UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
FERNANDA DA SILVA GOMES DOS SANTOS
ALIENAÇÃO PARENTAL: UMA CONTRADIÇÃO AO AFETO
Ijuí (RS) 2014
FERNANDA DA SILVA GOMES DOS SANTOS
ALIENAÇÃO PARENTAL: UMA CONTRADIÇÃO AO AFETO
Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TC.
UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientadora: MSc. Etiane da Silva Barbi Kohler
Ijuí (RS) 2014
Dedico este trabalho à minha família, por todo o esforço dispensado durante esta jornada, bem como pela confiança em mim depositada.
AGRADECIMENTOS
À minha família, que nunca mediu esforços para que eu alcançasse os objetivos traçados, me apoiando em todas as decisões, incentivando os meus estudos e confiando na minha vitória.
À minha orientadora Etiane da Silva Barbi Kohler, com quem tive o privilégio de conviver e contar com sua dedicação, suas orientações, sem as quais não seria possível a efetivação do presente trabalho de forma satisfatória.
Ao meu namorado que sempre incentivou e auxiliou meus estudos.
Aos meus colegas de trabalho do Ministério Público Estadual de Santa Rosa, que foram imprescindíveis para o enriquecimento do meu aprendizado, colaborando com seus ensinamentos, sempre com boa vontade e generosidade.
“O conhecimento nos faz responsáveis.” (Che Guevara).
RESUMO
O presente trabalho versa sobre a alienação parental, vista como uma forma de contradição ao afeto por parte dos pais alienadores. O estudo pretende facilitar a compreensão desta temática, frente ao advento da Lei nº 12.318/2010, indicando as suas consequências e os fatores determinantes para o seu diagnóstico, com o intuito de evitar os danos emocionais que podem vir a ser provocados no menor alienado, inclusive o aparecimento da síndrome da alienação parental, em algumas hipóteses. O estudo em tela aborda a alienação parental nos casos de ruptura da vida conjugal, em que um dos ex-cônjuges não aceita a separação e, por conta de seu sentimento de rejeição e raiva em relação ao outro, desencadeia um processo de destruição da figura paterna/materna perante a prole. Tal pesquisa tece análises acerca do papel relevante que o Poder Judiciário assume na resolução desses impasses, mediante a aplicação de medidas eficazes e coerentes, já que o mau uso de normas punitivas ou corretivas pode implicar no afastamento de um dos pais do convívio com os filhos, abordando, ainda, os aspectos materiais da lei de alienação parental, analisando as condutas alienadoras, os meios probatórios e as medidas corretivas.
Palavras-Chave: Alienação Parental. Afeto. Contradição. Síndrome da Alienação Parental - SAP.
ABSTRACT
The present work deals with parental alienation, seen as a form of contradiction to affection by the alienating parent. The study aims to facilitate the understanding of this issue, against the enactment of Law Nº 12.318/2010, indicating the consequences and determinants for its diagnosis, in order to avoid the emotional damage that may be caused in less alienated, including the appearance of the parental alienation syndrome in some cases. The study focuses on Canvas parental alienation in cases of rupture of married life, where one ex - spouse does not accept the separation and, because of his feelings of rejection and anger towards the other, triggers a process of destruction of the figure paternal / maternal towards offspring. Such research weaves analyzes about the role that the judiciary assumes the resolution of these dilemmas through the implementation of effective and coherent measures, since the misuse of punitive or remedial standards may involve the removal of a parent's contact with the children, also addressing the material aspects of the law of parental alienation, analyzing the alienating conduct, means of proof and corrective measures.
Keywords: Parental Alienation. Affection. Contradiction. Parental Alienation Syndrome - SAP.
SUMÁRIO INTRODUÇÃO ... 08 1 PRECISÃO CONCEITUAL ... 10 1.1 Conceito e denominação ... 11 1.2 Causas e consequências ... 15 1.3 Características ... 18 2 ASPECTOS MATERIAIS ... 22 2.1 Sujeitos envolvidos ... 23 2.2 Condutas alienadoras ... 26
2.3 Meios probatórios e medidas corretivas ... 30
CONCLUSÃO ... 39
INTRODUÇÃO
O trabalho em epígrafe apresenta um estudo acerca da alienação parental, com o intuito de fomentar o debate e a reflexão da sociedade a respeito deste fenômeno que ocorre há muitos anos em nosso país, e que sofreu regulamentação legal recentemente.
Esta temática possui especial relevância quando dimensionada a partir da sociedade na qual nos encontramos inseridos, já que, cada vez mais, se têm filhos sem a existência de relações matrimoniais, além das separações entre casais se tornarem mais frequentes e céleres, o que pode vir a ocasionar atos de alienação parental em desfavor da prole.
Para a realização deste trabalho foram efetuadas pesquisas bibliográficas e por meio eletrônico, mediante a análise das opiniões doutrinárias e jurisprudenciais a respeito da temática, a fim de enriquecer a coleta de informações.
Inicialmente, no primeiro capítulo, foi feita uma abordagem acerca da ocorrência da alienação parental, em especial, no âmbito das dissoluções das sociedades conjugais, como uma forma de contradição ao afeto por parte dos alienadores, seguindo com a conceituação deste fenômeno e a diferenciação entre ele e a Síndrome da Alienação Parental. Ademais, foram abordadas as possíveis causas geradoras desta conduta, bem como as eventuais consequências que poderão ser observadas nas vítimas do alijamento. Adiante, destacou-se algumas características capazes de distinguir a alienação parental de outras situações existentes em núcleos familiares, além de alguns traços para a identificação do perfil do ente alienador.
No segundo capítulo são analisados os aspectos materiais da legislação pertinente ao tema, a Lei nº 12.318/10 – Lei da Alienação Parental, identificando quem são os sujeitos
envolvidos, alienador e alienados, bem como as condutas caracterizadoras do fenômeno, abordando-se, por fim, os meios probatórios constantes na legislação, assim como as medidas corretivas que podem ser adotadas pelo Judiciário, o qual assume relevante papel na tomada das decisões a fim de prevenir a continuidade da prática da alienação parental, mediante a eficiente aplicação da legislação vigente, com a responsabilização do alienante, evitando-se maiores transtornos a criança ou adolescente envolvida.
Nesse sentido, o presente estudo visa facilitar a compreensão do que é alienação parental, ressaltando os seus aspectos mais importantes frente à legislação em vigor, tal como os fatores determinantes para o diagnóstico e repreensão da prática, mediante a eficiente atuação do Poder Judiciário nesta relação.
1 PRECISÃO CONCEITUAL
A dissolução da sociedade conjugal, geralmente, vem marcada por mágoas e ressentimentos e a ausência de aceitação da separação por parte de um dos cônjuges. Quando existem filhos provenientes dessa relação, dentre outras questões a serem discutidas está a regulamentação da guarda e visitas, além da prestação de alimentos em favor da prole.
Até pouco tempo atrás, nos casos de dissolução da sociedade conjugal, a guarda dos filhos era, preferencialmente, deferida à mãe, diante da ideia de que seria a mais apta a criar e educar o rebento. Na atualidade, a noção moderna de família e as garantias igualitárias de direito e deveres entre homens e mulheres fazem com que o genitor se torne cada vez mais presente na criação e educação dos filhos, reclamando a guarda filial e a convivência com a prole, o que vem a agravar o conflito existente entre o casal.
Nesse sentido, quando determinada a guarda dos filhos a um dos genitores, ao genitor não-guardião é assegurado o direito à convivência com a prole, como forma de resguardar a continuidade do vínculo familiar entre estes, visando, entre outros fatores, a boa formação emocional e comportamental do menor, evitando danos futuros provenientes da separação entre os pais e a ausência de convivência com um deles.
