UNIVERSIDADE FEREDAL DE MATO GROSSO FACULDADE DE ECONOMIA PROGRAMA DE PÓS- GRADUAÇÃO EM AGRONEGÓCIOS E DESENVOLVIMENTO REGIONAL DAYANNE DARTH ANANIAS

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UNIVERSIDADE FEREDAL DE MATO GROSSO FACULDADE DE ECONOMIA

PROGRAMA DE PÓS- GRADUAÇÃO EM AGRONEGÓCIOS E DESENVOLVIMENTO REGIONAL

DAYANNE DARTH ANANIAS

ANALISE DA INTER-RELAÇÃO ENTRE CRESCIMENTO ECONÔMICO, DESIGUALDADE E POBREZA NAS MICRORREGIÕES MATO-GROSSENSES

NOS ANOS 2000 E 2010

CUIABÁ-MT 2015

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DAYANNE DARTH ANANIAS

ANALISE DA INTER-RELAÇÃO ENTRE CRESCIMENTO ECONÔMICO, DESIGUALDADE E POBREZA NAS MICRORREGIÕES MATO-GROSSENSES

NOS ANOS 2000 E 2010

Dissertação apresentada à Universidade Federal de Mato Grosso, como parte das exigências do Programa de Pós-Graduação em Agronegócios e Desenvolvimento Regional, para obtenção do título de Mestre em Agronegócios e Desenvolvimento Regional, sob a orientação do Prof. Dr. Benedito Dias Pereira.

CUIABÁ-MT 2015

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FICHA CATALOGRÁFICA

Permitida a reprodução parcial ou total, desde que citada a fonte. A533a ANANIAS, Dayanne Darth.

Analise da inter-relação entre crescimento econômico, desigualdade e pobreza nas microrregiões Mato-grossenses nos anos 2000 e 2010 /

Dayanne Darth Ananias. -- 2015 101 f. : il. color. ; 30 cm.

“Orientador: Benedito Dias Pereira.”

Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Mato Grosso,

Faculdade de Economia, Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e

Desenvolvimento Regional, Cuiabá, 2015. Inclui bibliografia.

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DAYANNE DARTH ANANIAS

ANALISE DA INTER-RELAÇÃO ENTRE CRESCIMENTO ECONÔMICO, DESIGUALDADE E POBREZA NAS MICRORREGIÕES MATO-GROSSENSES

NOS ANOS 2000 E 2010

Dissertação apresentada à Universidade Federal de Mato Grosso, como parte das exigências do Programa de Pós-Graduação em Agronegócios e Desenvolvimento Regional, para obtenção do título de Mestre em Agronegócios e Desenvolvimento Regional.

APROVADA: 12 de março de 2015.

Banca Examinadora:

Prof. Dr. Benedito Dias Pereira. Orientador.

Prof. Dr. Alexandro Rodrigues Ribeiro Examinador Interno (UFMT)

Prof. Dr. Henrique Tomé da Costa Mata Examinador Externo (UFBA/BA)

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Para toda minha família que sempre me apoiaram, em especial, a meus pais, Bernadete Marta Corrêa Ananias e Vanir Ananias Pinto, e, irmã Daniely Darth Ananias que fizeram o máximo de esforço por mim.

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AGRADECIMENTOS

À Faculdade de Economia da UFMT através do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional e Agronegócio, na pessoa do professor Dr. Benedito Dias Pereira, orientador e amigo, quem sempre me socorreu como filha; agradeço, sobretudo, à dedicação a faculdade e aos seus alunos, será sempre um exemplo de profissional, mais ainda levarei comigo a sua figura sabia e alegre que vi a cada tomada de decisão. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPQ) pelo apoio Financeiro através da concessão de Bolsa de mestrado durante a realização do mestrado e anteriormente nos projetos de pesquisas durante a graduação.

Aos professores e amigos do Mestrado, pela contribuição acadêmica e pessoal. Agradeço em especial aos professores Alexandro, que despertou o interesse ao estudo de desenvolvimento, ao prof. Fernando Tadeu que mostrou a preocupação pelo Mato Grosso, ao prof. Cesar pela capacidade critica de avaliar minha percepção dos objetos e ser humano, ao prof. Dirceu que introduziu os problemas da economia e sociedade, ao prof. Arturo pela constante alegria e disposição em ajudar.

Meus amigos de mestrados que se mostraram presente tanto nos momentos felizes como nos difíceis; superamos muitas barreiras por acreditarmos na união e sinceridade, sou grata pela companhia da Meire, Rosana, Luana, Alani, Amanda, Cleide, Edelvais, Milane, Eliane, Renata, Michele, Claudio, Daniel Colombiano e Daniel Tomas. Sou grata também aos meus amigos de graduação Fabricio, Eveline, Gisele, Jemily, Joice e Daniele pelo apoio constante. Aos meus amigos íntimos Hellyce, Rose, Sanne, Regina, Gislane, Viviane, Camila, Douglas, Patrícia, Eva e Kássia.

Agradeço a meus pais pelo exemplo de dedicação a família, são meus principais orientadores, levo sempre os seus incentivos e conselhos que fortalecem meu esforço pessoal e profissional. A minha mãe pelo exemplo de vida e os ensinamentos cristãos, que contribui para meu amadurecimento moral, a meu pai por ser verdadeiro e carinhoso, ampliando a minha capacidade de discernimento. O circulo familiar só é completo com a adição de minha irmã, minha parceira, que cuida muito bem de mim, sem ela não teria desenvolvido a capacidade de argumentar e tomar decisões.

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RESUMO

A relação de causalidade entre pobreza, crescimento econômico e desigualdade da distribuição de renda estimula discussões na vertente desenvolvimentista e contempla argumentos estruturalistas de crescimento com equidade e estratégias de combate à pobreza por meio do crescimento e de políticas pró-pobre. Com suporte em Kakwani e Pernia (2003), que conceitua pró-pobre como o padrão de crescimento capaz de reduzir a pobreza e amenizar as disparidades das rendas auferidas por pobres e não pobres, pesquisa-se sobre a pobreza e seus macros determinantes, crescimento e desigualdade, com a finalidade se avançar no entendimento do processo de crescimento das microrregiões de Mato Grosso e da interligação entre pobreza, desigualdade e crescimento, com base nos dados censitários do IBGE de 2000 e 2010. Nesse contexto, com foco no ambiente rural, após as estimativas de indicadores de pobreza e de desigualdade de distribuição de renda, elabora-se decomposição do índice de pobreza por intermédio do método de Shapley e da estimativa do índice de crescimento pró-pobre proposto por Kakwani e Pernia (2000). Os resultados evidenciam a presença de heterogeneidade nos níveis de pobreza, renda média e mediana, distribuição de renda com padrão homogêneo e desigualdade de distribuição de renda indutora de incremento da extrema pobreza nas microrregiões investigadas.

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ABSTRACT

The causal relationship between poverty, economic growth and inequality of income distribution stimulates discussions on developmental aspect and includes structuralist arguments of growth with equity and strategies to combat poverty through growth and pro-poor policies. Supported in Kakwani and Pernia (2003), which defines pro-pro-poor as the pattern of growth needed to reduce poverty and considering the disparities in income earned by poor and non-poor, if research on poverty and its determinants macros, growth and inequality, in order to advance the understanding of the growth process of Mato Grosso micro and interconnection between poverty, inequality and growth, based on the 2000 IBGE census data and 2010. In this context, focusing on the rural environment, after estimates of indicators of poverty and income distribution inequality, draws up decomposition of the poverty rate through the Shapley method and the estimated pro-poor growth rate proposed by Kakwani and Pernia (2000). The results show the presence of heterogeneity in poverty levels, average and median income, income distribution with homogeneous pattern and inducing income distribution inequality increase in extreme poverty in the investigated micro-regions.

