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Pelos olhos de Jane: o in between em Jane Eyre

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Academic year: 2021

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(1)UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS EM INGLÊS. MARINA OLIVEIRA CALDAS. Pelos olhos de Jane: o in between em Jane Eyre. Versão corrigida. SÃO PAULO 2017.

(2) MARINA OLIVEIRA CALDAS. Pelos olhos de Jane: o in between em Jane Eyre. Versão corrigida. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Daniel Puglia. De acordo:. SÃO PAULO 2017.

(3) Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.. Catalogação na Publicação Serviço de Biblioteca e Documentação Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Caldas, Marina Oliveira C145o. Pelos olhos de Jane: o in between em Jane Eyre / Marina Oliveira Caldas; orientador Daniel Puglia. - São Paulo, 2017. 147 f. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Departamento de Letras Modernas. Área de concentração: Estudos Linguísticos e Literários em Inglês. 1. Jane Eyre. 2. Foco narrativo. 3. Classe. 4. Gênero. 5. Violência. I. Puglia, Daniel, orient. II. Título..

(4) FOLHA DE APROVAÇÃO. Nome: CALDAS, Marina Oliveira. Título: Pelos olhos de Jane: o in between em Jane Eyre. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Letras.. Aprovada em: ________________________________. Banca Examinadora. Prof.(a) Dr.(a) ______________________. Instituição: ________________________. Julgamento: ________________________. Assinatura: _________________________. Prof.(a) Dr.(a) ______________________. Instituição: ________________________. Julgamento: ________________________. Assinatura: _________________________. Prof.(a) Dr.(a) ______________________. Instituição: ________________________. Julgamento: ________________________. Assinatura: _________________________.

(5) Ao meu querido amigo Athos, que, ao contrário de Jane e eu, não sobreviveu. Aos meus pais, que fizeram e fazem toda a diferença. Aos amigos que estiveram sempre dispostos a me acudir quando eu caí..

(6) AGRADECIMENTOS. Aos meus pais, Maria e Roberto, que sempre me apoiaram. Aos amigos, debatedores, conselheiros e salvadores Nara, Michelly e Fernando, pelo companheirismo, encorajamento, discussões instigantes e sugestões inestimáveis. Ao Prof. Dr. Daniel Puglia, por acolher o projeto e pela paciência. Às Profas. Dras. Maria Sílvia Betti e Rejane Vecchia da Rocha e Silva, pela participação na banca do exame de qualificação, com suas leituras precisas e apontamentos valiosos. A Vanessa e Angélica, que contribuem desde a minha graduação com carinho, apoio e deliciosas conversas. A Maysa, Gabi, Maró, Simone, Fla, Andréia, Dani, Taíne, Marina, Rosângela, Andréa, Rafael e Samuel, que também me encorajaram a ir até o final. À minha família, pela paciência com as ausências. À CAPES, pela bolsa de estudos..

(7) Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer (Italo Calvino).

(8) RESUMO. CALDAS, Marina Oliveira. Pelos olhos de Jane: o in between em Jane Eyre. 2017. 147 f. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017.. A presente dissertação tem como objetivo investigar a sedimentação sócio-histórica do romance de estreia de Charlotte Brontë, Jane Eyre (1847), a partir de seu foco narrativo. Ao atentar à fortuna crítica da obra, em especial às resenhas que seguiram a publicação do romance e às críticas materialista e feminista, distinguem-se duas tendências, dois modos de entender Jane Eyre. Por meio da análise de trechos do romance, visa-se ilustrar como essas duas vias de leitura são possíveis por conta da posição ambígua da narradora-personagem dentro da sociedade vitoriana. Expandindo o conceito de Terry Eagleton do in between, argumenta-se que, por estar sempre em uma posição entre as classes alta e baixa e por desejar inserção, Jane relata e denuncia as violências que permeiam a sociedade vitoriana e, ao mesmo tempo, incorpora o discurso dominante, mesmo quando esse vai contra ela mesma. Entende-se, assim, que o romance retrata a situação contraditória da classe média e o impacto de viver nessa posição na própria consciência do indivíduo, isto é, na sua visão de si e do mundo, como observado na voz da narradora de Jane Eyre.. Palavras-chave: Jane Eyre, foco narrativo, classe, gênero, violência..

(9) ABSTRACT CALDAS, Marina Oliveira. Through Jane‟s eyes: the in between in Jane Eyre. 2017. 147 f. Dissertation (MA). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017.. The aim of this dissertation is to investigate the social and historical sedimentation of Charlotte Brontë‘s 1847 debut novel, Jane Eyre, by exploring its point of view. Drawing from the novel‘s literary criticism, especially from the reviews that followed its publication and from the Feminist and Marxist criticism, two different ways of understanding Jane Eyre are distinguished. The close reading of excerpts from Charlotte Brontë‘s work aims at highlighting that these two readings are possible due to the narrator‘s ambiguous position in the Victorian social structure. By expanding Terry Eagleton‘s concept of the in between, it is discussed that, since Jane is from the very beginning of the novel in a position between the upper and lower classes and she longs for inclusion, she accounts on and denounces the violence that permeated the Victorian society, just as, at the same time, she incorporates the dominant discourse even when it speaks against herself. Thus, it is understood that the novel portrays the contradictory situation of the petty bourgeoisie and the impact of being in such a position on the individual‘s consciousness, as it is seen in Jane Eyre‘s narrator‘s voice.. Keywords: Jane Eyre, point of view, class, gender, violence..

(10) SUMÁRIO. Introdução .................................................................................................................... 11 1. Culpada ou inocente? .............................................................................................. 17 2. In between e violência: resistência, negociações e incorporações ........................ 63 2.1. Primeira parte .................................................................................................. 67 2.1.1. Gateshead .................................................................................................... 70 2.1.2. Lowood ....................................................................................................... 79 2.1.3. Rochester .................................................................................................... 84 2.2. Segunda Parte .................................................................................................. 98 2.2.1. ―Pobre, obscura, simples e pequena‖? – Quem é Jane Eyre? ................... 100 2.2.2. Lady? – A classe média e suas contradições ............................................ 115 Conclusão ................................................................................................................... 130 Referências Bibliográficas ........................................................................................ 139.

(11) 11. Introdução Conheci a tragédia na vida de um homem reduzido ao silêncio, em uma banal vida de trabalho. Na sua morte comum e sem repercussão vi uma aterradora perda de conexão entre os homens [...] entre a comissão de operários e a cidade, e homens e mulheres esmagados tanto pela pressão de aceitar essa perda como normal quanto pelo adiamento e corrosão da esperança e do desejo. (Raymond Williams, Tragédia Moderna, 2002, p. 29-30). Não são raras as vezes nas quais as pessoas ao nosso redor nos surpreendem positiva ou negativamente. É difícil afirmar conhecer alguém na sua totalidade, mesmo aqueles que nos são mais íntimos. Diferentemente de seres humanos, porém, personagens de ficção deveriam ser mais fáceis de apreender, já que um romance, comparado com a vida real, é muito mais limitado, restrito. Tal tese não escapou à narradora de Jane Eyre (1847), que parece mesmo almejar que o leitor não só a compreenda, mas sinta na pele cada uma de suas angústias. No entanto, o que era para ser um simples ―se sentirem como eu, entenderão‖ parece ter se voltado contra ela, provocando interpretações contraditórias sobre a narradora-personagem. Há dúvida até sobre com qual enfoque começar a abordar o romance. Essa assolou mesmo um crítico influente como Terry Eagleton (1988), que no prefácio de Myths of Power, livro cuja proposta é fazer uma análise materialista das obras das irmãs Brontë, acaba por destacar a questão de gênero como a mais relevante para os romances1 das autoras. Ao longo desta dissertação, a dissociação entre o que seriam questões de classe e questões de gênero se provou infrutífera, pois no romance elas se mostram intrinsicamente entrelaçadas. Desse modo, foi inevitável concordar com Davidoff e Hall (1987, p. 13) quando afirmam: ―consciousness of class always takes a gendered form‖2. Entretanto, acima de disputas teóricas, a principal preocupação da análise desenvolvida nos próximos capítulos foi destacar os conflitos que permeiam o próprio romance, os quais pareciam desde o início ser responsáveis por leituras tão díspares da obra e de sua narradora. Assim, a história de Jane Eyre, exposta na leitura a seguir, é primordialmente a de uma mulher de classe média oprimida pelo sistema social exatamente 1. ―I would want to argue now that the question of gender, far from figuring in the Brontës as one among many social determinants, is nothing less than the dominant medium in which, in much of their writing at least, other social conflicts are actually lived out‖ [―Gostaria de argumentar agora que a questão do gênero, longe de figurar nas Brontë como um entre muitos determinantes sociais, é nada menos que o meio dominante no qual, em grande parte de sua escrita, pelo menos, outros conflitos sociais são vividos‖] (EAGLETON, 1988, p. xvii, tradução livre [tl]). 2 ―a consciência de classe sempre toma uma forma de gênero‖ (tl)..

