INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
ANDRÉ SARKIS CASTILHO
A CRIAÇÃO DA ORDEM DO TEMPLO E A SACRALIZAÇÃO DA
GUERRA
(1114-1139)
CAMPINAS 2016
Agência(s) de fomento e nº(s) de processo(s): CAPES
Ficha catalográfica
Universidade Estadual de Campinas
Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Paulo Roberto de Oliveira - CRB 8/6272
Informações para a Biblioteca Digital
Título em outro idioma: The creation of the Order of the Temple and the sacralization of war (1114-1139)
Palavras-chave em inglês: Templars
Holy War Crusades
Military religious orders Jerusalem - Military history
Área de concentração: História Cultural Titulação: Mestre em História
Banca examinadora:
Néri de Barros Almeida [Orientador] Cláudia Regina Bovo
Bruno Tadeu Salles
Data de defesa: 31-10-2016
Programa de Pós-Graduação: História
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa de Dissertação de Mestrado, composta pelos Professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 31/10/2016, considerou o candidato André Sarkis Castilho aprovado.
Profa. Dra. Néri de Barros Almeida Profa. Dra. Claudia Regina Bovo Prof. Dr. Bruno Tadeu Salles
A Ata de Defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no processo de vida acadêmica do aluno.
Dedico aos meus pais, Carlos e Fátima.
AGRADECIMENTOS
Esta pesquisa só foi possível com o apoio de muitas pessoas, que não mediram esforços para me ajudar seja com o conteúdo do texto, seja com incentivo para que o trabalho fosse aprimorado.
Aos meus pais Carlos e Fátima, que me proporcionaram muito mais do que eu poderia merecer e me ampararam intensamente, não só nos últimos anos, mas em toda minha vida. Meu mais sincero agradecimento.
À professora Neri de Barros Almeida pela sua orientação e apoio ao longo de toda a caminhada Aos professores Cláudia Regina Bovo e Bruno Tadeu Salles, que leram meu trabalho com muita atenção e carinho e deram dicas preciosas durante o processo.
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa de estudos concedida.
Às minhas diversas famílias, de Mariana, de Campinas e de Pouso Alegre, no sentido mais amplo e sincero que este termo possa ter.
Aos vários amigos que me acompanharam durante todos esses anos dos quais seria injusto numerá-los e porventura esquecer de alguém importante.
RESUMO
Esta pesquisa analisa a formação e a estruturação da Ordem do Templo entre 1114 e 1139. Mais do que apenas um desenvolvimento direto da cruzada, consideramos que sua criação pode ser inserida em um longo processo de sacralização da violência guerreira por parte da Igreja, que durou séculos. Além disso, defendemos que diversos fatores contribuíram para a fundamentação e legitimação do Templo enquanto uma Ordem, ao mesmo tempo, religiosa e militar. Entre eles, destaca-se a rede de relações entre personalidades que apoiaram o grupo desde seus anos iniciais, quando era formado por cavaleiros que pretendiam viver mais religiosamente e auxiliar na defesa de Jerusalém. Por fim, a pesquisa também aborda o início da estruturação dessa instituição como uma Ordem internacional, tanto em relação ao seu reconhecimento apostólico e obtenção de uma regra quanto também nas primeiras adaptações que permitiram seu crescimento e inserção em toda a cristandade, ainda na primeira metade do século XII.
ABSTRACT
This research analyses the formation and structuring of the Order of the Temple between 1114 and 1139. We consider that its creation was not only a direct development of the crusade, but that it can be inserted in a long process of sacralization of the warfare by the Church, which lasted for centuries. Moreover, we argue that several factors contributed to fundament and legitimation of the Temple as an order that was both religious and military. Among those, we highlight the network of relations between personalities that have supported the group since its early years, when it was formed by knights who wanted to live more religiously and aimed to help in defense of Jerusalem. Lastly, the research also covers the beginning of this institution's structuring as an international order, both relative to its apostolic recognition and obtaining of a rule as well in its first adjustments that allowed its growing and settling throughout Christianity, in the first half of the twelfth century.
LISTA DE ABREVIATURAS
Cartulário D’ALBON, André (org.). Cartulaire général de l'ordre du Temple: 1119?-1150: recueil des chartes et des bulles relatives à l'ordre du Temple. Paris:
H. Champion, 1913.
De Laude BERNARDO DE CLARAVAL. De Laude Novae Militiae. In: EMERY,
Pierre-Yves (org.). Sources Chrétiennes, v. 367, t. 31. Paris: Éditions du CERF, 1990: 48-133.
Ernoul ERNOUL. Chronique d'Ernoul et de Bernard le Trésorier. MAS-LATRIE, Louis de (org.). Paris: Jules Renouard, 1871.
GT GUILHERME DE TIRO. Historia rerum in partibus transmarinis gestarum. In:
Patrologia Latina. t. 201. Paris: Ed. Migne, 1853, col. 526-7.
RT REGRA DO TEMPLO. In: CERRINI, Simonetta. Une expérience neuve au
sein de la spiritualité médiévale: l'Ordre du Temple (1120 - 1314). Étude et édition des règles latine et française. 451f. Tese (doutorado). Universidade
LISTA DE MAPAS
Mapa 1 – Os Estados Latinos do Oriente ...51
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 13
1. CAPÍTULO I: GUERRA SANTA, CRUZADA E OS ESTADOS LATINOS DO ORIENTE ... 21
1.1 A sacralização da guerra ... 22
1.1.1 Características centrais da Guerra santa ... 25
1.1.2 A proteção das igrejas e a Paz de Deus ... 26
1.1.3 Guerra santa e Reforma ... 31
1.2 O chamado à cruzada ... 34
1.2.1 O contexto oriental ... 34
1.2.2 A importância de Jerusalém e dos lugares santos ... 37
1.2.3 O apelo de Urbano II ... 40
1.2.4 A cruzada: guerra santa e peregrinação ... 45
1.3 Os Estados Latinos do Oriente ... 48
1.3.1 Fim da Cruzada e a manutenção dos territórios cristãos conquistados ... 48
1.3.2 Necessidade de proteção ... 52
2. CAPÍTULO II: O NASCIMENTO DE UMA ORGANIZAÇÃO RELIGIOSA E MILITAR ... 54
2.1 A proposta: um novo grupo, um novo objetivo ... 55
2.1.1 As rotas ao Oriente e a necessidade de sua proteção ... 56
2.1.2 A formação do grupo ... 57
2.1.3 Cônegos do Santo Sepulcro e a gestação da Ordem do Templo ... 60
2.1.4 A escolha de viver sob uma regra ... 63
2.2 Apoiadores iniciais ... 69
2.2.1 Balduíno II ... 69
2.2.2 Aristocracia laica ... 73
2.2.3 Bernardo de Claraval ... 76
2.3 Em busca do reconhecimento apostólico ... 83
2.3.2 Reconhecer para expandir ... 90
2.4 Legitimação teórica da Nova Cavalaria ... 93
2.4.1 Justificação para guerreiros-religiosos matarem ... 95
2.4.2 Um novo caminho para a salvação ... 102
3. CAPÍTULO III: UMA NOVA ORDEM NA ESTRUTURA ECLESIÁTICA ... 108
3.1 O concílio de Troyes: uma rede de relações para a aprovação apostólica ... 108
3.1.1 A redação da regra e suas influências ... 112
3.1.2 O cavaleiro de Cristo segundo a regra do Templo ... 118
3.1.3 Inserção na estrutura eclesiástica ... 125
3.1.4 O cavaleiro templário: uma revolução na espiritualidade cristã? ... 127
3.2 Desenvolvimentos posteriores à Troyes ... 129
3.2.1 Uma Ordem internacional ... 131
3.2.2 Alterações no texto de Troyes: A regra Francesa ... 134
3.2.3 Omne Datum Optimum e a “independência” do Templo ... 137
3.2.4 Críticas à Ordem do Templo ... 144
4. CONCLUSÃO ... 154
4.1 Os templários e a guerra santa ... 155
4.2 Considerações finais ... 156
INTRODUÇÃO
No início do século XII, pouco após a realização da primeira cruzada, instituiu-se no Oriente Médio a ordem dos Templários. Inicialmente, ela possuía o objetivo de proteger e defender os peregrinos ocidentais em suas viagens à Terra Santa, cujas rotas eram costumeiramente atacadas por muçulmanos. Ao longo de seu desenvolvimento, o Templo, como também era conhecido, passou a se destacar tanto no Oriente quanto no Ocidente devido ao seu poder político, econômico e militar, além de gozar de credibilidade moral ao longo de boa parte de sua existência. Entretanto, sua fama na modernidade deveu-se principalmente ao processo inquisitório que levou à sua supressão, em 1312.