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ... 10

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 15

2.1. A RELAÇÃO ENTRE CRESCIMENTO, DESIGUALDADE, POBREZA. ... 15

2.1.2. Considerações sobre o conceito de pobreza absoluta e crescimento pró-pobre ... 27

2.2. MATO GROSSO EM PERSPECTIVA ... 33

2.2.1. Formação da Economia de Mato Grosso ... 33

2.2.2. Caracterização da economia de Mato Grosso no século XXI ... 37

2.2.3. Caracterização das Microrregiões Mato-grossenses ... 43

3. MATERIAL E MÉTODO ... 55

3.1. FONTES DE DADOS E TRATAMENTO DAS VARIÁVEIS ... 55

3.2. MEDIDAS DE DESIGUALDADE ... 57 3.2.1. Lorenz ... 57 3.2.2. Índice de Gini ... 57 3.2.3. Entropia Generalizada ... 58 3.3. MEDIDAS DE POBREZA ... 59 3.4. DECOMPOSIÇÃO ... 60

3.4.1. FGT decomposição por subgrupos ... 60

3.4.2. Decomposição de Gini por subgrupos ... 61

3.4.3. Decomposição de Shapley ... 61

3.5. ÍNDICE DE CRESCIMENTO PRÓ-POBRE ... 64

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES ... 66

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 82

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 87

ANEXO A ... 97

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LISTAS DE FIGURAS

Figura 1 Evolução do PIB nominal de Mato Grosso (R$ em milhões) ... 39 Figura 2 Distribuição da terra e do pessoal ocupado na agropecuária em 2006 ... 49 Figura 3 Indicadores de bem-estar social, o Índice Firjan e o PIB per capita municipal, em 2010 ... 52 Figura 4 Diagrama Padrão de Lorenz ... 57

LISTAS DE TABELAS

Tabela 1 Emprego formal por atividades agropecuárias nas Microrregiões Mato-grossenses em 2000 ... 47 Tabela 2 Decomposição das Medidas de Desigualdade por Microrregião Mato-Grossense 2000-2010. ... 68 Tabela 3 Distribuição dos Rendimentos por Percentil, Renda Média e Mediana por Microrregião, valor corrigido para julho de 2010, 2000-2010. ... 70 Tabela 4 Decomposição da Família FGT em pobreza absoluta por Microrregião, ... 73 Tabela 5 Decomposição de Shapley da Pobreza e Extrema Pobreza com respeito a P0, por

Microrregião, 2000- 2010. ... 77 Tabela 6 Índice do Crescimento Pró-Pobre da Pobreza e Extrema Pobreza, por Microrregião, 2000-2010. ... 79 Tabela 7 Decomposição da Família FGT em extrema pobreza por Microrregião Mato-Grossense, 2000-2010. ... 97 Tabela 8 Decomposição de Shapley da Pobreza e Extrema Pobreza com respeito a P1, por Microrregião, 2000- 2010. ... 98 Tabela 9 Decomposição de Shapley da Pobreza e Extrema Pobreza com respeito a P2, por Microrregião, 2000- 2010. ... 99

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LISTAS DE SIGLAS

CEPAL Comissão Econômica para a América Latina e o Carib DASP Distributive Analisys Stata Package

EMPAER Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

IFDM Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal

IMEA Instituto Mato-grossense de Economia e Agropecuária INPC Índice Nacional de Preço ao Consumidor

IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada MIP Matriz Insumo Produto

MT Mato Grosso

PIB Produto Interno Bruto

PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento RAIS Relação Anual de Informações Sociais

RDPC Renda Domiciliar Per Capita SECEX Secretaria de Comércio Exterior

SEPLAN Secretária de Estado de Planejamento e Coordenação Geral SUDAM Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia

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1. INTRODUÇÃO

A pobreza absoluta considera a renda (ou consumo) como único indicador de bem estar social, logo, a pessoa que não aufere rendimento (consumo) mínimo para cobrir a subsistência é classificada como pobre, de acordo com determinada linha de pobreza. Diante disso, a literatura econômica neoclássica aponta o crescimento econômico como a melhor solução para o combate à pobreza.

Como essa assertiva está imersa nos fundamentos neoclássicos e no seio desse ideário, as estratégias políticas dos economistas que se fundamentam nessa corrente de pensamento privilegiam a promoção do crescimento econômico, com ênfase no trade off entre eficiência e equidade, explicitamente reconhecendo que esses dois alvos não são alcançados simultaneamente (DINIZ, 2005; MOREIRA, 2010, MARINHO E SOARES, 2003).

Entrementes, como o transcurso do tempo vem revelando, quando o crescimento econômico é definido como meta primordial do desenvolvimento, não provê benefícios para a população pobre no terceiro mundo. Nesses termos, Ahluwalia et al. (1979) questionam o padrão de crescimento econômico em países em desenvolvimento, uma vez que esse modelo vem contribuindo pouco para amenizar a situação dos pobres, além disso, a distribuição pessoal e espacial desigual desses movimentos se posicionam como óbices ou restrições para a melhoria de renda dos mais pobres, cujo crescimento se loca abaixo da renda média desde a década de 1950.

Por sua vez, ao analisar a economia brasileira, Barros et. al. (2000) evidenciam que a falta de políticas públicas voltadas para a conciliação entre crescimento econômico e distribuição equitativa de renda, resultam em maior concentração de renda e, ao longo de diversos anos, vem contribuindo para a estabilização da desigualdade de renda, expansão da pobreza e da exclusão social de parte expressiva da sociedade.

A literatura sobre esses temas tenta avançar na discussão ao conciliar os elementos do triângulo crescimento-desigualdade-pobreza, buscando acentuar a convergência ou aderência entre o caminho de expansão da renda média dos mais pobres e a dos mais ricos, contribuindo, portanto, para a redução da pobreza e das discrepâncias distributivas entre esses dois grupos sociais, ensejando o crescimento pró-pobres, como postulam Kakwani e Pernia (2003). Ao se viabilizar crescimento inclusivo, ou seja, conducente à redistribuição de renda

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em benefícios dos mais pobres, o alvo dessa discussão resulta bem definido, pois busca maior aderência entre equidade e eficiência.

Com esse foco, novas diretrizes de desenvolvimento vêm sendo adotadas pelas agências internacionais e nacionais: Em especial, a ONU, dado que dentre as propostas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, em 2000, a meta prioritária consistiu na erradicação da pobreza em vários países, dentre eles o Brasil. A erradicação da pobreza tem sido destacada nas estratégias nacionais de desenvolvimento, seja no ambiente rural, seja no urbano (ALBUGUERQUE, 1995). Em particular, a estratégia de desenvolvimento rural considera como principal problema a pobreza no campo, como realçam Schneider (2004), Campanhola e Silva (2000) e Wanderley (2000).

Nesse contexto, como no Brasil o modelo histórico de acumulação primitiva engendrou a persistência do desenvolvimento excludente, ilustrados pelos níveis inaceitáveis de pobreza e de desigualdade na distribuição renda (BARROS ET. AL., 2000), considera-se que a distribuição de renda depende do processo de acumulação de capital imanente ao movimento do modo de produção capitalista, intrinsecamente gerador de ascendente desigualdade de redistribuição de renda.

Por conseguinte, pode-se facilmente inferir que a discussão ora em curso posiciona seu eixo analítico em caracteres de política e de economia, uma vez que contempla ações deliberadas do Estado, voltadas para a irradiação do crescimento econômico equilibrado para todo o conjunto da população e, dessa forma, direcionadas para o rompimento da estrutura concentradora espacial e pessoal de renda que resulta do livre funcionamento das forças de mercado do modo de produção capitalista e que tem sido irmã siamesa do crescimento histórico da maioria das economias capitalistas. Com efeito, as estratégias de redução da pobreza e da desigualdade se nucleiam na qualidade do crescimento econômico, definido como pró-pobre.

