UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
DHE- DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE PEDAGOGIA
A FORMAÇÃO DO LEITOR INFANTIL
ANGÉLICA ARACI BONES FERNANDES
IJUÍ (RS) 2016
ANGÉLICA ARACI BONES FERNANDES
A FORMAÇÃO DO LEITOR INFANTIL
Monografia apresentada ao Curso de Pedagogia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul- Unijuí, sobre A
Formação do Leitor Infantil, como requisito
para obtenção do título de graduada em Pedagogia.
Orientadora: Profª Ms. Lídia Inês Allebrandt
Ijuí (RS) 2016
A FORMAÇÃO DO LEITOR INFANTIL
ANGÉLICA ARACI BONES FERNANDES
Aprovada em 18 07 /2016.
BANCA EXAMINADORA
_________________________________________________ Profª Ms. Lídia Inês Allebrandt
Mestre em Educação pela UFSC
__________________________________________________ Profª Ms. Iselda Teresinha Sausen Feil
Mestre em Educação pela UFSM
AGRADECIMENTOS
Agradecer primeiramente a Deus pela vida e a oportunidade de realizar esse sonho de tornar-me graduada em Pedagogia. Agradecer também a minha mãe pela oportunidade de ter me dado a vida, pela paciência, empenho, dedicação, palavras de incentivo e educação que me deste. Esse diploma é teu, mãe!
Agradeço também aos demais familiares que sempre se empenharam a me ajudar quando necessário.
Agradeço também ao meu companheiro de vida, meu esposo, pela paciência, carinho e amor.
Agradeço a minha orientadora, pela paciência e empenho em me ajudar a escrever esse trabalho. A todos os colegas e mestres que tive durante o curso de Pedagogia, sem eles, com certeza, a jornada seria mais difícil e mais cansativa.
RESUMO
O tema proposto teve como foco principal aprofundar reflexões acerca das contribuições da literatura infantil na formação leitora da criança na primeira infância por meio das histórias ouvidas. Para tanto, definiram-se alguns dos objetivos: compreender e fundamentar teoricamente sobre o tema da literatura infantil; analisar o significado do ouvir e/ou ler textos literários infantis para as crianças que se encontram na Educação Infantil, no que se refere à sua formação e em que isso contribui na sua aprendizagem. Conhecer e descrever práticas pedagógicas que se desenvolvem com a literatura infantil em uma escola de Educação Infantil e analisar as implicações dessas práticas na formação e aprendizagem das crianças. Metodologicamente optou-se por um estudo de caso e, em razão disso, observaram-se crianças em situações de leitura e/ou contação de história, e também quando manuseavam ou liam livros. As crianças têm entre três e quatro anos de idade e frequentam uma Escola Municipal de Educação Infantil, turmas do Maternal II. Os estudos teóricos buscaram refletir sobre a educação infantil, a infância, o lúdico e a literatura infantil, considerando seu significado no desenvolvimento da criança. Nessa pesquisa, descrevemos algumas práticas literárias realizadas, analisamos os diálogos e refletimos. Finalizamos afirmando que a literatura infantil é fonte de aprendizagem e formadora de leitores infantis.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 6 2 INFÂNCIA E O MUNDO DA LITERATURA INFANTIL ... 8 3 LITERATURA INFANTIL, DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DA CRIANÇA MEDIADA PELO FAZ- DE-CONTA ... 14 4 PRÁTICAS LITERÁRIAS EM UMA ESCOLA DE EDUCAÇÃO INFANTIL ... 18 5 CONCLUSÃO ... 23
1 INTRODUÇÃO
A literatura infantil é uma produção cultural destinada à infância na qual se destacam duas linguagens: a verbal e a imagética e, por meio dela, a criança tem acesso à herança cultural que articula o mundo real e o imaginário. Em razão de seu valor, caráter lúdico, artístico e formativo, a sua presença na vida da criança, tanto em casa quanto na escola, é fundamental na sua constituição, desenvolvimento e aprendizagens, pois as práticas de ouvir, recontar e ler histórias contribuem para que passe apreciar a literatura e por meio dela a criança se faz leitora, aprende e compreende seus conflitos.
Em razão disso, o tema proposto para este estudo monográfico tem como foco principal aprofundar reflexões acerca das contribuições da literatura infantil na formação da criança na primeira infância por meio das histórias ouvidas. Para tanto, algumas questões foram levantadas: Por que contar ou ler histórias infantis na escola? Que sentidos são despertados na criança quando ela ouve ou lê histórias do seu jeito? Estes questionamentos contribuíram para definir alguns dos objetivos: compreender e fundamentar teoricamente sobre o tema da literatura infantil; analisar o significado do ouvir e/ou ler textos literários infantis para as crianças que se encontram na Educação Infantil, no que se refere à sua formação e em que isso contribui na sua aprendizagem. Conhecer e descrever práticas pedagógicas que se desenvolvem com a literatura infantil em uma escola de Educação Infantil e analisar as implicações dessas práticas na formação e aprendizagem das crianças.
Essa pesquisa se justifica no contexto de minha formação acadêmica, já que contribuirá para aprofundar estudos teóricos sobre a literatura infantil; bem como oportunizará conhecer práticas, metodologias de abordagem do texto literário na educação infantil que possibilitarão entendimentos sobre sua função na vida das crianças.