A presente pesquisa investiga a criação dessa instituição, que era ao mesmo tempo religiosa e militar. Seus membros seguiam uma rotina monástica, porém sua principal atividade – além das orações e vida comunitária – era o combate. Por certo, esta proposta poderia ser encarada com reticência por alguns setores da Igreja e por parte da cristandade, e por isso os apoiadores do projeto realizaram um esforço de legitimação e divulgação visando aumentar os auxílios recebidos pelo grupo e minimizar possíveis críticas.
Já na Idade Média, diversas pessoas registraram suas opiniões em relação aos templários. Após o período inquisitorial (1307-1312), as opiniões se dividiam entre afirmar as acusações de heresia feitas contra os cavaleiros ou inocentá-los.
Ao longo dos séculos, diversos autores se preocuparam em apresentar argumentos a favor ou contra esses cavaleiros. Com efeito, boa parte da fama que obtiveram foi fruto do complexo movimento articulado por Filipe IV, rei da França, que acusou os cavaleiros de variadas práticas heréticas. Embora fossem estudados seriamente por poucos até o século XIX, deve-se destacar que nomes como Dante Alighieri, Boccaccio, Jean Bodin e Voltaire exprimiram opiniões acerca da heresia ou inocência dos membros da ordem. Diversos elementos compunham as análises dos intelectuais como, por exemplo, sua proximidade ao poder real, sua relação com a Igreja, sua inclinação para o estudo místico, entre outros. Tais fatores fizeram as opiniões penderem para diferentes conclusões sobre o Templo, seja como culpado ou inocente.1 Segundo Peter Partner:
O Renascimento foi capaz de ver os templários seja como magos, seja como vítimas inocentes da maldade política. As duas maneiras de vê-los eram possíveis desde a época do julgamento. Mas em fins do século XVI ouvia-se um novo tom, os homens olhavam para trás e refletiam sobre os templários: o tom da nostalgia literária. À
1 “Os templários foram sábios bondosos e racionais para uma geração, satanistas demoníacos para outra,
tecnocratas prudentes e ricos, para uma terceira.” PARTNER, Peter. O assassinato dos magos: os templários e seus mitos. Trad. Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Campus, 1991, p. 197.
medida que os homens do Renascimento se habituavam ao cheiro da pólvora, começavam a ver a cavalaria medieval com uma espécie de romantismo irônico [pois aliava a ode aos “valores cavaleirescos” com a repugnância à “barbárie medieval”].2
Já nos séculos XVII e XVIII, diversos autores favoreceram um processo de “mitificação do Templo”. Nesse período, os templários foram considerados por muitos como dotados de saberes místicos e pertencentes a uma seita oculta que continuou sua existência mesmo após a supressão formal da ordem.3 Partner aponta que a partir daí surgiu um “neotemplarismo”, em que grupos afirmavam a “continuidade histórica” da organização medieval após 1314, dotando-a de novas práticas. Esta mudança de visão em relação ao Templo, que se mostra anacrônica, não obteve adesão da historiografia do período, que continuou preocupada com aspectos políticos e econômicos relacionados à Ordem. Voltaire, por exemplo, apresenta os templários como uma minoria perseguida injustamente, vítimas de um complô político arquitetado por Filipe IV.4
O século XIX, por sua vez, viu um crescimento no interesse pelo Templo influenciado pela organização das grandes coleções documentais. Nesse momento, floresceu grande atividade acadêmica em torno do Templo, pautada tanto pela retomada do mérito de analisar a Idade Média, anteriormente menosprezada, quanto a partir do apoio de lideranças governamentais, que favoreceram a profusão na edição e publicação de fontes sobre o período. Contudo, “ainda que no século XIX e princípio do XX os acadêmicos franceses e alemães tenham publicado muitas fontes primárias relativas à Ordem e produzido trabalhos acadêmicos formidáveis, a partir dos anos 1920 a historiografia sobre a Ordem tornou-se mais limitada”.5
Segundo Helen Nicholson, nos anos 1920 aos 1970, a produção historiográfica acerca dos templários se tornou relativamente estacionária, uma vez que eles não se encaixavam bem em estudos quer sobre o monaquismo, quer sobre as ordens de cavalaria. Até então, os estudos da história do Templo estavam voltados aos seus últimos anos de existência. Esta morosidade mudou de figura nas últimas três décadas, quando o estudo das ordens monástico-militares voltaram a ser foco de diversos pesquisadores.6
2 Ibidem, p. 106.
3 “A transformação das ideias sobre os templários, no século XVIII, mostra como os homens do Iluminismo podiam
afastar-se do racionalismo científico rígido. (...) os homens do século XVIII encontraram os templários, e os transformaram numa fantasia louca que, em mistagogia e ofuscação, igualava qualquer coisa que os velhos historiadores católicos [que tratavam os cavaleiros como hereges] podiam oferecer.” Ibidem, p. 110.
4 VOLTAIRE, F. M. Des conspirations contre les peuples ou des proscriptions. In: Nouveaux Mélanges
Philosophiques. Histoires, Critiques, etc. etc. Parte IV, 1767, pp. 188-209.
5 NICHOLSON, Helen. The Changing Face of the Templars: Current Trends in Historiography. History Compass.
8/7 (2010): 653–667, p. 653.
Na historiografia sobre a origem do Templo, pairam dúvidas sobre de onde provém a ideia de mesclar cavalaria e religião e, com isso, criar uma organização específica. Em outras palavras, os historiadores discutem se a Ordem era inicialmente inspirada pelos movimentos de reforma eclesiástica; se o interesse em unir dois modos de vida partiu dos próprios cavaleiros ou de sugestão do patriarca de Jerusalém, entre outras possibilidades.
Jean Flori considera que, desde o século IV, a Igreja passou por um longo período de mudanças de sua atitude em relação ao uso da violência, culminando no lançamento da primeira cruzada (1095).
Pode-se também considerar a cruzada como um ponto de chegada, de uma verdadeira revolução doutrinária que, estendendo-se por vários séculos, conduziu a Igreja da não-violência inicial ao uso meritório e sacralizado das armas. (...) A cruzada, portanto, não nasce ex nihilo. Tem uma pré-história...7
Desse modo, sua obra coloca a cruzada como um ponto final no processo de sacralização da guerra. Entretanto, entendemos que surge nesta afirmação uma brecha, isto é, tal processo teria finalizado de fato ou pode-se pensar em uma continuação após a cruzada? A leitura de Flori nos abriu a perspectiva de considerar que o surgimento das ordens militares religiosas, que viviam em uma espécie de “estado de guerra santa permanente”, se configura como uma próxima etapa de tal processo. Desse modo, a pesquisa que ora apresentamos visa compreender como se deu a sacralização da atividade guerreira na Idade Média e se a instituição do Templo se configura, de fato, como parte desse processo.
A partir deste panorama, elaboramos a seguinte indagação central: quais os fatores que possibilitaram a criação e desenvolvimento de uma Ordem ao mesmo tempo religiosa e militar? Além disso, como se deu sua inserção na estrutura eclesiástica?