Desse modo, enquanto ente político, o Estado deve atuar como promotor da inclusão social e da redistribuição mais igualitária da renda, visto que em consonância com o modelo de desenvolvimento excludente brasileiro, o processo de integração da economia de Mato Grosso se materializou com o avanço das fronteiras agrícolas e cuja ocupação ganhou concretude socialmente perversa através de concentração excessiva de terras e do desenvolvimento de atividades agropecuárias marcadas por políticas excludente, fertilizadas ou fortalecidas pela desigual concessão de crédito subsidiado, um dos principais vetores do

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processo de modernização da agricultura e propulsor do progresso técnico e da inovação tecnológica.

O período proposto à análise e pesquisa abrange a década entre 2000 e 2010, visto que, nesse decênio, o setor agropecuário se constituiu em um dos principais indutores do crescimento do PIB na economia regional. As informações do Instituto Mato-grossense de Economia e Agropecuária, IMEA (2014), mostram que a importância da agropecuária na economia mato-grossense extrapola a delimitação do rural. Por exemplo, em 2007, a agropecuária participou com cerca 28,1% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual, enquanto o PIB do agronegócio representou aproximadamente 50,46% desse mesmo agregado.

Destarte, se verifica o transbordamento do crescimento setor primário para os setores de serviços e da indústria, privilegiando as regiões com alto desenvolvimento agrícola, por isso Vieira Junior et. al. (2014) assinalam que, isoladamente, a taxa de crescimento da economia, necessariamente, não acarreta homogeneidade espacial, por oposto, tende a regionalizar a riqueza, assim como contribuir para o incremento das disparidades regionais.

Nesse quadro, as vantagens comparativas do Estado permitem que os estabelecimentos ou organizações produtivas se especializem na produção de poucos bens agropastoris, de caráter primário e exportador, impulsionadas pelo aumento da produtividade do capital e do trabalho de pequena parcela da população rural inserida no mercado de trabalho, visto que a grande maioria desses entes habita atividades menos dinâmicas, constituídas por pequenas unidades, com pouco capital e baixos níveis de tecnologia, onde, de modo geral, a renda da produção não é suficiente para prover o sustento da família, fazendo-se necessária a recorrência ao trabalho externo à propriedade e/ou complementação com outras fontes de renda, em cenário produtivo onde se prolifera a pluriatividade e a multifuncionalidade.

Assim sendo, com foco estritamente no ambiente rural e considerando o crescimento e a desigualdade que resultam dos movimentos e das transformações da economia de Mato Grosso em anos adiante explicitados, nesta Dissertação se propõe investigar os macros determinantes da pobreza rural em vinte e duas microrregiões dessa unidade federativa, em perspectiva que instiga discussões sobre as políticas de desenvolvimento rural assim como sobre o aumento de bem estar social através de crescimento econômico e das politicas pró-pobre, indutoras da redução das divergências distributivas entre os mais pobres e os mais ricos, bem como entre as microrregiões. Nessas condições, o cerne do estudo questiona: A interação entre crescimento econômico, desigualdade da distribuição pessoal de renda e pobreza têm favorecido os pobres rurais nas microrregiões de Mato Grosso?

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Considerando as elevadas taxas de crescimento apresentadas pelo PIB mato-grossense nos anos mais recentes, propulsionadas, em dominância, pelas atividades agropecuárias, o objetivo geral deste trabalho é investigar a interação entre crescimento econômico, desigualdade da distribuição de renda e os níveis de pobreza rural. Para tanto, com foco nas vinte e duas microrregiões mato-grossenses, tem-se dois objetivos específicos: a) Verificar se há variação do crescimento econômico, da desigualdade da distribuição de renda e da pobreza ao longo do tempo pesquisado; b) Identificar e analisar a inter-relação entre as variáveis componentes do trinômio: pobreza-crescimento-desigualdade a partir da influência do crescimento e da desigualdade sobre a variação da pobreza, medida pela decomposição de Shapley; em sequência, procura-se compreender e analisar a qualidade do crescimento da economia mato-grossense por intermédio da estimativa do índice de crescimento pró-pobre de Kakwani e Pernia (2000), ou seja, investigando-se se esse crescimento favorece ou não as pessoas que auferem as rendas mais reduzidas.

Outrossim, para se atingir os objetivos específicos propostos, a formulação de duas hipóteses se faz necessária. O ponto de apoio para a primeira hipótese repousa nas características correntes mais destacadas da economia de Mao Grosso: Crescimento elevado do PIB, com assento em estrutura fundiária extremamente concentrada e liderado pelas atividades agropastoris voltadas em supremacia para a exportação, cujo dinamismo se fertiliza ao longo do tempo, especialmente nos anos mais recentes, em inovações tecnológicas altamente excludentes aos pequenos produtores rurais e que se gestam em grandes unidades produtivas com alcance transnacional. Por conseguinte, os caracteres desse ambiente resultam propícios para o delineamento e indução de quadro social que se marca pela exclusão e pelo crescimento da concentração da desigualdade da distribuição de renda. Nesses termos, como primeira hipótese, espera-se que o crescimento econômico que se instala nesse modelo e nesse contexto, não proporciona ou gera melhoria de bem estar para as famílias pobres rurais, pelo contrário, postula-se que esse crescimento esteja pintando um quadro social com tintas com cores e matizes que acentuam os níveis de pobreza e da desigualdade da distribuição pessoal de renda.

A segunda hipótese, por sua vez, fundamenta-se na abordagem da Comissão Econômica para a América Latina e o Carib (Cepal), cujas análises do processo de desenvolvimento dos países latinos permitem concluir que uma economia pode ser dinâmica e ao mesmo tempo fomentar a concentração de renda, setorial e regional, de modo a inferir que o crescimento econômico não seja suficiente para a melhoria da qualidade de vida, uma vez

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que crescimento sem equidade não é desejável para todos, principalmente, se o ambiente empírico se pautar por alta concentração de terra e desigual distribuição do aparato tecnológico tal como o cenário no Mato Grosso, conforme abordado. Assim sendo, como o crescimento desigual reforça ou se movimenta organicamente induzindo o incremento da desigualdade da distribuição de renda, como segunda hipótese, se presume que o crescimento vivenciado nos anos mais recentes pela economia mato-grossense não tem sido pró-pobre, isto é, não tem favorecido as pessoas que auferem as rendas menores.

Ademais, como esse modelo de desenvolvimento se revela excludente e com heterogeneidade nas diversas regiões do Estado, por natural, o crescimento, a pobreza e a distribuição de renda da economia mato-grossense exibem dinâmica diferenciada nos distintos espaços regionais, dessa maneira, faz-se a desagregação da extensão do território de Mato Grosso por microrregião. Com essa proposta, analisa-se especificamente a área rural mato-grossense, cujas transformações econômicas, espaciais e sociais moldam ambiente fértil para a pesquisa sobre pobreza, desigualdade da distribuição de renda e temas afins. Como ilustração, os dados são extraídos das bases censitárias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos anos de 2000 e 2010, com suporte nas definições do IBGE sobre divisão territorial em microrregião e área rural.

Uma vez abordada essa Introdução, logo a seguir, delineiam-se traços teóricos sobre a inter-relação da tríade “crescimento, desigualdade e pobreza” com foco no pensamento neoclássico e cepalino, dando ênfase à proposta de crescimento com equidade, de modo que a evolução dos conceitos de pobreza e crescimento pró-pobre seja contemplada, sequenciada por comentários sobre a formação econômica de Mato Grosso, bem como acerca das características do Estado e das microrregiões dessa unidade federativa. Logo adiante, como método de estudo, o eixo dos comentários se centra nas ferramentas utilizadas, dentre as quais: indicadores de distribuição de renda, medidas de pobreza e as técnicas de decomposição para microrregião, a decomposição de Shapley e o índice de Kakwani e Pernia (2000) para o crescimento pró-pobre, se atendo à relação de causalidade e correlação entre o comportamento da pobreza e os seus macros determinantes, renda média e desigualdade. A parte seguinte é constituída pelos resultados e discussões, antecedida pelos comentários finais.