Metodologicamente optamos por um estudo de caso, pois esse tema se mostrou pertinente ao foco dessa pesquisa. Para tanto, realizamos algumas observações das crianças em situações de leitura e/ou contação de história, e também quando manuseiam e leem livros. Essas situações de leitura se deram por meio de diferentes formas de contação de história, varal, slides, livro, avental. Meios em que as crianças puderam interagir e se maravilhar com a história.
7 As crianças têm entre três e quatro anos de idade e frequentam uma Escola Municipal de Educação Infantil, turmas do Maternal II. Elas são calmas e tranquilas, e demonstram muito interesse ao ouvir histórias. Os personagens, as narrativas e o jeito de contar, chama muito a atenção delas.
No primeiro capítulo, fazemos uma breve teorização sobre o que traz a legislação sobre a educação infantil, sobre a infância, o lúdico e a literatura infantil. Já no segundo capítulo, abordamos sobre a literatura infantil e o desenvolvimento da criança, trazendo conceitos e teorizando os mesmos. No terceiro capítulo, descrevemos as práticas literárias na Educação Infantil, o relato das práticas, analisando os diálogos e teorizando, com base em alguns autores que tratam desse assunto. Nas considerações finais apontamos para a literatura infantil como fonte de aprendizagem e formadora de leitores infantis, afinal a criança que cresce lendo e ouvindo histórias, se torna um adulto leitor.
2 INFÂNCIA E O MUNDO DA LITERATURA INFANTIL
Durante a infância é possível utilizar o lúdico para potencializar aprendizagens que levem ao desenvolvimento da criança nas áreas da cognição, da motricidade, da afetividade, das linguagens, enfim da sua formação humana. Nesse sentido, a afetividade, o companheirismo, a organização, o narrar e a participação, dentre tantas outras habilidades e capacidades, podem ser construídas por meio de ações conjuntas entre as crianças.
As crianças aprendem a todo instante umas com as outras e com os adultos. E, como afirma Kishimoto (1999, p. 36), a criança na primeira infância aprende de modo intuitivo, adquire noções espontâneas a partir das interações sociais, por isso o lúdico desempenha um papel de relevância para desenvolver esse ponto.
Mas como pensamos quem seja a criança? De acordo com as DCNEI a criança é um
Sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura (BRASIL. DCNEI, 2010, p. 12).
A visão que se temos da criança hoje é diferente daquela nutrida no passado quando ela era tratada como um ser sem importância, imperceptível e vista como um adulto em miniatura, como enfatiza Ariès (1978, p. 99), “O sentimento de infância não significa o mesmo que afeição pelas crianças, corresponde à consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem”.
Hoje a criança ocupa um lugar de maior destaque na sociedade e por isso surgem políticas públicas para sua educação, bem como muitas outras ofertas de entretenimento, como as políticas públicas para a saúde, alimentação e nutrição, a escola de tempo integral, bolsa família, entre outros, que visam o bem-estar das crianças e também de suas famílias.
Viver a fase da infância com muitas brincadeiras, histórias e ludicidade, com certeza torna essa fase uma das mais marcantes da vida, é nela que a criança se desenvolve enquanto pessoa por meio das suas interações e experiências com os outros. O período
9 dos três aos cinco anos de idade é considerado um dos momentos mais importantes e significativos do desenvolvimento humano, e segundo Vygotsky, se caracteriza principalmente pelo saber psicológico e mental, que se dá através da convivência social, da socialização, e da aprendizagem. Essa última ocorre na medida em que acontecem processos de internalização de conceitos, que são promovidos pela aprendizagem social, principalmente aquela planejada no meio escolar.
A criança não vai se desenvolver sozinha, ela depende de experiências vividas com os outros e de atividades a que for exposta. Em razão disso, não é suficiente somente o biológico da criança para que ela realize uma simples tarefa, ela precisa e necessita participar de ambientes e de vivências que proporcionem aprendizagens. E é nessa fase da vida que a ela apresenta muitas possibilidades de aprendizagem, bem maiores do que em qualquer outro momento de sua vida. Por isso a Educação Infantil tem como principal função, o cuidar e o educar, na perspectiva de a criança ser atendida em suas necessidades básicas e construir sua autonomia e ser protagonista de suas ações. Logo, o cuidar e o educar são indissociáveis e extremamente importantes, não só por ser atender necessidades básicas, mas pelo papel para a sua formação enquanto pessoa.
A concepção de infância, para Kramer, apresenta um sentimento de contradição. Nesse momento, o sentimento de infância corresponde a duas atitudes contraditórias: uma considera a criança ingênua, inocente e graciosa e é traduzida pela paparicação dos adultos, e a outra surge simultaneamente à primeira, mas se contrapõe à ela, tornando a criança um ser imperfeito e incompleto, que necessita da "moralização" e da educação feita pelo adulto (KRAMER, 2003, p. 18).
Também nos remete à questão de que é nessa fase que o sujeito se formará, pois, suas funções psicológicas, sensitivas, autônomas, estarão em pleno desenvolvimento. A criança é um ser pensante que está construindo sua identidade e, para isso, necessita de muitos momentos lúdicos e interativos com o meio social em que está inserida, seja por meio da fala, do toque, do olhar, de gestos e também da escuta.
Em razão do exposto, a Educação Infantil necessita dar prioridade à investigação, às experiências, à curiosidade e ao ser criança. Para, assim, potencializar as múltiplas oportunidades de descobertas, aprendizagens e desenvolvimento.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil nos mostram que esse o campo
[...] vive um intenso processo de revisão de concepções sobre educação de crianças em espaços coletivos, e de seleção e fortalecimento de práticas pedagógicas mediadoras de aprendizagens e do desenvolvimento das crianças. Em especial, têm se mostrado prioritárias as discussões sobre como orientar o trabalho junto às crianças de até três anos em creches e como assegurar práticas junto às crianças de quatro e cinco anos que prevejam formas de garantir a continuidade no processo de aprendizagem e desenvolvimento das crianças, sem antecipação de conteúdos que serão trabalhados no Ensino Fundamental (BRASIL.DCNEI, 2010, p. 7).