Compartilhamos o mesmo pensamento de Flori ao considerar que a atitude da Igreja em relação à guerra se alterou intensamente ao longo da Idade Média. Inicialmente pacífica no que se conhece como “cristianismo primitivo”, sua postura perante o uso da violência mudou drasticamente, chegando a admitir e praticar guerras “santas”, isto é, campanhas militares ordenadas por Deus (ou seu representante), com motivos justos e com garantia de recompensas espirituais, tanto para os que saíssem vivos quanto para os que morressem em batalha. A legitimidade da guerra santa tomou tal proporção que, em 1095, o papa Urbano II pregou a cruzada, um grande movimento de retomada de territórios da Terra Santa dos muçulmanos. Esta seria a principal e maior guerra santa até então, e seus elementos de sacralidade
7 FLORI, Jean. Guerra Santa: Formação da ideia de cruzada no Ocidente cristão. Campinas: Ed. Unicamp,
ultrapassavam os de uma guerra santa “comum” – cuja definição e principais aspectos serão explicados adiante – por visar recuperar os locais mais sagrados da cristandade.
Após o sucesso da cruzada, a necessária defesa das conquistas aliada à possibilidade de combater sem desagradar a Deus levou um grupo de combatentes a se organizar para defender tais locais e pessoas da forma mais religiosa possível, com votos monásticos e uma rotina religiosa. Esta confraria viria a se tornar a Ordem dos Templários. Entendemos que este desenvolvimento pós-cruzada pode ser situado no processo de sacralização da guerra, pois fez surgir uma instituição que agregava o ideal religioso com uma rotina militar e assegurava aos seus membros todas as recompensas espirituais que a Igreja oferecia em seus combates sacros, elaborando uma espécie de estado de “guerra santa permanente”.
Defendemos, também, que logo em seu início, antes ainda de ser aprovada apostolicamente, a confraria de cavaleiros piedosos foi vista como especialmente útil ao rei de Jerusalém Balduíno II. Argumentamos aqui que o rei julgou interessante apoiar o reconhecimento dos Templários pela Santa Sé, pois desse modo receberiam mais filiações e doações para auxiliar na defesa da Terra Santa e proteger os peregrinos que para lá afluíam.
Pode-se dizer então que o do Templo está enraizado tanto na fundamentação da cruzada quanto em suas consequências. Esta, por sua vez, está intimamente vinculada à ideia de guerra santa. Entretanto, mesmo a cruzada tendo fornecido um terreno fértil para o surgimento do Templo, ainda haveria alguns entraves que precisaram ser resolvidos para que a Ordem se viabilizasse. Ou seja, não é porque a reconquista da Terra Santa foi bem sucedida e criou, se é que se pode assim dizer, uma “mentalidade de cruzada”, que uma Ordem ao mesmo tempo monástica e militar seria automaticamente assimilada pela cristandade – em especial pelos eclesiásticos – sem a necessidade de um esforço de legitimação teológica.
Então, para a instituição formal e posterior crescimento do Templo, destacam-se também outros elementos, como o apoio de Bernardo de Claraval, importante teólogo cuja visão sobre a violência mudou ao longo do tempo – chegando ao ápice de ser o principal pregador da segunda cruzada; e a recepção positiva que uma instituição como o Templo teve tanto entre os laicos, que a acolheram fervorosamente, quanto dos clérigos, que concordavam com a necessidade da sua existência.
Sendo o Templo uma organização inovadora por ser ao mesmo tempo religiosa e militar, foi necessário um trabalho de justificação teológica para que sua proposta não fosse interpretada como uma heresia. Após esta etapa, cuja maior contribuição deve-se a Bernardo de Claraval e que culminou com a aprovação da Regra do Templo em 1129, foi imperativo montar a estrutura que possibilitasse o crescimento da nova Ordem. Isso foi feito nos anos 1130,
e contou com o apoio de diversos senhores laicos e da Santa Sé, na pessoa do papa Inocêncio II.
Para analisar a formação da Ordem dos Templários, entendemos ser necessário estudar primeiro o contexto ideológico que permitiu a criação de uma organização religiosa e militar. Dito de outro modo, julgamos relevante iniciar o estudo pelo processo de sacralização da guerra até a realização da primeira cruzada. Todavia, por se tratar de um objeto construído ao longo de séculos, há fortes dificuldades para se realizar sua abordagem por meio de fontes documentais. Assim, o estudo que sustenta a construção do primeiro capítulo desta monografia foi realizado a partir, sobretudo, de trabalhos historiográficos. Pretendemos mostrar, com ele, como a Igreja lidava com a necessidade do uso da violência visando objetivos religiosos, algum tempo antes da formação da Ordem do Templo. Por abordar diversas temáticas bastante complexas – como a guerra santa, cruzada, Paz de Deus, entre outros – nos limitaremos a apontar algumas discussões historiográficas, mas sem trabalhá-las muito profundamente. A discussão dessa primeira parte da dissertação servirá para situar o surgimento do Templo em relação à cultura eclesiológica relativa ao uso da violência no período, bem como em relação ao contexto político e militar da Terra Santa.
No segundo capítulo, é abordada a formação do grupo de templários até sua busca pela aprovação apostólica. A análise aqui se deu no sentido de compreender como a situação da Terra Santa levou uma confraria de cavaleiros a buscar se tornar uma Ordem religiosa e militar.
Na terceira e última parte, trabalha-se o concílio de Troyes, responsável por inserir oficialmente o Templo na estrutura da Igreja, bem como alguns dos desenvolvimentos posteriores ao reconhecimento apostólico. Optamos por conduzir nossa argumentação de modo a respeitar a cronologia, o que tornará o texto mais compreensível. Assim, partiremos do contexto que permitiu a realização de guerras santas e abriu caminho para os templários surgirem, culminando no estabelecimento e desenvolvimento inicial dessa Ordem. Em síntese, analisaremos no trabalho três etapas principais: o contexto ideológico; a criação da Ordem; e o estabelecimento de um modelo de estrutura para sua inserção na cristandade.
Nossa pesquisa abrange o período entre 1114 e 1139. Foi mais provavelmente em 1114 que aconteceu a união dos cavaleiros em torno do objetivo de viver uma vida mais religiosa. Neste momento, eles se submeteram à tutela dos Cônegos do Santo Sepulcro e, formaram a base embrionária do que viria ser o Templo anos depois. Nossa pesquisa se encerra no ano de 1139, em que a bula Omne Datum Optimum foi publicada. Este documento, entre outros privilégios, concedia a independência legal à Ordem do Templo e a subordinava apenas
ao poder papal. Consideramos, então, que ela é o marco final do estabelecimento institucional dos templários.
Para maior clareza, eventualmente foi preciso lançar mão de referências a eventos anteriores ao recorte proposto – caso de todo o primeiro capítulo, por exemplo – ou posteriores. No que tange ao recorte geográfico, foi necessário alternar o uso de documentos produzidos em Jerusalém e outros confeccionados no Ocidente. Com relação a este aspecto, convém ressaltar que o Templo teve, desde sua estruturação enquanto Ordem, um caráter transnacional, e considerando nosso intuito de compreender justamente esse princípio, não nos limitaremos a uma região específica somente.
Nesta dissertação, lançamos mão de diferentes tipologias documentais, tais como cartas, sermões exortatórios, bulas pontifícias, regras monásticas e crônicas. Atentamos às relações epistolares de Bernardo de Claraval, bem como a seu texto De Laude Novae Militiae. Tratamos também da regra do Templo e de fontes eclesiásticas como bulas de privilégios, sobretudo aquela outorgada pelo papa Inocêncio II (Omne datum Optimum). O uso de crônicas, em especial, constitui um problema por esses textos serem tardios, datando da segunda metade do século XII. Entretanto, uma vez que o surgimento do Templo legou documentos esparsos e em número reduzido, foi necessário recorrer a escritos posteriores para conseguir construir uma informação mais sólida e coerente acerca dos primeiros anos da organização.
As fontes utilizadas foram cruzadas com o circuito de personalidades e localidades envolvidas na difusão desses textos. Dessa forma, pretendemos compreender melhor essa documentação à luz de um contexto político e social mais amplo, no que se refere à visualização de uma rede de relações que possibilita o aparecimento desses textos, e ao mesmo tempo mais detalhado, na medida em que estabelece relações de interesses de alguma maneira pertinentes à produção dos textos.