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2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Inicialmente o capítulo busca apresentar o pensamento teórico dominante na economia e a abordagem estrutural da Cepal, ressaltando o trade off entre crescimento e equidade para os neoclássicos, ao contrário dos desenvolvimentistas que defendem o crescimento acompanhado da equidade. Em seguida, faz-se uma breve abordagem do processo de formação da economia de Mato Grosso, pautada por crescimento econômico acentuado nos anos mais recentes, constituído por microrregiões com unidades produtivas que apresentam produtividade elevada e acentuada dinâmica agropecuária, assentada em base técnica intensiva em capital e concentrada em grandes faixas de terra, em contraposição às economias menos dinâmicas, marginais no desenvolvimento agrícola, com baixos níveis de desenvolvimento de emprego de mão de obra e renda.

2.1. A RELAÇÃO ENTRE CRESCIMENTO, DESIGUALDADE, POBREZA.

Esta seção busca entender a inter-relação entre crescimento econômico, desigualdade e pobreza, por meio da investigação da visão neoclássica e cepalina. A princípio, há um consenso que o crescimento é bom para todos; contudo, quando tal suposição não se concretiza, decorre da redistribuição desigual da renda e da riqueza na sociedade e incremento da pobreza. No caso dos países da América Latina, em especial o Brasil, a dinâmica distributiva é estruturalmente concentrada dificultando que o crescimento econômico conduza à melhoria da qualidade de vida da maioria da população, redução da pobreza e da desigualdade da distribuição de renda. Com efeito, a preocupação central, particularmente nesses países, remete à convergência do crescimento para a equidade, defendida por pensadores cepalinos.

É importante enfatizar que dentre os objetivos da Ciência Econômica, o crescimento e a distribuição de riqueza são reconhecidamente temas centrais de estudos desde os clássicos, Adam Smith e David Ricardo. No tocante ao crescimento, há um consenso teórico que o trata como indispensável à melhoria da qualidade de vida da população, entretanto quando a questão é a distribuição da riqueza e da renda, tema claramente político, a ideologia e a ciência ainda não alcançaram o entendimento, em decorrência, os reflexos são a notória disparidade de riqueza e da renda entre indivíduos e regiões, e a proliferação do subdesenvolvimento e da pobreza.

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De um lado, as versões convencionais do modelo neoclássico de crescimento tentam argumentar sobre a convergência de renda per capita por causa da lei dos rendimentos decrescentes que rege o uso dos fatores de produção no longo prazo, nesse contexto, as rendas per capita das diferentes regiões de um país e, mesmo, dos países tenderiam à equalização, por isso eram contrários à redistribuição de renda no curto prazo. Contudo, os estudos empíricos apontam que a desigualdade tende a aumentar em vez de equalizar, assim para explicar os resultados da desigualdade entre as regiões e nações, os neoclássicos avançam nessa discussão e propõem o modelo de crescimento endógeno, aonde o capital humano deve ser estimulado por políticas de educação e saúde, essenciais para a inclusão social ao mercado.

De outro lado, os cepalinos discutem proposta de desenvolvimento econômico aos países latinos americanos, com participação direta do Estado. Nas décadas de 50 e 60 visa-se à transformação da base produtiva viabilizadora do desenvolvimento endógeno, conducente à industrialização e à urbanização. A partir da década de 70 o diagnóstico conjuntural revela produtividade ascendente, contudo, com concentração dos frutos do progresso técnico, exigindo transformação estrutural, principalmente, a adoção da reforma agrária. Na década de 90 a proposta de desenvolvimento insere-se no contexto mundial, o progresso técnico é requerido como fomentador da competitividade, conjuntamente com a distribuição equitativa dos ganhos e do poder.

Na verdade, o pensamento cepalino não é um rompimento com o pensamento neoclássico, podem até mesmo ser visto como complementares, uma vez que a Cepal utiliza abordagem histórico-estrutural macroeconômica dos países subdesenvolvidos, enquanto os neoclássicos desenvolvem modelos teóricos e matemáticos com enfoque microeconômico, em particular, quando extrapolam para a macroeconômica predomina-se a aceitação do equilíbrio de mercado no longo prazo. Diante disso, para se entender a relação entre crescimento, desigualdade e pobreza se elabora breve exposição das teorias de crescimento neoclássica e suas principais críticas, seguida da analise da evolução das propostas de desenvolvimento da Cepal.

O pensamento neoclássico que discute a causalidade entre crescimento e desigualdade foi apresentado por Kuznets em 1955, tratando-se do primeiro trabalho estatístico com a temática, no qual propõe que as economias tradicionais nos estágios iniciais do crescimento exibem aumento da desigualdade, alcançando um pico, se estabiliza e decresce ao avançar para economia industrial, conhecido graficamente como curva de Kuznets, revelando que a

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trajetória da desigualdade exibe forma de U invertido. Kuznets baseia-se nas estimativas de renda para os Estados Unidos no período de 1913-1945, seus resultados e conclusões defende que a desigualdade decresceu, dado o processo natural e gradual do desenvolvimento econômico.

Outra teoria importante para consolidar a ideia de convergência de renda no pensamento neoclássico foi proposta por Solow em 1956, que procurou mostrar que no longo prazo as variáveis macroeconômicas, como estoque de capital, fluxo de renda e produção dentre outros, seguiriam taxa de crescimento similar, beneficiando toda população na mesma proporção, por isso foi amplamente aclamado como “trajetória de crescimento equilibrado”. Conforme o modelo, o produto per capita é função da divisão do capital pelo trabalho, uma vez que o crescimento do trabalho exige equivalente crescimento da poupança per capita, de tal forma que no longo prazo se espera que estabilize a produtividade marginal do trabalho e capital, em resposta à lei dos rendimentos decrescentes.

Por oportuno, no primeiro caso, Piketty (2014) questiona o otimismo de Kuznets de anunciar uma “teoria”, pois os seus dados se restringem a um país em um período de apenas 30 anos, uma vez que a análise da evolução histórica da desigualdade comprova que a tendência de queda não foi natural ou gradual, e, sim, “antes de tudo, fruto das guerras mundiais e dos violentos choques econômicos e políticos que delas sobrevieram” (p.22). O autor assinala também que a “teoria” ou “especulação” de Kuznets foi anunciada com grande entusiasmo pelos órgãos mundiais para amenizar a pressão dos países subdesenvolvidos no período da Guerra Fria.

Com respeito a Solow, Piketty (2014) chama atenção para um dos pressupostos do modelo, a estabilidade da divisão capital/trabalho, de modo a inferir e disseminar que “o crescimento beneficie a todos” (p.215). Não obstante, a assertiva foge da analise histórica de desajuste entre a razão capital/trabalho, logo não se verifica obrigatoriedade da redistribuição de riqueza e renda, pois o capital pode se sobrepor ao trabalho provocando “fortes variações da relação capital/renda no tempo e entre países” (p. 227). Nesse sentido, Piketty crítica a analise puramente matemática dos economistas, pois não contempla os desajustes econômicos comuns no longo prazo.

Além do mais, Solow fundamenta o modelo de crescimento de longo prazo na substituição dos fatores de produção, por conseguinte a razão capital/renda se ajusta à divisão da taxa de poupança e à taxa de crescimento da renda nacional.

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Os defensores mais radicais “viam no modelo de Solow a afirmativa de que o crescimento era sempre equilibrado” (PIKETTY, p. 226, 2014, grifo nosso), enquanto o próprio autor considerava-o como uma perspectiva de longo prazo. É importante enfatizar que há demasiado exageros na conclusão do modelo e mesmo que houvesse o crescimento sem desequilíbrios macroeconômicos de curto prazo, ainda assim não significava redistribuição igualitária, pois, no curto prazo, “esse crescimento equilibrado não garantia qualquer harmonia particular em relação à distribuição de renda e não implicava qualquer forma de desaparecimento da propriedade do capital” (p.227).

