Ivan Domingues
EPISTEMOLOG1A DAS CIÊNCIAS HUMANAS
T O M O 1: P O S I T I V IS M O E H E R M E N Ê U T IC APr o je t o g r á f ic o: So Wai Tam
Edições Loyola
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seus fundadores está perdida
Sumário
A p re se n ta ç ã o ... 11 In t r o d u ç ã o g e r a l- Paradigmas e m odelos das ciências hum anas
no século XX: das hum anidades às ciências do hom em —
As duas grandes b ifu rc aç õ es... 15
PRIM EIRA PARTE
FO R M A S DE R A C IO N A LID A D E E E ST R A T É G IA S D ISC U R SIV A S D A S C IÊ N C IA S H U M A N A S N A CO N T EM PO R A N EID A D E
1 O argum ento do conhecim ento do criador
e as ciências h u m a n a s... 33 2 Paradigm as e m odelos nas ciências h u m a n a s ... 49 3 Padrões de cientificidade nas ciências hum an as — Formas
de explicação (com preensão) da realidade hum ano-social ... 85 4 Sobre a descrição, a explicação e a interpretação (com preensão):
problem as, paradoxos e co n trov érsias... 103 5 As ciências hum anas e a exigência de objetividade:
as vias de Durkheim , M arx, Freud e W e b e r... 137
SE G U N D A PARTE
O PO SITIVISM O E A SO C IO L O G IA : DURKHEIM
1 O positivismo e as ciências h u m a n a s... 167 2 Durkheim e a fundação da sociologia com o ciência em pírica
4 A fundação da sociologia da religião:
o caso d ’As form as elem entares d a vida r e lig io s a... 243 5 As dualidades fundadorasto S u icíd io e as
F orm as elem entares d a vida re lig io sa... 281 6 O im pacto da obra de D urkheim e seus críticos: a exigência
de verificação em pírica dos fenôm enos sociais —
Reform ulação, enfraquecim ento e a b a n d o n o ... 293
T E R C E IR A PARTE
A H ERM EN ÊU TIC A , A SO C IO L O G IA E A H IST Ó R IA : WEBER
1 A herm enêutica e as ciências h u m a n a s ... 345 2 Weber, as ciências hu m an as e a h istó ria ... 375 3 W eber e a fun dação da sociologia com o ciência com preensiva
objetivante: d ’A ética protestante e o espírito do cap italism o
aos ensaios sobre as seitas e as religiões m u n d iais... 439 4 O m étodo das ciências histórico-sociais e a decifração
do sentido: a quebra do círculo herm enêutico, a aplicação dos esquem as com preensivos ao real em pírico e a instauração
das grandes d u a lid a d e s... 507 5 As ciências com preensivas, a herm enêutica
e a história: im pacto, obstáculos e lim ite s... ... 595
C O N C L U SÃ O
As ciências h um an as diante do Tem plo de Delfos:
do C onhece-te a ti m esm o ao desconhecim ento de si m esm o — As form as objetivadas e o fim da ilusão ob jetiv ista... 627 Referências b ib lio g rá fic a s... 651
Apresentação
Este primeiro volume de Epistemologia das ciências humanas. Po
sitivismo e Hermenêutica, de Ivan Domingues, apresenta o resultado
parcial das pesquisas que o filósofo mineiro vem há tempos realizando sobre a epistemologia das ciências humanas. Completando os estudos, deve seguir-se um segundo volume dedicado a Marx e Lévi-Strauss. As vias percorridas compõem o que poderíamos chamar de “o círculo matricial” do discurso sobre a sociedade na modernidade tardia. Se di vidíssemos o círculo em quatro zonas de coordenadas, teríamos Durk- heim ao norte, ocupando o espaço da positividade instauradora da ciên cia sociológica, segundo o modelo de uma física social centrada na expli cação; ao sul, Max Weber, de quem a leitura do Autor faz ressaltar a via hermenêutica, sobretudo no que diz respeito aos estudos sobre a sociolo gia da religião. Na linha horizontal, à esquerda, teríamos Marx, e é claro a dialética, ao qual viriam contrapor-se Lévi-Strauss e o estruturalismo, no último lugar disponível. Situados desse modo os pontos cardeais, res tava ainda descobrir a pulsão latente e central da psicanálise freudiana, da qual o Autor não descura, a soprar em todas as direções, como o vento
que não se sabe de onde vem nem para onde vai. O esboço traçado permite compreender toscamente o vulto do empreendimento.
Com o primeiro ponto, é bom que se diga que não se trata de uma exposição histórica, como é comum entre nós. Mais do que isso, esta mos diante de um exame crítico rigoroso, que vai direto à matriz racio nal dos textos estudados, melhor dizendo, ao assunto que neles se pre serva. Segundo ponto, a perspectiva adotada evita as motivações indi viduais de cada autor sem perder-se em abstrações. São todos convoca dos a responder a uma pergunta precisa: Com o é possível articular o discurso das ciências humanas na contemporaneidade? Pois, de quem e de onde falamos, senão de nós mesmos, do ponto de vista que sempre nos é presente? Tal perspectiva permite escapar aos infortúnios da diacronia histórica, quer dizer, quem vem antes, quem vem depois? Que modo de vida explica a explicação? Nesse sentido, o livro de Ivan Domingues aproxima o que o tempo se encarregou de dispersar, e exige da razão a clareza dos princípios. Dir-se-ia que Chronos, o tempo medido do calendário, é suplantado por Kairós, o tempo propício à indagação dos caminhos, no qual a história dos eventos parece coagular-se por um instante, ao menos em seu horizonte teórico. As épocas de crise, com efeito, não se transpõem sem prestar contas ao preceito délfico do “co nhece-te a ti mesmo”, que ressoa sempre mais forte nas ciências do homem do que nas da natureza.
Não é à toa que a abordagem sobre a pretensão científica das ciên cias humanas começa, na primeira parte, com Durkheim, do qual o Autor analisa de preferência o estudo sobre o suicídio (baseado, como se sabe, em medidas estatísticas) e o tratado sobre as formas elementa res da vida religiosa. A originalidade da análise consiste em resgatar o lado kantiano de Durkheim, bem mais interessante do que o lugar- comum que faz dele quase um discípulo de Comte. Esse enfoque, ao mesmo tempo sutil e corajoso, permite estender as exigências da filo sofia crítica ao conhecimento da realidade social. A partir daí levanta- se o problema que dirige o restante do livro, que vem a ser a busca do paradigma racional cumprido pelas ciências humanas no século XX.
A segunda parte, dedicada a Weber, retoma principalmente os es tudos sobre a sociologia da religião e procura explicitar os procedimen
tos metodológicos nela presentes. Também aqui cabe ressaltar o cará ter renovador da pesquisa, que busca enquadrar a teoria dos “tipos ideais” do sociólogo alemão nas teses da hermenêutica desenvolvidas no últi mo quartel do século XX.
A leitura que Ivan Domingues faz dos clássicos da sociologia cria perspectivas e impõe desafios. Não será nada mal que levante controvér sia e suscite discussão, sempre necessárias, especialmente em épocas de crise. Este primeiro volume faz-nos aguardar com impaciência o segun do, dedicado à dialética marxista e ao estruturalismo de Lévi-Strauss.
Paradigmas e modelos das ciências humanas
no século XX: das humanidades às ciências
do homem — As duas grandes bifurcações
Este livro, oriundo de uma tese de habilitação para professor titular apresentada ao Departamento de Filosofia da U FM G em 20021, é um acerto de contas comigo mesmo.
Tendo-me ocupado nos últimos 25 anos da epistemologia das ciên cias humanas, com vários artigos publicados, uma dissertação de mes trado e uma tese de doutorado defendidas, além de um livro consa grado ao assunto (O grau zero do conhecimento, publicado pela Edi ções Loyola, em sua origem a tese de doutorado), eis-me de novo vol tando aos mesmos temas e aos mesmos problemas. Volto, porém, com um novo olhar e a desconfiança de que a filosofia não tem fundo, por viver da eterna recorrência de suas perguntas e da constante insuficiência de suas respostas.