Dada a amplitude de nosso objetivo – analisar a fundação do Templo e sua inserção na história da sacralização da guerra –, optamos por não problematizar profundamente algumas fontes, por serem de importância menor à finalidade que buscamos. Elas são utilizadas para corroborar ou refutar algumas informações, relacionando-as com o debate historiográfico atual. Desse modo, esse trabalho não pretende trazer uma grande inovação na leitura e problematização de alguns documentos. O seu mérito, entretanto, está em dar um novo olhar de como certas fontes dialogam e valorizar personagens outrora menosprezados por outros historiadores.
Pretendemos valorizar relações interpessoais que por vezes são minimizadas ou omitidas em obras historiográficas acerca da fundação do Templo, como o papel do rei
Balduíno II ou do papa Honório II. Entretanto, dada a limitação de uma pesquisa de mestrado, não será possível enfatizar as relações entre os senhorios locais e os templários em suas primeiras décadas de existência. Por certo, o não aprofundamento em alguns aspectos não pressupõe que se ignore a complexidade das relações medievais. Por exemplo, ao tratar das posses templárias e das doações que eles receberam, foi necessário abordar isso de uma forma mais “estática”, ou seja, considerando apenas que a Ordem passou a ter propriedades em determinado local. A intenção não é ignorar as muito fluidas formas de apropriação de territórios, bens móveis e imóveis e o uso de direitos (como a cobrança de impostos). Ou seja, em cada região na qual o Templo se instalou é passível de se estudar a relação dos templários com os habitantes daquele espaço. Entretanto, tal análise demandaria uma pesquisa específica para este fim.
Com o propósito de conduzir a argumentação no sentido de analisar a Ordem como um “todo” em seus primeiros anos, foi necessário não aprofundar tanto quanto gostaríamos as relações senhoriais locais. Por outro lado, nos detivemos nas associações entre “pessoas-chave” para a formalização do Templo, tais como Hugo de Payns, Balduíno II, Bernardo de Claraval e os papas Honório II e Inocêncio II.
Nesse sentido, consideramos relevantes as relações entre a militia, o clero e as lideranças seculares, sejam reis ou grandes senhores locais. Além disso, em relação à aproximação do cristianismo e o uso da violência, nossa argumentação considera que ao passo que a Igreja se militarizou, também a cavalaria se cristianizou, sobretudo após a primeira cruzada.
Ainda no que tange à metodologia, entendemos ser útil relacionar as fontes que abordem direta ou indiretamente os mesmos temas, ainda que sejam de diferentes tipologias. Foi o caso de quando estudamos o surgimento do interesse dos templários em se estabelecerem como uma Ordem independente e reconhecida apostolicamente. Para isso, por exemplo, relacionamos o texto de epístolas com certas crônicas, de modo a notar as aproximações e as incongruências. Naturalmente, essa articulação entre documentos foi realizada em consonância também com a historiografia, visando compreender as concepções de diferentes pessoas em relação a um mesmo objeto.
Também sobre as fontes, vale mencionar que, na medida do possível, apresentamos o original em latim, nas notas. Quando não obtivemos essa informação, consta ao menos a referência de onde o texto integral do documento pode ser encontrado em idioma moderno. Todas as traduções são nossas, salvo quando especificado em contrário.
Cabe ainda uma ressalva importante. Por vezes, foram utilizados documentos presentes no cartulário publicado por André d’Albon em 1913. Estamos conscientes de que ele foi fabricado de acordo com as preocupações e escolhas do marquês d’Albon, seu editor, e que por isso ele não é seguro para analisar relações que demandem uma análise cruzada de fontes presentes nesta coleção. Entretanto, não o utilizaremos como cartulário, compilado tal como os conjuntos de documentos de uma determinada região, mas sim como um repositório de alguns textos interessantes para esta pesquisa. Mais especificamente, podemos destacar algumas epístolas de Bernardo ou de Balduíno II, algumas cartas de doações e as bulas pontifícias de privilégios. Assim, o fato de ser um aglomerado de documentos unidos muito posteriormente não prejudicará nossa análise. Em tempo, convém mencionar que quando forem analisados os documentos (desse cartulário) em conjunto, será lembrado seu caráter pouco confiável.
Convém a partir de agora, então, analisar como se deu o processo de sacralização da violência guerreira que, segundo o modo de pensar que perpassa este trabalho, conduziu à criação da Ordem dos Templários.
1. CAPÍTULO I: GUERRA SANTA, CRUZADA E OS ESTADOS LATINOS DO ORIENTE
O foco deste trabalho será estudar a criação e institucionalização dos Templários. Para que se possa compreender como um grupo de cavaleiros se tornou a primeira Ordem ao mesmo tempo religiosa e militar da cristandade, é necessário analisarmos as condições e o contexto que permitiram essa criação. O desenvolvimento dos milites Templi ocorre no início do século XII, poucas décadas após a primeira cruzada e se encontra envolto por diversos elementos existentes quando da conquista da Terra Santa em fins do século XI. Entre os principais aspectos que nortearam a fundação do Templo, destacamos a existência de uma noção de guerra santa e a preocupação com a manutenção dos locais sagrados e dos peregrinos que os visitavam.
Ao longo do capítulo, pretende-se demonstrar que o emprego da guerra recebeu sucessivas sacralizações1 por parte do clero devido a preocupações diversas, sobretudo envolvidas com a proteção das igrejas.2 Esse processo recebeu um novo fôlego durante o período reformador, quando houve maior tentativa de ingerência apostólica sobre os conflitos armados – sobretudo entre cristãos e pagãos, o que se nota no chamado à primeira Cruzada, por exemplo. Além disso, com o uso da guerra [santa] como uma ferramenta, a Santa Sé visou aproximar as igrejas de Roma e de Bizâncio, como veremos. Ao mesmo tempo, dadas as tentativas de controle de violência contra os inimigos da Igreja, por meio da Paz e Trégua de Deus, conduziu-se o ímpeto guerreiro para a luta contra os pagãos e para a recuperação da Terra Santa. Assim, era lançada a primeira cruzada. Uma vez bem sucedida, os guerreiros retornariam aos seus lares – pois a cruzada era um voto tal como a peregrinação: terminada, o próximo passo era o retorno – e os lugares conquistados teriam que ser administrados pelas lideranças cristãs. Assim, a Ordem do Templo surgiria no início da estruturação dos territórios recém dominados.
Além de analisar a sacralização da atividade guerreira, objetiva-se também entender como a cruzada diferiu de outras guerras santas e, mais precisamente, o papel dos locais sagrados para os cristãos. Isso auxiliará compreender a massiva resposta dada pelos fiéis ao deixarem seus lares e conduzirem à via que levava ao Sepulcro.
1 Entende-se, nesta dissertação, a sacralização como sinônimo de santificação. Por tais termos consideramos que
ritos (como a entrega do vexillum, da qual falaremos adiante), normas – em relação ao modo de se proceder em batalha para que ela não deixasse de ser sagrada, por exemplo – e bênçãos eram conferidos pela Igreja aos combatentes em determinadas campanhas militares. Tais concessões se alteraram ao longo dos séculos, mas de forma geral se propunham a demonstrar a legitimidade da guerra, perante Deus, a ponto de garantir benefícios espirituais aos guerreiros, como a salvação de sua alma e a remissão dos pecados.
2 Essa preocupação com a proteção dos bens eclesiásticos estará muito presente na incumbência inicial dos
1.1 A sacralização da guerra
As guerras travadas entre cristãos e infiéis, sejam eles muçulmanos, pagãos ou mesmo cristãos adversários da Igreja – fossem heréticos ou não –, são muitas vezes denominadas genericamente de “guerras santas”. Esta noção muitas vezes é apresentada de modo vago e sem explicações sobre suas especificidades.