E, sendo a criança sujeito sócio histórico e cultural, cidadã de direitos, ser que tem especificidades no seu desenvolvimento, é também um ser capaz de questionar e a agir de forma sobre o mundo cultural e simbólico. E a infância remete a um simbolismo que a criança constrói e é determinado pela interação entre educador e educando, também entre os espaços que o educar cria, sendo um papel fundamental do educador desenvolver diversas habilidades na criança, a linguagem, a criatividade, a fantasia, a partir de movimentos, de leituras, expressões artísticas e culturais, pois são essas interações, que se estabelecem no dia a dia que levam a criança a vivenciar diversas práticas sociais, e ao se apropriarem desses conhecimentos, possam se tornar cada vez mais independentes. Assim surgem necessidades de construir significados em relação ao meio em que vivem. E, explorando esse mundo, as crianças vão se constituindo, vão estruturando movimentos, aprendendo a estabelecer relações com o ambiente, vão percebendo limites e possibilidades. As interações sociais propiciam a construção da linguagem e do pensamento da criança, possibilitando que manifestem seus desejos para que possam se sentir desafiadas no sentido de desenvolver suas habilidades.
As experiências vividas pelas crianças são um veículo para a aprendizagem dos instrumentos culturais e para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores. E, como nos ensina Vygotsky o processo de aprendizagem nos remete a pensar na criança como ser de possibilidades, um sujeito que e está aprendendo. E, como já afirmamos, na Educação Infantil, a aprendizagem acontece por meio de interações entre os sujeitos e o contexto, as quais se dão em diversos momentos, por exemplo, nas rodas de conversas e, principalmente, durante as brincadeiras. Sendo que a primeira infância é propícia para tanto, cabe, então, aos educadores organizar experiências significativas que potencializem a curiosidade e a busca de conhecimentos das crianças. Diante disso, o professor necessita aguçar a curiosidade da criança para que pense, pergunte, levante hipóteses, explore, experimente, se expresse, enfim seja estimulada a querer saber cada vez mais, a ser criança e a explorar o mundo a sua volta.
11 É na infância que se inicia a emancipação da criança, na qual o uso das linguagens, dentre elas a corporal e a linguagem verbal, se destaca. Nesse sentido, fonte de prazer e de ensinamentos, a literatura infantil tem o propósito de educar as crianças e inseri-las na cultura. Em razão disso, é muito importante na vida e também na escola, pois é formadora, contribui na constituição de subjetividade e no desenvolvimento estético e linguístico de todos nós, principalmente das crianças, uma vez que, por meio da leitura ouvida, imaginam, criam e recriam histórias.
Os leitores se constituem por meio da leitura em espaços lúdicos, nos quais a brincadeira está inteiramente ligada à prática de contar e ouvir histórias. É por isso que o texto literário possibilita acesso ao mundo da imaginação e contribuiu na formação de leitores. E, sendo o ato de contar histórias uma arte, amplia possibilidades de estabelecer laços afetivos entre quem conta ou lê, com quem escreve e com quem ouve a história. Nesse ouvir ou ler se produzem novos conhecimentos e relacionamentos.
A literatura abre um leque de possibilidades à criança, pois ao ouvir a história passa a conhecer outras histórias, os personagens, aprende a apreciar as ilustrações, se sente cativada, cria outras belas imagens e falas que acompanham a sonoridade daquilo que é dito. Além disso, há outros fatores a considerar. A escritora e contadora de histórias Cléo Busatto, em seu livro Contar e encantar, nos traz a seguinte reflexão sobre as histórias e a formação da identidade:
As histórias são verdadeiras fontes de sabedoria, que têm papel formador da identidade. Há pouco tempo, elas foram redescobertas como fonte de conhecimento de vida, tornando-se também um grande recurso para educadores. Com o advento da comunicação, ampliação dos seus recursos e a globalização das informações, a linguagem falada tende a definhar, porém, concomitante a esse desenvolvimento, surgiu uma necessidade de resgatar os valores tradicionais e a própria natureza humana. A tradição oral dos contos, não só não reapareceu, como está ganhando força nos últimos tempos (BUSATTO, 2006, p. 21).
Esse ato de sabedoria, que é a contação de história, contribui para que a infância se torne plena. O educar e o cuidar se tornam algo prazeroso e emancipatório. A criança passa a ser um ser de laços afetivos e a história passa a ser um ato de criar fontes de amor, carinho e afeto. Por isso, a contação de história entra nesse mundo de construção de infância e na sua constituição enquanto leitor transforma as crianças em seres viajantes que constroem um jeito de compreender o mundo.
Por meio da literatura infantil, das brincadeiras, do lúdico, a criança é capaz de desenvolver inúmeras capacidades, como a capacidade de recriar falas e figurinos da história. A leitura, as brincadeiras, o ouvir histórias, o brincar, não cabe só as crianças,
por isso não devem brincar sozinhas, devem interagir nas relações dentro do grupo e o professor faz parte dele. Logo, é muito importante que o professor, enquanto mediador e responsável por ampliar o processo cultural das crianças, participe desse processo para que todos se comuniquem pelo brincar, pelo ouvir e pelo imaginar as histórias.