]. O título da tese é Paradigmas e modelos das ciências humanas no século XX: as vias
de Érnile Durkheim e M ax Weber. Sua transformação em livro implicou alterações de
conteúdo e de forma, por vezes de monta, em razão da inevitável revisão conceptual, ocorrida depois da defesa. Todavia, em sua concepção, composição e natureza, são um só e mesmo trabalho.
Tanto isso é verdade que eu — depois de me concentrar por mais de dez anos nas pesquisas que redundaram na tese de doutorado e en fim no livro, experimentando após o término dos trabalhos a sensação de plenitude e a impressão de ter esgotado o assunto —, de repente, passado um certo tempo, experienciei invadir-me a impressão de vazio, junto com a idéia de deficiência irretorquível nos resultados apresenta dos. A razão dessa impressão e dessa idéia prende-se ao fato de a tese, bem como o livro, ao pensar a questão da fundamentação das ciências humanas, ter se detido no século XIX e, portanto, na pré-história das ciências humanas. Contudo, era preciso chegar ao século XX e pergun tar pelo fundamento no interior dos paradigmas vigentes na atualida de. Foi então, não podendo simplesmente ignorar a constatação e vol tar minha atenção para outros assuntos, que decidi partir do zero e, com os olhos na contemporaneidade, propor ao CN Pq um projeto de pesquisa inteiramente dedicado ao tema. Precedido de um estágio de pós-doutorado na França, em 1997-1998, que abriu o caminho, além de um conjunto de cursos oferecidos na pós-gradução, nos quais diversos tópicos ligados ao tema foram tratados, o projeto em apreço tem por âmbito o que chamei — ao submetê-lo ao C N Pq — de Para
digmas e modelos das ciências humanas na contemporaneidade e por
objeto quatro vias ou caminhos por elas seguidos no curso do século XX, a saber: 1) Durkheim, o positivismo e a sociologia; 2) Weber, a hermenêutica e as ciências histórico-sociais; 3) Lévi-Strauss, o estrutu- ralismo e a antropologia, 4) Marx, a dialética e a economia.
O ponto em que a pesquisa se encontra hoje, passados mais de cinco anos, é a conclusão parcial dos trabalhos iniciados, permitindo vir a lume — antes como tese, agora como livro (primeiro tomo) — duas de suas quatro principais colunas: 1) Durkheim, o positivismo e a sociologia, 2) Weber, a hermenêutica e as ciências histórico-sociais. Quanto às duas outras colunas, serão concluídas na seqüência, ao tér mino da pesquisa, e fora do contexto da tese, quando seus resultados virão a público como segundo tomo do livro.
Tendo feito para os quatro autores a mesma pergunta (como cada um pensa a questão da fundação das ciências humanas), e encontrado mais de uma resposta (embora não tenha concluído os trabalhos sobre
Marx e Lévi-Strauss, os resultados parciais das pesquisas indicam que as vias seguidas por eles discrepam entre si, bem como relativamente a Weber e a Durkheim), procurei ainda assim fixar os parâmetros epis- temológicos gerais que permitissem dar conta tanto da unidade de pro pósitos quanto da diversidade dos métodos empregados.
Tal preocupação deu ensejo à primeira parte do livro, intitulada “Formas de racionalidade e estratégias discursivas das ciências humanas na contemporaneidade”. A idéia de tratar a ratio das ciências huma nas no plural, a exemplo da via ou da estratégia adotada, igualmente múltipla e variada, se prende à ênfase concedida aos diferentes usos da razão, em vez de fixá-la numa essência ou congelá-la numa razão subs tancial, vista como única e universal. Esta, porém, uma vez fixada, logo se deparará com a dificuldade de sua pluralidade de empregos e de di versidade de vias ou de caminhos, de sorte que a razão científica moder na, do mesmo modo que o logos grego e a ratio medieval, é mais uma questão de criação ou de invenção, e como tal obra da liberdade, do que de uma emanação ou de algo co-natural aos homens e às coisas (essência ou substância, luz natural ou divina), e, como tal, fruto da necessidade.
Essa idéia já tinha sido explorada ao longo da tese de doutorado e do livro correspondente (O grau zero do conhecimento); entretanto, agora ela viu-se enriquecida pela introdução de um novo elemento. Esse ele mento, o primeiro, é a tipologia das formas de racionalidade, distingui da segundo as diferentes modalidades ou estratégias de tratar a diferen ça e a diversidade do social, redundando 1) em Durkheim, num pen samento de tipo dicotômico, 2) em Weber, num pensamento que com bina, como um emaranhado, as dicotomias ou dualidades com esque mas triádicos e tipologias ramificadas, partidas e difusas, 3) em Lévi- Strauss, num binarismo de estrita observância que combina a análise diferencial da matemática com a taxinomia dos símbolos,.4) em Marx, nos esquemas triádicos da dialética que tanto podem levar à reconcilia ção das contradições, quanto à explosão dos pólos contraditórios, além da vertigem da história (as revoluções) e da suspensão do devir2.
2. Ao tratar do problema da diferença e seus correlatos (contradições, oposições, díades, tríades etc.) nas obras de Marx, Lévi-Strauss, Weber e Durkheim, estou ciente de
O segundo elemento, também ausente da tese de doutorado e do livro que se lhe vincula, e desta feita incorporado para dar sustentação seja às tipologias das formas de racionalidade, seja às estratégias dis
que o lugar de sua solução ou de seu equacionamento não é exatamente a lógica ou a epistemologia, mas a metafísica ou a ontologia, em cuja origem vamos encontrar o velho problema do uno e do múltiplo. A exemplo dos filósofos, a via percorrida pelo cientista varia, dependendo a escolha de seu temperamento, de seu gosto ou de sua inclinação: haverá aqueles que ficarão mais à vontade com o uno (como Lévi-Strauss), bem como aqueles que preferirão o múltiplo (como Weber, seguindo Em pédocles, que dizia que o real é uma “mistura”). Qualquer que seja a via, a solução do problema guardará alguma similitude e encerrará dificuldades parecidas ou equivalentes, ainda que inversas. O pro blema do monista é mostrar que o uno é múltiplo ou que um é dois e gera a díade. O problema do pluralista é mostrar que o múltiplo é uno, enquanto o do dualista é que dois são um só ou levam ao uno. Por fim, associado ao problema do uno e do múltiplo, aparecerá um outro igualmente importante para o tratamento das diferenças, oposições e contradições, a saber: a questão do contínuo e do discreto, podendo levar seja à intro dução de elos intermediários entre as díades e as oposições, se prevalece o contínuo, seja às disjunções e cisões dos pólos opostos, se prevalece o discreto ou o descontínuo.
E , pois, no plano ontológico, mediante a articulação da dupla dialética do uno e do múltiplo e do contínuo e do discreto, que tratarei nas páginas que seguem, ao ocupar- me dos quatro autores, do problem a tanto das diferenças sociais com o das identidades coletivas, quando mostrarei que no social a identidade não tem nada de tautológica.
Uma boa idéia das dificuldades que nos esperam nos dá Robert M usil ao falar n’0
homem sem qualidades da identidade nacional da Kakânia e dos kakanianos. Especifi
camente, refere-se à região e aos povos da Aústria, em sua origem germânicos e dividi dos no início do século XX em sua dupla pertença, sem poder decidir, ao império austríaco e ao reino húngaro, que os acasos da política reuniram num só, chamando-o Império Austro-Húngaro. M usil se diverte, como bom nominalista, ao dizer que o nome do duplo império em realidade não designava nada, nem do lado dos húngaros, com postos de povos germânicos, ciganos e eslavos (acrescentaria eu), nem do lado dos aus tríacos, que se viam com o “poloneses, tchecos, italianos, friulanos, réticos, eslovenos, croatas, sérvios, eslovacos, rutenos ou valacos”. Quer dizer: tanto o Império Austro- Húngaro, que abrigava os húngaros, como o Conselho do Reino, onde os austríacos e, por extensão, os kakanianos estavam representados, não passavam de um nome feito de nomes, designando reinos que não existem mais, como os reinos shakespearianos da Lodoméria e da Ilíria. A situação dos kakanianos nesse quadro é comparada por Musil ao “porquinho-da-índia, que não sabe se é porco ou roedor, portanto um ser que não tem nenhum conceito sobre si m esm o”; da mesma forma os kakanianos que, sem ne nhuma identidade certa, num continuum de primos-irmãos e de parentes além frontei ras, desconfiavam uns dos outros e com um horror pânico “impediam uns aos outros de serem qualquer coisa”.