(12) 12. por conta desses dois traços: mulher e classe média. Alguém para quem respeito e dignidade não são direitos adquiridos, mas valores íntimos caros, os quais precisam ser defendidos de figuras que o sistema permite ser continuamente abusivas. Nessa batalha, na qual os valores da sociedade se chocam com as necessidades mais básicas de Jane, não há uma trajetória certa e tampouco clara para a narradora-personagem sobre como resolver os impasses que lhe aparecem pelo caminho. Assim, assistimos a Jane oscilar entre polos: entre rebelião e aceitação, entre passion3 e comedimento, entre desprezar a estrutura social e desejar ascender nela. Em contexto inglês, Charlotte Brontë é uma autora que dispensa apresentações e sua Jane Eyre é das heroínas mais famosas, empatando em popularidade com Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito (1813). Ao contrário da respeitabilidade atribuída pelos vitorianos à Srta. Jane Austen, porém, a temática sombria das obras das irmãs Brontë e a localização aparentemente isolada da residência da família serviram de combustível para a imaginação do público, alimentando especulações que acabaram gerando uma mitologia envolvendo as autoras, a qual foi resumida no epìteto: ―three weird sisters‖ – o mesmo das bruxas de Macbeth4. Para além do horror e preconceito de parte de seus contemporâneos, Jane Eyre fez sucesso já na época em que foi publicado e, posteriormente, ganhou destaque e atraiu o olhar das mais variadas correntes críticas.. 3. Palavra de difícil tradução para o português por sua pluralidade semântica em inglês. Geralmente é traduzida como ―paixão‖ ou ―excitação‖. Devido ao fato de o romance a relacionar com certa rebeldia da personagem, além de caracterizá-la com o adjetivo passionate, as opções ―impetuosidade‖ e ―impetuosa‖ parecem estar em maior consonância com o significado dessa relevante palavra em Jane Eyre. Essa escolha se justifica, ainda, pelas definições: a) passion – ―um sentimento muito forte de amor, ódio, raiva entusiasmo, etc.‖, ―estar muito bravo‖; b ) passionate – ―ter ou demonstrar fortes sentimentos de amor sexual ou raiva, etc.‖ ; e c) impetuoso – ―que revela, em seu comportamento, ardor, violência; arrebatado, fogoso, veemente‖ (PASSION. In: OXFORD LEARNER‘S DICTIONARY. Disponìvel em: <http://www.oxfordlearnersdictionaries.com/definition/english/passion?q=passion>. Acesso em: Mai. 2015, tl; PASSIONATE. In: OXFORD LEARNER‘S DICTIONARY. Disponìvel em: <http://www.oxfordlearnersdictionaries.com/definition/english/passionate?q=passionate>. Acesso em: Mai. 2015, tl; IMPETUOSO. In: GRANDE DICIONÁRIO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA. Disponível em: <http://houaiss.uol.com.br/busca?palavra=impetuoso>. Acesso em: Mai. 2015). Vale ressaltar que as traduções do romance usam uma grande variedade de palavras para traduzir passion e passionate: ―temperamental‖ (BRONTË, 2014, p. 50), ―violência‖ (BRONTË, 2014, p. 20), ―malcriada‖ (BRONTË, 2014, p. 22), ―paixões‖ (BRONTË, 2014, p. 28); e ―cólera‖ (BRONTË, 1996, p. 17), ―irascìvel‖ (BRONTË, 1996, p. 21), ―paixões‖ (BRONTË, 1996, p. 27), ―colérica‖ (BRONTË, 1996, p. 55). Portanto, optou-se ao longo da dissertação por preservá-las no original em inglês. 4 Quem atribuiu esse epíteto às irmãs Brontë foi Ted Hughes. Tal referência intencional às três bruxas da obra de Shakespeare ilustra uma visão amplamente disseminada das Brontë. Sobre essa visão mítica ver: Bentley (1967), Eagleton (1988), Miller (2005) e Shorter (1896)..

(13) 13. Pode-se afirmar que, em seu romance de estreia, Charlotte Brontë conseguiu retratar a voz feminina mais forte do período. Se pensarmos na seleção de romances publicados entre 1847 e 1848 feita por Raymond Williams (1984, p. 9), apenas Jane Eyre traz exclusivamente uma narradora em primeira pessoa. Além disso, é um dos raros Bildungsromane femininos. Num contexto que privilegiava o comedimento e o decoro [propriety], Jane se enfurece, sofre, reage, grita, ataca. Uma voz que brada, sente e se exalta. Passionate, exatamente o contrário do esperado. É essa sua possibilidade de falar que impede a total identificação da narradora com a frase de Williams citada como epígrafe desta introdução e que dá o tom a suas reflexões em Tragédia Moderna. Jane encontra em sua biografia uma via para dar voz a seus sofrimentos. O resultado, contudo, foi ambíguo, como a análise pretende destacar. Mesmo assim, há tragédia, e muita, nos relatos da narradora: a mesma notada pelo crítico – cotidiana, ignorada, abafada. O ponto de partida que instigou esta dissertação foi a percepção de um descompasso entre o discurso da pequena personagem Jane Eyre e a narradora adulta nos capítulos iniciais da obra. Posteriormente, após a leitura da recepção do romance na época de sua publicação e de sua fortuna crítica mais recente, observaram-se duas tendências: compadecer-se por Jane ou condená-la. Essas duas vias deram título ao primeiro capítulo, o qual buscou encontrar um elemento formal que pudesse explicar as oscilações nas diferentes leituras e que, capaz de elucidar a sedimentação da sociedade na obra, conseguisse também unir interpretações relevantes apesar de aparentemente adversas. Nele, argumentou-se que as oscilações observadas nas diferentes interpretações advêm da ambivalência do próprio foco narrativo. Após ilustrar como essas leituras se justificam em trechos do romance, lançou-se a hipótese de que, sendo o foco narrativo o de uma mulher de classe média, o filtro pelo qual enxergamos o mundo retratado no romance é ambivalente, pois ao mesmo tempo em que ela se rebela contra a estrutura social que a oprime também deseja inserção. Como no primeiro capítulo é explorada a recepção do romance na época de sua publicação, uma nota sobre os primeiros críticos de Jane Eyre se faz necessária. A obra de Charlotte Brontë (sob o pseudônimo Currer Bell5) veio a público em três volumes em outubro. 5. Destaque-se que o uso desse pseudônimo causou confusão e especulação se a obra havia nascido da mente de um autor ou de uma autora..

