UNIVERSIDADE DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ
DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO – DHE
CURSO DE PSICOLOGIA
Jean Alessandro Bertollo
UM MOVIMENTO CIENTÍFICO CHAMADO PSICOLOGIA POSITIVA: UMA VISÃO NECESSÁRIA?
Ijuí – RS 2018
JEAN ALESSANDRO BERTOLLO
UM MOVIMENTO CIENTÍFICO CHAMADO PSICOLOGIA POSITIVA: UMA VISÃO NECESSÁRIA?
Trabalho de conclusão de apresentado para o curso de psicologia da Universidade do Noroeste do estado do Rio Grande do Sul - UNIJUÍ como requisito parcial para obter o título de psicólogo.
Professora Orientadora: Angela Drugg
Ijuí – RS 2018
Agradecimentos
À Sabrina S. Oliveira, que esteve, nas horas boas e ruins, aprendendo junto comigo a lidar com as situações que nos desafiam. Muito do que fiz foi por ter você comigo, por acreditar que podemos melhorar as coisas e as pessoas, como eu melhorei depois de te conhecer. Muito obrigado pelas vezes que você me deu forças quando eu estava fraco, e pelas experiências que compartilhamos.
Pai e mãe, que suportaram algumas fases não tão agradáveis de acompanhar, especialmente nessa trajetória de formação, quando dependemos tanto da ajuda dos outros pra conseguirmos ir em frente, obrigado.
À Joice, minha irmã, que me deu a ideia de prestar concurso - o que me fez entrar em uma jornada de estudos paralelos que acabaram resultando em algumas aprovações e, também, nesse trabalho aqui.
À pequena Helena, que iluminou a vida de todos nós com a alegria e o entusiasmo que só uma criança consegue nos despertar.
Aos grandes amigos Eduardo, José, Darlan, Jessé, Douglas, Marco, pelas conversas que tivemos sobre o mundo e sobre nós, tentando entender um pouco mais sobre as coisas que nos cercam.
Ao pessoal do Psicologia Nova, Alunos e professor, que compartilharam suas experiências de estudo.
Aos colegas de clínica, que enfrentaram as angústias frente à demanda de dar conta de um lugar que não sabíamos ainda ocupar.
Aos professores que passaram por essa trajetória, que tiveram um papel significativo na construção do meu pensamento e desse trabalho. À professora Angela Drugg, que soube ser paciente comigo para finalizar este trabalho, e me deu abertura e confiança para avançar nessa jornada.
Agradeço a todas as pessoas que, de alguma forma, contribuíram para essa trajetória de formação, a todos os que acreditam que o conhecimento transforma que deve ser passado adiante, e que transmitiram isso pra mim.
A todas as pessoas que apostam na ação, na vontade e na experiência como forma de mudança, e que colocam seu pensamento à disposição do mundo, sabendo da responsabilidade que cada um de nós tem para com o mundo em que vivemos.
Uma reflexão sobre a vida
Aprendi, com a filosofia, que talvez a verdade não exista, ou que talvez exista, mas não teremos nunca o pleno acesso à ela. Aprendi, com a psicanálise, que a vida não tem sentido, e que podemos dar a ela o nosso próprio sentido. Aprendi, com a psicologia e com aciência, que a verdade talvez possa existir, mas sempreprovisória, incompleta e frágil, assim como nós...
Mas aprendi,também, com a arte, que há coisas que não se entendem através da razão. Aprendi que a realidade é incapturável, e, não sei se estou certo ou errado - ou se há como estar certo ou errado sobre a vida - mas sei que não posso me eximir da tarefa de interpretar a realidade, nem posso me eximir da responsabilidade de dar sentido à minha existência, e, sobretudo, não me sinto capaz de abandonar a noção de busca pela verdade.
Esse trabalho é parte dessa tentativa, que julgo uma questão de responsabilidade moral, ética e intelectual minha, perante a minha própriavida...
RESUMO
Nesse trabalho, apresentaremos a visão, as propostas, e alguns dos resultados do movimento da psicologia positiva, assim como as fontes filosóficas (e da própria psicologia), que embasaram tal movimento. Discutiremos o modo como são conduzidos os estudos e a relevância de suas descobertas.As intervenções mostram significativos resultados, inclusive para o reforçamento de fatores protetivos e geradores de saúde e bem-estar subjetivo. Mostramos que tal proposta vem contribuir para suprir lacunas e permitir uma visão mais integrada e holística da experiência humana. Fatores como a relisiência, perseverança, auto-controle, a gratidão, o coping em situações estressoras, o lócus de controle interno, a aprendizagem, o engajamento, a vida com significado, os relacionamentos sociais funcionais, as virtudes pessoais e forças de caráter podem, não só proteger, mas também fortalecer a saúde mental e o bem-estar psicológico. Apontaremos algumas críticas e perspectivas futuras para esse tipo de prática, e sobre a forma de atuação, tanto dos pesquisadores quanto dos que aplicam tais conhecimentos. Argumentaremos queessa corrente de pesquisa vem se mostrando promissora na prevenção e na promoção de saúde, tanto no nível de possíveis políticas públicas, quantonasareas educacional, organizacional e do trabalho, ou até mesmo no âmbito clínico.
Palavras chave: Psicologia Positiva, Psicologia, Saúde, Prevenção, Bem-estar, Filosofia.
“Enquanto você vê uma diferença entre o samsara e o nirvana, você está no samsara.”
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
1. Capítulo 1 – Conceito, Definições Iniciais E Raízes Do Movimento 14
1. O Conceito de psicologia positiva e sua proposta de estudo 14
2. Definições: Felicidade e satisfação 20
2.1. Bem-estar subjetivo 20
2.2. Prazer e gratificação 21
2.3 Consciência e Self 21
3. Fontes: A felicidade na história do pensamento humano 23
3.1 Os gregos e os Romanos 23 3.2. Aristóteles 23 3.3. A escola estóica 24 3.4. O Budismo 26 3.5. Taoismo 28 3.6. Confucionismo 28 3.7. Noção Judáico-Cristã 28 3.8. Iluminismo 29 3.9. A Psicologia Humanista 30 3.10. A Psicologia da Saúde 30
2. Capítulo 2 – Por Que Uma Psicologia “Positiva”? 31
2.1. O papel da ciência e do método 31
2.2. Como a patologia virou o foco da atenção dos psicólogos 32
2.3. A Busca crescente por mais bem-estar 33
2.4. Efeitos do consumo de auto-ajuda 34
2.5. Relação entre a economia e o bem-estar no mundo 36 2.6 - Promoção, prevenção e determinantes sociais de saúde 41 2.7. O crescimento do interesse nos temas saúde psíquica e bem-estar 42 2.8. SUS, Políticas Públicas e a possível promoção de saúde 43
3. Capítulo 3 - Principais Autores, Seus Conceitos E Linhas De Pesquisa 45
3.1. A Felicidade Autêntica 45
3.2. A Teoria do Bem-Estar 48
3.3. As Forcas e virtudes pessoais 49
3.4. A Teoria do Flow 52
3.5. O Mindfullness - Atenção Plena 54
3.6. A Gratidão e o cérebro 55
3.7. A experiência e memória; Ilusão de foco 57
3.8. A Resiliência 59
3.9. A Emodiversidade 61
3.10. A Felicidade natural e felicidade sintética 61
3.11. O Presentismo psicológico 63
3.12. A Aprendizagem e o Mindset de crescimento 64 3.13. Do otimismo Explicativo ao otimismo Disposicional 66
4. CAPÍTULO 4 – CRÍTICAS E PERSPECTIVAS FUTURAS 69
4.1. Algumas críticas encontradas na comunidade científica 69
4.2. Perspectivas e desafios futuros 71
4.3. Alguns Métodos de pesquisa em Psicologia Positiva 73
CONSIDERAÇÕES FINAIS 76
INTRODUÇÃO
A psicologia positiva iniciou com a proposta de movimentar o campo científico, investigando questões fundamentais da humanidade que estavam sendo deixadas de lado pela ciência. Há muito tempo a filosofia se preocupa com o bem-estar, com a vida virtuosa, com a felicidade e o contentamento, porém os cientistas não achavam relevante investigar tais temáticas. Isso começa a mudar em 1998, quando uma série de autores propõe retomar algumas visões perdidas ao longo da história da psicologia, e decidem se voltar para questões que possam proporcionar uma vida significativa, preocupados com o fato de que a psicologia criou um desequilíbrio em termos de produção de pesquisa, e, ao longo do tempo, deixou de olhar para a totalidade da experiência humana, focando muita atenção aos aspectos negativos da vida humana.