Sobre a questão dos kakanianos, ver M U SIL , R. O homem sem qualidades. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1989, 321-323.
cursivas, tendo por eixo a questão fundacional, é o argumento do co nhecimento do criador ou do criador do conhecimento. Esse argumento, formulado por V icõ e presente tacitamente em Hobbes, dará ensejo, junto com a instalação do sujeito construtor ou do sujeito epistemoló- ^ico, à instauração de diversas epistemologias, como o realismo episte- inológico em Marx e Durkheim, modalizado segundo sua fusão com o positivismo e a dialética, bem como o construtivismo epistemológico em Weber e Lévi-Strauss, modalizado conforme sua fusão com a herme nêutica e o estruturalismo.
O terceiro elemento, introduzido igualmente para tipificar as estra tégias discursivas e as formas de racionalidade, são os paradigmas e os modelos, tomando aqueles como elemento da teoria, e entendendo estes como aspecto do método, em Durkheim levando ao paradigma da biologia e aos modelos da solidariedade orgânica e mecânica, em Weber ao paradigma da ação e ao modelo do tipo ideal.
O quarto elemento é a introdução das categorias de descrição, de explicação e de interpretação (compreensão), com cuja ajuda espera-se precisar importantes aspectos epistemológicos dos diferentes métodos e das diversas estratégias adotados por uns e por outros, permitindo-me avançar a hipótese que deverá conduzir sua avaliação global na conclu são de nossos estudos, no segundo tomo do livro. A hipótese é a idéia segundo a qual o chamado esvaziamento dos paradigmas clássicos nas ciências humanas passa fortemente por esse tripé metodológico, e par ticularmente pela dificuldade de lidar com a base descritiva, nem sem pre ajustada às coerções do discurso e da teorial
O quinto e último elemento incorporado, também para caracteri zar as formas de racionalidade e as estratégias discursivas, é o exame das ciências humanas e a exigência de objetividade: as vias de Durkheim, Weber, Freud e Marx. Tendo-me, antes, ocupado de Lévi-Strauss, a inclusão de Freud se justifica por sua própria envergadura e condição de um dos heróis-fundadores das ciências humanas, bem como por minha intenção de mostrar que a categoria de estrutura não é cativa
3. E o que procurarei mostrar ao trabalhar as obras de Durkheim, Weber, Marx e Lévi-Strauss.
dos estruturalistas, podendo ser localizada tanto no economista alemão quanto no médico vienense.
A segunda e a terceira partes do livro, conquanto dependa sua ela boração dos resultados da primeira, têm uma estrutura diferente. Seu intuito é afunilar em profundidade os resultados obtidos, aplicando-os às obras de Dürkheim e Weber. E seu eixo é a questão fundacional, centrada no argumento do criador e tendo como pontos de apoio o par paradigma/modelo e o tripé descrição/explicação/interpretação (com preensão) da realidade humano-social.
Em Durkheim, segunda parte do livro, está em jogo demonstrar que seu construtivismo social deverá acomodar-se de algum modo a seu realismo epistemológico. Essa discrepância (Durkheim admite o construtivismo social, não o construtivismo epistemológico) me leva a trabalhar uma segunda, a saber: a idéia de que por trás do positivista esconde-se o kantiano, que no caso do sociólogo francês nos remete à visão da sociedade como potência das normas, de tal forma que a cons ciência coletiva da sociedade e suas coerções ficam no lugar da razão universal e do imperativo categórico do solitário de Königsberg. Outros pontos enfatizados são: 1) o projeto fundacional durkheimiano de ins taurar a sociologia como ciência empírica autônoma, que me levou a precisar o método sociológico, sua base indutiva, suas aplicações e suas inflexões, 2) a questão das dualidades fundadoras, à luz das obras O
suicídio e As formas elementares da vida religiosa. Por último, examina-
se o princípio de verificação empírica, avaliado a partir de sua aplica ção a essas duas obras, evidenciando sua reformulação, seu enfraqueci mento e mesmo seu abandono, ao se confrontar com as injunções (teó ricas) do discurso e as perturbações da empiria.
Em Weber, terceira parte do livro, está em jogo demonstrar que seu construtivismo social se ajusta a seu construtivismo epistemológico (tanto o conhecimento como a sociedade são construções), levando-o a pensar a construção social nos quadros de uma espécie de prometeísmo e de uma verdadeira demiurgia (o agente social é o artífice da socieda de, da cultura e da história); entretanto, sem que, junto com o sujeito construtor (social), seja instalado em sua autonomia o sujeito episte mológico no limiar do conhecimento. Essa discrepância conduz a uma
segunda: a idéia de que por trás do kantiano está o positivista, patentea da pela adesão mais ou menos tácita ao ideal de ciência de Mill, que era também o ideal de Ranke e ainda de Comte, a quem Weber julga va um pedante, e que o leva a romper com as cisões epistemológicas dos neokantianos da escola de Baden, que dicotomizam as ciências naturais e as ciências humanas — coisa que Weber nega terminantemen te. Adesão e recusa que o conduzem a adotar o ideário unitário da Escola de Marburgo, assim como o modelo positivista da ciência unifi cada, o princípio da causalidade e a exigência de verificação empírica. Outros pontos abordados nessa parte do livro são: 1) a relação entre a hermenêutica, as ciências humanas e a história, cuja análise permitiu evidenciar que em Weber a história comparece não como objeto, mas como meio de conhecimento, devendo a este título fertilizar a sociolo gia, a economia e o direito; 2) o projeto weberiano de fundação da sociologia como ciência compreensiva objetivante, para cujo exame procurei restringir-me à sociologia da religião (Ética e ensaios), seja pa ra não perder o foco (ao ampliar demasiadamente o ângulo da análise), seja por considerar a Ética sua obra mais bem-sucedida, ou em que o método de fundação se revelou mais fértil. Acrescente-se ainda, ao me voltar para o núcleo duro de. sua epistemologia, o exame do método das ciências histórico-sociais e a questão da decifração do sentido, ten do por escopo a aplicação dos esquemas explicativo-compreensivos (im putação causal, tipos ideais) ao real empírico, a quebra do círculo her menêutico e a instauração das grandes dualidades. Por último, avalia- se, à luz de Weber, a relação entre as ciências compreensivas, a herme nêutica e a história: impacto, obstáculos e limites. Ao abordar esses pontos, volta-se novamente à questão do sentido, introduz-se sua pers- pectivação temporal e espacial, e examina-se sua metamorfose, seu es vaziamento e sua cisão ou seu esfacelamento, à luz de exemplos histó ricos (o caso de São Luís, rei de França, analisado por Le Goff), bem como sociológicos (pois o sentido se reparte segundo grupos e classes sociais, como mostra Weber).
Na conclusão, sistematizando os resultados, procuro avaliar o per curso histórico do conhecimento do homem à luz do preceito délfico do conhece-te a ti mesmo, colocando em evidência duas coisas: a via
das filosofias do sujeito ou da consciência que tratam do conhecimento de si pivoteado pelo sujeito; a via das ciências empíricas do homem, distinguidas em ciências naturais e ciências humanas, que tratam do conhecimento de si pivoteado pelo objeto. Tendo constatado o fracas so das duas alternativas, procurei então apontar a solução.