Como afirma Abramovich (1999, p. 17),
Ler histórias para crianças, sempre, sempre... é poder sorrir, rir, gargalhar com as situações vividas pelas personagens, com a ideia do conto ou com o jeito de escrever dum autor e, então, poder ser um pouco cúmplice desse momento de humor, de brincadeira, de divertimento.
A literatura infantil é um modo de pensamento que permite à criança usar inteligências múltiplas e sentidos plurais. Ao ouvir histórias, as crianças revelam os seus modos de pensar acerca da vida, do viver, do aprender, do eu, dos outros, das relações. Ela é um sustentáculo central para a mediação pedagógica da educadora junto à criança, visando experiências plurais para identidades plurais que se desenvolvem em culturas plurais. Ao contar histórias o narrador deve saber o que está lendo, o como contar o que vai ler, o conversar antes de contar essa história, isso é muito importante para a aprendizagem da criança.
Para Formosinho (2011), dentre as diversas áreas trabalhadas, na literatura infantil estão as relações e as interações com o meio social concretizado em uma pedagogia participativa, pois mediar a criança requer a compreensão da interdependência entre crianças que aprendem e o contexto de aprendizagens por meio dos quais as interações adulto-criança acontecem. Para tanto, se faz necessário criar um momento em que as crianças possam escutar histórias, para, assim, definirem suas intenções, imaginarem e perceber as intenções dos outros. Desta forma, ouvem, se ouvem, e ouvem os outros. É dar às crianças poder para viajar e para se comunicarem com o mundo em que estão inseridas e sentir emoções.
Para Abramovich,
É ouvindo histórias que se pode sentir (também) emoções importantes, como a tristeza, a raiva, a irritação, o bem-estar, o medo, a alegria, o pavor, a insegurança, a tranquilidade, e tantas outras mais, e viver profundamente tudo o que as narrativas provocam em quem as ouve – com toda a amplitude, significância e verdade que cada uma delas fez (ou não) brotar.... Pois é ouvir, sentir e enxergar com os olhos do imaginário! (ABRAMOVICH, 1999, p. 17). O professor desenvolve várias atividades de leitura que permitem novas aprendizagens experienciais através dos conteúdos que está desenvolvendo. Pensar nesses conteúdos implica em tomar consciência da visão de mundo da criança, resgatar sua
13 autonomia, para ser participante de uma sociedade democrática na qual as crianças são sujeitos de direitos. Implica também resgatar o conhecimento em ação, o caráter prático do conhecimento, como expressão da ligação racional é ética das transações entre o sujeito e o meio.
Para contar uma história, o professor tem que saber como se faz, não é simplesmente pegar um livro da estante. Contar histórias é uma arte! O uso da voz delimita o contador a mudá-la sempre que o personagem pedir. Quem está contando essa história deve transmitir confiança ao ouvinte, deve motivar, aguçar a curiosidade da criança para a dúvida, mas o que será que a próxima página esconde?
O encanto e o envolvimento que essa literatura irá trazer é extremamente necessário, pois é aí que a criança passará a gostar de ouvir histórias. E é a partir daí que a criança desenvolverá muito melhor, sua linguagem oral, escrita, musical, etc., ela verá com os olhos da imaginação. O contador de histórias tem papel fundamental, pois é ele quem cria as imagens no ar e, como destaca Busatto, o contador de histórias empresta seu corpo, sua voz, e seus afetos ao texto, e o texto deixa de ser signo para se tornar significado.
As interações das crianças ocorridas após a leitura ou audição de uma história oportunizam diversos diálogos, os quais revelam estratégias infantis usadas para representar o que acabaram de ler, usando a imaginação e, dessa forma, ampliam seus conhecimentos.
3 LITERATURA INFANTIL, DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DA CRIANÇA MEDIADA PELO FAZ- DE-CONTA
Considerando a infância o momento em que os mais fortes vínculos serão estabelecidos na vida de uma pessoa, o meio em que a criança vive, é, sem dúvida, determinante na sua condição emocional. É na escola que se criam também as referências para que essa criança se torne um ser interativo, sociável e autoconfiante.
Aproximadamente aos três e quatro anos, a criança é capaz de organizar sua linguagem próxima ao padrão esperado, ampliando também o contato com outras pessoas. Logo, a literatura nessa fase é um instrumento essencial ao desenvolvimento infantil, pois tendo contato com livros por meio da leitura ou da contação de histórias, a criança estará desenvolvendo a linguagem oral e formando as bases necessárias para e seu letramento.
A criança aprende sempre, em qualquer circunstância, esse processo de aprender se fundamenta principalmente nas atividades e nas mediações que o educador irá realizar para que essa criança aprenda, entre tantas histórias que as crianças ouvem durante a Educação Infantil, sempre gostam mais de uma, Branca de Neve ou O Patinho Feio fazem parte dos personagens que habitam o encantado mundo da fantasia, razão pela qual é difícil falar em histórias sem se lembrar dessas.
Corso & Corso (2006), afirmam que, mesmo que ouvir uma história infantil não seja garantia de felicidade, certamente ajuda a acreditar no poder da fantasia, pois suas metáforas ilustram diferentes modos de pensar na realidade. Afinal que outro motivo faria os contos de fadas passarem tanto tempo e não perdessem seu encantamento. Isso acontece porque quando acreditamos no poder da fantasia passamos a acreditar no não envelhecimento dos contos de fada. Eis uma das razões pelas quais a literatura infantil tem papel fundamental no desenvolvimento pessoal, emocional e social da criança.