Essa pesquisa é uma revisão bibliográfica de alguns dos principais autores e pesquisas desse movimento científico. Buscamos trazer os conceitos mais centrais e problematizá-los, articulando com o efeito e relevância da penetração desse conhecimento na sociedade, na política, na economia.
Segundo essas pesquisas, pessoas que conseguem encontrar significado para seu sofrimento minimizam as dores da existência, e, além disso, tem mais saúde. O sistema imunológico se torna mais forte, o enfrentamento às adversidades se torna menos traumático e paralisante, doenças físicas e psicológicas diminuem consideravelmente sua incidência. Populações mais igualitárias e comunitárias relatam maiores níveis de bem-estar subjetivo, tem mais vínculos duradouros, o que acaba protegendo sua saúde e prevenindo patologias.
Vemos a proposta da Psicologia Positiva como uma alternativa de agregar conhecimento e formas de lidar com problemas urgentes sociais como a crescente incidência e prevalência de depressão, de ansiedade, e de problemas de saúde em geral, causados pelo aumento da solidão entre as pessoas e os novos modos de vida. Pensando nisso, apontamos como relevante para nosso cenário social que conheçamos esse movimento, já que faz parte importante das pesquisas dos
psicólogos atualmente, e propomos analisar suas descobertas, fazer uso das que se mostrarem relevantes, e apontar as lacunas e falhas naquelas que não estão adequadamente favoráveis do ponto de vista filosófico, técnico ou mesmo ético.
Buscaremos aqui analisar critica e historicamente o movimento da psicologia positiva, tentando entender suas origens e pretensões científicas e filosóficas, passando por autores da filosofia, comentando sobre a corrente humanista, apsicologia da saúde, e, posteriormente, elucidando os possíveis motivos que fizeram esse movimento (psicologia positiva) se tornar tão forte nos últimos 20 anos. Buscaremosentão discutir acerca dos estudos mais significativos e suas implicações para a vida em sociedade, através de uma breve revisão de literatura.
No primeiro capítulo trataremos da questão complicada que é a definição do que seria uma psicologia que se diz positiva, e qual a sua relação com a psicologia dita tradicional. Veremos que a diferenciação é somente didática e que objetiva uma melhor compreensão da proposta do movimento científico e entendemos a nomenclatura como inadequada, por causar um efeito muitas vezes negativo. Também veremos o que não é psicologia positiva, mas que, por vezes é entendido erroneamente como tal: em vez de um movimento científico e acadêmico, muitas vezes é enquadrado como práticas esotéricas. Definiremos brevemente os conceitos, termos e constructos estudados nesse campo como felicidade, satisfação, bem-estar subjetivo, prazer, gratificação, consciência, self, pois reconhecemos como fundamental partir de uma mesma visão conceitual para que não ocorram mal entendidos e confusões conceituais e linguísticas.
Depois de esclarecidos os termos e como eles são usados, passaremos para uma breve exposição e discussão das fontes científicas, filosóficas e históricas das quais o movimento se alimentou. Nesse capítulo achamos relevante um breve diálogo com alguns pensadores clássicos ocidentais da filosofia, como os pensadores da escola estóica (Epicuro, Sêneca, Marco Aurélio), e outros do período clássico como Platão, Aristóteles, no que diz respeito aos temas que são relevantes para a psicologia positiva.
No segundo capítulo trataremos de trazer alguns argumentos relevantes em defesa da visão dessa proposta de investigação científica, mostrando a discrepância entre a produção científica anterior ao movimento e como a proposta tem impactando
nas publicações desde seu surgimento. O papel do método científico e da fundamentação das intervenções com base em evidências será mostrado, trazendo alguns efeitos negativos da falta do rigor metodológico na produção e aplicação do conhecimento dentro da psicologia como um todo.
Algumas hipóteses serão discutidaspara explicar o surgimento e o sucesso da proposta da psicologia positiva, como a falta de congruência entre a busca social crescente por bem-estar, oferta de conhecimento e serviçosda psicologia, a mudança do foco dos pesquisadores, entre outros. As consequências da ausência de atenção a aspectos sadios do ser humano, por parte de muitos psicólogos, podem ser vistas no crescente consumo de literatura não-científica que se propõe a proporcionar crescimento e desenvolvimento pessoal. Alguns possíveis efeitos disso também serão levantados, tanto positivos quanto negativos.
Abordaremos as preocupações governamentais com a estagnação dos índices de satisfação e bem-estar subjetivos, que se mostram em desacordo com o crescimento econômico recente de muitas nações.Também analisaremos algumas relações entre a possível aplicação da psicologia positiva no campo das políticas públicas, demonstrando como essa relação é possível e já está ocorrendo em vários países ao redor do mundo.
O terceiro capítulo será uma exposição do pensamento de alguns dos autores mais influentes no movimento e de suas descobertas mais relevantes. Obviamente não serão tratados todos os autores e estudos, devido à vasta quantidade das publicações e de serem, em sua grande maioria, não traduzidas para o português. Deixaremos tal revisão mais global para outra oportunidade.
As possíveis aplicações vão desde a promoção de saúde e prevenção de doenças, passando pelo campo da aprendizagem, da experiência de engajamento e de saúde no trabalho, do crescimento e desenvolvimento pessoal adulto e sadio, da economia e da espiritualidade.
O quarto e último capítulo tratará das criticas que conseguimos encontrar sobre os achados, pesquisas e pretensões da psicologia positiva. Traremos essa perspectiva crítica como contraponto, por considerá-la de suma importância, devido à profundidade e relevância do assunto, assim como também consideramos que, por se tratar de
estudos relativamente pouco trabalhadosem termos gerais no país, o movimento pode ser recebido com entusiasmo, porém com cautela, para que não se torne algo ideológico ou alienante.
Após apontarmos algumas das criticas mais relevantes, elucidaremos algumas lacunas, perspectivas e desafios para o futuro desse movimento, como, por exemplo, o cuidado com o método de produção do conhecimento, com a coleta e com o tratamento dos dados nas pesquisas.
14
1. CAPÍTULO 1 – CONCEITO, DEFINIÇÕES INICIAIS E RAÍZES DO MOVIMENTO 1.1. - Conceito de Psicologia positiva e sua proposta de estudo
A psicologia positiva é um movimento científico, que começa a aparecer em 1998, com o intuito de agregar1uma visão de fazer psicologia que, segundo seus idealizadores, estava perdida. O artigo de Martin Seligman e Mihaly Csikszentmihalyi (“Positive Psycology, an Introduction”, 2000) o qual abriu a perspectiva e a proposta da psicologia positiva, explica com mais profundidade esse surgimento. No citado artigo, Seligman conta como se deu conta da enorme distância entre as produções de conhecimento sobre aspectos positivos do ser humano, e decide abrir essa discussão para a comunidade científica, acompanhado de Csikszentmihalyi. Trata-se de uma proposta de estudo, compreensão e interesse pelo funcionamento ótimo do ser humano, objetivando também compreender as possibilidades, potencialidades, forças e virtudes humanas. (SELIGMAN&CSIKSZENTMIHALYI, 2000).