A tese sustentada ao longo do trabalho me veio à mente ao ler uma pequena e instigante passagem de Lévi-Strauss, segundo a qual o gran de desafio das ciências humanas é pensar a diferença. Retendo essa idéia, procurei então mostrar que — contrariamente à identidade, a qual é uma tautologia e não encerra nenhum pensamento, a despeito de ser a condição do pensar — a diferença tanto pode levar ao pensa mento, que deverá pôr-se em marcha para operá-la e expressá-la, como poderá bloqueá-lo pura e simplesmente, ao se explodir em contradi ções e enredar-se em aporias. Ao aplicar tal idéia ao domínio do social, sem negar de todo a via usual de distinguir nas contradições níveis e aspectos e nas diferenças o dissímil e o mesmo, como na queda dos graves e no movimento das marés em física, que são a um tempo algo distinto e idêntico, regulado pela mesma força de atração, fui então levado a estabelecer duas postulações: 1) a postulação de que a diferen ça é primitiva e a contradição derivada, não sendo outra coisa que seu desenvolvimento e seu aspecto, e podendo dar lugar seja à explosão e ao conflito das polaridades, seja à combinação e à complementaridade dos pólos opostos; 2) a postulação de que os princípios da identidade e da diferença são correlativos, não sendo as ações sociais reguladas — nem massiva nem exclusivamente — pelo princípio da identidade, po dendo dar abrigo a toda sorte de oposições e conflitos, e sendo a própria crise que as polaridades provocam o fator regulador ou de resolução delas. Com base nessas postulações, tratei de evidenciar que as formas de tratamento da diferença, da oposição e da contradição no terreno do social são muitas, dando ensejo às mais variadas formas de racionalida de e de estratégias discursivas. E o que ocorre, conforme será mostrado adiante, com o positivismo, a exemplo de Durkheim, que, a par da identidade, retém a diferença, afasta a contradição e cliva o pensamen to em dicotomias e dualidades, bem como com a hermenêutica, que em Weber, além da retenção das dualidades e das formas de transição,
dá lugar à intensificação das polaridades, sem nenhuma possibilidade de combinação ou síntese e conduzindo ao pensamento trágico. E o que ocorre, como mostrarei no segundo tomo, com a dialética, que em Marx, além da inter-relação das polaridades, leva ao acirramento das contradições e sua absorção em sínteses reconciliadoras, em contraste com o estruturalismo, que em Lévi-Strauss, além do mapeamento das identidades, conduz à incorporação das diferenças e oposições, à ex clusão das contradições e à associação das identidades, das diferenças e das oposições em estruturas.
Além da tese principal, procurei desenvolver uma segunda, fundada na hipótese auxiliar segundo a qual todas essas vias, em seu esforço por instaurar um conhecimento objetivo da realidade histórico-social, fo ram conduzidas a instalar os fenômenos sociais como um conjunto de
formas objetivadas, tais como as instituições sociais, as mercadorias, o
dinheiro, o capital, os mitos, as relações de parentesco, as ações sociais, o ethos econômico, e assim por diante. A contraparte desse privilégio foi a condenação das vias introspeccionistas, como a intuição e a entropatia, rejeitadas por Weber, bem como de toda consideração de aspectos ou fatores subjetivos, como os sentimentos, as volições, as idealizações e os valores, tidos como indignos da ciência ou estranhos ao seu esquadro. E nesse contexto, com o intuito seja de instalar, seja de operar as formas objetivadas do real, que entra todo o aparelho conceptual da teoria, as sim como o corpus dos modelos, das descrições, das explicações e das interpretações, além da exigência de comparação, de demonstração e de verificação empírica, a funcionar como meios ou instrumentos de objetivação, porém considerados eles mesmos como formas objetivadas do pensamento. O resultado dessas démarches, ao ressaltar as formas objetivadas da realidade histórico-social, pivoteadas pelos objetos, foi o esquecimento dos princípios e meios de objetivação, resultantes do tra balho do pensamento e dependentes do sujeito — donde o paradoxo do conhecimento-construção sem sujeito construtor ou sujeito epistemoló- gico (como em Durkheim, no qual o realismo epistemológico, embora dissociado do construtivismo, está vinculado ao argumento do conheci mento do criador — a sociedade, no caso, que, segundo o sociólogo, gera as categorias com cuja ajuda ela própria é conhecida).
Tendo por escopo esse conjunto de problemas que remonta seja à visão de ciência, seja ao exame do método e dos resultados de sua apli cação ao real empírico, em que os aspectos históricos do percurso da ciência moderna e os expedientes de comentários de texto dos autores escolhidos, conquanto necessários, não ocupam o primeiro plano, a tese que deu origem ao livro é pois, em sua índole, uma tese de idéia ou de doutrina, afastando-se tanto do gênero historiográfico (história das idéias) como do gênero hermenêutico ou exegético (comentário de texto). E mais: a despeito da forte interlocução com a ciência, a tese e o livro são antes de tudo uma obra de filosofia, tendo por núcleo duro a teoria do conhecimento e por campo de aplicação a epistemologia (epistemologia das ciências humanas), vista como extensão da teoria do conhecimento ou epistemologia aplicada.
Nasceu da interseção da filosofia com a ciência, numa época em que a filosofia em sua relação com a arte, a religião, a educação, a téc nica e a própria ciência perdeu certamente toda função tutelar, mas não o direito ou a prerrogativa de examinar com seus próprios meios e em vista de seus próprios fins as manifestações da cultura, os desafios da realidade material e os grandes enigmas do universo, e caberá ao episte- mólogo, em interação com o cientista, a tarefa de elucidar o que foi feito. Todavia, as perguntas e as respostas, no tocante ao conhecimento, assim como relativamente à arte, à técnica e a outros campos, são per guntas e respostas filosóficas. Tal é, portanto, o lugar de onde se fala: a filosofia. Ao ocupar esse lugar, ficará o epistemólogo, ao examinar o que foi feito pelos cientistas, com o ofício ingrato de chancelar ou não o
factum (discursos, procedimentos, resultados — pois a ciência é mais do
que o discurso) que se apresenta diante dele, não tendo como meio senão o instrumento do pensamento, e como bússola ou guia a história da ciência, tanto para elucidar de onde veio o que se oferece a seus olhos na atualidade do presente como para perspectivar para onde irá, se logo não cair no esquecimento, ao se expor às forças corrosivas do tempo.
Foi nesse contexto, para armar a tese, agora o livro, e abrir o cami nho das investigações epistemológicas, que formulei o argumento do criador do conhecimento ou do conhecimento do criador, que deve ser visto como o núcleo duro da teoria do conhecimento e ponto de pas
sagem para a epistemologia especial ou aplicada, ao se enlaçar com as ciências particulares. Graças ao argumento, é fornecida não certamen te uma teoria geral do conhecimento, mas uma teoria particular talha da para um segmento das ciências e circunscrita a uma porção do tem po, ou seja, a epistemologia construtivista moderna, com suas variantes instrumentalista, operacionalista, pragmatista e realista. E mais: uma teoria epistemológica formulada não só em concorrência com outras, mas como alternativa às epistemologias especulares (conhecimento = reflexo ou cópia do real), tão bem caracterizadas por Rorty, bem como às epistemologias materialista, racionalista, empirista e idealista — to das igualmente modernas e gestadas com os mesmos objetivos.
Por fim, as investigações epistemológicas levadas a cabo ao longo da tese e do livro, e conduzidas com toda a atenção aos aspectos norma tivos, conceptuais e históricos que recobrem a práxis das ciências em seu esforço por vencer a opacidade do real empírico, têm elas mesmas um atestado de nascimento e um local de origem. Seu atestado e sua origem são a chamada escola francesa. Os dois grandes expoentes — como se sabe — são Bachelard e Canguilhem, que concentraram suas investigações no terreno das ciências naturais. Menos ortodoxo, seu mais ilustre representante no campo das ciências humanas é Foucault — de cuja obra, encantado e num surdo embate, me aproximei na tese de doutorado, e de quem hoje, passados quinze anos, estou mais distanci ado, procurando outros caminhos —, ainda que n’As palavras e as coi
sas, seu livro mais importante nesse domínio do conhecimento, ele as
impugne e não faça exatamente epistemologia, mas arqueologia. Que me seja permitido, antes de concluir esta introdução, tecer algumas considerações a mais sobre as relações entre a epistemologia, a história das ciências e a sociologia do conhecimento. Tendo reserva do à epistemologia, fiel à sua índole justificacionista, os aspectos teóri cos e normativos do conhecimento, a história e a sociologia ficariam então com os aspectos factuais ou empíricos, de modo que — eis a idéia que tacitamente procurei testar em alguns tópicos do presente trabalho —, em vez de se excluírem e concorrerem entre si, as três abordagens terminariam por cooperar e fecundar umas às outras. G os taria pois, na seqüência, de precisar um pouco mais esse ponto, tendo
em vista esclarecer — como eu disse — certas pressuposições mais ou menos implícitas assumidas ao longo do livro.