A sacralização da guerra na Idade Média deu-se por meio de um longo processo que culminou na cruzada e nas ordens religiosas militares. Pretendemos nas próximas linhas discutir o conceito de guerra santa e sua configuração particular a partir da Primeira Cruzada. Inicialmente, é necessário ter em mente que até meados do século XII, não havia uma formalização do conceito de guerra santa em termos jurídicos. Assim, no período anterior à cruzada, essa noção será abordada a partir de debates eclesiásticos.
Uma vez que não encontramos na documentação o uso de um termo preciso como “bellum sacrum”3, é necessário perceber a construção da noção por meio de “elementos de sacralização”. Para isso, devem-se levar em conta os fatores religiosos ou espirituais presentes na legitimação de guerras – aos olhos eclesiásticos – até que se possa identificar uma guerra santa. Na tradição eclesiástica de legitimação da guerra, o Antigo Testamento tem grande importância. Nele são abundantes os exemplos de guerras desejadas e ordenadas por Deus e realizadas sob sua supervisão; além da autoridade divina, esses combates possuíam importantes elementos sacralizadores, como as recompensas espirituais e a justiça de sua motivação.
Na Idade Média, tais guerras não mais ocorrem, uma vez que Deus não fala diretamente com seu povo – como fazia através de patriarcas e profetas no Antigo Testamento –, senão através da Igreja. Isso não quer dizer, entretanto, que a Idade Média não tivesse elaborado sua própria concepção de “guerra santa”. No século XI, esta noção estava presente entre os eclesiásticos e entre os combatentes. Mas de que forma ela tem sido estudada pela historiografia? Antes de analisar as características que compõem tal noção, convém debruçar
3 COWDREY, H. E. J. Christianity and the morality of warfare during the first century of crusading. In: BULL,
Marcus; HOUSLEY, Norman (eds). The experience of crusading. Cambridge: Cambridge University Press, 2003, pp. 175-192, p. 176. Tomaž Mastnak chama atenção para o caso excepcional presente no relato de Guibert de Nogent sobre a primeira cruzada. No texto, Guibert nomeia a cruzada como “praelium sanctum”. Entretanto, o historiador destaca que “Comparado com termos descritivos em uso durante sua época e mesmo bem após, como peregrinação, jornada e caminho, em combinação com Jerusalém, Sepulcro e Senhor, Deus, e Jesus Cristo, a definição de Guiberto realmente apresenta um conceito, mesmo que não seja claramente definido. Estritamente falando, o ‘praelium sanctum’ de Guiberto não significa ‘guerra santa’, bellum sacrum. Mas a distinção entre praelium (batalha, conflito) e bellum (guerra) é posterior, aparentemente formulada por Inocêncio IV [1195-1254] ...” MASTNAK, Thomaž. Crusading Peace: Christendom, the Muslim World, and Western Political Order. Los Angeles: University of California Press, 2002, pp. 58-9.
na trajetória historiográfica do conceito, que contribuirá na definição da guerra santa, sua relação com a cruzada e com a fundação dos templários.
Em 1935, Carl Erdmann publicou “Die Enstehung des Kreuzzugsgedanken”, “A origem da ideia de Cruzada”.4 Sua análise deu bastante peso à tese de que o papado reformador, na segunda metade do século XI, teria operado mudanças doutrinárias que levaram à maior aceitação, por parte da Igreja, da guerra e dos guerreiros. Embora o autor aponte que a sacralização da guerra não tenha começado com os reformadores, mas sim séculos antes, em seu estudo não aborda profundamente tais antecedentes, dedicando-lhes apenas a introdução do livro.
Já para Etiènne Delaruelle, que publicou nas décadas de 1940 e 1950, o papado do século XI esteve em continuidade com o processo de sacralização da violência guerreira. Assim, a ideia de guerra santa seria bastante anterior à Reforma. Para ele, a inovação com a cruzada de Urbano II, seria a criação de uma “espiritualidade de cruzada” ao incorporar à guerra santa o caráter de retomada do lugar onde Cristo vivera, ao se “tomar a cruz” e seguir Seus passos.5
A importância dos papas reformadores para a sacralização da guerra é retomada por H. E. J. Cowdrey que, embora enfatizasse a importância de Jerusalém para a Cruzada, divergindo de Erdmann, o acompanhou ao considerar que o século XI foi importantíssimo na formação da noção de guerra santa. O autor também distingue mais claramente os campos da guerra justa6 – pertencente à esfera secular – e o da guerra santa – incentivada, se não promulgada, pelas lideranças religiosas.
John France, por sua vez, considera que a formulação da ideia de guerra santa tem um longo passado, bem anterior à cruzada. Entretanto, o autor britânico considera que Erdmann, ao tratar do período anterior ao ano 1000, dá uma importância desmedida à certas determinações de direito canônico e a algumas hagiografias em detrimento de outras, deixando lacunas em sua
4 ERDMANN, Carl. The origin of the idea of crusading. Trad. M. W. Baldwin & Walter Goffart. Princeton, 1977. 5 O conjunto de seus textos foi reeditado sob a seguinte referência: DELARUELLE, Étienne. L’idée de croisade
au Moyen Age. Turim: Bottega d'Erasmo, 1980.
6 COWDREY, H. E. J. Christianity and the morality of warfare… pp. 175-192. A guerra justa, que é diferente de
guerra santa, teve sua fundamentação legal discutida desde o império romano. Assim, embora ela compartilhe de algumas características com a guerra santa, as duas noções não devem ser confundidas. De modo geral, uma guerra justa pertence mais à esfera secular que à religiosa. Além disso, sua realização não visa realizar uma vontade divina nem conta com recompensas espirituais. Ela deve ser empregada com os meios apropriados e aqueles que nela combatem recebem benefícios temporais. Entretanto, tal como a guerra santa, ela é travada com motivos justos e legítimos e realizada por uma necessidade maior – em vez da simples busca pelo butim ou a possibilidade cobrança de exações. O conceito existia desde o mundo antigo, definido pelos sistemas legais greco-romanos. Ibidem, p. 176. Jean Flori destaca que, segundo Agostinho, “A guerra santa (...) era primordial, fundamental, irrefutável. A guerra justa, para ele, era apenas uma concessão feita ao poder laico, na ausência de ordens diretas de Deus, pois a época da teocracia desaparecera para dar lugar ao ‘tempo da Igreja’. A guerra justa deriva da noção de guerra santa e não o contrário.” FLORI, Jean. Guerra Santa: Formação da ideia de cruzada no Ocidente Cristão. Campinas: Editora Unicamp, 2013, p. 273.
argumentação. Segundo ele, até o ano 1000, coexistiam diferentes atitudes em relação à guerra e as opiniões favoráveis a seu emprego eram dominantes. Elas se desenvolveram a partir da noção muito flexível de guerra justa. Assim, o chamado de Urbano II não teria sido difícil de ser assimilado pelos cristãos. 7
Um dos autores a abordar o tema mais recentemente é Jean Flori. Embora ele situe o início da sacralização da guerra nos primeiros séculos do cristianismo, sua obra acompanha em diversos aspectos o trabalho de Erdmann, corrigindo-o e o atualizando. Além disso, sua argumentação em muito concorda também com H. E. J. Cowdrey ao ressaltar o papel preponderante dos papas reformadores em estabelecer o “clima” de guerra santa e na importância de Jerusalém para o lançamento da cruzada. De modo geral, seu trabalho se dá na contracorrente dos críticos mais ferrenhos do historiador alemão, tal como Jonathan Riley-Smith, que segundo Flori, “atenua e às vezes até mascara a dimensão da guerra santa da primeira cruzada, descarta suas motivações materiais e nega ou minimiza uma parte das motivações espirituais dos cruzados, (...) fazendo da cruzada uma peregrinação armada.”8 Flori, portanto, defende que a elaboração do conceito de guerra santa foi realizada por meio de um longo processo. Este marcou a transformação da atitude da Igreja perante a violência, inicialmente contrária, para uma postura favorável em determinadas situações. E tal processo foi acentuado durante os séculos XI e XII.