Seligman (2003) coloca três pilares para investigação nessa perspectiva: (1) o estudo da experiência subjetiva [bem-estar subjetivo, emoções positivas, transcendência, esperança e otimismo]; (2) as características individuais [capacidade para o afeto, perdão, espiritualidade, talento e sabedoria]; e (3) as instituições e comunidades [virtudes cívicas, altruísmo, tolerância e responsabilidade] (PALUDO &KOLLER, 2007, p.4).
Como afirmam os autores, com as atrocidades ocorridas nas duas grandes guerras2, houve uma imensa procura por tratar, estudar, catalogar e entender as patologias. O resultado foram todas as formas de terapia, abordagens, escolas, manuais e estudos catalogados que temos das enfermidades e dos possíveis
1 Alguns críticos argumentam que a Psicologia Positiva trata a psicologia tradicional como negativa.
Sobre isso os autores defendem que a visão é de complementar e não de dividir.
2 Há uma discussão se esse efeito foi sentido de fato aqui no Brasil, mas ao que tudo indica a vinda
de profissionais pra cá para ministrar cursos e prestar assistência acabou contribuindo para a acentuação da psicologia clínica mais focada nas patologias e na difusão do modelo médico. Esse tipo de abordagem (clínica voltada à patologia) era difundida por conta de vários fatores: A propensão humana a oferecer ajuda, o funcionamento dos seguros de saúde americanos, a alta demanda, entre outros.GRAZIANO (2005, p. 24).
15 tratamentos. Porém, segundo Seligmane Csikszentmihalyi(2000), outras duas missões da psicologia ficaram pelo caminho, sendo elas: (1) tornar a vida das pessoas comuns mais produtiva e mais plena; e (2) identificar e apoiar os jovens excepcionalmente talentosos.
Para Sheldon e King (2001), apudGraziano(2005) a psicologia:
“ao contrário das outras ciências naturais e sociais, não se preocupa em descrever a estrutura típica e o funcionamento natural de seu tópico de interesse; mais do que isso, criticam que os psicólogos deveriam ser capazes de expressar profunda admiração (como fazem os físicos diante da elegância das equações de Einstein) pelo funcionamento humano pleno” (p.21).
Seligman (2011) afirma que a missão de curar as doenças mentais se sobressaiu3, e continuou fazendo frente, desde o nascimento da psicologia até atualmente, em detrimento das outras possibilidades de trabalho dos profissionais da psicologia. Afirma também, que em 1946 houve uma reunião dos membros da sociedade dos psicólogos experimentais, os quais concordaram que a psicologia só deveria fazer pesquisas de base, e que não contratariam psicólogos aplicados. Segundo Seligman(p.71) o resto da academia concordou imediatamente. Para ele, “a aplicação frequentemente mostra o caminho para a pesquisa de base, enquanto a pesquisa de base, enquanto a pesquisa de base que não tem noção de como pode ser aplicada geralmente não passa de especulação”(p.71). Outra iniciativa de Seligman foi propor que a psicoterapia se baseie em evidências. Ele queria que fossem feitos estudos sobre a eficácia das terapias. Sobre isso, foi questionado por um dos veteranos mais experientes “e se as evidências não nos beneficiarem? ”(p.73). Isso mostra que muitas vezes o interessa na saúde e na melhoria dos pacientes é deixado de lado por interesses difusos e obscuros, tanto acadêmicos quanto científicos. Seligman aponta a indústria farmacológica e a industria das psicoterapias como dois movimentos de poder e de interesse, e questiona onde está (e se existe) a pretensão pela cura.
Originalmente fui para a psicologia para aliviar o sofrimento e aumentar o bem-estar humano. Achava que estava bem preparado para fazer isso, mas fui deseducadopara cumprir essa tarefa. Levei décadas para me recuperar e
3 Sobre isso, Graziano argumenta que os cursos de psicologia ainda oferecem formação
16 deixar de resolver enigmas para resolver problemas4 {...} (SELIGMAN, 2011,
p.67).
Segundo Seligman, as pessoas no mundo real têm problemas, mas muitas vezes tentamos ajudá-las a resolver enigmas, o que as vezes até pode ajudar, mas que não é o que as pesoas precisam na maioria dos casos.
Muitos pesquisadores consideraram,por muito tempo, questões como emoção, sentimento, talento, inteligência, bem-estar, impossíveis de serem tratadas pelo método científico, deixando tais temas apenas para a filosofia e para as artes. Já outros temas como espiritualidade, perdão, gratidão, transcendência ficaram somente nas mãos da religião.
A tendência da psicologia atual de priorizar o estudo dos problemas humanos gerou, além do já apontado afastamento de seu significado mais básico, um desequilíbrio no seu campo de estudo, e, [...] talvez até mesmo uma distorção no seu objeto. Para Sheldon & King (2001) está cada vez mais claro que o funcionamento natural dos seres humanos não pode ser calculado puramente a partir de quadros de referência negativos ou exclusivamente focado nos problemas (GRAZIANO, 2005. p. 26).
Mas e se algum movimento se propuser a estudar esses aspectos do ser humano que passam despercebidos, seja por serem considerados dentro da “normalidade” – e, portanto, não são prioridade -, seja por serem conceitos complexos, ambíguos e controversos que ainda não receberam atenção cientifica? Que benefícios poderíamos obter de tal perspectiva? É isso que nos propomos a discutir aqui.
Harari (2015) reflete a importância de estudar o impacto de culturas como o capitalismo, o socialismo, as liberdades individuais, as instituições como a democracia, o trabalho, no bem-estar, na vida dos indivíduos (p.387). Segundo ele, os historiadores evitam fazer esse tipo de estudo, e, sobretudo, evitam tentar responder tais questões.
4 Seligman relata que Kahl Popper e Wittgenstein, dois filósofos brilhantes e influentes tiveram uma
discussão de dez minutos que virou obra literária. Na discussão, Popper acusa Wittgenstein de incitar seus alunos a resolverem enigmas linguísticos e análises profundas, ao invés de tratar de problemas ( moralidade, política, ciência, religião, leis). Wittgenstein “ficou tão furioso que empunhou um atiçador de brasas diante de Popper e saiu, batendo a porta”.(p.69) Wittgenstein era um professor muito admirado, um dos mais influentes da época.
17 O mesmo ocorre com os economistas(CLARCK E. A. E OSWALD, 1994, p.01), que, pressionados pelo tempo, por pautas governamentais, ou pelo social, acabam se guiando somente por convicções, e poucas vezes lançam mão de pesquisas para basear decisões que impactam milhões de pessoas.
Tais pesquisascomo percepção de bem-estar subjetivo, relação deste com a realidade social e realidade macroeconômica,têm impacto direto nas políticas públicas, nas ações governamentais, na mentalidade da população, no modo de organização social e nos paradigmas intelectuais, morais, entre outras movimentações possíveis. Veremos mais adiante que esse uso já existe dentro das políticas públicas de vários países, e que o interesse pelo tema pela iniciativa privada é bastante significativo e emergente. Os estudos já são feitos transversalmente entre culturas, entre países, com grandes amostras estatísticas.
Para ilustrar a discrepância de interesse e produção acadêmica, trago aqui dados da associação americana de psicologia, APA, e do portal de periódicos Pepsic. Foram pesquisadas as palavras Depression, anxiety, stress, happiness, well-being, e depressão, ansiedade, estresse, felicidade e bem-estar.
Fonte: https://www.apa.org/index.aspx acessado em 19/10/18 às 16:00hrs 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 7000
Depression Anxiety stress happiness well-being
Numeros de ocorrências (APA)
Numeros de ocorrências (APA)
18 Percebe-se um claro aumento no termo Well-Being5, devido às publicações da
psicologia positiva terem suscitado uma crescente onda de estudos e publicações norte americanas sobre esse tema, além de ser um termo usado na área da saúde em geral e na economia comportamental, disciplina nova que engloba psicologia e economia, que atrai muitos psicólogos atualmente.
Fonte: Pepsic: pesquisado em 19/10/2018 às 15:48
Como pode ser notado, o tema do bem-estar subjetivo está apenas começando a despertar atenção no Brasil. Já se encontram alguns estudos publicados, mas podemos perceber uma grande discrepância entre a quantidade nacional e a das publicações internacionais.
