O FIGURINO NOSSO DE CADA DIA

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O FIGURINO NOSSO DE CADA DIA

Resumo: Este trabalho faz uma reflexão acerca da relação das roupas

comuns com o figurino cênico, com base nas considerações do sociólogo Erving Goffman na obra “A representação do eu na vida cotidiana”. Considerando esta análise, é realizado um estudo sobre figurino, figurinistas e suas interfaces com o campo da moda. Além de tratar também da importância da visualidade do figurino cênico e do social e sua comunicabilidade através de discursos não-verbais do vestir.

Palavras-chave: Figurino, Moda, Imagem, Linguagem

Abstract: This work is about the relationship between common

clothes and costume, based on the words of the sociologist Erving Goffman in his work “The Presentation of Self in Everyday Life”. Considering this analysis is developed a study about costume, costume designers and their relationship with the fashion world. Besides, there is a discussion about the importance of visual aspects in the costume and its communicative work throughout non-verbal discursive facts.

Keywords: Costume, Fashion, Image, language.

Constantemente podemos observar nas cidades, nas ruas, nos lugares em que circulam os indivíduos, um fenômeno social: diversos corpos trajados das mais variadas formas transitam em vai e vem, pessoas, anônimas ou não, indo e vindo para o trabalho, para as compras, para um passeio, para um exercício físico. Para destinos e cenários variados. Estes transeuntes são personagens do real e por meio daquilo que vestem nos dão pistas sobre quem são, do que gostam e do meio social no qual estão inseridos. As roupas que um dia selecionaram para comprar e que, naquele momento, escolheram para vestir, servem para que eles se caracterizem para a grande performance diária que é a vida em sociedade.

O sociólogo Erving Goffman (2006) em sua obra “A representação do eu na vida cotidiana” analisa o comportamento do homem em sociedade tentando relacioná-lo ao contexto teatral. Segundo ele, os indivíduos em suas vidas cotidianas representam vários papéis: de mãe, de pai, de jovem, de velho, de mulher, de homem, de advogado, de médico, de artista. Para

Graziela RIBEIRO1 graziela_ribeiro@hotmail.com

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cada papel um comportamento, uma expressão, um gesto, uma fala, um modo de agir e, também, um modo de vestir, um figurino.

A partir desta reflexão, Goffman (2006) faz alusão ao universo cênico, interligando a representação social à representação teatral e, desta forma, se apropria do vocabulário das artes cênicas para correlacioná-la com a linguagem de análise comportamental. Nesse contexto, o autor então transporta o cenário teatral para o que chama de cenário social, que nada mais é do que a sociedade propriamente dita. O homem em sociedade, o ator social, passa a ser observado como um ator cênico e o seu figurino social, suas roupas são consequentemente, “transformadas” em figurino cênico.

De acordo com a definição de Marcos Sabino, em seu Dicionário de Moda, figurino é o termo usado para designar “a indumentária utilizada por qualquer personagem em teatro, cinema, show ou televisão. Pode também ser aplicada para denominar o conjunto das roupas e acessórios especialmente criado ou composto para qualquer um desses eventos” (SABINO, 2007, p. 265).

Se pensarmos que teatro, cinema e televisão são simulacros da vida real, podemos dizer que a roupa que vestimos pode metaforicamente ser chamada de figurino. “Roupa é também teatro e vestir-se é assumir uma personagem, uma persona. A palavra persona era o nome da máscara no teatro grego, de onde vem “personagem”, o usuário de uma máscara. Persona é o que os outros enxergam em nós” (NERO, 2007, p.27).

No mesmo dicionário, temos a definição de figurinista como

o responsável pela criação de roupas e acessórios seguindo o perfil dos personagens propostos pelo autor e/ou diretor, em filmes, óperas, balés, peças teatrais, novelas, seriados e outros programas de televisão. O figurinista pode desenhar todo o guarda-roupa ou optar por um mix de peças criadas por ele, em composição com outras já disponíveis no mercado (SABINO, 2007, p. 264).

Isso quer dizer que, ao adentrarmos em uma loja de departamentos, em um shopping, abarrotado de roupas comerciais da indústria prêt-à-porter, estas, inevitavelmente, estão destinadas a desempenhar também o papel de figurinos, na medida em que são elementos que constroem as personagens que atuarão na nossa sociedade. Sem esquecer que estes atores/indivíduos, que darão vida a estas personagens, devem buscar trajes que estejam de acordo com o enredo de suas vidas, com seu perfil psicológico, com o seu roteiro “pré-estabelecido” e decupado, enfim, uma história de não-ficção, que inspira a ficção.

Nesse sentido, então se percebe que todo mundo de certa forma, acaba tornando-se figurinista de si mesmo, pois obrigatoriamente devemos

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sempre pensar nas personagens que precisamos representar em nossos cotidianos, em certos grupos, em certos lugares, em certas horas. Apesar de haver sempre uma predominância de estilo e gosto, de escolhas pessoais e adequação à situação econômica, quando tomamos decisões a respeito do nosso vestir, devemos refletir a respeito dos “espetáculos” que integram nosso dia-a-dia e pensar que, para cada “performance” social, para cada cena, existirá um traje, um figurino que busque ser coerente com um contexto, influenciando nossa atuação.