Os modelos de crescimento neoclássico com enfoque na convergência de renda no longo prazo e de que o “crescimento é bom para todos” são aceitos pelos teóricos mais conservadores, contudo, outros pensadores não os consideravam suficientemente explicativo da desigualdade de renda e riqueza, por isso buscou adicionar mais realidade ao modelo, lançando novas análises com referência ao uso da tecnologia e capital humano. As conclusões desses não são tão animadoras como o dos primeiros, visto que a convergência de renda não é um processo natural, pois as diferenciações iniciais da dotação de tecnologia e capital humano geram crescente desigualdade entre países, regiões e indivíduos.

Em adição, Romer (1986) e Lucas (1988), levando em conta que o crescimento econômico difundido pelo progresso técnico, requer mais mão de obra qualificada (em relação à mão de obra não qualificada), que, por sua vez, aumenta a desigualdade e ocasiona a causalidade negativa entre crescimento e equidade. O modelo conhecido como crescimento endógeno propõe a incorporação do investimento em capital humano na função de produção, pois espera que a acumulação do conhecimento tecnológico produza externalidades positivas, dado que o processo de aprendizagem leva outras pessoas também a se beneficiarem, assim, ele apresenta retornos constantes ou crescentes de escala e, portanto, não se manifesta tendência à convergência entre as rendas per capitas.

As novas conclusões do modelo neoclássico enfatizam que a desigualdade individual é positiva para o crescimento econômico, como assinala Kerstenetzky (p. 655, 2002): “a desigualdade de remuneração pela utilização dos diferentes recursos econômicos funcionariam como incentivo ao esforço produtivo, levando, na ausência de imperfeições e incompletudes do mercado, ao crescimento”. Nesse sentido os padrões méritocraticos de competição prevalecem e são defendidos para explicar os sucessos de poucos e o fracasso de muitos, especialmente, a improdutividade dos mais pobres.

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Nesse quadro, como as diretrizes das políticas públicas neoclássicas a partir de 80 são orientadas a investir no capital humano e cuidar dos pobres, recomendando-se também a liberalização comercial e financeira, as principais críticas recaem sobre a minimização do papel do Estado como planejador, estabilizador macroeconômico e impulsionador do crescimento e desenvolvimento econômico, tendo em vista que nesse período houve elevados custos sociais e baixo investimento nos países subdesenvolvidos latinos americanos, sendo que algumas orientações neoliberais contrapõem até mesmo as experiências dos países desenvolvidos, onde o Estado teve papel importante para modernização e melhoria na qualidade de vida. Com foco nessa discussão, de acordo com Amorim (p.17, 2002):

Os Estados dos países desenvolvidos passaram a conciliar propriedade privada dos meios de produção, planejamento, gestão democrática da economia e elevação do padrão de vida da população por meio do Estado de Bem-estar Social, arcando com parte dos custos de reprodução da mão-de-obra. (MATTOSO, 1995)

Uma vez abordados esses assuntos, para se avançar na compreensão e se acrescentar novos olhares sobre a relação entre crescimento, desigualdade e pobreza, recorre-se à abordagem cepalina, que analisa a estrutura-histórica econômica da América Latina e delineia diretrizes para o desenvolvimento, tomando como base as conquistas dos países avançados. O cerne da análise de cepalina direciona o Estado Desenvolvimentista a estimular a difusão do progresso técnico na produção, visto que se espera que a elevação da produtividade média do trabalho equalize renda e produção, com melhorias quantitativas e qualitativas ligadas ao bem estar social. Notadamente, a teoria cepalina não rompe com o pensamento clássico, posto que ela conceba que a participação do Estado na economia tem como finalidade o avanço do capitalismo. (AMORIM, 2002)

Nos países da América Latina o Estado desenvolvimentista foi fundamental para as transformações econômicas da década de 50 e 60, nesse período, a corrente cepalina buscava alterar a divisão internacional de trabalho, que significava afastar as economias subdesenvolvidas do modelo primário-exportador e impulsionar o progresso tecnológico e o setor industrial. Para tanto, adota-se o processo de substituição de importação de modo a estabilizar a modernização do consumo e incentivar a modernização da produção. Como ilustração, para Furtado o processo de industrialização está limitado pela demanda externa, por isso emana através da imitação e inovação dos produtos modernos e a sua essência está em substituir a importação desses bens pela produção interna. (AMORIM, 2002)

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Nesse cenário, a especialização em bens primários nos países latinos permitiu a modernização restrita ao consumo via importação, logo, essa persistência tornou-se um entrave à produção tecnológica interna e ao desenvolvimento endógeno, pois elevam as disparidades entre os setores econômicos, gerando dependência econômica, cultural e política. Outra crítica incide sobre os controladores do processo produtivo, aonde a elite tem o modo de vida próximo aos padrões dos países desenvolvidos, enquanto a maioria da população vive em condição precária, aprofundando o abismo entre classes sociais. Além disso, quanto maior a importação de bens modernos, maior deve ser a taxa de exploração ou maior as exportações dos produtos primários. Levando em conta que os bens primários sofrem queda nos preços relativos na face descendente dos ciclos econômicos1, cabe financiar as importações através da elevação da taxa de exploração do trabalho. (AMORIM, 2002)

A dependência do consumo ou da demanda externa nos países latinos, notadamente, não conduz ao crescimento equilibrado e, ainda, o crescimento econômico não contribui para o beneficio de todos, aliás, pode até mesmo significar maior sacrifício e deterioração das condições de vida de parte da população. Outra contribuição da Cepal foi introduzir a questão da formação heterogênea da economia desses países, que remonta ao período colonial e condicionou o quadro econômico, social e político, visto pela dinâmica econômica voltada à especialização em bens primários ou de baixo valor agregado, cujas consequências foram a coexistência entre setores tradicionais e modernos, concentração de riqueza, renda e poder ampliado à elite e o aumento da exclusão social. (AMORIM, 2002)

Nesses termos, pode-se concluir que o modelo de crescimento econômico adotado gerou e reproduz (por causa da dependência e heterogeneidade) fortes desigualdades que se constituem em entraves para a melhoria qualitativa da vida da maioria da população. Logo, com foco no desenvolvimento econômico a Cepal diagnostica a desigualdade como perversa, tornando-se necessária medida para a elevação da condição material da população. No que tange ao crescimento aceita-se que a acumulação de capital deve ser impulsionada para gerar financiamento para as transformações econômicas, assim, o aumento da produtividade do

1 O ciclo econômico nas palavras de Amorim (p.24, 2002): “As trocas comerciais entre esses dois países seriam

claramente desfavoráveis ao periférico e isso ficava muito claro quando se analisava o ciclo econômico. Na fase ascendente, em que se ampliam as trocas, o funcionamento das economias centrais demandaria maiores quantidades de produtos primários, elevando seus preços. Ao mesmo tempo, no centro, os salários subiriam e os preços industriais cresceriam ainda mais, já que a procura excederia a oferta. Porém, na descendente, o quadro inverter-se-ia e os salários mostrariam resistência à queda, impedindo uma redução maior dos preços industriais. Deste modo, acumular-se-ia estoques em toda a cadeia até que a pressão se exercesse sobre a produção primária (CEPAL, 1951). Quanto maiores fossem os estoques, maior seria a pressão sobre a produção primária. Essa pressão resultaria em queda nos preços dos bens exportados pela periferia e consolidar-se-ia na forma de queda nos salários dos trabalhadores desses países, posto não apenas terem menor organização como ainda haver excesso de mão-de-obra.”