Na Psicologia Positiva, são comuns estudos com amostras de grande dimensão, muitas vezes representativos de determinadas populações, e estudos trans-culturais, realizados em múltiplos países (BARROS, MARTÍN & PINTO, 2010, p.3).
Podemos argumentar que estudamos mais os aspectos que mais nos preocupam –haja vista que ninguém adoece por estar satisfeito ou por se sentir grato com a vida. Mas, este argumento cai por terra quando analisamos os resultados de tais
5 Tradução: Bem-estar 0 100 200 300 400 500 600
DepressãoAnsiedade stress felicidade bem estar
Numeros de ocorrências no portal Pepsic
Numeros de ocorrências no portal Pepsic
19 estudos desse movimento recente da psicologia. Focamos mais no negativo por que temos uma tendência a isso e por que não sabíamos que poderíamos obter proveito de estudar o “sadio”. Além do mais, se esse padrão se mantivesse, seria como se os médicos em geral passassem a somente estudassem câncer, doenças cardiovasculares, e as demais patologias mais graves, desistindo totalmente da ideia de saúde. Não há razão em tal desequilíbrio, e não há argumentoque consiga justificar reduzirmos o foco da experiência humana ao patológico e ao problema.
Outra coisa importante é que a indústria dos medicamentos faz uma enorme pressão, e os medicamentos em si não proporcionam cura, tendo efeitos relativamente baixos na maioria dos casos. A maioria dos medicamentos fazem efeito maior em pacientes crônicos, mas são predominantemente receitados para transtornos moderados e leves (SELIGMAN, 2011, p.58).
Considerando uma média ampla na literatura, sobre o assunto, tem-se um índice de alívio de 65 por cento, acompanhado de um efeito placebo que varia de 45 a 55 por cento. Quanto mais realista e elaborado o placebo, maiorsua porcentagem. A resposta ao placebo é tão alta que em metade dos estudos nos quais a Ford and Drug Administration (FDA) norte-americana baseia sua aprovação oficial de antidepressivos não havia diferença6 entre
placebo e o medicamento. (SELIGMAN, 2011, p.58).
Ainda, para Seligman(p.59) as terapias não se autorreforçam. São sempre uma “luta contra a montanha” e, por isso, os resultados podem desaparecer com o tempo. Isso ocorre por que a maioria das terapias não proporciona o fator protetivo, e não reforça aspectos saudáveis do paciente. Muitas vezes o dispêndio de energia é muito alto e a pessoa fica bastante fragilizada. Sem falar que algumas terapias tocam em pontos delicados da personalidade, remexendo em traumas e feridas antigas, muitas vezes podem acabar piorando as coisas.
Segundo Cordioli et. al. (2008, p.22) em todas as psicoterapias há fatores comuns como o vínculo de confiança no terapeuta, e o contexto terapêutico - a crença de cura e o método de explicação sobre o fenômeno. Segundo o autor, o fator vínculo terapêutico e as motivações de cura correspondem a mais de 75% do fator de melhora em uma psicoterapia. Já a eficácia da psicoterapia em geral, estudada através de
20 meta-análise, Segundo Cordioli, se mostra em 80%, com variações de 10% de margem de erro, quando comparada com a evolução natural dos casos.
Contudo, notam-se grandes avanços, proporcionados pelas propostas de Seligman e colaboradores, em variados transtornos psiquiátricos considerados crônicos, na diminuição do stress, no fortalecimento do sistema imunológico, entre outros benefícios.
Ainda, segundo Twenge ET. AL., (2008), nas últimas três décadas houve um aumento nos níveis de narcisismo, solidão, problemas do sono, problemas de aprendizagem, problemas do sistema imunológico. Já para Konrath, (2011), houve declínio nos níveis de empatia, conexão social, comparando o período de 1979 a 2009. Esses dados podem dizer algo sobre o que pode estar na causa do aumento de depressão e ansiedade nas últimas décadas.
Em suma, temas discutidos frequentemente de modo “apaixonado” por correntes políticas, filosóficas e ideológicas podem ser submetidos aos testes empíricos7.
1.2 Definições
1.2.1 Felicidade e satisfação
Felicidade sempre foi um tema interessantíssimo dentro da filosofia, um tema renegado na psicologia e um tema banalizado na literatura crescente de auto-ajuda. O que seria, para essa psicologia que tentamos demonstrar aqui, a felicidade?
Parece sensato afirmar que tal tema merece atenção. O que são esses milhões de pessoas em busca de algo, que talvez nem saibam bem o que significa? A promessa da felicidade se alinha dentro da sociedade de mercado, com palavras como liberdade, consumo, sentido, realização. Mas, para poder esclarecer por onde caminhamos aqui, temos que saber como os pesquisadores resolveram interpretar essa palavra.
7 Por mais que a ciência trabalhe apenas com verdades provisórias, julgamos primordial a visão
científica nesse tipo de temática. Ora, se a filosofia, a política, a arte podem se interessar por tais assuntos, por que não pode a ciência também se interessar?
21 Para Seligman, apud Graziano(2008,p.38) a palavra felicidade abrange o conjunto de metas da psicologia que ele propõe. Segundo ele, o termo é como cognição, no campo da psicologia cognitva, ou aprendizagem no campo da teoria da aprendizagem. O conceito, portanto deve ser entendido como nomenclatura do campo.Satisfação tem mais haver com a sentimento de olhar para a vida e fazer uma boa avaliação.
1.2.2. Bem-estar subjetivo
Já bem-estar, é um constructo que pode ser medido. A medição é feita, entre outras formas, pedindo que a pessoa responda como se sente. É com esse constructo que os autores querem trabalhar a nível de intervenção social. Esse tema tem crescido rapidamente como disciplina científica. (GRAZIANO, 2008, p.39) O bem-estar possui diferentes componentes: Satisfação com a vida, satisfação com areas importantes, emoções positivas, baixos níveis de emoção negativa (p.41).
Existem três teorias que tentam entender a felicidade: Teoria das necessidades e objetivos, que trabalha com a ideia de redução das tensões; teoria do processo ou atividade, que trabalha com o engajamento; e teoria da predisposição genética e personalidade, que trabalha com temperamento e necessidades bio-psicológicas. (DIENER, LUCAS, OISHI, 2002, apud Graziano, p.41)
Comparando gêmeos zigóticos e dizigóticos, Tellegenet. al.apudGraziano(2008, p.44), estimaram que 40% das emoções positivas e 55% das emoções negativas podem ser previstas pela variação genética. Essa tendência, segundo eles pode ser paulatinamente alterada pela ação volitiva, porém é uma mudança lenta.
1.2.3. Prazer e gratificação
Outra distinção importante é entre prazer e gratificação. Enquanto que o prazer é associado à emoção e aos sentidos, a gratificação é mais cognitiva, e está ligada ao uso das virtudes e forças pessoais. A gratificação impulsiona o Self para níveis maiores de complexidade, ao passo que o prazer é efêmero, e não provoca
22 nenhuma evolução. Ainda, segundo Seligman, o prazer causa uma adaptação8, que faz com que aos poucos a mesma sensação perca seu efeito. Contudo, é possível aumentar as experiências de prazer, ou aproveitá-las melhor. Os autores (SELIGMAN (2004), BRIAN (1989), HEWITT, (2002)citados por Graziano(2008) sugerem aapreciação - satisfação, agradecimento, conforto, admiração - e a atenção - no memento presente. Já a gratificação pode ser obtida por meio do flow9, ou até, por meio de uma atitude mental.As mesmas coisas que proporcionam prazer, podem proporcionar gratificação com a devida atitude consciente.