Talvez ainda encontremos alguns coadjuvantes sociais, aqueles que parecem estar à margem dessa teia da representação na sociedade, ou que ainda não possuem maturidade para perceber o jogo da representação. As crianças, por exemplo, em sua maioria, não escolhem as roupas que vão comprar e/ou usar, apesar de algumas exceções e das mudanças no histórico da concepção da roupa infantil, os pais ainda interferem na criação da imagem daquele sujeito. Mendigos, outsiders e pessoas de baixa-renda que recebem doações de roupas, pouco podem decidir a respeito do que vão usar.

No geral, é perceptível, pela linguagem não verbal do vestir, reconhecer os elementos que identificam as personagens sociais. No camarim /casa, um punk escolhe uma roupa preta, os braceletes, a calça skinny, o jeans, as tachinhas que, juntamente com a forma de pentear o cabelo, comunicam ao “respeitável público” sua visão de mundo. Estas características funcionam como pistas para os espectadores perceberem seu papel e como é sua atuação na cena social. Nesse sentido, o vestir faz parte da etapa de caracterização, e ajuda o sujeito a incorporar esta personagem transgressora, de aparência agressivamente justificada pelo caráter de protesto.

Do mesmo modo, um advogado deve escolher seu traje, exteriorizando características de seu papel, considerando também o cenário em que atua socialmente. Geralmente representando um estilo mais formal, seu figurino pode ser composto de terno, gravata, calça comprida, que certamente o ajuda a internalizar a personagem séria que deve representar, pelo menos em seu ambiente de trabalho, tanto para o público quanto para si mesmo. Sobre esta questão de trajes profissionais, é claro que atualmente não se pode generalizar, porém, é fato que os estereótipos existem na vida real, e falando em termos da adaptação para uma ficção, eles ajudam diversas vezes o figurinista a criar, seguindo a dinâmica das figuras estereotipadas pela realidade. Existe um vídeo documentário do cineasta alemão Wim Wenders, chamado “Identidade de Nós mesmos”, 1989, sobre o estilista japonês Yohji Yamamoto que, em um dado momento, fala sobre a importância da pesquisa de imagem na sua criação. Nesse trecho, ele enfatiza o gosto pessoal dele em observar fotos antigas, de pessoas comuns de outras épocas. O estilista destaca, nesta ação, o fato de antigamente

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se reconhecer a profissão das pessoas através das características de suas roupas. Em algumas áreas, isso não mudou muito e o vestir ficou institucionalizado. (WENDERS, 1989)

Em “A Linguagem das Roupas”, a autora, Allison Lurie (1997), aborda o ato de “vestir” como uma forma de linguagem própria, relacionada à comunicação não verbal e composta por elementos que funcionam como uma espécie de “vocabulário” cujo léxico é composto por tecidos, cores, formas, texturas e modelagem como meio de expressão. Após a introdução deste tipo de abordagem do significado das roupas, por Roland Barthes, nos anos 60, muitos reconheceram na roupa um veículo de comunicação visual e, por vezes, tentaram compará-la à linguagem verbal, relacionando seus elementos a tópicos de gramática ou linguística. Esse fato ocorreu para facilitar a compreensão sobre o estudo da visualidade, talvez seja através desta analogia com o sistema escrito que o homem consiga decodificar a informação acerca do campo visual.

Retomando a questão da comunicação por meio do vestuário, acredita-se que cada elemento de um traje, figurino ou não, vincula sim uma mensagem, direta ou indireta. Simbolicamente, modelagem, tecido, cor, forma, volume reafirmam que “um determinado texto do corpo vestido por uma segunda pele pode conter vários códigos que colaboram entre si para a construção do seu discurso” (CASTILHO, 2009, p. 142).

No que concerne ao “símbolo”, sabe-se que na semiótica este termo é descrito como um signo que representa uma idéia através da relação de associação, ou seja, algo que se remete à outra coisa, mas não literalmente. Na realidade, qualquer roupa é dotada de simbolismos, estes advindos de distinção de sexualidade, bagagem cultural, ideologias políticas, situação econômica, posição social, nacionalidade, manifestação de personalidade, dentre outros inúmeras marcadores de discursos. Esta é, dentre as outras várias funções da roupa, tais como proteção e adorno, uma das possibilidades oportunizadas pelo uso do vestuário. E são os olhos que reconhecem estas mensagens, quando apreendem estas significações lançadas ao mundo, por meio desta linguagem não-verbal.

Voltando ao pensamento de Goffman e partindo do princípio de que as roupas são os figurinos sociais dos sujeitos inseridos nesta discussão, vemos que a moda, pela dinâmica de suas tendências e de sua indústria, trabalha diretamente na construção destes figurinos. Com isso, destacamos a conexão que há entre o estilista, na figura de criador desta moda que funciona como figurino social e o figurinista que é, de fato, cênico. Entre ambos existem muitas coisas em comum, a prática de “criar roupas”, de dar vida a “panos” como forma de se expressarem para o mundo, é um dos aspectos principais, assim

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como a necessidade do domínio técnico para que se obtenha o melhor resultado em termos de uso de materiais, cores, texturas e modelagem.