(14) 14. de 1847 e, logo em seguida, apareceram resenhas. Foi usada principalmente a seleção feita por Miriam Allott (2001), a qual traz resenhas e cartas datadas de outubro de 1847 a 1900. Ao longo da dissertação, convencionou-se citar nominalmente apenas os críticos a quem se retornou repetidas vezes ou que tiveram maior contato com a autora, dando como referência dos outros apenas a revista na qual a resenha foi publicada. Tal seleção se dá, primeiro, a título de não abarrotar o texto com nomes e, também, porque algumas resenhas não foram assinadas, não sendo certa mesmo hoje a sua autoria6. Eastlake, Forçade e G. H. Lewes, no entanto, merecem destaque. Lady Elizabeth Eastlake, influente autora e crítica vitoriana, escreveu a talvez mais famosa e certamente mais mordaz resenha de Jane Eyre, a qual revela como a obra de Brontë foi mal recebida em alguns círculos. Para nossa análise, sua leitura abriu uma relevante via de interpretação do romance. Foi especialmente curioso notar como certas observações de Eastlake se aproximam de algumas posições de Eagleton (1988; 2005). A resenha do francês Eugène Forçade também ganhou destaque. Primeiro, pela proximidade de publicação em relação à de Eastlake e sua interpretação notavelmente diversa da inglesa; segundo, por parecer destacar pontos relevantes, ou, como escreveu Charlotte Brontë em uma carta: ―Eugène Forçade understood and enjoyed Jane Eyre‖7; e, por fim, por ter sido publicada na influente Revue des Deux Mondes. Apesar de as resenhas de G. H. Lewes (escritor, crítico e filósofo) não aparecerem muito ao longo da dissertação, elas foram relevantes por terem observado a coexistência do que Lewes chamou de ―melodrama‖ com elementos realistas no romance. Além disso, foi uma dessas resenhas a responsável por extrair de Charlotte Brontë comentários severos sobre as obras de Jane Austen8. Em geral, foi curioso notar nas resenhas como as noções de verossimilhança e decoro, balizas da crítica neoclássica com as quais o gênero romance teve que se haver desde sua ascensão, ainda tinham peso em meados do século XIX. Sandra Vasconcelos aborda o assunto e destaca que enquanto na França. 6. Assim, como a maioria das resenhas citadas nesta dissertação advém da coletânea de Miriam Allott (2001), adotou-se como convenção dar a referência na nota de rodapé após a tradução livre. O mesmo padrão foi adotado para citações de romances, exceto Jane Eyre. 7 ―Eugène Forçade entendeu e apreciou Jane Eyre‖. Tal carta foi publicada na coletânea de Shorter (1896, p. 344, tl). 8 Sobre os primeiros críticos de Jane Eyre, ver: Shorter (1896), Allott (2001), Chitham (2003) e Smith (2007)..

(15) 15. foi preponderante o peso do argumento estético, foi o zelo puritano que, do outro lado da Mancha, obrigou o romance a trilhar as sendas da verossimilhança e do decoro. De fato, não se exigia tanto dos escritores ingleses que obedecessem aos preceitos clássicos como tais, mas sim que mantivessem suas histórias dentro dos limites ditados por parâmetros de ordem moral e de caráter religioso (VASCONCELOS, 2007, p. 69).. No caso do romance estudado, ficará evidente o caráter ideológico por trás da crítica mais conservadora apoiada nesses dois conceitos. Vale ainda alertar que o leitor do meio acadêmico pode se exasperar de início com a aparente profusão de trabalhos da crítica de abordagens tão diferentes entre si colocados lado a lado. Com paciência será possível notar que há sim algumas obras com as quais esta dissertação inevitavelmente acaba por dialogar mais, apesar de, ressalte-se, ter-se preocupado em não desprezar de antemão críticas de abordagens distintas da aqui adotada. É justo destacar que, de todos os textos reunidos da fortuna crítica de Jane Eyre citados na bibliografia, não houve um sequer que não iluminasse algum detalhe interessante do romance. Feliz ou infelizmente, no entanto, sabe-se que um trabalho acadêmico é feito de curiosidade, mas imprescindivelmente também de seleção. Assim, será possível distinguir a influência especial de Antonio Candido, Roberto Schwarz, Frederic Jameson, Raymond Williams, Terry Eagleton, Sandra Gilbert, Susan Gubar e Catherine Hall. No primeiro capítulo também foi dado destaque às considerações de Wayne Booth (1980) sobre narradores (não) confiáveis. Foi imperioso lidar com esse tópico de maneira mais geral porque ele parece se impor a todos os narradores em primeira pessoa e, principalmente, porque o romance de Brontë parecia colocar questões que extrapolavam essa discussão sobre (não) confiabilidade, demandando uma análise que não se limitasse a indagar se Jane era confiável ou não. O leitor perceberá, ainda, que outra romancista aparece com frequência ao longo da dissertação. Os romances de Jane Austen parecem ser os romances realistas clássicos, ou, nas palavras de Vasconcelos (2007, p. 221), ―[n]esta altura, completava-se o processo de formação do romance e estavam dados régua e compasso para que o gênero seguisse seu caminho, século XIX adentro‖. Em suas obras, Austen parece ter conseguido dar à forma do romance realista sua realização mais refinada. Ter seus romances em mente foi, portanto, inevitável e útil contraponto para refletir sobre a forma de Jane Eyre. Inicialmente, no segundo capítulo seria explorada apenas a discrepância entre o ponto de vista da pequena personagem Jane Eyre e da narradora madura. No entanto, conforme a.

(16) 16. análise avançava, ganhou destaque a violência cotidiana que perpassa o romance e sua influência subterrânea e penetrante no discurso da narradora. Assim, no segundo capítulo buscou-se, primeiro, explorar a violência sofrida por Jane em três fases do romance, as quais se passam nos seguintes espaços: Gateshead, Lowood e Thornfield. Depois, almejou-se demostrar como essa violência se repete na voz da narradora, desvelando com assustadora clareza sua posição in between – uma consciência cindida, que ao mesmo tempo pode se rebelar e também incorporar o discurso dominante. Essa segunda parte, na qual será abordada a incorporação do discurso dominante na voz da narradora, também foi dividida em duas seções. Enquanto a primeira visou retratar como o discurso dos opositores de Jane teve uma influência subterrânea na percepção da protagonista de si mesma, na segunda acompanharemos como sua visão mais geral também não escapou intacta. Observando a reação da narradora-personagem à penúria e à família River, bem como a Hanna, a Adèle, à Sra. Fairfax e às alunas de Morton, buscou-se, enfim, caracterizar essas incorporações como falsa consciência. O retrato da violência em Jane Eyre parece um tema que ainda deve ser mais explorado. Aqui foi necessário fazer um recorte visando a destacar elementos que causaram efeitos silenciosos na percepção de Jane sobre si mesma e sobre o mundo ao seu redor. Assim, focaram-se mais pequenos detalhes do que trechos nos quais há violência explícita. Em especial, acabamos por não nos estender sobre as diversas agressões físicas de Lowood, em parte por considerá-las mais visíveis e em parte porque nosso argumento necessitava destacar outros aspectos. Quanto a Thornfield, optou-se por focar o relacionamento de Jane com Rochester. Tal decisão advém, primeiro, do fato de Rochester parecer retomar temas observados já em Gateshead; e, segundo, principalmente pelo fato de que pouco parece ter sido dito sobre a violência que perpassa o relacionamento do casal protagonista. Um último aviso sobre um fato curioso se faz necessário. Por vezes, Jane Eyre e Jane Eyre se emaranham. Ao longo da análise é possível observar como narradora, personagem, narrativa e a própria estrutura do romance se misturam. Como exemplo, podemos retomar o adjetivo passionate. Esse é utilizado para caracterizar a prosa, a narradora, a jovem personagem e, por fim, o próprio romance. Se essas continuidades são notáveis, também é possível perceber descontinuidades, em especial entre a narradora e a personagem quando criança, bem como entre diferentes tipos de prosa utilizados no romance..