1.2.4. Consciência e Self
A Consciência, para esses autores, se trata de “um sistema complexo que evolui no ser humano através de seleção, processamento e armazenamento de informações” além disso, “embora seja, inegavelmente, resultado de processos biológicos, a consciência desenvolveu a capacidade de ultrapassar suas instruções genéticas e estabelecer seu próprio curso de ação independente”, o que determina, na visão da Psicologia Positiva, uma de suas características principais: a auto-determinação. [NAKAMURA &CSIKSZNTMIHALYI, 2002, apud GRAZIANO (2008)]. Ainda, segundo os autores, a atenção é elemento fundamental da consciência, pois esta é ativada e acessada através do investimento seletivo da atenção.
O conceito de Self engloba tanto a soma de memórias, experiências e a soma dos processos conscientes do indivíduo, quanto a informação que entra na consciência quando o indivíduo torna-se o objeto de sua própria atenção. (GRAZIANO, 2008, p.57).
8 Adaptação hedônica é o nome que os pesquisadores dão para essa tendência humana a se
adaptar e ter que buscar sempre mais prazer pra obter satisfação sempre parcial.
9 Conceito que será abordado adiante. Trata-se de um estado de alta motivação intrínseca, curta
duração, com perda temporária da sensação de que o tempo está passando ou que estamos nos esforçando. Se alcança esse estado num alinhamento entre capacidades e desafios. Capacidades altas e desafios altos resulta em flow, capacidades altas e baixos desafios resulta em tédio, e capacidades baixas e altos desafios caracteriza angústia ansiedade. Esse conceito é algumas vezes traduzido como Engajamento, porém, aqui, vamos usar o termo original conhado por Csikszntmihalyi.
23 O Self, ao mesmo tempo que determina a atenção, é determinado por ela10 (idem, 2008).
3 FONTES: A felicidade na história do pensamento humano
Segundo Mcmahon (2009), a felicidade passou das mãos dos deuses para o domínio humano a pouco tempo. Segundo esse autor, na maioria das línguas indo-européias, a palavra felicidade está ligada a significados como sorte, ou acaso11. Até o século XVII, a felicidade era um fator de sorte ou de vontade divina. Hoje, porém, a felicidade é dita e prometida como direito e como habilidade. Isso pode até ser positivo por nos colocar um pouco mais de responsabilidade pela nossa existência, mas também pode nos trazer a noção de que devemos nos afastar da dor e do sacrifício.
3.1. Os gregos e os Romanos
Os gregos e os romanos, segundo Mcmahon, pensavam na felicidade como objetivo da filosofia clássica, com a noção de eudaimonia12. Nessa concepção, a felicidade pode ser consquistada, ou mesmo cultivada. Entre a nossa noção popular atual de felicidade e essa noção grega e romana há o acréscimo do elemento da dor e do sofrimento como intrínsecos e inseparáveis da boa vida. Para esses pensadores, não se pode alcançar virtudes sem esforço, dor e comportamento moral correto. Bem-estar tem muito mais haver com o modo como conduzimos nossas paixões para os objetos certos e como ordenamos nossa existência do que com as sensações que sentimos.
10 Por exemplo, um escritor, quando lê alguma coisa, provavelmente registra muito mais informação
sobre aspectos frasais do que qualquer outro profissional. Essas informações se tornaram parte do self, (por meio da atenção seletiva) e agora também determinam a sua construção (Graziano, 2008 p. 58).
11 A raíz inglesa Hap significa sorte ou azar, como o francês heur, que monta a palavra bonheur
(boa-sorte), o alemão gluck até hoje significa felicidade e acaso.
12O estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio. Traduzido como felicidade ou bem-estar.
24 Para esses pensadores clássicos (Sócrates, Platão, Cícero, Aristóteles, entre outros) a felicidade não é para todos, mas para quem está à altura da tarefa, ou seja, para quem está disposto a pagar altos preços emocionais, intelectuais e de conduta.
3.2. Aristóteles
Aristóteles via a felicidade como um fim supremo, um fim que se bastava por si mesmo, fruto da atividade racional humana. Como muitos, ele procurava entender e achar formas que permitissem as pessoas encontrar o caminho da felicidade. Além disso, Aristóteles deixava bem clara sua preocupação de que essa busca não fosse uma atividade abstrata, mas que fosse calcada em uma ética baseada na vida, na práxis, em uma vida virtuosa. A virtude mais suprema para ele era a sabedoria, que possibilitava uma vida de amadurecimentos e de excelência.
A felicidade perfeita para Aristóteles (o Bem Supremo) é a atividade Contemplativa, possibilitada pelo exercício da razão e das virtudes humanas.
E somente esta atividade parece ser estimada por sua própria causa, pois é auto-suficiente, ágil, ininterrupta quanto possível ao homem e parece que em tal atividade encontram-se todas as qualidades atribuídas ao homem feliz (NODARI, 2010 p.16).
Depois da virtude e da sabedoria, Aristóteles elenca a amizade como fator primordial a uma boa vida. Amizade essa não baseada no prazer ou no interesse, mas num vínculo calcado em ética e virtude.Para Aristóteles, não que as paixões sejam causa total do sofrimento, mas, segundo seu Princípio da Moderação, devemos aplicá-las na hora certa, no objeto certo, e peaplicá-las causas certas. Ficar com raiva não é errado, mas deve-se alocar a raiva ao objeto e ao contexto adequado, e nas proposições adequadas.
3.3. A escola estóica
A filosofia estóica encarava o sofrimento como parte da atitude perceptiva humana, isto é: não sofremos pelos fatos, mas sim pela interpretação cognitiva que damos aos fatos. Portanto, sofremos por causa de nossas emoções e sentimentos, amplificadas pela nossa percepção da realidade.
25 Essa escola de pensamento tentava discriminar as causa internas e externas de sofrimento, e investigar como o sujeito, perante estas, pode perceber-se, através do desenvolvimento da consciência e da razão, e posicionar-se de maneira a não viver envolvido nas "paixões da alma" que não estão sob seu controle, possibilitando assim que o foco recaísse nas coisas que podem ser controladas pelo sujeito.
Segundo os estóicos, grande parte das mazelas humanas vem do fato de que não controlamos a grande maioria das coisas que nos rodeiam. A morte é a representação central desse pensamento. O passado é morto por definição, e o futuro nunca é. Sempre vivemos em um constante presente, um constante e pequeno momento que produz a vida humana. A existência é, portanto, feita sempre nesse pequeno momento chamado presente.
Para Epicteto, uma das principais tarefas da vida humana é a tentativa de distinguir as coisas que não temos controle daquelas que temos. Na vida cotidiana, a coisa mais comum é nos ocuparmos com angustias derivadas de coisas absolutamente fora de nossa esfera de influência.
Desapego, portanto, para os estóicos é uma lição fundamental. Já que tudo é transitório, tudo é transformação – transformação essa encarada na figura da morte – não devemos nos apegar aos objetos de desejo, posto que nada é fixo.
Para Spinoza, a esperança tem duas faces. Uma face é a espera, a passividade. A outra face é o esperançar. Algo que conhecemos como otimismo13, uma atitude de olhar para a vida com virtude, com aproveitamento. Em suma, viver mais e esperar da vida menos. Ter menos expectativas e saborear mais o que a vida lhe proporciona. Ainda, para Spinoza, a fim de alcançarmos a liberdade - entendida como sinônimo de felicidade - devemos seguir o caminho do aperfeiçoamento de nossas. Ainda, sugere que substituamos as paixões14 que diminuem nossa potência por aquelas que aumentam nossa potência de pensar (LIMA, 2008, p.08).
13 Outra palavra banalizada atualmente. Otimismo na filosofia estóica tem haver com virtude e ética.
14Todas as paixões humanas têm como causa a percepção que o homem tem do mundo, ou seja, não há possibilidade de se ter uma paixão afastando-se das percepções corporais. (Lima, 2008, p.06)
26 Marco Aurélio, um dos expoentes do segundo período estóico afirma que devemos manter em mente que cada ação nossa poderia ser a última, atividade a que chama de visualização negativa15. Esse exercício de ver as coisas como transitórias
permite que tenhamos mais satisfação, pois nos tira da ilusão de que as coisas estarão sempre ali, disponíveis, quer demos valor a elas ou não.