Entretanto, em que pese a existência de garantias constitucionais visando à efetivação e defesa dos interesses das crianças e adolescentes, não se tem observado tal preocupação por parte de alguns pais, já que frequentemente nos deparamos com situações em que um dos ex-cônjuges, o detentor da guarda normalmente (em geral a mãe), insatisfeito com a ruptura conjugal e constatando que o outro genitor, mesmo afastado do convívio diário com a criança/adolescente, é participante ativo na vida da mesma e demonstra interesse em estreitar os laços afetivos já existentes, tenta transformar o filho em instrumento de vingança. Dessa forma, o guardião da criança/adolescente inicia campanha de degradação da imagem do outro genitor, criando situações no intuito de obstaculizar ou até mesmo impedir a convivência do filho com o genitor alienado.
Esse comportamento de tentativa do genitor guardião em afastar o filho da convivência com o outro pai/mãe evidencia a existência do que chamamos de alienação parental, que será conceituada a seguir.
1.1 Conceito e denominação
A alienação parental, nas palavras de Priscila Maria Pereira Corrêa da Fonseca, citada por Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho (2012, p. 614), caracteriza-se pelo “[...] afastamento do filho de um dos genitores, provocado pelo outro, via de regra, o titular da custódia”.
O ordenamento jurídico brasileiro, por sua vez, considera ato de alienação parental:
[...] a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este. (BRASIL, 2010).
Nesse sentido, preceitua Ana Maria Frota Velly (2010, p. 1) que a alienação parental se traduz em forma de maltrato ou abuso, caracterizando evidente transtorno psicológico que se manifesta através de um conjunto de sintomas, os quais levam um genitor, ao qual dá-se o nome de cônjuge alienador, a doutrinar os filhos, mediante as mais variadas formas e estratégias de atuação, com o objetivo de impedir, obstaculizar ou destruir vínculos existentes entre eles e o outro genitor, a quem chamamos de cônjuge alienado, sem que existam, para isso, motivos relevantes que justifiquem tal comportamento.
Sobre o assunto, convém transcrever as lições de Alexandra Ullmann (2013, p. 1):
O alienador provoca o afastamento intencional de um dos pais da vida do filho menor através de comportamentos específicos inicialmente apresentando obstáculos ao convívio entre ambos, distorcendo fatos relativos às partes e manipulando a “verdade” da forma que lhe for mais favorável.
Com o mesmo entendimento, Jesualdo Almeida Júnior, citado por Juliana Ferla Guilhermano (2012, p. 4), dispõe:
A Alienação Parental é a campanha de desmoralização feita por um genitor em relação ao outro, geralmente a mulher (uma vez que esta normalmente detém a guarda do filho) ou por alguém que possua a guarda da criança. É utilizada uma verdadeira técnica de tortura psicológica no filho, para que esse passe a odiar e desprezar o pai e, dessa maneira, afaste-se do mesmo.
Nos ensinamentos de Marcos Duarte (2010, p. 1):
Alienação Parental é expressão genérica utilizada atualmente para designar patologia psicológica/comportamental com fortes implicações jurídicas caracterizada pelo exercício abusivo do direito de guarda com o impedimento da convivência parental no rompimento da conjugalidade ou separação causada pelo divórcio ou dissolução da união estável.
Diante disso, vemos que a inserção, por parte do genitor alienador no menor, de realidades inverídicas, distorcidas e desabonadoras em relação ao outro genitor, interferindo, assim, na formação psicológica dessa criança, caracteriza o ato de alienação parental. Todavia, quando a conduta reflete no afastamento voluntário da criança do genitor alienado, mediante o compartilhamento do menor com as ideias que lhe foram apresentadas e a reprodução delas como se fossem verdadeiras, demonstrando sentimento de desprezo e ódio em desfavor do pai/mãe, estamos diante do que denominamos Síndrome da Alienação Parental (SAP). Nesse viés, cumpre esclarecer que a conduta alienadora pode, em alguns casos, desencadear no menor, vítima da alienação, esta síndrome.
O psiquiatra americano Richard Alan Gardner (2002), em meados dos anos 80, após observações em pacientes filhos de pais em fase de separação/divórcio, definiu como síndrome da alienação parental – SAP (“Parental Alienation Syndrome”) o conjunto de dois fatores, quais sejam: a programação exercida por um dos genitores da criança/adolescente para que esta rompa os laços afetivos com o outro genitor, aliada à campanha difamatória exercida pela própria criança, a qual contribui criando situações de apoio ao genitor alienador em desfavor do genitor alienado. Nas palavras de Carlos Roberto Gonçalves (2011, p. 305) “o vocábulo inglês alienation significa “criar antipatia”, e parental quer dizer “paterna”.”
A magistrada Sirlei Martins da Silva (2012) ressalta que, desde a época da descoberta desta síndrome, nos anos 80, a alienação parental vem sendo abordada e estudada nos Estados Unidos da América e em alguns países da Europa. No Brasil, entretanto, tal tema passou a ser tratado há cerca de cinco ou seis anos. Em vista disso, salienta-se que frequentemente ocorre confusão na distinção dos institutos (alienação parental e síndrome da alienação parental), o que deve ser observado com grande cautela. Portanto, cabem aqui algumas considerações, a fim de não se incorrer em falha.
A denominação utilizada para caracterizar a síndrome da alienação parental (SAP) vem sendo bastante discutida. Nos dizeres de Ângela de Souza Guerreiro Lima, citada pelo professor e advogado Acir de Matos Gomes (2013, p. 1), “a síndrome da alienação parental é também nominada de síndrome dos órfãos de pais vivos, síndrome de afastamento parental, implantação de falsas memórias ou tirania do guardião.”
Ocorre que a síndrome da alienação parental e a alienação parental se relacionam, entretanto, não se confundem. Conforme os ensinamentos de Fonseca (2006, p. 1), a alienação parental se caracteriza pelo afastamento do filho de um dos pais, intencionado pelo outro, e a síndrome, por seu turno, refere-se aos danos emocionais e comportamentais ocasionados na criança/adolescente vítima da alienação, desencadeando constante recusa do menor em conviver com o genitor alienado.
Assim, conclui a referida autora:
[...] enquanto a síndrome refere-se à conduta do filho que se recusa terminante e obstinadamente a ter contato com um dos progenitores, que já sofre as mazelas oriundas daquele rompimento, a alienação parental relaciona-se com o processo desencadeado pelo progenitor que intenta
arredar o outro genitor da vida do filho. (FONSECA, 2006, p. 1).
Além disso, não obstante a denominação “alienação parental” tenha nascido após a descoberta da existência de uma síndrome, à qual foi atribuído o nome síndrome da alienação parental, vê-se que esta é consequência gerada pela prática da alienação, sendo, portanto, decorrente da mesma, não podendo haver confusão entre os institutos.
Nessa toada, a alienação parental é abordada por alguns juristas pelo termo “implantação de falsas memórias”. Todavia, “a memória implantada ou a falsa memória é aquela baseada em fatos que jamais ocorreram. São memórias baseadas em sugestionamento e informações enganosas.” (ULLMANN, 2013, p. 1). O termo utilizado, na verdade, se trata de uma síndrome, assim como a SAP. Entretanto, nem mesmo as síndromes se confundem, conforme os ensinamentos de Jorge Trindade citado por Velly (2010, p. 1):
[...] a Síndrome das Falsas Memórias configura uma alteração da função mnêmica (desenvolvimento da memória), enquanto a Síndrome da Alienação Parental é um distúrbio do afeto, que se expressa por relações gravemente perturbadas, podendo, de acordo com a intensidade e a persistência, incutir
falsas memórias, sem que, entretanto, ambas estejam diretamente correlacionadas.
Na síndrome da alienação parental pode ser utilizada, eventualmente, a implantação de falsas memórias, “mas o objetivo é afetivo, é programar uma criança para que odeie, sem justificativas, um de seus genitores, decorrendo daí que a própria criança contribui na trajetória de campanha de desmoralização.” (VELLY, 2010, p. 1).