(17) 17. 1. Culpada ou inocente? A sua razão [da obra] é a disposição dos núcleos de significado, formando uma combinação sui generis, que se for determinada pela análise pode ser traduzida num enunciado exemplar. Este procura indicar a fórmula segundo a qual a realidade do mundo ou do espírito foi reordenada, transformada, desfigurada ou até posta de lado, para dar nascimento ao outro mundo. (Antonio Candido, O Discurso e a Cidade, 2004b, p. 105) O romance é assim não tanto uma unidade orgânica, mas um ato simbólico que deve reunir ou harmonizar paradigmas narrativos heterogêneos, que possuem seu significado ideológico próprio, específico e contraditório. (Frederic Jameson, O inconsciente politico, 1992, p. 143). Se colocássemos Jane Eyre no banco dos réus, a acusação mais grave contra o romance provavelmente seria a de compartilhar do ―tone of mind and thought which has overthrown authority and violated every code human and divine abroad, and fostered Chartism and rebellion at home‖1. Essa denúncia foi feita por Elizabeth Rigby (prestes a se tornar Lady Elizabeth Eastlake) em resenha para o Quarterly Review em dezembro de 1848 e é significativa do ―ultraje‖ que o livro causou ―em alguns setores‖, como observaram Gilbert e Gubar (2000, p. 337, tl). Tal acusação, porém, pode parecer um tanto exagerada se lembrarmos que, em rápido resumo, Jane Eyre trata da história de formação de uma jovem órfã que, após enfrentar várias adversidades em direção à maturidade, é surpreendida com uma herança e com a morte da esposa de seu amado, possibilitando um desfecho satisfatório. Mais um romance sobre casamento e ascensão social com fortes pitadas de gótico, poderíamos dizer, sem risco de perjúrio. No entanto, a exasperação da futura Lady Eastlake pode ter fundamento. O romance foi publicado em outubro de 1847. Na Inglaterra, a confiança de unidade, a qual pode ser observada, por exemplo, na interpretação Whig da história feita por Macaulay2, esbarrava em 1. ―tom da mente e do pensamento que derrubou a autoridade e violou todo código humano e divino no exterior, e promoveu o cartismo e a rebelião em casa‖. Infelizmente não foi possìvel ter acesso à resenha integral, esse trecho foi citado por Rick Rylance (apud GLEN, 2002, p. 162, tl). 2 É Asa Briggs (1985, p. 133, tl) quem destaca a expectativa de equilíbrio e progresso presente nos escritos do historiador oitocentista, em especial em sua interpretação da Revolução Gloriosa: ―During the nineteenth century, the historian Macaulay, presenting a Whig interpretation of history, was to speak of it [the Glorious Revolution] as making Englishmen ‗different from others‘: ‗because we had a preserving revolution in the seventeenth century … we have not had a destroying revolution in the nineteenth‘‖ [―Durante o século XIX, o historiador Macaulay, apresentando uma interpretação Whig da história, acabou por falar sobre ela [a Revolução Gloriosa] como responsável por fazer os ingleses ‗diferentes dos outros‘: ‗porque nós tivemos uma revolução preservadora no século XVII ... nós não tivemos uma revolução destruidora no século XIX‘‘‘]..

(18) 18. fortes indícios de que a sociedade inglesa não gozava da harmonia descrita pelo historiador. O século XIX já havia testemunhado movimentos como luddismo, owenismo e cartismo, com os quais Charlotte Brontë, apesar dos mitos de reclusão nos isolados moors3, teve contato quer por viver em Haworth, cidade inserida na rota da crescente produção industrial de Lancashire e Yorkshire4, quer pela repercussão que esses movimentos tiveram entre a classe média 5, à qual a autora pertencia. Vale ainda lembrar que, menos de seis meses após Jane Eyre vir a público, Marx e Engels (2010, p. 39) publicaram um manifesto afirmando que ―UM ESPECTRO ronda a Europa: o espectro do comunismo‖. A turbulência do período é destacada por Hobsbawm (2010a, p. 188), que ressalta a percepção de um descompasso entre os novos sistemas políticos e as novas condições sociais. A visão do historiador vai ao encontro da ideia do crítico literário Raymond Williams (1984) de que, nos romances publicados entre os anos de 1847 e 1848, observa-se uma ―nova consciência‖6.. 3. Em especial Eagleton (1988; 2005) combate esse mito, fruto de uma recepção biografista das obras das irmãs Brontë (como exemplo dessa tendência, a qual teve início ainda no século XIX, podemos citar The Brontës de Phyllis Bentley, obra publicada em 1947, que é tanto significativa da persistência dessa abordagem, quanto dela é exemplar). O crìtico inglês defende que ―far from being mysteriously sequestered from all this [the Industrial Revolution and its consequences], living only in their own private imaginative world, their fiction is profoundly influenced by it‖ [―longe de estarem misteriosamente isoladas de tudo isso [a Revolução Industrial e suas consequências], vivendo apenas em seu próprio mundo imaginário particular, sua ficção é profundamente influenciada por ela‖] (EAGLETON, 2005, p. 127, tl). 4 Sobre a localização geográfica de Haworth, Juliet Baker (apud GLEN, 2002, p. 15-16, tl) afirma: ―These towns, none of them more than a dozen miles away, included some of the most important manufacturing areas of northern England: Bradford to the east and Halifax to the southeast were pre-eminent in the woollen industry of the West Riding of Yorkshire; Burnley to the west, just over the border into Lancashire, was centre of the cotton trade […] Haworth‘s position was crucial in this development, for it straddled the main route between Yorkshire and Lancashire and much of the commercial traffic between the two counties passed along the turnpike roads and through the centre of the town‖ [―Essas cidades, nenhuma delas a mais de uma dúzia de milhas de distância, incluíam algumas das áreas de fabricação mais importantes do norte da Inglaterra: Bradford ao leste e Halifax ao sudeste foram preeminentes na indústria de lã do West Riding de Yorkshire; Burnley ao oeste, perto da fronteira com Lancashire, foi o centro do comércio de algodão [...] a posição da Haworth foi crucial para esse desenvolvimento, pois ela ligava a rota principal entre Yorkshire e Lancashire e grande parte do tráfego comercial entre os dois condados passava ao longo das estradas e através do centro da cidade‖]. 5 ―Apesar das irmãs Brontë terem nascido quando as lutas ludditas já haviam entrado em declìnio e mesmo encontrado seu fim [...] ecos desses movimentos envolveram sua infância e adolescência [...] [suas vidas] foram envolvidas por todas essas formas de ação social ora violentas, ora pacíficas (luddismo, owenismo, cartismo) que tiveram na Inglaterra conteúdo político altíssimo (já a partir do luddismo) e alto poder de penetração em todos os setores da classe trabalhadora e da chamada middle class‖ (WANDERLEY, 1996, p. 33). 6 ―I keep thinking about those twenty months, in 1847 and 1848, in which these novels were published: Dombey and Son, Wuthering Heights, Vanity Fair, Jane Eyre, Mary Barton, Tancred, Town and Country, The Tenant of Wildfell Hall […] What these months seem to mark above all is a new kind of consciousness‖ [―Fico pensando sobre aqueles vinte meses, em 1847 e 1848, nos quais foram publicados esses romances: Dombey e Filho, O Morro dos Ventos Uivantes, A Feira das Vaidades, Jane Eyre, Mary Barton, Tancred, Town and Country, A Inquilina de Wildfell Hall [...] O que esses meses parecem marcar acima de tudo é um novo tipo de consciência‖] (WILLIAMS, 1984, p. 9, tl)..