Começarei pela idéia de historicidade da ciência, presente no con traste das visões weberiana e durkheimiana de ciência, contraste que em verdade remonta, quanto às suas bases históricas e suas fundações conceituais, ao início dos tempos modernos, fato que um historiador versado na matéria poderia facilmente testemunhar, ao apontar as gran des bifurcações que estão na origem da constituição das ciências hu manas nos novos tempos. Por fim, numa abordagem típica da sociolo gia da ciência, tratarei da estratégia de conquista de espaço institucio nal empreendida por Durkheim e seu grupo, que cedo procuraram dominar as instituições francesas de ensino, do liceu às universidades, em contraposição à ausência dessa estratégia em Weber. Ausência em parte devida à doença, em parte à sua índole de intelectual solitário, cuja presença institucional junto com o lastro de sua obra ficou a de pender dos azares da difusão das idéias e dos saraus em suas casas de Heidelberg e de outras cidades alemãs. E óbvio que, conquanto não os aborde em primeira mão, nem tenha a competência para fazê-lo, o epistemólogo não poderá deixar de levar em consideração esses aspec tos, buscando nos trabalhos de terceiros, sociólogos e historiadores, aquilo que ele e seus pares não possuem e não podem fornecer. Se não, será forçado a atribuir às virtudes intrínsecas das idéias, ao examinar seu lastro e sua exemplaridade, algo que tem a ver com as contingências da história e a ação concertada de grupos qualificados, como a intelligentsia ou o estamento dos intelectuais. E mesmo algo ligado à ação de gran des fundações privadas, como a Ford e a Rockfeller, cujo impacto para a instauração do paradigma funcionalista na França, como no caso da Rockfeller, ao financiar a École Normale, deve ser estimado mais forte do que o legado de Durkheim.
Dito isso, passarei a considerar o primeiro ponto: a historicidade da ciência, e mais precisamente a historicidade das ciências humanas. Tendo circunscrito as investigações ao século XX e simplesmente abs traído a história, para melhor delimitar o espaço abstrato da teoria em que as análises epistemológicas vão incidir, o epistemólogo não poderá ignorar o peso da variável histórica na constituição e delimitação desse
espaço. Admitido isso, poderá então mostrar que os contrastes das vi sões de ciência de Weber e Durkheim sofreram certamente seu efeito, do mesmo modo que se converterão depois em forças históricas que vão conformar o que se passará posteriormente no domínio das ciên cias humanas. Essas afirmações, com efeito, não passam de um truísmo, não sendo todavia um truísmo, para uma história das ciências sociais ainda por ser feita, a tarefa de mostrar os fios históricos invisíveis que ligam o percurso das ciências humanas, da renascença à modernidade, a Weber e a Durkheim.
Não me podendo alongar sobre esse assunto, vou limitar-me na seqüência a apontar alguns traços e episódios dessa história tão rica e apaixonante quanto desconhecida e mal estudada, com o intuito de evidenciar as metamorfoses das visões de ciência no campo das chama das humanidades, bem como as grandes bifurcações que marcaram o estudo deste objeto que muitos ainda acreditam “intratável” em ciên cia — o homem. Se se toma como divisor de águas a renascença, pe ríodo em que se considerava ciência tudo aquilo que podia ser ensina do, à diferença de nossa época, para a qual é ciência aquilo que pode ser aprendido nos laboratórios, bibliotecas e trabalhos de campo, inde- pendemente do ensino, tem-se que os estudos dos assuntos e negócios humanos eram feitos nos quadros do que foi chamado naquela época de Studia Humanitatis. Integravam o ciclo desses estudos, como mos tram os especialistas, ao assinalarem as profundas mudanças introduzi das no sistema medieval do trivium e do quadrívium, a gramática, a retórica, a história, a poética e a filosofia moral, tendo por disciplina paradigmática, ao lhes fornecer o método, a filologia, e por objetivo a formação do novo homem — letrado, ético e universal —, talhado à imagem dos tempos novos. Paralelamente a tais estudos, conduzidos por intelectuais humanistas e eruditos, havia o direito, conduzido em bases parecidas, porém mais “técnicas”, assim como a medicina e a história natural, que se ocupavam de um segundo aspecto do homem, aspecto que os estudos dos humanistas deixavam de lado ao se entrega rem às letras, às artes e à educação moral do bom cidadão, a saber: o corpo. Vencidas as barreiras morais e religiosas, sua estrutura e seus órgãos foram estudados em profundidade, depois de dissecado, por
médicos como Vesalius, conforme bem nos mostra seu De humani
corporis fabrica libri septem, publicado em 1543, onde refuta as teorias
fisiológicas de Galeno, fornece uma descrição precisa e extensa do corpo humano e estabelece os fundamentos da anatomia moderna.
Esses estudos paralelos e independentes, que reclamavam da anti guidade de Hipócrates, além da de Galeno, ganharam impulso notável no início dos tempos modernos, com a descoberta dos mecanismos da circulação do sangue por Harvey, que publicou em 1628 De motu cor-
dis, e em decorrência da difusão do Tratado do homem, de Descartes,
escrito em 1632 e editado em 1644, dando ensejo à constituição de uma nova disciplina científica: a fisiologia moderna. Foi nessa época, cuja data no entanto é incerta, por não depender de um único episódio, mas de vários, e espaçados no tempo, que se consumou a primeira gran de bifurcação do estudo ou, antes, da ciência do homem, constituída de dois ramos. O primeiro, englobando o corpo e os elementos materiais, entregue à medicina, à história natural, à arqueologia, à anatomia, à fisiologia e a inúmeras outras disciplinas, reunido depois (o conjunto) na biologia como uma das seções da ciência da vida. O segundo, que engloba a mente ou o espírito, abrigando os diferentes elementos da ação, da vontade e de outras faculdades da alma, objetivadas na cultura e na história — ramo que deu ensejo à constituição daquilo que S. Mill, fiel ao projeto do newtonianismo moral do século XVIII, chamará de “ciências morais”, e que será retomado no curso do século XIX, em solo alemão, por Droysen, ao se referir ao mundo da história como mundo moral e à ciência da história como ciência moral, por se ocupar da ação, da vontade e da liberdade dos homens ao longo do tempo4.
Assinale-se que é justamente a expressão cunhada por Mill em sua
Lógica dedutiva e indutiva (Moral Science) que está na origem do ter
mo alemão Geisteswissenschaften, vertido em português por “ciências do espírito”, cuja fortuna imensa, ao ser retomado por Dilthey, dispen sa-me maiores comentários. Seu grande concorrente vai ser o francês
Sciences humaines, a que hoje se está mais habituado, tendo prevaleci
4. L a k s , A., N e s c h k e , A. L a naissance du paradigme herméneutique. L ille , PU L,
do em quase todos os países. A esses dois vocábulos devem ser acrescen tados outros equivalentes em várias línguas cultas, com esta ou aquela restrição ou ênfase de detalhe, como “ciências sociais”, “ciências histó ricas” ou “ciências culturais”. Foi então, achado o nome, sem que im porte se o fato ocorreu antes, consecutiva ou paralelamente, pois se trata de uma tópica, que se consumou a segunda grande bifurcação no estudo do homem e das coisas humanas, aprofundando a dicotomia entre as ciências e as letras, celebrada por Charles Perrault em sua querela dos antigos e dos modernos, porém desta feita no interior dos antigos Studia Humanitatis, a saber: a bifurcação entre ciências huma nas (ou ciências morais) e humanidades (ou erudição). Ficando as pri meiras com a história, a filologia, a economia, o direito, a sociologia, a antropologia etc., as segundas vão reter o que sobrou, como a retórica, a crítica literária e a própria filosofia, que passaram a dividir com as artes (como a arquitetura, a música, o teatro e outros domínios) aqui lo que não cabia no esquadro das ciências. Essa situação permanecerá até que um dia elas próprias, as letras e as artes, como tinha ocorrido na época de Leonardo ao aproximar a pintura da geometria e da anato mia, passassem a despertar na segunda metade do século XX a cobiça da ciência e a receber seus lustros e prestígios.