Portanto, inconfundível a distinção entre as duas síndromes, em que a “de Falsas memórias, como o próprio nome já diz, se ocupa de processos mnêmicos e a da Alienação Parental se ocupa do afeto, na desconstrução deste afeto.” (VELLY, 2010, p. 1).
No que tange à conceituação dada pela legislação brasileira ao instituto da alienação parental, mediante o advento da Lei nº 12.318/2010, vê-se que a legislação em nenhuma oportunidade tratou de síndrome (caracterizada por um conjunto de sintomas e manifestações), mas tão somente do ato de alienação parental, exemplificando condutas alienadoras. Justifica-se a atitude do legislador no intuito de inibir a prática do alijamento antes mesmo de se poder constatar no infante a existência da síndrome. Nos dizeres de Silva (2012, p. 1), a “lei [...] tratou de prática de “ato de alienação parental” e o fez propositalmente com o objetivo de que a constatação e o enfrentamento da alienação parental se deem muito antes de instaurada uma síndrome.”
Portanto, a alienação parental se traduz em ato do alienador, com o escopo de afastar o menor, mediante campanha de desmoralização da imagem do outro genitor, do convívio com o alienado.
Diante desta realidade, surge o questionamento: o que leva um genitor a querer que o(s) filho(s) se afaste(m) do convívio com o outro pai, mesmo sabendo da existência de amor, respeito e carinho entre eles? E quais as consequências deste afastamento? É o que se verá a seguir.
1.2 Causas e consequências
Os motivos que levam um genitor a promover a alienação parental são bastante diversificados, entretanto, quase sempre resultam do fato do genitor alienante tratar-se de pessoa egoísta ou que esteja motivada pelo ressentimento, pelo espírito de vingança ou inveja.
Sobre o assunto, pertinente as lições de Fonseca (2006, p. 1):
Muitas vezes o afastamento da criança vem ditado pelo inconformismo do cônjuge com a separação; em outras situações funda-se na insatisfação do genitor alienante, ora com as condições econômicas advindas do fim do vínculo conjugal, ora com as razões que conduziram ao desfazimento do matrimônio, principalmente quando este se dá em decorrência de adultério e, mais frequentemente, quando o ex-cônjuge prossegue a relação com o parceiro da relação extra-matrimonial. Nesse último caso, o alijamento dos filhos de um dos pais resulta de um sentimento de retaliação por parte do ex-cônjuge abandonado que entrevê, na criança, o instrumento perfeito da mais acabada vindita.
A referida autora argumenta que, não raras vezes, a alienação apresenta-se diante do desejo de posse exclusiva do genitor alienante sobre os filhos, no intuito de obter, com exclusividade, o amor daqueles, podendo ser motivada, também, pela solidão do alienante ou pela falta de confiança que o genitor titular da guarda nutre pelo ex-cônjuge para cuidar dos menores, proveniente, dentre outros fatores, do ódio nutrido pelo alienado (nos casos de adultério), aduzindo não ser ele digno de manter convívio e laços afetivos com a prole.
Menciona, ainda, que a dificuldade de relacionamento entre os genitores pode ser causa da alienação parental durante a constância da união conjugal e após o seu rompimento. Até mesmo a diversidade de estilos de vida pode ser motivadora do alijamento, nestes casos, a alienação ocorre em virtude do receio que tem o alienante de que o menor adote ou prefira o
modus vivendi por ele não adotado.
Em outras hipóteses, o fator determinante para a promoção da alienação é o econômico: o genitor alienante tem o propósito de obter retorno financeiro, ou até mesmo outros benefícios, à custa do afastamento da criança. Quando provocada pelo pai, pode ser levada a efeito para evitar o pagamento de pensão alimentícia, ou motivada pela necessidade de continuar mantendo o controle sobre a família (FONSECA, 2006, p. 1).
Nas palavras de Sandra Maria Baccara Araújo (2010, p. 1), “o que leva um genitor a causar tamanho dano emocional e psíquico a seu filho” se resume a três fatores:
1- A forma como a separação aconteceu e a representação inconsciente desta no imaginário do cônjuge que se sentiu “abandonado”, aliado a dificuldade de lidarem com a frustração, fruto de um processo educacional e social que os tem impedido de reconhecer o espaço e o direito do Outro [...] 2-A dificuldade de diferenciação de papéis (conjugal e parental) [...]. 3- Os novos papéis desempenhados pela mulher e pelo homem na sociedade e a forma como lidam com esta “novidade”[...].
Ademais, no que tange às consequências advindas da prática do afastamento físico e/ou psicológico da criança ou adolescente em relação ao pai alienado, quando alcançado o objetivo do genitor alienador pode surgir daí efeitos devastadores no menor vítima desta alienação. Em algumas hipóteses, há o aparecimento da síndrome da alienação parental (SAP) no menor alienado, o que vêm a lhe prejudicar na fase adulta.
Nesse sentido, destaca-se que a síndrome da alienação parental, conforme os ensinamentos de Gardner, citado por Araújo (2010, p. 1), manifesta-se em três estágios: o leve, o moderado e o agudo. Vejamos:
Estágio leve – quando nas visitas há dificuldades no momento da troca dos genitores; Estágio moderado – quando o genitor alienante utiliza uma grande variedade de artifícios para excluir o outro; Estágio agudo – quando os filhos já se encontram de tal forma manipulados que a visita do genitor alienado pode causar pânico ou mesmo desespero.
Em suas lições, Gardner (2002, p. 3) preceitua que “a SAP é caracterizada por um conjunto de sintomas que aparecem na criança geralmente juntos, especialmente nos tipos moderado e severo.” Referindo-os:
1. Uma campanha denegritória contra o genitor alienado.
2. Racionalizações fracas, absurdas ou frívolas para a depreciação. 3. Falta de ambivalência.
4. O fenômeno do “pensador independente”.
5. Apoio automático ao genitor alienador no conflito parental.
6. Ausência e culpa sobre a crueldade e/ou a exploração contra o genitor alienado.
7. A presença de encenações “encomendadas”.
8. Propagação de animosidade aos amigos e/ou à família extensa do genitor alienado. (GARDNER, 2002).
Constatada a SAP, o resultado desse processo se traduz em profundo sentimento de desamparo na criança, criando na mesma um grito de socorro que não é ouvido. Esse grito acaba se transformando em sintoma, que poderá ser expresso tanto no corpo por um processo de somatização1, quanto por um comportamento anti-social (ARAÚJO, 2010, p. 1).
Portanto, quando não verificada a ocorrência da alienação parental no momento adequado e inibida a conduta, há o surgimento da Síndrome da Alienação Parental, trazendo inevitáveis consequências na formação do menor alienado, conforme nos ensina Denise Maria Perissini da Silva (2003, p. 1):
Os efeitos nas crianças vítimas da síndrome de alienação parental podem ser: depressão crônica, incapacidade de adaptar-se aos ambientes sociais, transtornos de identidade e de imagem, desespero, tendência ao isolamento, comportamento hostil, falta de organização, consumo de álcool e/ou drogas e algumas vezes suicídios ou outros transtornos psiquiátricos. Podem ocorrer também sentimentos incontroláveis de culpa quando a criança, quando adulta, constata que foi cúmplice inconsciente de uma grande injustiça ao genitor alienado.
No mesmo viés, são as palavras de Trindade, citado por Camila Stella Maggioni Pastori (2011, p. 69):
Porém, numa sociedade que aceita as patologias do corpo, mas não os problemas da existência, a única via possível de expressar os conflitos emocionais se dá em termos de enfermidade somática e comportamental. Esses conflitos podem aparecer na criança sob a forma de ansiedade, medo e insegurança, isolamento, tristeza e depressão, comportamento hostil, falta de organização, dificuldades escolares, baixa tolerância à frustração, irritabilidade, enurese, transtorno de identidade ou de imagem, sentimento de desespero, culpa, dupla personalidade, inclinação ao álcool e às drogas e, em casos mais extremos, idéias ou comportamentos suicidas.