Como apontado, é difícil retomar a ideia de guerra santa nos textos medievais, uma vez que não se usava um termo específico para designá-la. Então, para compreender como os medievais diferenciavam uma guerra comum de uma “santa” – sobretudo antes do século XII –, os historiadores mencionados buscam no passado elementos que contribuíram para a formação de uma “tradição” de guerra santa, antes ainda dessa noção ser tratada no âmbito do direito canônico.9 Cabe agora, então, elencar os principais elementos que compõem a noção de guerra santa.
7 FRANCE, John. Holy war and holy men: Erdmann and the lives of saints. In: BULL, Marcus; HOUSLEY,
Norman (eds.). The experience of crusading. p. 194; 207-8.
8 FLORI, Jean. Guerra Santa... p. 28.
9 A guerra santa passou a ser discutida como uma categoria do direito canônico apenas no século XII. Até então,
os canonistas “ainda não se interessavam pela cruzada nem pela guerra contra os infiéis; concentravam a atenção nos conflitos internos da Igreja, entendida no sentido atual de cristandade ou de mundo cristão.” FLORI, Jean. Guerra Santa... p. 29. Embora Flori considere Graciano como o primeiro canonista a trabalhar mais detidamente o tema da guerra santa, deve-se atentar para o trabalho de Anselmo, bispo de Lucca (morto em 1086). Em seus escritos, Anselmo faz uma “apresentação do dever e da ética da ‘guerra santa’ como [uma] guerra que tem sua origem e sanção não nos propósitos e julgamentos dos homens, mas na providência e vigilância de Deus.” COWDREY, H. E. J. Christianity and the morality of warfare… p. 180. No que tange à teorização da guerra santa, Cowdrey também valoriza a influência exercida por uma carta intitulada Gravi de Pugna, anteriormente creditada a Agostinho, e pelos escritos do Bispo Bonizo de Sutri (morto em c. 1095). Para o historiador, tais textos, juntamente com outros de são Jerônimo (c. 347 - 420) e do papa Gregório Magno (c. 540 - 604) foram cruciais
1.1.1 Características centrais da Guerra santa
Até o momento, foi argumentado que a guerra empregada pela Igreja passou por um processo de sacralização. Defendemos, também, que esse processo culmina na elaboração de uma “doutrina de guerra santa”. Sendo assim, cabe a questão: como se define a guerra santa? Quais suas características principais?
Segundo H. E. J. Cowdrey, a
Guerra santa pertence à esfera da religião e do transcendente. É a guerra empregada de acordo com os propósitos de Deus e com Sua bênção: em resposta à oração urgente a Ele, Deus em seu julgamento que é correto, inescrutável em sabedoria e inequívoco em sua determinação, estabelece qual lado de um conflito é justo e correto. O teste crucial [da santidade da campanha militar] é a conformidade com a vontade de Deus e a recompensa é a palma da vitória – para o assassinado, talvez, na forma do martírio.
10
A partir do trecho, se mostra clara e importantíssima a implicação de Deus na motivação para o emprego da guerra. Flori vai além, apontando que o desenrolar dos combates também deve ser realizado de forma justa e santa, caso contrário a causa continua sagrada, mas Deus abandona os seus e os castiga por terem causado uma espécie de profanação.11
Como dito, as guerras no Antigo Testamento eram diretamente comandadas por Deus.12 Como a Idade Média não vivia em um regime teocrático e Deus já não mais falava direta e objetivamente aos homens, a guerra deveria ser promulgada por uma autoridade santa incontestável, como um concílio – que todos acreditavam ser inspirado pelo Espírito Santo.13
Além da implicação de Deus, outras características formam a noção que ora analisamos. Ao falar da Reconquista, que Flori considera como um bom exemplo de guerra santa, o autor apresenta uma síntese de seus elementos constituintes:
Temos aí uma guerra sacralizada, acompanhada da demonização de um adversário muçulmano equiparado ao Anticristo, guerra prescrita pela autoridade religiosa suprema de um pontífice romano, com o perdão dos pecados dos participantes e o martírio daqueles que nela viessem a tombar, guerra travada em nome do
para a formulação das ideias medievais sobre a tradição da guerra santa. Mesmo remetendo a uma longa tradição de comentadores, a guerra santa não era debatida como uma categoria do direito canônico até a redação do Decreto de Graciano, por volta de 1140. Posteriormente, o trabalho de Graciano permaneceu importante para novas discussões, das quais ele era a base. FLORI, Jean.Guerra Santa... pp. 186-7.
10 COWDREY, H. E. J. Christianity and the morality of warfare... p. 175 11 FLORI, Jean. Guerra Santa... p. 46; 94.
12 “A guerra santa cristã, portanto, tomou da Bíblia seus elementos essenciais: comando divino; identificação com
os Israelitas, escolhidos de Deus; e um senso de atuar em eventos que levavam ao Apocalipse.” TYERMAN, Christopher. Fighting for Christendom. p. 100. Em tempo, não temos certeza se é possível considerar a escatologia para toda a guerra santa cristã. É certo que este elemento existiu, principalmente na Cruzada, mas não observamos seu impacto em todo o processo de sacralização da guerra.
interesse dos cristãos que seriam assim libertados da opressão sarracena, cujo resultado seria a submissão do rei vencido à lei cristã e a São Pedro.14
Essas características também serão encontradas na cruzada e, posteriormente, na ideologia das ordens religiosas militares. Cabe aqui uma ressalva: a ideia de submissão à lei cristã não quer dizer, necessariamente, conversão ao cristianismo. A própria cruzada é um exemplo disso. Em nenhum momento vemos, nas exortações de Urbano II à cruzada, a necessidade de conversão dos muçulmanos do ultramar. Assim, a noção se refere mais ao domínio e inserção da autoridade política cristã nos territórios onde a “violência sacralizada” é empregada. Em outras palavras, a guerra santa era utilizada como uma ferramenta pela qual interesses eclesiásticos eram defendidos, fossem eles de combate ao inimigo pagão ou mesmo de ingerência em querelas internas ao mundo cristão.
Convém ainda diferenciar a noção de guerra santa e a cruzada. Essa última, além de possuir todos os elementos sacralizadores da violência, tinha também o objetivo de libertar de Jerusalém e os lugares santos, como veremos. Este aspecto é inovador e, ao mesmo tempo, confere ainda mais sacralidade à empreitada. Em outras palavras, a cruzada foi uma guerra santa, mas nem toda guerra santa poderia ser considerada uma cruzada.
Por fim, reiteramos que antes de considerar a elaboração da tradição guerra santa como uma discussão restrita a teólogos ou mesmo de situá-la univocamente em um papado reformador, deve-se atentar que a sacralização da guerra ocorreu pouco a pouco, em diversas campanhas militares regionais nas quais a Igreja interferiu de variadas formas – seja com bênçãos, com promessas de recompensas espirituais ou mesmo com o patrocínio de soldados. Tais combates sacralizados, ocorridos em diferentes espaços e com objetivos mais ou menos semelhantes – defender as propriedades eclesiásticas e os protegidos pela Igreja, lutar contra o inimigo pagão etc. –, contribuíram na amálgama que formou a noção de guerra santa no século XI.
Outros fatores também colaboraram no processo de amadurecimento dessa noção no Ocidente medieval. Entre eles, destacam-se o movimento conhecido como Paz de Deus e a relação dos papas “reformadores” com a violência. Convém aprofundar nesses dois temas antes de prosseguirmos a discussão rumo ao estudo da cruzada.
1.1.2 A proteção das igrejas e a Paz de Deus
Até o início do século XII, não houve um “teórico” que se debruçasse sobre a fundamentação da guerra santa. Defendemos, então, que o surgimento dessa noção se deu por meio de sucessivas “sacralizações” da atividade guerreira. Em todos esses momentos de uso da violência apoiado pela Igreja (ou pelas igrejas, já que devemos pensar tais sacralizações inicialmente em âmbito local), nota-se a influência de preocupações eclesiásticas específicas, como defender posses do clero ou seus protegidos.