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trabalho seria responsável pela distribuição dos benefícios do crescimento e o mercado tem o papel de ajustar a má distribuição do trabalho. (AMORIM, 2002)

Outrossim, com o processo de industrialização em andamento na década de 60, Prebish (1968), o expoente do pensamento cepalino, preocupa-se com a insuficiência de capacidade do setor industrial em inserir a mão de obra excedente advinda do campo para a cidade, visto que são os pobres com baixa qualificação que migram para as zonas urbanas gerando desemprego estrutural ou disfarçado. Para sanar o problema novas medidas devem ser introduzidas, ou seja, além da produtividade, adiciona-se a mudança estrutural, isto é

"{( ... ) alterar la estructura social y redistribuir el ingreso, especialmente através de la reforma agrária." (BIELSCHOWSKY, p. 11, 1998). Tal preocupação surge após verificar

que mesmo com crescimento econômico e industrialização os países latinos americanos ainda não se afastaram do subdesenvolvimento, e a heterogeneidade e a dependência ainda eram os obstáculos para o desenvolvimento. (AMORIM, 2002)

O processo de industrialização não diminuiu a heterogeneidade do território, pois a concentração individual, setorial e regional mostrou como se disseminavam com base econômica agro-exportadora, como salienta Anibal Pinto. Essa dinâmica pode ser descrito por Amorim (2002)

Essa concentração tripla implicava uma estrutura social que obstaculizava o próprio progresso técnico e, desse modo, o desenvolvimento. Afinal, ao caracterizar-se pelo privilégio na distribuição da riqueza, o sistema econômico dos paícaracterizar-ses latino-americanos desincentivava a utilização máxima do capital e mesmo permitia o uso ineficiente dos fatores. Mais, tal estrutura concentrada e concentradora, na visão da CEPAL, entorpecia a mobilidade social e o surgimento de indivíduos empreendedores (Prebisch, 1968). Além disso, como vimos anteriormente, produzia um excedente de mão-de-obra desqualificada difícil de absorver e que, pressionando os salários, permitia a deterioração dos termos de troca. O resultado só poderia ser baixo estímulo à acumulação, à inovação e à valorização do consumo supérfluo pelas camadas de maior renda. Desse modo, uma mudança nas estruturas econômicas que permitissem o desenvolvimento requeria, também, uma

transformação na estrutura social. (p. 28-29, grifo nosso)

Aliás, o interessante da análise de Prebish foi o ataque ao privilegio da terra. Para ele uma transformação estrutural social refere-se à reforma agrária, pois era necessário resolver o problema histórico de extrema concentração de terra, que favorecia a concentração de renda e poder. Prebish desconsiderava a redistribuição de renda como eficaz para a redução da desigualdade, tendo em vista que o sistema econômico funcionava como estimulador delas, de modo que os frutos da produtividade alcançaram apenas a renda e consumo supérfluo da elite, enquanto que um contingente de trabalhadores rurais foi expulso do campo, contudo, o excedente de mão de obra urbana significava abundância de oferta de mão de obra, por sua

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vez, o setor industrial não foi suficiente dinâmico para alavancar o desenvolvimento. (AMORIM, 2002)

Diante disso, as análises da década de 60 reforçam a participação do Estado no processo de desenvolvimento e a agricultura e rural passa a fazer parte das propostas da Cepal (anteriormente voltadas para industrialização e urbanização). Para Prebish (1968), o aumento da renda do campo deve ser estimulado pelo incentivo ao progresso técnico, porém cabe ao Estado difundir as melhores técnicas modernas que não poupam mão de obra. Nessa condição, está implícito que dispositivos de mercado levam à concentração renda, isso se reverte em consumo conspícuo, e, ainda à transferência dos frutos do progresso campo-cidade. (AMORIM, 2002)

Nesse ambiente analítico, é importante considerar algumas críticas às visões cepalinas. Com respeito à ideia “desenvolvimentista”, ela foi proposta aos países latinos em um período histórico marcante, durante a guerra fria, disseminada como ideologia, todavia mascarou as relações de luta de classes inerentes às transformações econômicas e sociais do período, desconsiderando até mesmo os exemplos dos países desenvolvidos, uma vez que o Estado de Bem Estar respondeu à crescente demanda social dos trabalhadores no pós-guerra, que requeriam redistribuição dos benefícios do crescimento e da elevada arrecadação do Estado.

A revigorante preocupação com o progresso técnico fugiu da discussão da redistribuição de renda e da pobreza, quando na verdade o processo de urbanização e industrialização se deu assentado na marginalização social, econômica e política. Logo, de modo natural, os Cepalinos foram questionados: para quem foi o desenvolvimento econômico? (OLIVEIRA, 1972; OLIVEIRA; HENRIQUE, sd)

Com respeito à marginalização dos trabalhadores, Tavares (1986) argumenta que a migração da população rural aos centros urbanos não reflete no excedente de mão de obra do setor formal, mas sim do setor informal, cuja baixa produtividade define baixo nível de renda e precárias condições de vida, pois no setor capitalista são marginalizados no processo de desenvolvimento defendido pela Cepal. Com tudo isso Tavares (1986) aponta a necessidade da formação do Estado de Bem Estar social compatível com o capitalismo, promovendo políticas de redução da pobreza no campo e aumento do emprego rural. Para Amorim (p.50, 2002):

Sendo o capitalismo um sistema que visa à acumulação de riqueza abstrata, não importando a forma como esta se mostra, não será ele que resolverá, mesmo que incentivado e 'azeitado', os problemas da miséria.

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No que tange o problema da dependência Anibal Pinto destaca que o resultado da industrialização modificou as relações entre centro e periferia, no entanto, a dependência continuou sendo vista na subordinação tecnológica, no crescente endividamento externo, na imitação do consumo e dos produtos (sem a inovação), dentre outros. Em complemento, Tavares (1986) também critica a internacionalização do processo de industrialização na América Latina, com efeito, a sobreposição de técnicas modernas dos países desenvolvidos na América Latina desarticulou o crescimento endógeno sustentado. Tavares (1986) também considerou outro obstáculo para o desenvolvimento, segundo a autora, os mercados nacionais assimilaram a estrutura de consumo, produção e distribuição das empresas multinacionais, com instabilidades não premeditadas. De acordo com suas palavras:

{. .. ) las empresas, los sectores y mercados oligopolízados, cuya dinámica de expansión concentrada da lugar a patrones de produccíón, de consumo y de distribuición del ingreso, los cuales envuelvem problemas de desajuste econômico e social de naturaleza diversa y gravedad mayor que los derivados de la heterogeneidad industrial y la dependência tecnologíca. (TAVARES. 1986: 4)

No Brasil, na década de 60, Furtado (1968) apud Hoffmann (2001) prontamente classificava a excessiva concentração de renda como o maior obstáculo ao desenvolvimento econômico do país via oposição entre a desigualdade e crescimento econômico, pois a organização econômica que privilegia uma minoria é na verdade um obstáculo no projeto de desenvolvimento nacional:

A elevada desigualdade da distribuição da renda no país condiciona um perfil da demanda global o que inibe o crescimento econômico. Ele mostra como a tendência estrutural para a concentração da renda favorece o subemprego de fatores característicos das economias subdesenvolvidas. Assinala que a concentração da renda causa uma grande diversificação das formas de consumo de grupos privilegiados. Isso beneficia as indústrias produtoras de bens de consumo duráveis, mas as dimensões reduzidas do mercado de cada produto impedem o aproveitamento das economias de escala, fazendo com que estas indústrias operem com custos relativamente altos. (HOFFMANN, p. 2, 2001)

Além disso, outro agravante no processo de desenvolvimento no Brasil foi à falta de políticas públicas para inclusão dos pobres no mercado, conforme Arbache (2003) o pensamento dominante na década de 1960 e 1970 pode ser sintetizado pelo jargão “deve-se primeiro fazer o bolo crescer para depois distribui-lo”, de modo que as explicações da pobreza recaíram nas débeis taxas de crescimento econômico. Contudo, as observações do período contestam a assertiva:

Em fins da década de 1960 e início da década de 1970 o Brasil experimentou taxas de crescimento do PIB absolutamente elevadas, num período que ficou conhecido como “Milagre Econômico”. No período, o PIB chegou a

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crescer mais de 10% ao ano, o que levou vários analistas internacionais a concluir que o Brasil chegaria ao final do século XX como um país industrializado. Os indicadores de pobreza, no entanto, não diminuíram no período. Ao contrário, observou-se um processo de concentração de rendas associado ao elevadíssimo crescimento dos retornos à educação e aumento dos retornos do capital. (p.15)

Notadamente, a preocupação com crescimento superou a do desenvolvimento, o resultado revelou que a falta de políticas públicas conciliadoras entre crescimento econômico e distribuição equitativa de renda gerou maior concentração de renda e também contribuiu por décadas para a estabilidade da desigualdade de renda, pobreza e a exclusão social de parte expressiva da sociedade brasileira (BARROS et. al., 2000). Na América Latina Ahluwalia et al. (1979) também questionam o padrão de crescimento econômico adotado, uma vez que esse modelo vem contribuindo pouco para amenizar a situação dos pobres, cujo crescimento se posiciona abaixo da renda média desde a década de 1950.