Adotando o mesmo posicionamento, Fonseca (2006, p. 1) preleciona que:
1 O termo somatização foi criado em 1943 por Stekel para definir um “distúrbio corporal que surge como
expressão de uma neurose profundamente assentada, uma doença do inconsciente”. Na literatura médica, diversos autores usam o termo “somatização” com significados variados, muitos chegando a usá-lo como sinônimo de histeria e de conversão. Na verdade, o termo deriva da conceituação original da conversão, feita por Freud, e dos estudos sobre a histeria feitos inicialmente pelo médico francês Pierre Briquet, em 1859. De forma didática, podemos operacionalizar e entender o termo somatização de quatro formas: como sintomas somáticos ou queixas físicas inexplicáveis; como preocupação somática excessiva ou hipocondríaca; como apresentação somática clínica de um transtorno de humor, de ansiedade ou outro transtorno mental; como sintomas somáticos no contexto de uma síndrome clínica funcional (fibromialgia, cólon irritável, fadiga crônica).
[...] os principais efeitos da referida síndrome são aqueles correspondentes às perdas importantes (morte de pais, familiares próximos, amigos etc). Como decorrência, a criança passa a revelar sintomas diversos: ora apresenta-se como portadora de doenças psicossomáticas, ora mostra-se ansiosa, deprimida, nervosa e, principalmente, agressiva. Os relatos acerca das conseqüências da síndrome da alienação parental abrangem ainda a depressão crônica, transtornos de identidade, comportamento hostil, desorganização mental e às vezes suicídio. É escusado dizer que, como toda conduta inadequada, a tendência ao alcoolismo e ao uso de drogas também é apontada como conseqüência da síndrome.
Portanto, diante da gravidade desta conduta e dos efeitos que ela pode gerar, considera-se a prática da alienação parental comportamento reprovável e abusivo, que agride os direitos da criança e do adolescente, assim como os atos abusivos de cunho sexual ou físico.
1.3 Características
A alienação parental possui características que a identificam e diferenciam de outras situações existentes em núcleos familiares conturbados, sendo muitas vezes confundida com outros institutos (como o do Ambiente Familiar Hostil, por exemplo).
No entanto, conforme os ensinamentos de Marco Antônio Garcia de Pinho (2010, p. 02),
[...] a Alienação está ligada a situações envolvendo a guarda de filhos ou caso análogo por pais divorciados ou em processo de separação litigiosa, ao passo que o AFH seria mais abrangente, fazendo-se presente em quaisquer situações em que duas ou mais pessoas ligadas à criança ou ao adolescente estejam divergindo sobre educação, valores, religião, sobre como a mesma deva ser criada, etc.
O autor menciona, ainda, que uma das principais diferenciações feita pela doutrina internacional, em relação aos dois institutos, residiria no fato de que o Ambiente Familiar Hostil “[...] estaria ligado às atitudes e comportamentos, às ações e decisões concretas que afetam as crianças e adolescentes, ao passo que a Síndrome da Alienação Parental se veria relacionada às questões ligadas à mente, ao fator psicológico.” (PINHO, 2010, p. 03).
Todavia, diferentemente das demais condutas, a alienação parental, a partir do ano de 2010, passou a sofrer controle judicial, mediante o advento da Lei nº. 12.318/2010. A legislação, em seu art. 2º, refere que não só os genitores podem ser sujeitos ativos desta
prática. Além deles, vê-se que os avós podem ser alienadores, bem como as pessoas que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância. Ademais, não restará evidenciada a conduta alienadora quando a mesma for praticada pelos sujeitos ativos no sentido de evitar a convivência do menor com pessoa que não é genitor ou familiar seu, como, por exemplo, algum amigo da família. Vejamos:
[...] a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este. (BRASIL, 2010).
Além disso, o parágrafo único do artigo mencionado refere, de forma exemplificativa, algumas condutas que caracterizam a alienação parental, rol este que será abordado com maior ênfase no próximo capítulo.
No Brasil, a alienação parental normalmente é realizada pela mãe. Conforme ressaltado por Pinho (2009, p. 1), os índices de “genitoras alienantes” no país são altíssimos, de quase 100%, uma vez que, em cerca de 90% dos casos, as guardas ficam com as mães e não com os pais.
Nesse mesmo sentido, Euclydes de Souza (2003, p. 1) revela que, conforme pesquisa realizada pelo IBGE, no ano de 2002, as varas de família agraciam as mulheres, com a guarda dos filhos, em aproximadamente 91% dos casos. Portanto, é de se concluir que a maior incidência de casos de alienação parental é causada pelas mães, podendo, todavia ser causada pelo pai, dentro dos 9% restantes.
Entretanto, Silva, citada por Caroline de Cássia Francisco Buosi (2011, p. 67), salienta que
Mesmo com esse alto índice, diversos casos comprovam que pais, avós, tios, amigos de família e até mesmo um profissional com uma postura antiética como um psicólogo, assistente social ou advogado envolvido no caso, qualquer um desses pode ser o instaurador da síndrome, desde que interessado, por algum motivo, na destruição familiar, passando a dar conselhos e a relatar situações insensatas à criança.
Ainda, Araújo (2010, p. 1) nos ensina que, pesquisas realizadas apontam que a alienação parental ocorre frequentemente em núcleos familiares cuja dinâmica funcional é muito perturbada e que são comandados pela mãe.
Aduz, ainda, a mencionada autora:
Acredito que este processo seja parte da doença psíquica do membro alienador, que eclode com a separação e que, quando submetido a exames psíquicos, seja possível distinguir em sua história diversos elementos que poderiam prever este tipo de resposta diante da frustração. Geralmente são pessoas que em sua história familiar foram privados da possibilidade de reconhecerem a existência do outro como Sujeito e com isso não aprenderam a respeitá-lo como possuidor de espaço psíquico e emocional. São frutos de uma educação que não lhes deu o limite necessário que lhes possibilitasse construir noções de ordem, valor e normas morais e sociais. Ao verem-se privados de seu “brinquedo” fazem “birra” com o “brinquedo” que têm a mão, ou seja, com os filhos, porque sabem que estes, usados como armas, atingirão o seu oponente no que ele ama. (ARAÚJO, 2010, p. 1).
Destarte, vê-se que as principais características do alienador, na maioria dos casos, são: ser figura superprotetora, não respeitar sentenças judiciais, ser controlador, possuir dificuldade de reconhecer seus filhos como seres separados de si, entre outras. Neste último caso, Silva (2003, p. 1) ressalta que o “resultado disso é que seu objetivo consiste em deter o controle total sobre eles (filhos), e destruir a relação deles com o genitor ausente.”
Segundo Trindade, citado por Marília Souza de Lima (2009, p. 1), alguns tipos de comportamentos e traços de personalidade são denotativos de alienação, podendo auxiliar na identificação do perfil de um genitor alienador, como por exemplo:
[...] dependência, baixa auto-estima, condutas de não respeitar as regras, hábito contumaz de atacar as decisões judiciais, litigância como forma de manter aceso o conflito familiar e de negar a perda, sedução e manipulação, dominação e imposição, queixumes, histórias de desamparo ou ao contrário de vitórias afetivas, resistência a ser avaliado e resistência, recusa ou falso interesse pelo tratamento.
Evidenciado o abuso moral contra a criança vítima da alienação, o ordenamento jurídico brasileiro estabeleceu, no art. 6º da Lei nº 12.318/2010, punições que podem ser aplicadas ao genitor alienante, inclusive de forma cumulada, levando em conta a gravidade dos procedimentos adotados por este para atingir o seu objetivo. As medidas corretivas serão
abordadas no próximo capítulo, sendo que a mais grave delas impõe a suspensão da autoridade parental do genitor alienante.
Ademais, salienta-se que a alienação parental não é prática realizada exclusivamente em casos de ruptura da vida conjugal, não sendo esta uma característica desta conduta já que pode ser levada a efeito na constância do matrimônio, em que pese ocorrer com maior frequência naqueles casos.