Para Platão, a dignidade da conduta humana está em admitir sua responsabilidade como agente histórico concreto (RÍOS, 2008,p.05). Em Epicteto, o homem é a medida de todas as coisas, pelo menos aquelas que lhe dizem respeito. O relevante para o projeto de vida é, por um lado, a própria decisão da qual toma o ser humano, e por outro, o juízo de valor subjetiva dos acontecimentos reais (IBID, p.06).
Em Demócrito (RÍOS, 2008, p.06), muitos dos recursos para a saúde se encontram dentro do ser humano, e não se pode culpar nem aos deuses nem ao destino pelos problemas pessoais e sociais.
Para Sêneca (IDEM, 2008) “ tu mesmo te fazes feliz, e compreenderás que são bons aqueles atos que estão inundados de virtudes”.
La sabiduría se relaciona com el dessarollo de La identidad moral, el coraje i el deseo del conocimiento. De hecho, La integridad moral forma parte del funcionamento humano óptimo. (Carlo& eduards, 2005) La persona madura interpreta de forma positiva su transcurrir existencial ( Bauer Et, AL., 2005) y és auténtica (kernis, 2003, Kernis & Goldman, 2006) Señala Maslow (1945/1991) que La psicologia de lo positivo necessita del estúdio de la buena persona y feliz. Pues, em úlltima instância, lo que se busca son “personas creativas, adaptadas y autônomas” (Rogers, 1961/1981, p. 45)(RÍOS, 2008, p. 7)
Em O banquete, Platão propõe que o desejo é sempre do que nos falta, sempre uma busca pelo que não temos. E, mesmo se desejamos algo que temos, ainda assim, isso implica uma falta, pois queremos que esse objeto continue conosco no futuro, e o futuro, assim como o passado, não pertence a nós.
Já Schopenhauer (DAMBOS, 2014, p.4) propõe que a vida humana balança entre dois lados de um pendulo. Quando não temos algo, desejamos esse algo, ao
27 passo que, quando conseguimos, entramos no tédio. A vida humana oscila entre dor e tédio.
A felicidade Hedonista – baseada nos prazeres - na visão dos estóicos é insustentável, pois pressupõe uma busca ininterrupta e incessante. Cada vez que conseguimos algo, precisamos de um pouco mais, tornando o bem-estar sempre dependente de algo que não se tem. Já a felicidade Eudaimônica é fruto de uma vida de profundo significado, na qual o sujeito consegue se envolver e produzir satisfação com sua vida.
Em Sêneca, ainda temos a noção de que “o homem temeroso jamais encontra a vida feliz – esta entendida enquanto uma vida transcorrida com tranquilidade da alma, oriunda do fortalecimento do eu e da concentração no momento presente” (CONDÉ, 2015, p.19)
O temeroso se caracteriza por ser aquele que torna a própria vida desgraçada, sobretudo pelo modo com que toma o mundo que o cerca; o corajoso e forte,ao contrário, “não interpreta tudo d apior maneira”. Mas vê tudo com bons olhos, revelando uma impressionante harmonia entre o seu estado interior e o mundo que o cerca. Nesta medida, adversidades nada mais são do que eventos inerentes à vida humana, os quais contribuem para o nosso fortalecimento” (CONDÉ, 2015, p.18).
3.4. Budismo
O budismo pode ser citado como a fonte primordial do Mindfullness16. Segundo a doutrina budista, tudo é transitório e mutável, e a tranquilidade, serenidade e sabedoria vêm desse conhecimento e da aceitação. Para Leverson, (2015).“A arte da felicidade, na versão búdica, é um longo aprendizado e, como todo aprendizado, requer disciplina, assiduidade e perseverança”.
O ser humano é o artesão responsável pela própria vida [...] e deve sempre se basear no que ele mesmo considera verdade (p.52). O maior desafio reside no apego ao desejo. O combate, se é que há combate, é primeiro com ou contra a própria pessoa, com os hábitos e as idéias recebidas,
16 Forma de meditação usada por psicólogos para tratamento de ansiedade, depressão, pânico e
outros transtornos. Trata-se de um tipo de meditação adaptada para a cultura ocidental. Os estudos de Mindfulness datam desde 1980, principalmente estudando os efeitos cerebrais da prática consistente de meditação. O conceito será aprofundado adiante neste trabalho. Por hora basta dizer que se trata de um treinamento de atenção, direcionando a atenção para o presente, experienciando o aqui e o agora.
28 a fim de vencer tendências naturais como a apatia ou preguiça, distração ou agitação, como a dúvida (LEVERSON, 2015, p.53).
Para Leverson (IDEM, p.51-54), “Voltar-se para dentro de si dá igualmente oportunidade de se abrir mais ao outro” (p.54). Para Dalai-lama, líder religioso, a vida chega sempre ao fim, e é preciso pensar a respeito dela para não terminá-la cheio de remorsos. É preciso viver e agir da melhor forma possível, para que o mundo se torne um lugar mais habitável ao maior número de pessoas (IDEM, p.110-111).
Para o budismo, a vida é sofrimento17, a não ser que praticamos o desapego às ilusões, à ignorância estaremos sempre presos no samsara (estado de fluxo que nos aprisiona desde o nascimento até a morte, que poderia ser evitado pela iluminação, pela busca da verdade e do desapego. Apenas a iluminação (nirvana) quebra o ciclo de sofrimento do samsara.
3.5. Taoismo
Lao Tsu pensava o tema da felicidade como algo paradoxal: a vida e seu significado não passam necessariamente pela atividade racional. Muitos dos aspectos de uma vida com significado devem ser experienciados, vivenciados, desenrolados. Para esse pensador, a fraqueza e a vulnerabilidade e a flexibilidade estão ao lado da vida, ao passo que a rigidez e a força estão ao lado da morte (UCHIDA & OJIHARA, 2012, p.05)
3.6. Confucionismo
Um importante pensador oriental que cunhou o conceito de J-E-N, ou em algumas traduções R-E-N.Esse conceito significa uma busca pela dignidade, convergindo o senso de percepção do mundo com as demais pessoas. Uma pessoa orientada desse modo traz o que há de mais nobre nos demais que estão em seu ambiente (UCHIDA & OJIHARA, 2012, p.05)
3.7. A noção Judaico-cristã
17 Das quatro nobres verdades, a primeira é: a vida é sofrimento; a segundo é que o sofrimento
29 Depois dessa concepção surge a noção Judaico-cristã da felicidade. Nessa visão, segundo Mcmahon (2009), podemos encontrar tal estado através de três formas: (1) no passado, quando estávamos no Éden, num estado de puro contentamento; (2) no futuro, quando Cristo retornar; (3) no céu, na união com Deus, ou seja, depois da morte. Em suma, nessa cosmovisão, a felicidade está além desta vida, opondo-se à visão dos gregos e romanos. O que fica mais evidente nessa tradição é a redenção, o sofrimento e o sacrifício como meios de salvação.
3.8. O Iluminismo
Entre os séculos XVII e XVIII surge a ideia de felicidade como algo democrático, como um direito de todos. O Iluminismo Europeu, John Locke, Nietsche e outros movimentos e pensadores iniciam um debate sobre desfrutar os prazeres mundanos. Nessa época já não era mais errado trabalhar pra melhorar nosso padrão de vida. A partir dessa visão, a felicidade pode se tornar uma busca coletiva e individual.
Pela primeira vez na história humana, um número comparativamente grande de pessoas foi exposto à nova perspectiva de que talvez não tivessem que sofrer com uma lei infalível do universo, que poderiam – e deveriam – esperar a felicidade na forma de bons sentimentos e prazer como direito de existência.(MCMAHON, 2009,p.01)
Para Mcmahon, um grande problema de nossa concepção atual é que esquecemos a busca pelas virtudes, pela força de caráter, esquecemos do valor do sofrimento e dos desafios na construção de uma busca de felicidade, que hoje se limita ao consumo externo, à busca de prazer. Mas atualmente a ciência vem tentando trazer à tona novamente esse lado perdido das grandes tradições do pensamento (MCMAHON, 2009,p.01).