Os autores afirmam que é evidente que sozinha a literatura infantil não transforma a vida de ninguém, mas oferece subsídios para que as crianças possam suportar problemas que estejam enfrentando em casa ou na escola. É preciso imaginar, pois é deste modo que além de mascarar o peso do problema enfrentado, o faz de conta permite à criança entender que o mundo pode não ser perfeito como nas fábulas, mas que é possível melhorá-lo, lançando esperanças de que os bons podem mudar as situações.
15 Além disso, Corso & Corso (2006), enfatizam que as crianças refletem com maior impacto os contos de fada, pois se apegam as histórias e as usam para elaborar seus problemas íntimos, dando soluções aos problemas que estão vivendo. As histórias tornam-se lembranças importantes ao entrarem na subjetividade da criança, portanto, quando essa história vem de alguém íntimo, como pai, mãe, professora, elas tornam-se ainda mais associadas as vivencias infantis que essa criança está vivendo. Deste modo, pode-se dizer que trabalhar o faz de conta com a criança, é também cuidar emocionalmente dela, pois a fantasia, pode transforma o mundo em algo melhor.
Vygotsky afirma que a brincadeira
[...] cria zona de desenvolvimento proximal da criança que nela se comporta além do comportamento habitual para sua idade, o que vem criar uma estrutura básica para as mudanças da necessidade e da consciência, originando um novo tipo de atitude em relação ao real. Na brincadeira, aparecem tanto a ação na esfera imaginativa numa situação de faz-de-conta, como a criação das intenções voluntárias e as formações dos planos da vida real, constituindo-se assim, no mais alto nível do desenvolvimento pré-escolar (VYGOTSKY, 1984, p.117 apud REBELLO e PASSOS).
Quando falamos sobre o faz de conta percebemos que ele está inteiramente ligado a brincadeira. Ambos têm importante papel no desenvolvimento da criança, percebemos que o modo como esse surge ao longo do desenvolvimento, traz à tona o uso de várias linguagens. O papel que o faz de conta desempenha no desenvolvimento significa que a literatura é uma forma plena e bem marcante na infância. A literatura é a atividade principal e predominante quando a criança está nessa idade. A contação de história é uma forma predominante de atividade, é uma linha principal do desenvolvimento dessas crianças. O faz de conta pode proporcionar à criança inúmeras vivências, causando satisfações bem mais intensas do que a própria brincadeira.
Os momentos dedicados à brincadeira, na qual a criança usa do faz de conta para demonstrar suas emoções, é um momento prazeroso para ela. Ela usufrui de todo seu talento, sua capacidade de pensar, agir e de se integrar na hora de brincar, leva-a a intensas atividades de leitura e também de inúmeras vivencias. Também a literatura desperta o faz de conta, pois quando ela ouve a história do Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, ela ata um pano na cabeça e nas costas, pega um cestinho, enche de objetos e faz de conta que ela mesma é a Chapeuzinho Vermelho, nessa hora ela sabe que tem que achar um jeito de fugir do lobo. Afinal o lobo é mau, a vovó é boazinha, então, nessa hora ela acirra
emoções, tenta achar alternativas no seu inconsciente, isso demonstra que o faz de conta tem um papel fundamental no decorrer dessa brincadeira.
A criança deve achar soluções favoráveis aquele momento, ela pensa, seu cognitivo a impulsiona a pensar. Não podemos ignorar que a criança satisfaz suas necessidades e tem impulsos durante a brincadeira, pois a leitura e a brincadeira são um tipo específico de atividade.
Na infância surgem muitas necessidades específicas na criança, ela desenvolve inúmeros impulsos que são muito importantes para o seu desenvolvimento e que a conduzem diretamente ao ato de ouvir histórias. Na primeira infância, a criança manifesta desejos e satisfação imediata quando os realiza. Normalmente, esse tempo é curto, ela necessita de um processo de amadurecimento de suas necessidades, a brincadeira não se desenvolve apenas quando o desenvolvimento intelectual das crianças é estimulado, mas também quando se usa da esfera afetiva para isso.
O faz de conta proporciona à criança uma interação social tão grandiosa, pois apresenta características próprias as quais consistem nos relacionamentos afetivos que envolvem também manifestações de confiança, de cooperação, carinho, fraqueza, entre outros elementos específicos para que haja uma reciprocidade entre as crianças envolvidas.
A criança é sujeito de sua própria aprendizagem, ela reflete sobre o objeto do conhecimento e faz hipóteses. A literatura é extremamente importante na vida escolar e social da criança, pois aponta possíveis mudanças para a sociedade, mudanças essas no âmbito escolar e também social, pois a leitura forma leitores e esses repassam aprendizagens aos demais. A escola é o lugar onde o brincar, o faz de conta, a literatura (o ouvir e contar histórias) são possíveis, ela é, também, o lugar onde vive a cultura de cada um, e onde a criança vai ser entendida pelo que é, pelo que faz e pelo lugar onde vive.
O ato de ler, é uma função primordial dentro da sala de educação infantil. É ela que possibilita a criança a função de ler o mundo e de construir sua própria história. A Literatura é produtora de sentidos, porém esse sentido não está pronto no texto, é só quando a criança age, com seu jeito próprio que o mundo da história se torna completo e significativo.