Adiante, serão abordados os aspectos materiais da legislação em vigor, Lei nº 12.318/2010, que trata sobre a alienação parental, as condutas caracterizadoras, os meios probatórios, as medidas a serem aplicadas pelo Poder Judiciário para coibir a prática do alijamento, entre outras questões.
2 ASPECTOS MATERIAIS
Com o advento da Lei nº 12.318, no ano de 2010, o tema da alienação parental passou a ser reconhecido pela sociedade, em que pese à prática de tal conduta remontar a tempos que não se sabe precisar, tratando-se de problema muito antigo. Em seu bojo, a legislação trata da alienação parental com evidente caráter preventivo, a fim de que não venha a surgir na criança/adolescente, vítima deste alijamento, a síndrome da alienação parental. Nesse sentido, vê-se que o objetivo principal da legislação é o de resguardar direitos fundamentais dos menores, como o da convivência familiar saudável, já que a prática do ato alienador se traduz, indubitavelmente, em abuso moral contra a criança ou adolescente, conforme o próprio art. 3º da lei preleciona.
Além disso, diante dos graves danos que a conduta alienadora pode gerar, tanto no menor quanto no genitor alienado, o texto legal, em seu art. 4º, refere que havendo indícios de alienação parental, o juiz determinará as medidas necessárias para a preservação da integridade psicológica da criança ou do adolescente, podendo assegurar, inclusive, a garantia da convivência do menor com o genitor ou viabilizar a reaproximação entre ambos. Nesse sentido, nas palavras de Cristina Sanches Gomes Ferreira (2012, p. 30), “[...] é justamente a desnecessidade de cabal comprovação de tais práticas (mas de apuração de indícios) o que proporciona à lei caráter efetivo e célere contra a perpetuação da alienação parental.”
A partir disso, constatamos que o poder Judiciário assume papel de grande relevância na vida dos envolvidos, já que a decisão a ser tomada, que poderá ser auxiliada por perícias elaboradas por profissionais qualificados (psicológica ou biopsicossocial), refletirá na reaproximação entre pais e filhos, ou acabará, de vez, por tornar o menor um órfão de pai vivo.
Dessa forma, a problemática familiar envolvendo a alienação parental, suas consequências, além da existência de uma legislação efetiva, devem ser questões abordadas com maior ênfase na sociedade, no intuito de possibilitar o esclarecimento e a compreensão deste fenômeno, facilitando o seu diagnóstico precoce, já que com a popularização do tema “[...] os próprios “possíveis” atuantes de tal prática, conhecedores das penalidades prescritas na lei e de suas nefastas consequências na vida dos menores, poderão reavaliar sua postura [...]” (FERREIRA, 2012, p. 25).
Para tanto, devemos conhecer o cenário em que se dará tal conduta, no caso, em situações de dissolução da sociedade conjugal, bem como os seus agentes, a fim de identificar o genitor alienador e o(s) alienado(s).
2.1 Sujeitos envolvidos
Para a compreensão da dinâmica deste fenômeno, faz-se necessária a identificação dos agentes. Assim, conforme referido por Araújo (2013, p. 1), “[...] o agente ativo será discriminado na condição de genitor guardião e/ou alienador – aquele que detém a guarda do filho; e, o agente passivo será identificado como genitor e/ou alienado – aquele que é vítima da alienação.”
A referida autora ressalta, ainda, que “[...] o filho é também identificado como alienado, sendo a maior e principal vítima da Alienação Parental.”
Entretanto, em que pese a prática da alienação parental se manifestar, na maioria das vezes, entre ex-cônjuges, visando o afastamento do genitor não guardião do convívio com a prole, a legislação objeto do estudo, em seu art. 2º, aponta que o sujeito ativo deste fenômeno pode ser, além de um dos genitores, os avós, ou quem detenha a criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância.
Sobre o assunto, convém trazer à baila jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, admitindo a ocorrência de alienação parental perpetrada pelos avós:
Ementa: AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE GUARDA. INDÍCIOS DE ALIENAÇÃO PARENTAL. Merece ser mantida a decisão que deferiu a guarda provisória do menor ao pai, ante a conclusão do laudo pericial de que a família materna apresenta comportamento inadequado com o filho, tentando impor falsas verdades. VISITAÇÃO MATERNA. Necessidade de assegurar a visitação materna com acompanhamento, a fim de preservar os laços afetivos entre mãe e filho. Agravo de instrumento parcialmente provido. (RIO GRANDE DO SUL, 2014).
O referido julgado traz em seu bojo, o voto do Desembargador relator Jorge Luís Dall’Agnol, o qual adota como razões de decidir o parecer psicológico realizado com o menor
e seus familiares maternos e paternos. Nesse contexto, o relator transcreve parte do laudo, o qual informa que no acompanhamento realizado “[...] aparecem indícios de que a família materna possa estar alienando N. da convivência com sua família paterna. Podendo desta forma estar se configurando uma situação de Alienação Parental”.
Ademais, antes mesmo do advento da Lei nº 12.318/10, o Tribunal de Justiça Gaúcho já analisava as questões familiares sobre a ótica da alienação parental, caracterizando aos progenitores como agentes ativos dessa conduta. Vejamos:
Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. MÃE FALECIDA. GUARDA
DISPUTADA PELO PAI E AVÓS MATERNOS. SÍNDROME DE ALIENAÇÃO PARENTAL DESENCADEADA PELOS AVÓS. DEFERIMENTO DA GUARDA AO PAI. 1. Não merece reparos a sentença que, após o falecimento da mãe, deferiu a guarda da criança ao pai, que demonstra reunir todas as condições necessárias para proporcionar a filha um ambiente familiar com amor e limites, necessários ao seu saudável crescimento. 2. A tentativa de invalidar a figura paterna, geradora da síndrome de alienação parental, só milita em desfavor da criança e pode ensejar, caso persista, suspensão das visitas aos avós, a ser postulada em processo próprio. NEGARAM PROVIMENTO. UNÂNIME. (RIO GRANDE DO SUL, 2014).
Neste viés, Ferreira (2012, p. 30) concluiu que “[...] podem ser os agentes da prática não apenas os pais como qualquer indivíduo responsável pela prole em dado e pontual momento, como uma babá ou ente familiar”.
Reforçando esta tese, Dias (2011, p. 463) refere que
Este fenômeno manifesta-se principalmente no ambiente da mãe, devido à tradição de que a mulher é mais indicada para exercer a guarda dos filhos. Entretanto, ela pode incidir em qualquer um dos genitores e, num sentido mais amplo, pode ser identificada até mesmo em outros cuidadores.
Dessa forma, qualquer pessoa que tenha convívio com a criança/adolescente pode se tornar alienador.
No que tange ao sujeito passivo, o já mencionado artigo 2º da Lei nº 12.318/10, preleciona que:
Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este. (BRASIL, 2010).
Da leitura de tal dispositivo, tem-se que o agente passivo deste fenômeno é, tão somente, o genitor alienado. Entretanto, pode ser caracterizada a alienação parental quando houver, dolosamente, a impossibilidade de convivência e criação de laços afetivos em relação aos avós ou parentes da criança/adolescente, o que vêm sendo admitido tanto pela jurisprudência quanto pela doutrina. Vejamos:
Ementa: AGRAVO INTERNO. DECISÃO MONOCRÁTICA. AGRAVO DE INSTRUMENTO. REGULAMENTAÇÃO DE VISITAS. AVÓ MATERNA. INTERESSE DA CRIANÇA. 1. Comporta decisão monocrática o recurso que versa sobre matéria já pacificada no Tribunal de Justiça. Inteligência do art. 557 do CPC. 2. O convívio da criança com os avós é, em regra, saudável e, no caso, é até necessário para preservar os vínculos afetivos com avó materna. 3. Se o sistema de visitação está regulado de forma a atender o interesse e as conveniências da infante, sem prejudicar o convívio com a genitora, de forma a estabelecer um vínculo saudável com a avó, mostra-se totalmente descabida a resistência da mãe, que tangencia uma situação de alienação parental. Recurso desprovido. (RIO
GRANDE DO SUL, 2014).