Ora, as obras de Weber e de Durkheim são fruto exatamente dessa segunda grande bifurcação, podendo ser consideradas herdeiras tanto do Projeto Iluminista dos modernos como dos Studia Humanitatis dos renascentistas, de que conservam as exigências morais (reforma da humanidade, em Durkheim; a ciência, a ilustração e a liberdade como “bens” da civilização, em Max Weber — a outra escolha, segundo ele, é o sacrifício do intelecto, como na religião). E mais: exigências que se conservaram até o dia em que a recepção e seus herdeiros fizeram de Durkheim um positivista e mesmo um funcionalista, do mesmo modo que transformaram Weber, sob os auspícios de C. Schmitt e Parsons, num decisionista e num estrutural-funcionalista.
E um pouco o percurso desses dois heróis-fundadores das ciências humanas, a um tempo restituídos, transformados e desnaturados pela história, que será relatado em seguida. A esses dois heróis deverão ser acrescidos depois, sem que sejam os únicos nem os últimos, dois ou
tros: Marx e Lévi-Strauss. Uma condição todavia deverá ser cumprida para que a investigação epistemológica se instale: nada menos do que se livrar da aura do herói e do calor dos acontecimentos históricos para ficar com o núcleo duro da teoria e a análise fria do conceito. Só então o epistemólogo poderá averiguar se está mesmo diante de quatro para digmas, e assim desmentirá Thomas Kuhn. Ou se está, em vista de seu esgotamento, ante quatro curiosidades históricas, e assim, sem poder negar sua persistência, dará razão a Whitehead, ao lamentar aquelas ciências que não puderam esquecer-se ainda de seus fundadores.
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Ao terminar esta Introdução, algumas palavras de agradecimento a todos aqueles que de alguma forma contribuíram para que o livro pu desse vir a lume: ao CNPq, pelo apoio institucional-financeiro, ao con ceder-me a bolsa de produtividade em pesquisa; aos meus alunos de pós-graduação, com os quais tive a oportunidade de discutir seus primei ros esboços em meus cursos e seminários; aos professores que fizeram parte da banca examinadora (José Henrique Santos, Carlos Roberto Cime Lima, Nelson Gonçalves Gomes, Danilo Marcondes de Souza Filho e Marcelo Fernandes Aquino), pela acolhida dispensada e pelas sugestões apresentadas quando da realização do concurso de titular; aos colegas Paulo Henrique Ozório Coelho, Newton Bignotto, Edgar Marques, Carlos Antônio Leite Brandão e Paulo Margutti, pela leitura e pelo comentário de diferentes partes do material; ao professor Robson Jorge de Araújo e a Alexandre de Assis, pela ajuda na elaboração de diagra mas; ao professor Hennio Morgan Birchal, pela revisão do vernáculo.
FORMAS DE RACIONALIDADE
E ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS DAS
CIÊNCIAS HUM ANAS
N A CONTEMPORANEIDADE
O argumento do conhecimento do criador
e as ciências humanas
O objeto da primeira parte do livro são as “Formas de racionalida de e estratégias discursivas das ciências humanas na contemporaneida- de”. Ao longo dela, o leitor encontrará um conjunto de capítulos rela cionados com os diferentes aspectos do objeto em apreço, recortados segundo as necessidades globais da pesquisa. O âmbito dessa extrapola os resultados ora apresentados neste primeiro tomo, dedicado ao estu do das obras de Weber e Durkheim, devendo mais tarde os materiais em elaboração integrar o segundo tomo que pretendemos publicar, consagrado a Marx e a Lévi-Strauss. Entre esses aspectos, organizados sob a forma de capítulos, encontram-se os temas “Paradigmas e mode los”, “Padrões de cientificidade nas ciências humanas — formas de explicação (compreensão) da realidade humano-social”, “Sobre a des crição, a explicação e a interpretação (compreensão): problemas, para doxos e controvérsias” e “As ciências humanas e a exigência de objeti vidade: as vias de Durkheim, Marx, Freud e Weber”.
Ao situar o problema das formas de racionalidade e das estratégias discursivas, tomaremos como fio condutor de nossas análises um argu
mento extremamente caro àquelas ciências, modalizado segundo suas variantes e restituído mediante a construção de uma tipologia fina, com cuja ajuda pretendemos enquadrar as obras de Weber, Durkheim, Marx e Lévi-Strauss, dos quais nos ocuparemos em seguida. Também com sua ajuda, procuraremos tratar os temas acima elencados (paradigmas e modelos etc.), conforme mostraremos ao longo da primeira parte, bem como abordar outros aspectos direta ou indiretamente associados ao argumento, referidos aos dois primeiros pensadores e a ser conside rados respectivamente na segunda e na terceira partes do livro.
O argumento em questão é o chamado argumento do conhecimento do criador ou, antes, do criador do conhecimento. Segundo esse ar gumento — para o qual não há em verdade uma fórmula canônica, mas um conjunto de idéias e proposições mais ou menos implícitas —, do real só podemos conhecer efetivamente aquilo que nós mesmos cria mos. Quer dizer: aquilo em cuja origem nos encontramos nós mesmos e que foi gerado, feito ou construído por nós, e não aquilo que existe de fato e não foi criado por nós, com a ajuda de nossas mãos e de nossas mentes, cujo conhecimento será declarado impossível ou, então, será enfraquecido ao modo de conjecturas, analogias e ficções^ Daqui a pouco vamos voltar ao argumento e introduzir outros elementos com
1. Ao introduzir o argumento, gostaríamos de chamar a atenção do leitor para as barreiras teológico-religiosas que tiveram de ser superadas, de modo a permitir a entrada em cena do ser hum ano com o criador: afinal, o homem era a “criatura”, só D eus era o “criador” — da natureza e do próprio homem. Vencida a barreira, num processo irresistível, o homem se verá na tríplice condição de criador da sociedade (cultura), do conhecimento e de si mesmo (de seu corpo, quiçá de sua mente), a última condição tendo sido assumida mais recentemente, na esteira da engenharia genética. Nas páginas que seguem vamos ocupar-nos de diferentes tópicos vinculados à idéia de conhecimen- to-construção ou conhecimento-criação, visando-a com o uma epistemologia especial ou um a teoria particular do conhecimento (pois — vimos na Introdução — há outras). Dois são os paradigmas que modelaram o conhecimento-criação e nuclearam o argu mento do conhecimento do criador: o paradigma da tecnologia, tendo por protótipo o engenheiro; o paradigma da arte, tendo por protótipo o pintor (Leonardo). Além de mostrar que no fundo não há dicotomia entre os dois paradigmas (pois, antes de se converter em técnico, o engenheiro é um artista e cria algo ao engenhar, do mesmo modo que o verdadeiro artista, ao criar, engenha e molda algum a coisa), todo o nosso esforço consistirá em superar a dicotomia invenção/descoberta, bem como em pensar uma idéia de verdade condizente com o conhecimento-criação, a saber: a verdade-obra.
vistas a precisá-lo e infleti-lo para as ciências humanas. Antes disso, vamos avançar a tipologia e apontar as variantes.
Tal tipologia, elaborada com vistas ao argumento, para operaciona- lizá-lo, e às ciências humanas, ao tomá-las como ponto de aplicação, envolve um conjunto de cinco variantes, recobrindo um gradiente que vai do realismo epistemológico, passando pelo operacionalismo, pelo instrumentalismo e pelo construtivismo, até chegar ao pragmatismo.