(19) 19. Em relação à resenha de Eastlake, vale ainda destacar que, como data de dezembro de 1848, tem como pano de fundo o fato de os trabalhadores terem insistido em tentar ―violar todo código humano e divino‖ naquele ano nas barricadas de Paris. É provável que essa leitura dos acontecimentos históricos feita por Eastlake seja a responsável por influenciar sua condenação do romance de Charlotte Brontë7. Assim, seria Jane Eyre, como uma vez acusaram a própria personagem, um tipo de revolucionário8 incendiário como Guy Fawkes9? Em defesa do romance, porém, pode-se contar com ao menos uma figura ilustre, que destacou seu ―fino sentimento religioso‖. Essa testemunha é ninguém menos que a rainha Vitória, que escreveu em seu diário: ―Finished Jane Eyre, which is really a wonderful book, very peculiar in parts, but so powerfully and admirably written, such a fine tone in it, such fine religious feeling, and such beautiful writings‖10. ―Violação‖ de código moral e incitação à rebelião de acordo com Eastlake acompanhados de ―fino sentimento religioso‖ para a rainha11. Parece bastante contraditório. O que nós, leitores-jurados, podemos fazer disso? 7. O curioso é que o crítico francês Eugène Forçade, em resenha para a famosa revista conservadora Revue des Deux Mondes em outubro de 1848, chegou a conclusões opostas à de Eastlake, afirmando mesmo que: ―It [Jane Eyre] is a highly curious and engaging moral study for those who, like myself, cannot […] bring themselves to turn socialists‖ [―[Jane Eyre] é um estudo moral muito curioso e interessante para aqueles que, como eu, não podem [...] se convencer a se transformar em socialistas‖] (ALLOTT, 2001, p. 101, tl). 8 Vale destacar que na era da internet, há quem ainda a considere ―A heroìna mais revolucionária de todos os tempos‖ (Ver: 21 Reasons Why Jane Eyre Is The Most Revolutionary Literary Heroine Of All Time. Disponível em: <http://www.buzzfeed.com/juliapugachevsky/reasons-why-jane-eyre-is-the-most-revolutionaryliterary#.toQnWBo58>. Acesso em: Dez 2014.) e quando o romance desembarcou nos Estados Unidos, registrou-se ―a distressing mental epidemic, passing under the name of ‗Jane Eyre fever‘, which defied all the usual nostrums of the established doctors of criticism‖ [―uma epidemia mental aborrecedora, passando sob o nome de ‗febre Jane Eyre‘, que desafiou todas as panaceias habituais dos médicos consagrados da crìtica‖] (ALLOTT, 2001, p. 97, tl), fazendo até com que ―That portion of Young America known as ladies‘ men began to swagger and swear in the presence of the gentler sex, and to allude darkly to events in their lives which excused impudence and profanity‖ [―Aquela parte da Jovem América conhecida como ‗mulherengos‘ começou a vangloriar-se e praguejar na presença do sexo frágil, e a aludir sombriamente a eventos em suas vidas dos quais perdoavam-se imprudência e profanidade‖] (ALLOTT, 2001, p. 98, tl) como o herói byrônico sr. Rochester. 9 É Jane Eyre quem comenta: ―Abbot, I think, gave me credit for being a sort of infantine Guy Fawkes‖ (JE, p. 19) [―Abbot, acho eu, julgava que eu era uma espécie de versão infantil de Guy Fawkes‖ (BRONTË, 1996, p. 38)]. 10 ―Terminei Jane Eyre, que é realmente um livro maravilhoso, bastante excêntrico em partes, mas escrito de forma tão poderosa e admiravél, um tom tão requintado, um sentimento religioso tão fino e tão belos escritos‖. O trecho do diário da rainha se encontra na coletânea de Allott (2001, p. 389-390, tl). 11 Para adicionar peso ao argumento de que houve quem acolhesse o livro como pio, Elizabeth Gaskell afirma: ―While I write, I receive a letter from a clergyman in America in which he says: ‗We have in our sacred of sacreds a special shelf, highly adorned, as a place we delight to honour, of novels which we recognise as having had a good influence on character, our character. Foremost is Jane Eyre‖ [―Enquanto eu escrevia, eu recebi uma carta de um clérigo na América na qual ele diz: ‗Temos em nosso lugar mais sagrado uma prateleira especial, bastante adornada, como um lugar que gostamos de homenagear, com romances que reconhecemos como tendo uma boa influência sobre o caráter, o nosso caráter. Em primeiro lugar está Jane Eyre‖] (apud DUNN, 2001, p. 458, tl). Vale também lembrar que o periódico Church of England Quarterly ―broke its rule never to review novels, because this one was so enthralling and had created such a powerful impression in the six months since.

(20) 20. Poderíamos chamar a autora para depor. Charlotte Brontë concordaria com a rainha. Além do fato de ser uma Tory e uma anglicana (Patrick Brontë, pai de Charlotte, aliás, era clérigo)12, é possível observar em suas cartas, especialmente nas quais responde a críticas negativas a Jane Eyre, que se o livro saiu revolucionário foi a despeito de sua autora, a qual chegou mesmo a afirmar: ―‗I trust God will take from me whatever power of invention or expression I may have, before He lets me become blind to the sense of what is fitting or unfitting to be said!‘‖13. Como exemplo, é possível citar sua resposta à resenha de Lady Elizabeth Eastlake para o Quarterly Review. Apesar de, em carta para o simpático agente literário da Smith, Elder & Co., W. S. Williams, Brontë ter afirmado sentir ―a sorrowful independence of reviews and reviewers‖14 (naquele momento por conta da recente morte de sua irmã Emily Brontë15) e seu único desconforto com a crítica ser em relação à parte que tratava de um rumor envolvendo Thackeray, posteriormente ela escreveu sim uma resposta não publicada na qual, além de rebater a fofoca, procurou espirituosamente refutar as acusações da resenha, começando exatamente pelo citado ―espìrito‖ revolucionário16. O mencionado Thackeray, no entanto, a quem a segunda edição do romance é dedicada, parece discordar de Charlotte, tendo caracterizado Jane Eyre e Vanity Fair [A feira das vaidades] (1848) como ―livros malcriados‖17 para horror e decepção da autora. Observando as demais resenhas escritas logo após a publicação do romance, a maioria foi bastante positiva, destacando a originalidade18 e a força19 de Jane Eyre. A resenha mais. its appearance‖ [―quebrou sua regra de nunca resenhar romances, porque este era tão cativante e tinha criado uma impressão tão poderosa nos seis meses desde seu aparecimento‖] (ALLOTT, 2001, p. 22, tl), indício da recepção positiva que o romance teve entre a imprensa religiosa (religious press) (cf. SHUTTLEWORTH, 2000). 12 Tal fato é ressaltado por Davies (2006, p. xvi). Eagleton também trata desse aspecto em Myths of Power (1988, p. 8-10) e Lima (2013, p. 65-66) ressalta: ―Questionadora e inquieta, é bem verdade que Brontë, por meio de seus romances, desafiou algumas crenças e comportamentos considerados apropriados pela convenção religiosa de seu tempo. Contudo, mesmo percebendo e interrogando o componente patriarcal do Cristianismo, ela foi cristã, filha de um clérigo Anglicano, influenciada pela Bìblia‖. 13 ―‗Eu acredito que Deus vai tirar de mim qualquer poder de invenção ou expressão que eu possa ter antes de Ele me deixar ficar cega para o juìzo do que é apropriado ou impróprio ser dito!‘‖. É Elizabeth Gaskell quem afirma ter ouvido tais palavras da boca de Charlotte Brontë (apud DUNN, 2001, p. 458, tl). 14 ―uma pesarosa independência de resenhas e resenhistas‖. Tal carta foi publicada na seleção feita por Dunn (2001, p. 454, tl). 15 A carta data de janeiro de 1849 (Cf. DUNN, 2001, p. 454), Emily faleceu em 19 de dezembro de 1848 (CHITHAM, 2003, p. 190; BRONTË, 1994, p. 10). 16 Como destacado por Dunn (2001, p. 456). 17 Novamente, é Elizabeth Gaskell em seu Life of Charlotte Brontë que conta o episódio, no qual, segundo a autora, Thackeray teria ditto a Charlotte: ―‗You know, you and I, Miss Brontë, have both written naughty books!‘‖ [―‗Você sabe, eu e você, srta. Brontë, ambos escrevemos livros malcriados!'‘‖] (apud DUNN, 2001, p. 458, tl)..

(21) 21. severa é a de Eastlake e a mais favorável parece ser uma resenha não assinada para o Era, a qual foi, naturalmente, a favorita de Charlotte Brontë20. Em meio a aplausos e vaias, é possível observar que, de maneira geral, Jane Eyre colocou problemas para os críticos, os quais pareciam não saber o que fazer com um romance que confundia os parâmetros com os quais estavam acostumados a julgar. O elemento de maior peso que parecia guiá-los é a exigência da verossimilhança. É recorrente nas resenhas apontar como positivo no romance aquilo que parece ser verossímil, buscando nem que seja ao menos ―an air of truth about it‖. Esse elemento parece ser tão relevante para uma avaliação positiva que o crítico do Athenaeum se preocupa em ressaltar: ―Perhaps too […] there is truth in the abrupt, strange, clever, Mr. Rochester. […] Neither is the mystery of Thornfield an exaggeration of reality‖21. Assim, sob o peso desse critério, mesmo as resenhas mais receptivas, amiúde apontavam como possíveis problemas do livro o que chamavam de melodrama, implausibilidade e excesso de incidentes. O resenhista do Atlas considera em especial Helen Burns ―very beautiful, but very untrue‖; para o crìtico da Athenaeum, depois de sabermos da existência de Bertha: ―From that point forward, however, we think the heroine too outrageously tried, and too romantically assisted in her difficulties‖ e o da Spectator vê no romance ―too much artifice […] resort to trick to tell their story‖, sendo que ―the close is the best-managed part of the book‖22.. 18. ―It has little or nothing of the old conventional stamp upon it‖ [―Apresenta pouco ou nada da antiga marca convencional‖] afirmou o crìtico da Atlas (ALLOTT, 2001, p. 67, tl); é também um ―extraordinary book‖ [―livro extraordinário‖] e ―no mere novel‖ [―não é um mero romance‖] segundo o Era (ALLOTT, 2001, p. 78, tl); para o People‟s Journal, uma ―good and striking production‖ [―uma produção boa e impressionante‖] (ALLOTT, 2001, p. 80, tl) cheia de ―originality and freshness‖ [―originalidade e frescor‖] segundo o Westminster Review (ALLOTT, 2001, p. 87, tl); e o Examiner considera Charlotte ―an original writer‖ [―um autor original‖] (ALLOTT, 2001, p. 76, tl). 19 Um romance ―full of youthful vigour, of freshness and originality‖ [―cheio de vigor juvenil, de frescor e originalidade‖] para a Atlas (ALLOTT, 2001, p. 68, tl) e ―a book of decided power‖ [―um livro de inegável poder‖] segundo o Examiner (ALLOTT, 2001, p. 76, tl), bem como ―bold, lucid, pungent‖ [―corajoso, lúcido e pungente‖] de acordo com o People‟s Journal (ALLOTT, 2001, p. 80, tl); e o Critic afirma que Charlotte possui ―fertile invention, great power of description, and a happy faculty for conceiving and sketching character‖ [―invenção fértil, grande poder de descrição, e uma faculdade favorável para conceber e desenhar personalidades‖] (ALLOTT, 2001, p. 73, tl). 20 Tal resenha se encontra em Allott (2001, p. 78-80). 21 Respectivamente: ―Um ar de verdade‖ (ALLOTT, 2001, p. 68, tl); ―Talvez também [...] exista verdade no abrupto, estranho, inteligente Sr. Rochester. [...] Nem é o mistério de Thornfield um exagero da realidade‖ (ALLOTT, 2001, p. 72, tl). 22 Respectivamente: ―Muito bela, mas muito inverossìmil‖ (ALLOTT, 2001, p. 68, tl); ―Desse ponto em diante, no entanto, pensamos que a heroína passa por provações demasiado absurdas e ela é muito romanticamente auxiliada em suas dificuldades‖ (ALLOTT, 2001, p. 72, tl); ―artifício em demasia [...] recorre-se a truques para contar sua história‖; ―o final é a parte melhor arquitetada do livro‖ (ALLOTT, 2001, p. 74, tl)..