A partir desses momentos de leitura, as crianças passam a exercer um papel muito mais significativo e importante em seu meio escolar. A contação de histórias faz com que se sintam parte da mesma, seus medos, frustrações por muitas vezes se cessam com a
17 contação de história. Muitas vezes pedem para que pessoa que está lendo a história, releia inúmeras vezes a história preferida, pois se sentem seguras, valorizadas e participantes da história, levando-lhes a um mundo perfeito, sem medo, sem violência, enfim, se sentem bem ao ouvir histórias.
A leitura implica em perceber que o simples ato de ouvir histórias proporciona diferentes formas de desenvolvimento na criança. Leitura, pintura, música, cantigas de roda, brincadeiras, teatro, todas essas áreas, se desenvolvem, assim, constata-se, que a leitura é muito importante para o desenvolvimento das várias linguagens. A leitura está totalmente ligada ao aprendizado, possibilita construções de significados, o que torna precioso o ato da contação de histórias. A criança assume um papel atuante, deixando de ser um mero leitor para ser personagem da história. Ao ouvir histórias, que são repletas de simbolismo, as crianças são estimuladas a pensar, a imaginar, a expressar seus sentimentos e emoções, Bettelheim, nos enfatiza que:
Para que uma estória prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar sua curiosidade. Mas para enriquecer sua vida, deve estimular-lhe a imaginação: ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras suas emoções; estar harmonizada com suas ansiedades e aspirações; reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam (BETTELHEIM, 1980, p. 13).
Ao despertar todos esses sentimentos na criança, a leitura transforma-se em algo especial e prazeroso. A criança a partir do conto de fadas ela passa a demonstrar melhor suas emoções e sentimentos, ela passa a ordenar melhor seus pensamentos, sentindo-se assim mais acarinhados em suas angustias.
Quando o leitor termina sua história, usando o ‘feliz para sempre’, a criança sente que no final os seus medos, angústias, podem tem um final feliz, ela compara seus medos, com os da história e, por fim, entende que no final tudo ficará bem, sendo assim a leitura, por sua própria vocação, é democrática e também emancipatória, amplia os horizontes culturais que quem a lê o ouve, permitindo assim um mundo repleto de oportunidades de transformação.
4 PRÁTICAS LITERÁRIAS EM UMA ESCOLA DE EDUCAÇÃO INFANTIL
Ao refletirmos sobre a formação de leitores, foi possível identificar, por meio da observação e conversa com crianças da Educação Infantil, que elas se encantam com esse mundo da leitura, desde o manuseio de livros até as imagens e histórias, pois o mesmo proporciona momentos prazerosos e de descoberta. Quando ouvem as histórias se sentem bem e felizes, os olhos brilham de entusiasmo e de curiosidade, a atenção se estabelece e todas ouvem em silêncio e com muita ansiedade em saber o final da história. Os comentários delas aguçam a curiosidade e a imaginação, então sentem-se parte da história, falando e agindo como as personagens. O faz de conta perdura também depois do fim da história, quando brincam, relembram falas e acontecimentos da história.
As observações, que serão descritas a seguir, aconteceram em uma Escola Municipal de Educação Infantil, na cidade de Bom Progresso, RS, envolvendo doze crianças, na faixa etária dos três aos quatro anos. São crianças vindas da zona urbana da cidade, de classe média e baixa, sete meninas e cinco meninos.
As mesmas estão em salas de aula, todas equipadas com TV, DVD, rádio e com o cantinho da leitura, ambiente esse disponibilizado em um canto da sala, com inúmeros livros, almofadas e fantoches. Há também um ambiente destinado à contação de história, no qual, às quartas-feiras, acontece a hora do conto, porém, às vezes, também são contadas histórias no pátio da escola. O ambiente oferecido é o mais agradável possível e, geralmente, as crianças são dispostas sentadas no chão, em cima do tapete e almofadas. Nesse dia, a contadora escolhe a história e a conta empregando diversos mediadores: varal, avental, televisão (feita com caixa de papelão), livros feitos a mão, fantoches e dedoches. A contadora usa também figurino adequado. Então, se a história é de fada, ela usa roupa de fada, se é de bruxa ela usa a roupa de bruxa. São contados: contos de fada, fábulas e histórias curtas. Durante o período de pesquisa e observação foram contadas as histórias: Margarida friorenta, de Fernanda Lopes de Almeida, Chapeuzinho Amarelo de Medo, de Chico Buarque e A cesta da Dona Maricota, de Tatiana Belinky.
A proposta para a literatura que consta no PPP da EMEI coloca uma gama muito grande de propostas relativas a contação de história, varal, avental, já descritas acima. O PPP comtempla o lúdico e a brincadeira como algo imprescindível a aprendizagem e a construção de significados relativos a infância.
19 Uma intervenção positiva que vivenciei foi a apresentação de novas histórias e de instrumentos para enriquecê-las. Para que isso ocorra, esse processo depende de intervenção por parte do educador, que coloquem elementos desafiadores nessa contação de histórias, possibilitando aos pequenos desenvolver muitas habilidades. Ler significa usar a imaginação para entender o mundo através dos olhos, ler sempre será uma maravilha, uma gostosura, uma necessidade. E, para que a criança goste desse momento, pode-se fazer uso das várias áreas de linguagem e de aprendizagem, pois são elas que trarão o envolvimento na experiência e a construção da aprendizagem contínua e interativa. A imagem da criança é a de um ser competente que participa com liberdade, inteligência e sensibilidade.