Ao que parece, quem pela primeira vez analisou o dito argumento e seu aparecimento mais ou menos elíptico na história da filosofia e das ciências foi o espanhol Pérez-Ramos em seu livro consagrado a Bacon, publicado originalmente em inglês e intitulado A idéia de ciência de
Francis Bacon e a tradição do conhecimento do fazedor (makers know- ledge)1. Outro lugar onde ele aborda o mesmo assunto é o artigo dedi
cado a Vico e que veio a lume um pouco antes5. O mesmo argumento foi retomado recentemente numa tese de doutorado em filosofia, pos teriormente transformada em livro4, de autoria de Bernardo Jefferson de Oliveira, também dedicada a Bacon, e portanto fora do contexto da epistemologia das ciências humanas. Um pouco antes, com base em Pérez-Ramos e outras fontes bibliográficas, o argumento foi abordado no âmbito da teoria do conhecimento por Danilo Marcondes, em ins- tigante artigo intitulado “O argumento do conhecimento do criador e o ceticismo moderno”5. Os interessados no assunto têm então nos livros e nos artigos uma referência atualizada do estado da questão, especial mente o livro e o artigo de Pérez-Ramos, autor que com acuidade não só renovou os estudos baconianos, como também explicitou um argu mento caro a Vico, a Hobbes e às próprias ciências humanas em suas diferentes vias ao longo da modernidade.
2. PÉREZ-RAMOS, A. Francis Bacorís idea o f Science and the makers knowledge
tradition. Oxford, Alden Press, 1988.
3. Id., “La emergencia dei sujeto en las ciências humanas: Giambattista V ico”, in L a
crisis de la razón. Murcia, Publicaciones de la Universidad de Murcia, 1986.
4. OLIVEIRA, B. J. Francis Bacon e a fundamentação da ciência como tecnologia.
Belo Horizonte, Editora U FM G , 2002.
5. SOUZA Fi l h o, D. M. “O argumento do conhecimento do criador e o ceticismo moderno”, in CHAUÍ, M. e ÉVORA, F. Figuras do racionalismo — Conferências da
De nossa parte, já tínhamos trabalhado o argumento, ainda que implicitamente e sem empregar o nome, seja a expressão “conhecimento do fazedor”, seja a fórmula “conhecimento do criador”, em nossa tese de doutorado, que gerou mais tarde o livro O grau zero do conhecimen
to: o problema da fundamentação das ciências humanas. Na tese, assim
como no livro, tivemos a ocasião de trabalhar aspectos do argumento em Hobbes, Dilthey, Marx e no idealismo alemão. Ao fazê-lo, eviden ciando seu lastro, fomos conduzidos a associar o tema do conhecimen to como obra e criação à questão do prometeísmo moderno. Por vezes, fomos levados ora a nos restringir à questão da verdade (verdade-obra) e sua fundamentação, ora a tomar o idealismo alemão como a versão mais radicalizada do argumento, pondo em relevo a existência de uma espécie de hiperativismo teórico em Hegel e em Fichte. A par do idealis mo alemão, remontamos o argumento ao racionalismo clássico e à teoria da produtividade originária da razão, em alternativa ao inatismo carte siano, tendo como expoente (a teoria) o nome e a obra de Espinosa. Mais recentemente, voltamos ao tema em nosso último livro, O fio e a
trama: reflexões sobre o tempo e a história, ao tratarmos da vérdade-obra
e do conhecimento-produção (narração) na historiografia moderna e contemporânea. Posteriormente, tivemos a ocasião de voltar a um elo ou aspecto do argumento, mais uma vez sem empregar o nome, num artigo publicado recentemente na revista Interações, de São Paulo, ten do por título “A filosofia no 3o milênio: o problema do niilismo abso luto e do sujeito-demiurgo”. Nesse artigo, cuja versão mais alentada apareceu num ensaio publicado pouco depois na revista Cadernos de
história e de filosofia da ciência, da Unicamp6, tratamos da variante
“tecnológica” do argumento. Tal variante aparece em ambas as publi cações quando abordamos, associando-a à questão do niilismo, a expe riência da nova demiurgia gerada pela ciência e pela técnica na última década, tomando como referência a biotecnologia. Ao situá-la, ressal tamos tanto as esperanças quanto os perigos da experiência do homem como criador radical de si mesmo, e mostramos que lá onde o niilismo
6. DOMINGUES, I. “A filosofia no terceiro milênio: legados e desafios”, Cadernos de
campeia o sujeito-demiurgo aético reina, quando, impotentes, ficamos à mercê dos doutores Faustos e dos Frankensteins de nossos dias. Final mente, desta feita com o nome, porém fora do âmbito da epistemolo- gia das ciências humanas, pudemos tratar de outros aspectos do argu mento, evidenciando seu extraordinário poder irradiador, numa época em que todo mundo quer ser artista e não hesita dar às suas obras e criações os lustros das artes, em nosso artigo recentemente publicado na obra comemorativa dos 80 anos de Pe. Vaz, onde figura com o título “A crise da verdade e o sujeito ético”7.
Tendo feito essas incursões, nossa tentativa agora é explicitar e siste matizar o argumento e estendê-lo às ciências humanas.
Segundo Pérez-Ramos, o argumento do conhecimento do “faze dor”, formulado pela primeira vez, de uma maneira explícita e com pleta, por Vico (Ciência nova), constitui uma das correntes subterrâ neas mais poderosas do pensamento ocidental, recebendo, antes e depois de Vico, um conjunto de formulações paralelas mais ou menos elípticas da parte de uma plêiade de pensadores ilustres, como Bacon, Kant, Hobbes e Boyle.
Sua origem mais remota é a teologia, ou, antes, a religião (o cristia nismo, no caso), a qual patenteou a figura do Deus onisciente que co nhece tudo e criou o universo com base num ato de vontade estampa do no famoso “Fiat” da doutrina da criação. Ausente da filosofia grega, ao menos em suas versões platônica e aristotélica, dependentes demais da figura da vita contemplativa ou do bios theoretikòs, assim como do ponto de vista do consumidor, não do produtor ou do “fazedor” (segun do Aristóteles, quem conhece bem uma casa não é o pedreiro que a construiu, mas o seu habitante ou morador), a idéia do conhecimento como criação, no entender de Pérez-Ramos, só mais tarde vai aparecer no campo das ciências. Especialmente, no domínio das matemáticas, quando Proclo no fim da Antiguidade trata da obra de Euclides e subli nha os aspectos construtivistas do conhecimento naquela ciência, so bretudo na construção das figuras (é o próprio homem no uso de suas
7. Ma cD O W ELL, João A., SJ (org.). Saber filosófico, história e transcendência —
Homenagem ao Pe. Henrique Cláudio de Lim a Vaz, SJ, em seu 80° aniversário. São
1
Form as de racionalidade e estratégias discursivas das ciências hum anas na contem poraneidade
faculdades racionais que cria as figuras e tem pois acesso à sua ratio
constructionis, podendo pois dar-lhes razão — estima Proclo, assim como,
mais tarde, no início dos tempos modernos, Thomas Hobbes). Já no tocante à física e a outras disciplinas das ciências naturais, a extensão do argumento viu-se obstaculizada no início, uma vez que para elas durante muito tempo prevaleceu a idéia de que só Deus, criador do mundo, podia conhecer o que se passava nos recessos pro fundos das coisas. Não os homens, cujo conhecimento estava fadado a ser algo hipotético e conjectural, devendo eles se contentar, no tocante às essências íntimas e disposições secretas das coisas, com um conheci mento indireto ou analógico, baseado em implicações lógicas ou infe rências dialéticas. Sob esse aspecto, portanto, quanto às ciências natu rais, o argumento do conhecimento do criador e sua invocação ao Deus- criador funcionavam negativamente, servindo para fixar um limite para as vãs pretensões do intelecto humano.