3.9. Psicologia Humanista
Segundo Seligman, a falta de empirismo provavelmente foi a causa do não firmamento do humanismo como visão suplementar à visão de tratamento de doenças. SegundoGraziano (2008), “Jung, Terman e Watson publicaram na década de 30 estudos sobre superdotados, sucesso no casamento e paternidade efetiva, respectivamente.” (p.26). Portanto, a Psicologia Positiva não deve reclamar sua originalidade, mas isso não diminui a relevância de sua proposta.
30 Maslow (1954) também pode ser citado, como no exemplo acima, como um dos psicólogos a apostar nas potencialidades, porém também não conseguiu muita visibilidade na época.
Atualmente há duas correntes dentro da psicologia humanista, uma que aceita os postulados da psicologia positiva e uma que não aceita. Não trataremos aqui destes dois movimentos, apenas mencionamos que a corrente humanista é uma fonte histórica bastante significativa.
3.10. Psicologia da Saúde
A psicologia da saúde pode ser entendida como uma área que busca a promoção e a manutenção da saúde, a promoção de fatores protetivos e a identificação de fatores de risco. Trabalha com o conceito ampliado de saúde, e com o modelo bio-psicossocial.
Segundo Campio, Lucia, Ucker e Nunes (2007), citando Castro e Bornholdt, o campo de trabalho é interdisciplinar, nas areas da atenção primária, secundária e terciária, aspirando futuramente à promoção e educação para a saúde(p.3.).
Castro e Bornholdt,datam historicamente1970 como início da consolidação da Psicologia da Saúde, dentro da APA. A revista Health Psychology, da APA, é publicada desde 1982, e na Europa, o movimento Health Psychology Society é fundado em 1986.
No Brasil apenas uma grupo aparecia, na data da publicação do artigo de Campio, Lucia, Ucker e Nunes (2007), grupo este que focava intervenções baseadas em evidências, com boa relação custo-benefício, estudo de fatores de risco e participação na formação de profissionais (p.4).
Para Campio, Lucia, Ucker e Nunes (2007), a psicologia da saúde e a psicologia positiva podem ser importantes aliadas para investigar variáveis como resiliência, espiritualidade e bem-estar como fatores protetivos e preventivos. Segundo elas, as duas disciplinas contribuem para o avanço científico, pois enfocam e redirecionam a atenção não só para a cura, mas para a promoção de saúde (p.10).
31
2. CAPÍTULO 2 – POR QUE UMA PSICOLOGIA “POSITIVA”? 2.1. O papel da ciência e do método
É importante fazer duas ressalvas. A primeira é que a psicologia positiva não é uma teoria, uma abordagem e muito menos uma proposta de negação do que já existe. Ela é pura e simplesmente uma contribuição a tudo que a psicologia já vem realizando ao longo dos tempos. Ela é uma movimentação de estudos científicos que se propõem a complementar o que já esta sendo produzido.
Na visão dos autores, não se trata de fazer grandes viradas e revoluções, mas integrar os estudos dos aspectos que nossa sociedade, nosso modo de vida e nossa saúde necessitam pra promover saúde e prevenção, com todo o conhecimento que já foi e que está sendo tradicionalmente produzido pela psicologia. Ou seja, é uma visão complementar.
A proposta não é ver a psicologia tradicional18 como falha, como "negativa" ou pessimista, mas sim ter consciência de que a psicologia, como toda ciência, evolui, que nunca está completa, sempre está aberta a novos horizontes, ainda mais sendo um campo de conhecimento tão jovem comparado com alguns campos milenares como a matemática, a física a medicina e tantas outras.
A Segunda é que a PP19 não é auto-ajuda, pensamento positivo, esoterismo ou pseudociência. Todos os resultados são produzidos através de métodos científicos e controlados, testes de hipóteses, estudos estatísticos de variáveis e aplicação de escalas. Os resultados são submetidos à avaliação dos pares, a criticas, ao método interativo de produção de conhecimento, e podem ser consultados e contestados nos periódicos e nos anais de publicação. Alguns desses estudos são bastante discutidos, outros nem tanto quanto gostaríamos.
Alguns instrumentos são auto-aplicados, portanto mais subjetivos (escalas do tipo Likert), e já foram respondidos por milhões de pessoas ao redor do mundo, outros
18 Também aqui tomamos cuidado para não entender os termos psicologia tradicional como algo
pejorativo. Trata-se apenas de uma distinção didática.
32 são mais objetivos. A metodologia adotada para conduzir os estudos, os tipos de coleta e análise de dados, e algumas das críticas apontadas aos achados desses métodos, postulados e teorias do movimento serão abordados mais adiante neste trabalho, num capítulo destinado a isso.
2.2. Como a patologia virou o foco da atenção dos psicólogos?
Respaldando-nos em (PALUDO &KOLLER, 2007), podemos resumir essa questão em três fatores: (1) as consequências sociais e econômicas das guerras mundiais demandaram muitos serviços necessários da parte de psicólogos e psiquiatras para conter os problemas urgentes causados pela violência, crise econômica e instabilidade social. Do mesmo modo que fomos impelidos a atender essas demandas, continuamos focados nelas até hoje, prioritariamente, por uma série de razões; (2) O fato de que os seres humanos são propensos a ajudar que está sofrendo, e também existe a tendência de estudar os fatores que afligem a humanidade; (3) As próprias teorias de processo psicológico, que em sua grande maioria, já nascem voltadas aos aspectos disfuncionais da experiência humana.
Felizmente temos hoje muitas pesquisas catalogadas sobre patologias e enfermidades, e já desenvolvemos diversos modos de tratamento e estudo dessas. Enfermidades que eram antes consideradas intratáveis, e hoje já não o são mais (PALUDO &KOLLER, 2007, p3). Segundo Cordioli (2008),são mais de 250 tipos de terapias e modos de tratamento, distribuídos em mais de 10.000 livros, além de centenas de artigos que tentam responder aos problemas humanos (p.21). Apesar de todo esse conhecimento técnico, prático e teórico, o ser humano continua sofrendo - e sempre continuará, pois sofrer é uma parte inerente à experiência humana. Porém, apesar do sofrimento normal, temos como evitar quadros patológicos (onde o sofrimento está exacerbado) com a promoção de significado, engajamento, conexão social, equidade, gratidão, para mencionar alguns.
Os sintomas vão se transformando com o passar das décadas, acompanhando mudanças sociais e culturais. Surgem fobias, ansiedades, com números assustadoramente altos de incidência e prevalência. Os estudos trabalhados aqui
33 também colocam uma grande importância nas emoções negativas20, ao contrário do
que muitos pensam, quando associam a palavra “positiva” a movimentos literários como a auto-ajuda. Emoções negativas são tratadas como parte da experiência humana, tanto na psicologia positiva como em toda a psicologia.
Contudo, enquanto a psicologia tradicional parece não reconhecer muitas evidências da eficácia da prevenção, da promoção, do desenvolvimento humano, e o que se pode obter de estudar o desenvolvimento sadio, a Psicologia Positiva vem mostrando em seus estudos como a sua visão é necessária e complementar.
O papel de uma psicologia que se auto-denomina Positiva, muito antes de fazer (mais) uma cisão no corpo teórico desta disciplina, seja, simplesmente, de fazer o contraponto, promovendo um equilíbrio entre a compreensão dos problemas e das potencialidades humanas. Acreditamos ainda que, no momento em que tal equilíbrio se efetivar, a denominação positiva perderá seu sentido e deixará claro que a psicologia Positiva na verdade, nunca foi mais do que, apenas, Psicologia(GRAZIANO, 2008, p.34.).