(22) 22. O último, aliás, além de comparar Jane Eyre com esculturas medievais, dá indício de que há algo mais sob as acusações de falta de verossimilhança: ―with clear conceptions distinctly presented, a metaphysical consistency in the characters and their conduct, and considerable power in the execution, the whole is unnatural, and only critically interesting‖23. O fato é que o romance parece ter embaralhado a oposição entre verossimilhança realista e fantástico romanesco, o que gerou incerteza sobre como recebê-lo. Um trecho da resenha do Critic resume bem a indecisão entre aprovar o livro pela sua incitante, porém perigosa e desafiadora originalidade, ou condená-lo por sua falta de ―verossimilhança‖: It is a story of surpassing interest [...] sustaining it [the reader‘s interest] by a copiousness of incident rare indeed in our modern English school of novelists, who seem to make it their endeavour to diffuse the smallest possible number of incidents over the largest possible number of pages. Currer Bell has even gone rather into the opposite extreme, and the incidents of his story are, if anything, too much crowded24.. Por outro lado, houve quem destacasse seus elementos realistas. O resenhista do Examiner, ao comparar Jane Eyre e os silver-fork novels25, chega mesmo a afirmar que o primeiro não padece do que considerava ―faltas‖ dos últimos, sendo perspicaz em ressaltar o fato de que, no livro de Charlotte, encontramos a classe média, e não a aristocracia retratada nos romances silver-fork: ―It has not a Lord Fanny for its hero, nor a Dutchess for its pattern of nobility. The scene of action is never in Belgrave or Grosvenor Square‖26. O autor também ressalta os elementos cotidianos da obra de Brontë: ―On the contrary, the heroine is cast among the thorns and brambles of life; an orphan, without money, without beauty, without friends; thrust into a starving charity school; and fighting her way as. 23. ―com concepções claras distintamente apresentadas, uma consistência metafìsica nos personagens e sua conduta, e um poder considerável na execução, o todo não é natural e só criticamente interessante‖ (ALLOTT, 2001, p. 74, tl). 24 ―É uma história de extraordinário interesse [...] sustentando [o interesse do leitor] por uma variedade de incidentes rara em nossa escola inglesa moderna de romancistas, os quais parecem fazer da difusão do menor número possível de incidentes sobre o maior número possível de páginas seu esforço. Currer Bell foi mesmo ao extremo oposto, e os incidentes de sua história são, se alguma coisa, demasiado abarrotados‖ (ALLOTT, 2001, p. 73, tl). 25 Altick (1973, p. 10, tl) define os silver-fork novels como ―fiction laid in high society and reflecting but seldom deploring its brittle glamor‖ [―ficção que retratava a alta sociedade, refletindo, mas raramente deplorando seu encanto frágil‖], os quais foram populares em especial na década de 1830. 26 ―Não tem um Lord Fanny por seu herói, nem uma Duquesa por seu padrão de nobreza. A cena da ação nunca está em Belgrave ou Grosvenor Square‖ (ALLOTT, 2001, p. 77, tl)..

(23) 23. governess‖27. Também Forçade destaca a sobriedade, o puritanismo e, novamente, a classe média presentes em Jane Eyre: ―It is a sober and serious tale concerned to bring to life the poor and dependent situation of a highly interesting class of persons and one that is very numerous among women in England‖28. Frente a essa característica da obra de Charlotte, de unir elementos realistas e romanescos, os críticos se viram diante de um impasse: o sopro de novidade presente no romance devia muito a elementos que lhes pareciam nada ortodoxos – como julgá-lo, então? O curioso dessas primeiras resenhas sobre Jane Eyre é que, em sua maioria, os escritores, ao contrário do horror expressado por Eastlake e que acabou tornando senso comum a rudeza e indecência da obra de Brontë, pareciam inclinados a não condenar o romance exatamente por sua originalidade, força e passion. Assim, na resenha do Atlas argumenta-se que ―The action of the tale is sometimes unnatural – but the passion is always true‖ e a falta de verossimilhança, a qual considera ―incidental defects‖, é desculpada pelo ―knowledge of the profoundest springs of human emotion‖29. No Athenaeum também desculpam-se incidentes e falta de verossimilhança pela força e originalidade do livro: ―There is so much power in this novel as to make us overlook certain eccentricities in the invention, which trench in one or two places on what is improbable, if not unpleasant‖30. G. H. Lewes para a Fraser‟s Magazine, na contramão de Eastlake, afirma: ―no extraordinary goodness or cleverness appeals to your admiration; but you admire, you love her [Jane], - love her for the strong will, honest mind, loving heart, and peculiar but fascinating person‖31. Finalmente, para Forçade, apesar do ―the weak side of the work‖ ser seus ―complicated and disjointed incidents, often improbably linked‖, ―the vigour, healthy, moral spirit that informs every page of Jane Eyre‖ não são obliterados32. 27. ―Pelo contrário, a heroìna é lançada entre os espinhos e cardos da vida; uma órfã, sem dinheiro, sem beleza, sem amigos; jogada em uma escola de caridade que a mantém faminta; e em luta por seu caminho como governanta‖ (ALLOTT, 2001, p. 77, tl). 28 ―É um conto sóbrio e sério interessado em trazer à vida a situação pobre e de dependência de uma classe muito interessante de pessoas e uma que é muito numerosa entre as mulheres na Inglaterra‖ (ALLOTT, 2001, p. 102, tl). 29 Respectivamente: ―A ação do conto é às vezes antinatural - mas a passion é sempre verdadeira‖; ―defeitos fortuitos‖; ―conhecimento das fontes mais profundas da emoção humana‖ (ALLOTT, 2001, p. 69, tl). 30 ―Há tanto poder neste romance a ponto de nos fazer esquecer certas excentricidades na invenção, as quais beiram em um ou dois lugares o que é improvável, quando não desagradável‖ (ALLOTT, 2001, p. 71, tl). 31 ―nenhuma bondade ou esperteza extraordinárias incitam sua admiração; mas você admira, você a ama, - a ama por sua vontade forte, mente honesta, coração amoroso e pessoa peculiar, porém fascinante‖ (ALLOTT, 2001, p. 85, tl). 32 Respectivamente: ―o lado fraco da obra‖; ―incidentes complicados e desconexos, muitas vezes improvavelmente ligados‖; ―o vigoroso, saudável espìrito moral que informa todas as páginas de Jane Eyre‖ (ALLOTT, 2001, p. 103, tl)..