Jean Flori e John France defendem que a sacralização da violência ganha força no império carolíngio, pois a função do imperador de proteger a comunidade cristã fazia com que suas guerras fossem tidas como legítimas. Por ser revestido pela autoridade religiosa, tais guerras possuíam, também, um teor de sacralidade. Destaca-se, entretanto, que ainda não eram guerras santas.15 Assim, nos séculos VIII e IX, a guerra contra os pagãos que ameaçavam o império, bem como a proteção das igrejas, em particular a de Roma, acrescentaram sacralidade à ação bélica dos reis francos.16
Com a aproximação dos muçulmanos, “pagãos”, nas proximidades de Roma, o papa Leão IV (847-855) convocou os exércitos do rei franco para auxiliá-lo. Destacou, nessa ocasião, que a salvação não seria negada àqueles que morressem em combate. Em um trecho de seu pedido, temos: “O Altíssimo sabe que, se um dentre vós vier a morrer, terá morrido pela verdade da fé, pela salvação da Pátria e pela defesa dos cristãos.”17 O trecho enaltece três fatores como sacralizantes: o princípio romano de proteger a pátria; a moral cristã, na qual é sagrado proteger os irmãos cristãos mesmo que isso custe a morte; e o valor de lutar pela religião no combate contra o pagão. “Não estaríamos distantes, então, da ideia de uma guerra que trouxesse a remissão dos pecados, uma das características constitutivas da guerra santa e, mais tarde, da cruzada.”18
Posteriormente, a formulação dos movimentos de Paz de Deus19 e Trégua de Deus se configuraram como importantes marcos na história da proteção das igrejas e da sacralização
15 Ibidem, p. 49.
16 Ibidem, p. 47. FRANCE, John. Holy war and holy men… pp. 197-8.
17 LEÃO IV. Ep. I - Ad exercitum Francorum. In: MIGNE, J-P. (ed.) Patrologiae Cursus Completus. Series latina.
t. 115. Paris: Editions Garnier Freres, 1881, col. 655-657. Trecho original: “Novit enin Omnipotens, si quilibet vestrum morietur, quo pro veritate fidei, et salvatione patriae, ac defensione Christianorum mortuus est...”
18 FLORI, Jean. Guerra Santa... p. 51.
19 Atualmente, pode se considerar que há duas linhas principais para estudar o movimento da Paz de Deus: a
tradicional, cujo principal expoente é Georges Duby; e uma “revisionista”, defendida, principalmente, por Dominque Barthélemy. Ver: DUBY, Georges. As três ordens ou o imaginário do feudalismo. Lisboa: Ed. Estampa, 1982, pp. 158-163 e DUBY, Georges. Os leigos e a Paz de Deus. A sociedade Cavaleiresca. São Paulo: Martins Fontes, 1989, pp. 37-48. BARTHÉLEMY, Dominique. L’an mil et la paix de Dieu, la France chrétienne et féodale, 980-1060. Paris: Fayard, 1999. No presente texto, usamos por base as ideias de Jean Flori, que acompanha Barthélemy em diversos pontos.
da violência guerreira. Os concílios que promoveram a Paz de Deus foram convocados, sobretudo, a partir de 975 na atual França central e visavam limitar a violência guerreira contra posses eclesiásticas e contra os inermes.20 Já a Trégua de Deus, considerada um desenvolvimento da Paz, foi elaborada como um período no qual se limitava qualquer utilização de violência: primeiramente da noite de sábado à manhã de segunda; depois o prazo se iniciava na quinta; depois durante a quaresma; e por fim o período cobria até cerca de três quartos do ano, dependendo da região.21 Cowdrey apresenta uma clara definição sobre os movimentos da Paz e Trégua de Deus:
O propósito da Paz de Deus, em sua forma original, era colocar sob proteção eclesiástica especial certas categorias de pessoas, como monges, o clero e os pobres; e certas categorias de coisas materiais, como igrejas, propriedades eclesiásticas, e meios de sustento de pobres. (...) [Já a] Trégua era um próximo estágio em tais desenvolvimentos. Onde a Paz buscou proteger certas classes e seus bens em todos os momentos, a Trégua foi uma tentativa de parar toda a violência em períodos específicos.22
A partir da expressão “certas categorias de coisas materiais”, deve-se atentar que as igrejas preocupavam-se, principalmente, em limitar as desventuras à suas próprias posses, clero e habitantes de seus domínios – aquelas sob sua proteção direta. Embora não se possa avaliar que a violência23 era exercida apenas contra as igrejas – uma vez que não se deve ignorar a existência de exações senhoriais oriundas de guerras privadas cujas vítimas eram pobres laicos –, era contra esse tipo específico de violência que as assembleias de paz dedicaram maior atenção.24
A Paz de Deus era, então, uma das possíveis respostas aos problemas criados pelas exações dos milites, ou seja, um modo pelo qual as assembleias eclesiásticas tentaram minimizar os problemas causados pelas cobranças ou violências tidas como injustas.25 “Essas respostas [são] marcos importantíssimos para a evolução da atitude da Igreja perante a guerra e aos guerreiros, pois elas contribuíram para a formação de uma (...) teologia da guerra.”26
20 Em suma, aqueles que não poderiam se defender, tais como pobres, mulheres e eclesiásticos.
21 MASTNAK, Tomaž. Crusading peace… p. 6. Entretanto, não aprofundaremos neste conceito por considerar
que, embora seja um desenvolvimento da Paz de Deus, ele não tem uma ligação tão intrínseca com a cruzada quanto vemos na Pax Dei.
22 COWDREY, H. E. J. Peace and Truce of God in 11th century. Past and Present. n. 46, 1970, pp. 42; 46. 23 Aqui se deve entender como violência toda e qualquer ingerência laica contra posses eclesiásticas. Uma posse
mantida por herança e reclamada pela Igreja, por exemplo, poderia ser vista como usurpada e, portanto, fruto de violência.
24 MASTNAK, Tomaž. Crusading peace… p. 5.
25 Destaca-se que o termo milites ainda se referia a soldado (ou vassalo) e não tinha a conotação honorífica que
receberia no século XII.
Entretanto, não se pode pensar – como argumentou García-Guijarro Ramos27 – que as estratégias de limitação ou moralização do uso da violência tenham atingido toda a cristandade28. O estabelecimento da paz ocorreu em diversos locais, mas sempre com uma abrangência limitada, isto é, não chegou a ser aplicada em todos os territórios cristãos. Contudo, os concílios de Paz contribuíram para o estabelecimento da noção de que a Igreja possuía a responsabilidade e a prerrogativa de defender, até mesmo militarmente, as suas propriedades e pessoas. Isso se tornou mais agudo no século XI com o fortalecimento do papado e aumento de sua influência em vários territórios cristãos.
Ao longo do século XX, tais movimentos foram considerados pela historiografia como instituições criadas por uma Igreja que tomava para si a direção da cristandade devido à ausência de um poder laico soberano após a fragmentação do império carolíngio. Nesta concepção, a autoridade pública estava bastante fragilizada e não conseguia conter a violência existente ou mediar os conflitos. Esta tarefa teria sido tomada então pela Igreja, única instituição que remanescera forte após o fim do império carolíngio. Assim, os concílios de paz seriam uma resposta à inação da autoridade pública em conter a violência. Esta interpretação foi defendida por Cowdrey, cujo texto data de 1970:
Quando a autoridade carolíngia se desintegrou, a ordem episcopal permaneceu intacta em sua estrutura e funções. Foram os bispos que convocaram as assembleias do século X que levaram aos concílios de Paz. (...) A conjuntura foi determinada pela progressiva deterioração da autoridade pública na França.29
Atualmente, entretanto, são propostas diversas correções para o modelo precedente, tanto no que tange à motivação da Paz de Deus quanto ao seu raio de ação. Sabe-se que a Igreja não intentou estabelecer uma “Paz geral”, que controlasse a violência em toda a cristandade Ocidental. Além disso, não mais se considera que assembleias de paz tiveram um clima social de revolução que uniu a Igreja ao povo, nem mesmo as intenções antissenhoriais dos movimentos comunais que se desenvolveriam um século depois.30 Assim, em tais movimentos a Igreja não se dirigiu contra os senhores, mas com o apoio destes. Ao mesmo tempo, não se deve ignorar que havia pressão popular devido às exações cobradas por milites.