As reações relatadas a seguir são de observações durante a hora do conto. A história é A margarida friorenta, de Fernanda Lopes de Almeida. A contadora está vestida com roupas de frio e seu rosto está com uma grande flor de EVA branco, a margarida. As crianças estão atentas. A contadora inicia a história e as reações são as mais delicadas possíveis: algumas crianças até dormem tamanha a calma que a história traz e outras cochicham com o coleguinha ao lado:
- Na minha casa tem essa flor, mas o meu pai não gosta. - Fui! Essa flor tem cheiro ruim. Eu não gosto dessa cor. - Ora, coitadinha ela tá com frio, tem que “botá” roupa nela. - Que bobo, flor nem sente frio.
Por vezes, a contadora tem que interferir pedir silêncio para continuar a contar a história. No fim, constatamos que todas estão sem entender muito bem o porquê a Margarida tinha frio, pois o frio era de carinho. Quando descobrem, então as reações são mais intensas:
- Uau ela gosta de beijinho.
– Eca eu que não vou beijar flor. Flor nem tem boca.
É perceptível que a criança passa a formar novos significados positivos com a audição da história e, com certeza, vai levar consigo, no decorrer de sua vida, um sentimento de nostalgia quando ouvir novamente essa história. E, como bem ilustra Busatto (2006, p. 19), o “Contador é um comunicador que adquiriu o dom de narrar influenciado pelo meio que habita, transformando-se na memória coletiva da sua
comunidade e transmitindo, por meio dos contos, lendas e mitos, as raízes culturais do seu povo”. O contador desperta a curiosidade da criança e o prazer em ouvir. Por outro lado, a criança também pode sentir prazer em estar ali, em imaginar, se sentir protegida caso a história lhe cause algum tipo de medo. Por isso, a figura do adulto contador de história, é muito importante nesse processo, pois é esse adulto que, geralmente, vai escolher a história, o gênero textual, o tema, e ao mesmo tempo é esse adulto que irá amparar a criança no momento em que ela escolher o personagem no faz de conta. Para Busatto, há vários tipos de contadores e jeitos de se apresentar, mas todos querem deixar leituras para seus ouvintes.
Contadores... eles chegam de todas as partes: Norte, Sul, Leste, Oeste. Vêm vestidos de vermelho, azul e amarelo, fitas coloridas penduradas pelo corpo; vêm com jeito de palhaço ou de princesa; outros vestidos de si próprio. Alguns trazem consigo instrumentos sonoros, músicos, e cantores; outros são eles próprios músicos e cantores; alguns portam malas, bonecos, fantoches, mímica, humor; outros nada trazem, apenas vão chegando, contando, deixando leituras aos seus ouvintes (BUSATTO, 2006, p. 26).
A imaginação das crianças é interessante, pois vivem a história de tal maneira que parece normal uma flor sentir frio. Esse encantamento que a história causa nas crianças é tão lindo e intenso, pois a criança acredita que a flor sente frio. Esse é o encantamento, a magia, a fantasia, pois a história tem um significado especial para ela. E, como afirma Rizzoli,
A criança enriquece a história ouvida e se enriquece com todas as fantasias que a história deflagra. Isso é muito importante porque é só com o adulto, só com o relacionamento com uma outra pessoa, que ela pode desenvolver essas fantasias. A atitude do adulto é extremamente importante para que a criança possa se introduzir na história de um livro (RIZZOLI apud FARIA, 2005, p. 14).
Outro fato interessante que observamos foi que a educadora/contadora de história, levou as crianças à biblioteca. Foi para elas um fato extremamente importante.
- Nossa, aqui é a casa dos livros!
- Uau, olha quantos livros moram aqui! Profe, esses livros são irmãos?
- Quando eu crescer eu vou ter uma casa dessas na minha casa. O contato da criança com os livros, permite-lhe a possibilidade de interagir com a fantasia. Desta forma, abrir a biblioteca para uma criança significa imergi-la no mundo da leitura, pois ela desenvolve o conhecimento de ler as imagens e se sente próxima de
21 seus personagens favoritos. O livro torna-se um objeto próprio que elas podem alcançar tocar, sentir o cheiro.
A partir desse ato da professora, temos certeza que a criança passou a amar ainda mais os livros e amar ler, porque ela lê e reconta imitando a contadora: seu jeito, trejeito, o tom de voz, pois presta a atenção em tudo. Isso porque, as experiências que as crianças têm com os livros e a contação de história são muito significativos e marcadas pelo prazer, pela fantasia e pela curiosidade.
Em outra oportunidade a contadora contou a história Chapeuzinho Amarelo de Medo, de Chico Buarque. Ela disse o nome do autor e do ilustrador do livro, também comenta quem é o autor, informa se escreveu outras histórias. Nesse dia, uma menina de quatro anos olhou para mim e disse:
- Eu também vou escrever um livro, mas não vai ser de medo. Eu não tenho medo eu só gosto de comer (risos).
Quando terminou de contar a história, a contadora solicitou que fizessem um desenho da história e do que gostavam de comer. A partir dessa fala, no decorrer da semana, a professora que também é a contadora contou outra história: A cesta da Dona Maricota, de Tatiana Belinky. Trouxe uma grande cesta com alguns dos alimentos citados na história, vestiu um avental e um lenço, como uma cozinheira e contou a história em varal.
Nem preciso dizer sobre a reação das crianças. Maravilhadas, loucas para ouvir e comer as guloseimas.
- Humm, eu adoro laranja e bergamota, na minha casa tem um monte, tão bem amarelinhas.
- Eu não gosto de pepino, mas minha mãe diz que é bom pra comer. Eu gosto mais de milho. Mas o milho não é verde, ele é amarelo.