Vê-se, portanto, que o alijamento não se dá somente entre genitor guardião e não guardião. A alienação parental, conforme aduz Ferreira (2012, p. 20), pode ser perpetrada “contra membro familiar querido do menor, que, ao ver-se cada vez mais afastado deste [...] poderá recorrer à lei em voga e reivindicar suas prerrogativas.”
Corroborando tal entendimento, Dias (2011, p. 463), explica que o alienador pode ser o pai, em relação à genitora do menor, ou seu companheiro, e que “pode ser levada a efeito frente aos avós, tios ou padrinhos e até entre irmãos. Muitas vezes ocorre quando ainda o casal vive sob o mesmo teto.”
Assim sendo, qualquer familiar privado do convívio, da criação de laços afetivos com o menor, estará sendo vítima de alienação parental.
Por fim, cumpre salientar que, além dos agentes ativos e passivos, alienador e alienado, respectivamente, podemos dizer que o menor, que também é vítima nesta situação, pode ser igualmente chamado de alienado.
2.2 Condutas alienadoras
Identificados os sujeitos desta relação, cumpre ressaltar que, visando alcançar o seu objetivo de rompimento do vínculo existente entre o menor e o alvo, o alienador usa de artifícios e manobras para obstaculizar a convivência familiar e a criação de laços afetivos entre aqueles.
A Lei nº 12.318/10, em seu art. 2º, parágrafo único, previu um rol exemplificativo de condutas que caracterizam o alijamento, ressaltando, todavia, que o Magistrado pode declarar a existência de alienação parental diante da prática de outros atos que evidenciarem o desrespeito ao direito à convivência familiar entre as partes ou os direitos da criança e/ou adolescente envolvido no caso. Assim, deve ser analisado o caso concreto, não sendo descartada pela legislação a hipótese de ser usado um terceiro para implementar a campanha desabonadora em desfavor do cônjuge alienado.
Nesse sentido, no que tange à participação de terceiros na conduta de alienação, relevante a transcrição do julgado do Tribunal de Justiça Gaúcho, no qual restou evidenciada a participação de uma clínica de terapia, onde a menor alienada realizava tratamento psicológico, que, juntamente com a genitora da menina, realizava campanha de desmoralização em desfavor do pai. Vejamos:
Ementa: AGRAVO DE INSTRUMENTO. FAMÍLIA.
REGULAMENTAÇÃO DE VISITAS. DETERMINAÇÃO JUDICIAL DE VISITAÇÃO DO PAI À FILHA. IMPEDIMENTO PELA GENITORA COM APOIO DA CLÍNICA NA QUAL A MENINA REALIZADA TRATAMENTO. PEDIDO DE CESSAÇÃO DO TRATAMENTO NESTA CLÍNICA. POSSIBILIDADE. Verificado que a clínica, na qual a menina realiza tratamento há mais de quatro anos, além de estimular a ocorrência de abuso sexual pelo genitor, abuso este já afastado em ação própria transitada em julgado com base em diversos laudos periciais, não consegue reaproximar o genitor da menina, afastando-os cada vez mais com o apoio e incentivo da genitora, deve o tratamento na referida instituição ser cessado, a fim de que, após sugeridos outros profissionais por ambas as partes e com a avaliação do corpo técnico do juizado, o magistrado possa decidir qual o melhor tratamento a ser seguido pela criança. Com isto, visa-se a impedir a
alienação parental que vem sofrendo a menina, mesmo após quatro anos da decisão que manteve o genitor com o poder familiar, determinando a visitação que vem sendo obstaculizada pela genitora com o apoio da clínica na qual a criança ainda realiza o tratamento. AGRAVO PROVIDO EM PARTE. (RIO GRANDE DO SUL, 2014).
O parágrafo único do mencionado artigo refere sete formas exemplificativas de alienação parental, as quais serão pontuadas a seguir.
A disposição do inciso I informa que se traduz em conduta de alijamento “realizar campanha de desqualificação da conduta do genitor no exercício da paternidade ou maternidade;” (BRASIL, 2010).Esta situação é corriqueira entre casais em que a separação se deu em virtude de traição, estando cercada de mágoas e ressentimentos. Nestes casos, as divergências entre as partes tornam-se insuperáveis, o que resulta em agressões mútuas e das mais variadas formas. Neste impasse, entra a figura do filho, como espécie de arma para atingir o outro cônjuge, oportunidade em que o alienador tece comentários negativos em relação ao outro genitor, no sentido de que o outro não sabe cuidar do menor, que não paga a pensão alimentícia no dia determinado, e que, portanto, não estaria preocupado com a subsistência da criança, etc.
Em relação à segunda hipótese, quanto ao fato do alienador “dificultar o exercício da autoridade parental” (BRASIL, 2010), é sabido que mesmo quando há o deferimento da guarda dos rebentos a um dos cônjuges o outro continua exercendo o poder familiar. Todavia, o alienador tenta retirar esse direito do genitor alienado, excluindo-o da vida da prole, mediante a privação daquele de interferir em escolhas importantes na vida da criança.
Também, “dificultar contato de criança ou adolescente com genitor;” (BRASIL, 2010), é considerada conduta alienadora que se refere às situações em que o genitor alienador tenta impedir o contato do filho com o outro pai, como, por exemplo, mediante a interceptação de telefonemas, presentes, cartas, etc.
Nesse mesmo ínterim, pode caracterizar alienação parental “dificultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar;” (BRASIL, 2010), ocorrendo nas hipóteses em que o alienador intenta prejudicar o direito conferido ao outro genitor, controlando o horário de visitação e até mesmo descumprindo-o através da apresentação de óbice para a retirada dos menores do lar, mediante a criação de doenças falsas, compromissos de última hora, etc.
Quanto a esta prática, já houve decisão do Tribunal de Justiça do nosso Estado, no sentido de alterar a guarda da menor, conferindo-a ao pai, diante da necessidade de atendimento dos interesses da criança/adolescente:
Ementa: AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE GUARDA. EXECUÇÃO DE SENTENÇA. GUARDA REVERTIDA EM FAVOR DO
GENITOR. FIXAÇÃO DE VISITAS MATERNAS COM
ACOMPANHAMENTO. ALIENAÇÃO PARENTAL CONFIGURADA. DECISÃO MANTIDA. Agravo de instrumento desprovido. (RIO GRANDE DO SUL, 2014).
Em seu voto, o desembargador Jorge Luís Dall’Agnol referiu:
A decisão está correta e não comporta reparo, uma vez que restou evidenciado nos autos a reiterada resistência da agravante em relação ao direito de visitas assegurado ao agravado, que foi privado de manter contato com a filha repetidas vezes, com inegável prejuízo em desfavor da menor, que teve dificultado o contato com o genitor, estando caracterizada situação de alienação parental.
Ademais, a redação do inciso V refere que também pode caracterizar o alijamento “omitir deliberadamente a genitor informações pessoais relevantes sobre a criança ou adolescente, inclusive escolares, médicas e alterações de endereço;” (BRASIL, 2010), o que revela que o genitor alienador não pode privar o outro de participar da vida do menor, devendo haver a participação de ambos na tomada das decisões que permeiam a vida da criança/adolescente.
A respeito deste inciso, imperiosa as lições de Paulo Eduardo Lépore e Luciano Alves Rossato (2010, p. 1):
Trata-se de uma espécie de alienação imprópria, isso porque, não há efetivamente um ato de interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos pais para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este, mas sim, uma omissão de informações sobre a vida da criança que impedem uma hígida manutenção do vínculo de afinidade e afetividade que deve existir entre a pessoa em desenvolvimento e seus pais. Se um dos pais não conhece o desempenho escolar, a situação médica e o correto paradeiro da criança, certamente os laços parentais tendem a se enfraquecer.
