na área do antigo 4º Distrito. Igualmente, as cirurgias urbanas efetuadas nas décadas seguintes deixaram marcas visíveis na sua fisionomia, como a construção da Travessia Getúlio Vargas que, conduzindo o tráfego através da Avenida Sertório, transformou os territórios adjacentes e des-caracterizou antigos sítios, como a tradicional praça dos Navegantes e o santuário de Nossa Senhora dos Navegantes. A intervenção originada pela inserção do complexo viário no cruzamento das ruas Voluntários da Pátria e Conceição causou o seccionamento do an-tigo Caminho Novo, criando fortes barreiras através da elevação do nível das pistas e descaracterizando antigos prédios, como o edifício Ely. Somam-se a essa série de alterações as instalações do Porto, que motivaram a exigência de sucessivos aterros para sua viabilização, e a avenida Castelo Branco que, situada sobre um dique de proteção contra enchentes, assumiu uma posição mais alta em relação ao seu entorno. Assim, tornou-se inevitável o gradual e definitivo afastamento entre a Rua Voluntários da Pátria e o Guaíba, no passado parte integrante da mesma. Uma combinação de atividades tradicionais do lugar mantinha essa estreita relação, e era a expressão dessa adjacência.
A partir de 1960, intensificou-se o progressivo deslo-camento de diversas indústrias de Navegantes para
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outras cidades vizinhas, e novos usos surgiram na área. As ligações entre Sertório até Assis Brasil, e tam-bém à BR116, foram determinantes para a expansão industrial na direção de Canoas, Cachoeirinha e Gra-vataí. Pouco depois dessa década, o uso residencial entrou em processo de estagnação e descaracterização, modificando-se o conteúdo social da área, que, com a introdução de outras atividades, acabou sofrendo grandes transformações físicas, como o exemplo das transportadoras, que prejudicaram o sistema de circulação daquelas ruas. Usos tais como garagens, sedes de transportadoras, oficinas, depósitos de papéis velhos e mesmo a ausência de ocupação, que passa-ram a ser predominantes, não contribuem para criar animação nem propiciar atrativos para uma maior movimentação de pessoas.
Considerações finais
No transcorrer da história de Porto Alegre, um núcleo miscigenado, heterogêneo e plurifuncional concentrou-se nas adjacências da Rua Voluntários da Pátria, concentrou-sede das primeiras instalações fabris da cidade e via especial-mente responsável pelo caráter do lugar. Inicialespecial-mente, estruturada na forte relação entre moradia e trabalho, desenvolveu-se a partir de uma realidade baseada na mistura de atividades e coexistências de tempos e es-paços diversos, em que o provinciano e o rural mescla-vam-se à urbanidade. Sua estrutura espacial, marcada pela plurifuncionalidade, gerava poucos deslocamentos entre moradia e local de trabalho, ao mesmo tempo em que agregaram-se a essas duas esferas da vida urbana, as atividades de lazer e de socialização.
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Assim, o distrito industrial da cidade, como local de residên-cias, comércio diversificado, fábricas, atividades de lazer, encontros e trocas nas ruas, em festas, clubes, cinemas e bares, era um lugar plural. Essa pluralidade garantia sua animação em diversas horas do dia, bem como nos finais de semana, também reunindo uma heterogênea gama de fre-quentadores: trabalhadores, moradores, viajantes, pessoas que se dirigiam ao comércio, ao lazer ou a outros propósitos. Esse universo da modernidade torna-se singular na cidade, à medida em que as fábricas representam os elementos que deram o tom ao contexto, bem como, um trato diferente das questões estéticas, de qualidade arquitetônica e econômica, que auxiliaram a consolidar essa paisagem urbana, que fez de si mesma sua própria história e, como não, também da capital.
Ao longo dos anos, o distrito passou por diversas trans-formações, de ordem funcional, econômica e social, que alteraram a antiga realidade heterogênea e diversa. Assim, sua pluralidade foi abalada, e os elementos que garantiam sua diversidade tornaram-se insuficientes e incapazes de manter a antiga vitalidade, produtividade e desenvolvimento. As mudanças sofridas ao longo de décadas acabaram crian-do fronteiras, fragmentancrian-do, separancrian-do e especializancrian-do territórios. Ficaram na lembrança as antigas vivência.
Referências bibliográficas
BUCCELLI,Vittorio. Un Viaggio a Rio Grande del Sud.
Milão: Pallestrini,1906
FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS,1992.
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FRANCO,Sérgio da Costa. Porto Alegre e seu comércio. Porto Alegre: Associação Comercial de Porto Alegre,1983
MATTAR, Leila Nesralla. Porto Alegre: Voluntários da
Pátria e a experiência da rua plurifuncional (1900-1930).
Dissertação de Mestrado em História, PUCRS, Porto Alegre, 2001.
MATTAR, Leila Nesralla. A modernidade de Porto Alegre:
arquitetura e espaços urbanos plurifuncionais em área do 4º Distrito. Tese de doutorado em História, PUC-RS,Porto
Alegre, 2010.
MONDIN, Guido. Burgo sem água (reminiscências do 4º
Distrito). Porto Alegre: Feplam, 1987.
WEIMER, Günter. Arquitetura modernista em Porto Alegre
entre 1930 e 1945. Porto Alegre: Prefeitura Municipal de
Porto Alegre/Secretaria Municipal da Cultura/Unidade Editorial, 1998.
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