Sabe-se que um figurino não deve ser construído dentro dos parâmetros da elaboração de vestuário comum da indústria da moda. O figurinista é diferente do estilista e Moda é muito diferente de traje de cena, porém, há tempos que o campo de figurino vem sendo explorado por profissionais advindos do mercado da moda. Historicamente, são vários os exemplos de estilistas que fizeram figurino: Chanel, Paul Poiret, Paco Rabanne, Givenchy, Lagerfeld. Um dos casos de sucesso mais famosos é do estilista francês Christian Lacroix, que já participou de diversas montagens de óperas e balés. Tendo realizado, em 2009, uma mostra composta por croquis e figurinos por ele confeccionados:

Fig 1 – Figurino criado por Lacroix da ópera “Cosi fan tutte”, de Mozart.

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Somando-se ao exemplo acima, destaca-se um mais atual, que foi o caso da dupla de estilistas holandeses Viktor & Rolf. Em 2009, a dupla se envolveu no trabalho de concepção do figurino da ópera “Der Freischütz”:

Fig 3 – Croqui de Lacroix com o traje da personagem da ópera

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Usando um exemplo da moda nacional, temos o mineiro Ronaldo Fraga, que também, em 2009, assumiu o desafio de criar o figurino para uma montagem da ópera Erwartung, composta por Schöemberg. Além de ter concebido o figurino do Balé “Passanoite”, da São Paulo Companhia de Dança.

Para citar outros exemplos brasileiros e recentes, em 2009, o estilista Marcelo Sommer criou o figurino e o cenário do show musical do cantor Arnaldo Antunes que, inclusive, esteve em Belém nesse mesmo ano. Além destes, há também o caso do estilista Jum Nakao que já fez vários figurinos para óperas, balés e televisão.

Figs 6 e 7 – Figurinos de Viktor & Rolf para a ópera “Der Freischütz”.

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Particularmente, o figurino de TV e sua conexão com a moda é um capítulo à parte, quando se fala da realidade cultural brasileira, principalmente no que diz respeito ao figurino de novelas. Portanto, por esta razão, ele não será abordado nesta reflexão em particular. Neste breve levantamento, foram utilizados apenas exemplos de trabalhos feitos no ano de 2009. Com exceção do Lacroix que, em 2009, teve apenas uma exposição retrospectiva de figurinos feitos em anos anteriores.

Para Daniela Thomas “o conceito de figurino é bem diferente do conceito para moda, porém a moda funciona como um grande campo de referência”. (MUNIZ, 2004, p.138). De fato, moda e figurino são duas coisas díspares, porém, que agem nas interfaces e fatores em comum, como conhecimentos sobre tecidos, técnicas de tingimento, de envelhecimento e mesmo de desenho que, de qualquer maneira, é a linguagem que vai materializar as ideias que devem ser transmitidas à modelista e/ou costureira.

Segundo depoimento de Fábio Namatame em Vestindo os Nus, “a base da moda e do teatro são as mesmas: modelagem, acabamento, a tradicional para confecção. O figurino deve ser mais amplo, ter mais volume, usar outro tipo de material e não só tecidos que seriam possíveis para roupas do cotidiano” (Ibdem, p. 176).

Certamente, o movimento contrário, de figurinistas na moda, tem uma grande tendência ao sucesso, mas até o presente momento, o único relato registrado neste sentido foi do figurinista paraense Cláudio Rego, que participou e venceu um concurso de criação em moda promovido por um shopping de Belém.

Independente da área, tanto na criação em moda quanto no figurino, a pesquisa é fundamental e deve ser ampla e em todos os sentidos, abrangendo pesquisa de espaço, de materiais, de cores, bibliográfica, iconográfica, literária, de preços, histórica e de moda. Na realidade, o ideal é que o profissional sempre utilize a prática da pesquisa e que assim forme um repertório relevante de informações, tornando o ato de criar roupas, mais dinâmico e consistente.

REFERÊNCIAS:

CASTILHO, Káthia. Moda e linguagem. 2ª edição. rev. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2009.

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis:Vozes, 2006.

LURIE, Alison. A linguagem das roupas. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. MUNIZ, Rosane. Vestindo os Nus: o figurino em cena. Rio de Janeiro: Senac Rio, 2004.

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da moda. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2007.

SABINO, Marco. Dicionário da Moda. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. WENDERS, Win. Identidade de Nós Mesmos [Vídeo documentário]. Direção: Wim Wenders. Europa Filmes, 1989.

_______________ Notas

1 Estilista, graduada em Letras pela Universidade Federal do Pará e em Moda pela Universidade da Amazônia. Estudante do Curso Experimental de Figurino da ETDUFPA e Mestranda em Artes do Instituto de Ciências da Arte da UFPA.

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