(24) 24. Se essa primeira amostra da recepção do romance foi variada, em sua vasta fortuna crítica posterior também proliferaram argumentos e opiniões diversos e até adversos: Jane é uma mulher ambiciosa33 ou vítima do patriarcado34? Ela é uma personagem que põe em xeque valores burgueses35 ou acaba por endossá-los36? O foco narrativo do livro é cativante37 ou essa narradora-personagem causaria repulsa até mesmo em uma breve corrida de taxi38? Pode-se observar até na crítica mais recente a mesma dualidade que apontamos na primeira recepção do romance, isto é, há críticos que defendem que o romance tem um caráter revolucionário (como a acusação de Eastlake propôs) e críticos que ressaltam seus elementos conservadores (como parece indicar o comentário da rainha Vitória). Gilbert e Gubar (2000, p. 337-338), por exemplo, afirmam que, apesar da vasta fortuna crítica do romance, pouco destaque foi dado à ―revolução alarmante‖ que sua publicação significou. Assim, um dos pontos que mais ressaltam em sua análise é a rebelião, a ira de Jane frente ao patriarcado39. A argumentação de Rocha segue a mesma linha, pois ressalta o potencial subversivo do romance quando ele retrata paradigmas de gênero40. No entanto, enquanto Gilbert e Gubar (2000, p. 338) acreditam que ―[t]he occasional woman who has a weakness for black-browed Byronic heroes can be accommodated in novels and even in some drawing rooms; the woman who yearns to escape entirely from drawing rooms and patriarchal mansions obviously cannot‖41, Nancy Armstrong (2009, p. 337) vai na direção oposta, argumentando que, mesmo nos romances ingleses nos quais encontramos 33. É Eagleton (2005; 1988) quem gosta de destacar a ambição de Jane. Como destacaram tantas leituras feministas do romance como Gilbert e Gubar (2000) e Showalter (1977). 35 Como destacam Rocha (2008) e Godfrey (2005). 36 Como argumentam Eagleton (2005; 1988) e Nancy Armstrong (2009). 37 Como ressaltou Williams (1984; 1991). 38 O autor dessa curiosa observação é Eagleton: ―Jane is hardly the most agreeable heroine one could hope to share a taxi with‖ [―Jane não é a heroìna mais agradável com quem alguém poderia esperar compartilhar uma corrida de taxi‖] (2013, p. 52, tl). Lady Eastlake parece concordar com tal opinião: ―The hero and the heroine are both so singularly unattractive‖ [―O herói e a heroìna são ambos tão singularmente desinteressantes‖] (apud DUNN, 2001, p. 451, tl). 39 As autoras notam em especial o que chamaram de ―rebelious feminism‖ (―feminismo rebelde‖) (GILBERT; GUBAR, 2000, p. 338, tl) da personagem e identificam seu próprio nome, Eyre, com ira (GILBERT; GUBAR, 2000, p. 342). 40 A autora defende que os romances de Charlotte Brontë apresentam uma ―abordagem inovadora [...] na discussão da ideologia de gênero, por tratarem-se de obras que apresentam um novo paradigma capaz de abarcar a fragmentação, o pluralismo e a multiplicidade de possibilidades performáticas nas questões de gênero‖, sendo ―possìvel afirmar que Charlotte Brontë já buscava desestabilizar o paradigma tradicional sobre feminilidade e gênero, apresentando a idéia de que a fragmentação, a descontinuidade, e diferenças nas representações do gênero são relevantes no desmantelamento do senso ilusório de legitimidade que regula o discurso falogocêntrico sobre a mulher na sociedade ocidental‖ (ROCHA, 2008, p. 19). 41 ―[a]s mulheres que eventualmente têm uma fraqueza por heróis byrônicos de cenhos escuros podem ser acomodadas em romances e até mesmo em algumas salas de visita; a mulher que anseia por escapar inteiramente de salas de visita e mansões patriarcais, obviamente não pode‖ (tl). 34.

(25) 25. protagonistas aparentemente dissidentes, o processo observado ao longo das narrativas é uma via de mão dupla na qual tanto a personagem deve adequar sua individualidade às regras, quanto as regras são forçadas a seu limite para acomodar a personagem, sendo que o que está em jogo não tem nada de revolucionário: ―[e]sses personagens incorporam a contradição entre um individualismo moralmente autorizado e uma normalidade também moralmente autorizada‖. No caso específico de Jane Eyre, a interpretação de Armstrong é: ―como a resistência social pode gerar autoridade moral e inverter os destinos previstos pelas condições econômicas e pelo estrato social de origem‖ (2009, p. 339), resistência a qual, no entanto, serve para ―confirmar o status quo sem o ameaçar‖ (2009, p. 341). Similarmente, Eagleton (1988, p. 16) defende que, no romance, observa-se a acomodação da autorrealização da personagem às convenções sociais e morais da época. Mesmo sobre fatos aparentemente tão simples quanto a sensibilidade e a perspicácia da narradora-personagem em relação ao conteúdo narrado, há controvérsias: enquanto Rocha (2008, p. 52) afirma que ―mais uma vez Brontë rompe com o padrão da época ao dotar essa protagonista de uma aguçada percepção do mundo ao seu redor e de um senso crítico em relação à condição inferior da mulher na sociedade vitoriana‖, para Eagleton (1988, p. 18) Jane tenta sem sucesso dissimular sua ambição de ascensão social, sendo traço característico de sua narrativa: ―a good deal of dexterous calculation‖42. Melhor atentar ao romance. Capítulo XII, trecho que ficou conhecido como ―manifesto feminista‖43 de Jane:. It is in vain to say human beings ought to be satisfied with tranquillity: they must have action; and they will make it if they cannot find it. Millions are condemned to a stiller doom than mine, and millions are in silent revolt against their lot. Nobody knows how many rebellions besides political rebellions ferment in the masses of life which people earth. Women are supposed to be very calm generally: but women feel just as men feel; they need exercise for their faculties, and a field for their efforts, as much as their brothers do; they suffer from too rigid a restraint, too absolute a stagnation, precisely as men would suffer; and it is narrow-minded in their more privileged fellow-creatures to say that they ought to confine themselves to making puddings and knitting stockings, to playing on the piano and embroidering bags. It is thoughtless to condemn them, or laugh at them, if they seek to do more or learn more than custom has pronounced necessary for their sex 44. 42. ―uma boa dose de cálculo engenhoso‖ (tl). A expressão é de Adrianne Rich (2001, p. 475). 44 BRONTË, Charlotte. Jane Eyre. London: Wordsworth Editions, 1999, p. 95 [nas demais citações dos trechos do romance, apresentaremos apenas a notação JE, sempre referente a essa edição, seguida pela(s) página(s) correspondente(s)]. [―Em vão se diz que os seres humanos deveriam achar satisfação na tranquilidade: eles precisam de ação; e, se não conseguem achá-la, eles a inventam. Milhões estão condenados a um destino mais 43.