Outrossim, a conduta mais cruel adotada pelo alienador é a descrita no inciso VI, no sentido de “apresentar falsa denúncia contra genitor, contra familiares deste ou contra avós, para obstar ou dificultar a convivência deles com a criança ou adolescente;” (BRASIL, 2010).
Conforme ressalta Dias (2011, p. 463, grifo da autora),
Nesse jogo de manipulações, todas as armas são utilizadas, inclusive a assertiva de ter havido abuso sexual. O filho é convencido da existência de determinados fatos e levado a repetir o que lhe é afirmado como tendo realmente acontecido.
As falsas acusações de abuso sexual são recorrentes no Judiciário, gerando situações delicadas, pois,
De um lado, há o dever do magistrado de tomar imediatamente uma atitude e, de outro, o receio de que, se a denúncia não for verdadeira, traumática a situação em que a criança estará envolvida, pois ficará privada do convívio com o genitor que eventualmente não lhe causou qualquer mal e com quem mantém excelente convívio. Mas, como o juiz tem a obrigação de assegurar proteção integral, de modo frequente reverte a guarda ou suspende as visitas e determina a realização de estudos sociais e psicológicos. Como esses procedimentos são demorados – aliás, fruto da responsabilidade dos profissionais envolvidos -, durante todo este período cessa a convivência
entre ambos. (DIAS, 2011, p. 463).
Nasce daí a dificuldade de identificar a existência do fato que gerou a denúncia ou de que a criança/adolescente e o genitor estão sendo vítimas de alienação parental por parte do denunciante.
No que tange a esta conduta, Lépore e Rossato (2010, p. 1) ressaltam:
Essa hipótese também pode ser vista como alienação parental imprópria, mas que pode gerar outras consequências ao sujeito ativo, como, por exemplo, a responsabilização criminal pela prática de conduta configuradora de calúnia, difamação ou falsa comunicação de crime.
Como última forma exemplificativa de alienação parental, o parágrafo único do artigo supramencionado, em seu inciso VII, refere que se caracteriza prática de alienação parental “mudar o domicílio para local distante, sem justificativa, visando a dificultar a convivência da criança ou adolescente com o outro genitor, com familiares deste ou com avós.” (BRASIL, 2010).
Nesse diapasão, poderá ser caracterizada conduta de alijamento quando houver, dolosamente, a impossibilidade de convivência e criação de laços afetivos entre a criança e seus parentes ou avós. Cumpre referir, no entanto, que o genitor que possui a guarda poderá alterar o domicilio, levando o menor consigo. No entanto, conforme ressalta Júnior (2010, p. 63), “[...] se essa mudança for dolosamente com o deliberado interesse de privar o genitor da convivência dos filhos, haverá a alienação parental.”
Frente a essas condutas, torna-se imperioso salientar que, conforme refere Caetano Lagrasta Neto, citado por Júnior (2010, p. 58),
a criança submetida a abuso emocional não escapará durante a vida às sequelas ou à instalação de moléstia crônica – ao contrário do que, algumas vezes, ocorre com os abusos sexuais ou físicos, nada obstante chamem estes de forma doentia a atenção da mídia e do público politicamente alienado.
Portanto, vê-se que o dano emocional causado no menor não é levado em consideração pelo alienador quando do implemento de tais condutas, o que deve ser sopesado pelo Judiciário quando da aplicação de medidas visando coibir tal prática, haja vista que a violência emocional pode causar prejuízos semelhantes ou maiores do que a própria violência física ou sexual.
Diante disso, é imprescindível o diagnóstico precoce e a identificação de indícios da alienação parental, a fim de se evitar um afastamento, por vezes até involuntário, do vínculo existente entre pais/parentes e a criança/adolescente.
Logo, no intuito de facilitar o diagnóstico desta conduta, a legislação sobre a temática tratou de referir os meios pelos quais poderão ser comprovados indícios da prática de alienação parental, bem como as medidas a ser adotadas nos casos em que restar confirmado o alijamento.
2.3 Meios probatórios e medidas corretivas
Quando da existência de condutas alienadoras, o familiar prejudicado deve recorrer ao Judiciário, a fim de que as mesmas sejam identificadas e reprimidas, evitando a ocorrência de
maiores danos às partes envolvidas. Na prática, todavia, em face de que as condutas alienadoras se efetivam, na maior parte das vezes, através de comportamentos sutis, a prova de sua ocorrência na seara jurídica se mostra difícil. À vista disso, a legislação tratou de apontar os meios probatórios a serem utilizados neste intento.
O art. 4º da Lei de Alienação Parental deixa claro que não há necessidade de demonstração da inequívoca ocorrência do alijamento para ser iniciado o processo ou o incidente processual, que terá tramitação prioritária, necessitando, para tanto, a mera existência de indícios da ocorrência desta prática, e poderá ser requerido pela parte, Ministério Público e até mesmo pelo Magistrado, de ofício.
Diante destas evidências, o mencionado artigo revela que o Juiz determinará as “medidas provisórias necessárias para preservação da integridade psicológica da criança ou do adolescente, inclusive para assegurar sua convivência com genitor ou viabilizar a efetiva reaproximação entre ambos, se for o caso.” (BRASIL, 2010).
Importante salientar, que o direito a convivência pode ser descumprido tanto pelo genitor detentor da guarda quanto pelo não guardião, este desencorajado pelos empecilhos e limitações criadas pelo alienador, conforme entendimento de Duarte (2010, p. 1), que assevera:
No primeiro caso, o genitor guardião, de forma abusiva, usa de todos os meios para impedir o outro de manter o contato, criando obstáculos os mais absurdos para cercear sua convivência com o filho. No segundo caso, o genitor não guardião, comete o abandono parental (desestimulado pela dificuldade do contato), descumprindo o que ficou estipulado no acordo ou na decisão judicial, deixando de conviver com o filho, gerando neste expectativas e frustrações, além da sensação de abandono.
Quando as próprias vítimas evitam o contato, tem-se o ápice da alienação parental. Pois, para o pai a comunicação com o filho se torna algo doloroso, tendo em vista que o menor reproduz as inverdades que lhe foram ditas. E a criança, diante da ausência de convivência com o alienado, e acreditando na procedência das alegações do alienador, também se esquiva ao máximo da aproximação, vindo a legislação referida a viabilizar a reaproximação entre ambos.
Adiante, o parágrafo único do art. 4º da lei, assegura aos alienados, pai e menor, garantia mínima de visitação assistida, ressalvando, todavia, os casos em que iminente o risco de prejuízo à integridade física ou psicológica da criança ou do adolescente, o que deverá ser atestado por profissional.
Evidente, neste ponto, que deve ser analisado o caso concreto, para que não haja o afastamento do menor em relação ao genitor alienado com base em alegações infundadas, por parte do alienante, como ocorre nos casos em que há denúncia de abuso sexual, maus tratos, etc., já que, diante da gravidade das acusações, as mesmas não podem ser ignoradas, sendo, portanto, imprescindível para o esclarecimento dos fatos a atuação de profissionais capacitados.
Nas palavras de Ferreira (2012, p. 24),
O referido parágrafo visa a proteger pais ou parentes vítimas contra falsas denúncias até que efetivamente apurada a veracidade ou não da assertiva, o que representa outro avanço do texto legal em tela, porquanto cediço que muitas denúncias por assédio sexual de infantes são procedidas com intuito de obter-se a cessação das visitas entre prole e genitor até que apurada a veracidade ou não das assertivas, o que ocasiona delonga no trâmite processual.
Nesses casos, uma alternativa adotada pelo Judiciário da Capital do Estado do Rio Grande do Sul para a oitiva de crianças, evitando que elas sofram danos emocionais e psicológicos durante a fase probatória dos processos judiciais, em que figurem como vítimas ou testemunhas, é o “depoimento sem dano”.