Após a leitura, a contadora preparou uma linda mesa, então comeram algumas frutas. Depois, levaram as verduras para a cozinha para fazer uma sopa para a merenda de todas as crianças da EMEI. A professora também relatou que, a partir dessa história, desenvolveu muitas vivências relacionadas à alimentação saudável e cores.
Constatamos que ler é isso: curtir a história, imaginar, falar e contar vontades, porque a literatura infantil é rica e muito intensa. A cultura presente na literatura e sua proximidade com as experiências das crianças demostram que elas pensam e agem tão
instintivamente que nos surpreendem com suas ideias. Por isso, a convivência entre crianças e livros é de fato linda. A literatura infantil forma leitores criativos e conscientes e, nas palavras de Busatto,
[...] Contar histórias pode ser fermento para o imaginário. Elas nascem no coração e, poeticamente circulando, se espalham por todos os sentidos devaneando, gatiando, até chegar ao imaginário. O coração é o grande aliado da imaginação nesse processo de produção de imagens significativas. Com o coração, a gente sente e vê com os olhos internos as imagens que nos fazem bem (BUSATTO, 2006, p. 58-59).
A contação de história proporciona aprendizagem e ludicidade, bem como inúmeras vivências relacionadas aos conteúdos que podem ser desenvolvidos com essa faixa etária. Coisas simples que se tornam importantes instrumentos de aprendizagem e de apropriação da cultura.
A aproximação da leitura com a contação de história possibilita à contadora o empenho e também o prazer ao ver a criança com os olhos fixos na história, a criança denota várias expressões faciais que demonstram seu gosto e também prazer pelo ouvir e ver a história. A contação de história desperta o senso estético e artístico na criança, desenvolver a imaginação e o espírito crítico, faz com que a criança descubra outros lugares, outros tempos, outros modos de agir e de ser.
A criança passa a compreender e avaliar o mundo em que ela vive. A partir daí se forma o hábito da leitura, enriquece as suas experiências dentro e fora da sala de aula, ela passa a desenvolver diferentes formas de linguagem, descarrega as suas tensões, por diversas vezes resolve os seus conflitos emocionais.
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5 CONCLUSÃO
Na elaboração do projeto de investigação, a intenção era realizar uma pesquisa ação com crianças da mesma EMEI, porém com a turma na qual atuava. No entanto, nesse ano de 2016 iniciei a trabalhar em uma escola do interior, o que dificultou muito meu acesso à EMEI, as visitas, as interações com as crianças, então a pesquisa não aconteceu como o planejado, por isso foi um projeto que gerou frustrações. A pesquisa se transformou em um estudo de caso, o qual possibilitou, sim, a leitura e muita aprendizagem, pois atingi os objetivos que foram propostos no começo desse projeto e pude desenvolvê-lo, mas não com a quantidade de interações planejadas para poder aprofundar reflexões sobre a contação de histórias e a formação do leitor.
Apesar disso, concluo que a literatura infantil é uma manifestação cultural significativa na vida das crianças e que ouvir histórias contribui na sua formação e aprendizagem, porque ao mergulhar nesse universo fascinante, elas se reconhecem e usam a imaginação. Também que o ambiente no qual a criança está inserida, contribui significativamente para a sua formação como leitora. Se o meio é lúdico e convidativo para a leitura com livros coloridos e belas histórias; se for um contato intenso com a leitura, a irá adquirir o prazer ouvir e ler histórias. Daí a importância da leitura para a educação infantil ser amplamente reconhecida. Por isso, quanto mais cedo os pequenos têm acesso aos livros, melhor para sua formação em geral.
É nesse meio de aprendizagem que a literatura proporciona e integra as crianças a um campo de conhecimentos e de reações que só o ouvir histórias causa. É um encantamento, uma sensação única que só a literatura provoca. Por isso é muito importante para a formação das crianças ler e ouvir histórias. Ao ouvi-las dão início à aprendizagem para se tornarem leitores e descobrem um novo caminho, um caminho infinito de novas e gostosas descobertas.
Por isso, ao ocupar um lugar e um tempo privilegiados nos processos educativos no contexto da escola, a literatura infantil constitui-se ao mesmo tempo formadora de leitores que ao ler elaboram seus conflitos e ferramenta lúdica no processo de aprender e ensinar.
Considerando o exposto, afirmo que a literatura infantil contribuirá muito na formação de leitores infantis por meio do contato e da leitura de vários gêneros literários e, para tanto, o educador precisa se engajar em propiciar experiências que levem a criança a compreender a leitura do mundo e da palavra de modo participativo. Trabalho esse que
é desafiante e exige conhecimento e criatividade dos educadores. Pude compreender que a literatura infantil é indispensável e imprescindível para o desenvolvimento humano. O sentido da literatura para o leitor, seja ele bebê ou criança em idade escolar, é o que deve ser levado em consideração nas histórias, em qualquer nível de formação.
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REFERÊNCIAS
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BELINKY, Tatiana. A cesta da Dona Maricota. São Paulo, Paulinas, 2012
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1980.
BUARQUE, Chico. Chapeuzinho Amarelo de medo. José Olympio, 2003
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BUSATO, Cléo. Contar e encantar: pequenos segredos das narrativas. Petrópolis: Vozes, 2003.
BUSATO, Cléo. A arte de contar histórias no século XXI. Petrópolis, Vozes, 2006. CORSO, Diana L. & CORSO, Mário. Fadas no divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: ARTMED, 2006.
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