2.3. A Busca crescente por mais bem-estar
As pessoas estão sedentas por significado em suas vidas, por autoconhecimento, por evolução. Diante delas se coloca uma realidade dinâmica e líquida21 que contém em si possibilidades muito maiores do que no inicio da era moderna, onde os papéis eram mais rígidos. Além disso, a sociedade de consumo e a tecnologia demandam constante reposicionamento, dinamismo e aprendizagem, resultando em uma necessidade de auto-aprimoramento e de desenvolvimento pessoal e profissional.
São tantos os rumos possíveis que as pessoas se petrificam diante das escolhas, diante dos desafios, diante de problemas simples de comunicação nos relacionamentos, problemas esses que poderiam ser facilmente amenizados em algumas sessões de psicoterapia ou outra forma de promoção de autonomia.
20 A própria dicotomia entre positivo e negativo no que se trata de psicologia é muito controversa.
Segundo o biólogo Humberto Maturana, emoção positiva é todo o movimento que aproxima os seres, ao passo que negativo se refere ao que afasta (GRAZIANO, 2008). Os críticos da PP argumentam, com muita tenacidade, que essa dicotomia é falsa, afinal o que é negativo pode se tornar positivo e vice-versa. (RÍOZ, 2007)
21 Metáfora de Baumann que vê a vida moderna (ou pós-moderna) como líquida: se adapta, é
34 Por que essas pessoas estão procurando coaching e auto-ajuda - além de outras modalidades de terapia sem base cientifica - para tentar trabalhar traumas emocionais, problemas psicológicos e situações dessa ordem?
Sabemos que o coaching, por exemplo, não se propõe a trabalhar com questões profundas de personalidade, e sim problemas pontuais, questões focais para as quais o sujeito já possui os recursos cognitivos e emocionais.. Ao que parece - e a psicologia positiva vem tentando elucidar essa questão - isso tem muito a ver com a proposta de serviço oferecido pelos Coaches e a procura das pessoas por esse serviço.
Segundo Marquez22 (2016), o gênero literário que mais cresce atualmente é auto-ajuda, e sua proposta vem ao encontro das demandas pessoais de seus leitores. Segundo Kusumoto23 (2015), esse segmento cresce bastante principalmente em tempos de crise. A discrepância entre a preocupação com a enfermidade, com patologias (por parte dos psicólogos) e a busca pelas possibilidades do ser humano (por parte da população) pode ser vista atualmente com a imensidão de Best-Sellers de auto-ajuda, literaturas não cientificas e sem nenhum critério metodológico ou acadêmico, mas que acabam recebendo grande procura por parte dos leitores que visam aumentar suas capacidades e explorar suas potencialidades. Além disso, surgem terapias e abordagens do dia pra noite, e poucas pessoas têm o senso crítico e a possibilidade de analisar essas propostas antes de usar os serviços oferecidos.
2.4. Efeitos do consumo de auto-ajuda
Aos leitores menos instruídos e com menos hábito de pensar suas próprias questões, esse tipo de conteúdo pode acabar sendo uma forma válida para que pensar a narrativa da sua vida seja possível. Esse perfil de pessoas se beneficia de forma indireta, não pelo conteúdo do que consomem, mas por efeito indireto, por permitirem-se “gastar” um tempo refletindo sua vida, permitirem-seus planos, metas, conflitos e contradições, coisa que não costumam fazer sem esse tipo de leitura. Além disso, eventualmente
22 Repórter da Superinteressante, edição online de outubro de 2016. 23 Repórter da revista veja, edição online de 14 de novembro de 2015.
35 alguns desses autores esporadicamente acabam usando algum conhecimento realmente sólido, porém infelizmente isso não é a regra e sim, a exceção.
Ainda assim, o efeito do consumo desse tipo de conteúdo, seja na literatura, seja nas redes sociais, nem sempre acaba sendo benéfico, visto que muitas vezes são colocadas “frases de efeito” e “dicas universais” que não se adaptam à complexidade humana, complicando ainda mais a situação do sujeito, ou, pior ainda: se coloca frente ao sujeito um ideal inalcançável de resiliência, de permanente evolução, como se todo tempo não aproveitado em aprimoramento pessoal constante fosse um erro. Instala-se aí um imperativo de felicidade inatingível, causando ainda mais sofrimento. Todo o tempo de lazer e de ócio, em algumas situações, pode ser visto como “perda de tempo”, e sabemos da importância desse tempo de ócio para a saúde em geral.
Outro efeito negativo desse tipo de consumo é que o leitor fica preso às dicas e opiniões dos autores, impossibilitando que ele mesmo desenvolva um modo de enfrentamento de suas questões. Pesquisas mostram que os consumidores tendem a se manter comprando títulos que ensinam a lidar com o mesmo problema, ou seja, precisa-se cada vez mais literatura para resolver o mesmo problema.
A partir disso, se pode pensar em dois antecedentes do sucesso de vendas desses títulos não científicos e sedutores. (1) As pessoas querem se conhecer, melhorar, entender melhor seus conflitos, e estão buscando formas para sanar suas problemáticas, além disso, são impelidas pelo sistema que pede cada vez mais aprimoramento. (2) A psicologia ainda é, às vezes, a última opção para tratar questões às quais ela deveria ser a primeira a ser consultada. Muitos enxergam a terapia como a ultima opção, o fim da linha, preferem comprar um livro ou um curso com promessas de soluções rápidas e enlatadas. Tal situação, além de ser consequência do imediatismo do nosso estilo de vida contemporâneo, também pode ser agravada pela própria falta de divulgação da produção teórica e acadêmica da psicologia ao público leigo. Produzimos muito conhecimento, mas o público acaba não ficando sabendo dos resultados das pesquisas e estudos. Temos poucos divulgadores da ciência da psicologia em geral, e temos muito menos no Brasil.
36 Além disso, o foco de produção de conhecimento da psicologia não está mais alinhado com o que as pessoas vêm buscando: mais saúde e bem-estar. Além de que o discurso social dominante é o da saúde, parece preferível saber buscar e preservar coisas como bem-estar, um trabalho que traga significado e engajamento, ter a possibilidade de construir competências emocionais e relacionais, do que simplesmente minimizar a miséria psíquica e o sofrimento patológico (com o cuidado de não cair numa narrativa de imperativo da felicidade). Psicólogos com experiência prática sabem que controlar uma depressão ou uma crise de ansiedade não produz “bem-estar”, mas tão somente deixa a pessoa em um nível que poderíamos chamar de neutro no que se trata de se sentir bem.
Sendo assim, não é espantoso perceber que a psicologia tem sua parcela de culpa quando as pessoas acabam sentindo medo ou receio de procurar ajuda em terapia, já que pouco se fala em oferecer um serviço de promoção de saúde, de prevenção de patologias, de construção de uma estrutura psíquica estável do ponto de vista da relação saúde-doença. O enfrentamento e a resistência do sujeito frente a seu problema acabam virando o principal muro para que esse procure ajuda psicológica, e é nesse ponto que a Psicologia Positiva se propõe a tocar, oferecendo mais uma possibilidade de trabalho ao cliente/paciente.
2.5. Relação entre a economia e o bem-estar no mundo
Muitos países se encontraram em sérios dilemas quando se viram diante do fato de que a satisfação das pessoas não acompanhava seus níveis de crescimento econômico. Isso fez com que governantes e pesquisadores começassem a se voltar para esse fenômeno tentando entender onde esta a discrepância entre o PIB e a felicidade. Apesar de haver enormes controvérsias no assunto, na maioria dos estudos se acham evidencias de que a curva de satisfação x renda tem um ponto de ruptura, ou seja, em determinado momento a renda passa a ser menos relevante pra manutenção de bem-estar.
A maioria dos programas ideológicos e políticos atuais se baseia em ideias um tanto frágeis no que concerne à fonte real de felicidade humana. Os nacionalistas acreditam que autodeterminação política é essencial para nossa felicidade. Os comunistas postulam que todos seriam felizes sob a ditadura do proletariado. Os capitalistas sustentam que só o livre mercado pode garantir a