Essa situação só vai ser alterada nessas ciências — pode-se dizer — no início da modernidade, quando Kepler, Descartes, Boyle e outros pensadores criaram a figura do mundo-máquina e mesmo do corpo- máquina (Descartes), se não do homem-máquina (La Mettrie). Foi en tão, com a ajuda dos modelos de relógios mecânicos, engenhos hidráu licos e de autômatos de toda sorte, como os de Vaucanson, que as novas ciências estabeleceram a analogia entre o conhecimento dos mecanis mos dos autômatos e o dos dispositivos profundos da natureza em seus diferentes domínios, estendendo-se primeiro ao domínio das coisas, e por fim ao próprio homem como organismo vivo. Foi então — na es teira da associação entre a ciência (episthéme) e a técnica (téchne), dando ensejo ao surgimento das tecnociências modernas, bem como ao apa recimento do novo Prometeu junto com o Homo faber, com suas cria ções e produções, gerando a figura do sujeito construtor moderno ou do sujeito epistemológico — que toda uma nova perspectiva para o conhecimento se anunciou no campo das chamadas ciências naturais, acarretando uma revolução tecnológica e científica sem paralelo na história da humanidade. No rastro da passagem do ideal da vita con
templativa para a vita activa, o homem, qual um alter deus, depois de
f
O argum ento do conhecim ento do criador e as ciências hum anas
“artifícios” que ele mesmo criou (modelos, laboratórios, experimen tos), passa a agir diretamente na natureza, e se vê na condição de cria dor, se não do mundo das coisas, pelo menos de uma segunda nature za, a saber: o mundo da instrumentalidade e do aparato técnico. Mas não é só: posteriormente, vencida a barreira do mundo das coisas, quando os físicos se descobriram com o poder de gerar eles mesmos processos naturais inteiros, com seus supercondutores e outros engenhos, o pró ximo passo das tecnociências foi conquistar o mundo dos organismos vivos em toda a sua extensão. Isso ocorreu depois que os biólogos, ten do aprendido com os físicos a brincar de Deus no mundo da matéria, passaram a brincar de Deus (ou será de diabo?) no mundo da vida, com a descoberta do código genético, no início reconstruindo e sintetizan do artificialmente em laboratório os processos naturais, no fim agindo diretamente nos organismos com a ajuda dos meios e dispositivos gera dos pelas próprias tecnociências, levando-os a falar da criação da vida e da fabricação do próprio homem. Resultado: ao fim dessa epopéia, o argumento do conhecimento do criador, impedido que estava de se estender à natureza, vê removido o obstáculo e a ela se aplica por in teiro, sem nenhuma restrição, no tocante tanto ao mundo das coisas quanto ao mundo dos seres vivos, deixando de ser um privilégio do mundo dos homens e das próprias ciências humanas.
Quanto às ciências humanas, que são o nosso escopo, e que não receberam um tratamento mais detido por Pérez-Ramos, tendo-se ele limitado a evocar Hobbes e a se referir mais enfaticamente a Vico, gostaríamos de chamar a atenção do leitor para alguns pontos, os quais devidamente examinados nos levaram a corrigir a leitura que faz nosso autor dos antigos, inclusive em relação a certos aspectos das ciências naturais. A se acreditar em Pérez-Ramos, os gregos pouco ajudaram na epopéia do conhecimento do criador, visto que, como foi salientado, eles se colocavam na perspectiva da vita contemplativa, e não na da vita
activa. Não bastasse, os gregos falavam do mundo das obras, das ações
e dos feitos dos homens, relacionado com as atividades da póiesis, da
práxis e da téchne, a partir do ponto de vista do consumidor, e não do
“fazedor” (criador). Depois de refletir sobre esses pontos, passamos a julgar algo equivocadas as considerações de Pérez-Ramos a respeito das
ciências naturais e humanas (ou, antes, acerca do mundo das coisas e dos homens, na perspectiva dos antigos e do argumento do criador). A começar por Platão e pelo Timeu, citados por ele.
Ora, no Timeu, relativamente à questão da criação do mundo, tema que com certeza interessa à física e à cosmologia, Platão afirma que “o Demiurgo realizou o mundo moldando-o conformemente ao vivente em si, modelo (paradeigma) único, completo e imutável”8. Há de se acrescentar, no que concerne ao problema da criação, que Platão se limita no Timeu ao mundo das coisas, reservando ao Crítias a tarefa de estender a demiurgia ao mundo dos homens. Com o o Crítias ficou inacabado, é na República e nas Leis que se podem encontrar os ele mentos demiúrgicos relativos ao mundo humano, especialmente na Re
pública, quando o filósofo da Academia trata das figuras do fundador e
da cidade ideal. Todavia, antes de Platão, a tópica da demiurgia e da fundação é tratada por Sólon, que distingue a figura do oikistés, referida ao fundador das cidades e das colônias, da figura do nomothetés, que designa o “dador de Leis” ou o Legislador. Mais tarde, à época de Platão, vamos encontrar, se não a idéia do conhecimento do criador, pelo menos as idéias da sociedade como construção e da lei como artifício humano, em sofistas como Protágoras e Trasímaco, que dão ensejo, junto com Platão e Sólon, ao construtivismo social e político, todavia sem tratarem da figura do fundador e do tópos da fundação9. Por fim, fora do contexto da fundação, há Aristóteles, autor de uma frase enigmática que desde que a lemos pela primeira vez muito nos obcecou, ao dizer, referindo-se à ética, mas podendo ser estendida à póiesis e à téchne, que “aquilo que somos forçados a fazer para aprender, só o aprendemos fazendo”10.
Nesse sentido, por todas essas razões, é preciso corrigir Pérez-Ramos no tocante aos antigos. Quanto aos modernos, relativamente às ciências humanas, consideramos acertada a linha geral de sua argumentação, e também quanto à inclusão de Hobbes, Dilthey e Vico, especialmente
8. Apud DELATTRE, P. “Teoria/M odelo”, Enciclopédia Einaudi (v. 21). Lisboa, Im prensa Nacional/Casa da M oeda, 268.
9. Devemos as observações relativas a Platão e a Sólon a Newton Bignotto. 10. ARISTÓTELES. Éthique à Nicomaque (tradução de Tricot), II, 1, 1103 a 33. Paris,
Vico, o verdadeiro formulador do argumento. Essa lista poderia ser consideravelm ente aum entada com a inclusão da nebulosa dos contratualistas em política, além dos próprios Marx, Weber e Lévi-Strauss. Contudo, Pérez-Ramos não o faz, e esta lacuna poderia ser justificada com a alegação, como aliás ele mesmo sugere, de que o campo de sua pesquisa é o início dos tempos modernos, particularmente a obra de Bacon, a que é consagrado seu livro. Por isso, na seqüência tentaremos, por nossa própria conta e risco, introduzir outros elos no argumento, com o intuito de estendê-lo a diferentes disciplinas das ciências huma nas, em busca de uma perspectiva mais dilatada que nos permita ir além de Bacon e seu tempo (séculos XVI-XVII), visto que àquela época e naquele autor essas ciências mal existiam na feição que elas têm hoje.
Tomemos o argumento de Vico: do real só podemos conhecer aqui lo que criamos; ora, no real o único mundo que criamos não é a nature za, que é obra do Deus-criador, mas o mundo das instituições e dos negócios humanos; logo, as ciências humanas, que se ocupam dos ob jetos e dos negócios dos homens, conhecem-nos efetivamente e, enquan to tais, são superiores às ciências naturais, as quais devem contentar-se com um conhecimento indireto das coisas da natureza/ Tal é o argu mento de Vico, ou melhor do Vico “histórico”, uma vez que na Ciên
cia nova o pensador napolitano está se referindo às humanidades e
pensando na filologia como modelo delas, antes que a grande bifurca ção ocorrida no século XIX tivesse produzido a clivagem entre as ciên cias humanas, de um lado, e as humanidades, de outro, reservando a estas últimas as disciplinas da erudição, nelas incluída a filologia, que depois vai converter-se em ciência positiva. Ocorre que o argumento do Vico histórico é por demais pobre, além de elíptico, e está longe de recobrir o conjunto das possibilidades, bem como as vias efetivamente percorridas pelas ciências do homem nos séculos XIX e XX. Por isso, vamos propor em seguida a incorporação de certos elos, não exatamen te para melhorar o argumento, mas para transformá-lo em vista das necessidades da pesquisa que estamos desenvolvendo. A começar pela necessidade de introduzir uma tipologia mais fina, como dizíamos, com o objetivo de estendê-lo às ciências humanas tais como elas se nos afiguram hoje.