27 Para este autor, “ao propor formas redutoras da violência, a Igreja atuava como um dos mais poderosos entes
feudais, de acordo com os desejos de todas as instâncias em que repercutia a situação; ao dotar estas limitações de um conteúdo religioso, universalizava sua influência” GARCÍA-GUIJARRO RAMOS, Luís. Papado, cruzadas y órdenes militares: siglos XI-XIII. Madri: Cátedra, 1995, p. 42.
28 “Cristandade, christianitas, era a forma da unidade Ocidental que emergiu na Alta Idade Média. Escritores
medievais falavam de Cristandade quando tratavam de si mesmos e de suas civilizações. (...) Pensadores medievais investiram na ideia de Cristandade com suas esperanças para uma unidade tanto temporal quanto espiritual nesse mundo.” MASTNAK, Thomaž. Crusading Peace … p. 91.
29 COWDREY, H. E. J. Peace and Truce of God in 11th century. pp. 45-6.
30 FLORI, Jean. Guerra Santa... p. 70. Flori se refere aqui aos trabalhos de SÉMICHON, E. La Paix et la trêve de
Flori aponta também que é exagerado vincular o surgimento da Paz de Deus ao enfraquecimento do poder real pós-carolíngio ao considerar que a Igreja tomaria para si a autoridade sobre o poder público. De fato, o surgimento de castelanias e novos sistemas de exações senhoriais podem ter levado a ondas de violência que levaram a Igreja a reagir, principalmente se as igrejas locais estivessem envolvidas em tais conflitos. Porém, isso não permite considerar que uma fragmentação do poder público por volta do ano 1000 conduziu a Igreja a assumir o poder público e se responsabilizar pela manutenção da Paz em toda a cristandade.31
A intervenção da Igreja na manutenção da paz – a princípio de forma local, mas que se expandiu gradualmente por diversas regiões – colaborou no desenvolvimento de uma nova forma de se valorar o uso da violência, pois ela indiretamente determinava quando a violência podia ser usada legitimamente. Em outras palavras, ao determinar em seus concílios quem não poderia fazer o uso de armas, e em quais períodos, pessoas e propriedades não poderiam ser atingidos, a Igreja conquistou também a autoridade para determinar as situações em que o uso da violência era autorizado. Aqueles que não respeitavam as decisões conciliares – como ao atacar ou ameaçar os inermes e os bens eclesiásticos – eram rotulados como “violadores da paz” e eram combatidos por exércitos, isto é, por “milícias de paz”. O uso de violência contra tais transgressores não era considerado como um descumprimento da Paz.
Assim, a Paz de Deus não condenou em absoluto a guerra. Ela limitou o uso lícito da violência. “Esse desenvolvimento sugere que a Igreja agora considera a violência como lícita em certas condições. A circunscrição da violência abriu caminho para a Igreja não apenas declarar seu controle sobre o uso de armas como também dirigir ações violentas.”32
Portanto, a Paz de Deus é relevante para o movimento de sacralização da guerra, pois marca a ingerência da Igreja na regulamentação da violência e, mais que isso, no uso dessa violência em seu benefício ou proteção. A Igreja tentava moralizar a guerra para estabelecer a alternância entre uma trégua por ela controlada e uma guerra legítima sobre a qual sua moral exerceria influência. Aqueles que desacatassem as prescrições de paz sofreriam as devidas sanções, tanto de cunho espiritual – opróbio ou anátema, por exemplo – quanto de combate físico. Da mesma forma, quando a guerra parte para o campo ofensivo (seja no duelo aos pagãos ocidentais ou na cruzada), havia também a noção de que tais inimigos eram responsáveis por romper com a paz e deveriam ser punidos por isso.
31 Ibidem, pp. 72-3.
Então, pode-se dizer que a Igreja “moralizava a paz e a guerra em função de seus próprios objetivos e de seus interesses; foi nisso que, precisamente, a paz de Deus constituiu uma etapa preparatória importante na formação da ideia de cruzada.”33
1.1.3 Guerra santa e Reforma
O período conhecido como Reforma34 também desempenhou um importante estágio no processo de sacralização da guerra. Além de ser o contexto de várias assembleias de Paz e Trégua de Deus, o recorte compreendido entre 1050 a 1150 compreendeu diversas tentativas eclesiásticas – pontificais ou locais – em regular a violência em favor de seus interesses, de acordo com a defesa de seus bens. Em especial, além de proteger seus domínios, os papas intentaram também expandir o domínio das posses da Santa Sé.35 Para isso, lançavam mão de justificativas questionáveis como, por exemplo, o conhecido manuscrito denominado Doação de Constantino.36 Outra ferramenta utilizada no período para alcançar seus objetivos –
33 FLORI, Jean. Guerra Santa... p. 100. Flori afirma também que “a paz de Deus contribuiu para forjar a
concepção de que duas formas de ação guerreira estavam em oposição. Uma, dirigida contra a Igreja, era inaceitável e funesta; a outra, dirigida contra seus inimigos, era, ao contrário, louvável e meritória, a ponto de dela participarem os santos e por meio dela ser possível obter a palma do martírio.” Ibidem, p. 323.
34 Atualmente, não é consenso na historiografia como se deram as relações de poder entre o papado e as demais
instâncias sociais no período entre meados dos séculos XI e XII. Alguns autores, como Augustin Fliche (seguido por diversos historiadores), veem nesse período a busca do papado em aumentar e centralizar seu poder na estrutura eclesiástica, avançando-o para a esfera secular. Já Leandro Duarte Rust traz a hipótese de que o papado se encontrava numa trama de diversos poderes regionais – eclesiásticos e laicos – e que, ao lançar mão de favorecimentos e proteções aos senhores, criava uma teia de partidários que lhe sustentavam. RUST, Leandro Duarte. “Colunas vivas de São Pedro”: concílios, temporalidades e Reforma na história institucional do papado medieval (1046-1215). Tese (Doutorado) Universidade Federal Fluminense, 2010, p. 460; 464-8. Acompanhamos a tese de Rust ao considerar importantes as relações de poder entre as igrejas locais e os senhorios durante esse período que, sobretudo na concessão de benefícios espirituais àqueles que lutassem pela causa eclesiástica e protegessem suas posses, contribuíram para o processo de sacralização da guerra. Ao passo que não é objetivo dessa dissertação esmiuçar tais teias de relações, convém apontar que a Santa Sé, como uma senhora de terras e pessoas e na tentativa de ser tida como uma autoridade inclusive perante os laicos, declarava que suas guerras – isto é, aquelas guerras nas quais seus interesses estavam envolvidos – possuíam um caráter sagrado. Esse papado auxiliará na criação de uma tradição de guerra santa que será utilizada como base para a formação das ordens militares. Embora o próprio termo “Reforma” seja hoje questionado, optamos por usá-lo no texto para representar tão somente o período (c. 1050 – c. 1150) e a preocupação de alguns papas, nomeadamente Gregório VII e Urbano II, em ampliar a autoridade apostólica em diferentes espaços. Ver também RUST, Leandro Duarte. A Reforma papal (1050 – 1150). Cuiabá: EDUFMT, 2013.
35 FLORI, Jean. Guerra Santa... p. 206.
36 Documento forjado durante o papado de Adriano I (772 – 795) que estabelecia a doação do Imperador
Constantino à Igreja de uma grande extensão de terras e propriedades. O documento foi desacreditado em diversas ocasiões e a argumentação decisiva de sua falsidade se deu com Lorenzo Valla no século XV. BARROS, José D’Assunção. Império e papado na Idade Média: reflexões historiográficas sobre duas realidades em conflito. Textura. n. 14, jul/dez 2006, pp. 47-57, pp. 49-50. Além disso, vale mencionar que a Doação de Constantino não era citada para reivindicar terras que nunca pertenceram ao império romano, mas o papado tentava também impor sua influência sobre tais locais, como na Hungria, por meio de outras estratégias políticas.