Tendo em vista as constatações empíricas que o aumento da produtividade, sem uma reforma estrutural fundiária e redistribuição de renda, não comportou a todos lograrem dos frutos do progresso técnico, o projeto de desenvolvimento da Cepal recebe duras críticas na década de 70, enfatizando a necessidade de homogeneização social, setorial e regional. Na década de 80 os debates sobre desenvolvimento perde primazia nos países latinos americanos, em virtude da conjuntura mundial que afetou definitivamente a conjuntura regional, onde o capitalismo passa por transformações e crise, como a globalização financeira, o aperfeiçoamento das técnicas, a crise do petróleo e a crise do Estado de Bem Estar, dentre outros.

Em singular, a América Latina recebe os choques mundiais passando por período conturbado de endividamento externo, alta inflação, oscilações do crescimento econômico e medidas de liberalização comercial e financeira. A Cepal volta-se para o curto-prazo, discutindo as instabilidades econômicas, políticas e sociais do modelo neoliberal imposto pelas agências internacionais aos países latinos endividados (AMORIM, 2002). Apenas na década de 90 a Cepal propõe novos caminhos para o desenvolvimento de longo prazo, conhecido como neo-estruturalismo destacando-se o projeto do Chileno Fajnzylber (1990), denominado de “transformação produtiva com equidade”.

Fajnzylber (1990) faz uma análise estrutural do período e propõe novas diretrizes para o desenvolvimento com base na competitividade industrial e equidade social, para isso novamente é requerido o progresso técnico como difusor de maior competitividade e crescimento econômico, por sua vez, a distribuição do ganho e poder são o ponto de partida

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para atingir a competitividade autentica2. O autor considera que processo de crescimento econômico e o incremento da produtividade são como uma via de mão dupla, postulado como “circulo virtuoso acumulativo”, concebendo que crescimento provoca mais produtividade e, ainda, mais produtividade gere mais crescimento econômico.

De acordo com esses entendimentos, o processo de desenvolvimento deve alinhar quatro fatores, a) a equidade, onde o conceito engloba igualdade de oportunidade e justiça social e as políticas requeridas tem como foco a reforma agrária e a inserção do campesinato no mercado; b) a austeridade, no sentido de um consenso social de austeridade nos gastos com consumo, sobressaindo os gastos com investimentos; c) o crescimento, compreendendo que o resultado da combinação de a e b gera uma ampliação do mercado interno e dos gastos em investimento; d) a competitividade, que no sentido macro significa crescer ou estabilizar a participação da economia no comércio mundial, onde o ritmo de crescimento impõe difusão de inovação e aperfeiçoamento de técnicas em todos os setores (não só o industrial), das instituições privadas aos governos.

A partir dessa contribuição, o objetivo proposto pela nova Cepal é o crescimento econômico com equidade, logo, visa-se a inserção da população no sistema econômico, embora se admita que o processo seja gradual, Fajnzylber trata conservadoramente de uma redistribuição do crescimento do bolo, não do bolo em si (AMORIM, 2002). A defesa do pensamento cabe na constatação empírica da diversidade de desenvolvimento entre os países latinos entre 1970 a 1984, aonde os 72,6% dos países com a maior participação no PIB regional, tal como Brasil, Colômbia, México, dentre outros, lograram elevado crescimento3 per capita, porém não melhoram a equidade4, por outro lado, países de maior equidade tiveram menor crescimento per capita, como Argentina e Uruguai, além de tudo houve países que estiveram tanto baixo nível de crescimento per capita, quanto baixo nível de equidade, nessa situação mais grave encontra-se Peru, Venezuela, Chile, Haiti, dentre outros. (FAJNZYBER, 1990)

2 Competitividade autêntica vista como oposto as explorações trabalho e ambiental, distribuição iniqua dos

ganhos dentre outros. (CEPAL, 1992)

3

A média do crescimento per capita dos países desenvolvidos foi o parâmetro para classificar os países latinos com baixos (<2,4) e altos crescimento (≥2,4)

4 Equidade- medida pela razão da soma da renda dos 40% mais pobres em relação à soma da renda dos 10%

mais ricos. Segundo Fajnzyber (p.11, 1990) “Esta relacion los países avanzados alcanzaba um promedio de 0,8

a fines del decênio de 1970 y comienzos del de 1980, es decir, el 40% de la población de ingresos más bajos tiene um ingresso que equivale al 80% del ingresso del 10% de com ingresos más altos”. Nos países Latinos o

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Como pode facilmente se inferir, o melhor dos mundos seria o crescimento per capita com equidade, contudo nenhum país latino americano alcançou tal feito, assim Fajnzylber denomina “casillero vacio” a especificidade do desenvolvimento pautado na industrialização trunca5, imitação do consumo, produção e técnicas industriais dos países desenvolvidos, que de fato, não impediu que a dinâmica econômica de alguns países ocorresse juntamente com a concentração social, setorial e regional. É importante ressaltar que a redistribuição de riqueza e renda, pobreza e subempregos permaneceram como obstáculo para o desenvolvimento da América Latina.

Das críticas mais incisivas sobre a visão de desenvolvimento neo-estruturalista recaem novamente a redistribuição de riqueza e renda, visto que para os cepalinos da década de 50 a redistribuição era resultado do aumento da produtividade do trabalho, em 90 a redistribuição de renda se daria por políticas compensatórias, com foco na educação e saúde, isto é, o tema ainda não é uma prioridade na proposta de desenvolvimento. A questão do emprego também chama atenção, pois antes visto como resultado da demanda agregada, como preconizava Keynes, neste período, passa a ser considerado um privilégio do trabalhador, posto ser determinado pela oferta de mão de obra. (AMORIM, 2002)

Nesse sentido, o emprego traz na abordagem de desenvolvimento uma contradição: A a difusão do progresso técnico versus a excessiva oferta de mão de obra. Na área rural, a modernização da agricultura reincide em uma queda na oferta de mão de obra, na área urbana, a abundante oferta de mão de obra subempregada é explicada pela incapacidade dos setores dinâmicos de absorvê-los, até mesmo em períodos de crescimento. Com essas considerações esperar-se-ia que houvesse propostas da articulação do Estado como indutor do emprego, contudo, o papel do Estado fica restrito à regulação, cabendo ao mercado solucionar o problema. (AMORIM, 2002)

Ademais, as políticas de emprego afetam diretamente a distribuição de renda, o neo-estruturalismo desagrega o papel do Estado em três grupos: a) setor formal: a política volta-se para a “modernização das relações emprego”, isto é, menos hierarquia, crescente nível de qualificação e individualização, mais produtividade, assim, alguns críticos consideram que “modernização” refere à flexibilização do emprego; b) setor informal: busca-se treinamento e capacitação das atividades menos produtivas; c) excluídos: políticas assistenciais para

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Fajnzyber (p. 182, 1990) diagnostica a Industrialização Trunca da América Latina "trunca en su componente de

bienes de capital, liderado por empresas que cuya perspectiua a largo plazo era ajena a las condiciones locales

y cuya innovación no solo se efectuaba principalmente en los países de origem sino que, adernas, era

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atendimento das necessidades (renda, saúde e educação) dos pobres. (RODRIGUEZ; HOUNIE, 1996)

Nesse contexto, por oportuno, não cabe mencionar todas as críticas ao neo-estruturalismo, algumas muito radicais, tais como sintonizá-lo com o pensamento liberal da década de 80, por isso se aceita a visão de Bielschowsky (2000) que posiciona o neo-estruturalismo entre os liberais e os opositores do pensamento dominante.