Nas palavras de José Antônio Daltoé Cezar, citado por Vanessa Delfin Canabarro (2012, p. 18), tal modelo
busca identificar vários indícios no discurso lógico o qual é repassado para o papel e juntado aos autos do processo, com a gravação do áudio e vídeo, as emoções, o choro, a tristeza, a lágrima. Os gestos passaram a ser alvo de avaliação por parte daqueles que têm por missão produzir validamente as provas e com base nelas proferir uma decisão.
No mesmo viés, a dicção do art. 5º da legislação revela que, presentes indícios da prática de ato de alienação parental, o juiz determinará, quando necessário, a realização de perícia psicológica ou biopsicossocial.
Importa referir, que a avaliação a ser realizada leva em consideração uma gama de averiguações, as quais deverão ser feitas pelos profissionais designados para esta análise, não podendo a mesma ser efetivada com base, apenas, em entrevista com o menor ou com um dos genitores, ou análise pontual de determinada alegação ou circunstância, devendo, conforme aduz o § 1° do artigo referido, diante do caso específico,
ser realizada entrevista pessoal com as partes, exame de documentos dos autos, histórico do relacionamento do casal e da separação, cronologia de incidentes, avaliação da personalidade dos envolvidos e exame da forma como a criança ou adolescente se manifesta acerca de eventual acusação contra genitor. (BRASIL, 2010).
A legislação refere, também, que a perícia deverá ser realizada por profissional ou equipe multidisciplinar habilitados, exigindo aptidão comprovada através de histórico profissional ou acadêmico para diagnosticar atos de alienação parental.
Nos dizeres de Glicia Brasil (2014, p. 99),
a intervenção da equipe multidisciplinar é, na grande maioria dos casos, frustrante e limitada. Isso porque depende da transformação do ambiente em que está inserida a criança e na mudança das crenças e atitudes das pessoas envolvidas no processo de alienação parental. Por ser a alienação parental fruto de uma lógica adversarial que se instala na conjugalidade, a transformação desta lógica se consubstancia em um fenômeno complexo, que sofre os efeitos da decisão judicial e do trabalho realizado pela equipe multidisciplinar.
Nesse aspecto, é de se presumir que, tendo em vista a curta vigência da norma, que possui apenas 4 (quatro) anos, ainda não existam tantos profissionais habilitados quanto o necessário para a identificação e repressão da continuidade da conduta pelo alienador.
Outrossim, a legislação determina, no §3º do art. 5º, que os profissionais designados pelo juízo para a averiguação da ocorrência de alienação parental apresentem o laudo em 90 (noventa) dias, podendo este prazo ser prorrogado por autorização judicial baseada em justificativa circunstanciada. No entanto, diante da quantidade de demandas que aportam diariamente ao Judiciário, esta avaliação, muitas vezes, é analisada em oportunidade diversa pelo Magistrado ou apresentada em prazo superior ao determinado, sendo que este já
representa um lapso temporal bastante significativo, de três meses, contribuindo para a ruptura dos laços afetivos existentes entre o alienado e o menor.
Com ou sem a efetivação do laudo, sendo constatada a existência de atos de alienação parental ou, até mesmo, a obstaculização da convivência do menor com o genitor alienado, o Juiz poderá, de forma cumulativa ou não, aplicar medidas corretivas ao alienador, as quais estão descritas no art. 6º da Lei nº 12.318/2010 de forma exemplificativa.
Calha referir, neste sentido, que podem ser adotadas outras medidas pertinentes, sem prejuízo, porém, de o alienador ser responsabilizado civil e criminalmente pela prática de suas condutas, já que os alienados (genitor e menor) sofrem danos morais por parte do alienador, os quais são passíveis de responsabilização civil, em virtude da imagem denegrida ou até mesmo pela restrição de convívio com o filho, no que tange ao pai, ou pelo sentimento de abandono e consequente abalo a integridade psíquica e moral, em relação à criança/adolescente. Além disso, haverá a responsabilização criminal quando, por exemplo, o genitor alienador imputa ao alienado a prática de crime que jamais ocorreu.
Todavia, em que pese expresso na legislação, há controvérsia por parte da doutrina no que tange à indenização, nos dizeres de Rolf Madaleno, citado por Júnior (2010, p. 65), “o Direito de Família ainda não tem nenhuma simpatia para com a doutrina da responsabilidade civil [...].”
Adiante, em relação às medidas corretivas propriamente ditas, aduz o art. 6º da legislação, em seu inciso I, que o Magistrado poderá “declarar a ocorrência de alienação parental e advertir o alienador;” (BRASIL, 2010). Aqui, tem-se a aplicação de uma medida branda, que poderá ser realizada em audiência com as partes, caracterizando-se como um “puxão de orelha” no genitor alienador, advertindo-o sobre as consequências da continuidade desta prática.
O inciso II, do mesmo artigo, caminha no sentido de “ampliar o regime de convivência familiar em favor do genitor alienado;” (BRASIL, 2010). Destarte, a adoção de tal medida visa a reaproximação, o reestabelecimento dos laços afetivos entre as partes alienadas.
Outra medida elencada pela norma, em seu inciso III, é a estipulação de multa, tornando-se relevante salientar que tal imposição visa compelir o alienador ao cumprimento das determinações judiciais como, por exemplo, quando não houver a observação do acordo de visitação homologado judicialmente, mediante a atribuição de pena pecuniária por período de descumprimento, não tendo caráter indenizatório.
A legislação previu, ainda, no inciso IV do mesmo artigo, a determinação de acompanhamento psicológico e/ou biopsicossocial. Nesse sentido, diante da questão psicológica existente por trás da prática desta conduta, tem-se que o acompanhamento familiar por profissionais capacitados se tornou medida de grande valia, já que visa orientá-los no que tange às consequências da alienação, bem como na tentativa de amenizar os conflitos familiares existentes. O nosso Tribunal de Justiça já decidiu nesta linha:
Ementa: APELAÇÃO. AÇÃO DE ALTERAÇÃO DE GUARDA. TRATAMENTO PSIQUIÁTRICO OU PSICOLÓGICO. ALIMENTOS.
VISITAS. DISTRIBUIÇÃO DA SUCUMBÊNCIA. VALOR DE
HONORÁRIOS. Adequada a determinação sentencial de que o núcleo familiar se submeta a tratamento psiquiátrico ou psicológico, porquanto intenso o conflito vivenciado entre as partes, inclusive com bons indícios de alienação parental. Descabida a redução dos alimentos devidos pelo apelado à filha comum, porquanto não comprovada qualquer redução nas possibilidades dele. Ademais, a resolução da questão patrimonial (partilha) entre os litigantes, não guarda relação direta com os alimentos devidos pelo apelado à filha. Não há insurgência substancial da apelante em relação às visitas regulamentadas pela sentença, como ela mesma afirmou em suas razões recursais. Descabida a distribuição igualitária da sucumbência, porquanto o apelado sucumbiu em parte maior do que a apelante. A distribuição deve se dar na proporção de 70% - 30%. Viável majorar o valor dos honorários advocatícios, porquanto fixados pela sentença em valor diminuto, considerando o tempo de tramitação do processo, a natureza da causa, e a qualidade do trabalho desempenhado. DERAM PARCIAL PROVIMENTO. (SEGREDO DE JUSTIÇA). (RIO GRANDE DO SUL, 2014).
Na hipótese mencionada, o Desembargador relator, analisando a importância da determinação, referiu que “o litígio instaurado não terá fim se as partes não se conscientizarem dos prejuízos emocionais causados à filha, solução que certamente se obterá com mais rapidez se ocorrer acompanhamento profissional especializado.”
Ademais, o ordenamento jurídico previu a possibilidade do Magistrado “determinar a alteração da guarda para guarda compartilhada ou sua inversão;” (BRASIL, 2010).