(26) 26. Bem passionate, bem Jane Eyre. Um exemplo da ―escrita poderosa‖ do livro. Não há palavras ponderadas: ―ought to be satisfied‖, ―must have action‖, ―too rigid a restraint‖, ―too absolute a stagnation‖, ―It is in vain‖, ―it is narrow-minded‖, ―It is thoughtless‖ – uma ―dicção nervosa‖ segundo um resenhista da época45. Note-se que a formulação de ―too rigid a restraint‖ e ―too absolute a stagnation‖ gera uma ênfase que denuncia o fardo da inação resultante do ―ought to be satisfied‖ da primeira frase. Em seus melhores momentos, a narradora Jane Eyre não rebate pressão com gentileza e suavidade, ela traz todo o peso de sua experiência, conteúdo de sua autobiografia ficcional, contra aquilo que sente restringi-la à inação. Esse tipo de manifesto, uma reflexão em meio ao enredo, ganha força no romance ao passo que o vemos nascer das memórias pessoais da narradora-personagem, imprimindo sua visão de maneira forte, viva e visceral no leitor. Quem mais destacou essa característica intimista da narradora de Jane Eyre foi Raymond Williams (1984; 1991), que ressalta a questão do foco narrativo como central, apostando no poder dos narradores de Brontë de estabelecer uma relação íntima, confidencial com o leitor e trocar, bem como reafirmar, sentimentos e posições. Lembrando que nas primeiras resenhas sobre o romance foi observada a tendência de desculpar seus ―defeitos‖ exatamente por sua passion e emoção, a leitura do crítico inglês é extremamente perspicaz. Para Williams (1984, p. 61), em uma sociedade repressiva na qual as comunidades cognoscíveis estavam em crise, o que as irmãs Charlotte e Emily fizeram foi ―in different ways they remade the novel so that this kind of passion could be directly communicated‖46. Similarmente, Showalter (1977, p. 27) vê em Jane Eyre um exemplo de ―innovative and covert ways to dramatize the inner life [...] a fiction that was intense, compact, symbolic, profound‖47. De fato, um recurso característico do discurso dessa narradora é o apelo ao pathos. Tal traço não escapou aos contemporâneos de Jane Eyre. Na obra de Allott (2001, p. 96, tl), há parado que o meu, e milhões vivem numa revolta silenciosa contra a própria sorte. Ninguém sabe quantas rebeliões, a par das políticas, fermentam nas numerosas vidas que povoam a terra. Supõe-se que as mulheres sejam geralmente muito calmas: mas as mulheres sentem exatamente como os homens; elas precisam de exercício para suas faculdades e de um campo para seus esforços tanto quanto seus irmãos; elas sofrem com uma restrição demasiado absoluta, precisamente como sofreriam os homens; e é tacanho da parte de seus semelhantes mais privilegiados dizer que elas deveriam restringir-se a fazer pudins e tricotar meias, a tocar piano e bordar bolsas. É falta de consideração condená-las ou rir-se delas, quando elas procuram fazer mais ou aprender mais do que a tradição declarou ser necessário para o seu sexo‖ (BRONTË, 1996, p. 155)]. 45 A resenha publicada pelo Atlas se encontra na coletânea de Allott (2001, p. 68, tl). 46 ―de maneiras diferentes elas refizeram o romance de modo que este tipo de passion pudesse ser diretamente comunicada‖ (tl). 47 ―maneiras inovadoras e encobertas para dramatizar a vida interior [...] uma ficção que era intensa compacta, simbólica, profunda‖ (tl)..

(27) 27. uma resenha sem assinatura publicada em outubro de 1848 na Blackwood Magazine por um crítico que descreveu o romance como ―um conto muito patético‖ e também Forçade na Revue: ―[Jane Eyre] bear[s] the accent of a personal confession […] the author has relied solely on the eloquence of the emotions depicted‖48. No parágrafo do manifesto, observa-se que a pontuação é um tanto caótica e, apesar da reunião de vários argumentos, há poucas conjunções (―que‖, ―além de‖, ―mas‖, ―e‖, ―assim como‖, ―como‖) criando um ritmo intenso, claramente o de um desabafo desesperado ou furioso: tradução em razão, sentimento e linguagem do grito de Bertha que, como ressaltou Rich (2001, p. 476), ressoa novamente logo após a passagem49. A sequência com os murmúrios de Bertha é significativa. A figura da madwoman [mulher louca] é reveladora da história escondida sob a pátina de respeitabilidade e conformidade com a moral vigente exigida pela sociedade vitoriana. Gilbert e Gubar tratam a madwoman como um duplo da autora e da heroína do livro. É por meio do monstro que as autoras conseguem narrar ―the secret wisdom so long hidden from men [...] their point of view‖50 (2000, p. 79). Nessa passagem, quem dá voz a esse segredo é a própria Jane. No acalorado parágrafo, uma oposição que ela nos apresenta é entre tranquilidade e ação. A primeira é associada ao conformismo gerado por pressão social: ―ought to be satisfied‖; enquanto a segunda, à rebelião, ainda que esta seja apenas uma ―silent revolt‖. Na descrição da narradora, Bertha oscila ente o silêncio e a agitação: tranquilidade versus ação no manifesto e, no caso da Bertha, entre a inação à qual foi condenada por Rochester e a ação como quando ela ―dá um jeito de‖ [―make it‖] atear fogo à cama do marido. No manifesto, a defesa é da ação, da rebelião frente ao ideal do ―anjo do lar‖, o qual é retratado com um tom de desprezo marcante: ―it is narrow-minded in their more privileged fellow-creatures to say that they ought to confine themselves to making puddings and knitting stockings, to playing on the piano and embroidering bags‖. ―Ought to‖ se repete: a suposta tranquilidade das tarefas domésticas relegadas às mulheres pela ideologia vitoriana parece tão sem sabor que causa desgosto em nossa impetuosa narradora aspirante à ação. 48. ―[Jane Eyre] [carrega] o tom de uma confissão pessoal [...] o autor baseou-se exclusivamente na eloquência das emoções retratadas‖ (ALLOTT, 2001, p. 101, tl). 49 ―the same peal, the same low, slow ha! ha! which, when first heard, had thrilled me: I heard, too, her eccentric murmurs; stranger than her laugh. There were days when she was quite silent; but there were others when I could not account for the sounds she made‖ (JE, p. 95) [―a mesma gargalhada, o mesmo trave, lento ha!ha!ha! que, ouvido pela primeira vez me chocara: ouvia também seus excêntricos murmúrios, mais estranhos que sua risada. Havia dias em que ela ficava em silêncio total; mas havia outros em que eu não conseguia explicar os sons produzidos por ela‖ (BRONTË, 1996, p. 155)]. 50 ―a sabedoria secreta há tanto tempo escondida dos homens [...] o ponto de vista delas‖ (tl)..

(28) 28. Note-se ainda que a inicialmente neutra ―tranquility‖, logo se transforma no nada positivo ―stiller doom‖. Vale uma comparação com outra famosa cena que destaca as qualidades de uma ―accomplished lady‖ [dama prendada]: Capìtulo VIII de Orgulho e Preconceito – Caroline Bingley e Sr. Darcy versus Elizabeth Bennet. Fica claro, desde o começo do capítulo, que a Srta. Bingley tenta marcar sua superioridade em relação à Elizabeth e seus ataques tomam a forma das ―boas maneiras‖51, do ―ought to be‖ de Jane. As tais boas maneiras vão sendo listadas ao longo do capítulo por diferentes personagens – de não se apresentar coberta de lama, passando por leitura, piano e desenho até serem resumidas por Caroline: ―A woman must have a thorough knowledge of music, singing, drawing, dancing, and the modern languages, […] she must possess a certain something in her air and manner of walking, the tone of her voice, her address and expressions‖. A isso, Darcy arremata: ―and to all this she must yet add something more substantial, in the improvement of her mind by extensive reading‖52. É claro que a autora implícita e Elizabeth Bennet não aceitam submissamente essa posição. Além de colocar a lista e seu complemento nas bocas da Srta. Bingley e do Sr. Darcy que no momento não fazem boa figura no romance, a atitude do livro é resumida no comentário da heroìna: ―I am no longer surprised at your knowing only six accomplished women. I rather wonder now at your knowing any‖53. No entanto, tudo foi mencionado com grande seriedade e altivez. Note-se a diferença do tom e das atividades das listas de Orgulho e Preconceito e de Jane Eyre. A formulação ―confine themselves to making puddings and knitting stockings, to playing on the piano and embroidering bags‖ é muito mais monótona e prosaica, não só pela diferença das atividades listadas, mas pela própria recorrência dos verbos (no romance de Austen, são citados substantivos), que dão destaque à repetição das ações. Enquanto em Jane Eyre o foco parece ser a repetição das tarefas e a monotonia decorrente, no caso da lista de Caroline a palavra crucial parece ser ―knowledge‖. 51. A palavra ―manners‖ [conduta, maneiras, modos] se repete ao longo do capìtulo. Respectivamente: ―Uma mulher deve ter um conhecimento profundo de música, canto, desenho, dança, e das línguas modernas, [...] ela deve possuir um certo quê em seu ar e maneira de andar, no tom de sua voz, em sua conversa e expressões‖; ―e a tudo isso ela deve ainda acrescentar algo mais substancial, o aprimoramento de sua mente por meio de muitas leituras‖ (AUSTEN, 1994, p. 33, tl). 53 ―Eu não estou mais surpresa pelo fato de vocês conhecerem apenas seis mulheres prendadas. Eu até me pergunto agora se vocês conhecem alguma‖ (AUSTEN,1994, p. 33, tl). 52.

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