Na verdade, a intenção é destacar as relevantes contribuições das propostas de desenvolvimento em um período das diversas transformações na América Latina e do capitalismo mundial. Explicitamente verifica-se a relação crescimento, desigualdade e pobreza na América Latina, cujos laços históricos são aprofundados no período de desenvolvimento industrial a partir de 1950. Os problemas de superação da iniquidade e da pobreza se mostram difíceis na América Latina, apesar da postula otimista dos neo-estruturalista, por isso as críticas continuam severas.

Em síntese, tendo como pano de fundo que no âmbito geral a relação entre crescimento, desigualdade e pobreza não é harmoniosa, os pensamentos acimas citados defendem a primazia do crescimento, enquanto a desigualdade e a pobreza ficam em segundo e terceiro plano, podendo ser vistas ora como necessárias à evolução do crescimento ora em oposição ao processo de desenvolvimento. Contudo, na América Latina, devido à especificidade do desenvolvimento econômico, chega-se ao consenso da causalidade positiva entre crescimento e equidade. A dificuldade é transpor o conservadorismo das políticas de redistribuição de renda e riqueza, embora seja aceito que o mercado claramente exibe tendências de concentração e de exclusão.

2.1.2. Considerações sobre o conceito de pobreza absoluta e crescimento pró-pobre

Primeiramente, aborda-se a conceituação da pobreza e do crescimento pró-pobre, especificamente: a pobreza absoluta como indicador unidimensional de bem estar social e a adoção do crescimento da renda com redistribuição em favor dos pobres como redutor da pobreza absoluta, conhecido como crescimento pró-pobre. Dessas categorias e relações causais depreendem-se as motivações da literatura em desenvolver o indicador de crescimento pró-pobre, postulando-se que a redução da pobreza será mais significativa quando o crescimento da renda dos mais pobres for maior que a dos não pobres.

Considerado como o primeiro trabalho quantitativo que aborda a pobreza, a análise de Rowntree (1901) investigou a magnitude do problema na população de York-Inglaterra. A

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metodologia utilizada estabelece como primeiro passo a elaboração da linha da pobreza monetária, que observa o valor mínimo necessário para o financiamento da dieta nutricional adequada à subsistência e outros gastos, como roupa e aluguel. Em sequência, detecta-se o tipo de pobreza, primária ou secundária, comparando os rendimentos com a linha de pobreza: no primeiro caso trata-se das famílias com rendimentos abaixo do estabelecido, logo não contém uma dieta necessária a “eficiência física”, isso significa que os trabalhadores pobres de York eram desnutridos, condição incompatível com trabalho árduo típico da época, enquanto o outro caso considera as famílias com rendimento superior à linha de pobreza, mas ainda em situação de pobreza, pois o adicional da renda não se reverte à nutrição adequada. (MATTOS, 2006; LACERDA, 2012; ANDRADE, 2011).

Rowntree no trabalho subsequente dá primazia pela análise da pobreza primária pelo fato dos resultados serem comparável entre períodos, enquanto que a pobreza secundária exibiu resultados bastante controversos, dado a subjetividade do que viria a ser necessidade em um período, porém não em outro. O autor em 1941 publica “poverty and progress”, a pesquisa retorna a York para verificar a evolução da pobreza entre 1899 e 1936 e sua conclusão enfatiza o grande progresso social, visto tanto no aumento da renda do trabalho e menor jornada, como em melhorias nas condições de vida, considerando acesso à educação, recreação, saúde e lazer. Entretanto, o combate à pobreza é questionado, pois os índices ainda eram elevados.

É importante destacar que por contribuição da pesquisa de Rowntree, Beveridge implantou reformas sociais com base nos argumentos do autor a partir de 1942 na Inglaterra, com foco na segurança social, visto que a pobreza incidia em grupos sociais vulneráveis, como idosos e crianças, além de políticas de pleno emprego, dado que a pobreza refletia o elevado nível de desemprego. Claro que a influência maior das medidas políticas nos pós guerra se dá pela insatisfação social com o quadro econômico e baixo direito políticos, pois, como Tavares (1986) argumentou, o Estado de Bem Estar se formou, sobretudo pelas demandas sociais. Em consequência, Rowntree realiza nova investigação em York em 1950 e sua conclusão comemora a erradicação da pobreza como resultado do Estado de Bem Estar Social. Embora haja críticas sobre avaliação dos dados do trabalho, nesse período a grande contribuição do Rowntree é permitir que o assunto da pobreza, por décadas tratadas pela maioria como um problema essencialmente moral, passasse a buscar suas verdadeiras causas.

Contudo, ainda hoje há um grande esforço para desmoralização do pobre, uma vez que nos moldes meritocráticos os nãos competitivos no mercado estão fatalmente sujeitos à

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pobreza e ao fracasso social, sendo que diagnosticar as causas da pobreza não é fácil; para o caso do Brasil e dos países subdesenvolvidos, Romão (p.28, 1993) ressalta que as discussões a respeito da pobreza devem ir além da baixa produtividade, pois elas não podem ser desvinculadas das origens do problema: “não pode ser entendida sem relacioná-la com suas origens histórico-estruturais, à distribuição da propriedade e da renda e à concentração do poder político e econômico”.

No Brasil, Barros et. al. (2001) estabelece como determinantes macroeconômicos da pobreza no curto prazo: o crescimento econômico e a desigualdade de renda, notadamente, em uma economia em progresso se espera que a pobreza caísse, contudo se a tendência é concentrar a renda, a pobreza pode não alterar ou pior e, sim, aumentar. Logo, há a necessidade conjunta de crescimento e redistribuição de renda para o combate à pobreza absoluta. No entanto, para o Brasil são vistos como alternativas, por isso predominaram-se as políticas voltadas para o crescimento da renda, deixando em segundo plano as voltadas para a redistribuição, desse modo, a pobreza e a desigualdade mantiveram-se inalteradas nas duas últimas décadas do século XX.

Por oportuno, Romão (1993) aponta relevantes políticas públicas ao discutir a necessidade do crescimento econômico conciliar-se com a redução da pobreza, assinalando que a amortização da dívida social6 para o contingente pobre deve ser quitada mediante aumento de gasto para gerar empregos, posicionar os salários acima da linha da pobreza, incrementar a produtividade dos setores informais urbanos e reduzir o subemprego agrícola na área rural e inclusão do campesinato. Em complemento, novamente aponta-se política para o enfrentamento da desigualdade como crucial para resolver o problema da pobreza.

Obviamente, para a superação da pobreza absoluta é necessário que o pobre traspasse o traçado da linha da pobreza, no entanto, é neste ponto que as críticas começam, em particular, pela falta de linha oficial de pobreza na divergência em resultados empíricos realizados até mesmo em uma mesma região, por isso Romão (p. 27, 1993) declara que “toda e qualquer investigação sobre o fenômeno da pobreza enquanto síndrome social requer que se precise de maneira transparente seu conteúdo conceitual”, nesse sentido deve-se ater na explícita conceituação da pobreza para amenizar a ambiguidade e a carga de subjetividade que

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Divida social contempla os recursos necessários para erradicar a pobreza e tornar equitativa a distribuição de renda. Romão (1993) evidencia a histórica e a nova, a primeira engloba o contingente pobre estabelecido historicamente, a segunda configura o aumento da população pobre visto na década de 1980, após ajustes estruturais.

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